Aqui procurarei depositar, despretenciosamente, retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe) aos quais vou tendo acesso, uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas... outros, rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... E ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e em experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os mesmos erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 10 de março de 2015

Arsénio Pompílio Pompeu Carpo

 Arsénio Pompílio Pompeu Carpo



A História de Angola, desde o século XVII até bem dentro do século XIX, foi marcada pelo tráfico de escravos para o Brasil e Américas( o Novo Mundo), pela deportação ou degredo (1) de criminosos dos mais diversos graus, e pela projecção das famílias criolas, no seio das quais emergiram as famosas "donas",  Dona Ana Francisca Ferreira Ubertaly e Dona Ana Joaquina dos Santos Silva, (2)  frequentemente referidas nos textos de George Tams, juntamente com outros grandes negreiros, tais como Arsénio Pompílio Pompeu Carpo, Pinto da Fonseca, Nicolau Tabana. 

Tams considera-os: «Todos eram iguais, porque duvido que houvesse um só que não fosse negociante de escravatura e que recusasse entrar em qualquer transacção criminosa, contanto que por meio dela pudesse aumentar os seus lucros».

Arsénio Pompílio Pompeu Carpo nasceu no Funchal em 1792, onde foi baptizado com o nome de Arsénio dos Santos. Seguiu a profissão de seu pai, trabalhando como pedreiro. Em 1817 encontrando-se em Lisboa, foi aprisionado no Castelo de S. Jorge, como protagonistas da conspiração de Gomes Freire. Diz-se que estava na hora errada no local errado. Algum tempo depois foi recambiado para a Madeira, e em Março de 1820 partiu para o Rio de Janeiro (Brasil), onde teria mudado os  sobrenomes para Pompilio Pompeu do Carpo. 

Regressado à Madeira, envolveu-se em 1823 numa conspiração contra o governo central, e foi deportado para Angola para cumprir um pena de cinco anos,  onde como era habitual, foi obrigado a servir nas forças militares, que não impedia os deportados de desenvolver actividades paralelas como negociantes, incluindo o tráfico de escravos para o Brasil e Américas.  

No final da década de 1820, depois de ter cumprido a pena, voltou ao Brasil e fixou residência no Recife. Pensa-se que teria sido aí que começou a dedicar-se ao vil negócio, que na época já abolido (1836) no quadro da revolução setembrista, entrara na clandestinidade.  

Em meados da década de 1830, era já proprietário de vários navios negreiros que frequentarem as rotas de Angola para o Brasil, Cuba e Uruguai. 

Em 1837 regressou a Luanda, Angola, onde foi considerado o maior negreiro em acção no território, e onde ganhou influência no meio político da capital, tendo contribuido, com uma missiva enviada às cortes, em 1839, para a demissão do almirante António de Noronha, que na época estava a pôr em prática a lei da abolição do tráfico, contra os traficantes locais, publicada por Sá da Bandeira.  

Em Luanda a sua influência estendeu-se a negociações com os ingleses que resultaram em acordos, que possibilitavam um fim do tráfego de escravos demorado e por fases. 

Foi presidente da Câmara Municipal de Luanda, e a 10 de Dezembro de 1842 foi nomeado coronel comandante dos distritos do Bié, Bailundo e Huambo. Títulos puramente honoríficos. 

Em 7 de Março de 1843 foi condecorado e nomeado comendador da Ordem Militar de Cristo.

Apesar de traficante foi considerado, diz-se, um activista setembrista, em oposição ao cabralismo  que o perseguia. 

Com a crescente pressão política internacional sobre o tráfico e sobre o governo português, sobretudo a partir de meados de 1845, foi a boa relação de Carpo com militares e negociantes ingleses da região que foi adiando a sua prisão, até que, com a tomada de posse do novo governador de Angola, Pedro Alexandrino da Cunha, foi preso acusado de ligações ao tráfego de escravos ilegal, a fraudes fiscais e a incumprimentos legais enquanto presidente da câmara de Luanda e como vereador. 

Transferido para Lisboa, amigos ligados aos negócios e à maçonaria, conseguiram criar, nos meios políticos, económicos, e na imprensa, um clima em sua defesa. Motivo, a forte ameaça de Carpo de publicar os nomes de quem com ele tinha colaborado no negócio lucrativo.

A 20 de Março de 1846, o Supremo Tribunal declara ilegal prisão de Carpo e manda anular o processo. Dois juizes consideraram  a acusação  nula por falta de material apreendido, enquanto os outros decidiram que o tribunal lisboeta não era competente para o caso. Também a acusação de desobediência às ordens da rainha não foi provada pelo Conselho de Guerra. 

Depois de libertado, Carpo tentou voltar a Angola, procurando que lhe fosse concedido o governo de Angola. Com a perda de todos meios económicos e com o alastrar da Guerra das Patuleias, refugiou-se nos Açores, em Fevereiro de 1847, onde tentou ganhar nova influência política e económica. 

Com o fim da guerra e o restauro do governo Cabral, muda-se para Londres, onde com os seus relacionamentos económicos com empresários portugueses, e buscando apoio junto de Sá da Bandeira, cria a ideia de uma Companhia Africana Ocidental Portuguesa com sede em Luanda. 

Em 1848 procurou construir a primeira ligação ferroviária em Angola, plano que não foi concretizado, e que consistia em unir, por caminho de ferro, Luanda e Calumbo, na margem do Cuanza, utilizando locomotivas a vapor.

Teve ainda outros planos que não tiveram apoio oficial.


Com o fim do mandato de Pedro Alexandrino da Cunha como governador, voltou a Luanda em Março de 1849, onde depois de restabelecidos os seus velhos contactos e recuperado parte do seu património, partiu para o Brasil onde recupera os seus bens e ligações. Porém chegado ao Rio de Janeiro, em Junho de 1849, foi preso palas autoridades brasileiras, que após várias acusações, o extraditaram em Setembro de 1849, regressando a Luanda com a família, em Novembro de 1849.

 Em fins de 1851, estando falido, foi acusado por um negociante daquela cidade, de nome António Lopes da Silva, de falência culposa e fraudulenta, levantamento de fazendas alheias, escrituras simuladas, burla e estelionato. Julgado foi condenado a dez anos de degredo em S. Tomé, tendo-lhe sido retiradas todas as graduações, patentes, honras e títulos honoríficos. Após um apelo a Lisboa, foi transferido de novo para o Castelo de São Jorge no final de 1852, mas novamente a sentença foi anulada por motivos processuais, sendo em Junho de 1853 libertado. 

Regressou a Luanda, mas nessa altura vivia-se a decadência total do comércio de escravos, e não conseguiu relançar-se nas suas actividades económicas, porém em final de 1853 conseguiu ser nomeado governador do presídio de Ambaca, no extremo leste de Angola, onde permaneceu pelo menos até Maio de 1854, data em que Livingstone por lá passou. 

Carpo obteve ainda entre 1854 e 1857 a exploração de uma mina de cobre no distrito do Golungo Alto, e uma mina de prata no presídio do Duque de Bragança, porém com resultados muito aquém das expectativas, tendo caido numa situação precária que o obrigou a solicitar à Coroa «qualquer emprego civil». Valeu-lhe uma antiga relação familiar e comercial com os Oliveira Machado, que em Maio de 1857 o tornou administrador ou representante em Luanda da casa comercial de José Joaquim de Oliveira Machado, de Lisboa. Integrou ainda a comissão de onze membros que em meados de 1861 começava a organizar a representação de Angola à Exposição Internacional de Londres, reaslizada no ano seguinte. Mas sua actividade não para a aqui, e ainda conseguiu manter actividades como benemérito local em Luanda. Aliás Carpo teria apoiado financeiramente muitos projectos de utilidade pública e culturais em Luanda, sobretudo na década de 1840, e continuava a desenvolver actividades beneméritas, tendo em 1858, juntamente com outros comerciantes de Luanda, promovido uma angariação de donativos em Lisboa, tendo em vista o combate a uma epidemia de febre amarela. Nos últimos anos da sua vida ainda investiu fortemente no comércio com o interior angolano. Faleceu em Luanda em 1869.



