Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 31 de dezembro de 2016

João Duarte de Almeida. pioneiro da fundação de Moçâmedes, Angola, e sua descendência

João Duarte de Almeida

João Duarte d'Almeida, pioneiro da colonização de Moçâmedes


Amélia Duarte de Almeida, pioneira da colonização de Moçâmedes (2ª colónia)
Fotos do livro de Mendonça Torres dobre Moçâmedes.





João Duarte de Almeida, considerado um dos 1ºs colonos que se instalaram em Moçâmedes, em finais da década de 1840 , era  natural de Midões, (Beira Baixa - Portugal), onde nasceu em 26 de Março de 1822. Era com mais 4 irmãos, filho de João Duarte de Almeida  (bacharel em medicina, natural de Castelo Branco, Beira Baixa), e de D. Ana Emília Duarte de Almeida ( cujo nome de solteira rta Ana Emília Brandão, natural de Midões, prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça, conforme vem descrito em GeneallNet).

João Duarte de Almeida  casou com D. Amélia Josefina da Costa, filha de um seu companheiro de colonização, José Joaquim da Costa, chefe do segundo agrupamento de colonos ido de Pernambuco para Moçâmedes e tiveram 6 filhos: Alfredo, Amélia, Laurentino, Adelaide, Albertina e Elisa Duarte de Almeida.

Orfão de pai, com mais 4 (?) irmãos menores, dos quais 3 varões, muito cedo João Duarte de Almeida  resolveu partir para o Brasil em busca de fortuna, tendo em meados do século XIX (1838?) viajado para Angola, onde se encontrou com  Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, que em 1849 chegou a Moçâmedes na Barca "Tentativa Feliz", chefiando a primeira colónia de luso-brasileiros vinda de Pernambuco, Brasil, para dar início ao povoamento branco da região. Esta informação está contida no livro "Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes", escrito pelo padre José Vicente (Gil Duarte), ou seja, quando Bernardino chegou a Moçâmedes já ali encontrava (no distrito), João Duarte de Almeida, "dedicado à indústria de charqueação e da colheita de urzela". 

Os irmãos de João Duarte de Almeida eram  Miguel Duarte de Almeida, e Luís Castelino Duarte de Almeida, que conforme acima referido, também foram para Moçâmedes.


Sabe-se que João Duarte de Almeida, numa primeira fase tinha-se fixado em Benguela, e só depois seguiu para Moçâmedes onde se estabeleceu com duas fazendas agrícolas e onde se tornou um grande produtor de algodão e de cana-de-açúcar nas suas fazendas «S. João do Norte» e «S. João do Sul», no Coroca, em Porto Alexandre. Há referências que em 1859 era proprietário de três fazendas, em vias de desenvolvimento, uma, situada na Várzea dos Casados, outra, em S. Nicolau (1) e a terceira no Coroca. E já no decénio de 1849-1859 se dedicava, no distrito, a outros ramos de actividade, como o da indústria de charqueação e a da colheita da urzela. Também há referências que na margem esquerda do rio Bero (Varzea dos Casados?),  o 1º colono que aí se instalou foi  João Duarte de Almeida,  tendo mandado construir uma vala para aproveitamento da água do rio, ao longo do qual instalou comportas que forneciam a água necessária ao regadio das suas culturas agrícolas.  Aliás, no princípio da década de 1860, 10 anos após a chegada dos primeiros colonos vindos de Pernambuco,  João Duarte de Almeida possuía já 11 fazendas no distrito de Moçâmedes, onde cultivava algodão, empregando entre trabalhadores  escravos e libertos o total de 350, sendo sua a maior das das fazendas da região.  A produção anual nessa época calculava-se em 1780 arrobas de algodão. Em 1890, João Duarte de Almeida possuía o maior empreendimento agrícola da Colónia de Angola, com 1300 hectares de terreno cultivados e com 400 serviçais a trabalharem para si. Os seus esforços tiveram notável eficiência, cabendo-lhe, por isso, na opinião de Mendonça Torres, a reputação de maior cultivador de algodão, cultivador de cana de açúcar para aguardente, e  ainda de activo descobridor da "almeidina" em 1883, um produto com uma boa percentagem de  borracha, a partir de um suco leitoso, extraído por meio de incisões no tronco da caçoneira Euphorbea Thirucale que comercializo com êxito (vidé Relatório da Alfandega de Benguela, relativa ao ano de 1915, pág 96, José Napoleão do Sacramento e Sousa, Angola). A almeidina foi introduzida no mercado europeu por Edwards Brothers de Liverpool  (correspondente).    Duarte de Almeida e Alves de Bastos, eram à época os dois homens mais ricos da colónia de Angola. 


