Aqui procurarei depositar, despretenciosamente, retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe) aos quais vou tendo acesso, uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas... outros, rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... E ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e em experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os mesmos erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 4 de setembro de 2014

BAIA DOS TIGRES: a origem do nome


 


A hiena castanha

BAIA DOS TIGRES: a origem do nome


Três versões existem  sobre a origem do nome da “Baia dos Tigres”. Uma delas está relacionada com a coloração "tigrada" que as altas dunas do lado continental da baía apresentam quando vistas à distância, a partir do mar. É a versão defendida por André Guilcher, Carlos Alberto Medeiros, José Esteves de Matos e José Tomás de Oliveira, em “Les Restingas (Flèches Littorales) d’Angola, spécialement Celles du Sud et du Centre” Finisterra, vol. IX, nº 18, Lisboa 1976, pp. 171-211.


 Segundo os defensores desta versão, a areia das dunas que são geralmente claras, possui minerais pesados em abundância  --granada, a, magnetite, ilmenite, zircão, anfibólio, turmalina verde—metais que o vento concentra em grandes faixas nas partes baixas das mesmas dunas, e que vistas do mar, ao ganharem o aspecto riscado avermelhado, fazem lembrar a pele de tigres. Como se sabe, na Baía dos Tigres não há tigres.

A 2ª  versão é a de que o nome Baía dos Tigres está relacionado com o ruido causado pela fricção que o vento sul exerce quando sopra com violência sobre a areia no alto das dunas, ruido que fez levantar a crença de que ali houvesse tigres. Esta versão é defendida por J.Pereira do Nascimento no seu livro Exploração Geográphica e Mineralogica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895.

A 3ª versão deve-se a notícias da existência na Baía dos Tigres  de cães de grande porte que faziam lembrar tigres, quando lá chegaram os primeiros portugueses. Henrique Abranches escrevia no seu livro Senhores do Areal, sobre esses cães, em relação aos quais se contavam versões diversas, uma delas referia que no século XVIII um navio não identificado naufragara ao largo dos Tigres, e os cães que vinham a bordo, únicos sobreviventes, nadaram rumo à  costa, e fixaram-se naquela região desértica e sem água,  onde tiveram que se adaptar meio,  comendo o peixe morto que vinha dar à praia, ou caçando raposas, cachalotes, aves marinhas utilizando técnicas de guerrilha. Ou ainda a versão de que em tempos recuados houvera uma epidemia de raiva em Moçâmedes, tendo a autoridade mandado matar todos os cães, havendo gente que deles se apiedou, meteu-os a bordo de uma barcaça e foi depositá-los na Baía dos Tigres, onde esses animais tiveram que aprender a sobreviver  em meio adverso,  lambendo a  espuma menos salgada da superfície das ondas que molhavam a areia da praia, comendo peixe que dava à costa, incluso cetáceos, tornando-se eles próprios nesse ambiente cruel, tão cruéis como o meio.

Muito recentemente o nosso conterrâneo Aurélio Baptista,  como conhecedor da região, avançou uma 3ª versão que nos parece digna de ser apreciada e levada em consideração. Baseia-se na leitura e na interpretação  que fez do depoimento do explorador inglês Willian T Messum  que referencia deste modo a presença de hyenas de que a Baía dos Tigres seria   infestada : “Aqui accendemos lume e nos preparamos para ficar a noite, mas tivemos sempre sentinela, porque, nas minhas viagens, nem antes nem depois, eu nunca senti tão espantosas vozes de hyenas ou lobos, e toda a noite em roda de nós; que só se dispersaram exactamente quando o dia estava para romper”.  Refere Aurélio: Ora, para um leigo, estas palavras teriam passado despercebidas, mas não passaram a Aurélio Baptista, conhecedor da região, logo se lembrou das hienas que por ali habitam, ou seja da “hiena castanha”  cujo  habitat se resume ao deserto do Namibe e Kalahari. Trata-se de um animal que pode atingir 1,40mts de comprido, 90cm de altura e pesando até 60kgs, que possui uma pelagem tigrada, e, por tal, poderiam ser tomados por tigres pelos exploradores e marinheiros do séc. XVII e XVIII,  nessa época de informação escassa. Este o ponto de vista de Aurélio Baptista :  foram estes animais , as hienas castanhas, que originaram a denominação de Baía dos Tigres à Enseada das Areias/Grande Baia dos Peixes! Ainda relacionado com este assunto, Alexandre Magno de Castilho, que passou pela Baia dos Tigres em 1867, referiu: “Só vimos muitos quadrupedes parecidos com rapozas muito grandes
 
MariaNJardim

Habitat e distribuição

Hienas-castanhas podem viver em áreas onde o índice de chuva não seja maior que 100 mm por ano. Além de sobreviverem com pequenas quantidades de água, elas também conseguem um pouco de líquido das carcaças e das frutas que comem. Um dos alimentos principais das hienas em áreas semi-áridas são os vários tipos de melão, que suplementam a necessidade de água do animal. Sua predileção por melões às vezes as leva a conflitos com fazendeiros, que às vezes matam hienas-castanhas apesar de serem protegidas em alguns países. As hienas-castanhas são encontradas em todo o sul da África, e particularmente na Angola, Namíbia, África do Sul, Botswana, Lesotho, Moçambique, Malawi, Suazilândia e Zimbabwe.



http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:5fhF0x7FHSQJ:xamalundo.blogspot.com/2014/08/o-meu-ponto-de-vista-da-origem-do-nome.html+&cd=6&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt&client=firefox-a

sábado, 30 de agosto de 2014

Povos do Deserto do Namibe. Mossâmedes, Moçâmedes, Namibe, Angola.

Cuisses no Deserto do Namibe, em foto da década de 1960 de Vitor Mendonça Torres




 Recuemos mo tempo, procuremos saber o que nos diz a História destes povos...

Cuisses no Deserto do Namibe. 1935-1939 ICCT 
(foto colocada à margem do texto)
Texto: Vida Humana no Deserto do Namibe Ongaia


Curocas no Deserto do Namibe em 1935-1939 ICCT
(foto colocada à margem do texto) 





CUROCAS...

Toda a informação que se segue nos vem da notabilíssima e pouco aproveitada "Memória sobre a Exploração da Costa ao Sul de Benguela na África Ocidental e Fundação do Primeiro Estabelecimento Comercial na Baía de Moçâmedes", de José Guimarães, que ele próprio escreveu e publicou em Lisboa no ano de 1842.

Os primeiros vestígios humanos que encontraram foram

«...ossos de baleia queimados e uma espécie de embarcações, feitas de um pau muito leve chamado bimba, o que evoca a antiga notícia de DUARTE PACHECO PEREIRA. Dias depois apareceram negros e em dias seguintes trouxeram para trocar “milho, feijão e abóboras, algum marfim, pouco gado, e pontas de cabra de mato curiosas pelo seu comprimento».

Viviam os Negros perto e GUIMARÃES decidiu ir ter com eles à sua povoação, o que não faria sem grande perigo, dado que não consentiam que homem branco entrasse nela. Mas tudo correu bem e o explorador dá noticia de ...

«...um extensíssimo vale, todo cultivado de milho maiz, feijão, abóboras e uma espécie de milho miúdo”,

com margens (...) guarnecidas além d'imensa quantidade d'arbustos e de plantas parasitas, por duas ordens de palmeiras, que se estendem até onde se pode alcançar a vista e que parecem continuar muito parao centro».

 «...Do lado direito destes arimos ficava uma espécie de seio formado por algum rio, que no tempo das chuvas naturalmente ali desagua, conservando-se agora subterrâneo, pois cavando até dois palmos de profundidade encontra-se agua magnífica, de que os indígenas se servem para beber e à qual é devida a imensa e linda vegetação de que se acha coberta toda aquela planície”.

