Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Bernardino Abreu e Castro e João Duarte de Almeida, dois apóstolos da abolição da escravatura





No Livro intitulado  "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro"  do Padre  Vicente, José (Gil Duarte), página 1959 :

"...João Duarte de Almeida e Bernardino Abreu e Castro foram dois apóstolos da abolição da escravatura. João Duarte de Almeida fez, sobre o assunto,  diversas exposições ao ministro Sá da Bandeira, porém não lhe sobrando espaço em seu livro para transcrever as suas exposições ao Governo Central de Lisboa,  o padre José Vicente detém-se sobre a que fez Bernardino em 15 de Abril de 1857 ao governador-geral da província,  José Rodrigues Coelho do Amaral, a pedido deste. Passarei pois a transcrever uma dessas exposições, tenso em conta que em relação a este assunto João Duarte de Almeida e Bernardino Abreu e Castro tinham os mesmos ideais. A mesma exposição deve ser analisada não à luz dos nossos dias, mas à luz das mentalidadea da época em que estes dois homens viveram. Ei-la:


Temos sobre os olhos esse notável documento, glória de quem o escreveu. Escreve o fundador de Moçâmedes: 

"... Direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões de inteligência me ditam, e bem assim o que a experiência de quase oito anos, dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com escravos e gentio livre, me há demonstrado. Dividirei a questão sob dois pontos de vista:
1º.- Acabar o tráfico da escravatura para fora das possessões portuguesas;
2º.- Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.
Enquanto ao primeiro ponto, a razão, a humanidade, e a própria conveniência reclamam que o governo português, com as mais urgentes medidas, ponha por uma vez termo a tão vil, desumano e degradante tráfico, que, em vez de ser útil às mesmas possessões, é causa do seu completo, para não dizer vergonhoso atraso.

Sem me demorar em descrever os horrorosos delitos cometidos em um embarque – delitos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos de homem, e que mal me poderia acreditar de que os mesmos homens os cometessem,  se não vissem tantas vezes repetidos: sem me demorar a descrever o que sofrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde, empilhados, mortos de fome e de sede, etc. - somente direi que tal tráfico, além do ferrete da ignomínia e da barbaridade, que acarreta aos que nele tomam parte, é de nenhuma utilidade, se não é de prejuízo para os que residem nas possessões, porquanto, raras vezes recebem o produto dos infelizes que uma louca ambição os faz sacrificar, e, se algum recebem, é tão cerceado e moroso, que não remedeia quase nunca as suas necessidades." Bernardino comprova a seguir as suas afirmações de forma irrefutável, denunciando os traficantes de escravos que obtinham, com pouco trabalho, meios abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa.

E continua:

" ...A opinião do mundo reprova o infame e criminoso tráfico: a situação e ordem das coisas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o estigmatiza: e só tem a seu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados. Mas quem são estes? Que o digam aqueles que têm caído no laço de fazer tais consignações. Se não fora a verdade de que o número de loucos é infinito, se não fora a possibilidade de os negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos -- como farão em último recurso, pois  que não se limita a venda de escravos só àquela ilha, mas dali se vendem muitos para o sul da América do Norte, e por alto preço -- eu diria que o tráfico de escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza, porém em razão dessas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois que me parecem por si só eficazes.

Primeiro, tornar responsáveis as autoridades administrativas e policiais por qualquer embarque que se faça nas terras das suas jurisdições: mas que essa responsabilidade seja acompanhada das mais severas penas, e não fique só escrita no papel; este só meio acabaria de vez com tal tráfico Quem vive na África sabe o que é um embarque, e tem ouvido o ritinido das correntes, o eco do pisar dos pés oprimidos pelo peso dos ferros, o bulício de lanchas e botes, o rápido andar de centos de homens, que aceleradamente se dirigem às praias. Bem se vê que difícil é que as autoridades deixem de o saber, e, portanto, por tal facto, se aconteceu, ou foi por conveniência ou por tolerância. Admito, porém, ainda que fosse possível, sem que a autoridade o soubesse, em tal caso, lembro.

Segundo, que o Governador da Província seja autorizado a despender alguns contos de réis com espiões, por ano, os quais sejam obrigados a dar parte às autoridades administrativas e policiais do local de qualquer embarque que se pretende fazer: penso que assim nenhum terá lugar.

Estes espiões devem ter locais marcados nas costas: por exemplo, nesta província ter um a seu cargo, dar parte do que ocorrer entre Mossâmedes e a Lucira; outros, entre esta e Benguela, entre a Catumbela e a Anha; entre esta e Novo Redondo; entre este e Benguela Velha; entre esta e o rio Longa; entre esta e a cidade de Loanda; entre esta e o Dande; entre este e o Ambriz; entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos despesa do que a que se faz com os cruzeiros, que por maiores que sejam e mais vigilantes, farão diminuir, mas não acabar com o tráfico para o exterior, se consegue o fim desejado."

Bernardino fez depois judiciosas considerações sobre o problema da abolição da escravatura dentro das possessões portuguesas de África, Diz que, neste capitulo, se trava uma luta entre o coração e a cabeça. Aquele --acentua-- diz que é bárbaro e inhumano que qualquer homem seja obrigado a servir outro, e que não goze do mais sublime dote da natureza, o uso da sua liberdade, esta grita que isso é verdade, mas aponta-nos as consequências que daí podem resultar para a questão sujeita.

Considera o estado das possessões, os usos e costumes dos europeus que as habitam, o estado da civilização dos indígenas que as habitam, se para se conservarem as possessões será bastante o comércio, ou se são necessárias também a cultura e a indústria fabris; e se a cultura e indústria fabris podem ser feitas por braços importados da Europa, ou somente por indígenas.

Bernardino é abertamente contra a manutenção da escravatura em África, mas opina que, para tanto, devem os europeus esforçar-se por civilizar as populações indígenas, o que não se verifica. Com efeito, diz: "costumes, religião, e governo do gentio, são quase geralmente os mesmos da primitiva, só com a diferença de que nada de bom lhe têm ensinado, antes comunicado os nossos vícios. Não se diga que sou exagerado: podia referir muitos factos que tenho presenciado, que demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar inactivo nas terras do litoral, mas correr os sertões, ver o que por lá vai e o que se faz, para bem avaliar o que dizemos". 

Aceita o fundador de Moçâmedes que é preciso usar de alguma força para convencer os nativos que têm de trabalhar. E explica: "Os pretos, segundo os seus usos, não devem trabalhar na cultura nem nos serviços domésticos: são as pretas. A profissão deles é caçar, pescar e carregar, Se um preto, por exemplo, tiver uma mulher doente, e for buscar uma cabaça de água, ou uma feixe de lenha, comete maior crime e paga maior multa do que se matasse outro preto."

Continua: "Quem percorre os sertões, e com olhos de investigação observa o que se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os pretos, porque as pretas são as que cultivam, fazem comida, preparam as bebidas e até o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: têm estes, quase todos,  mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correia na cintura com um palmo de couro que lhe cubra as partes podendas, e outro palmo que lhe cubra as partes por detrás, eis um preto vestido de ponto em branco. Dois ou três porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo faz , -- ou a parte que tem ferro, os seus ferreiros --ei-lo armado e pronto a seguir para toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia."

Deduz, com verdade lógica Bernardino: "À vista, pois, dos costumes que venho de referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das possessões, é necessário, ou que o gentio obedeça e que cumpra a lei que se lhe impuser, e perca seus maus e inveterados usos por meio da força, ou que se empreguem meios de o civilizar, incutindo-lhes os princípios da sã moral. O primeiro meio é quase impossível, porque demanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor: o segundo é o mais conveniente, e depende somente de espelhar por entre os gentios bons missionários. Com este meio, em poucos anos muito se conseguiria."

Não restam dúvidas de que Bernardino é absolutamente contra a escravatura, Mas é preciso preparar, para tanto, os próprios gentios. Conta ele: "Quando as circunstâncias me obrigaram a ir convocar uma guerra gentílica contra os Gambos, muitas foram as embaixadas que recebi, e em todas se me dizia que tal soba estava pronto para o serviço do Rei, porém que este os queria prejudicar, acabando com os escravos, que era o seu primeiro rédito. Combati, como em tais lances me foi possível, semelhante reclamação, e talvez ouvissem a esse respeito o que ainda não tinham ouvido.  Combato esse bárbaro costume, e tais razões lhes dei, que não lhes ficaram esperanças de poderem continuar tão degradante uso, assim tive o que pretendi, e foi daí que tirei por conclusão, que, com bons missionários, fácil seria fazê-los mudar de seus maus costumes, senso a primeira necessidade, incutir-lhes amor ao trabalho; porquanto a ociosidade que professam, lhes faz abraçar todos os maus usos que a favorecem". 