Seguem algumas informações sobre esses dois produtos comerciáveis e naturais que aliviaram bastante a  economia da época, e que em Moçâmedes foram explorados por Duarte d'Almeida: urzela e goma copal. A urzela é um liquen que medra nas pedras, do qual se obtém uma tinta azul arroxeada  de forte concentração usada em carimbos e cópias tornando-as impossíveis de falsificação. Existe em rochas à beira mar. Cabo Verde foi um grande produtor de urzela. A goma copal é uma resina especial mas as savanas oferecem outras resinas, de várias densidades e consistências.. Os produtos sintetizados vibraram-lhes um duro golpe.
                                                                     
 
  urzela

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Eis o que escreveu Carlos Pacheco  no livro “Angola um gigante com pés de barro” a propósito da urzela:

« O governador Xavier Bressane Leite  por ter permitido a exportação deste género para portos estrangeiros recebeu uma advertência do ministro da Marinha e Ultramar que lhe comunicou a sua desaprovação por tal concessão, ordenando que proibisse a exportação e remetesse para Lisboa o produto dos direitos cobrados.» No mínimo, hilariante! Bressane Leite governou de 1842 e 1843, morreu em Luanda.
Não admira, há referências que já nessa altura o distrito de Moçâmedes possuía uma rica flora nas terras humosas das margens do Bero e do Giraúl: leguminosas, figos roxos, variadas árvores de fruto, videiras, oliveiras, tamarindeiros, goiabeiras, tangerineiras, mulembas ou figueiras, etc. 

Eis o que a este respeito nos diz António M Cristão. 

"...Era contudo nas margens do rio São Nicolau, especialmente na margem esquerda, que se cultivaram as melhores árvores de fruto de todo o sul do distrito.  Na margem esquerda cultivavam-se mamoeiros, diospiros, bananeiras, nespera-cereja-dendém,  palmeira de óleo palma, etc, etc. A razão é que na margem esquerda, dada a inclinação do terreno e a presença de uma lage a cerca 5 km, havia um curso de água permanente, enquanto à direita, a água surgia mas apenas por infiltração. Na margem direita, foi necessário a Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da "Companhia de Mossâmedes", proprietária da fazenda, abrir uns quantos poços para obter água que entretanto desaparecia, tendo que a aguardar de novo, que, por infiltração, as águas voltassem a ter o nível estático dos poços. Também a terramargem direita necessitava de mais qualidade de matéria orgânica e adubos químicos, e até os próprios animais diferenciavam o seu aspecto, porquanto nas margens esquerdas os corvos eram totalmente negros e menos brilhantes, e os da margem direita possuiam uma plumagem negra, luzidia e com uma gola branca no pescoço. Mesmo as rolas e piriquitos tinham aspecto, cor e tamanho diferentes. Estes pormenores vêm descritos no livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão.


Iremos abordar em seguida, uma outra faceta da vida de João Duarte de Almeida,  ligada a aspectos de ordem cultural que importa reter. 

O cemitério de São Nicolau, de existência intimamente ligada à fazenda de S. João do Norte de que João  Duarte  de Almeida era proprietário, depois do cemitério indígena de Moçâmedes, foi  um dos locais mais interessantes para estudo da arte Mbali ou Mbari, a arte tumular do povo "quimbar", sobretudo a obra de um dos mais afamados canteiros negros – Victor Jamba, escravo  mandado especializar-se em Lisboa em estelas funerárias.