Com a singela mas exacta descrição do lugar, note-se que especificadamente se mencionam o milho maiz e o milho miúdo, o segundo dos quais será talvez a actual massambala. E aí estavam os renques de palmeiras que os nossos olhos ainda hoje podem ver por toda a Camilunga, nome por que agora se apelida a antiga fazenda de S. Bento do Sul. Eram os Negros governados por um soba e GUIMARÃES tinha-os por povos  “de nação mucubal” e de “vida pastoral”, designando-os de Mocorocas, “por habitarem um lugar a que chamam Coroca”.

E prosseguindo na sua informação escreve: 

«Sua vida muito pacífica não deixa de ser singular pela sua predilecção pelas mulheres, que escondem com a maior cautela,especialmente dos brancos, sendo igualmente muito ciosos do seu g  ado, cuja carne é magnífica e de que possuem grande quantidade de duas espécies, vacum e ovelhum São os Mocorocas muito dados ao exercício da caça e alguns dentre eles ao da pesca crêm muito em feitiços e almas dos seus defuntos; não gostam d'aguardente e preferem o tabaco que eles lã fabricam duma forma singular [similar?] ao de rolo do Brasil; são muito amigos de missanga branca, azul, preta e igualmente estimam muito facas e arcos de ferro para fabricarem flechas e azagaias, enxadas de ferro dumas que fabrica uma nação do interior do sertão, contígua a Benguela, por nome Nanos (o que na cidade de S. Filipe constitui um ramo de negócio); de fazendas preferem zuarte azul, baeta da mesma cor e cobertores, não fazendo apreço de chitas e outras fazendas de cores claras.»

Repete-se, na mesma costa, mais ao norte, decorridos quase três séculos e meio, atrevimento semelhante ao do destemido Fernão Veloso na Baía de Santa Helena; só que aqui não voltou GUIMARÃES tão apressado como o valente homem de armas de Vasco da Gama. Vale a pena talvez contar que o comandante Alexandrino da Cunha ou por impaciente com a demora na baía ou porque o convívio com GUIMARÃES se tinha deteriorado ou porque não queria que gente branca corresse perigo, não permitiu que homens brancos fossem com ele e deu-lhe por companheiros só dois negros da guarnição e um língua também negro.
                                                  
Repare-se que GUIMARÃES os julga  “de nação mucubal” e esta filiação fã-lo-à dizer que têm “vida pastoral”, por ser esta a ocupação tradicional dos Mucubais. Mas a verdade é que estamos em presença de uma população sedentária, ciosa de arcos de ferro para enxadas, praticando uma agricultura variada; em suma, uma população agrícolo-pastoril.

E se estes Mocurocas são aqueles que PILARTE DA SILVA encontrou -GUIMARÃES não se refere aos estalos identificadores - é de estranhar que o sertanejo não tivesse achado entre eles, 70 anos antes, vestígios de agricultura. O relatório elaborado por PEDRO ALEXANDRINO DA CUNHA coincide, no geral, com o de GUIMARÃES, o que não admira. Nem por dizer que os Curocas serão “colónias de Mondombos, dos quais têm a linguagem e os costumes» se afasta da filiação referida por GUIMARÃES: os Mucubais não terão outra origem-também Hereros saídos dos Mondombos das terras do sul de Benguela.
                     
Annais Marítimos e Coloniaís. Parte não oficial, n.” 12, 53* série, pp. 459 e segs., Lisboa, 1845. (”) ESTERMANN refere esta hipótese da origem dos Mucubais na obra citada, vol. III, pp. 29-30:
                                                                    
                                                                        



Parece-me útil dizer que os historiadores do Sul de Angola têm aproveitado, sobretudo, o relato de ALEXANDRINO DA CUNHA, cremos que por ignorância do de GUIMARÃES, mais rico de informação. Soube da existência deste pelo livrinho de CECÍLIO MOREIRA, Entre damas e o mar, atrás citado.
Ocupação portuguesa desta área só se iniciou de Dezembro de 1854 por diante, com a instalação de uma fortaleza num ponto alto, iminente à baía de Alexandre. O capitão de fragata JOÃO MÁXIMO DA SILVA RODOVALHO, que tomou parte no empreendimento, também se deslocou a uma das aldeias dos Curocas, a oito milhas da foz, em 10 de Dezembro do mesmo ano de 1854. Confirma que têm soba, são tratáveis, possuem gado vacum e arimos de milho e abóboras “de que sesustentam” (1°).

Logo no mês seguinte esteve entre os Curocas o navegador e viajante inglês WILLIAM MESSUM. Sentando-se à sombra de uma palmeira e podendo repousar os olhos no verde das hortas, sentia-se recompensado dos vários meses de aridez ao longo da costa: "Aqui me deleitei pela primeira vez, depois de muitos meses que tinha deixado o Cabo, de achar alguma coisa como vegetação, porque os naturais têm em considerável extensão hortas cultivadas de milho, grãos e abóboras.  Era um regalo, depois de tanta areia, sentar-se à sombra de uma palmeira”. E noticia ainda: "As choupanas desta gente pareciam construídas para aturar e eram habitações cómodas Os naturais possuem numerosos rebanhos de gado grosso e miúdo. Tinham também marfim de elefante e de cavalo marinho Vi maças feitas de corno de rinoceronte e grande abundância de mel e cera de abelha. Festejamos muito algum leite, milho e bolos feitos não sei de quê, com mel Perguntaram por aquadenti  mas quando lhe dei alguma, depois de a provarem, não quiseram beber» (“).
E acaba aqui o que podemos chamar a história antiga do povoamento do Baixo Curoca, uma história cheia de hiatos, de dúvidas, de perplexidades. Pelo que os textos nos dizem-e não esqueçamos sua imprecisão e mutismo , uma população mal definida de pescadores, no'início do século XVI; de pescadores, caçadores ou pastores e provavelmente agricultores no último quartel do século XVII; de pastores e recolectores (caça e apanha de vegetais) nos fins do século XVIII; de pastores, agricultores, pescadores e caçadores na primeira metade do século XIX. E a que etnias pertenciam e que etnias hoje lhes correspondem? São todos negros; os de Duarte Pacheco (século XVI) porventura Cuissis, antepassados dos actuais recolectores Cuissis, na opinião de ESTERMANN; os de Joseph Rosa (1681) falam por cliques e ESTERMANN quere-os da raça Khoisan, misturados com Cuissis, hipótese arriscada a que já aludimos, e serão ascendentes dos poucos Cuepes que sobrevivem; os de PILARTE DA SILVA (1770) parecem ser a mesma gente de Joseph Rosa e aquele sertanejo designa-os de Macorocas; GUIMARÃES, ALEXANDRINO DA CUNHA (1839), RODOVALH0 (1854) e MESSUM (1855) chamam também aos seus visitados Mocorocas; o primeiro diz que são de nação mucubal e o segundo de origem mondombe, todos, portanto, Hereros.

Cabe perguntar se os Macorocas de PILARTE DA SILVA são os Mocorocas de GUIMARÃES, CUNHA, RODOVALHO  e MESSUM. E se sim, temos então de admitir que estes asso-ciavam já à pastorícia a prática da agricultura, a menos que na mesma região houvesse pastores-agricultores concorrendo com pastores, todos apelidados de Mocurocas, por viveremjunto do rio; os primeiros naturalmente Hereros  e os segundos, os tais antepassados dos Cuepes. Mas se é cómodo libertar assim os Cuepes da agricultura, que seria conforme ao depoimento de PILARTE DA SILVA e conclusões de ESTERMANN e estaria de acordo com a actual tradição dos poucos Cuepes existentes que afirmam terminantemente que aprenderam a arte de cultivar a terra com os Brancos, não se fica em menor constrangimento em relação com Hereros: também estes são tidos por puros pastores e só recentemente lavradores.

Mas conceber no Baixo Curoca ainda outra etnia, agora de bantos agricultores, é que ultrapassará a legitimidade das conjecturas.