Neste pormenor se revela a personalidade de colonizador e civilizador de Bernardino. "Os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis, e felizes pela sua agência, que para eles já é hábito. Eduquei-os antes com boas maneiras do que com castigos bárbaros: não têm tido fome, nem falta do essencial, e por isso me não fogem, e vivem satisfeitos. Se, em vez de trinta, tivesse tido três mil, daria hoje à África outros tantos bons trabalhadores".

E mais adiante: " Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores, com iguais direitos e obrigações. Sé é distinto o que merece, pelo seu comportamento."

Bernardino conclui: "Entendo que bem podia legislar-se sobre os serviços que deviam prestar os pretos, e a humanidade mesmo reclama se comprem nas nossas possessões, segundo o estado actual, sem se usarem os reprovados nomes de escravo e liberto. Se o infeliz há-de injustamente perecer, é mais humano comprar-lhe os seus serviços, que tão úteis se podem tornar em mãos de homens bons e inteligentes, sendo tais serviços, por enquanto, essencialmente necessários nas mesmas possessões. Era isso mais racional e mais justo que se fizesse, uma vez que se fizessem regulamentos em respeito ao modo como deviam ser comprados e tratados -- regulamentos cuja exacta execução fosse encarregada às autoridades administrativas e policiais, com a mais severa responsabilidade; porém , repito ainda,  que esta responsabilidade não deveria ficar somente escrita no papel, como acontece a quase todas as nossas leis. Sou, na província, o menos entendido, porém, dos que mais desejam o progresso, o aumento e civilização das nossas possessões."

Bernardino escreveu estas palavras em 1857, como acima deixamos dito. Pois um ano decorrido, em 1858, Portugal decretou que, passados vinte anos não poderia haver mais escravos; mas onze anos depois, isto é, em 1869, foi abolido o estado de escravidão, pelo que passaram à condição de libertos todos os escravos, em todas as suas possessões.

Extraordinária vitória esta! Mas, para que a mesma fosse possível, decisiva influência tiveram João Duarte de Almeida e Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.
Honra lhes seja! "
 

Como escreveu Fernando Pessoa: "O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos"

sábado, 30 de julho de 2016

Chamavam-lhe o "40"

 

Chamavam-lhe o "40". Quando vi a foto deste sujeito que viveu em Moçâmedes e, outras eras logo me veio ao pensamento que podia ter sido um ex-militar que teria participado das campanhas de África do início do século XX, e que por ali teria ficado. Mas não, disse-me logo uma conterrânea que por tradição oral sabia da sua história

"...Não, o "40" era um presidiário da Fortaleza de S. Fernando em Moçâmedes. "40" era o seu nº de cela, ele foi deportado para Angola porque bateu num homem que já estava morto. Era conhecido porque roubava pombas, burros , pintava-os com manchas e depois ia vender aos donos, claro quando as pombas tomavam banho e as manchas desapareciam, lá ia o "40" novamente preso, não tinha emenda, era o único pecado dele.  Era um homem de pele clara e olhos azuis. Foi trabalhar para a minha bisavó, Júlia Pestana, acompanhava o meu avô e o irmão, para todo o lado.  Nesta altura a irmã Hortense, já estava casada com o Costa Santos .Segundo o meu avô era um bom homem, ficou na família e morreu lá.  Vina "

A Vina recordou-se da história, mas desconhece o seu nome. Fica aqui para memória futura, o registo deste cidadão anónimo que já há muito não está entre nós.  Alguém que viveu em Moçâmedes nas primeiras décadas do século XX, e que dele resta apenas esta imagem.


MariaNJardim 

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Elementos de uma burguesia negra angolana, em finais do século XIX, inícios do século XX ?

Foto de Marian Jardim. 

Foto: Elementos de uma burguesia negra angolana, em finais do século XIX, inícios do século XX ?




Diz a História, que numa fase anterior ao povoamento branco das colónias (1) com famílias portuguesas, entre os séculos XVIII e XIX a cidade de Luanda teve períodos entre grande desenvolvimento e estagnação, e que nela existiu um importante grupo de mestiços e de negros, cujos estratos superiores formavam uma burguesia local, europeizada, engajada no tráfico atlântico de escravos e noutras actividades comerciais, pelo menos até meados do século XIX.

De entre essa burguesia que englobava colonos do sexo masculino, especial destaque era dado às famílias crioulas, que se apropriaram-se do espaço social, e  atingiram o seu apogeu no século XIX. As alianças de homens europeus com  mulheres indígenas eram muito frequentes e delas nascendo uma prole numerosa, que os pais em geral consideravam como filhos e educavam como podiam.
Aliás foi no seio das famílias crioulas que emergiram as "Donas", mulheres angolanas que ficaram famosas, como Dona Anna Joaquina dos Santos e Silva e Dona Anna Francisca Ferreira Ubertaly, ricas e poderosas, respeitadas ou temidas quer na cidade quer no hinterland, detentoras de vastas propriedades e de imensas fortunas, cujo negócio, nesse tempo marcado pela deportação ou degredo de criminosos idos de Portugal e do Brasil, se estendia desde o pequeno comércio retalhista, ao grande tráfico transatlântico de escravos.

As ricas "Donas" eram em geral mulheres empreendedoras, que singravam num mundo hostil masculino, à frente de grandes empresas comerciais atlânticas, como proprietárias de navios de longo curso e administravam agências comerciais entre Angola e o Brasil. Descendiam de famílias mistas, casavam legalmente, ou conforme os usos da terra, com homens de origem europeia, negociantes, militares, funcionários, e as filhas saídas dessa união adquiriam automaticamente o direito ao título de "Donas". Também mulheres negras podiam ascender directamente a esse título, pelo casamento com um europeu. De vida longa, as "Donas" sobreviviam aos cônjuges e chegavam a casar várias vezes, enquanto iam aumentando, consecutivamente, as suas fortunas, o seu poder e influência no meio social luandense.

Moçâmedes na época das feitorias, fase que antecipou primórdios a chegada alí de dois contingentes de luso-brasileiros fundadores, vindos de Pernambuco (Brasil) nos anos 1849 e 1850, também contou com a presença de empresas pertença dessas ricas Donas.  Segundo George Tams, viajante alemão que visitou Angola no início da década de 1840, Anna Joaquina dos Santos Silva, tal como Anna Francisca Ferreira Ubertaly, eram ambas detentoras do estatuto de Donas, possuíam plantações de açúcar na região do rio Bengo, ao Norte de Luanda, e em Moçâmedes, e tanto uma como a outra haviam participado da fundação da colónia de Moçâmedes, onde mantinham agentes de suas firmas luandenses, para gerirem propriedades, e para gerenciarem a mercadoria recebida em barracões escondidos longe do mar.

Dona Anna Francisca Ferreira Ubertaly era uma escrava trazida do interior para Luanda onde casou com um médico da Sardenha, um degredado, que ali se estabelecera, e onde vivia com pompa, manejando um próspero negócio de escravatura, refere Tams. Era mesmo uma das pessoas que maior negócio faria com o vil negócio. Para George Tams eram «Todos eram iguais, porque duvido que houvesse um só que não fosse negociante de escravatura e que recusasse entrar em qualquer transação criminosa, contanto que por meio dela pudesse aumentar os seus lucros».

Manuel Júlio Mendonça Torres, no livro "O Distrito de Moçâmedes no Ciclo Áureo da Cultura do Algodão", refere também que  Dona Ana Francisca Ferreira Ubertaly montou uma feitoria de sociedade com Bernardino José Brochado, (2)quando não havia mais do que um vasto areal com algumas choupanas e duas ou três casas de tabique .

Os grandes negreiros, Arsénio Carpo, Pinto da Fonseca, Nicolau Tabana e as negras Anna Francisca Ferreira Ubertaly e Anna Joaquina dos Santos Silva aparecem frequentemente nos textos de Tams que  assim os considera  «Todos eram iguais, porque duvido que houvesse um só que não fosse negociante de escravatura e que recusasse entrar em qualquer transação criminosa, contanto que por meio dela pudesse aumentar os seus lucros».