A arte  tumular Mbali ou Mbari, arte do povo africano aportuguesado  "quimbar" do distrito de Moçâmedes, invulgar em África, surgiu  numa altura do avanço da colonização,  quando vivos eram ainda pioneiros como João  Duarte  de Almeida, falecido em 1898. Trata-se, segundo o sociólogo Gilberto Freyre, de um caso de cultura afro-cristã gerada em consequência do contacto cultural que se estabeleceu após a ocupação efectiva do Distrito, em 1849, entre os  colonos luso-brasileiros e a mão-de-obra negra. Uma cultura de fusão que se traduz em cruzetas de pedra de filtro, ou pedra sabão, mas também em  madeira ou cimento armado trabalhados, que eram colocadas nas sepulturas um ano após a óbito, por ocasião da "festa da cruzeta", à qual  era atribuída a tríplice função de propiciação do espírito do morto, sua identificação e veneração.  Os canteiros inseriam nas cruzetas, trabalhos em relevo que descreviam o que as pessoas haviam sido em vida, o que faziam, como eram fisicamente, os seus  interesses, os acontecimentos que as marcaram, e tudo isso através da representação dos utensílios profissionais dos falecidos ou outros símbolos identificadores, tais  como a"mão cortada" (em representação dos manetas); o "cachimbo de cangonha" (em representação dos fumadores); o "leão"  (para os caçadores); a "bola"  (para o futebolista), e outros símbolos mais como o "chicote", a "palmatória", o "cajado do capitão", a "cobra de que fora mordido", o oficio que possuía ao falecer, etc...  Infelizmente as histórias que aí se contavam são frágeis face às chuvas e ventos fortes e muitas cruzetas acabavam partidas.

O que ficou a caracterizar a maior parte das esculturas  do Cemitério de S. Nicolau  foi o facto de apresentarem uma acentuada europeização das feições, cabelos e trajes, o que se deve ao facto de Victor Jamba, o canteiro da região, ter-se deslocado a Lisboa a mando de seu patrão João Duarte de Almeida, para se especializar, tendo  a sua arte adquirido tais características. (1) Da sua autoria, são as estelas do "túmulo dos leõezinhos", as que representam um tractorista, um tanoeiro, etc.. Victor Jamba  era o canteiro mais célebre e o mais perfeito, e  também foi o mais convencional  se comparado com outros canteiros que imprimiram aos seus trabalhos um cunho de originalidade.

 Importante era também o espólio que no tempo colonial podia ser encontrado no Cemitério chamado do Pretos de Moçâmedes, no  Cemitério ao ar livre do Saco, e em outros espalhados pelo distrito.   A arte Mbali ou Mbari,  de rara expressão em África, tinha no cemitério de S. Nicolau um dos seus melhores documentos que importava a todo o custo preservar.


Uma outra faceta da vida de João Duarte de Almeida, que deve ser aqui mencionada, é a de que juntamente  com Bernardino Abreu e Castro, foi um dos apóstolo da abolição do tráfico de escravos e da escravatura. Aliás, ambos sobre o assunto, fizeram diversas exposições ao Ministro Sá da Bandeira, enquanto no poder em Portugal, sob como se  deveria agir na costa de Angola para acabar de vez com o vil negócio, conforme refere o padre José Vicente, que em seu livro se detém, por falta de espaço, apenas às exposições de Bernardino.

Quando, em 1836, a opção africana se impôs na política do Governo português, o ministério de Sá da Bandeira tomou importantes medidas legislativas sobre a abolição da escravatura e a protecção do comércio entre as colónias e Lisboa. As relações internacionais impostas pela complementaridade entre as economias industriais e os fornecedores de matérias-primas determinavam o enfraquecimento do comércio triangular através do Brasil e o reforço da ligação directa à metrópole.
Tais medidas resultaram em grandes perturbações na economia ultramarina e nas relações entre o poder colonial e os poderes africanos. As autoridades coloniais eram as primeiras a demonstrar incapacidade para executar a nova legislação, visto que a actividade económica se reduzia ao comércio e este, por sua vez, ao tráfico de escravos para a América. Os grandes comerciantes exportadores, que punham em movimento, a partir da costa, o comércio de longa distância, eram apenas negreiros que não sabiam nem queriam lidar com outro tipo de «mercadoria». A exportação em grandes quantidades do marfim, da cera, da goma copal, da urzela não interessava aos traficantes nem aos seus concessionários, uns e outros habituados aos grandes lucros, com pouco esforço, oferecidos pela escravatura. A inaptidão conduziu ao desespero das burguesias urbanas de Luanda e Benguela, que concentravam nas mãos a ligação ao comércio internacional. Famílias influentes emigraram para o Brasil e com elas os capitais que detinham. É certo que, com a conivência da administração, a exportação de escravos continuaria ainda, por cerca de dez anos. Mas a expectativa da vigilância marítima internacional e as pressões por parte do Governo central faziam prever um fim a médio prazo.   Estava-se em 1858 quando Portugal decretou que, passados vinte anos não poderia haver escravos; mas foi apenas em 1869,  que foi abolido o estado de escravidão, tendo passado à condição de libertos os escravos em todas as possessões. O Governo português assim procedeu a fim de compatibilizar os interesses dos proprietários coloniais que haviam  investido em escravos, e a boa consciência de um país que se queria progressista.