(1°) ALFREDO DE ALBUQUERQUE FELNER, Angola. Apontamentos sobre a Colonização dos Planaltos ..., Lisboa, Agência Geral das Colônias, 1940. vol. II, pp. 285-286. (U) Anais do Conselho Ultramarino. Parte não oficial, 1.* série,





De tudo isto, e com as reservas que já pus, me parecepoder concluir-se o seguinte: desde épocas recuadas povoaram o vale inferior do Curoca populações de diferentes origens, provavelmente Cuissis, Hereros e Cuepes. Se em períodos recuados da sua História foram recolectores e pastores, vieram todos a cultivar a terra, sob a influência de povos agricultores, o que ja aconteceria no referido século XVII. E não é mista a civilização dos Hereros, na qual se caldeiam pastores camitas com plantadores bantos (““) Se língua, crenças e instituições sociais bantas invadiram os domínios dos pas-tores camitas, porque não aceitar que cedo tenham recebido dos plantadores negros as técnicas da agricultura? E em uma vale de terras aluviais e água abundante, como é o do Curoca, como não responder adequadamente às solicitações do ambiente?


(12) O Rev.” P. ESTERMANN diz-me que terão sido Cuanhocas

                                                                      

E os Cuepes, vizinhos dos Hereros, imita-los-iam, se por outras vias lhes não chegou este modo de vida. E o viverem em aldeamentos mais ou menos fixos parece também conferir à cultura dos Mocurocas uma forte e antiga base rural. Tipos puros de civilização existem mais na imaginação dos estudiosos do que implantados na terra. Mas passemos a moderna história da ocupação do vale.

Funda-se a colónia de Porto Alexandre em 1854, cinco anos depois de se instalar em Moçâmedes o primeiro grupo de colonos portugueses, vindo de Pernambuco (Agosto de 1849). Só em começos de 1861 se inicia, porém, a ocupação branca do vale do Curoca, com a fazenda de S. João do Sul, do agricultor João Duarte de Almeida.

A ocupação progride nos 10 anos que se seguem; em 1871 o número de propriedades era de 12. Mas daqui por diante a agricultura entra em fase de contínua decadência: primeiro o algodão perde o preço, proíbe-se depois, em 1911, o fabrico de aguardente de cana, verdadeira moeda corrente nas transacções com os indígenas. Pereira do Nascimento conta apenas 5 fazendas em 1892. Em 1932 as terras do Curoca já só fornecem alimentos aos habitantes de Porto Alexandre; e  o que hoje produzem nem chega para abastecer a vila: sob a orientação de Brancos não se exploram mais que três fazendas-S. João do Sul, Pinda e Camilunga.

No período afortunado da exploração cultivavam-se, como principais produtos de rendimento, o algodão e a cana-de-açúcar e, como alimentos de base, a batata-doce, o feijão e a abóbora; e ainda a palmeira tamareira, a massambala, a mandioca milho, trigo, e nem faltavam os estimados mimos europeus como laranjeiras, pereiras, macíeiras e videiras.A mão-de-obra abundante, que tais empresas reclamavam, buscar-se-ia inicialmente, em escravos e depois em libertos e livres de vária procedência, desde Luanda-Malange e Nova Lisboa a Benguela e Novo Redondo, incluindo vizinhos Curocas Cuissis e Hereros ou os mais distantes Nhanecas-Humbes Ambós e Ganguelas (W). Para a manter, sobretudo depois  da abolição da escravatura em diante, distribuiram os agricultores brancos algumas courelas por trabalhadores pretos. que as cultivavam para si, em certos dias da semana, enquanto outros amanhariam terras sem dono, do Governo, no seu modo de dizer, contíguas às fazendas.

Com o colapso da plantação empresarial o vale despovoa-se praticamente de Brancos; ficam, em parte, os Pretos, uns, a título precário, nas glebas onde labutavam, outros em terrenos do Governo, para onde transitam ou em que jé estavam.

E nesses espaços de ninguem entram em mais vivo con a com os antigos habitantes da região. Ora é exactamente do estudo do estilo de vida dos povoadores de um destes lugares a Onguaia que passarei a ocupar-me.

('“) H. BAUMANN & D. WESTERMANN, Les peuples et les civilisations de l'Aƒrique..., Paris, Payot, 1948, pp. 117 e segs. (“) CECÍLIO MOREIRA, op. cit., pp. 23-24.(15) Idem, op. cit., pp. 25-26




Texto: Vida Humana no Deserto do Namibe Ongaia :  http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:vWR6KIP1BQoJ:www.ceg.ul.pt/finisterra/numeros/1971-11/11

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Uma familia da Baía dos Tigres: familia Martins Pereira



Uma foto que encontrei na Net , em http://voguida.blogspot.com/2010/10/foto-n-27.html, e que,  por achar que pode interessr à familia Martins Pereira, coloco-a aqui .

Legenda:  Na Baía dos Tigres, já no deserto da Namibia, quando fomos visitar uma família amiga de apelido Martins Pereira, industriais no ramo da pesca.  Na foto da esquerda para a direita o Tio João, irmão do meu Pai e Oficial da Marinha Mercante, o Capitão Marques casado com a D. Margarida Rolão Preto, família Rolão Preto sobejamente conhecida pelos seus ideais políticos, a seguir a D. Margarida, a minha Mãe, a nossa Ama Noémia com a minha irmã Nela,ainda bébé ao colo, a ama das filhas da D. Margarida. Sentados da esquerda para a direita o meu Pai, uma das filhas da D. Margarida, eu,o meu irmão Carlinhos e a outra filha da D. Margarida.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

João Duarte e a pescaria da Praia Amélia em Moçâmedes








João Duarte entre os filhos Armando Guedes Duarte (Mandinho), à esq., e João Carlos Guedes Duarte (Jinho), à dt. À esq, Carlos Humberto Freitas de Sousa (Beto)


 
A pescaria de João Duarte, na década de 1920, tinha pertencido aos noruegueses que se dedicavam à  caça da baleia (1)



 

Corte e escala de grandes cetáceos
 
  Navio baleeiro na Praia Amélia


As instalações foram-se modificando com o correr do tempo...





João Duarte era um bem sucedido industrial e comerciante,  natural de Lamego, proprietário de uma pescaria na Praia Amélia, a 5km do centro da  cidade do Namibe,  que foi durante muito tempo o local onde as famílias de Moçâmedes se juntavam em grupinhos, aos fins de semana, no Verão, para um dia bem passado, que incluia banhos de mar, pesca à linha do cimo da ponte, ou em pequenos botes a remos (chatas), junto ao canal, e que tinha o seu ponto alto numa animada almoçarada que se prolongava pela tarde fora, e que geralmente constava de uma caldeirada de peixe acabadinho de pescar, feita mesmo alí embaixo do telheiro da pescaria, ou seja, sob o tecto de um amplo barracão onde ficavam os tanques de salga do peixe.

Estes passeios, importa referir, já vinham de um tempo em que os veículos automóveis em Moçâmedes eram inexistentes, e as pessoas se deslocavam para a Praia Amélia em baleeiras de pesca, à vela, a partir das pontes que ficavam mais à mão, como era a da Praia das Miragens, para os moradores da baixa da cidade, ou a partir das várias pontes das antigas pescarias  para os moradores do Bairro da Torre do Tombo. As pessoas carregavam consigo cestos onde arrumavam produtos alimentares destinados à ementa, tais como cebolas, batatas, azeite, fruta, doces, sobremesas, refrigerantes, bebidas variadas, e também toalhas, guardanapos, bancos, pratos, copos, talheres, etc. etc.. E ainda carvão para combustivel ou um fogão a petróleo , desses que foram vedeta na época, antes do surgimento dos fogões alimentados a gás.


