Aqui procurarei depositar, despretenciosamente, retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe) aos quais vou tendo acesso, uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas... outros, rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... E ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e em experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os mesmos erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 4 de janeiro de 2015

Postal antigo da baía de Moçâmedes (Namibe) com poema de Joaquim Paço d'Arcos


Clicar sobre o postal, para aumentar. É panorâmico


Joaquim Paço D' Arcos escreveu este poema sobre Moçâmedes. Assim a preto e branco Moçâmedes (Namibe) apresenta um aspecto muito triste, como aliás devia ser, e que já nada tem a ver com aquilo em que se foi transformando ao longo do tempo, sobretudo a partir de meados do século XX .

Eis o poema:

Moçâmedes, Beijada pelo Deserto

"A velha ponte-cais de traves carcomidas,
O morro triste, a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre da sua poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."

In"Poemas Imperfeitos" de Joaquim Paço D' Arcos

Mas Quem foi Joaquim Paço D´Arcos ?
Nasceu em Lisboa, em 1908 , seguindo em 1912 para Moçâmedes onde viveu de Setembro de 1912 a Fevereiro de 1914, devido à nomeação do pai para Governador do Distrito. Era neto do primeiro conde de Paço d'Arcos. Romancista, dramaturgo, ensaísta e poeta, foi premiado diversas vezes e muito lido nos anos 40 e 50 do século XX. Uma das suas obras mais conhecidas é o conjunto de seis romances Crónica da Vida Lisboeta sobre a qual Óscar Lopes disse: «Quando se quiser ver a nossa época [anos 40 - 60] num cosmorama literário, tal como hoje vemos a época da Regeneração através de Camilo, Júlio Dinis ou Eça de Queirós, será preciso recorrer a estes romances de Paço d'Arcos quanto a determinados sectores portugueses.» Na poesia, a sua obra encontra-se em Poemas Imperfeitos, de 1952

Clicar sobre o Postal. É panorâmico.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Fábrica Africana, a primeira fábrica de conservas de Moçâmedes, Namibe, Angola





Perspectiva da Fábrica Africana, primeira fábrica de conservas iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 ,  de Figueiredo * e Almeida, Lda.  Repare-se, em cima, à esq, a então Avenida Felner já a entrar pela Torre do Tombo, com as poucas casas que nesta altura alí existiam e pertenciam, a da esq. à familia Grade, e as três da dt,. a Conceição e Manuel Paulo, à familia Velhinho e a António Paulo. Situo nos anos 1920/30  esta foto.



Outra perspectiva  que nos  permite ver os carris de ferro por onde passavam as vagonetas que levavam o peixe da ponte para o seu interior da Fábrica, para onde entrava em linha recta. O pescado era então descarregado para ser escalado e cozido em grandes caldeirões. Em seguida vinha a fase do enlatamento. No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por enlatadeiras africanas.



Srs. de chapéu e gravata à porta da entrada da Fábrica (proprietários e empregados?) Sabe-se que esta Fábrica recebeu a visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932. Será que esta foto é dessa altura? Estariam ali, encostados, a aguardar a visita? 

 
 Perspectivas


Aqui também se secava peixe em giraus ou tarimbas...

A escalagem era uma das primeiras operações...
 
A seguir vinha a fase da cozedura em grandes caldeiras...




O peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração
O enlatamento e as enlatadeiras

O encaixotamento
Como referi atrás aqui também se  comerciava peixe seco

Perpectivas



Perspectivas




 
Do portal Memória Africa , Boletim Geral das Colónias  ( Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola) Portugal. Agência Geral das Colónias , N.88 - vol VIII. 1932, pg 407, retirei estas fotos da visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932, já no quadro do Estado Novo (Salazar), a esta fábrica. 



Através da leitura do memo Boletim das Colónias, N.88 - vol VIII. 1932, pg 407 , na parte que interessa, ficámos a saber que esta fábrica, nessa altura se denominava "Fábrica Africana" e que o sector de legumes e conservas de frutos se encontrava ainda fase de apetrechamento, estando empenhado neste projecto o Dr. Torres Garcia, administrador da Companhia de Mossâmedes.  
O Ministro das Colónias, segundo aquele Boletim,  visitou também outra empresa fabril de conservas de peixe, essa propriedade de Manuel da Costa Santos, mas não refere o local em que a mesma se encontrava instalada. Na verdade, a poente da "Fábrica Africana" ficava uma outra fábrica, mais pequena, pertencente a Costa & Pestana. 

Quanto à "Fábrica Africana", sabemos mque foi instalada em edifício propositadamente construido para esse fim,  e que se encontrava dividida em dois corpos, um dos quais comunicando directamente com uma ponte pertencente à mesma empresa. Destinava-se de início a enlatados dos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria, conforme consta do apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), por sua vez referido na obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes.

Como se pode ver pela duas fotos acima,  no topo das janelas da "Fábrica Africana"  encontravam-se escritos os produtos enlatados que ali se produziam: conservas de carnes salgadas, conservas em azeite (de atum, sarrajão, cavala, merma), conservas de fruta, conservas de escabeche, peixe fumado, etc. Vê-se também como símbolo da Fábrica, uma águia.

Há indicações que na década de 1920 e 1930 se exportava daqui produtos de alta qualidade para o mercado italiano e para os Congos-Belga e Francês e  Gabão, que rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos, o que levou ao surgimento de novas conserveiras.


Transcrevemos a seguir uma passagem de um apontamento histórico de Antonio Martins Mendes da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes **, subordinada ao tema «Pescas em Portugal - Ultramar- onde o autor nos relata algumas passagens de um importante relatório do Carlos Carneiro, veterinário em Moçâmedes nas décadas de 20, e 30 do século passado:
 
«... Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu primeiro relatório de serviço (Carneiro, 1931). Nesse trabalho começa por evocar o ano de 1921, ...


«...No seu importante trabalho o Dr. Carlos Carneiro aborda o estado da Industria de Conservas. Ficamos a saber que a construção da primeira fabrica fora iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 e estava destinada aos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Preparavam também óleos de pescado que, depois de várias análises e melhoramento da técnica de fabrico, tinham colocação fácil nos mercados britânicos. A fábrica obedecia às exigências da época mas a I Grande-Guerra iria causar grandes dificuldades. A chaparia para o fabrico das embalagens, que era importada e litografada em Lisboa, faltou e a fábrica foi obrigada a fechar. A indústria viria a reanimar-se a partir de 1923, preparando conservas de atum, sarrajão, cavala, mermo, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, mas exportava-se também para os Congos- Belga e Francês e o Gabão. Os produtos exportados eram de alta qualidade e rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos. Por isso fundaram-se outras conserveiras. »
(...)



Encontram-se também referências desta fábrica como sendo  mais adiante no tempo propriedade da Companhia do Sul de Angola, tendo Josino da Costa como arrendatário. Olimpio Aquino era o então gerente. Nos anos 1950 esta fábrica era designada "Sociedade Oceânica do Sul" (SOS). E há uma referência no livro de Paulo Salvador "Era uma vez...Angola " a um indivíduo de nome Santana como tendo sido proprietário da referida Fábrica (?).

 
A Fábrica possuia uma frota pesqueira que tratava das capturas para a laboração, quer para o sector conserveiro, quer para o sector de salga e seca, e farinação. Para a produção das conservas de peixe iam especiamente os tunídeos: atum, albacora, sarrajão, etc. Para a salga e seca iam essenciamente os peixes de escama, tais como corvina, taco-taco, tico-tico, merma, cachucho, carapau, etc. Para farinação iam as tainhas, sardinha, cavala, carapau, etc. As tainhas pelo seu alto teor de gordura possibilitavam umalto rendimento na produção de óleo de peixe. Como atrás referido, o pescado era descarregado através da ponte anexa à Fábrica, e dalí era transportado para o interior da mesma, através de «vagonetas» que deslizavam sobre carris de linha férrea, num trajecto em linha recta,  para após descarregado ser escalado  e cozido em grandes caldeirões, e proceder-se ao enlatamento. No início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar nesse sector, porém mais tarde esta tarefa passou a ser desempenhada por pessoal africano feminino como podemos ver ( eram as enlatadeiras).

Sabemos que na década de 60, após um período aureo de grande produção nesta Fábrica enquanto  Sociedade Oceânica do Sul (SOS), a mesma deixou pura e simplesmente de produzir e foi vendida à Produtos de Angola Lda (PRODUANG) cujos societários eram Gaspar Gonçalo Madeira e seu filho, Ildeberto Serra Madeira. Acabou por se transformar num entreposto para exportação de peixe congelado para Moçambique, situação que se mantinha em 1975, quando da independência de Angola. Gaspar Gonçalo Madeira regressou a Portugal, mas seu filho, Ildeberto Serra Madeira mantém-se em Moçâmedes ainda hoje.
 
Esta fábrica foi testemunho de uma época na história na cidade do Namibe, e hoje em dia corre o risco de desaparecer.  Esperemos que tal não aconteça e que as autoridades de hoje e de amanhã saibam preservá-la, enquanto repersentativa desta fase da conjuntura colonial,  na região de Moçâmedes.

Pesquisa e texto de MNJardim

Créditos de Imagem:
Fotos de ICCT  (7)
foto livro de P. Salvador (1).



* No livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão encontrei o nome do 1º colono  que e instalou numa fazenda na margem dt. do rio Bero, de nome Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da Companhia de Moçâmedes, proprietária da fazenda. Não sei se tem alguma relação com o 1º proprietário da Fábrica Africana. 


Poderemos encontrar referencias à Figueiredo & Almeida limitada  que possuia em Moçâmedes, em tempos mais recuados,  uma casa filial que negociava peixe com algarvios em troca géneros europeus:AQUI 

** E ainda  em Industria de Pesca e seus deriivados do Distrito de Mossâmedes, 1921-22, relatório de um inquérito de Afonso José Vilela, 1923.


Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5 1898

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Subsidios para a História de Moçâmedes, hoje Namibe: 1869 Insubordinação na Fortaleza de S. Fernando






Subsidios para a História de Moçâmedes/Namibe:


Para milhares de degredados condenados pelas leis lusitanas, Angola foi um lugar de castigo.  Após a independência do Brasil, em 1822, Angola tornou-se o principal destino  para prisioneiros detidos pelos mais variados crimes, tendo chegado a receber centenas deles anualmente.  Em 1864, somavam praticamente um terço da população daquela colónia. As sentensas que recaiam sobre os degredados, baseavam-se na tese de que não havia pena mais severa do que forçar a moradia nos espaços conflituosos e incertos daquela que foi a nova «joia da corôa», após a independencia do Brasil.   Foram as praças da 4ª Companhia de Depósitos de Degredados de Moçâmedes, que, ao lado das tropas vindas da Metrópole, colaboraram das Campanhas do Sul de Angola, sob o comando, entre outros de nomes como Alves Roçadas e Pereira de Eça.

A primeira unidade aquartelada na de S. Fortaleza Fernando foi a Companhia de Moçâmedes, criada por portaria de 22 de Agosto do Ministério da marinha e Ultramar. Foi substituida em 1854 pelo Batalhão de Caçadores 3, que ali se manteve por longos anos. Qualquer daquelas unidade teve sempre um elevado numero de degredados nas suas fileiras, e foi esta gente que esteve sempre presente nas várias acções realizadas naquela região sul de Angola ao longo de tes quartos de século. Normalmente dividiam-se entre Moçâmedes, Huila e Capangombe. Em 1861, das seis companhias que compunham o Batalhão de Caçadores 3,  estavam duas na Huila, uma nos Gambos, uma no Humbe e outra em Moçâmedes. Em 1901 este Batalhão foi substituido na Fortaleza, pela 4ª Companhia de Depósitos de Degredados de Angola. Em 1932, já se encontrava aquartelada na Fortaleza de S. Fernando, a Companhia Disciplinar, sucessora da 4ª Companhia de Depósitos de Degredados.

O Depósito de Degredados em Angola, constituiu a mais longa forma de degredo penitenciário, tendo vigorado até 1932, data da proibição do degredo de Portugal para Angola.   Divididos em companhias e classes de comportamento, a disciplina seria o principal critério para avaliar o grau de reconversão moral e social dos condenados. Desempenhavam trabalhos como militares,  nas oficinas, como carcereiros, na limpeza e  tarefas de limpeza, no serviço do Estado ou do Município da província,  nas obras públicas, saneamento das ruas da cidade e de hospitais ou fazendo o policiamento da cidade, integravam companhias agrícolas, após libertados .

A  ocupação portuguesa nas colónias de África no ultimo quartel do século XIX apenas costeira, e as explorações levadas a cabo , não tiveram  qualquer repercussão.   Angola, terra de febres, malária, febre amarela, doença do sono, desinterias, etc., era vista como um cemitério para os europeus que continuavam a preferir emigrar para o Brasil. Os próprios Governadores-gerais em Angola, a maioria dos quais iam sem familia, não demoravam alí mais de um ano. mais de um ano. A fundação de Moçâmedes, com familias portuguesas repatriadas de Pernambuco, fugindo de um clima de ódios e perseguições, era a excepção à regra, uma emergência que o governo soube aproveitar.  A supressão das ordens religiosas após revolução de 1820 travou o evoluir da acção civilizadora  que se pretendia a cargo das missões . Com as imposições impostas pela  Conferência de Berlim (1884-5), o continente africano nos finais do século XIX foi marcado pelo aumento da presença europeia e pela conversão económica a partir da abolição do tráfico de escravos.  Portugal era obrigado a colonizar defacto, ou teria que ceder os territórios que ocupava a outra potência em melhores condições para o fazer. O recurso a degredados devia-se, pois à carência de efectivos humanos para concretizar a ocupação efectiva, até porque a emigração para o Brasil continuava a levar uma grande parte dos excedentes demográficos metropolitanos.  A própria fixação dos madeirenses agricultores na Huíla, por ocasião da Conferência de Berlim, foi efectuada sem um planeamento que gerasse mercados que lhes comprasse a produção.
 
Em termos de exploração sistemática dos territórios africanos do interior, agrícola e comercial, esta praticamente começou a fazer-se a partir do fim da 1ª Grande Guerra (1914-18). interiorizaram-se no mato, tornaram-se comerciantes, constituiram familia com africanas, etc  etc.  Os degredados acabaram por se tornar precursores da colonização. Não foram passivos, eles foram usados -grupo marginal- no contexto de transformação, com o impulso crescente colonial. Foram importantes instrumentos como povoadores e tomaram parte no processo de embate e diálogo cultural, intensificado na segunda metade do século XIX.

MariaNJardim




Insubordinação na Fortaleza de S. Fernando


Em 1869 estava aquartelado na Fortaleza de S. Fernando um contingente de 100 praças pertencentes ao Batalhão de Caçadores 3, na sua quase totalidade criminosos de delitos graves, que ali cumpriam as suas penas. Na noite de 14 de Novembro daquele mesmo ano, essas praças amotinaram-se para protestarem, segundo afirmavam, contra os serviços violentos a que eram obrigados, contra os castigos rigorosos que sofriam, e contra os descontos excessivos que eram feitos nos seus prés. Acusavam o capitão Miranda como responsável de toda aquela situação. Avisado o chefe do Concelho, Major Joaquim José da Graça do que se estava a passar, este dirigiu-se à Fortaleza, onde, perante o seu espanto, os soldados já pegavam em armas. O Major Graça foi alvejado pelos amotinados, com um tiro de pistola, mas sem consequências. Contudo o oficial em causa conseguiu dissuadi-los dos seus intentos, e prometeu, recebê-los no dia seguinte, na secretaria do Concelho, a fim de apresentarem as suas queixas.  Após o diálogo apaziguador, o Major Graça retirou-se, parecendo tudo estar debelado. Porém os soldados voltaram mais tarde a sublevar-se e convenceram-se que os habitantes da vila se preparavam para os dominar pela força. Assim, armados de novo, carregaram as peças, e apontaram-nas para a vila, prontas a fazer fogo. Afirmavam a sua intenção de destruir a povoação e incendiar as casas de seguida. Os moradores apavorados, receando toda a espécie de atrocidades, abandonaram as suas habitações e procuraram refúgio nas Hortas, que ficavam a três quilómetros do aglomerado populacional.  No meio de tão dramática situação, e quando parecia estar tudo perdido, a Sra D. Maria do Carmo Lobo de Ávila, esposa do chefe do Concelho, saiu resolutamente da sua casa, encaminhou-se ligeira para a Fortaleza, e confiada, corajosa, varonil, aparece de improviso perante a turba arrogante e impetuosa dos revoltados. A gentileza senhorial do seu porte e o excesso prestigio das suas virtudes, contiveram-lhes os rancorosos impulsos. Tomados do espanto que o imprevisto lhes causara, e confundidos pela severidade que resumbrava do nublado rosto da dama, receberam-na com todo o respeito, formando fileiras, e apresentando-lhe armas. Perante a atitude de acatamento das praças, a Senhora Dona Maria do Carmo pôde plenamente desempenhar a nobre missão que se impusera: a de os vencer pelo sentimento. Para o conseguir, mostrou-lhes, dominada por irreprimível eloquência, a hidiondez do crime que iam cometer, e dirigiu-lhes, numa inflexão de voz, tocantemente angustiosa, suplicas ardentes e afervoradas. Comoveram-se. Os revoltosos, em cujos olhos borbulhavam lágrimas de arrependimento, protestaram, em seguida, inteira obediência. O Chefe do Concelho, que durante a alocução estivera sempre junto da sua esposa, ordenou-lhes então, como lhe cumpria, que descarregassem as peças e as espingardas e recolhessem a pólvora. Tinham-se entregado. A vila estava salva. O espírito de rancor, de violência e de rebeldia que desorientara as praças, que por pouco as não levou à destruição da mesma vila, fora inteiramente subjugado pela palavra enternecedora duma dama fraca e delicada. (1)Torres obra cit 2 vol pp. 201 a 206


Para este último texto bibliografia consultada:

Cecilio Moreira : "Fortalezas, Fortes, Fortins e Fazendas de Moçâmedes no Sul de Angola". Subsidios para a História de Portugal em Angola. Separata n.8 da Revista Africana Universidade Portucalense, Porto, 1991.



segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A fundação de Moçâmedes, actual cidade do Namibe







Do livro “Memórias de Angra-do-Negro, Moçâmedes – Namibe – (Angola) desde a sua ocupação efectiva” de António Augusto Martins Cristão:

 



«...Em 1848, o nosso Império no Brasil vivia horas de indizível agitação: Na cidade de Pernambuco estalara a revolução política. O ódio e a perseguição manifestaram-se de imediato, fazendo sofrer as mais indignas crueldades e degradantes humilhações a compatriotas nossos que ali procuravam ocupação. É, então que, oprimidos cada vez mais, concebem o projecto de fundar em África uma colónia agrícola que possa valorizar o património nacional. Assim Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que mais tarde seria o chefe do primeiro colonato, fica incumbido de apresentar ao Governo Português o arrojado empreendimento que se propõem levar a efeito. Pedem informações detalhadas de relatórios, de memórias e de mais documentos para que pudessem avaliar da região mais apropriada para se instalarem. Pedem, igualmente, auxílio financeiro ao Governo para custear a sua deslocação e aquisição de engenhos para fabrico de açúcar.

Com o empenhamento de Simão José da Luz Soriano, chefe da repartição de Angola no então Ministério do Ultramar, junto do Ministro - O Visconde de Castro - , é então garantido todo o auxílio e facilidades necessárias àquele arrojado empreendimento.