Duarte de Almeida concorreu a várias exposições agrícolas e industriais (de Paris, de Antuérpia, do Porto, etc), sendo-lhe conferidas medalhas de ouro pela boa apresentação dos seus produtos. Foi testemunha presencial, na sua qualidade de negociante e de proprietário, juntamente com o Dr. João Cabral Pereira Lapa, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (chefe da  1ª colónia ida de Pernambuco na Barca Tentativa Feliz, em 1849) e José Joaquim da Costa (chefe da 2ª colónia ida de Pernambudo na Barca Bracarense chegada a Moçâmedes em 1850), da cerimonia da Escritura de Promessa e Voto , o acto solene do reconhecimento manifestado pelos antigos colonos na Escritura de Promessa e Voto, de 4 de Agosto de 1859, para que em todos os anos e no dia quatro de Agosto, se celebrasse, na Igreja Matriz de Moçâmedes, uma missa rezada e cantada com "Te Deum Laudamus" . Era agraciado com as comendas das "Ordens de Cristo" e de "Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa". Nos cargos de juiz substituto e de presidente da Câmara Municipal, Duarte de Almeida muito ajudou os  colonos. 

João Duarte de Almeida faleceu no dia 9 de Julho de 1898. Repousa, como  outros portugueses que se transferiram na primeira metade do século XIX de Pernambuco para Moçâmedes, sob artístico mausoléu «aristocrático» de estilo luso-católico,  que ainda hoje se pode ver no Cemitério da cidade, apesar do estado de abandono a que aquele Cemitério, que faz parte integrante do património cultural e histórico do Namibe, tem sido votado. Eis o mausoléu de Duarte de Almeida, mandado erguer por sua esposa e filhos.





               
 

 Este é o mausoléu da esposa de  João  Duarte  de Almeida, D. Amélia Josefina da Costa Duarte de Almeida, filha do chefe da 2ª colónia




Pesquisa e texto de MariaNJardim  (Este texto está protegido pelas leis de Copyright)



(1)
Bibliografia consultada:
Manuel Júlio de Mendonça Torres  «Moçâmedes», 1º volume datado 1954
Exploração Geográfica e mineralógica do Distrito de Mossâmedes, 1894-1895" por J. Pereira do Nascimento, Médico da Armada Real.
Ver também: Os primeiros produtores na Exposição do Porto:
http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2010_03_24_archive.html


VER AQUI 
OU AQUI

João Duarte de Almeida: Genealogia




Em GeneallNet encontrei as seguintes referências que passo a transcrever: 

"Em relação aos Duartes de Almeida, de Moçâmedes, penso não errar em supô-los descendentes de
I – Bento Duarte de Almeida, de Mangualde, e de D. Antónia Rita, da Várzea de Candosa, onde residiram e onde nasceu o filho:
II – Dr. João Duarte de Almeida (Borges Belmiro Castelo Branco), médico em Mangualde, fidalgo de antiga linhagem (cfr. António Duarte de Almeida Veiga (seu neto), «Midões e o seu Velho Município», e J. M. Dias Ferrão, «João Brandão») cc (Midões 5 6 1821) D. Ana Emília Brandão, * Midões (prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça). 