Jovens moçamedenses na ponte da pescaria de João Duarte, na Praia Amélia. Em cima, à dt, Guida, a filha mais nova de João Duarte



A pescaria de João Duarte servia também de base para concursos de pesca desportiva, e tinha sempre por perto uma multidão se espectadorese,  gente de ambos os sexos e de várias idades

Na ponte da pescaria de João Duarte, num concurso de pesca desportuva: Arménio e Nidia




João Duarte era considerado um homem rico para a época. Era o mais rico morador do Bairro da Torre do Tombo. A sua pescaria na Praia Amélia, onde toda a gente foi era sempre bem recebida,  foi evoluindo, e encontrava-se nos anos 1960 apetrechada com uma fábrica de farinhas e óleos de peixe, totalmente automatizada, instalações para salga e seca para os peixes mais nobres, 3 traineiras de bom porte, uma ponte, várias casas para o pessoal e  até uma capela.  João Duarte era  ainda  proprietário de algumas vivendas modernas situadas na parte alta da cidade, ocupadas por familiares, e de um conjunto de casas antigas situadas na Torre do Tombo, que ocupava quase todo um quarteirão, junto à estrada que dá acesso à Praia Amélia. Possuia também na baixa da cidade, ou "centro histórico" como lhe queiramos chamar um prédio de 4 pisos, num gaveto que dava para a Rua dos Pescadores e  para a Rua Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro,que se encontrava arrendado ao Banco de Angola. Na verdade João Duarte era um industrial de pesca e um comerciante bem sucedido. Em meados dos anos 1950, foi Presidente do Grémio dos Industrais de Pesca de Moçâmedes. Mas naquele tempo, ser rico nada tinha a ver com as rápidas fortunas que se estão a criar em Angola  nos dias de hoje.  É preciso que se saiba também que ser industrial de pesca em Moçâmedes podia ser um bom investimento, mas envolvia também muito trabalho e grandes riscos, uma vez que se trata de uma actividade dependente das capturas de peixe.  Para que a industria de pesca fosse rentável, cada traineira tinha que pescar  no mínimo 5 mil toneladas por ano, e quem não pescasse essa quantidade de peixe, tinha prejuízo. Por vezes bastava um ano de crise para de um momento para outro tudo fosse por água abaixo. Foi o que aconteceu em 1957/58, por força da  crise do pescado que avassalou os mares de Moçâmedes e  abalou muitas boas empresas de pesca do distrito, levando umas à falência,  outras ao total desaparecimento, e ainda outras a desistirem do sector pesqueiro e a ficarem-se pelo comércio, pela agricultura, e  pelo imobiliário. Estou a lembrar-me que desapareceram na voragem desta crise que se abateu dobre o sector das pescas,  a "Casal dos Herdeiros de João Maria Inácio",  a "J. Patrício Correia, Lda" ,  e a "Marcelino de Sousa, Lda", todas  pescarias da zona da Lucira, valendo aos primeiros o grande número de bens imobiliários que detinham. Desapareceram a "Angopeixe, Lda", e a "Raúl de Sousa"  na Baía das Pipas. Desapareceram a "Conserveira do Sul de Angola, Lda", a  "Portela & Guedes Lda", a "Manuel Nunes de Carvalho & Filhos, Lda ,  em Porto Alexandre. No caso particular da "Conserveira do Sul de Angola, Lda", esta entrou na posse do Banco de Angola, como credor hipotecário,sendo depois vendida ao Dr. Urbulo Cunha, em sociedade com ? Ferreira, a prestações mensais de 50 contos. Outras empresas como a "Sena & Ribeiro Lda", e a "Sampaio & Irmão Lda", de Porto Alexandre, também desapareceram com a crise. Em Moçâmedes, a SOS "Sociedade Oceânica do Sul, Lda.", fábrica de conservas do Capitão Josino da Costa, encerrou a sua actividade industrial, sendo as instalações adquiridas por Gaspar Gonçalo Madeira. Desapareceu a "Sociedade da Ponta Negra Lda", no Canjeque,  adquirida pela "Projeque, SCRL Lda", e foram abaladas por esta  crise a "Torres & Irmão, Lda" e  a "José Carvalho & Sybleras, Lda", do Saco;   a "Venâncio Guimarães, Lda" da Praia Amélia,  e a "João Martins Pereira & Filhos, Lda", da Torre do Tombo. Por arrastamento a crise afectou também o comércio,  abalando empresas como a "Carvalho de Oliveira & Cª. Lda". Umas conseguiram recuperar porque se dedicavam paralelamente à actividade do comércio, como a "Antunes da Cunha, Lda", em Porto Alexandre. A "Torres Irmão, Lda" ficou-se com a Horta e com o imobiliário.

Este é um exemplo de como não era fácil ser-se industrial de pesca naquele tempo  e naquelas paragens. E para se fazer uma ideia da complexidade do problema, nesses anos bons nem sempre a capacidade de laboração das fábrica davam resposta à quantidade das capturas, e quando o pescado excedia, era vendido às outras pescarias, a 300 escudos a tonelada. Este exemplo dá-nos a ideia da relatividade do valor do produto.


A empresa de João Duarte, uma das mais fortes do Distrito, situada na Praia Amélia, a 5 km do centro da cidade,  também não escapou aos efeitos dessa grande crise de pescado.  A sua pescaria  chegou mesmo a ser vendida a uma empresa sul-africana, porém a sorte esteve ao lado do proprietário, pois a operação acabou por não se concretizar  porque o Governo daquele país não autorizou o  investimento no estrangeiro, tendo os compradores acabado por perder o sinal que tinham adiantado, por via de contrato de promessa de compra e venda que haviam efectuado. A empresa de João Duarte conseguiu assim, como poucas, não apenas vencer a crise, como nos anos a seguir à crise, até modernizar em termos de maquinaria as suas instalações fabris, e  partir ainda  para a construção de um prédio na Rua dos Pescadores, que veio a ser alugado , como atrás referido, ao Banco de Angola.
Estamos a falar dos estragos acontecidos na segunda metade da década de 1950.  Retenha-se que o grande "boom" piscatório veio a acontecer às vésperas da entrada  nos anos 1960, com a inovação de todo o mecanismo ligado à indústria de pesca, designadamente com a instalação de fábricas de farinhas e óleos de peixe totalmente mecanizadas, e o uso nas traineiras de sondas para captação de peixe e aladores mecânicos para carregamento do pescado. 
 


A traineira Zita Lourdes (nome da filha mais velha de João Duarte e D. Conceição (Micas)
Traineira Maria Margarida (tomou o nome da filha mais nova de João Duarte e D. Conceição (Micas)

 Traineira Maria Margarida junto à ponte das instalações fabris de João Duarte, vendo-se ao fundo as instalações da Venâncio Guimarães


 A ponte vista noutra perspectiva


Traineira Maria Margarida

 O desembarque do pescado


 Pescado com fartura... Nestas fotos podemos ver, laborando, sob a orientação do mestre, trabalhadores indígenas contratados (1)

 Lavando as redes na praia, junto das instalações



 Trata-se de um quarteirão quase inteiro de casas, situadas  na Torre do Tombo pertencentes a João Duarte.

Nasci e cresci numa casa mesmo ao lado da casa onde viveu a familia João Duarte,  a casa grande, pintada de cor-de-rosa que faz esquina com a rua no tempo colonial chamada Rua da Colónia Piscatória, e que se pode ver na foto acima.

Embora tenham passado 50 longos anos, tenho na memória recordações nítidas deste local que me foi familiar, e deste conjunto habitacional, de arquitectura colonial portuguesa, que conheci por fora e por dentro, como às minhas mãos, e considero de grande valor em termos de património arquitéctónico, cultural e histórico para a cidade do Namibe, embora, e lamentavelmente, pareça não estar a ser devidamente valorizado, tendo em conta o estado de degradação que já se vai notando, ainda que faça a delícia de visitantes, sobretudo de estrangeiros que de passagam pela cidade  não resistem em as fotografar.

Tenho bem presente os momentos de alegres brincadeiras que partilhei com alguns dos filhos desta numerosa familia, sobretudo aqueles que mais se aproximavam da minha idade, a Zita Lourdes, o Zé, o Helder...  Os outros filhos de D. Micas e de João Duarte eram o João Carlos (o Jinho), o Norberto, o Quim, e o Armando (Mandinho), os mais velhos. Mas havia tabém os mais novos,  a Margarida (Guida), o Mário e o Eduardo. O Norberto acabaria por falecer muito novo ainda,  com doença contraida numa viagem à Metrópole. Cheguei a conhecê-lo. Uma bonita figura de homem. O Armando também faleceu relativamente jovem.