A verdadeira ocupação desta parcela e, por conseguinte, do que nela se ergueu, deve-se assim e indubitavelmente, à impulsiva decisão, inteligência e heroicidade patriótica daquele que jamais será esquecido saudosamente pelos moçamedenses, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro que, em 13 de Julho de 1848, enaltecido do espírito de demandar terras de África e animado por uma conta de sem recuo endereçou uma carta ao ministro e secretário de estado dos Negócios da Marinha e Ultramar da Nação Portuguesa, escrita em Recife de Pernambuco, onde se pode ler:

«...Eu, que livre de orgulho, afirmo poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, a ir compartilhar dos trabalhos e reveses que acompanham o estabelecimento de uma colónia, só porque vejo que coligo acarreto algum número, mormente dos mais úteis, que são os que entendem do fabrico dos açucares e plantação de canas e mesmo do tabaco e café pois que vivo em relação a muitos engenhos, tendo neles arranjado vários, e hei-de dedicar-me a conhecer com fundamento o modo mais profícuo de fazer açúcar, de agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente com as destilações que, bem dirigidas, são de sumo interesse. Vª Exª desculpará na certeza de que não o faço porque não esteja persuadido do seu profundo saber, mas porque muitas vezes a lembrança de um homem medíocre faz produzir medidas acertadas».

Modéstia! Bernardino não era um homem medíocre. Era um homem de extraordinária visão. Um grande português da estirpe dos «barões assinalados», cujo nome a história registaria com orgulho. Um portugues, que, já nessa altura defendia a tese de que a emigração do País deveria ser canalizada para as suas possessões ultramarinas.

Felizmente que a petição de Bernardino foi atendida. A Portaria nº 2063 de 26 de Outubro de 1848 dizia: «Tenho um grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, no Império do Brasil, feito constar a sua Majestade a Rainha, que desejavam passar para algum ponto das possessões portuguesas, houve por bem em Portaria desta data, mandar expedir providências necessárias para a passagem dos mencioinados portugueses para o lugar das possessões portuguesas em África que por eles for escolhida.»

Em 29 de Março de 1849, o Governador Geral de Angola -Adrião Acácio da Silveira Pinto- informava o Ministro da Marinha e Ultramar de ter sido escolhida a província de Angola e o estabelecimento de Moçâmedes para a formação da colónia.

Em 23 de Maio do mesmo ano, cento e oitenta colonos (116 homens, 39 mulheres e 25 crianças), com Bernardino a chefiar, deixam Pernambuco, rumo a Moçâmedes, embarcando na barca brasileira «Tentativa Feliz» e no brigue de guerra «Douro». Foi de facto uma tentativa feliz.

Bernardino faz assim a descrição dessa viagem aventurosa:


«...Foram os brasileiros quem fez lembrar aos portugueses que escusavam de melhorar terras alheias, quando tinham ainda muitas suas onde podiam procurar fortuna sem sofrerem insultos. E não pareça que é exagero, não, que lá está o dia 23 de Maio deste ano - dia em que o brigue de guerra «Douro», comboiando a barca «Tentativa Feliz» que a seus bordos conduziram 180 colonos, saiu do porto do Recife, à vista de numerosíssimo povo, para falar tão alto, atento o número de testemunhas, que bem se pode aplicar a este respeito o que sobre outrora disse o nosso sempre admirável Camões:
«Estão pelos telhados e janelas
Velhos e moços, donas e donzelas...»

Levando consigo máquinas, instrumentos rurais e seus haveres, e até para nada lhes faltar, víveres para os primeiros tempos, era de pasmar ver aquela gente sair de uma bela cidade, divisando-se no rosto de todos a maior alegria, mesmo sabendo que trocavam uma habitação cómoda e divertida, para irem desembarcar num areal, onde o seu primeiro cuidado seria o de edificar uma cabana para se abrigarem das injúrias do tempo. A todos se ouvia dizer, ao desaparecimento da terra, o que Castilho disse nos seus «Ciúmes de bordo»:
«Sumam-se à vista
Os últimos oiteiros
Dessa terra falaz...»

E se sofrimentos houveram na viagem, nem por isso se ouviram queixas. Algum génio mau quis apurar-lhes a paciência: ventos contrários e bonançosos, com repetidas calmarias, tornaram a viagem longa; todos os colonos iam mal alojados e a epidemia das bexigas desenvolveu-se a bordo, chegando a haver, simultaneamente, 56 doentes, entre colonos e a tripulação. Três adultos e cinco menores pereceram. Não havia facultativo: para os atender tanto exerciam tais funções o encarregado de governar a colónia como o capitão da barca, coadjuvados por um barbeiro e dirigidos por um cirurgião do «Douro» - Francisco António Chagas Franco - o qual logo que da barca se fazia sinal de que era necessária a sua visita, vinha a bordo. Veio quatro vezes com tal prontidão e tão boa vontade que ão sei qual possa elogiar-se mais , se ele em vir, se o comandante em o mandar.

No dia 1 de Agosto entrou em Mossãmedes o Brigue «Douro» e, no dia 4 do mesmo mês, a barca «tentativa Feliz». com 74 dias de viagem. Os colonos vêem outra vez realizado o que o nosso poeta disse outrora aos seus heróis ascendentes:
«Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante...»

Enquanto os colonos e os majores Horta e Garcia se instalavam e examinavam os terrenos aptos para a agricultura, Bernardino seguiu, no dia 16 do mesmo mês, a bordo do brigue «Douro», para Luanda, a fim de se avistar com o Governador Geral. Chegado no dia 22, ali se demoraria cerca de dois meses. O Governador recebeu-o «com as mais decididas provas de contentamento, que igualmente foram manifestadas por todas as autoridades e habitantes da cidade.»
E Bernardino termina o seu relato:

«Esta empresa bem se pode chamar das incredulidades desfeitas, portanto:
1º) Parecia inacreditável que houvesse quem representasse o Governo de S. M. , porque muitas vezes haviam acontecido no Brasil casos iguais aos dos dias 26 e 27, e nunca houve o menor movimento: mas alguém representou.
2º) Parecia inacreditável que o Governo pudesse mandar navios para proteger os seus súbditos: mas mandou.
3º) Parecia inacreditável que ele pudesse fazer despesas para coadjuvar e transportar para as possessões africanas os que para elas quisessem seguir: mas pôde.
4º) Parecia inacreditável que houvessem colonos que se arriscassem a vir para África, depois do que havia acontecido a outros: mas houve.
5º) Parecia inacreditável que em Mossãmedes houvessem providências tomadas para a recepção do colonos, atentos ao pouco tempo e ao estado financeiro da província: mas houve.
6º) Parecia inacreditável que houvessem bons terrenos n local escolhido: mas houve.
Resta ainda uma incredulidade a vencer, a qual afecta a todos e vem a ser: se com efeito desta vez se montará a agricultura nesta velha parte do mundo antigo de forma a que se lhe façam trajar as galas de uma bela jovem; eis o que a breve espaço de um ano há-de resolver, no fim do qual se poderá dizer como Camões:
«Que verá tanto obrar tão pouca gente...»

Pelos seus incontestáveis méritos Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro é leito, por maioria de votos, em 14 de Outubro de 1849, para o Conselho Colonial de Moçâmedes. Esta qualidade reforça o prestígio do ousado português. Todos lhe obedeceram. Todos o reconhecem como chefe. Todos acatam, esperançadas as suas ordens. pelos colonos são distribuidos os terrenos incultos do rio Bero. Escolhe-se o Vale dos Cavaleiros para instalação de engenhos agrícolas. Começa o «fervet opus», como diz o próprio Bernardino:


«É um bulício. Todos edificam casas na povoação que escolheram para habitar: outros nas faldas da serra dos Cavaleiros (de basalto laminado) no sítio chamado dos Namorados e que dista uma légua; outros roteiam terras nas hortas, outros no sítio da Olaria, onde se vai fazer tijolos e telhas; outros na Várzea da união, duas léguas longe dali; outro no fim co vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos: lá se vê um carro carregado de caibros (barrotes de madeira), ali pretos conduzindo junco e tábua, acolá as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos: noutra parte se quebra a pedra que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente; a capela de Santo Adrião antes de um mês ficará ponta de paredes; enfim, ou antes de pouco tempo teremos de ver Mossãmedes uma sofrível povoação, e seus arrabaldes bem agricultados, ou se ficará o «mons parturiens» do velho Fedro».

A sua objectividade sensata e clássica de escrever é própria de um Grande português, de um Grande Chefe. Embora tudo pareça estar a correr de feição, a ele e aos colonos, para ele não era bom sinal que assim estivesse. Sempre os reveses estão na génese dos grandes cometimentos. Graves dificuldades surgiram. primeiro a inadaptação dos colonos. Depois a estiagem de longos meses. As sementes não seriam das melhores, nem haviam sido lançadas á terra na altura mais propícia. a terra, habituada á preguiça da infecundidade, negava-se a produzir. O desalento instala-se na alma dos colonos.

É então que Bernardino houve como Moisés relativamente ao seu povo «Antes fossemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas das carnes e comíamos pão com fartura. Porque nos trouxeste a este deserto , para matar á fome esta multidão?». É neste transe difícil que se revela a indomável força de vontade de Bernardino, e sua certeza de vitória. No meio do seu povo exclama: «Só será salvo o que preservar até ao fim!»

Por esta altura, uma colónia composta de 145 emigrantes portugueses, sob a direcção de José Joaquim da Costa, deixa o Brasil a 13 de Outubro de 1850 e chega a Moçâmedes a 26 de Novembro do mesmo ano. A esta gente se fica a dever parte do êxito agrícola que a partir daí se obteve, pelo grande ânimo que deu aos primeiros colonos, unindo-se-lhe com vivacidade.

Não tardou que outros se viessem juntar, provenientes, especialmente da ilha da Madeira (220 a bordo do vapôr Índia, chefiados por D. José Augusto da Câmara Leme), já que desta mesma origem era avultado o número dos que se achavam nas terras do planalto do Lubango, dada a conhecida fertilidade do seu solo a par do seu óptimo clima, em nada diferente ao da sua ilha.

Mais tarde sucederam-se-lhes outros vindos da Metrópole. O fluxo mais importante , sob o ponto de vista piscícola, foi o dos povos do Algarve, por lhes ter chegado ao conhecimento, quanto de rico em peixe era o seu mar e até, quanto mesmo era de bonançoso e nada de temer. Sabiam-se conhecedores das artes de pescar e das que pensavam em vir a instalar ali. Levaram consigo os aviamentos de pescar com linhas de certa robustês, anzóis de vários tipos para a pesca de pequenos e grandes peixes, não só da superfície como do fundo, chumbadas, roletes de cortiça, cabos de variadíssimas espessuras e até modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc.