Com o fim do comércio de escravos  (3) e o crescimento do núcleo colonial branco, essa burguesia negra  e sobretudo mestiça, luandense e benguelense, que durou pelos menos até aos finais da década de 1920, foi perdendo gradualmente a sua riqueza, prestígio e importância, entrou em decadência, e passou a estar em minoria, não obstante as tentativas de adaptação a outro género de negócios, facto que deu origem a fortes tensões no seu seio, contra as injustiças da administração colonial portuguesa, conforme nos podemos inteirar através de jornais da época.
Quanto à maioria esmagadora da população negra não europeizada, os considerados "indigenas", estes encontravam-se espalhados pelo território, continuaram a viver como sempre viveram, com pouco ou nenhum contacto com a sociedade moderna, não eram considerados cidadãos portugueses, nem se preocupavam com isso, e podiam, com a colaboração dos sobas locais, virem a ser recrutados pelas autoridades portuguesas como mão de obra barata direccionada para as diversas actividades económicas em expansão. 

Após a queda da 1ª República, foram abrangidos pelo "estatuto do indiginato" promulgado em 1926, que dividiu a sociedade africana em assimilados e indígenas. Para obterem a cidadania portuguesa precisavam de provar a sua adopção da civilização europeia. Se conseguissem prová-la eram declarados legalmente civilizados ou assimilados. Cf. Adriano Moreira – “As elites das províncias portuguesas de indigenato: Guiné, Angola e Moçambique”, Sep. da revista Garcia da Orta , vol. 4, n.º 2 (Lisboa, JIU), 1956.

O indiginato que acabou abolido em 1961, Adriano Moreira foi obrigado pela força das circunstâncias históricas e das suas convicções a revogar o Estatuto do Indiginato e a atribuir a cidadania a todos os habitantes do império colonial português.



MariaNJardim


(1). Quanto ao povoamento branco do território angolano, é de   salientar que não obstante os muito propalados cinco séculos de colonização portuguesa, já ninguém duvida, que a fixação de portugueses nas colónias de África foi um processo lento e difícil, e quase todas as tentativas de fundação de novas áreas de povoamento em Angola, fora das regiões anteriormente ocupadas de Luanda e de Benguela, falharam quase completamente até meados do século XIX.

Desde a descoberta do Brasil, Portugal deixara cair toda e qualquer pretensão com relação à colonização dos território africanos, ficando Angola reduzida a algumas feitorias ao longo da costa, sem penetração no interior, transformada em mero entreposto de tráfico de escravos, e lugar de punição para degredados.  Foi após a independência do Brasil, em 1822, que Portugal procurou, para manter-se Império, voltar a sua atenção e interesse para as colónias de África, essencialmente para Angola, a nova "jóia da .Corôa".

Porque tardou Portugal a colonizar de facto?

Colonizar significava promover a fixação de um elevado número de famílias portugueses nas colónias, e demograficamente a chamada Metrópole tinha escassez de povoamento para si mesma, para além de que Angola não era atractiva, devido  as doenças tropicais que campeavam livremente, com predomínio da malária. Para Angola “terra de febres” apenas se embarcava por obrigação ou por castigo, embora houvesse notícia de que, no Sul o clima seria mais suportável pelos europeus. Por outro lado faltavam ao país recursos financeiros para levar a cabo uma tal empresa.

Sem algum conhecimento da História de Portugal seria impossível compreender todos os condicionalismos a este respeito, desde logo ligados ao facto de.Portugal, no inicio século XIX, ser ainda uma monarquia que vivia nas ideias do “Ancien Regime” que tinham sido completamente postas em causa pela Revolução Francesa de 1789, que havia  sido antecedida pela Revolução Americana de 1776. E o século XIX português todo ele  marcado por um longo período de crises e de convulsões políticas que começou em 1807, com as invasões napoleónicas e a fuga do rei e da corte para o Brasil, na sequência da não adesão ao bloqueio continental decretado por Napoleão Bonaparte. E como se não bastasse, seguiram-se décadas de revoluções, convulsões e mudanças no reino que levaram á queda do absolutismo e ao triunfo do liberalismo (1820-34) lutas fraticidas no seio do liberalismo que duraram até meados do século, e que tiveram repercussões nas colónias onde chegava o eco amortecido dos conflitos que iam tendo lugar no velho continente já então perpassado pelos ideias humanistas do Iluminismo que acabariam por  levar a uma viragem política e de mentalidades e  acto contínuo, por impulsionar a abolição da escravatura.

Por seu lado Angola passava por uma conjuntura profundamente turbulenta, especialmente desde que em 1836, na sequência da revolução de Setembro em Portugal,  fora decretada a abolição do tráfico,  que se manteve no entanto, por mais algumas décadas, na clandestinidade, até ser abolido definitivamente em 1869.  Era à volta do tráfico, estabelecido desde o século XV, que no século XIX girava ainda a vida económica  em Angola, na qual tomavam parte as grandes figuras das sociedades luandense e benguelense, ricos comerciantes e as ricas viúvas de comerciantes, mulatas e negras, registando-se por vezes completa ausência de lei e mesmo anarquia. As directivas da autoridade esbarravam com a força do interesse dos traficantes pouco escrupulosos, e de outros agentes negreiros de origem europeia ou mistos, os degredados e os pumbeiros que viviam completamente imersos no rendoso e vil negócio. O tráfico internacional de escravos foi abolido, em definitivo no Brasil, em 1850, pela Lei Eusébio de Queirós. Só com a intervenção naval da Inglaterra foi possível, finalmente, em 1869 a total proibição do tráfico negreiro  em Angola, que passara a fazer-se na clandestinidade Com a Lei Áurea, em 1888, o Brasil foi o último país a proibir o comércio de escravos no Atlântico.

Com esta frase duras e real, João Pinheiro Chagas (1865-1925), escritor, jornalista, panfletário, político e diplomata, deixou-nos um testemunho do estado de abandono em que se encontravam as colónias africanas às vésperas da Conferência de Berlim (1884-5), a célebre Conferència que determinou a "Partilha de África" pelas potências europeias : "As colónias africanas eram um vazadouro para onde despejávamos todas as fezes que tínhamos no reino. Com degredados as povoávamos, com degredados formávamos o seu exercito e, quando não eram degredados, que o compunham, eram batalhões expedicionários que levavam do continente os mais torpes elementos das tropas nacionaes." 

Pinheiro Chagas, maçon republicano, em 1891 foi condenado e degredado em Moçâmedes, de onde foge. Conspira na revolta de 1908, sendo novamente preso,  envolve-se na preparação do 5 de Outubro. Preside ao primeiro governo constitucional (1911), Foi ministro de Portugal após a implantação da República. 

Segundo Pinheiro Chagas, os governadores que iam para o ultramar, com ordem expressa de acabar com o odioso tráfico, viam-se obrigados a transigir, ou a fugir. Sobre o tratado de 1842 com a Inglaterra que impunha a Portugal enormes sacrifícios e continuados vexames, refere que enquanto o cruzeiro português se mostrava implacável com os navios de escravos, e as colónias definhavam com a perda de receita, navios ingleses tomavam os negros escravos para os levar para as suas colónias que floresciam com o trabalho gratuito dos braços que à escravatura deviam.  Como atrás ficou dito, até meados do século XIX Portugal vivia absorvido numa guerra civil, impedido de explorar e conhecer o território africano, implacável com a escravatura, mas tentando em vão fazer alguma coisa útil.  Chagas considera excepção em 1849 ter surgido Bernardino Freire de Abreu e Castro, homem de iniciativa, o verdadeiro fundador da colónia de Moçâmedes. "E pouco mais se fazia !  ", refere. Em 1852 era notório número de emigrantes portugueses que procuravam trabalho e riqueza no Brasil e Américas, onde só encontravam miséria e morte. Trinta e três anos depois, sob a pressão estrangeira, são fundadas por madeirenses as colónias Sá da Bandeira e S. Pedro de Chibia. Os madeirenses iam procurar condições de vida e fortuna em Demerara, nos climas inóspitos da Guyana inglesa, que as febres transformaram num cemitério para os portugueses. Houve que desviar o rumo da emigração nacional para África.