Recordo as bonecas de pano com as quais a Zita Loudes brincava sentada na escadaria da entrada do casarão, confeccionadas pela D. Micas, com longas tranças feitas de lã amarela,  e vestidos de chita colorida... E  também as bonecas de papel colorido e lustroso que a Zita guardava no interior de uma caixinha de lata, com os respectivos vestidos, saias, casacos, chapéus, sapatos, etc.  Tudo em papel. Naquele tempo  não havia a variedade de brinquedos que existem hoje à venda no mercado, e as nossas mães jogavam mãos às suas habilidades manuais para proporcionarem esse tipo de brinquedo às suas filhas. Era o caso das bonecas de pano com tranças de lã de confecção doméstica.

Ainda sinto o cheiro da água de colónia que a D. Micas fazia, colocando num grande frasco com uma tampa de metal e cortiça, e uma pequena  abertura redonda por onde saia um esguicho, uma boa porção de perfume ao qual adiciona água, talvez para suavizar o efeito sobre a pele. Era com este líquido perfumado que ganhava a côr branca, que perfumava os filhos caçula, a Guida, o Mário e o Eduardo após o banho diário.

Lembro-me dos "apetitosos" odores que emanavam daquela cozinha,  onde a azáfama diária não parava desde manhã cedo até à hora de deitar...

Recordo os "jogos de esconde esconde" e outras brincadeiras mais, que nós, garotada endiabrada, fazíamos por baixo do assoalho daquela casa, construído sobre uma caixa de ar, que surgia aos meus olhos criança como um enorme subterrâneo, e onde descobrimos  sacos de sarapilheira cheios de moedas antigas do tempo dos reis.

Naquele tempo, ainda em finais da década de 1940, início da década de 1950, brincávamos no meio da rua, em frente às nossas casas. Moçâmedes era uma terra santa em termos de segurança. Os veiculos automóveis eram poucos, não constituiam perigo de atropelamento, porque eram financeiramente acessiveis a muito poucas pessoas.  E porque a II Grande Guerra  (1939-45) ao ter colocado as fábricas europeias ao serviço do armamento, estas deixaram de fabricar automóveis para exportação, daí que mesmo já no início dos anos 1950 fossem veículos automóveis de marcas americanas, como a Ford, a Chevrolet, a Dodge que apareciam a circular.

Moçâmedes era uma santa terra, também no sentido em que as portas das casas podiam ficar abertas durante do dia sem que algum assalto acontecesse. Lembro-me  que meu pai deixava à porta da nossa casa, a sua carrinha de caixa aberta da marca Ford V8, com a chave na ignição . E que a porta da nossa casa ficava aberta durante todo o dia, e à noite fechada apenas no trinco.

A rua era o campo onde as crianças  e os adolescentes do meu bairro jogavam futebol. E o meu bairro era como disse o mesmo onde morava a familia João Duarte. Na rua brincavamos às escondidas,  penetravamos na propriedade alheia, sem qualquer problema. Lembro-me de devassarmos as imediações da casa do velho Reis e da Ritinha Seixal, onde havia muito sítio para esconder, e onde, sobre terraços de quartos feitos de bordão punham a secar rodelas de batata doce, que chamávamos  "macocas",  e que faziam a delicia da garotada, dos quais faziam parte o Zézinho Duarte e o Helder Duarte, o Amilcar, o Monteiro (Necas), o Juju, o Aires Domingos e o irmão Vitor,  o Lolita Lisboa, etc.  O Zequinha Esteves e o Travão  alinhavam na brincadeira, mas  apenas quando tocava a jogos de futebol no meio da rua. Jogos que metiam taça para os vencedores, e tudo!  Brincava-se muito naquele tempo. Escola da parte da manhã, brincadeira o resto do dia. Nada a ver com escolas-prisão dos tempos de hoje!  Como tenho pena dos meus netos...Nossas mães estavam em casa, não trabalhavam, não havia essa coisa que hoje chamam os "deveres de casa", brincava-se até à hora do jantar, até à chegada a casa do João Duarte, por volta das 20 horas, a hora do "descanso do guerreiro".  Quando víamos ao longe a limousine americana cinzenta,  da marca Dodge, do proprietário da Pescaria da Praia Amélia, a aproximar-se, ponto final, acabava a brincadeira. Era a hora do recolhimento a casa para o jantar.

Uma coisa que o industrial e comerciante João Duarte não dispensava, era o "encontro dos velhotes" até à hora do jantar, no "Quiosque do Faustino", em plena Avenida da República, o lugar privilegiado, sala de visitas de Moçâmedes. Alí encontravam-se para animada cavaqueira, o velho Cabral, de fato e lacinho;  o velho Ringue, de origem boer, tradutor de profissão e ex-cultivador de tabaco (Bibala); o velho Pimentel Teixeira acabadinho de chegar na sua bicicleta, vindo da Farmácia do Sindicato  dos Industriais de Pesca e seus Derivados do Distrito de Moçâmedes (depois Grémio), onde trabalhava; o sempre bem disposto Virgílio Gomes (do Armazém) ou Virgilio Russo, também conhecido carinhosamente, por "Virgílio Aldrabão", devido às mirabolantes anedotas (*) que sempre tinha para contar. O velho Eduardo Torres de quando em quando aparecia,  e outros mais que a memória memória traiçoeira, não deixa lembrar...

João Duarte foi, pois, um exemplo da vontade, persistência e determinação de um português do Norte, que um dia resolveu partir para Angola, ali fixar-se para sempre, nessa terra onde viveu, casou, teve filhos, teve netos, labutou, gerou riqueza, proporcionou trabalho e investiu o fruto desse trabalho, sem se preocupar em amealhar para si e para os seus algures em algum Banco na Europa.  Lamentavelmente a tendência foi confundir colono e colonialista. E pior ainda, separar as pessoas em boas e más consoante a pigmentação da pele, mera questão de maior ou menor quantidade de melanina. São estes preconceitos, fruto da ignorância, que ainda proliferam,  e impedem uma visão mais clara e realista da história de Angola. 
Ser "Colons" nada têm a ver com "colonialista". O ser-se "colono" não implica que se seja automaticamente um ser pérfido e explorador. Não era assim a maioria, embora houvesse quem o fosse. Fomos apanhados nas malhas da História semopre engendradas pelos senhores do poder deste mundo.
A  colonização de Angola, hoje sabe-se , nada tem a ver com os muito propalados 500 anos, desde Diogo Cão. Ela começou ainda que paulatinamente, impulsionada pelo projecto europeu de exploração económica e dominação política que aconteceu por determinações saidas da Conferência de Berlim (1884.5), dirigidas por homens de poder e de dinheiro que sempre houve em todos os tempos e em todas as latitudes, os tais Oligarcas. Um projecto que incorporou doutrinas destinadas justificar o referido domínio sobre povos considerados tecnicamente mais atrasados.   "Colonos", na sua maioria simples emigrantes, grupos humanos de gente geralmente pobre e trabalhadora dos quais os colonialistas se serviram, do mesmo modo como se serviram dos povos colonizados, para levar por diante os seus intentos em território afastado do seu lugar de origem.
Por vezes há colonialismo sem colonização, sem fixação de colonos,  apenas com desempenho de cargos de funcionalismo, sempre com o fito de um regresso. Em Angola houve  colonização, houve fixação de colonos à terra com carácter permanente, onde lhes nascem os filhos e onde, como refere Luiz Chinguar,  procuram o “ultimo refúgio na velhice, edificam uma casa com jardim à frente e horta e pomar no quintal..."  O  colonialistas não investe como João Duarte fez.   Em Angola  houve colonização e também houve colonialismo, era fácil distinguir.  As leis eram feitas para favorecer os  colonialistas que delas beneficiavam, não os colonos. Para benefícia uma oligarquia de Lisboa, colada ao poder, detentora das grandes fazendas e de inúmeros privilégios e monopólios. Não estava em Angola, não trabalhava duro, mas vivia num pérfito absentismo e com total poder de decisão. Sempre, desde sempre, desprezou a vontade dos colonos., sobre os quais recaiu o ónus das injustiças praticadas, enquanto as mais valias económicas e financeiras deste mau proceder ficavam para os oligarcas, que nunca deram a cara.  Angola  em vez de descolonização devia ter feito um descolonialismo!  Colonialismo, o principal causador do atraso cultural, económico e, principalmente, social.  Infelizmente após 1974,  Portugal não procurou encontrar-se com a verdade. Em nome do politicamente correcto escondeu-se e continua-se escondendo o passado através de uma mass midia controlada e pouco esclarecida em relação às consagradas "verdades" oficiais e tidas por  definitivas. Muito pode aprender  quem queira, com os  txtos de Luiz Chinguar: : http://psitasideo.blogspot.pt/2009/06/os-ossos-da-colonizacao-1.html.