Mas o tempo impiedoso corria célere. A pesca restringida a uma simples rede que não ia além de cem braças de comprimento e alada de terra a pulso estava só a dar o bastante para o consumo do povo do colonato. Havia que aumentar a quantidade de pescado para que também viesse a dar para abastecer o interior e até os povos dissiminados pela vizinha província da Huíla.

A ânsia de progredir estava no ânimo de todos. Os pequenos barcos que ali existiam não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais que para ali viessem instalar os seus estaleiros, de maneira que ali construissem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes e pescar.

A convicção do entusiasmo convence outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.

E foi ssim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peiroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo.

Em 1856, com a existência de 36 casas de pedra e 8 de adobe, que albergavam parte da população, nasce o Município de Moçâmedes.


Terá de reconhecer-se que foi às primeiras colónias de emigrantes de Pernambuco que se ficou a dever o verdadeiro incremento do local conhecido por Moçâmedes. A glória de não só haverem erguido um Distrito que se notabilizou, como também pel facto de terem iniciado, a preceito, a agricultura da região: horticultura, fruticultura, cultura de algodão, cana sacarina para produção de açucar e à industrialização de pescado. também é de reconhecer que foi aqui que nasceu a primeira tecelagem da Província, embora só com um fuso, para o fabrico de tecido grosseiro dada a qualidade das fibras ao seu alcance.

Segundo Duarte Pacheco. à medida que se progredia para sul da costa africana, esta ia-se tornando cada vez mais escassa em arvoredo e em moradores. Nas alturas de entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres a «terra eh baixa & maa de conheser» e mais adiante a navegação costeira torna-se difícil. Nestas paragens Pacheco refere a existência de «gente pobre que se nom mantem nrm uiuem senom pescaria» e que esses negros faziam «cazas com costas de baleas cobertas com seba do mar» lançando-les por cima areia «& aly passam sua triste uida».

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

BAIA DOS TIGRES: a origem do nome


 


A hiena castanha

BAIA DOS TIGRES: a origem do nome


Três versões existem  sobre a origem do nome da “Baia dos Tigres”. Uma delas está relacionada com a coloração "tigrada" que as altas dunas do lado continental da baía apresentam quando vistas à distância, a partir do mar. É a versão defendida por André Guilcher, Carlos Alberto Medeiros, José Esteves de Matos e José Tomás de Oliveira, em “Les Restingas (Flèches Littorales) d’Angola, spécialement Celles du Sud et du Centre” Finisterra, vol. IX, nº 18, Lisboa 1976, pp. 171-211.


 Segundo os defensores desta versão, a areia das dunas que são geralmente claras, possui minerais pesados em abundância  --granada, a, magnetite, ilmenite, zircão, anfibólio, turmalina verde—metais que o vento concentra em grandes faixas nas partes baixas das mesmas dunas, e que vistas do mar, ao ganharem o aspecto riscado avermelhado, fazem lembrar a pele de tigres. Como se sabe, na Baía dos Tigres não há tigres.

A 2ª  versão é a de que o nome Baía dos Tigres está relacionado com o ruido causado pela fricção que o vento sul exerce quando sopra com violência sobre a areia no alto das dunas, ruido que fez levantar a crença de que ali houvesse tigres. Esta versão é defendida por J.Pereira do Nascimento no seu livro Exploração Geográphica e Mineralogica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895.

A 3ª versão deve-se a notícias da existência na Baía dos Tigres  de cães de grande porte que faziam lembrar tigres, quando lá chegaram os primeiros portugueses. Henrique Abranches escrevia no seu livro Senhores do Areal, sobre esses cães, em relação aos quais se contavam versões diversas, uma delas referia que no século XVIII um navio não identificado naufragara ao largo dos Tigres, e os cães que vinham a bordo, únicos sobreviventes, nadaram rumo à  costa, e fixaram-se naquela região desértica e sem água,  onde tiveram que se adaptar meio,  comendo o peixe morto que vinha dar à praia, ou caçando raposas, cachalotes, aves marinhas utilizando técnicas de guerrilha. Ou ainda a versão de que em tempos recuados houvera uma epidemia de raiva em Moçâmedes, tendo a autoridade mandado matar todos os cães, havendo gente que deles se apiedou, meteu-os a bordo de uma barcaça e foi depositá-los na Baía dos Tigres, onde esses animais tiveram que aprender a sobreviver  em meio adverso,  lambendo a  espuma menos salgada da superfície das ondas que molhavam a areia da praia, comendo peixe que dava à costa, incluso cetáceos, tornando-se eles próprios nesse ambiente cruel, tão cruéis como o meio.

Muito recentemente o nosso conterrâneo Aurélio Baptista,  como conhecedor da região, avançou uma 3ª versão que nos parece digna de ser apreciada e levada em consideração. Baseia-se na leitura e na interpretação  que fez do depoimento do explorador inglês Willian T Messum  que referencia deste modo a presença de hyenas de que a Baía dos Tigres seria   infestada : “Aqui accendemos lume e nos preparamos para ficar a noite, mas tivemos sempre sentinela, porque, nas minhas viagens, nem antes nem depois, eu nunca senti tão espantosas vozes de hyenas ou lobos, e toda a noite em roda de nós; que só se dispersaram exactamente quando o dia estava para romper”.  Refere Aurélio: Ora, para um leigo, estas palavras teriam passado despercebidas, mas não passaram a Aurélio Baptista, conhecedor da região, logo se lembrou das hienas que por ali habitam, ou seja da “hiena castanha”  cujo  habitat se resume ao deserto do Namibe e Kalahari. Trata-se de um animal que pode atingir 1,40mts de comprido, 90cm de altura e pesando até 60kgs, que possui uma pelagem tigrada, e, por tal, poderiam ser tomados por tigres pelos exploradores e marinheiros do séc. XVII e XVIII,  nessa época de informação escassa. Este o ponto de vista de Aurélio Baptista :  foram estes animais , as hienas castanhas, que originaram a denominação de Baía dos Tigres à Enseada das Areias/Grande Baia dos Peixes! Ainda relacionado com este assunto, Alexandre Magno de Castilho, que passou pela Baia dos Tigres em 1867, referiu: “Só vimos muitos quadrupedes parecidos com rapozas muito grandes
 
MariaNJardim

Habitat e distribuição

Hienas-castanhas podem viver em áreas onde o índice de chuva não seja maior que 100 mm por ano. Além de sobreviverem com pequenas quantidades de água, elas também conseguem um pouco de líquido das carcaças e das frutas que comem. Um dos alimentos principais das hienas em áreas semi-áridas são os vários tipos de melão, que suplementam a necessidade de água do animal. Sua predileção por melões às vezes as leva a conflitos com fazendeiros, que às vezes matam hienas-castanhas apesar de serem protegidas em alguns países. As hienas-castanhas são encontradas em todo o sul da África, e particularmente na Angola, Namíbia, África do Sul, Botswana, Lesotho, Moçambique, Malawi, Suazilândia e Zimbabwe.



http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:5fhF0x7FHSQJ:xamalundo.blogspot.com/2014/08/o-meu-ponto-de-vista-da-origem-do-nome.html+&cd=6&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt&client=firefox-a

sábado, 30 de agosto de 2014

Povos do Deserto do Namibe. Mossâmedes, Moçâmedes, Namibe, Angola.

Cuisses no Deserto do Namibe, em foto da década de 1960 de Vitor Mendonça Torres



Cuisses no Deserto do Namibe. 1935-1939 ICCT 
(foto colocada à margem do texto) 



 Recuemos mo tempo, procuremos saber o que nos diz a História destes povos através do texto que segue retirado de "Vida Humana no Deserto do Namibe Ongaia"
Curocas no Deserto do Namibe em 1935-1939 ICCT
(foto colocada à margem do texto) 





CUROCAS...

Toda a informação que se segue nos vem da notabilíssima e pouco aproveitada "Memória sobre a Exploração da Costa ao Sul de Benguela na África Ocidental e Fundação do Primeiro Estabelecimento Comercial na Baía de Moçâmedes", de José Guimarães, que ele próprio escreveu e publicou em Lisboa no ano de 1842.

Os primeiros vestígios humanos que encontraram foram

«...ossos de baleia queimados e uma espécie de embarcações, feitas de um pau muito leve chamado bimba, o que evoca a antiga notícia de DUARTE PACHECO PEREIRA. Dias depois apareceram negros e em dias seguintes trouxeram para trocar “milho, feijão e abóboras, algum marfim, pouco gado, e pontas de cabra de mato curiosas pelo seu comprimento».

Viviam os Negros perto e GUIMARÃES decidiu ir ter com eles à sua povoação, o que não faria sem grande perigo, dado que não consentiam que homem branco entrasse nela. Mas tudo correu bem e o explorador dá noticia de ...

«...um extensíssimo vale, todo cultivado de milho maiz, feijão, abóboras e uma espécie de milho miúdo”,

com margens (...) guarnecidas além d'imensa quantidade d'arbustos e de plantas parasitas, por duas ordens de palmeiras, que se estendem até onde se pode alcançar a vista e que parecem continuar muito parao centro».

 «...Do lado direito destes arimos ficava uma espécie de seio formado por algum rio, que no tempo das chuvas naturalmente ali desagua, conservando-se agora subterrâneo, pois cavando até dois palmos de profundidade encontra-se agua magnífica, de que os indígenas se servem para beber e à qual é devida a imensa e linda vegetação de que se acha coberta toda aquela planície”.

Com a singela mas exacta descrição do lugar, note-se que especificadamente se mencionam o milho maiz e o milho miúdo, o segundo dos quais será talvez a actual massambala. E aí estavam os renques de palmeiras que os nossos olhos ainda hoje podem ver por toda a Camilunga, nome por que agora se apelida a antiga fazenda de S. Bento do Sul. Eram os Negros governados por um soba e GUIMARÃES tinha-os por povos  “de nação mucubal” e de “vida pastoral”, designando-os de Mocorocas, “por habitarem um lugar a que chamam Coroca”.