Para mais informação sobre Arsénio Pompílio Pompeu Carpo :

http://www.redalyc.org/pdf/770/77021122002.pdf

http://analisesocial.ics.ul.pt/…/1218728170D4mJR8cg0Tq46KK0…







(1) Aliás, a deportação e o degredo foram, no século XIX e princípio do século XX, uma poderosa arma ao serviço dos regimes políticos em todo o mundo. Uma forma de migração forçada, como meio para impedir a acção dos opositores políticos, e lugar de castigo para condenados por delito comum, assassinos, etc, enfim, a escória que Portugal nem o Brasil queriam fora dos seus territórios. A prática já vinha da Grécia e da Roma antiga, e a partir de 1797 é testemunhada com a ida dos opositores da Revolução Francesa para a Guiana, prática que os franceses mantinham a partir de 1852 com as chamadas ilhas presídio, como foi o caso das ilhas do Diabo, Caiena, e de Saint-Laurent-du-Maroni. Esteve ligada aos colonialismos. Em Portugal a conjuntura politica oitocentista post revolução liberal, e post independência do Brasil, provocou perseguições e migrações forçadas para as ilhas da Madeira, Açores, Cabo Verde e Angola, de políticos e militares não gratos aos diversos regimes políticos, que se serviram desses espaços de deportação . Angola tornou-se um lugar de castigo, chegando a receber centenas de deportados por ano. Era considerada a pena mais severa, remetê-los para espaços conflituosos e incertos, como era o caso de Angola, a nova «joia da corôa». Com a Conferência de Berlim (1884-5), a imposição do aumento da presença europeia e a conversão económica em que se insere a abolição do tráfico de escravos, explodiu o número de degredados em Angola. Impunha-se a Portugal a tarefa povoar, e as familias portuguesas preferiam outras paragens menos doentias para emigrar. Mas os degredados não foram passivos, eles actuaram no território angolano, na politica portuguesa para Angola. Foram usados como grupo marginal, e como importantes instrumentos no processo de povoamento tomaram parte no processo de embate e diálogo cultural, intensificado na segunda metade do século XIX. No dia 6 de Maio de 1847 desembarcou na Angra do Negro, Moçâmedes, um importante degredado político. Era o conde do Bonfim, José Lúcio Travassos Valdez, que na batalha de Torres Vedras, em 22 de Dezembro de 1846, no decurso do governo de Costa Cabral, fora feito prisioneiro e enviado com outros deportados políticos para Angola. Ver aqui: "O Conde do Bomfim: noticia dos seus principaes feitos":


 


(2) Ana Francisca Ferreira Ubertaly, viúva de um médico natural da Sardenha, um degredado que se estabelecera em Luanda, «tinha nascido no interior da África e havia sido trazida como escrava para Luanda, onde vivia. Seria  uma das pessoas que maior negócio faria com escravos. Ana Joaquina dos Santos Silva, a «Rainha do Bengo» como era chamada pelos oficiais franceses que se hospedavam junto da sua casa, a sua riqueza teria resultado «não apenas dos benefícios alcançados através do tráfico, como da prática de comércio lícito e da exploração de terras que lhes pertenciam por herança ou por doação, recorrendo ao trabalho escravo» Ambas «possuíam plantações de açúcar na região do rio Bengo, ao Norte de Luanda e em Moçâmedes, e tanto uma como a outra subscreviam novos projectos. Ambas estabeleceram-se  em Moçâmedes no início da colonização, onde mantinham agentes de suas firmas luandenses, para tocarem propriedades, mas também "para gerenciarem a mercadoria recebida em barracões escondidos longe do mar" refere Tams, As Anas negreiras seriam, também, senhoras de roças em S. Tomé.






domingo, 4 de janeiro de 2015

Postal antigo da baía de Moçâmedes (Namibe) com poema de Joaquim Paço d'Arcos


Clicar sobre o postal, para aumentar. É panorâmico


Joaquim Paço D' Arcos escreveu este poema sobre Moçâmedes. Assim a preto e branco Moçâmedes (Namibe) apresenta um aspecto muito triste, como aliás devia ser, e que já nada tem a ver com aquilo em que se foi transformando ao longo do tempo, sobretudo a partir de meados do século XX .

Eis o poema:

Moçâmedes, Beijada pelo Deserto

"A velha ponte-cais de traves carcomidas,
O morro triste, a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre da sua poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."

In"Poemas Imperfeitos" de Joaquim Paço D' Arcos

Mas Quem foi Joaquim Paço D´Arcos ?
Nasceu em Lisboa, em 1908 , seguindo em 1912 para Moçâmedes onde viveu de Setembro de 1912 a Fevereiro de 1914, devido à nomeação do pai para Governador do Distrito. Era neto do primeiro conde de Paço d'Arcos. Romancista, dramaturgo, ensaísta e poeta, foi premiado diversas vezes e muito lido nos anos 40 e 50 do século XX. Uma das suas obras mais conhecidas é o conjunto de seis romances Crónica da Vida Lisboeta sobre a qual Óscar Lopes disse: «Quando se quiser ver a nossa época [anos 40 - 60] num cosmorama literário, tal como hoje vemos a época da Regeneração através de Camilo, Júlio Dinis ou Eça de Queirós, será preciso recorrer a estes romances de Paço d'Arcos quanto a determinados sectores portugueses.» Na poesia, a sua obra encontra-se em Poemas Imperfeitos, de 1952

Clicar sobre o Postal. É panorâmico.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Fábrica Africana, a primeira fábrica de conservas de Moçâmedes, Namibe, Angola





Perspectiva da Fábrica Africana, primeira fábrica de conservas iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 ,  de Figueiredo * e Almeida, Lda.  Repare-se, em cima, à esq, a então Avenida Felner já a entrar pela Torre do Tombo, com as poucas casas que nesta altura alí existiam e pertenciam, a da esq. à familia Grade, e as três da dt,. a Conceição e Manuel Paulo, à familia Velhinho e a António Paulo. Situo nos anos 1920/30  esta foto.



Outra perspectiva  que nos  permite ver os carris de ferro por onde passavam as vagonetas que levavam o peixe da ponte para o  interior da Fábrica, para onde entrava em linha recta. O pescado era então descarregado para ser escalado e cozido em grandes caldeirões. Em seguida vinha a fase do enlatamento. No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por enlatadeiras africanas.



Srs. de chapéu e gravata à porta da entrada da Fábrica (proprietários e empregados?) Sabe-se que esta Fábrica recebeu a visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932. Será que esta foto é dessa altura? Estariam ali, encostados, a aguardar a visita? 

 
 Perspectiva do interior da Fábrica com portão de ferro a dar para o exterior, por entre entram e saiem as "vagonetas" que transportavam o peixe a partir da ponte


Aqui também se secava peixe em giraus ou tarimbas...

A escalagem era uma das primeiras operações...
 
A seguir vinha a fase da cozedura em grandes caldeiras...




O peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração
O enlatamento e as enlatadeiras africanas

O encaixotamento
Como referi atrás a Fábrica também se dedicava ao peixe seco

Perpectivas: Uma vagoneta transportando o peixe seco já ensacado



Perspectivas : a rotina dos trabalhadores




 



Conforme o livro "Huila e Moçâmedes, Considerações sobre o Trabalho Indígena", de Afonso Medes, esta fábrica, a primeira de todo o Distrito,  foi mandada edificar em 1914 pela firma Figueiredo & Almeida. Conforme Artur Moraes no seu Memórias de Angola, pg 73, Caleidoscópio-Edição e Artes Gráficas, 2001, a iniciativa da criação da fábrica de conservas "Africana" deve-se a Miguel Duarte de Almeida, casado com Amélia Figueiredo Duarte de Almeida, e tomou corpo com o apoio  do grande colono Serafim Freire de Figueiredo, sogro do primeiro.