Símbolos positivos do fim do período colonial, estas pessoas acabaram por ser a mais prejudicadas, porque Portugal, que teve o direito de colonizar (de acordo com o direito internacional), não cumpriu o dever de descolonizar no tempo próprio. Porque atirou sobre os colonizados por demasiado tempo, leis abstrusas que só poderiam originar cisões, entre aqueles, brancos e negros que lado a lado trabalharam para o engrandecimento de Angola.  Portugal  rumou  no sentido contrário do processo histórico, e não teve a mínima consideração nem pelos africanos, nem pelos europeus que alí labutavam e alí investiam o resultado do seu trabalho. Optou por uma guerra sem fim à vista, que não podia ter outro resultado, senão o do Portugal de Abril ter-se visto obrigado a debandar do território, deixando para trás aquelas gentes entregues a uma guerra fraticida, e oferecendo aos portugueses e aos seus descendentes, ali nascidos, e a uns poucos africanos vinculados ao Estado, como descargo de consciência, a  única alternativa viável:  uma «ponte área» montada à pressa, e sem retorno. A juntar-se a isto, o "favor" de se poder trocar 5 mil escudos angolanos por cinco mil escudos portugueses!

Estas pessoas, mesmo as nascidas em Angola, regressaram às suas terras, ou às terras dos seus antepassados que nada lhes dizia, com as mãos mais vazias que nunca. Até o dinheiro que conseguiram arrecadar era diferente, e não tinha nenhum valor. Os tais Oligarcas, os grande empresários domiciliados na Metrópole, os protegidos do sistema, que desde sempre se serviram de Angola apenas para «sacar», e investir na Europa, sem vínculo afectivo que os ligasse àquela terra, nada perderam, porque tinham como sempre tiveram o seu "pecúlio" a bom recato!

Esperemos ao menos que a História consiga um dia separar o trigo do joio e finalmente fazer justiça àqueles que deram a Angola o melhor de si mesmos, e ainda hoje continuam escarnecidos e vilipendiados!

As lições da vida têm sido uma grande Escola para os angolanos e para portugueses! Assim as saibam escutar. Em Angoa sairam os portugueses, a guerra entre os movimentos de libertação arrastou-se até 2002, e tornou-se mais feroz que nunca. Acabada a guerra, para além dos colonialismos, foram-se as ideologias, instalou-se o discurso do neo-liberalismo. Hoje em dia, um pouco por toda a parte, assistimos, impotentes, ao surgimento de um tipo de Estado que já não controla a sua própria estrutura política, desprestigiado por agentes económicos sem ética, sem respeito pelos mais elementares direitos dos outros. Ali, aqui, acolá, e por toda a parte.

Angola é um país de futuro, apregoa-se. Oxalá um dia o seu povo possa vir, também a beneficiar das suas riquezas. E que o velho Portugal se encontre consigo próprio, finalmente!




Algumas fotos de familia:



Aqui podemos ver a D. Micas (Maria da Conceição Guedes Duarte), esposa de João Duarte,  e os seus 8 irmãos, alguns dos quais trabalhavam na empresa da família Duarte. São: Isaura Guedes da Silva, Joaquim Guedes da Silva, João Guedes da Silva, António Guedes da Silva, Manuel Guedes da Silva, Armando Guedes da Silva, Delfina Guedes Lisboa e Carlos Guedes da Silva. 
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Aqui podemos ver o José Guedes Duarte (Zézinho para os familiares e amigos) e Teresa Banha enquanto namorados, no Parque Infantil de Moçâmedes.  José Duarte é um dos filhos de João Duarte e D. Micas. Os miúdos são o Ricardo (Kady), a irmã, Lena Duarte, e o Fernando Duarte que Deus Tem. Ao fundo o Colégio das Doroteias. São todos filhos do casal  Maria Helena Ramos Duarte e João Carlos Guedes Duarte (Jinho), portanto netos de João Duarte. Foto de finais doa anos 1950.

Acrescentarei ainda a esta postagem algumas fotos deste ramo alargado da familia Duarte, "roubadas" ao  Ricardo (Kady), neto de João Duarte:

João Carlos Guedes Duarte (pai), Maria Helena Ramos Duarte (mãe), com alguns dos seus 7 filhos: Lopo, São e Jorge e Lena, Mário, Fernando e Ricardo/Kady.



Familiares e amigos na ponte da pescaria da Praia Amélia. Da esq para a dt: Jorge Duarte, Kady Duarte, Lelito?, Marito Saavedra, Fernando Duarte, Lenita, uma prima de Sesimbra, Marito Duarte (o caçula), Lena Duarte (de óculos) menina de Porto Alexandre de Maria Cândida (Sial). Ao fundo duas traineiras e a ponta do Canjeque. Na foto a seguir: Lopo, São, Jorge. Embaixo; Lena, Márito, Fernando e Kady Duarte.
 


Interessante é o perfil que Kady traça de seu pai, o João Carlos Guedes Duarte, conhecido Jinho, que enquanto em Moçâmedes, tinha enraizado em si o «bichinho» dos aviões e das corridas de automóvel...  Ei-lo:

"O meu pai João Carlos Guedes Duarte, também conhecido em Moçâmedes por "Jinho" começou a voar em 1956 e teve licença para pilotar aviões - o popular "brevet" - em 1958. A sua madrinha de vôo foi a Celísia Calão, uma senhora lindíssima, aliás lugar comum em Moçâmedes, pessoa que tive o prazer de reencontrar em Portugal continental, pois deu-se a feliz coincidência de a Celísia vir a ser colega da minha mulher na CGD em Lisboa. Foi a Celísia que deu o banho de baptismo de "brevet" ao meu pai com o tradicional balde de água pela cabeça abaixo.

"O meu pai começou por voar em Moçâmedes, com os aviões do Aero Clube local, tendo participado com boas classificações em diversos "ralis aéreos". Mais tarde acabou por adquirir um Tiger Mouth àquele Aero Clube com o qual fez inúmeras acrobacias aéreas e outras peripécias - desde aterrar na praia a colocar o passageiro a vomitar (diga-se situação um pouco incómoda até para o piloto) porque o Tiger "4 asas" não tinha carlinga e o passageiro viajava, por norma, no lugar da frente. Lembro-me do meu pai me contar que, de vez em quando perdia ferramenta e haveres, deixados por descuido dentro do cockpit, quando se punha a fazer "loopings" e "tonneaux".

 
João Carlos Guedes Duarte com Fragoso (aviador), o irmão Armando Guedes Duarte (Mandinho) e o Chefe do Posto Matos

João Carlos Guedes Duarte junto a um Auster da FAV com Fragoso, colega piloto.