E prosseguindo na sua informação escreve: 

«Sua vida muito pacífica não deixa de ser singular pela sua predilecção pelas mulheres, que escondem com a maior cautela,especialmente dos brancos, sendo igualmente muito ciosos do seu g  ado, cuja carne é magnífica e de que possuem grande quantidade de duas espécies, vacum e ovelhum São os Mocorocas muito dados ao exercício da caça e alguns dentre eles ao da pesca crêm muito em feitiços e almas dos seus defuntos; não gostam d'aguardente e preferem o tabaco que eles lã fabricam duma forma singular [similar?] ao de rolo do Brasil; são muito amigos de missanga branca, azul, preta e igualmente estimam muito facas e arcos de ferro para fabricarem flechas e azagaias, enxadas de ferro dumas que fabrica uma nação do interior do sertão, contígua a Benguela, por nome Nanos (o que na cidade de S. Filipe constitui um ramo de negócio); de fazendas preferem zuarte azul, baeta da mesma cor e cobertores, não fazendo apreço de chitas e outras fazendas de cores claras.»

Repete-se, na mesma costa, mais ao norte, decorridos quase três séculos e meio, atrevimento semelhante ao do destemido Fernão Veloso na Baía de Santa Helena; só que aqui não voltou GUIMARÃES tão apressado como o valente homem de armas de Vasco da Gama. Vale a pena talvez contar que o comandante Alexandrino da Cunha ou por impaciente com a demora na baía ou porque o convívio com GUIMARÃES se tinha deteriorado ou porque não queria que gente branca corresse perigo, não permitiu que homens brancos fossem com ele e deu-lhe por companheiros só dois negros da guarnição e um língua também negro.
                                                  
Repare-se que GUIMARÃES os julga  “de nação mucubal” e esta filiação fã-lo-à dizer que têm “vida pastoral”, por ser esta a ocupação tradicional dos Mucubais. Mas a verdade é que estamos em presença de uma população sedentária, ciosa de arcos de ferro para enxadas, praticando uma agricultura variada; em suma, uma população agrícolo-pastoril.

E se estes Mocurocas são aqueles que PILARTE DA SILVA encontrou -GUIMARÃES não se refere aos estalos identificadores - é de estranhar que o sertanejo não tivesse achado entre eles, 70 anos antes, vestígios de agricultura. O relatório elaborado por PEDRO ALEXANDRINO DA CUNHA coincide, no geral, com o de GUIMARÃES, o que não admira. Nem por dizer que os Curocas serão “colónias de Mondombos, dos quais têm a linguagem e os costumes» se afasta da filiação referida por GUIMARÃES: os Mucubais não terão outra origem-também Hereros saídos dos Mondombos das terras do sul de Benguela.
                    
Annais Marítimos e Coloniaís. Parte não oficial, n.” 12, 53* série, pp. 459 e segs., Lisboa, 1845. (”) ESTERMANN refere esta hipótese da origem dos Mucubais na obra citada, vol. III, pp. 29-30:
                                                                   
                                                                        



Parece-me útil dizer que os historiadores do Sul de Angola têm aproveitado, sobretudo, o relato de ALEXANDRINO DA CUNHA, cremos que por ignorância do de GUIMARÃES, mais rico de informação. Soube da existência deste pelo livrinho de CECÍLIO MOREIRA, Entre damas e o mar, atrás citado.
Ocupação portuguesa desta área só se iniciou de Dezembro de 1854 por diante, com a instalação de uma fortaleza num ponto alto, iminente à baía de Alexandre. O capitão de fragata JOÃO MÁXIMO DA SILVA RODOVALHO, que tomou parte no empreendimento, também se deslocou a uma das aldeias dos Curocas, a oito milhas da foz, em 10 de Dezembro do mesmo ano de 1854. Confirma que têm soba, são tratáveis, possuem gado vacum e arimos de milho e abóboras “de que sesustentam” (1°).

Logo no mês seguinte esteve entre os Curocas o navegador e viajante inglês WILLIAM MESSUM. Sentando-se à sombra de uma palmeira e podendo repousar os olhos no verde das hortas, sentia-se recompensado dos vários meses de aridez ao longo da costa: "Aqui me deleitei pela primeira vez, depois de muitos meses que tinha deixado o Cabo, de achar alguma coisa como vegetação, porque os naturais têm em considerável extensão hortas cultivadas de milho, grãos e abóboras.  Era um regalo, depois de tanta areia, sentar-se à sombra de uma palmeira”. E noticia ainda: "As choupanas desta gente pareciam construídas para aturar e eram habitações cómodas Os naturais possuem numerosos rebanhos de gado grosso e miúdo. Tinham também marfim de elefante e de cavalo marinho Vi maças feitas de corno de rinoceronte e grande abundância de mel e cera de abelha. Festejamos muito algum leite, milho e bolos feitos não sei de quê, com mel Perguntaram por aquadenti  mas quando lhe dei alguma, depois de a provarem, não quiseram beber» (“).
E acaba aqui o que podemos chamar a história antiga do povoamento do Baixo Curoca, uma história cheia de hiatos, de dúvidas, de perplexidades. Pelo que os textos nos dizem-e não esqueçamos sua imprecisão e mutismo , uma população mal definida de pescadores, no'início do século XVI; de pescadores, caçadores ou pastores e provavelmente agricultores no último quartel do século XVII; de pastores e recolectores (caça e apanha de vegetais) nos fins do século XVIII; de pastores, agricultores, pescadores e caçadores na primeira metade do século XIX. E a que etnias pertenciam e que etnias hoje lhes correspondem? São todos negros; os de Duarte Pacheco (século XVI) porventura Cuissis, antepassados dos actuais recolectores Cuissis, na opinião de ESTERMANN; os de Joseph Rosa (1681) falam por cliques e ESTERMANN quere-os da raça Khoisan, misturados com Cuissis, hipótese arriscada a que já aludimos, e serão ascendentes dos poucos Cuepes que sobrevivem; os de PILARTE DA SILVA (1770) parecem ser a mesma gente de Joseph Rosa e aquele sertanejo designa-os de Macorocas; GUIMARÃES, ALEXANDRINO DA CUNHA (1839), RODOVALH0 (1854) e MESSUM (1855) chamam também aos seus visitados Mocorocas; o primeiro diz que são de nação mucubal e o segundo de origem mondombe, todos, portanto, Hereros.

Cabe perguntar se os Macorocas de PILARTE DA SILVA são os Mocorocas de GUIMARÃES, CUNHA, RODOVALHO  e MESSUM. E se sim, temos então de admitir que estes asso-ciavam já à pastorícia a prática da agricultura, a menos que na mesma região houvesse pastores-agricultores concorrendo com pastores, todos apelidados de Mocurocas, por viveremjunto do rio; os primeiros naturalmente Hereros  e os segundos, os tais antepassados dos Cuepes. Mas se é cómodo libertar assim os Cuepes da agricultura, que seria conforme ao depoimento de PILARTE DA SILVA e conclusões de ESTERMANN e estaria de acordo com a actual tradição dos poucos Cuepes existentes que afirmam terminantemente que aprenderam a arte de cultivar a terra com os Brancos, não se fica em menor constrangimento em relação com Hereros: também estes são tidos por puros pastores e só recentemente lavradores.

Mas conceber no Baixo Curoca ainda outra etnia, agora de bantos agricultores, é que ultrapassará a legitimidade das conjecturas.

(1°) ALFREDO DE ALBUQUERQUE FELNER, Angola. Apontamentos sobre a Colonização dos Planaltos ..., Lisboa, Agência Geral das Colônias, 1940. vol. II, pp. 285-286. (U) Anais do Conselho Ultramarino. Parte não oficial, 1.* série,


De tudo isto, e com as reservas que já pus, me parecepoder concluir-se o seguinte: desde épocas recuadas povoaram o vale inferior do Curoca populações de diferentes origens, provavelmente Cuissis, Hereros e Cuepes. Se em períodos recuados da sua História foram recolectores e pastores, vieram todos a cultivar a terra, sob a influência de povos agricultores, o que ja aconteceria no referido século XVII. E não é mista a civilização dos Hereros, na qual se caldeiam pastores camitas com plantadores bantos (““) Se língua, crenças e instituições sociais bantas invadiram os domínios dos pas-tores camitas, porque não aceitar que cedo tenham recebido dos plantadores negros as técnicas da agricultura? E em uma vale de terras aluviais e água abundante, como é o do Curoca, como não responder adequadamente às solicitações do ambiente?


(12) O Rev.” P. ESTERMANN diz-me que terão sido Cuanhocas

                                                                      
E os Cuepes, vizinhos dos Hereros, imita-los-iam, se por outras vias lhes não chegou este modo de vida. E o viverem em aldeamentos mais ou menos fixos parece também conferir à cultura dos Mocurocas uma forte e antiga base rural. Tipos puros de civilização existem mais na imaginação dos estudiosos do que implantados na terra. Mas passemos a moderna história da ocupação do vale.

Funda-se a colónia de Porto Alexandre em 1854, cinco anos depois de se instalar em Moçâmedes o primeiro grupo de colonos portugueses, vindo de Pernambuco (Agosto de 1849). Só em começos de 1861 se inicia, porém, a ocupação branca do vale do Curoca, com a fazenda de S. João do Sul, do agricultor João Duarte de Almeida.

A ocupação progride nos 10 anos que se seguem; em 1871 o número de propriedades era de 12. Mas daqui por diante a agricultura entra em fase de contínua decadência: primeiro o algodão perde o preço, proíbe-se depois, em 1911, o fabrico de aguardente de cana, verdadeira moeda corrente nas transacções com os indígenas. Pereira do Nascimento conta apenas 5 fazendas em 1892. Em 1932 as terras do Curoca já só fornecem alimentos aos habitantes de Porto Alexandre; e  o que hoje produzem nem chega para abastecer a vila: sob a orientação de Brancos não se exploram mais que três fazendas-S. João do Sul, Pinda e Camilunga.