Refere também uma escritora,  irmã mais nova de Duarte de Almeida

O Dr. João Duarte de Almeida faleceu cedo, deixando 5 filhos menores, dos quais os 3 varões que foram para Moçâmedes:
 
(III)  – João Duarte de Almeida * Midões 26 3 1822 + em Moçâmedes. Órfão de pai, partiu para o Brasil em 1838 em busca de fortuna. Daí passou, pouco depois, a Angola, acompanhando Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, fundador da cidade de Moçâmedes. Foi grande produtor de algodão e cana-de-açúcar nas suas fazendas «S. João do Norte» e «S. João do Sul». Foi também armador, e descobriu uma borracha, por si denominada «Almedina», que desenvolveu e comercializou com êxito.

"...Presumo que os Duartes de Almeida, de Moçâmedes, sejam todos descendentes dos 3 irmãos de Midões (ou Mangualde). Cumprimentos, José Caldeira (in Genea)

"...Existe em Genea alguns elementos sobre outros Duartes de Almeida "... Edgard Duarte de Almeida, nascido em Moçâmedes, em 28.10.1903. Faria mais tarde em Lisboa o Curso de Arquitectura na Antiga Escola de Belas Artes e, segundo a GEPB, também teve uma carreira com algum relevo na época como artísta lírico, baixo, actuando no Teatro Nacional de São Carlos e noutros locais.

"..Eu já sabia entretanto da existência de uns nossos familiares de Moçâmedes, os Duarte de Almeida, mulatos. Dois deles constam da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, o pintor e ilustrador Álvaro de Figueiredo Duarte de Almeida (vol.v 9. págs. 322 e 323, vol.39 ( apêndice) pág. 494 e vol. 4 1ª actualização, pág. 260. Nasceu em M. a 20.01.1909, foi professor dos Cursos de Desenho da Sociedade Nacinal de Belas Artes. Foi o ilustrador da História da Tauromaquia, uma edição de luxo em dois grossos volumes, dirigida por Jaime Duarte de Almeida, que existe na casa do meu já falelecido avô, de quem além de primo era amigo.Tinha duas irmãs, que eu cheguei a conhecer , que tinham uma casa em Ranholas , Sintra , uma das quais também consta da dita Enciclopédia, cantora lírica, Maria Amélia Duarte de Almeida n. Moçamedes 26.08.1900 e + Lisboa, a 15.03.1979.

"... Olívia Simões Freire de Figueiredo, casada com um Eugénio Duarte de Almeida que tiveram uma filha Maria Adelaide Duarte de Almeida, n. em Moçâmedes a 19.11.1919 , casada e com geração, de quem nunca tinha ouvido falar. Terá alguma ligação com os Freires de Figueiredo? ass Luís Piçarra in GeneallNet

Esses Duartes de Almeida eram primos do meu avô, embora como disse, ignore como se establece a relação, mas julgo ser anterior à sua ida para Angola.
Os que eu refiro , tal como Maria Amélia, Álvaro , Edgard, já pertencem a uma geração nascida em Moçâmedes.

"...Pessoalmente só conheci essa prima Maria Amélia D.A. e a irmã ambas filhas de um casamento misto.
Quanto ao Álvaro Duarte de Almeida, também lá nascido, que iustrou a História da Tauromaquia , pintor e colaborador como ilustrador de revistas tauromáquicas nos anos 50 , era primo do meu avô, mas não estou certo se era irmão ou primo ou primos de Maria Amélia... ass. Luís Piçarra in GeneaNet.



Sequem algumas fotos antigas de familiares do ramo Duarte de Almeida , e alguns recortes de livros e de jornais com interesse para esta familia, cedidos por um descendente a quem muito agradecemos.



















Miguel Duarte d'Almeida e Amélia Figueiredo Duarte d'Almeida

100º aniversário de Amélia Adelaide. Com as filhas em 1969.