A fundação inesperada da cidade de Moçâmedes (Namibe), em 1849 e 1850, é vista como uma oportunidade que o governo português não deixou escapar, já então receoso da cobiça estrangeira daquela zona do território cuja fronteira sul ainda estava por demarcar. Moçâmedes aconteceu porque no Brasil independente, em 1848,  uma onda de anti-lusitanismo levou dois contingentes de colonos a deslocarem-se para o Sul de Angola, e a fixarem-se em local recentemente explorado e reconhecido como a "Sintra de Africa", pela benignidade do seu clima compatível com a raça branca. ..
                                             
Mas foi mais tarde, em 1884 e 1885, com a colonização das Terras Altas de Moçâmedes (Huila), também no Sul de Angola. enquanto decorria a célebre Conferência de Berlim, que aconteceu a primeira experiência de colonização sistematizada em terras de Africa. Respeitando os ditames daquela Conferência que determinou a "partilha de África" entre potências europeias, cujo Acto Geral impunha a substituição dos direitos históricos pela ocupação efectiva, Portugal foi obrigado a agir. Se o não fizesse corria sério risco de perda das colónias de África, sobre as quais detinha direitos históricos, mas faltava uma ocupação efectiva.

 Foi a custo que o Governo português conseguiu recrutar contingentes de famílias madeirenses para se fixarem naquele planalto. Foram os únicos que responderam aos apelos à fixação. A Ilha da Madeira passava então por uma grave crise, e os madeirenses partiam para todos os cantos do globo, em busca de uma vida melhor. Foi necessário desviar o fluxo da emigração que corria para lugares tão longínquos como o Hawai e outros do Caribe, onde em alguns casos os portugueses substituíam mesmo escravos que acabavam de alcançar a sua alforria.
Dava-se finalmente corpo à fantasia de antigos governantes portugueses explicitada pelo General Sá da Bandeira: a de povoar Angola com “gente boa da metrópole,” casais de agricultores, aptos para ocupar os territórios africanos que estavam potencialmente sob a mira dos concorrentes europeus, ou seja, gente capaz de pegar numa enxada, de desbravar, e de criar uma comunidade nesse contexto de acelerada competição internacional e reconfiguração das políticas coloniais que forçou a um esforço rápido e praticamente impossível  envio de tropas e de funcionários civis para todas as áreas que Portugal pretendia suas. Portugal nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, esteve envolvido nas  chamadas guerras de «pacificação».  «Impunham-nos de fora uma nova forma
de acção, que se traduzia pela necessidade de avançarmos pelo sertão e de ocuparmos “em força” os territórios cujos domínios supúnhamos assegurado por solenes tratados», dizia o coronel Vicente Ferreira.  E assim, «só nas décadas de 40 e 50 do século XX é que a África “portuguesa” adquiriu
os contornos que muitos ainda conhecemos . A presença efectiva de Portugal nas colónias africanas não terá, pois,excedido umas décadas.

Na realidade, porém, foi a partir do início do século XX que contingentes cada vez maiores de colonos se estabeleceram nas principais cidades do litoral - Luanda, Benguela , Lobito , Moçâmedes - e nas novas cidades do Planalto - Sá da Bandeira, Malange, Silva Porto, Nova Lisboa (fundada em 21 de Agosto de 1912 ).

(2) Bernardino José Brochado, sertanejo e sócio de Ana Francisca Ferreira Ubertaly, segundo Mendonça Torres foi excepção, de entre os possuidores das primeiras feitorias estabelecidas em Moçâmedes, na medida em que foi o único cuja permanência no distrito não foi de curta duração, pois nele se conservou desde 1841 (antes, portanto, da chegada da primeira colónia vinda de Pernambuco, Brasil, em 1849), e ali viveu os derradeiros dias da sua existência, quando em 1885 faleceu. Aliás Brochado foi mesmo a enterrar em Moçâmedes, onde no Cemitério local possuía no  um mausoléu de mármore, cercado por um gradeamento de ferro, e encimado por uma figura simbólica, apresentando, numa das faces, sob uma cruz em relevo, a seguinte inscrição: «Aqui jazem os restos mortais de Bernardino José Brochado , nascido em Cedofeita, cidade do Porto, em 17 de Maio de 1818 e falecido nesta vila a 10 de Maio de 1883, filho legítimo de António José Brochado e de D. Maria Rosa de Jesus. A colónia portuguesa jamais olvidará os serviços e sacrifícios que o seu civismo lhe prestou em prol das suas liberdades e regalias e para a desafrontar em dias de provação." Foi um dos exploradores que mais se empenharam em percorrer e em descrever esta região contendo uma ideia da sua população, vestuário, etc., que deixou publicado nos Anais do Conselho Ultramarino e, mais tarde, nos números 15 a 17 do Jornal de Mossâmedes, de 8 de Março a 8 de Abril de 1882.

(3) Desde o início do séc. XIX os ingleses desencadeiam uma activíssima campanha pela abolição da escravatura, mais por razões económicas do que morais, ao darem-se conta que o desenvolvimento industrial não se poderia fazer sem se acabar com o tráfico dos escravos, e sem se fomentar o trabalho livre, daí que em 25 de Março de 1807 o Slave Trade Act, tenha declardo ilegal todo o tráfico de escravos. 

Na sequência da Convenção de Viena, em 1815, Portugal proibiu todo o tráfego ao norte do Equador, por Decreto de 26 de Janeiro de 1818. Mas a sul do Equador, continuou tudo na mesma.

Mas a abolição do tráfico foi decretada pelo Marquês de Sá da Bandeira em 10 de Dezembro de 1836: “aboliu totalmente, em toda a monarquia portuguesa, o tráfico da escravatura, e impôs aos transgressores severas penas tais como o degredo, multas, incapacidade de servir empregos nacionais e trabalhos públicos”. Havia porém uma ressalva: os traficantes de Angola podiam transportar escravos para o Brasil quando aí tivessem fazendas. De um modo geral, o decreto não foi cumprido. Na realidade, de 1840 a 1847, entraram no Brasil, idos das colónias portuguesas, perto de 450 000 escravos.

A 3 de Julho de 1842, foi celebrado o tratado luso-britânico para a abolição total do tráfico. As marinhas dos dois países ficavam com o direito recíproco de visita aos navios suspeitos de negreiros. Havia comissões mistas sediadas em territórios pertencentes a Portugal e Inglaterra, para julgarem os casos levantados pelo apresamento de navios. O conteúdo do Tratado foi posto em vigor por decreto de 25 de Julho de 1842, que declarava ser pirataria o tráfico da escravatura.

A partir dessa data, sucedem-se as medidas tendentes à abolição da escravatura. O decreto de 14 de Dezembro de 1854, manda fazer um registo dos escravos existentes, sendo libertos aqueles que os patrões não declarassem. Os escravos pertences ao Estado, aos Municípios, aos estabelecimentos de caridade das Misericórdias eram declarados livres, devendo prestar serviço durante sete anos. Os escravos registados tinham direito à liberdade, ficando obrigados a servir os patrões durante dez anos, a título de indemnização.

Uma lei de 5 de Julho de 1856 aboliu a escravatura numa parte de Angola, a saber: o distrito de Ambriz, e os territórios de Cabinda e Melinde.

Segundo a Lei de 23 de Julho de 1856, os filhos de mulher escrava nascidos a partir daquela data eram livres, mas obrigados a servir os donos até aos vinte anos de idade. A mesma lei proíbe a venda separada de mãe filho de menos de sete anos.

Em 29 de Abril de 1858, fixa-se a abolição da escravatura para dali a vinte anos. A 25 de Fevereiro de ano seguinte, manda-se abolir, desde logo, o estado de escravidão em todo o território português, ficando os antigos escravos na condição de libertos e obrigados a servir durante dez anos aos seus donos. Esta servidão não podia, porém, ultrapassar o limite de 29 de Abril de 1878.





segunda-feira, 23 de maio de 2016

Inauguração do uso de camiões automóvel, em 1915, na Campanha contra os Cuanhamas em N'giva





No sul de Angola, de recente colonização portuguesa, a forte resistência dos Cuanhamas e alguns revezes do exército colonial na região justificaram um outro tipo de ocupação militar sistemática.
É na campanha de 1915 contra os Cuanhamas na sua capital N’giva, que se inicia o uso dos camiões automóveis. Os serviços excelentes prestados pelos carros boers no Bié, no Bailundo e no Moxico, entre outros, dependiam do alimento e da água para os animais. No sul a obtenção da  água era um problema que colocava o exército na mão das populações locais.