Do portal Memória Africa , Boletim Geral das Colónias  ( Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola) Portugal. Agência Geral das Colónias , N.88 - vol VIII. 1932, pg 407, retirei estas fotos da visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932, já no quadro do Estado Novo (Salazar), a esta fábrica.  Através da leitura do mesmo Boletim, na parte que interessa, ficámos a saber que esta fábrica, nessa altura  denominava-se "Fábrica Africana" e que o sector de legumes e de conservas de frutos se encontrava ainda fase de apetrechamento, estando empenhado neste projecto o Dr. Torres Garcia, na sua qualidade de administrador da Companhia de Mossâmedes.   


Conforme consta do apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), e de uma referência feita à obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes, a "Fábrica Africana" destinava-se de início a enlatados dos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria.  Como se pode ver pela duas fotos acima,  no topo das janelas da "Fábrica Africana"  encontravam-se escritos os produtos enlatados que ali se produziam, ou se pensava viessem a ser  ali produzidos na íntegra: conservas de carnes salgadas, conservas em azeite (de atum, sarrajão, cavala, merma), conservas de fruta, conservas de escabeche, peixe fumado, etc. Vê-se também o símbolo da Fábrica, uma águia.

 A Fábrica, instalada em edifício propositadamente construido para esse fim,  encontrava-se dividida em dois corpos, um dos quais comunicava directamente com  o exterior, ou seja, com uma ponte pertença da mesma empresa, onde o pescado era descarregado e em seguida transportado para o interior da Fábrica, directamente, através de vagonetas que deslizavam sobre carris de ferro.  


Há indicações que na década de 1920 e 1930 se exportavam da "Fábrica Africana" produtos de alta qualidade para o mercado italiano e para os Congos-Belga e Francês e  Gabão, que rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos, o que levou ao surgimento de novas conserveiras.

Em 1932, o Ministro das Colónias visitou esta Fábrica, e visitou também, conforme o mesmo Boleim, uma outra empresa fabril de conservas de peixe pertencente a Manuel da Costa Santos. Na verdade, a poente da "Fábrica Africana" ficava uma outra fábrica, mais pequena, pertencente a Costa & Pestana (?).  

Esta fábrica, mais adiante no tempo, foi propriedade da Companhia do Sul de Angola, tendo Josino da Costa como arrendatário. Olimpio Aquino era o então gerente. Nos anos 1950 era designada por "Sociedade Oceânica do Sul" (SOS). Há referência no livro de Paulo Salvador "Era uma vez Angola " a um indivíduo de nome Santana como  proprietário da referida Fábrica (?).

A Fábrica possuia uma frota pesqueira que tratava das capturas para a laboração, quer para o sector conserveiro, quer para o sector de salga e seca, e farinação. Para a produção das conservas de peixe iam especiamente os tunídeos: atum, albacora, sarrajão, etc. Para a salga e seca iam essenciamente os peixes de escama, tais como corvina, taco-taco, tico-tico, merma, cachucho, carapau, etc. Para farinação iam as tainhas, sardinha, cavala, carapau, etc. As tainhas pelo seu alto teor de gordura possibilitavam umalto rendimento na produção de óleo de peixe. Como atrás referido, o pescado era descarregado através da ponte anexa à Fábrica, e dalí era transportado para o interior da mesma, através de «vagonetas» que deslizavam sobre carris de linha férrea, num trajecto em linha recta,  para após descarregado ser escalado  e cozido em grandes caldeirões, e proceder-se ao enlatamento. No início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar nesse sector, porém mais tarde esta tarefa passou a ser desempenhada por pessoal africano feminino como podemos ver ( eram as enlatadeiras).

Sabemos que na década de 60, após um período aureo de grande produção nesta Fábrica enquanto  Sociedade Oceânica do Sul (SOS), a mesma deixou pura e simplesmente de produzir e foi vendida à Produtos de Angola Lda (PRODUANG) cujos societários eram Gaspar Gonçalo Madeira e seu filho, Ildeberto Serra Madeira. Acabou por se transformar num entreposto para exportação de peixe congelado para Moçambique, situação que se mantinha em 1975, quando da independência de Angola. Gaspar Gonçalo Madeira regressou a Portugal, mas seu filho, Ildeberto Serra Madeira mantém-se em Moçâmedes ainda hoje.
 
Esta fábrica foi testemunho de uma época na história na cidade do Namibe, e hoje em dia corre o risco de desaparecer.  Esperemos que tal não aconteça e que as autoridades de hoje e de amanhã saibam preservá-la, enquanto repersentativa desta fase da conjuntura colonial,  na região de Moçâmedes.

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Transcrevemos a seguir passagens de um apontamento histórico de António Martins Mendes da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários  de Moçâmedes **, subordinada ao tema «Pescas em Portugal - Ultramar-  onde o autor nos relata algumas passagens de um importante relatório do Carlos Carneiro, veterinário em Moçâmedes nas décadas de 20, e 30 do século passado:
 
«... Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu primeiro relatório de serviço (Carneiro, 1931). Nesse trabalho começa por evocar o ano de 1921, ...


«...No seu importante trabalho o Dr. Carlos Carneiro aborda o estado da Industria de Conservas. Ficamos a saber que a construção da primeira fabrica fora iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 e estava destinada aos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Preparavam também óleos de pescado que, depois de várias análises e melhoramento da técnica de fabrico, tinham colocação fácil nos mercados britânicos. A fábrica obedecia às exigências da época mas a I Grande-Guerra iria causar grandes dificuldades. A chaparia para o fabrico das embalagens, que era importada e litografada em Lisboa, faltou e a fábrica foi obrigada a fechar. A indústria viria a reanimar-se a partir de 1923, preparando conservas de atum, sarrajão, cavala, mermo, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, mas exportava-se também para os Congos- Belga e Francês e o Gabão. Os produtos exportados eram de alta qualidade e rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos. Por isso fundaram-se outras conserveiras. »
(...)



Créditos de Imagem:
Fotos de ICCT  (7)
foto livro de P. Salvador (1).



* No livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão encontrei o nome do 1º colono  que e instalou numa fazenda na margem dt. do rio Bero, de nome Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da Companhia de Moçâmedes, proprietária da fazenda. Não sei se tem alguma relação com o 1º proprietário da Fábrica Africana. 


Poderemos encontrar também referencias à Figueiredo & Almeida limitada  que possuia em Moçâmedes, em tempos mais recuados,  uma casa filial que negociava peixe com algarvios em troca géneros europeus:AQUI 

** E ainda  em Industria de Pesca e seus deriivados do Distrito de Mossâmedes, 1921-22, relatório de um inquérito de Afonso José Vilela, 1923.


Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5 1898


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Em 1953. já a industria de pesca de Moçâmedes tinha em actividade 14 fábricas de conservas, 155 instalações de pesca e peixe seco,  40 de farinha e óleos de peixe, tudo avaliado em 225 355 contos. Estavam empregados 5904 indígenas contratados. "Huila e Moçâmedes, Considerações sobre o Trabalho Indígena", de Afonso Medes,



terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Subsidios para a História de Moçâmedes, hoje Namibe: 1869 Insubordinação na Fortaleza de S. Fernando






Subsidios para a História de Moçâmedes/Namibe:





A Fortaleza de Moçâmedes (Mossâmedes/Namibe), tal como a de Capangombe e até mesmo as pequenas fortificações erguidas naquele distrito, no sul de Angola, contribuiram, sem dúvida, para o desbravamento e para o povoamento daquela região. Queira-se ou não, fortalezas são baluartes históricos dum passado distante que possibilitaram a Portugal alargar o território angolano às terras desertas do sul, cobiçadas pelo estrangeiro, sobretudo alemães,  que de outro modo não seria possível.