O tio Óscar como era carinhosamente  conhecido em Moçâmedes. (emendo  a data: 1899-1973)
 

 
 
Armando Duarte d' Almeida, esposa e filhos


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Nota: recebi esta mensagem que deixo aqui, uma vez que me é impossível atender à rectificação solicitada por não poder fazer alterações no quadro acima,  que não foi feito por mim, mas que foi em tempos colocado na Net por um familiar de João Duarte d'Almeida:

"....Olá, boa tarde! O meu nome é Manuela Duarte d'Almeida Guerreiro e sou trisneta de , filho de João e de Anna Emilia Duarte d'Almeida. Gostaria que corrigissem alguns dados, uma vez que o meu trisavô estava casado ( naturalmente com a minha trisavó) MARIA AMÁLIA de OLIVEIRA LOUREIRO e não como escrito com Ana Máxima da Costa. Nunca ouvi falar dum filho José!!!! A irmã mais nova do meu trisavô chamava-se EMILIA e não Maria Cecilia, como escrito. A minha bisavó Constança Bensabat Lapa Valente- Duarte d'Almeida ( do1. casamento) nasceu, segundo certidão de baptismo, a 06.09.1874. Melhores Cumprimentos, Manuela em Pioneiros da colonização de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola): João Duarte de Almeida, Amélia Duarte de Almeida. Alguma genealogia






Agradeço aos familiares de João Duarte de Almeida, especialmente ao Jorge, que  nos proporcionaram o acesso a grande parte deste material aqui exposto. Bem haja.


MariaNJardim



Este texto e estas imagens estão cobertas pelas leis de Copyright, pelo que nada daqui deve deve ser retirado para ser republicado, sem autorização da autora e das pessoas ao qual o mesmo refere. 






terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O camelo, como meio de transporte no distrito de Moçâmedes em finais do século XIX





O camelo, ou melhor o dromedário, era o meio de transporte mais aconselhado em substituição dos carregadores a quem tinham que pagar preços considerados exorbitantes, para além de levarem menos carga, e de muitas vezes não estarem dispostos a prestar os seus serviços onde e quando se requerem, sujeitando o comércio e a agricultura a contingências, de que resultavam prejuízos e despesas.  Os camelos chegados a Moçâmedes eram adquiridos nas Canárias e aclimaram-se bastante bem, reproduzindo uma raça robusta, sem vestígio de degeneração. Tratava-se de uma variedade da raça primitiva do norte de Africa,  que conseguiam  trilhar terrenos montanhosos, os trajectos entre Moçâmedes e a  Chibia, com resultado satisfatório. Sem grande esforço um camelo era capaz de transportar uma carga de até 450 kg, enquanto um carregador em viagem demorada não levava mais de 30 k. 


Em quase toda a província de Angola o comércio e a agricultura estavam sob a dependência das caravanas de carregadores e sujeitos as mais variadas contingências, dado a versatilidade e deligências dos indígenas, do capricho dos sobas, da rivalidade das casas comerciais monopolizadoras do negócio, das guerras gentílicas` dos conflitos entre autoridades e os potentados que fecham os caminhos, proibem o negócio nas suas terras, assaltam, aprisionam, saqueiam as comitivas estranhas e desviam as correntes comerciaes, etc. Com excepção do distrito de Moçâmedes, onde o estabelecimento da colónia boer veio facilitar as transacções comerciais com o transporte das mercadorias nos seus wagons, a elevados preços, se exceptuarmos a linha férrea de Luanda a Cazengo, e a carreira fluvial do Quanza, de Luanda ao Dondo, feita com dois pequenos vapores.

Eram povos exclusivamente dedicados à vida de carregadores,  os bangalas nos sertões de Loanda, os bienos e bailundos nos de Benguela e os mondombes (em Mossâmedes), os quais monopolizaram os transportes pelas vias comerciais que cruzam os seus países, em detrimento de quaisquer outras comitivas, impondo-se como únicos intermediários entre os centros comerciais da costa e os centros produtores indígenas; é o que, por imprevidência nossa, está sucedendo em maior escala na Lunda, onde os bangalas, ciosos das suas prerrogativas de intermediários do comercio e senhores dos portos do Kuango, não permitem a passagem para oeste aos undas e kiokos, nem para leste aos comerciantes. 