No período afortunado da exploração cultivavam-se, como principais produtos de rendimento, o algodão e a cana-de-açúcar e, como alimentos de base, a batata-doce, o feijão e a abóbora; e ainda a palmeira tamareira, a massambala, a mandioca milho, trigo, e nem faltavam os estimados mimos europeus como laranjeiras, pereiras, macíeiras e videiras.A mão-de-obra abundante, que tais empresas reclamavam, buscar-se-ia inicialmente, em escravos e depois em libertos e livres de vária procedência, desde Luanda-Malange e Nova Lisboa a Benguela e Novo Redondo, incluindo vizinhos Curocas Cuissis e Hereros ou os mais distantes Nhanecas-Humbes Ambós e Ganguelas (W). Para a manter, sobretudo depois  da abolição da escravatura em diante, distribuiram os agricultores brancos algumas courelas por trabalhadores pretos. que as cultivavam para si, em certos dias da semana, enquanto outros amanhariam terras sem dono, do Governo, no seu modo de dizer, contíguas às fazendas.

Com o colapso da plantação empresarial o vale despovoa-se praticamente de Brancos; ficam, em parte, os Pretos, uns, a título precário, nas glebas onde labutavam, outros em terrenos do Governo, para onde transitam ou em que jé estavam.

E nesses espaços de ninguem entram em mais vivo con a com os antigos habitantes da região. Ora é exactamente do estudo do estilo de vida dos povoadores de um destes lugares a Onguaia que passarei a ocupar-me.

('“) H. BAUMANN & D. WESTERMANN, Les peuples et les civilisations de l'Aƒrique..., Paris, Payot, 1948, pp. 117 e segs. (“) CECÍLIO MOREIRA, op. cit., pp. 23-24.(15) Idem, op. cit., pp. 25-26

ORIGEMTexto: Vida Humana no Deserto do Namibe Ongaia :  http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:vWR6KIP1BQoJ:www.ceg.ul.pt/finisterra/numeros/1971-11/11

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Uma familia da Baía dos Tigres: familia Martins Pereira



Uma foto que encontrei na Net , em http://voguida.blogspot.com/2010/10/foto-n-27.html, e que,  por achar que pode interessr à familia Martins Pereira, coloco-a aqui .

Legenda:  Na Baía dos Tigres, já no deserto da Namibia, quando fomos visitar uma família amiga de apelido Martins Pereira, industriais no ramo da pesca.  Na foto da esquerda para a direita o Tio João, irmão do meu Pai e Oficial da Marinha Mercante, o Capitão Marques casado com a D. Margarida Rolão Preto, família Rolão Preto sobejamente conhecida pelos seus ideais políticos, a seguir a D. Margarida, a minha Mãe, a nossa Ama Noémia com a minha irmã Nela,ainda bébé ao colo, a ama das filhas da D. Margarida. Sentados da esquerda para a direita o meu Pai, uma das filhas da D. Margarida, eu,o meu irmão Carlinhos e a outra filha da D. Margarida.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

João Duarte e a pescaria da Praia Amélia em Moçâmedes








João Duarte entre os filhos Armando Guedes Duarte (Mandinho), à esq., e João Carlos Guedes Duarte (Jinho), à dt. À esq, Carlos Humberto Freitas de Sousa (Beto)


Começo por lembrar que a pescaria da Praia Amélia que mais tarde pertenceu João Duarte, na década de 1920 tinha pertencido aos noruegueses que se dedicavam à  caça da baleia (1). Colocarei a seguir algumas fotos desse tempo.



 

Corte e escala de grandes cetáceos
 
  Navio baleeiro na Praia Amélia


As instalações foram-se modificando com o correr do tempo, conforme se pode ver, comparando-as.






João Duarte era um bem sucedido industrial e comerciante,  natural de Lamego, proprietário de uma pescaria na Praia Amélia, a 5km do centro da  cidade do Namibe,  que foi durante muito tempo, pelo menos até aos anos 1950, para além das Hortas, o local onde as famílias de Moçâmedes se juntavam, em grupinhos, aos fins de semana, no Verão, para um dia bem passado, que incluia banhos de mar, pesca à linha do cimo da ponte, ou em pequenos botes a remos (chatas), junto ao canal, e tinha o seu ponto alto numa animada almoçarada que se prolongava pela tarde fora, e que geralmente constava de uma caldeirada de peixe fresquinho acabadinho de pescar, feita mesmo alí embaixo do telheiro da pescaria, sob o tecto de um amplo barracão onde ficavam os tanques de salga do peixe.

As pessoas carregavam consigo grandes cestos onde arrumavam os ingredientes necessários para a dita caldeirada de peixe. ou seja, cebolas, tomate, batatas, azeite, vinho branco, e também a fruta e os doces para a sobremesa, refrigerantes, bebidas variadas, toalhas, guardanapos, pratos, copos, talheres, etc. etc. Cozinhava-se  com carvão, ou utilizando um fogão a petróleo  desses que foram vedeta na época, antes do surgimento dos fogões a gás. Estes passeios já vinham de um tempo em que os veículos automóveis em Moçâmedes eram inexistentes, e as deslocações para a Praia Amélia faziam-se em baleeiras à vela, a partir de uma das várias pontes das antigas pescarias da Torre do Tombo , as que ficavam mais à mão, ou da velha ponte de embarque/desembarque da Praia das Miragens, para os moradores da baixa da cidade.

A pescaria de João Duarte servia também de base para concursos de pesca desportiva, e tinha sempre por perto uma multidão se espectadores,  gente de ambos os sexos e de várias idades


Algumas destas jovens  na época são familiares do dono da pescaria, outras são amigas da familia. Em cima, à dt, Guida, a filha mais nova de João Duarte. A praia onde ficava a pescaria era óptima para banhos de mar, e por tal muito concorrida, não obstante as altas ondas e a grande profundidade existente junto da ponte, que permitia aos jovens os mais arrojados mergulhos. 


Ousei colocar estas fotos aqui retiradas do blog de um elemento desta familia e do facebook, mas prontifico-me a retirá-las caso me seja solicitado.



Falemos então de João Duarte, o proprietário da pescaria da Praia Amélia.

João Duarte era considerado um homem rico para a época. Era, sem dúvida, o mais rico morador do Bairro da Torre do Tombo. Em meados dos anos 1950 foi Presidente do Grémio dos Industrais de Pesca de Moçâmedes. A sua pescaria na Praia Amélia, onde toda a gente era sempre bem recebida,  foi evoluindo, e encontrava-se nos anos 1960 apetrechada com uma fábrica de farinhas e óleos de peixe, totalmente automatizada, instalações para salga e seca para os peixes mais nobres, 3 traineiras de bom porte, uma ponte, várias casas para o pessoal e  até uma bonita Capela.  João Duarte era  ainda  proprietário de algumas vivendas modernas situadas na parte alta da cidade, na continuidade da Rua das Hortas, ocupadas por familiares, e ainda de um conjunto de casas de traça portuguesa, situadas no bairro da Torre do Tombo, que ocupavam quase todo um quarteirão, junto à estrada que dá acesso à Praia Amélia,  que incluia  também uma mercearia e uma loja de venda de pão. E no gaveto entre a Rua dos Pescadores e  a Rua Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, na baixa da cidade,  chegou a possuir uma loja de comércio, num terreno onde mais tarde mandou construir um prédio de 4 pisos que se encontrava arrendado ao Banco de Angola.

Mas naquele tempo, é preciso que se diga, ser rico não tinha a ver com as rápidas fortunas que se estão criando em Angola  nos dias de hoje.  Ser industrial de pesca em Moçâmedes podia ser um bom investimento, mas envolvia também muito trabalho e grandes riscos, uma vez que se trata de uma actividade dependente das capturas de pescado.  Para que a industria de pesca fosse rentável, cada traineira tinha que pescar  no mínimo 5 mil toneladas por ano, e quem não pescasse essa quantidade de peixe tinha prejuízo. Por vezes bastava um ano de crise para que tudo fosse por água abaixo. Foi o que aconteceu em 1957/58 em Moçâmedes, por força da  crise do pescado que avassalou os mares de Moçâmedes e  abalou muitas boas empresas de pesca do distrito, levando umas à falência,  outras ao total desaparecimento, e ainda outras a desistirem do sector pesqueiro e a ficarem-se no comércio, na agricultura, e no imobiliário. Estou a lembrar-me que desapareceram na voragem desta crise que se abateu dobre o sector das pescas,  as empresas pesqueiras "Casal dos Herdeiros de João Maria Inácio",  "J. Patrício Correia, Lda" ,  e "Marcelino de Sousa, Lda", todas  pescarias da zona da Lucira, valendo aos primeiros o grande número de bens imobiliários que detinham. Desapareceram a "Angopeixe, Lda", a "Raúl de Sousa"  na Baía das Pipas, a "Conserveira do Sul de Angola, Lda", a  "Portela & Guedes Lda", a "Manuel Nunes de Carvalho & Filhos, Lda ,  em Porto Alexandre. No caso particular da "Conserveira do Sul de Angola, Lda", esta entrou na posse do Banco de Angola, como credor hipotecário, sendo depois vendida ao Dr. Urbulo Cunha, em sociedade com ? Ferreira, a prestações mensais de 50 contos. Outras empresas como a "Sena & Ribeiro Lda", e a "Sampaio & Irmão Lda", de Porto Alexandre, também desapareceram com a crise. Em Moçâmedes, a SOS "Sociedade Oceânica do Sul, Lda", fábrica de conservas do Capitão Josino da Costa, encerrou a sua actividade industrial, sendo as instalações adquiridas por Gaspar Gonçalo Madeira. Desapareceu a "Sociedade da Ponta Negra Lda", no Canjeque, de que meu pai era um dos sócios, adquirida pela  empresa "Projeque, SCRL Lda", à qual se associou, e foram  tembém abaladas por esta  crise a "Torres & Irmão, Lda", a "José Carvalho & Sybleras, Lda", do Saco,   a "Venâncio Guimarães, Lda" da Praia Amélia,  e a "João Martins Pereira & Filhos, Lda", da Torre do Tombo. Por arrastamento a crise afectou também o comércio,  abalou empresas como a "Carvalho de Oliveira & Cª. Lda". Umas conseguiram recuperar porque se dedicavam paralelamente à actividade do comércio, como a "Antunes da Cunha, Lda", em Porto Alexandre. A "Torres Irmão, Lda" ficou-se com a Horta e com o imobiliário.  Este é um exemplo de como não era fácil ser-se industrial de pesca naquele tempo  e naquelas paragens. E para se fazer uma ideia da complexidade do problema, nesses anos bons nem sempre a capacidade de laboração das fábricas davam resposta à quantidade das capturas, e quando o pescado excedia, era vendido às outras pescarias, a 300 escudos a tonelada. Este exemplo dá-nos a ideia da relatividade do valor do produto.