A primeira unidade aquartelada na Fortaleza Fernando foi a "Companhia de Moçâmedes", criada por portaria de 22 de Agosto do Ministério da marinha e Ultramar, substituida em 1854 pelo "Batalhão de Caçadores 3", que ali se manteve por longos anos. Qualquer daquelas unidade teve sempre um elevado numero de degredados nas suas fileiras, e foi esta gente que esteve sempre presente nas várias acções realizadas naquela região ao sul de Angola ao longo de três quartos de século. Normalmente dividiam-se entre Moçâmedes, Huila e Capangombe. Em 1861, das seis Companhias que compunham o  "Batalhão de Caçadores 3",  estavam duas na Huila, uma nos Gambos, uma no Humbe e outra em Moçâmedes. Em 1901 este Batalhão foi substituido na Fortaleza, pela "4ª Companhia de Depósitos de Degredados de Angola". Em 1932, já se encontrava aquartelada na Fortaleza de S. Fernando, a "Companhia Disciplinar", sucessora da "4ª Companhia de Depósitos de Degredados". O Depósito de Degredados em Angola constituiu a mais longa forma de degredo penitenciário, tendo vigorado até 1932, data da proibição do degredo de Portugal para Angola.   Divididos em companhias e classes de comportamento, a disciplina era o principal critério para avaliar o grau de reconversão moral e social dos condenados que desempenhavam trabalhos como militares,  nas oficinas, como carcereiros, na limpeza e  tarefas de limpeza, ao serviço do Estado ou do Município da província,  nas obras públicas, saneamento das ruas da cidade e de hospitais ou fazendo o policiamento da cidade. Integravam companhias agrícolas, após libertados . 
O recurso a degredados devia-se, pois à carência de efectivos humanos para concretizar a ocupação efectiva, até porque a emigração para o Brasil continuava a levar uma grande parte dos excedentes demográficos metropolitanos.  A própria fixação dos madeirenses agricultores na Huíla, em 1884 e 1885 foi efectuada sem um planeamento que gerasse mercados que lhes comprasse a produção. 

Em termos de exploração sistemática dos territórios africanos do interior, agrícola e comercial, esta praticamente começou a fazer-se a partir do fim da 1ª Grande Guerra (1914-18). 

Importa lembrar que foram degredados que após o cumprimento das penas, se interiorizaram no mato, tornaram-se comerciantes, constituiram familia com africanas, etc  etc., acabando por se tornarem precursores da colonização. Não foram passivos, eles foram usados -grupo marginal- no contexto de transformação, com o impulso crescente colonial. Foram importantes instrumentos como povoadores e tomaram parte no processo de embate e diálogo cultural, intensificado na segunda metade do século XIX.





Insubordinação na Fortaleza de S. Fernando


Em 1869 estava aquartelado na Fortaleza de S. Fernando um contingente de 100 praças pertencentes ao Batalhão de Caçadores 3, na sua quase totalidade criminosos de delitos graves, que ali cumpriam as suas penas. Na noite de 14 de Novembro daquele mesmo ano, essas praças amotinaram-se para protestarem, segundo afirmavam, contra os serviços violentos a que eram obrigados, contra os castigos rigorosos que sofriam, e contra os descontos excessivos que eram feitos nos seus prés. Acusavam o capitão Miranda como responsável de toda aquela situação. Avisado o chefe do Concelho, Major Joaquim José da Graça do que se estava a passar, este dirigiu-se à Fortaleza, onde, perante o seu espanto, os soldados já pegavam em armas. O Major Graça foi alvejado pelos amotinados, com um tiro de pistola, mas sem consequências. Contudo o oficial em causa conseguiu dissuadi-los dos seus intentos, e prometeu, recebê-los no dia seguinte, na secretaria do Concelho, a fim de apresentarem as suas queixas.  Após o diálogo apaziguador, o Major Graça retirou-se, parecendo tudo estar debelado. Porém os soldados voltaram mais tarde a sublevar-se e convenceram-se que os habitantes da vila se preparavam para os dominar pela força. Assim, armados de novo, carregaram as peças, e apontaram-nas para a vila, prontas a fazer fogo. Afirmavam a sua intenção de destruir a povoação e incendiar as casas de seguida. Os moradores apavorados, receando toda a espécie de atrocidades, abandonaram as suas habitações e procuraram refúgio nas Hortas, que ficavam a três quilómetros do aglomerado populacional.  No meio de tão dramática situação, e quando parecia estar tudo perdido, a Sra D. Maria do Carmo Lobo de Ávila, esposa do chefe do Concelho, saiu resolutamente da sua casa, encaminhou-se ligeira para a Fortaleza, e confiada, corajosa, varonil, aparece de improviso perante a turba arrogante e impetuosa dos revoltados. A gentileza senhorial do seu porte e o excesso prestigio das suas virtudes, contiveram-lhes os rancorosos impulsos. Tomados do espanto que o imprevisto lhes causara, e confundidos pela severidade que resumbrava do nublado rosto da dama, receberam-na com todo o respeito, formando fileiras, e apresentando-lhe armas. Perante a atitude de acatamento das praças, a Senhora Dona Maria do Carmo pôde plenamente desempenhar a nobre missão que se impusera: a de os vencer pelo sentimento. Para o conseguir, mostrou-lhes, dominada por irreprimível eloquência, a hidiondez do crime que iam cometer, e dirigiu-lhes, numa inflexão de voz, tocantemente angustiosa, suplicas ardentes e afervoradas. Comoveram-se. Os revoltosos, em cujos olhos borbulhavam lágrimas de arrependimento, protestaram, em seguida, inteira obediência. O Chefe do Concelho, que durante a alocução estivera sempre junto da sua esposa, ordenou-lhes então, como lhe cumpria, que descarregassem as peças e as espingardas e recolhessem a pólvora. Tinham-se entregado. A vila estava salva. O espírito de rancor, de violência e de rebeldia que desorientara as praças, que por pouco as não levou à destruição da mesma vila, fora inteiramente subjugado pela palavra enternecedora duma dama fraca e delicada.






MariaNJardim. 





Bibliografia consultada:
(1)Torres obra cit 2 vol pp. 201 a 206
Separata n.8 da Revista Africana Universidade Portucalense, Porto, 1991.Cecilio Moreira : "Fortalezas, Fortes, Fortins e Fazendas de Moçâmedes no Sul de Angola". Subsidios para a História de Portugal em Angola. 



Ver aqui: Portugal século XIX  http://comum.rcaap.pt/bitstream/123456789/3551/1/NeD03PedroCardoso.pdf


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A fundação de Moçâmedes, actual cidade do Namibe







Do livro “Memórias de Angra-do-Negro, Moçâmedes – Namibe – (Angola) desde a sua ocupação efectiva” de António Augusto Martins Cristão:

 



«...Em 1848, o nosso Império no Brasil vivia horas de indizível agitação: Na cidade de Pernambuco estalara a revolução política. O ódio e a perseguição manifestaram-se de imediato, fazendo sofrer as mais indignas crueldades e degradantes humilhações a compatriotas nossos que ali procuravam ocupação. É, então que, oprimidos cada vez mais, concebem o projecto de fundar em África uma colónia agrícola que possa valorizar o património nacional. Assim Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que mais tarde seria o chefe do primeiro colonato, fica incumbido de apresentar ao Governo Português o arrojado empreendimento que se propõem levar a efeito. Pedem informações detalhadas de relatórios, de memórias e de mais documentos para que pudessem avaliar da região mais apropriada para se instalarem. Pedem, igualmente, auxílio financeiro ao Governo para custear a sua deslocação e aquisição de engenhos para fabrico de açúcar.

Com o empenhamento de Simão José da Luz Soriano, chefe da repartição de Angola no então Ministério do Ultramar, junto do Ministro - O Visconde de Castro - , é então garantido todo o auxílio e facilidades necessárias àquele arrojado empreendimento.

A verdadeira ocupação desta parcela e, por conseguinte, do que nela se ergueu, deve-se assim e indubitavelmente, à impulsiva decisão, inteligência e heroicidade patriótica daquele que jamais será esquecido saudosamente pelos moçamedenses, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro que, em 13 de Julho de 1848, enaltecido do espírito de demandar terras de África e animado por uma conta de sem recuo endereçou uma carta ao ministro e secretário de estado dos Negócios da Marinha e Ultramar da Nação Portuguesa, escrita em Recife de Pernambuco, onde se pode ler:

«...Eu, que livre de orgulho, afirmo poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, a ir compartilhar dos trabalhos e reveses que acompanham o estabelecimento de uma colónia, só porque vejo que coligo acarreto algum número, mormente dos mais úteis, que são os que entendem do fabrico dos açucares e plantação de canas e mesmo do tabaco e café pois que vivo em relação a muitos engenhos, tendo neles arranjado vários, e hei-de dedicar-me a conhecer com fundamento o modo mais profícuo de fazer açúcar, de agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente com as destilações que, bem dirigidas, são de sumo interesse. Vª Exª desculpará na certeza de que não o faço porque não esteja persuadido do seu profundo saber, mas porque muitas vezes a lembrança de um homem medíocre faz produzir medidas acertadas».