No final das operações ficou completa a estrada de automóveis desde a linha do caminho-de-ferro até ao interior do distrito da Huíla. O trajecto entre Mossâmedes e a N’giva, que anteriormente se fazia em 60 a 80 dias passou a poder fazer-se em 36 horas. A rapidez do avanço sobre a N’giva, a capital, ficou a dever-se aos camiões, embora os carros boers seguissem na retaguarda. As populações não conheciam a velocidade nem o rendimento do motor das novas máquinas de transporte.


segunda-feira, 9 de maio de 2016

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe




"De expressão moderna, com volumes de silhueta triangular, em articulação com um expressivo corpo troncocónico em betão aparente, onde se rasgam pequenos vãos de modo irregular, no tipo da Igreja de Romchamp, por Le Corbusier.  Foi projectada pelo arquitecto Luís Taquelim na década de 1960. "
José Manuel Fernandes, professor catedrático na Faculdade de Arquitectura da UT
 










 

 
 

 

 
 Como Ronchamp, a Igreja de S Pedro,  de um branco brilhante em sua fachada, paredes em ângulos rectos, curvos, a um tempo triangular,  redonda, alongada, baixa,  alta, vasta, fechada, aberta sobre exterior, com pequenas janelas irregulares que permitem  e penetração de jogos de volumes de luz.


 

OLHAR A IGREJA DE S. PEDRO DE MOÇÂMEDES/NAMIBE, SOB UMA PERSPECTIVA DIFERENTE...



Regra geral, olhamos superficialmente os edifícios, sofremos o impacto daquilo que eles a nossos olhos  representam, gostamos, não gostamos, fazemo-lo empiricamente, apoiados exclusivamente na experiência e na observação, sem quaisquer análises estética ou ideológica do edifício em si, sem nos preocuparmos com correntes arquitectónicas, nem com aquilo que eles representam, a menos que tenhamos uma formação académica ligada às coisas da arquitectura.

A Igreja de São Pedro na cidade de Moçâmedes, actual Namibe, em Angola, projectada pelo arquitecto Luís Taquelim na década de 1960, tem algo mais a nos transmitir. Ela segue a arquitectura modernista da Igreja Notre-Dame du Haut (Nossa Senhora das Alturas), mais comumente Igreja de Ronchamp,  projectada por Le Corbusier, considerado o farol da modernidade, reconhecido por alguns dos cometimentos arquitetónicos mais extraordinariamente significativos do século XX, e decisivo para o desenvolvimento da arquitectura da segunda metade do século.

Debrucemo-nos um pouco da  Igreja Ronchamp, situada no alto de uma colina vasta e verdejante, a sudeste de Paris, ocupa um lugar que desde há muito de peregrinação católica,  e que fora destituído de seu principal símbolo de comunhão, a sua Igreja, atingida por um bombardeamento alemão, no Outono de 1944. Esse mesmo edifício já havia substituído outro anterior, destruído por um incêndio em 1913. http://www.archdaily.com.br/…/classicos-da-arquitetura-cape…".

Construída na década de 50, a Notre Dame du Haut foi desenhada para "criar um local de silêncio, oração, paz e alegria interior", segundo Le Corbusier. Classificado como monumento histórico desde 1967, o edifício atrai anualmente cerca de 80 mil turistas.

 Ronchamp foi uma obras polémica, tanto por parte dos arquitectos, quanto pelo público.  Uns viram em Ronchamp  quer um regresso ao passado, quer à plasticidade, outros um indício da crise do racionalismo. Com Ronchamp, a reprodutividade e a  estandardização cedem espaço à experiência singular,  arquitectura e história relacionam-se, ergue-se o valor da dimensão simbólica, social e cultural. De um branco brilhante em seus muros externos, paredes grossas e curvilíneas, a um tempo quadrada e redonda, alongada e contida, baixa e alta, vasta e aberta sobre o exterior, com pequenas janelas irregulares que permitem o jogo dos volumes sobre a luz. Ronchamp foi depredada numa tentativa de furto e sofreu um dano irreparável,  o único vitral assinado pelo grande mestre foi completamente destruído.



 Ronchamp


Quanto à Igreja de S. Pedro de Moçâmedes/Namibe, de Taquelim, inspirada em Romchamp de Le Corbusier, esta foi construída no quadro do Estado Novo, ela faz parte do conjunto de edifícios modernos que vieram  romper com numa época em que a arquitectura portuguesa era condicionada à vontade do Estado e da ditadura vigente, que se impunha incluso ao nível do gosto e da estética dos cidadãos, com reflexos na arquitectura e no urbanismo. (1) E não  romperam apenas com a tradição estado-novista,  mas também com a  arquitectura eclesiástica  ligada ao dogmatismo religioso, opostas à linguagem moderna de Le Corbusier,  que se  vai revelar em terras da África portuguesa, pela mão de  alguns arquitectos que para lá "emigraram",  munidos de uma nova visão fortemente influenciada pela produção da arquitetura brasileira,  que preconizava uma linguagem internacional.
 Inicialmente conformados,  com o advento do modernismo e o forte impacto da arquitectura brasileira junto às novas gerações de arquitectos, os arquitectos portugueses acabam influenciados.
Em terras de África, mais libertos de condicionalismos ideológicos,  desde a década de 40, vários arquitectos formados em Portugal puderam levar a cabo um conjunto de intervenções arquitetónicas e urbanísticas influenciadas pelo modernismo, uma vez que do ponto de vista climático o Brasil era semelhante ao continente africano, com soluções e técnicas já experimentadas e saberes sedimentados que poderiam ser transpostos para aquele contexto. Eles construíram edifícios modernos em Angola, acontecendo porém que décadas após a independência, aquele que era provavelmente o mais emblemático de todos, o Mercado do Kinaxixe, foi demolido e no seu lugar viu  nascer um centro comercial com seis pisos e duas torres. 
Com a independência, a generalidade dos arquitectos regressaram a Portugal, mas alguns partiram para o Brasil, estabelecendo a sua actividade naquele país. Em Moçâmedes/Namibe, esse "modernismo tropical" para além da Igreja de S. Pedro, deixou algumas outras obras de um modernismo de ponta que muito dignifica aquela cidade, quer por aquilo que representam do ponto de vista histórico-ideológico, quer pela contribuição estilística para a paisagem urbana.

Não queremos terminar sem integrar aqui um texto relacionado com o projecto desta nova igreja então a construir em Moçâmedes, de acordo com o plano de urbanização da cidade de Moçâmedes, aprovado pelo Ministro do Ultramar, Sr. Comandante Sarmento Rodrigues. Reproduziremos, para tal, a crónica da Agência Geral do Ultramar, distribuída pela Casa da Metrópole de Luanda e publicada no Diário de Luanda de 19 de Janeiro de 1952.

"A fachada principal do novo templo, de grande beleza arquitectónica, apresenta dois baixos-relevos com cenas da vida de S. Pedro, e  é dominada por uma cruz alta, de bronze, iluminada com tubos de neon  que projectarão um cruzeiro com 14 metros e 50.

"A nova Igreja, em cuja planta foram rigorosamente observados os preceitos litúrgicos, tem a configuração de cruz latina. De nave única, permite, de qualquer ponto do seu interior, uma visão perfeita sobre o altar-mor, destacando-se, entre outros pormenores,  a localização do baptistério,  de forma a que o neófito não entre na Igreja antes de baptizado, e a da câmara mortuária, com entrada independente, o que permite a normal celebração do acto do culto.

"Tanto a escultura, como a pintura a fresco, contribuem para realçar a beleza do magnífico conjunto arquitectónico, dando-lhe a dignidade e imponência próprias do elevado fim a que se destina esta nova obra. No topo de uma das naves haverá um carrilhão e um indicador das condições atmosféricas, de grande utilidade, especialmente para a população piscatória da cidade, e na torre  um relógio e um sino de grandes dimensões.

In Conspecto Imobiliaário do Distrito de Moçâmedes nos anos 1860 a 1879 por Manuel Júlio de Mendonça Torres
Boletim Geral do Ultramar . XXX - 348 e 349
PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.
Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.