A pescaria de João Duarte, na Praia Amélia, a 5 km do centro da cidade, uma das mais fortes do Distrito,  também não escapou aos efeitos dessa grande crise de pescado, chegou mesmo a ser vendida a uma empresa sul-africana, porém a sorte esteve ao lado do proprietário, pois a operação acabou por não se concretizar  porque o Governo daquele país não autorizou o  investimento no estrangeiro, tendo os compradores acabado por perder o sinal que tinham adiantado, por via de contrato de promessa de compra e venda que haviam efectuado.  João Duarte conseguiu  como poucos não apenas vencer a crise, como nos anos a seguir à crise até modernizar, em termos de maquinaria, as suas instalações fabris, e  partir ainda  para a construção de um já aqui citado prédio na Rua dos Pescadores, que veio a ser alugado ao Banco de Angola.

Estamos a falar dos estragos acontecidos na segunda metade da década de 1950.  Retenha-se que o grande "boom" piscatório no distrito de Moçâmedes veio a acontecer às vésperas da entrada  nos anos 1960, com a inovação de todo o mecanismo ligado à indústria de pesca, designadamente com a instalação de fábricas de farinhas e óleos de peixe totalmente mecanizadas, e o uso nas traineiras de sondas para captação de peixe, e aladores mecânicos para carregamento do pescado. 
 


A traineira Zita Lourdes (nome da filha mais velha de João Duarte e D. Conceição (Micas)
Traineira Maria Margarida (tomou o nome da filha mais nova de João Duarte e D. Conceição (Micas)

 Traineira Maria Margarida junto à ponte das instalações fabris de João Duarte, vendo-se ao fundo as instalações da Venâncio Guimarães


 A ponte da pescaria da Praia Amélia vista noutra perspectiva


Traineira Maria Margarida

 O desembarque do pescado


 Pescado com fartura... Nestas fotos podemos ver, laborando, sob a orientação do mestre, trabalhadores indígenas contratados (1)

 Lavando as redes na praia, junto das instalações



Este é uma parte do quarteirão quase inteiro de casas pertencentes a João Duarte, e situadas  na Torre do Tombo


Nasci e cresci numa casa mesmo ao lado deste casarão pintado de cor-de-rosa, que ficava a olhar para a Rua da Colónia Piscatória, a rua que subia para a Praia Amélia, que fica na parte da foto não visível.  Embora tenham passado 50 longos anos, tenho na memória recordações nítidas deste local que me foi familiar, e deste conjunto habitacional que conheci, por fora e por dentro como às minhas mãos, e que considero de grande valor em termos de património arquitéctónico, cultural e histórico para a cidade do Namibe, embora, e lamentavelmente, me pareça não estar a ser devidamente reconhecido e valorizado, tendo em conta o estado de degradação que já se vai notando, ainda que continue a fazer a delícia de visitantes, sobretudo de estrangeiros, que de passagam pela cidade  não resistem em o fotografar. 

Recordando vivências daquele tempo, tenho bem presente os momentos de alegres brincadeiras que partilhei na infância com alguns dos filhos desta numerosa familia, sobretudo aqueles que mais se aproximavam da minha idade, a Zita Lourdes, o Zé, o Helder...  Os outros filhos de D. Micas e de João Duarte, os mais velhos, eram o João Carlos (o Jinho), o Norberto, o Quim, e o Armando (Mandinho), eram mais velhos. Mas havia ainda os mais novos,  a Margarida (Guida), o Mário e o Eduardo. O Norberto acabou por falecer muito novo ainda,  com doença contraida no decurso de uma viagem à Metrópole. Cheguei a conhecê-lo. Uma figura muito simpática, tal como o Armando, que também faleceu relativamente jovem.

Recordo as bonecas de pano com as quais a Zita Lourdes brincava, sentada na escadaria de madeira na entrada daquele casarão. Eram confeccionadas pela D. Micas, possuiam longas tranças de lã amarelas umas, castanha outras, e vestiam vestidos de chita estampada. Recordo também as bonecas em papel colorido e brilhante que a Zita com todo o cuidado guardava no interior de uma caixinha de lata, juntamente com os respectivos vestidos, saias, casacos, chapéus, sapatos, etc., tudo em papel. Naquele tempo  não havia à venda no mercado a variedade de brinquedos que existem hoje, e as nossas mães jogavam mãos às suas habilidades manuais para os proporcionarem aos seus filhos.

Ainda sinto o cheiro da água de colónia com que a D. Micas, após o banho diário, perfumava os seus filhos pequenos: a Guida, o Mário e o Eduardo. Colocava uma porção de perfume num frasco de vidro com tampa própria, ao qual adicionava água, talvez para suavizar o efeito sobre a pele. O perfume em contacto com a água tomava a côr branca.

Lembro-me dos "apetitosos" odores que emanavam daquela cozinha,  onde a azáfama durava o dia inteiro para que nada faltasse a tão extensa familia.

Recordo os "jogos de esconde esconde" e outras brincadeiras, que nós garotada endiabrada fazíamos por baixo do assoalho daquele casarão, construído sobre uma caixa de ar, que surgia aos meus olhos criança como um enorme subterrâneo, onde um dia fomos dar com um saco de sarapilheira cheio de moedas antigas do tempo dos reis.

Naquele tempo, em finais da década de 1940 início da década de 1950, brincávamos em todo o lado. A rua era nossa, a estrada era nossa, a terra pertencia-nos inteirinha. Na rua os rapazes jogavam à bola, as raparigas faziam danças de roda, brincavam às escondidas, jogavam aos queimados, à macaca, etc. Na rua  andávamos de bicicleta (os que as possuiam eram nesse tempo uns privilegiados), penetrávamos na propriedade alheia sem qualquer problema, subíamos aos telhados, desciamos a correr até á praia,  pescávamos à linha em cima das pontes das antigas pescarias da Torre do Tombo. E quando chovia, e o deserto mesmo atrás das nossas casas se cobria de capim verde que crescia até à nossa altura, tapando-nos, a brincadeita das "escondidas" transferia-se para ali.  Lembro-me de devassarmos as imediações da casa do velho Reis e da Ritinha Seixal,  ali mesmo em frente, no outro lado da rua, onde havia muito sítio para esconder, e onde, sobre os  terraços daqueles quartos feitos de bordão, o proprietário punha a secar rodelas de batata doce, às quais chamávamos  "macocas",  que faziam a delicia da garotada. Garotada de que  faziam parte o Zézinho Duarte e o Helder Duarte, o Amilcar, o Monteiro (Necas), o Juju, o Miroides, o Aires Domingos e o irmão Victor, às vezes o Lolita Lisboa, o Zequinha Esteves e o Travão (netos de Assunção Esteves, a proprietária de uma fábrica de pão no Bairro), mas  apenas quando tocava a jogos de futebol também reslizados em plena rua. Jogos a sério, que metiam taça para os vencedores e tudo!

Brincava-se muito naquele tempo! Escola de manhã, brincadeira o resto do dia. Nada a ver com escolas-prisão dos tempos de hoje!  Nossas mães estavam em casa, não trabalhavam, não havia essa coisa que hoje chamam  "deveres de casa", brincávamos até à hora do jantar, até ao regresso a casa de João Duarte, o proprietário da pescaria da Praia Amélia, por volta das 20 horas. Era a hora do recolhimento a casa, o momento do "descanso do guerreiro"!  Quando a miudagem  dava conta da aproximação da Dodge, a limousine americana de côr cinzenta de João Duarte, conduzida pelo cunhado Manuel Guedes,  ponto final, acabava-se a brincadeira!

Moçâmedes era uma terra santa em termos de segurança. Naquela rua, nos anos 1940 e início dos anos 1950, os veículos automóveis eram muito poucos porque não eram fáceis de adquirir, e eram financeiramente acessiveis a muito poucas bolsas. Não havia portanto perigo de atropelamento. A importação de automóveis foi atrasada pela II Grande Guerra  (1939-45), que ao ter colocado as fábricas europeias ao serviço do armamento, estas deixaram  os fabricar para exportação, daí que até finais dos anos 1940 fossem veículos automóveis de marcas americanas, como a Ford, a Chevrolet, a Dodge, os poucos que apareciam a circular. João Duarte era das raras pessoas da Torre do Tombo, e das poucas em toda a cidade que naquele tempo possuiam automóvel e ainda mais com "chauffeur" privativo.