In Exploração geografica e mineralógica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895. (apenas o texto)



Em 1915, no Lubango, a descarga dos camelos que transportaram o material militar e viveres  desde o seu desembarque em Moçâmedes, para as forças
do Batalhão Expedicionário de Marinha que avançam sobre o Sul de Angola. (Foto de Alberto de Castro)


"...Os camelos são de facil tratamento, sobretudo se vierem das ilhas Canarias acompanhados por pessoas habilitadas a tratal-os; comem pouco, bebem pouco` andam bem, transportam cada um meia tonelada de carga e o seu apparelho, chamado cangalha, é de facil manejo e construcção; 3 a 4 camelos transportam a carga de um Wagon com economia de tempo e dinheiro. O preço de um camelo (dromedario) originario das Canarias regula por 455000 a 60$OO0 réis. Tal foi o preço por' que elles vieram para o agricultor que os introduziu em Mossamedes. Accresce ainda que este animal é um excellente meio de transporte para passageiros, podendo conduzir até 4 pessoas em sellas especiaes, de que existem modelos em Mossamedes. Melhor seria que em vez dos dromedarios (de uma só bossa) se adoptassem os verdadeiros camelos de duas bossas que podem transportar quasi uma tonelada, escolhendo-se para passageiros os pequenos, chamados vnelzaris, que foram adoptados pelo exercito francez para o transporte de tropas no Sudan. Com estes ligeiros animaes fazem-se viagens longas, rápidas e económicas com vantagem sobre os cavallos, bois-cavallos e tipoias.


"...O ensaio feito em Mossamedes com os camelos oriundos das Canárias tem dado bom resultado; os animaes acclimaram-se reproduzindo uma raça robusta, em que não encontrei o menor vestígio de degeneração.

Tem-se dito que o camelo não serve para os terrenos pedregosos e planálticos abundantes de vegetação, aguas e dotados de clima frio` por ser originário dos países arenosos, baixosI aridos e quentes e por não ter os cascos apropriados ao terreno duro. Estas considerações serão verdadeiras para os camelos originarios do Sahara, mas não o são com certeza para os das Canarias, variedade da raça primitiva do norte d”Africa, longamente modificada pelo clima temperado do archipelago e habituada a trilhar terrenos montanhosos. Posto que em Mossamedes os emproguem habitualmente em viagens na zona baixa, as experiencias no planalto, feitas por mim e pelo negociante da Chibia, o sr. Antonio d'Almeida, deram resultado satisfactorio. "


In Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5. Ano 1898


sábado, 29 de outubro de 2016

Maria da Purificação Vasa Marreiros, degredada para Moçâmedes, Angola, por assassinato



 Foto de Marian Jardim.

A deportação  e o degredo foram nos séculos XIX e XX uma poderosa arma ao serviço dos regimes políticos em todo o mundo, e foi evidente a sua utilização quer como meio de cumprir pena para criminosos de delitos graves, assassinos, etc., quer para emigração forçada, e para impedir a acção dos opositores político não gratos ao regime.  O próprio Batalhão de Caçadores 3, que 1º estacionou na Fortaleza de Moçâmedes, era, na sua quase totalidade, constituído por criminosos de delitos graves, que ali cumpriam as suas penas. A maioria dos degredados acabavam por se fixar, internando-se no território, porém  de muitos se perdeu o rasto. Outros chegaram a ser úteis à administração.

Esta mulher, Maria da Purificação Vasa Marreiros, de 47 anos, está registada no livro de matriculas dos degredados em Moçâmedes, para onde foi cumprir pena por cumplicidade em homicídio, por 15 anos. porque matou o marido, José Joaquim Almeida Marreiros, de 69 anos, no último dia de junho de 1881 em Casal da Areia, na Freguesia de Salir de Matos, no território metropolitano.

 Os 15 anos de degredo, a seguir à pena perpétua, eram o máximo de tempo que um condenado teria de passar em África.

 A pena para Maria da Purificação Vasa de inicio foi de três anos de prisão celular ou seis de degredo, a mínima para um caso de cumplicidade em homicídio O problema viria mais tarde, fruto de terem resolvido recorrer da sentença.