MariaNJardim



(1)  Trata-se de um tema pouco debatido,  o da Arquitectura  Moderna desenvolvida nas antigas colónias.  Durante a vigência do Estado Novo, a arquitectura era usada como um instrumento de propaganda do Regime. A Exposição do Mundo Português em 1940, marcou a viragem para uma produção com características nacionalistas e monumentais, e no ano seguinte é apresentada em Lisboa a Exposição da Moderna Arquitectura Alemã, organizada pelo arquitecto Albert Speer, o preferido de Hitler.  O Estado passou a impor os seus próprios valores na arquitectura, e os arquitectos que anos antes tinham seguido os princípios do Movimento Moderno passaram, salvo raras excepções, a instrumentos da criação dos modelos da ditadura, sendo  toda a encomenda pública centralizada no Ministério das Obras Públicas, e controlada pelo ministro Duarte Pacheco. Os edifícios públicos (universidades, cine-teatros e tribunais) aproximavam-se dos exemplos alemães e italianos da época, com um forte carácter monumental e clássico, cujo objectivo era  transmitir aos cidadãos a ideia de autoridade e ordem. Nos edifícios de menores dimensões nas pequenas cidades era escolhida uma linguagem mais regional ( em escolas primárias, pousadas, edifícios dos Correios e da Caixa Geral de Depósitos e nos bairros de habitação social). Em Lisboa raros  arquitectos se opunham às imposições do Estado Novo. No Porto logo ao nível das escolas notava-se a diferença, alí o mestre, o arquitecto Carlos Ramos, apesar de adepto do regime, mantinha uma postura mais liberal, e incentivava os alunos a descobrirem outros caminhos na arquitectura, em constante mutação. Com o fim da II Guerra Mundial Salazar foi proporcionando uma maior abertura no campo cultural, e o I Congresso Nacional de Arquitectura, promovido pelo Governo para celebrar os  “15 Anos de Obras Públicas”,  na verdade, foi o início da contestação da classe de arquitectos. Ao longo dos nos 50 assiste-se a uma progressiva libertação da arquitectura portuguesa que se vai aproximando  dos circuitos internacionais.







segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Uma perspectiva de Moçâmedes, in Navegação de Paz e de Glória, de Dutra Faria

Navegação de paz e de glória.: FARIA, Dutra, 1910-1978






"SUBINDO A SERRA DA CHELA"


..."Cidade de pescadores,em seu aspecto portuguesíssima e paupérrima,com sua população humilde formada por algarvios e outros homens do litoral metropolitano , laboriosos, tenazes,com o gosto, o amor, a paixão do mar,proprietários e tripulantes de trezentos barcos -- Moçâmedes há muito que ficou para trás entalada entre as ondas do Atlântico sulcadas de velas,as rochas da Torre do Tombo esburacadas de cavernas e as areias e pedregais do mais feio, mais árido e mais monótono deserto do mundo,através do qual as cabras de leque galopam,tímidas e airosas,numa fuga desabalada e pânica...

... De novo desembarcados, o nosso automóvel galga já os contrafortes da imensa e agressiva serra da Chela. Os olhos descobrem,na estrada, as primeiras curvas perigosas;alcançam da estrada os primeiros abismos tenebrosos. Lá em baixo,é o deserto que se alonga até aos confins do horizonte"....."Sucedem-se, essas ruínas, por assim dizer de quilómetro em  quilómetro, nuas, desamparadas, esquecidas, sem uma lápida, sem um placa que fale da sua história aos que passam, trágicas como túmulos abandonados. Páginas apagadas -- desfeitas -- de uma epopeia silenciosa e anónima. Marcos de um esforço e de uma vontade animados por uma esperança e por instinto de império. Passos de um lento calvário. Outras tantas experiências de colonização ao longo dos caminhos da serra, na marcha para os planaltos de Angola"...

...A terra parecia fértil, luxuriante, a vegetação dócil, o gentio. Detinha-se numa daquelas clareiras, uma família de colonos. Desengatavam-se os bois da "espana".Amassavam o barro.Punham os tijolos a secar ao sol. Derrubavam árvores. Desbastavam troncos. Levantavam as paredes da casa, cobriam-nas de capim bem seco. E mal o fogo crepitava na pedra da lareira, afugentando para longe as sombras e os pavores da noite africana, o colono voltava-se para a terra, ateando queimadas, arrancando raízes,abrindo canais de irrigação, revolvendo endurecidos torrões a golpes de enxada,deitando,enfim,nos primeiros sulcos do arado,os primeiros grãos de trigo ou de milho. Mas a terra negava-se. Não era,afinal o que parecia. Novamente o colono engatava os bois, novamente partia, comprido chicote em punho, deixando a casa,voltando-se as costas... Mais adiante !...mais adiante !..."

...Entrámos nós também no planalto. Entretanto anoiteceu, e por cima das nossas cabeças parecem mais perto de nós as estrelas. Acabou-se a estrada tormentosa, íngreme,ladeada de precipícios. Rectas agora sucedem-se às rectas. Depois, ao longe, avistam-se luzes como de uma grande cidade. Mas aquelas luzes movimentam-se, deslocam-se, avançam, correm -- vêm ao nosso encontro. São archotes, milhares de archotes empunhados por milhares de pretos. A uma luz vacilante e vermelha destacam-se da treva, por entre a fumarada, tatuagens medonhas, colares e pulseiras de luzidio cobre, facas e azagaias que reluzem, carapinhas emplumadas, bocas abertas, escancaradas num pasmo selagem. " (pgs.: 142-143-144-146) 

(Transcrições parciais da obra: "A NAVEGAÇÃO DE PAZ E DE GLÓRIA" , de DUTRA FARIA (1910-1978) em "ANTOLOGIA DA TERRA PORTUGUESA - O ULTRAMAR PORTUGUÊS - ANGOLA" - 1961  
Agência Geral das Colónias, 1945 - 165 páginas

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

As colonias portuguezas no seculo XIX, by Manuel Pinheiro Chagas


Pinheiro Chagas um dos mais importantes e influentes políticos do seu tempo (1842-1895)





Pinheiro Chagas viveu uma época de grande tensão, em que Portugal era confrontado com crescentes problemas levantados pelas potências europeias, especialmente a Grã.Bretanha e a Alemanha, interessadas na "Partilha de África", para além das pressões antiesclavagistas lideradas pela potência britânica que punha em crise a velha partilha de esferas de influência naquele continente, e ameaçava a manutenção do controlo luso sobre boa parte dos territórios tradicionalmente reclamados como estando sob soberania ou protectorado português. Estas e outras questões, levaram à convocação da Conferência de Berlim, que decorreu de Novembro de 1884  a Fevereiro do ano seguinte, num ambiente de grande exaltação patriótica em Portugal, em boa parte preparado. Foi neste contexto que Pinheiro Chagas se associou a um grupo de intelectuais e políticos para fundar, à imagem das sociedades de exploração britânicas, a Sociedade de Geografia de Lisboa. O objectivo era dar corpo a um conjunto de viagens de exploração em África que rivalizassem com as realizadas sob a égide britânica, francesa e belga. Foi assim que nasceu o mapa cor-de-rosa e se realizaram as grandes viagens de exploração entre 1884 e 1885. Pinheiro Chagas  manteve sempre uma muito activa presença parlamentar e na imprensa, para além de ser à época considerado como um dos mais conceituados escritores portugueses.  Faleceu em Lisboa a 8 de Abril de 1895. Foi um dos grandes vultos da história portuguesa, tendo sido vítima de uma odiosa agressão, mal esclarecida, da qual nunca se recuperou.
Eis como Pinheiro Chagas encararava o estado de abandono em que se encontravam as colónias africanas às vésperas da Conferência de Berlim (1884-5), onde, excepto a acção de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o fundador de Moçâmedes, pouco mais se fazia !


"...As colónias africanas eram um vazadouro para onde despejávamos todas as fezes que tínhamos no reino. Com degredados as povoávamos, com degredados formávamos o seu exercito e, quando não eram degredados, que o compunham, eram batalhões expedicionários que levavam do continente os mais torpes elementos das tropas nacionaes."

Em 1817, quando acabou a guerra peninsular e se tratou de mandar uma expedição para Montevideo, organizou-se com a flor dos nossos regimentos, pozeram-se à sua frente officiais como Lecou, Saldanha, Azevedo e Claudino.