Modéstia! Bernardino não era um homem medíocre. Era um homem de extraordinária visão. Um grande português da estirpe dos «barões assinalados», cujo nome a história registaria com orgulho. Um portugues, que, já nessa altura defendia a tese de que a emigração do País deveria ser canalizada para as suas possessões ultramarinas.

Felizmente que a petição de Bernardino foi atendida. A Portaria nº 2063 de 26 de Outubro de 1848 dizia: «Tenho um grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, no Império do Brasil, feito constar a sua Majestade a Rainha, que desejavam passar para algum ponto das possessões portuguesas, houve por bem em Portaria desta data, mandar expedir providências necessárias para a passagem dos mencioinados portugueses para o lugar das possessões portuguesas em África que por eles for escolhida.»

Em 29 de Março de 1849, o Governador Geral de Angola -Adrião Acácio da Silveira Pinto- informava o Ministro da Marinha e Ultramar de ter sido escolhida a província de Angola e o estabelecimento de Moçâmedes para a formação da colónia.

Em 23 de Maio do mesmo ano, cento e oitenta colonos (116 homens, 39 mulheres e 25 crianças), com Bernardino a chefiar, deixam Pernambuco, rumo a Moçâmedes, embarcando na barca brasileira «Tentativa Feliz» e no brigue de guerra «Douro». Foi de facto uma tentativa feliz.

Bernardino faz assim a descrição dessa viagem aventurosa:


«...Foram os brasileiros quem fez lembrar aos portugueses que escusavam de melhorar terras alheias, quando tinham ainda muitas suas onde podiam procurar fortuna sem sofrerem insultos. E não pareça que é exagero, não, que lá está o dia 23 de Maio deste ano - dia em que o brigue de guerra «Douro», comboiando a barca «Tentativa Feliz» que a seus bordos conduziram 180 colonos, saiu do porto do Recife, à vista de numerosíssimo povo, para falar tão alto, atento o número de testemunhas, que bem se pode aplicar a este respeito o que sobre outrora disse o nosso sempre admirável Camões:
«Estão pelos telhados e janelas
Velhos e moços, donas e donzelas...»

Levando consigo máquinas, instrumentos rurais e seus haveres, e até para nada lhes faltar, víveres para os primeiros tempos, era de pasmar ver aquela gente sair de uma bela cidade, divisando-se no rosto de todos a maior alegria, mesmo sabendo que trocavam uma habitação cómoda e divertida, para irem desembarcar num areal, onde o seu primeiro cuidado seria o de edificar uma cabana para se abrigarem das injúrias do tempo. A todos se ouvia dizer, ao desaparecimento da terra, o que Castilho disse nos seus «Ciúmes de bordo»:
«Sumam-se à vista
Os últimos oiteiros
Dessa terra falaz...»

E se sofrimentos houveram na viagem, nem por isso se ouviram queixas. Algum génio mau quis apurar-lhes a paciência: ventos contrários e bonançosos, com repetidas calmarias, tornaram a viagem longa; todos os colonos iam mal alojados e a epidemia das bexigas desenvolveu-se a bordo, chegando a haver, simultaneamente, 56 doentes, entre colonos e a tripulação. Três adultos e cinco menores pereceram. Não havia facultativo: para os atender tanto exerciam tais funções o encarregado de governar a colónia como o capitão da barca, coadjuvados por um barbeiro e dirigidos por um cirurgião do «Douro» - Francisco António Chagas Franco - o qual logo que da barca se fazia sinal de que era necessária a sua visita, vinha a bordo. Veio quatro vezes com tal prontidão e tão boa vontade que ão sei qual possa elogiar-se mais , se ele em vir, se o comandante em o mandar.

No dia 1 de Agosto entrou em Mossãmedes o Brigue «Douro» e, no dia 4 do mesmo mês, a barca «tentativa Feliz». com 74 dias de viagem. Os colonos vêem outra vez realizado o que o nosso poeta disse outrora aos seus heróis ascendentes:
«Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante...»

Enquanto os colonos e os majores Horta e Garcia se instalavam e examinavam os terrenos aptos para a agricultura, Bernardino seguiu, no dia 16 do mesmo mês, a bordo do brigue «Douro», para Luanda, a fim de se avistar com o Governador Geral. Chegado no dia 22, ali se demoraria cerca de dois meses. O Governador recebeu-o «com as mais decididas provas de contentamento, que igualmente foram manifestadas por todas as autoridades e habitantes da cidade.»
E Bernardino termina o seu relato:

«Esta empresa bem se pode chamar das incredulidades desfeitas, portanto:
1º) Parecia inacreditável que houvesse quem representasse o Governo de S. M. , porque muitas vezes haviam acontecido no Brasil casos iguais aos dos dias 26 e 27, e nunca houve o menor movimento: mas alguém representou.
2º) Parecia inacreditável que o Governo pudesse mandar navios para proteger os seus súbditos: mas mandou.
3º) Parecia inacreditável que ele pudesse fazer despesas para coadjuvar e transportar para as possessões africanas os que para elas quisessem seguir: mas pôde.
4º) Parecia inacreditável que houvessem colonos que se arriscassem a vir para África, depois do que havia acontecido a outros: mas houve.
5º) Parecia inacreditável que em Mossãmedes houvessem providências tomadas para a recepção do colonos, atentos ao pouco tempo e ao estado financeiro da província: mas houve.
6º) Parecia inacreditável que houvessem bons terrenos n local escolhido: mas houve.
Resta ainda uma incredulidade a vencer, a qual afecta a todos e vem a ser: se com efeito desta vez se montará a agricultura nesta velha parte do mundo antigo de forma a que se lhe façam trajar as galas de uma bela jovem; eis o que a breve espaço de um ano há-de resolver, no fim do qual se poderá dizer como Camões:
«Que verá tanto obrar tão pouca gente...»

Pelos seus incontestáveis méritos Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro é leito, por maioria de votos, em 14 de Outubro de 1849, para o Conselho Colonial de Moçâmedes. Esta qualidade reforça o prestígio do ousado português. Todos lhe obedeceram. Todos o reconhecem como chefe. Todos acatam, esperançadas as suas ordens. pelos colonos são distribuidos os terrenos incultos do rio Bero. Escolhe-se o Vale dos Cavaleiros para instalação de engenhos agrícolas. Começa o «fervet opus», como diz o próprio Bernardino:


«É um bulício. Todos edificam casas na povoação que escolheram para habitar: outros nas faldas da serra dos Cavaleiros (de basalto laminado) no sítio chamado dos Namorados e que dista uma légua; outros roteiam terras nas hortas, outros no sítio da Olaria, onde se vai fazer tijolos e telhas; outros na Várzea da união, duas léguas longe dali; outro no fim co vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos: lá se vê um carro carregado de caibros (barrotes de madeira), ali pretos conduzindo junco e tábua, acolá as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos: noutra parte se quebra a pedra que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente; a capela de Santo Adrião antes de um mês ficará ponta de paredes; enfim, ou antes de pouco tempo teremos de ver Mossãmedes uma sofrível povoação, e seus arrabaldes bem agricultados, ou se ficará o «mons parturiens» do velho Fedro».

A sua objectividade sensata e clássica de escrever é própria de um Grande português, de um Grande Chefe. Embora tudo pareça estar a correr de feição, a ele e aos colonos, para ele não era bom sinal que assim estivesse. Sempre os reveses estão na génese dos grandes cometimentos. Graves dificuldades surgiram. primeiro a inadaptação dos colonos. Depois a estiagem de longos meses. As sementes não seriam das melhores, nem haviam sido lançadas á terra na altura mais propícia. a terra, habituada á preguiça da infecundidade, negava-se a produzir. O desalento instala-se na alma dos colonos.