É ainda Kady que assim escreve:

"...Quem me lê conhece bem o meu pai e sabe do que ele era capaz de fazer de um avião. Quando cheguei a Portugal (em 1976) vivi por breves meses em Vidago e aí encontrei alguns ditos "retornados" que me contaram peripécias do meu pai com o Tiger que eram desconhecidas na família. Um desses senhores contou-me que o meu pai ia buscá-lo à Baía dos Tigres só para ele ir jogar futebol a Moçâmedes ao domingo e ele (futebolista) perdia mais peso na viagem (tais eram as acrobacias) do que durante todo o jogo!!! Na Baía dos Tigres os aviões aterravam na avenida principal e recolhiam-se ao pé da igreja, onde eram amarrados tal eram as ventanias e tempestades de areia. Como se sabe, os aviões levantam sempre contra o vento e nos dias de vento forte punham-se dois cipaios de cada lado das asas a segurar as mesmas enquanto o avião não tomava aceleração para não levantar antes do tempo!!!Esse Tiger Mouth (prateado) CR-LCN foi , mais tarde destruído em acidente tido pelo meu tio Mandinho (Armando Guedes Duarte) também ele piloto - fez um "cavalo de pau" e partiu a hélice e deslocou os apoios do motor. Vou "postar" aqui as poucas fotos que tenho de Moçâmedes (são só duas) mas prometo, para futuro breve divulgar aqui alguns filmes em 8mm, ou fotos deles extraídas, onde se podem apreciar os ralis aéreos com aviões do Aero Clube de Moçâmedes de outras cidades angolanas e alguma acrobacia aérea no Tiger Mouth.» ....

O «Tiger Mouth» de João Carlos Guedes Duarte com os filhos Lopo e Jorge


"...De 1957 a 1961 e nesse tempo de "vacas gordas" o meu pai andava nas corridas de automóveis e nas "brincadeiras" com avionetas do Aero Clube de Moçâmedes e até chegou a ser proprietário de uma pequena avioneta - um Tiger Moth de "4 asas". Há cá muita gente de Angola, que se lembrarão desses áureos tempos. »

 O casal João Carlos Guedes Duarte  e Maria Helena Ramos Duarte


Alguns elementos da familia Duarte, junto da sua moradia em Porto Alexandre, no dia 10 de Janeiro de 1976, já após a independência, momentos antes de abandonarem aquela cidade


Fica aqui mais uma recordação de gentes e factos ocorridos um dia, algures na nossa terra.




MNJardim 




(1) Quem viveu em Moçâmedes, decerto não se cansou de ouvir histórias dos seus antepassados sobre a estadia dos noruegueses, tripulantes dos barcos da pesca às baleias, pertencentes a uma empresa norueguesa que se instalou na «Praia Amélia» (1), a seis quilometros a sul da cidade, com uma fábrica de grandes proporções para a época.Resta referir que os noruegueses que trabalhavam nessa fábrica da Praia Amélia marcaram uma época. Eles praticavam desporto e muitos deles eram exímios jogadores de futebol. Reforçaram os times da terra (em especial o do Ginásio Clube da Torre do Tombo, findado em 1919), que beneficiaram da boa técnica desses atletas nórdicos, dotados de experiência e dos mais avançados métodos de preparação física e táctica. Por outro lado, entregavam-se ao folguedo, com exuberância nas noites dos sábados, distribuindo-se pelas tabernas citadinas, ébrios e truculentos. Tocadores excepcionais de concertina, cantavam em côro, canções do seu país, e punham em alvoroço a pacata gente do pequeno e silencioso.

Partiram e não voltaram. As gentes pacíficas da terra não perderam, entretanto, as esperanças de um breve regresso. Mas em vão. Ficaram as saudades que uma abrupta partida originou. Também permaneceram as memórias desses tempo romântico, nas ossadas desses grandes animais por todo o litoral, especialmente na «Praia das Conchas».



(2) Praia Amélia, assim chamada porque em l842 ali encalhou a escuna Amélia da Marinha de Guerra Portuguesa. A este respeito transcrevo parte de um texto do Blog Tropicália: "...Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, forma uma enseada, que termina da banda do Sul na ponta da Anunciação, ou da Conceição, que é rasa, negra e só a custo se percebe do mar. Fica em 15° 16' Sul.A uma milha e seis décimos para ONO. da ponta do Noronha, fica o extremo setentrional do baixo da Amélia, nome que lhe foi posto por ter naufragado ali, em 1842, a escuna de guerra portuguesa Amélia, muito perigoso por quebrar só de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns 3 metros de água, em alguns sítios.É todo de rocha e areão, tem na fralda ocidental 2,2m, 3,5m, 4,5m de água, e 7,9 e 11m na setentrional; perto dele e da banda do Oeste se encontram 22 m e mais, separa-o do continente um canal por onde só devem navegar lanchas.Por alturas do ano de 1840, a quem afirme ter visto na Praia da Amélia, navios de guerra ingleses passar por entre o baixo e a praia da Amélia, que lhe fica fronteira; julgamo-lo porém muito arriscado, assim por poder acalmar ali o vento e encostarem as águas para cima do baixio, por haver sempre seu rolo de mar.Dilata-se o baixo da Amélia por entre 15°14' e 15º18' Sul, vai até a umas 3 milhas da costa. Pode-se navegar por aquelas paragens, enquanto estiver a ponta Negra descoberta da ponta do Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito décimos de milha para Norte dele."
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Baleias na Praia Amélia, em Moçâmedes
http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2007/08/caa-baleia-na-praia-amlia.html
Fotos/fonte - Blog Kadypress: clicar AQUI.
Aero Clube de Moçâmedes AQUI




quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A Baía dos Tigres na segunda metade do século XX: as construções publicas



Uma única estrada feita em cimento, que era também  pista de aviação....



SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA BAÍA DOS TIGRES: As construções públicas

Folheando o livro do autor Cecílio Moreira,  "Baia dos Tigres", encontramos estas fotos que nos mostram a povoação de S. Martinho dos Tigres nos últimos tempos da era colonial, com seus edifícios de arquitectura original, mandados construir pelo Governador Silva Carvalho às vésperas da entrada na década de 1950, alguns dos quais em forma de "palafita",  ou seja, assentes sobre pilares, para deixarem passar as areias soltas das dunas, que ventos fortes faziam movimentar, cobrindo tudo à sua passagem. São a Capela, a Escola Primária, a Alfândega, o Posto Sanitário, a Delegação Marítima, a Estação Rádio-Telégrafo-Postal CTT, o edificio do Posto Administrativo, os Seviços Metereológicos,  Tanques de abastecimento de água e algumas Casas para funcionários.
 Alinham-se de um lado e do outro da única rua cimentada, construida pelo engenheiro Marques Trindade em frente à Igreja, que passou a ser  também utilizada como pista para aviação. Todas estas construções deixadas pelos portugueses ao total abandono, em 1975, vêm resistido ao tempo e à degradação , e apresentam hoje  ao visitante o aspecto fantasmagórico de um quadro surrealista.


Quando teve início a carreira de avionetes para os Tigres, duas vezes por semana, também aterravam na "pista" aviões que eventualmente se deslocassem aos Tigres, o que acontecia não raras vezes. O Delegado de Saúde do Concelho de Porto Alexandre, deslocava-se ali uma vez por semana, para visita médica, ficando na sua ausência dos doentes ao cuidado de um enfermeiro de 1ª classe.

 

A Igreja de S. Martinho dos Tigres, é  Igreja, com traça arquitectónica que faz lembrar uma catedral . Assente sob placas de betão, cruciforme,   é composta por um corpo central com baptrisfério, coro e  torre. Possui uma capela-mor dedicada a S. Martinho, patrono da Igreja, e duas  capelas laterais dedicadas respectivamente à Senhora da Nazaré e as S. Pedro. Possui também uma sacristia. Na soleira da porta principal da Igreja de S. Martinho dos Tigres  encontrava-se  no tempo colonial uma pedra levada para ali, em 24 de Dezembro de 1947, da Fortaleza de Massangano, --velho reduto da resistência de Portugal à ocupação holandesa --, pelo comandante daquela unidade  da Marinha de Guerra Portuguesa, capitão de Mar e Guerra, Vasco Lopes Alves, antigo Governador de Angola.  Foi entregue à Diocese de Nova Lisboa em 1951, que à época se estendia até à antiga Província da Huíla. Assinaram o termo pela estatal construtora, o Engº Marques Trindade, e em representação do Governo , o Intendente de Moçâmedes, José Pedro dos Santos.