Em 1835, pouco depois de ter acabado a guerra da liberdade, quando se quiz mandar uma expedição para Cabo-Verde, organisou-se um batalhão com os soldados mais ruins e indisciplinados que havia, não no exercito vencedor mas no exercito vencido. Por isso, a façanha que esse batalhão praticou foi matar todos os seus officiaes, á excepção de um ou dois alferes, que escaparam por milagre t

Se essas "colónias não eram senão ninhos de escravos, e era a escravatura a única fonte da sua receita ! . . . Sá da Bandeira appareceu, esse animo generoso. Promulgou a lei de 1836 que abolia a escravatura, e procurou fazel-a cumprir. Mas todos os interesses feridos se sublevavam contra elle. Alcunhavam-no de utopista, accusavam-no de arruinar as colónias. Os governadores que iam para o ultramar, com ordem expressa de acabar com o odioso trafico, viam-se obrigados a transigir, ou a fugir.
Em Moçambique, o marquez de Aracaty, um Oeynhausen, tinha de suspender a lei de 1836  porque os escravistas não a deixavam executar. D. António de Noronha em Angola, depois de uma lucta formidável, tinha de fugir quasi para a Europa. Joaquim Pereira Marinho, em Moçambique, via-se salteado por toda a espécie de calumnias, e por uma guerra ferocíssima, porque effectivamente debellava os escravistas. O tratado com a Inglaterra concluído em 1842 impunha-nos sacrifícios enormes, sujeitava-nos a continuados vexames, e a tudo nos resignávamos para cumprir lealmente a nossa missão emancipadora. E, emquanto o cruzeiro portuguez se mostrava implacável com os navios que transportavam escravos, emquanto as nossas colónias definhavam porque perdiam uma receita que não era substituída, os navios inglezes tomavam os negros escravos não para os libertar, mas para os levar ás suas colónias, e estas floresciam com o trabalho gratuito dos braços que à escravatura deviam.

De vez em quando algum estadista, algum governador do ultramar pensava nas colónias, muito de relance comtudo, que as guerras civis absorviam-nos. Bonitas palavras na camará de vez em quando, actos raríssimos. Apparecia Pedro Alexandrino em Angola, procurando explorar e conhecer a província, implacável com a escravatura, mas tentando deveras fazer alguma coisa útil.

Depois em 1849 appareceu também um homem dedicado, enérgico, de verdadeira iniciativa, Ber- nardino Freire de Abreu e Castro, que era o verdadeiro fundador da colónia de Mossamedes. Lu- ctava com innumeras dificuldades, mas a colónia lá ia rompendo lentamente, até que afinal se trans- formou na villa, que é hoje uma das nossas glorias ultramarinas. Ha quarenta annos ! E pouco mais se fazia ! Em 1852 appareceu um decreto, em cujo preambulo se dizia pomposamente que, sendo notório e incontestável que innumeros emigrantes portuguezes iam procurar trabalho no Brazil, sonhando phantasticas riquezas e não encontrando afinal senão a miséria e a morte, sendo incontestável ainda que os madeirenses iam procurar em Demerara, nos climas inhospitos da Guyana ingleza, as febres que faziam d'essa colónia britânica um cemitério para os portuguezes, era indispensável que se tratasse de derivar para as nossas colónias africanas essa emigração nacional, e com esse louvável intuito de crear um imposto nas colónias sobre a importação dos vinhos e aguardentes de Portugal. Palavras, e só palavras. Trinta e três annos depois é que o auctor destas linhas fundava n'esse districto de Mossamedes, tão claramente indicado para a colonisação portugueza, as auspiciosas colónias Sá da Bandeira e S. Pedro de Chibia !"


As colonias portuguezas no seculo XIX (1811 a 1890)

https://archive.org/details/ascoloniasportu00chaggoog

Moçâmedes e o regresso das forças que participaram nas campanhas do Cuamato em 1907




Na Chibia, recepção à Forças que regressaram do Cuamato


Em Moçâmedes, as  forças que regressaram do Cuamato



Na busca de uma interpretação para estas imagens, intimamente ligadas às campanha do Cuamato, em 1907, encontrei as seguintes passagens:

...Aquellas forças que regressaram do Cuamato atravessaram as principaes terras do planalto no meio de festas ruidosas e carinhosas recepções, feitas pelos habitantes impulsionados por um grande sentimento patriótico, que nunca poderemos esquecer; festas que foram o preludio das grandes demonstrações de alegria com que no reino foram acolhidas enthusiasticamente as tropas da metrópole que tomaram parte na columna e o commandante d'ella. 

Em Quihita cumprimentaram-nos e receberam-nos aflectuosamente os missionários ali installados.

...Na Huilla fizeram o mesmo os que lá dirigem proficientemente o grande e antigo estabelecimento missionário do Espirito Santo; aqui estava o nosso conhecido padre Bonefoux, superior geral das missões do planalto, e tanto elle como os seus zelosos coadjutores,redobraram para comnosco de carinho e affecto, de attenções e de dedicações que nunca poderão ser esquecidas; e na povoação da Huilla as auctoridades e a pequena colónia europeia com o seu parocho, o reverendo missionário Pereira, de uma grande amabilidade, aclamaram com enthusiasmo a columna á sua passagem.

A Chibia engalanou festivamente, e a sua numerosa população foi da mais cordeal e franca amisade em todas as festas que nos proporcionou, desde a recepção fervorosa de enthusiasmo que nos fez, até ao grande banquete onde a gentileza das suas damas chegou ao delicado requinte de nos servirem graciosamente a refeição.

Dois dias depois da nossa chegada ao Lubango, a 12 de novembro, era publicada uma ordem de serviço dissolvendo a columna, e indicando ás unidades os dias da partida de cada uma para Mossamedcs, onde de novo nos reunimos todos ahi pelo dia 18 daquelle mesmo mez.

No Lubango o enthusiasmo augmentou com o numero dos manifestantes e o fervor do seu patriótico contentamento, desde o dia em que chegamos até aquele em que com novas festas nos compensaram, em dias alegres, das amarguras e perigos passados.

 Nunca poderei lembrar-me dos rápidos dias que passamos n'essa terra, sem recordar a sincera amisade, o grande enthusiasmo e patriótico alvoroço com que ali nos receberam, entre todos, João de Almeida o digno escrivão de fazenda do concelho, e o alferes Bernardino Ferreira, de quem já tive occasião de fallar noutro logar.  Dois dias depois da nossa chegada ao Lubango, a 12 de novembro, era publicada uma ordem de serviço dissolvendo a columna, e indicando ás unidades os dias da partida de cada uma para Mossamedcs, onde de novo nos reunimos todos ahi pelo dia 18 daquelle mesmo mez. Descrever minuciosamente as festas ruidosas com que a galharda população de Mossamedes recebeu durante alguns dias os expedicionários, é tarefa que infelizmente não posso fazer por não ter podido assistir a ellas. Mas se eu disser que a hospitaleira cidade, bellamente engalanada, esteve em festas constantes, durante aquelles dias, só interrompidas para prestar a homenagem da sua dor ao marinheiro que lá ficou se- pultado, e esta era ainda uma delicada manifestação do seu carinho ; e se eu disser que essas festas, desde a brilhante recepção feita ás forças da columna no terminus da linha férrea (kilometro n.° 73), até ao seu embarque, foram tudo quanto de mais sincero e de mais enthusiasta pôde haver, dando a nota vibrante do civismo dos seus habitantes, seguramente não pecco por excesso, antes ficarei muito áquem da verdade.

Essas demonstrações de regosijo e de affecto, como as que até ali recebêramos, e que ficarão indelevelmente gravadas no coração reconhecido de todos os expedicionários, terminaram em Mossamedes a 23 de novembro, no momento em que o paquete Africa, levantando ferro, levava para o norte, a caminho da metrópole, um troço dos bravos e valentes soldados que durante cinco mezes se bateram, em regiões inhospitas  e em regiões desconhecidas, comas inclemências do clima hostil e com o furor de um inimigo ousado, levantando bem alto, pela nobreza do seu procedimento e pela coragem dos seus esforços, o nome sagrado da PATRIA PORTUGUEZA. Embora por uma pena obscura e humilde, descriptos sem o brilho e sem o realce merecidos, que os seus feitos heróicos e a sua brilhante conducta li quem para sempre gravados nos annaes da nossa historia militar colonial.