É então que Bernardino houve como Moisés relativamente ao seu povo «Antes fossemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas das carnes e comíamos pão com fartura. Porque nos trouxeste a este deserto , para matar á fome esta multidão?». É neste transe difícil que se revela a indomável força de vontade de Bernardino, e sua certeza de vitória. No meio do seu povo exclama: «Só será salvo o que preservar até ao fim!»

Por esta altura, uma colónia composta de 145 emigrantes portugueses, sob a direcção de José Joaquim da Costa, deixa o Brasil a 13 de Outubro de 1850 e chega a Moçâmedes a 26 de Novembro do mesmo ano. A esta gente se fica a dever parte do êxito agrícola que a partir daí se obteve, pelo grande ânimo que deu aos primeiros colonos, unindo-se-lhe com vivacidade.

Não tardou que outros se viessem juntar, provenientes, especialmente da ilha da Madeira (220 a bordo do vapôr Índia, chefiados por D. José Augusto da Câmara Leme), já que desta mesma origem era avultado o número dos que se achavam nas terras do planalto do Lubango, dada a conhecida fertilidade do seu solo a par do seu óptimo clima, em nada diferente ao da sua ilha.

Mais tarde sucederam-se-lhes outros vindos da Metrópole. O fluxo mais importante , sob o ponto de vista piscícola, foi o dos povos do Algarve, por lhes ter chegado ao conhecimento, quanto de rico em peixe era o seu mar e até, quanto mesmo era de bonançoso e nada de temer. Sabiam-se conhecedores das artes de pescar e das que pensavam em vir a instalar ali. Levaram consigo os aviamentos de pescar com linhas de certa robustês, anzóis de vários tipos para a pesca de pequenos e grandes peixes, não só da superfície como do fundo, chumbadas, roletes de cortiça, cabos de variadíssimas espessuras e até modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc.

Mas o tempo impiedoso corria célere. A pesca restringida a uma simples rede que não ia além de cem braças de comprimento e alada de terra a pulso estava só a dar o bastante para o consumo do povo do colonato. Havia que aumentar a quantidade de pescado para que também viesse a dar para abastecer o interior e até os povos dissiminados pela vizinha província da Huíla.

A ânsia de progredir estava no ânimo de todos. Os pequenos barcos que ali existiam não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais que para ali viessem instalar os seus estaleiros, de maneira que ali construissem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes e pescar.

A convicção do entusiasmo convence outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.

E foi ssim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peiroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo.

Em 1856, com a existência de 36 casas de pedra e 8 de adobe, que albergavam parte da população, nasce o Município de Moçâmedes.


Terá de reconhecer-se que foi às primeiras colónias de emigrantes de Pernambuco que se ficou a dever o verdadeiro incremento do local conhecido por Moçâmedes. A glória de não só haverem erguido um Distrito que se notabilizou, como também pel facto de terem iniciado, a preceito, a agricultura da região: horticultura, fruticultura, cultura de algodão, cana sacarina para produção de açucar e à industrialização de pescado. também é de reconhecer que foi aqui que nasceu a primeira tecelagem da Província, embora só com um fuso, para o fabrico de tecido grosseiro dada a qualidade das fibras ao seu alcance.

Segundo Duarte Pacheco. à medida que se progredia para sul da costa africana, esta ia-se tornando cada vez mais escassa em arvoredo e em moradores. Nas alturas de entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres a «terra eh baixa & maa de conheser» e mais adiante a navegação costeira torna-se difícil. Nestas paragens Pacheco refere a existência de «gente pobre que se nom mantem nrm uiuem senom pescaria» e que esses negros faziam «cazas com costas de baleas cobertas com seba do mar» lançando-les por cima areia «& aly passam sua triste uida».

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

BAIA DOS TIGRES e a origem do nome


 


A hiena castanha

BAIA DOS TIGRES: a origem do nome


Três versões existem  sobre a origem do nome da “Baia dos Tigres”. Uma delas está relacionada com a coloração "tigrada" que as altas dunas do lado continental da baía apresentam quando vistas à distância, a partir do mar. É a versão defendida por André Guilcher, Carlos Alberto Medeiros, José Esteves de Matos e José Tomás de Oliveira, em “Les Restingas (Flèches Littorales) d’Angola, spécialement Celles du Sud et du Centre” Finisterra, vol. IX, nº 18, Lisboa 1976, pp. 171-211.


 Segundo os defensores desta versão, a areia das dunas que são geralmente claras, possui minerais pesados em abundância  --granada, a, magnetite, ilmenite, zircão, anfibólio, turmalina verde—metais que o vento concentra em grandes faixas nas partes baixas das mesmas dunas, e que vistas do mar, ao ganharem o aspecto riscado avermelhado, fazem lembrar a pele de tigres. Como se sabe, na Baía dos Tigres não há tigres.

A 2ª  versão é a de que o nome Baía dos Tigres está relacionado com o ruido causado pela fricção que o vento sul exerce quando sopra com violência sobre a areia no alto das dunas, ruido que fez levantar a crença de que ali houvesse tigres. Esta versão é defendida por J.Pereira do Nascimento no seu livro Exploração Geográphica e Mineralogica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895.

A 3ª versão deve-se a notícias da existência na Baía dos Tigres  de cães de grande porte que faziam lembrar tigres, quando lá chegaram os primeiros portugueses. Henrique Abranches escrevia no seu livro Senhores do Areal, sobre esses cães, em relação aos quais se contavam versões diversas, uma delas referia que no século XVIII um navio não identificado naufragara ao largo dos Tigres, e os cães que vinham a bordo, únicos sobreviventes, nadaram rumo à  costa, e fixaram-se naquela região desértica e sem água,  onde tiveram que se adaptar meio,  comendo o peixe morto que vinha dar à praia, ou caçando raposas, cachalotes, aves marinhas utilizando técnicas de guerrilha. Ou ainda a versão de que em tempos recuados houvera uma epidemia de raiva em Moçâmedes, tendo a autoridade mandado matar todos os cães, havendo gente que deles se apiedou, meteu-os a bordo de uma barcaça e foi depositá-los na Baía dos Tigres, onde esses animais tiveram que aprender a sobreviver  em meio adverso,  lambendo a  espuma menos salgada da superfície das ondas que molhavam a areia da praia, comendo peixe que dava à costa, incluso cetáceos, tornando-se eles próprios nesse ambiente cruel, tão cruéis como o meio.

No livro "Africana" Universidade Portucalense 1991 encontrei as seguinte passagens:

"...Sobre o nome dado às enseadas e depois  atribuido à aldeia, deve-se à presença do rei da selva naquele local em certo dia, no início do povoamento da Grande Restinga, que também era de vez em quando frequentada por sua magestade" 

"...Também o rei leão com certa frequência fazia visitas aos Tigres, onde encontrava boa alimentação, nas hienas e nos cães que em quantidade razoável povoavam a restinga", para além, é claro, dos flamingos, das garças, das gaivotas, dos patos e dos pelicanos.