   Os serviços religiosos na Baía dos Tigres estavam ao cargo do Pároco da Freguesia de Porto Alexandre,   que alí se deslocava em dias de festas ligadas à Igreja. Visita anual fazia à vila o Bispo de Sá da Bandeira, D. Altino Ribeiro de Santana. Era a maior  festa para as gentes dos Tigres.








A religiosidade sempre esteve presente no coração das gentes dos Tigres, gente carente de protecção e amparo do Altíssimo para os homens do mar e para as suas familias, envolvendo  missas, procissões e outros actos religiosos, que tinham lugar quer em terra quer no mar ...


A vida do habitante da Baía dos Tigres foi melhorando, ainda que paulatinamente. De uma situação inicial de isolamento total de  duas ou três familias, em que os pioneiros que alí se estabeleceram a partir dos anos 1860, tinha que recorrer à ága que provinha de uma ou outra cacimba na margem continental da Baía dos Tigres, a água salobra e de má qualidade, destruidora de rins e fígado,  em que tinham que nas suas embarções de pesca, ir a Moçâmedes ou a Porto Alexandre recolher em barris a água da região do Coroca e do Bero,  em 1929, o Estado já  mantinha o navio costeiro, o "Save", que obrigatória e gratuitamente,  deveria fornecer água à população dos Tigres, uma vez por mês. O navio transportava afinal o precioso líquido de que necessitavam para viver, e trazia também mantimentos, e era também o contacto mensal com gente vinda de outro mundo que lhes trazia correspondência e novidades. Antes era o velho destilador de Norton de Matos, que a esta época, já desgatado e cheio de intermitências, ainda acudia aos atrasos dos fornecimentos daquele navio, quando havia reparações a  fazer, ou se demorava no trajecto, por qualquer motivo.  O "Save" ao qual se juntou mais tarde o "28 de Maio" lá foram cumprindo a sua  missão até aos anos 1940, quando o fornecimento de água passou a ser efectuado por outros navios costeiros ou de longo curso, ou ainda por navios de guerra portugueses que, quando necessário ali iam propositadamente levar água. O velho batelão, "Tejo" servia de depósito para onde a água era transbordada. Era alí que os interessados iam encher os barris que transportavam rolando. para as suas habitações. Um consumo doseado até novo fornecimento.A água tinha sempre que ser fervida e filtrada em sangas como prevenção.

Em  finais dos anos 1949, início dos anos 1950, no pós guerra, a situação começou a modificar-se. foi o tempo da construção de algumas infra-estruturas já atrás citadas sob a governação do Governador Silva Carvalho a  quem a população dos Tigres ficou a dever a construção da Igreja e dos edifícios públicos, casas para funcionários, etc, bem assim como única estrada asfaltada que era também pista de aviação. Participou no empreendimento o Engenheiro civil, Agostinho Ruqueso Marques Trindade, chefe da Brigada de Construções de Casas do Estado.

Com a entrada nos anos sessenta a situação económica em Angola começou a mudar a uma velocidade nunca até aí alcançada. Como sempre Portugal funcionava sob pressão, e em situação de emergência. Neste caso o motor da acção foram  os acontecimentos de 1961, ou seja, por força da revolta dos movimentos de libertação contra o domínio português,  Portugal procurou agir pelas armas, e, enquanto era condenado na ONU e alvo da crítica de grandes potências cobiçosas, ao mesmo tempo, numa tentativa de recuperação do tempo perdido, promovia o desenvolvimento acelerado de Angola,  talvez, quem sabe, à espera  de um novo equilibrio de forças a nível mundial, ou seja, de novos ventos que correressem mais a favor dos ideais de Salazar.

Em 1965 os Serviços de Educação de Angola, através da Acção Social criaram condições para acolher 40 crianças da vila.  Algum tempo depois foi criado um jardim de Infância na Baía dos Tigres. Crianças que em dias de de tempestades de areia não podiam sair de casa para ir à escola, passaram a ter transporte adequado para as condições do tempo e para o tipo do terreno, que as levava e trazia de novo a casa.


As gentes dos Tigres já possuiam o seu clube recreativo e desportivo, com salão para actividades, campo de jogos, onde passavam as horas de lazer, e onde passavam o tempo até que a garrôa mais forte amainasse, para poderem avançar para a pesca. Ali podiam assistir a sessões cinematográficas aos fins de semana .

A máquina também tinha vindo em socorro do trabalhador, e as toneladas de areia acumuladas junto das habitações e das instalações que antes eram removidas a pulso, passaram a sê-lo por um tractor que o Governo Geral ofereceu às gentes dos Tigres, tornando a tarefa penosa e difíl mais simples e facilitada.


Pelo menos até bem dentro  dos anos 1950,  havia por parte da autoridade, uma mão muito curta e fechada, para tudo quanto fosse dispender vernbas que contribuissem energicamente para o desenvolvimento da região de Moçâmedes, que não e saia da pasmaceira em que durante tempo demasiado estivemos mergulhados. E quando "davam" alguma coisa parecia um favor...
Recordo perfeitamente o dia  em que um Governador Geral visitou  Moçâmedes, no incio dos anos 1960, e lá estavam as gentes dos Tigres  a reivindicar a aquisição de um tractor para a Baía dos Tigres: "Queremos um Tractor!!! Queremos um Tractor!!! Um tractor para a Baía dos Tigres!!!!! "


Graças ao esforço das gentes dos Tigres,  empenhada em progredir, apesar dos sacrificios, a meio da década de sessenta a povoação ostentava já 7 fábricas modernas de farinhas e óleos, sete traineiras de grande tonelagem, devodamente equipadas para a pesca longínqua, e 15 empresas para salga e seca de peixe. Ao iniciar a década de 1970 os Tigres eram já um centro económico respeitável em Angola, com as suas 22 unidades fabris.  As traineiras tinham aumentado para a dezena.

 

Em 1975, quando da debandada geral da população branca dos Tigres começava a ser negociada a comercialização do "peixe verde" para a província, metrópole e estrangeiro, atravé de várias empresas e frio, destinadas à conservação do pescado a exportar, Era finalmente possível aproveitar quase totalmente as potencialidades do mais rico centro de pesca de Angola, terra onde ficou demonstrado como em nenhuma outra a capacidade  indiscutível de trabalho e realização dos portugueses.

Na Baía dos Tigres foi completamente abandonada em 1975, quando a vida em Angola em vésperas da independência, se tornara para os brancos impossível, colocados que se encontravam entre o fogo cruzado dos movimentos de libertação em disputa pelo poder, em ambiente de total anarquia, com a administração portuguesa em retirada, e a internacionalização do conflito.

Hoje quem visita este local, um dos mais desoladores da terra, poderá confrontar-se com toda uma série de edificações abandonadas que alí existiram na época colonial, autênticos monumentos históricos, alguns dos quais em forma de palafita, assentes em pilares para deixarem que as fustigantes areias das dunas movidas  pelos ventos fortes que tudo cobriam à sua passagem pudessem prosseguir caminho, tornando a  fixação humana possível.  Eram o posto sanitário, a escola, a estação radio-telégrafo-postal, o hospital, a delegação marítima , a imponente Capela de São Martinho, alinhando-se de um lado e do outro da única rua cimentada que serve também de pista de aviação.

Para a História, fica a odisseia das gentes da Baía dos Tigres...



Seguem algumas fotos da povoação de S. Martinho dos Tigres, tiradas por volta do ano 2000...


 

  Baia dos Tigres após a independência, em 2000

 

 

 



 







 










 




 




 







Capela do Cemitério de Baia dos Tiges, e outras fotos do mesmo Cemitério  após a independência, em 2000












 Bibliografia consultada:

-Moreira, Cecilio.  "Baía dos Tigres"
-"Jornal O Namibe", Moçâmedes, 23.09.1972
-B. O. II série, n.19, de 15.05.1929.
 -Cerqueira, Maria Manuela . "Menina do Deserto, Lisboa. Agência Geral do Ultramar, 1969.