A campanha do Cuamato em 1907: breve narrativa acompanhada de photographias



Published 1908

Full text of "A campanha do Cuamato em 1907: breve narrativa acompanhada de photographias"

 Conferencia sobre o sul de Angola, Por J.A. Roçadas:

https://books.google.pt/books?id=xQkTAwAAQBAJ&pg=PA13&dq=boers+em+angola&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwiVotGMiJ7LAhUKHxoKHa_zA7E4HhDoAQhNMAU#v=onepage&q=boers%20em%20angola&f=false

  https://archive.org/details/acampanhadocuam00castgoog

 

 

  

 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

ILHA DE SANTA HELENA








A propósito de uma notícia, datada de 03-07-2010, e publicada no site"Ango Noticias", relacionada com o líder do Partido Democrático Angolano(PDA), António Alberto Neto, que defende a ideia de que o governo angolano devia encetar negociações diplomáticas a fim de obter a soberania de várias ilhas na Antártida, actualmente sob tutela da Grã-Bretanha, ideia contida aliás, num livro que o político lançara com o título «A Outra Face de Angola», onde reivindica a soberania sobre certas ilhas no continente Antártico, com destaque para Santa Helena, onde Napoleão Bonaparte Bonaparte esteve exilado e onde acabou os seus dias envenenado. Ou seja, 
"... na sua ZEE, Zona Económica Exclusiva. Junta outras ilhas, casos de Bouvet, Mone Maud e Terra da Nova Suécia, que se situam entre o território Sanae, pertença da África do Sul, e a Novalazareskaia, sob tutela da Rússia ":

"...O continente antártico deve pertencer também aos países africanos, pois dele depende a sobrevivência da Humanidade, e o seu uso deve ser para fins pacíficos", fundamenta Alberto Neto, que em tese compara a situação ao caso das ilhas Malvinas, cuja soberania é reivindicada pela Argentina, que durante a década de oitenta chegou mesmo a envolver-se numa guerra com a Grã-Bretanha. Polémica ou não, a ideia está posta à mesa. Embora muitas das ideias que Alberto expende no seu livro sejam velhas de anos, ao editá-las agora significa somente que este velho político as mantém. Algumas são mesmo alvo de recensões e actualizações. Folheando os arquivos da história, consta que Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola independente, terá tido isso em mente, chegando em determinada ocasião a mandar farpas ao Ocidente. Para Alberto Neto, que foi um discípulo de Agostinho Neto, não se trata de uma ideia estéril, sem qualquer utilidade prática para o país. Ele acha que Angola poderia estabelecer na Antártida uma base de estudo – à semelhança da África do Sul, Argentina e Chile – que serviria fundamentalmente para fazer um acompanhamento das riquezas desse continente. Serviria ainda, segundo ele, para coisas como o monitoramento da «corrente fria de Benguela e do plâncton acumulado no fundo do mar e depositado na nossa costa. "

FIM DE CITAÇÃO.



Falemos agora um pouco da Ilha de Santa Helena...
 
A ILHA DE SANTA HELENA
(alguns subsídios para a sua História) 

A Ilha de Santa Helena, a pequena e isolada ilha situada entre Angola e o Brasil, quase a meio do Oceano Atlântico, pertencente ao arquipélago com o mesmo nome, formado por três ilhas, distantes 5.000 quilômetros entre si: Ilha de Santa Helena, ilha Ascensão, e ilha Tristão da Cunha,  foi descoberta por acaso, em 1502, por João da Nova, navegador turco galego ao serviço de Portugal, que fez parte, no passado, da rota dos navegadores portugueses a caminho da Índia.  A descoberta da Ilha por portugueses foi mantida em segredo durante bastante tempo, para evitar que holandeses e ingleses se apossassem dela, e o arquipélago era ao tempo da sua descoberta desabitado. Santa Helena recebeu em 1515 o seu primeiro habitante permanente, o soldado português Fernão Lopes, que permaneceu isolado em na ilha até 1545,  excepto por ocasião de uma breve visita que fez à Europa, após 10 anos de isolamento na ilha. Mas na verdade Portugal nunca a colonizou Santa Helena, e a ilha acabou ocupada no século XVII, sucessivamente, por Holandeses, em seguida por Ingleses, passando em 1673, definitivamente à posse da Inglaterra.  Há notícias que no século XVI, a Ilha de Santa Helena foi usada como base para as aguadas e para o abastecimento das tripulações, ponto de passagem que se tornara  dos navios negreiros ingleses a caminho das Américas. Os cidadãos de Santa Helena são pois, brancos, filhos de ingleses, não falam a língua dos portugueses que a descobriram. Ao arquipélago nunca chegaram as invasões banto, nem nunca lá esteve algum banto. A escolha do nome para o arquipélago deve-se a Helena de Tróia, santa da promiscuidade.

Santa Helena foi também lugar de degredo, para onde a Inglaterra costumava enviar seus presidiários de altíssima periculosidade. Aliás, a Ilha de Santa Helena ficou famosa porque a determinada altura da ocupação inglesa recebeu um hóspede muito especial, Napoleão Bonaparte, depois de ser expulso da França, como "cidadão-non-grata e traidor da república". Foi em Santa Helena, seu segundo exílio, o local onde o envenenaram com os característicos copos de leite matinais com arsénico, matando-o. A aproximação  à  ilha de Santa Helena foi severamente bloqueada após o desembarque de Napoleão Bonaparte. Este bloqueio durou até 1821, ano da morte deste prisioneiro especial, em 05 de maio de 1821, no mesmo ano em que Dom João VI, que se refugiara no Brasil com a corte, fugindo às invasões francesas, regressou a Portugal, e desembarcou em Lisboa no dia 04 de Julho de 1821, após a queda do absolutismo em Portugal e triunfo dos liberais, em 1820.

A ilha de Santa Helena é uma das emergências de uma cadeia de montanhas submersas que existe entre a África e a América, possui uma população de aproximadamente 4 mil habitantes, sendo a maioria descendentes dos colonos britânicos, dos empregados da Companhia Britânica das Índias Ocidentais e dos trabalhadores trazidos do sul da Ásia, Índias Ocidentais, Madagáscar e China.  A Ilha  não possui riquezas, vive de ajuda da Inglaterra. Para se ter uma noção, a Ilha não possui nenhuma praia, sendo o seu litoral completamente rochoso, o que impede grandes projectos para desenvolvimento do turismo. A economia local baseia-se no turismo de pessoas endinheiradas que não se importam de viajar para o fim do mundo, apenas para ver a última cama de Napoleão, o último copo de Napoleão e vários outros apetrechos fim-napoleónicos mantidos intactos.  Para os naturais da ilha onde chegaram os portugueses em Maio de 1502, o turismo poderá mudar de maneira permanente o modo de vida local. A construção de hotéis - há inaugurações já para este ano -, estâncias balneares, a venda de propriedades, a própria pressão demográfica deixarão marcas na ilha que tem uma superfície de 122 km2 (a do Faial, nos Açores, tem 172 km2 e 15 mil residentes), paisagens deslumbrantes e uma temperatura média entre os 20-27 graus.  O arquipélago não possui aeroporto, e para acudir a qualquer acontecimento que ocorra na ilha, os habitantes servem-se de um barquinho pesqueiro denominado "RSS SOS". No entanto chega-nos presentemente a notícia do fim da era de isolamento em Santa Helena. Vôos regulares vão ter início em Maio de 2016, no local onde viveu o "Robinson Crusoé português". Santa Helena, um dos locais mais isolados e difíceis de visitar no planeta, quase a meio do Atlântico Sul, a 2200 quilómetros da costa angolana, passará a ter um aeroporto. Será o fim de séculos de reclusão.

Concluo integrando em seguida dois comentários relacionados com o citado texto, publicado no site"Ango Noticias":

"As fronteiras dos países africanos são resultado da colonização.  De acordo com a Carta da União Africana, no seu artigo 4.º, alínea b), as fronteiras dos países africanos são as existentes desde o momento da acessão à independência, princípio que já havia sido invocado com a Carta da OUA. Antes nunca houve uma Angola. Muito menos uma Angola que integrasse essa distante ilha de Santa Helena. Aqueles que defender tal ideia absurda deviam pensar que Angola até vive o problema de Cabinda.  É nosso dever cívico esclarecer essa situação. Cabinda fazia parte da Angola colonial Aquando da descolonização, em momento algum ficou discutido que se devia rever a titularidade daquele território. Nem sequer era um assunto"

Outro comentário:  "Santa Helena não é nossa!" :

"De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, os países costeiros têm direito a declarar uma zona económica exclusiva ZEE) de espaço marítimo para além das suas águas territoriais, na qual têm prerrogativas na utilização dos recursos, tanto vivos como não-vivos, e responsabilidade na sua gestão. A ZEE é delimitada por uma linha imaginária situada a 200 milhas marítimas da costa. A ZEE separa as águas nacionais das águas internacionais ou comuns. Santa Helena está a 1.000 milhas da foz do Cunene, o ponto mais próximo da Costa. "

Ainda outro comentário de "BB":

"Santa Helena é de quem lá está!!! E se não estiver ninguém, é de quem lá chegou primeiro. Senão, mudo de opinião e acabo por dar razão aos grupos independentistas cabindeses."

FIM DE CITAÇÕES E DO TEXTO