Muito recentemente o nosso conterrâneo Aurélio Baptista,  como conhecedor da região, avançou uma 3ª versão que nos parece digna de ser apreciada e levada em consideração. Baseia-se na leitura e na interpretação  que fez do depoimento do explorador inglês Willian T Messum  que referencia deste modo a presença de hyenas de que a Baía dos Tigres seria   infestada : “Aqui accendemos lume e nos preparamos para ficar a noite, mas tivemos sempre sentinela, porque, nas minhas viagens, nem antes nem depois, eu nunca senti tão espantosas vozes de hyenas ou lobos, e toda a noite em roda de nós; que só se dispersaram exactamente quando o dia estava para romper”.  Refere Aurélio: Ora, para um leigo, estas palavras teriam passado despercebidas, mas não passaram a Aurélio Baptista, conhecedor da região, logo se lembrou das hienas que por ali habitam, ou seja da “hiena castanha”  cujo  habitat se resume ao deserto do Namibe e Kalahari. Trata-se de um animal que pode atingir 1,40mts de comprido, 90cm de altura e pesando até 60kgs, que possui uma pelagem tigrada, e, por tal, poderiam ser tomados por tigres pelos exploradores e marinheiros do séc. XVII e XVIII,  nessa época de informação escassa. Este o ponto de vista de Aurélio Baptista :  foram estes animais , as hienas castanhas, que originaram a denominação de Baía dos Tigres à Enseada das Areias/Grande Baia dos Peixes! Ainda relacionado com este assunto, Alexandre Magno de Castilho, que passou pela Baia dos Tigres em 1867, referiu: “Só vimos muitos quadrupedes parecidos com rapozas muito grandes

Acrescento ainda
 
MariaNJardim


Habitat e distribuição

Hienas-castanhas podem viver em áreas onde o índice de chuva não seja maior que 100 mm por ano. Além de sobreviverem com pequenas quantidades de água, elas também conseguem um pouco de líquido das carcaças e das frutas que comem. Um dos alimentos principais das hienas em áreas semi-áridas são os vários tipos de melão, que suplementam a necessidade de água do animal. Sua predileção por melões às vezes as leva a conflitos com fazendeiros, que às vezes matam hienas-castanhas apesar de serem protegidas em alguns países. As hienas-castanhas são encontradas em todo o sul da África, e particularmente na Angola, Namíbia, África do Sul, Botswana, Lesotho, Moçambique, Malawi, Suazilândia e Zimbabwe.



http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:5fhF0x7FHSQJ:xamalundo.blogspot.com/2014/08/o-meu-ponto-de-vista-da-origem-do-nome.html+&cd=6&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt&client=firefox-a

sábado, 30 de agosto de 2014

Povos do Deserto do Namibe. Mossâmedes, Moçâmedes, Namibe, Angola.

Cuisses no Deserto do Namibe, em foto da década de 1960 de Vitor Mendonça Torres



Cuisses no Deserto do Namibe. 1935-1939 ICCT 
(foto colocada à margem do texto) 



 Recuemos mo tempo, procuremos saber o que nos diz a História destes povos através do texto que segue retirado de "Vida Humana no Deserto do Namibe Ongaia"
Curocas no Deserto do Namibe em 1935-1939 ICCT
(foto colocada à margem do texto) 





CUROCAS...

Toda a informação que se segue nos vem da notabilíssima e pouco aproveitada "Memória sobre a Exploração da Costa ao Sul de Benguela na África Ocidental e Fundação do Primeiro Estabelecimento Comercial na Baía de Moçâmedes", de José Guimarães, que ele próprio escreveu e publicou em Lisboa no ano de 1842.

Os primeiros vestígios humanos que encontraram foram

«...ossos de baleia queimados e uma espécie de embarcações, feitas de um pau muito leve chamado bimba, o que evoca a antiga notícia de DUARTE PACHECO PEREIRA. Dias depois apareceram negros e em dias seguintes trouxeram para trocar “milho, feijão e abóboras, algum marfim, pouco gado, e pontas de cabra de mato curiosas pelo seu comprimento».

Viviam os Negros perto e GUIMARÃES decidiu ir ter com eles à sua povoação, o que não faria sem grande perigo, dado que não consentiam que homem branco entrasse nela. Mas tudo correu bem e o explorador dá noticia de ...

«...um extensíssimo vale, todo cultivado de milho maiz, feijão, abóboras e uma espécie de milho miúdo”,

com margens (...) guarnecidas além d'imensa quantidade d'arbustos e de plantas parasitas, por duas ordens de palmeiras, que se estendem até onde se pode alcançar a vista e que parecem continuar muito parao centro».

 «...Do lado direito destes arimos ficava uma espécie de seio formado por algum rio, que no tempo das chuvas naturalmente ali desagua, conservando-se agora subterrâneo, pois cavando até dois palmos de profundidade encontra-se agua magnífica, de que os indígenas se servem para beber e à qual é devida a imensa e linda vegetação de que se acha coberta toda aquela planície”.

Com a singela mas exacta descrição do lugar, note-se que especificadamente se mencionam o milho maiz e o milho miúdo, o segundo dos quais será talvez a actual massambala. E aí estavam os renques de palmeiras que os nossos olhos ainda hoje podem ver por toda a Camilunga, nome por que agora se apelida a antiga fazenda de S. Bento do Sul. Eram os Negros governados por um soba e GUIMARÃES tinha-os por povos  “de nação mucubal” e de “vida pastoral”, designando-os de Mocorocas, “por habitarem um lugar a que chamam Coroca”.

E prosseguindo na sua informação escreve: 

«Sua vida muito pacífica não deixa de ser singular pela sua predilecção pelas mulheres, que escondem com a maior cautela,especialmente dos brancos, sendo igualmente muito ciosos do seu g  ado, cuja carne é magnífica e de que possuem grande quantidade de duas espécies, vacum e ovelhum São os Mocorocas muito dados ao exercício da caça e alguns dentre eles ao da pesca crêm muito em feitiços e almas dos seus defuntos; não gostam d'aguardente e preferem o tabaco que eles lã fabricam duma forma singular [similar?] ao de rolo do Brasil; são muito amigos de missanga branca, azul, preta e igualmente estimam muito facas e arcos de ferro para fabricarem flechas e azagaias, enxadas de ferro dumas que fabrica uma nação do interior do sertão, contígua a Benguela, por nome Nanos (o que na cidade de S. Filipe constitui um ramo de negócio); de fazendas preferem zuarte azul, baeta da mesma cor e cobertores, não fazendo apreço de chitas e outras fazendas de cores claras.»

Repete-se, na mesma costa, mais ao norte, decorridos quase três séculos e meio, atrevimento semelhante ao do destemido Fernão Veloso na Baía de Santa Helena; só que aqui não voltou GUIMARÃES tão apressado como o valente homem de armas de Vasco da Gama. Vale a pena talvez contar que o comandante Alexandrino da Cunha ou por impaciente com a demora na baía ou porque o convívio com GUIMARÃES se tinha deteriorado ou porque não queria que gente branca corresse perigo, não permitiu que homens brancos fossem com ele e deu-lhe por companheiros só dois negros da guarnição e um língua também negro.
                                                  
Repare-se que GUIMARÃES os julga  “de nação mucubal” e esta filiação fã-lo-à dizer que têm “vida pastoral”, por ser esta a ocupação tradicional dos Mucubais. Mas a verdade é que estamos em presença de uma população sedentária, ciosa de arcos de ferro para enxadas, praticando uma agricultura variada; em suma, uma população agrícolo-pastoril.

E se estes Mocurocas são aqueles que PILARTE DA SILVA encontrou -GUIMARÃES não se refere aos estalos identificadores - é de estranhar que o sertanejo não tivesse achado entre eles, 70 anos antes, vestígios de agricultura. O relatório elaborado por PEDRO ALEXANDRINO DA CUNHA coincide, no geral, com o de GUIMARÃES, o que não admira. Nem por dizer que os Curocas serão “colónias de Mondombos, dos quais têm a linguagem e os costumes» se afasta da filiação referida por GUIMARÃES: os Mucubais não terão outra origem-também Hereros saídos dos Mondombos das terras do sul de Benguela.
                    
Annais Marítimos e Coloniaís. Parte não oficial, n.” 12, 53* série, pp. 459 e segs., Lisboa, 1845. (”) ESTERMANN refere esta hipótese da origem dos Mucubais na obra citada, vol. III, pp. 29-30:
                                                                   
                                                                        



Parece-me útil dizer que os historiadores do Sul de Angola têm aproveitado, sobretudo, o relato de ALEXANDRINO DA CUNHA, cremos que por ignorância do de GUIMARÃES, mais rico de informação. Soube da existência deste pelo livrinho de CECÍLIO MOREIRA, Entre damas e o mar, atrás citado.
Ocupação portuguesa desta área só se iniciou de Dezembro de 1854 por diante, com a instalação de uma fortaleza num ponto alto, iminente à baía de Alexandre. O capitão de fragata JOÃO MÁXIMO DA SILVA RODOVALHO, que tomou parte no empreendimento, também se deslocou a uma das aldeias dos Curocas, a oito milhas da foz, em 10 de Dezembro do mesmo ano de 1854. Confirma que têm soba, são tratáveis, possuem gado vacum e arimos de milho e abóboras “de que sesustentam” (1°).