Um momento que João Duarte não dispensava, era o "encontro dos velhotes" até à hora do jantar, no "Quiosque do Faustino", em plena Avenida da República, lugar privilegiado, sala de visitas de Moçâmedes. Alí encontravam-se diariamente, para um café em animada cavaqueira, o velho Cabral sempre vestido de fato e lacinho;  o velho Ringue de origem boer, tradutor de profissão e ex-cultivador de tabaco (Bibala); o velho Pimentel Teixeira acabadinho de chegar na sua bicicleta, vindo da Farmácia do Sindicato da  Pesca (mais tarde Grémio dos Industriais de Pesca), onde trabalhava; o sempre bem disposto Virgílio Gomes (do Armazém), o Virgilio Russo, também conhecido, carinhosamente, por "Virgílio Aldrabão", devido às mirabolantes anedotas (*) que sempre tinha para contar. E ainda velho Eduardo Torres, que de quando em quando também ali aparecia.
 Estes eram os irmãos de D. Maria da Conceição Guedes Duarte, a D. Micas (nesta foto, em cina , ao centro)



João Duarte não foi um "colonialista", ou seja, não foi um desses grandes empresários domiciliados na Metrópole,  protegidos do sistema, que desde sempre se serviram de Angola apenas para «sacar», e investir na Europa, sem vínculo afectivo que os ligasse àquela terra. Foi um "colono", simples emigrante, tal como os demais europeus que se estabeleceram no então Ultramar português, como poderiam ter se estabelecido em qualquer outra parte do mundo.  Foi um exemplo da vontade, persistência e determinação de um português do Norte, que um dia resolveu partir para Angola, e que ali resolveu fixar-se para sempre, na terra onde casou, teve filhos, teve netos, labutou, gerou riqueza, proporcionou trabalho, e investiu o fruto desse trabalho, sem se preocupar em amealhar para si e para os seus, algures em algum Banco na Europa, como faziam os chamados "colonialistas". Esta a grande diferença que ânimos exaltados  ainda hoje, cá e lá, persistem em não distinguir, limitando-se a rotular as pessoas, em boas ou em más, tendo por base unicamente e apenas a côr da pele. São estes preconceitos, fruto da ignorância, que proliferaram e ainda proliferam, que serviram para dividir povos, e continuam a impedir uma visão mais clara e mais real da História de Angola.  Ser "colono" não implica que se seja automaticamente um ser pérfido e explorador. Não eram assim a maioria de nós, embora houvesse quem o fosse. Foram sim seres humanos apanhados nas malhas da História sempre engendradas pelos senhores do poder deste mundo, que hoje continuam a existir, mais pérfidos e insensíveis que nunca.

Pessoas como João Duarte, depois de um vida de trabalho e investimento, viram-se obrigadas a regressar às suas terras, com as mãos mais vazias que nunca. Brancos enraizados em várias gerações alí nascidas, tiveram que se acolher numa Metrópole que nada lhes dizia, Até o dinheiro que conseguiram arrecadar era diferente, e não tinha nenhum valor.

O casal João Carlos (o Jinho) e a Maria Helena Ramos Duarte.
 A imagem que tenho mais viva do casal.

Acrescentarei ainda a esta postagem algumas fotos deste ramo alargado da familia Duarte, "roubadas" ao  Ricardo (Kady), neto de João Duarte


João Carlos Guedes Duarte (pai), Maria Helena Ramos Duarte (mãe), com alguns dos seus 7 filhos: Lopo, São e Jorge e Lena, Mário, Fernando e Ricardo/Kady.



O José Guedes Duarte (Zézinho para os familiares e amigos) e Teresa Banha  no Parque Infantil de Moçâmedes. Os miúdos são o Ricardo (Kady), a irmã, Lena Duarte, e o Fernando Duarte que Deus Tem, filhos do casal  Maria Helena Ramos Duarte e João Carlos Guedes Duarte (Jinho),  netos de João Duarte. Ao fundo o Colégio das Doroteias. Foto de finais dos anos 1950.
 
 João Carlos Guedes Duarte junto a um Auster da FAV com Fragoso, colega piloto.
 
 João Carlos Guedes Duarte com Fragoso (aviador), o irmão Armando Guedes Duarte (Mandinho) e o Chefe do Posto Matos

Interessante é o perfil que Kady traça de seu pai, o João Carlos Guedes Duarte, o Jinho, que enquanto em Moçâmedes, tinha enraizado em si o «bichinho» dos aviões e das corridas de automóvel:


"O meu pai João Carlos Guedes Duarte, também conhecido em Moçâmedes por "Jinho" começou a voar em 1956 e teve licença para pilotar aviões - o popular "brevet" - em 1958. A sua madrinha de vôo foi a Celísia Calão, uma senhora lindíssima, aliás lugar comum em Moçâmedes, pessoa que tive o prazer de reencontrar em Portugal continental, pois deu-se a feliz coincidência de a Celísia vir a ser colega da minha mulher na CGD em Lisboa. Foi a Celísia que deu o banho de baptismo de "brevet" ao meu pai com o tradicional balde de água pela cabeça abaixo.

"O meu pai começou por voar em Moçâmedes, com os aviões do Aero Clube local, tendo participado com boas classificações em diversos "ralis aéreos". Mais tarde acabou por adquirir um Tiger Mouth àquele Aero Clube com o qual fez inúmeras acrobacias aéreas e outras peripécias - desde aterrar na praia a colocar o passageiro a vomitar (diga-se situação um pouco incómoda até para o piloto) porque o Tiger "4 asas" não tinha carlinga e o passageiro viajava, por norma, no lugar da frente. Lembro-me do meu pai me contar que, de vez em quando perdia ferramenta e haveres, deixados por descuido dentro do cockpit, quando se punha a fazer "loopings" e "tonneaux".

"...De 1957 a 1961 e nesse tempo de "vacas gordas" o meu pai andava nas corridas de automóveis e nas "brincadeiras" com avionetas do Aero Clube de Moçâmedes e até chegou a ser proprietário de uma pequena avioneta - um Tiger Moth de "4 asas". Há cá muita gente de Angola, que se lembrarão desses áureos tempos. »

 "...Quem me lê conhece bem o meu pai e sabe do que ele era capaz de fazer de um avião. Quando cheguei a Portugal (em 1976) vivi por breves meses em Vidago e aí encontrei alguns ditos "retornados" que me contaram peripécias do meu pai com o Tiger que eram desconhecidas na família. Um desses senhores contou-me que o meu pai ia buscá-lo à Baía dos Tigres só para ele ir jogar futebol a Moçâmedes ao domingo e ele (futebolista) perdia mais peso na viagem (tais eram as acrobacias) do que durante todo o jogo!!! Na Baía dos Tigres os aviões aterravam na avenida principal e recolhiam-se ao pé da igreja, onde eram amarrados tal eram as ventanias e tempestades de areia. Como se sabe, os aviões levantam sempre contra o vento e nos dias de vento forte punham-se dois cipaios de cada lado das asas a segurar as mesmas enquanto o avião não tomava aceleração para não levantar antes do tempo!!!Esse Tiger Mouth (prateado) CR-LCN foi , mais tarde destruído em acidente tido pelo meu tio Mandinho (Armando Guedes Duarte) também ele piloto - fez um "cavalo de pau" e partiu a hélice e deslocou os apoios do motor. Vou "postar" aqui as poucas fotos que tenho de Moçâmedes (são só duas) mas prometo, para futuro breve divulgar aqui alguns filmes em 8mm, ou fotos deles extraídas, onde se podem apreciar os ralis aéreos com aviões do Aero Clube de Moçâmedes de outras cidades angolanas e alguma acrobacia aérea no Tiger Mouth.» ....
O «Tiger Mouth» de João Carlos Guedes Duarte com os filhos Lopo e Jorge



Alguns elementos da familia Duarte, junto da sua moradia em Porto Alexandre, no dia 10 de Janeiro de 1976, já após a independência, momentos antes de abandonarem aquela cidade


Fica aqui mais uma recordação de gentes e factos ocorridos um dia, algures na nossa terra.




MNJardim 




(1) Quem viveu em Moçâmedes, decerto não se cansou de ouvir histórias dos seus antepassados sobre a estadia dos noruegueses, tripulantes dos barcos da pesca às baleias, pertencentes a uma empresa norueguesa que se instalou na «Praia Amélia» (1), a seis quilometros a sul da cidade, com uma fábrica de grandes proporções para a época.Resta referir que os noruegueses que trabalhavam nessa fábrica da Praia Amélia marcaram uma época. Eles praticavam desporto e muitos deles eram exímios jogadores de futebol. Reforçaram os times da terra (em especial o do Ginásio Clube da Torre do Tombo, findado em 1919), que beneficiaram da boa técnica desses atletas nórdicos, dotados de experiência e dos mais avançados métodos de preparação física e táctica. Por outro lado, entregavam-se ao folguedo, com exuberância nas noites dos sábados, distribuindo-se pelas tabernas citadinas, ébrios e truculentos. Tocadores excepcionais de concertina, cantavam em côro, canções do seu país, e punham em alvoroço a pacata gente do pequeno e silencioso.

Partiram e não voltaram. As gentes pacíficas da terra não perderam, entretanto, as esperanças de um breve regresso. Mas em vão. Ficaram as saudades que uma abrupta partida originou. Também permaneceram as memórias desses tempo romântico, nas ossadas desses grandes animais por todo o litoral, especialmente na «Praia das Conchas».



(2) Praia Amélia, assim chamada porque em l842 ali encalhou a escuna Amélia da Marinha de Guerra Portuguesa. A este respeito transcrevo parte de um texto do Blog Tropicália: "...Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, forma uma enseada, que termina da banda do Sul na ponta da Anunciação, ou da Conceição, que é rasa, negra e só a custo se percebe do mar. Fica em 15° 16' Sul. A uma milha e seis décimos para ONO. da ponta do Noronha, fica o extremo setentrional do baixo da Amélia, nome que lhe foi posto por ter naufragado ali, em 1842, a escuna de guerra portuguesa Amélia, muito perigoso por quebrar só de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns 3 metros de água, em alguns sítios.É todo de rocha e areão, tem na fralda ocidental 2,2m, 3,5m, 4,5m de água, e 7,9 e 11m na setentrional; perto dele e da banda do Oeste se encontram 22 m e mais, separa-o do continente um canal por onde só devem navegar lanchas.Por alturas do ano de 1840, a quem afirme ter visto na Praia da Amélia, navios de guerra ingleses passar por entre o baixo e a praia da Amélia, que lhe fica fronteira; julgamo-lo porém muito arriscado, assim por poder acalmar ali o vento e encostarem as águas para cima do baixio, por haver sempre seu rolo de mar.Dilata-se o baixo da Amélia por entre 15°14' e 15º18' Sul, vai até a umas 3 milhas da costa. Pode-se navegar por aquelas paragens, enquanto estiver a ponta Negra descoberta da ponta do Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito décimos de milha para Norte dele."
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Baleias na Praia Amélia, em Moçâmedes
http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2007/08/caa-baleia-na-praia-amlia.html
Fotos/fonte - Blog Kadypress: clicar AQUI.
Aero Clube de Moçâmedes AQUI