Logo no mês seguinte esteve entre os Curocas o navegador e viajante inglês WILLIAM MESSUM. Sentando-se à sombra de uma palmeira e podendo repousar os olhos no verde das hortas, sentia-se recompensado dos vários meses de aridez ao longo da costa: "Aqui me deleitei pela primeira vez, depois de muitos meses que tinha deixado o Cabo, de achar alguma coisa como vegetação, porque os naturais têm em considerável extensão hortas cultivadas de milho, grãos e abóboras.  Era um regalo, depois de tanta areia, sentar-se à sombra de uma palmeira”. E noticia ainda: "As choupanas desta gente pareciam construídas para aturar e eram habitações cómodas Os naturais possuem numerosos rebanhos de gado grosso e miúdo. Tinham também marfim de elefante e de cavalo marinho Vi maças feitas de corno de rinoceronte e grande abundância de mel e cera de abelha. Festejamos muito algum leite, milho e bolos feitos não sei de quê, com mel Perguntaram por aquadenti  mas quando lhe dei alguma, depois de a provarem, não quiseram beber» (“).
E acaba aqui o que podemos chamar a história antiga do povoamento do Baixo Curoca, uma história cheia de hiatos, de dúvidas, de perplexidades. Pelo que os textos nos dizem-e não esqueçamos sua imprecisão e mutismo , uma população mal definida de pescadores, no'início do século XVI; de pescadores, caçadores ou pastores e provavelmente agricultores no último quartel do século XVII; de pastores e recolectores (caça e apanha de vegetais) nos fins do século XVIII; de pastores, agricultores, pescadores e caçadores na primeira metade do século XIX. E a que etnias pertenciam e que etnias hoje lhes correspondem? São todos negros; os de Duarte Pacheco (século XVI) porventura Cuissis, antepassados dos actuais recolectores Cuissis, na opinião de ESTERMANN; os de Joseph Rosa (1681) falam por cliques e ESTERMANN quere-os da raça Khoisan, misturados com Cuissis, hipótese arriscada a que já aludimos, e serão ascendentes dos poucos Cuepes que sobrevivem; os de PILARTE DA SILVA (1770) parecem ser a mesma gente de Joseph Rosa e aquele sertanejo designa-os de Macorocas; GUIMARÃES, ALEXANDRINO DA CUNHA (1839), RODOVALH0 (1854) e MESSUM (1855) chamam também aos seus visitados Mocorocas; o primeiro diz que são de nação mucubal e o segundo de origem mondombe, todos, portanto, Hereros.

Cabe perguntar se os Macorocas de PILARTE DA SILVA são os Mocorocas de GUIMARÃES, CUNHA, RODOVALHO  e MESSUM. E se sim, temos então de admitir que estes asso-ciavam já à pastorícia a prática da agricultura, a menos que na mesma região houvesse pastores-agricultores concorrendo com pastores, todos apelidados de Mocurocas, por viveremjunto do rio; os primeiros naturalmente Hereros  e os segundos, os tais antepassados dos Cuepes. Mas se é cómodo libertar assim os Cuepes da agricultura, que seria conforme ao depoimento de PILARTE DA SILVA e conclusões de ESTERMANN e estaria de acordo com a actual tradição dos poucos Cuepes existentes que afirmam terminantemente que aprenderam a arte de cultivar a terra com os Brancos, não se fica em menor constrangimento em relação com Hereros: também estes são tidos por puros pastores e só recentemente lavradores.

Mas conceber no Baixo Curoca ainda outra etnia, agora de bantos agricultores, é que ultrapassará a legitimidade das conjecturas.

(1°) ALFREDO DE ALBUQUERQUE FELNER, Angola. Apontamentos sobre a Colonização dos Planaltos ..., Lisboa, Agência Geral das Colônias, 1940. vol. II, pp. 285-286. (U) Anais do Conselho Ultramarino. Parte não oficial, 1.* série,


De tudo isto, e com as reservas que já pus, me parecepoder concluir-se o seguinte: desde épocas recuadas povoaram o vale inferior do Curoca populações de diferentes origens, provavelmente Cuissis, Hereros e Cuepes. Se em períodos recuados da sua História foram recolectores e pastores, vieram todos a cultivar a terra, sob a influência de povos agricultores, o que ja aconteceria no referido século XVII. E não é mista a civilização dos Hereros, na qual se caldeiam pastores camitas com plantadores bantos (““) Se língua, crenças e instituições sociais bantas invadiram os domínios dos pas-tores camitas, porque não aceitar que cedo tenham recebido dos plantadores negros as técnicas da agricultura? E em uma vale de terras aluviais e água abundante, como é o do Curoca, como não responder adequadamente às solicitações do ambiente?


(12) O Rev.” P. ESTERMANN diz-me que terão sido Cuanhocas

                                                                      
E os Cuepes, vizinhos dos Hereros, imita-los-iam, se por outras vias lhes não chegou este modo de vida. E o viverem em aldeamentos mais ou menos fixos parece também conferir à cultura dos Mocurocas uma forte e antiga base rural. Tipos puros de civilização existem mais na imaginação dos estudiosos do que implantados na terra. Mas passemos a moderna história da ocupação do vale.

Funda-se a colónia de Porto Alexandre em 1854, cinco anos depois de se instalar em Moçâmedes o primeiro grupo de colonos portugueses, vindo de Pernambuco (Agosto de 1849). Só em começos de 1861 se inicia, porém, a ocupação branca do vale do Curoca, com a fazenda de S. João do Sul, do agricultor João Duarte de Almeida.

A ocupação progride nos 10 anos que se seguem; em 1871 o número de propriedades era de 12. Mas daqui por diante a agricultura entra em fase de contínua decadência: primeiro o algodão perde o preço, proíbe-se depois, em 1911, o fabrico de aguardente de cana, verdadeira moeda corrente nas transacções com os indígenas. Pereira do Nascimento conta apenas 5 fazendas em 1892. Em 1932 as terras do Curoca já só fornecem alimentos aos habitantes de Porto Alexandre; e  o que hoje produzem nem chega para abastecer a vila: sob a orientação de Brancos não se exploram mais que três fazendas-S. João do Sul, Pinda e Camilunga.

No período afortunado da exploração cultivavam-se, como principais produtos de rendimento, o algodão e a cana-de-açúcar e, como alimentos de base, a batata-doce, o feijão e a abóbora; e ainda a palmeira tamareira, a massambala, a mandioca milho, trigo, e nem faltavam os estimados mimos europeus como laranjeiras, pereiras, macíeiras e videiras.A mão-de-obra abundante, que tais empresas reclamavam, buscar-se-ia inicialmente, em escravos e depois em libertos e livres de vária procedência, desde Luanda-Malange e Nova Lisboa a Benguela e Novo Redondo, incluindo vizinhos Curocas Cuissis e Hereros ou os mais distantes Nhanecas-Humbes Ambós e Ganguelas (W). Para a manter, sobretudo depois  da abolição da escravatura em diante, distribuiram os agricultores brancos algumas courelas por trabalhadores pretos. que as cultivavam para si, em certos dias da semana, enquanto outros amanhariam terras sem dono, do Governo, no seu modo de dizer, contíguas às fazendas.

Com o colapso da plantação empresarial o vale despovoa-se praticamente de Brancos; ficam, em parte, os Pretos, uns, a título precário, nas glebas onde labutavam, outros em terrenos do Governo, para onde transitam ou em que jé estavam.

E nesses espaços de ninguem entram em mais vivo con a com os antigos habitantes da região. Ora é exactamente do estudo do estilo de vida dos povoadores de um destes lugares a Onguaia que passarei a ocupar-me.

('“) H. BAUMANN & D. WESTERMANN, Les peuples et les civilisations de l'Aƒrique..., Paris, Payot, 1948, pp. 117 e segs. (“) CECÍLIO MOREIRA, op. cit., pp. 23-24.(15) Idem, op. cit., pp. 25-26

ORIGEMTexto: Vida Humana no Deserto do Namibe Ongaia :  http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:vWR6KIP1BQoJ:www.ceg.ul.pt/finisterra/numeros/1971-11/11