"... Maria da Purificação, se fizesse como os seus primos, usaria os apelidos “de Vasa César de Faro e Vasconcelos", como o pai. Na sua certidão de nascimento, estão registados os avós paternos: José da Vasa César e Vasconcelos, e dona Maria Eulália da Rocha Castro e Meneses. São, contudo, nomes de uma família de fidalgos da casa real que não surgem no extenso trabalho do genealogista Manuel Arnao Metello, “Os Vasas em Portugal - Família do Oeste de origem talvez sueca”, publicado na revista “Raizes & Memórias.


"....A professora universitária brasileira Selma Pantoja encontrou a ficha de a viúva de Almeida Marreiros no livro de matriculas dos degredados, quando faziam investigações nos anos de 1990 final do século XX. “Entre as 358 degredadas para Angola, entre 1865 a 1898, só Maria da Purificação Vasa Marreiros está registada com o título de Dona, com nome do pai, 47 anos, condenada por cumplicidade em homicídio, degredada por 15 anos para Mossâmedes”, escreveu em “A diáspora feminina: degredadas para Angola no século XIX (1865-1898)”.

 



sábado, 15 de outubro de 2016

A ESCOLA DE PESCA E COMÉRCIO DE MOÇÂMEDES


 Nas traseiras da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, o corpo docente, alunos, pessoal colaborador e pároco. Foto tirada em 1949


Estudantes e professores da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, no decurso de uma visita de estudo ao "Padrão do Cabo Negro". 1946?


Estudantes à entrada da Escola Prática de Pesca 
e Comércio de Moçâmedes. 1948


 À direita o edifício térreo onde funcionou a Escola Prática de Pesca
e Comércio de Moçâmedes
em foto de 2007




MEMÓRIAS COM HISTÓRIA


E no princípio era o verbo, só o verbo…, e escolas não havia. Não havia na Lucira, nem na Vissonga; não havia escolas no Baba, nem na Mariquita; não havia no Mucuio, nem na Baía das Pipas. Nem sequer havia escolas na Praia Amélia ou no Saco do Giraul.

Mas havia três escolas primárias em Moçâmedes, o que eram muitas na percepção dos mucubais, para os quais, práticos como eram, só havia o um, dois e … muitos. Havia, pois, em Moçâmedes a Escola nº. 49; a Escola Portugal nº. 55, de Fernando Leal, mesmo ali ao lado, com um baldio de cerca de 100 metros a separá-las e um equidistante chafariz, em redor do qual existiam umas bonitas e frondosas árvores de castanhas do Pará. Havia, por último, a Escola Primária nº. 56, de Pinheiro Furtado, situada no Bairro Feio da Torre Tombo, construída sobre pilares à guisa de palafitas em terra seca e sob a qual a miudagem se aliviava das suas necessidades mais básicas, que as carochas e os rebola-caca acabavam por tratar delas.

A Escola nº. 49 era, no entanto, a mais pequena e humilde das três, com apenas duas salas de aulas. E tinha mesmo à sua frente, a não mais de 40 metros, a cadeia civil, ali construída não inocentemente mas sim para mostrar às inocentes criancinhas que o paraíso na terra não existe e que a vida e o futuro não eram coisas fáceis. Para o resto, estava lá o professor Canedo, de triste memória, sem paciência alguma para aturar miúdos e que se passava de tal modo que chegava ao cúmulo de atirar os tinteiros e as próprias réguas de cinco olhos contra os alunos, alguns dos quais acabaram por ser levados para o hospital. Mas não era só ele; também por lá andava a professora Berta, grande e macrocéfala, má e azeda, que debitava galhetas a torto e direito nas aulas em que as crianças tinham que cantar a tabuada a ritmo certo, mas que desgraçadamente havia muitas delas que só sabiam a música e nunca se lembravam das letras. E ademais, quem é que se atrevia, naquele tempo, a ir para casa fazer queixinhas aos pais? Era pior a emenda do que o soneto, pois acabava por levar dos dois lados; do professor, na escola; e dos pais, em casa.

Houve, entretanto, por volta de 1925, um pequeno salto qualitativo com a criação da Escola Primária Superior “Barão de Moçâmedes”, título pomposo e pretensioso, uma vez que o curso ministrado não ia além de três anos lectivos após a 4ª. classe, o que configurava já uma caricata projecção virtual daquilo que viria a ser, muitíssimos anos mais tarde, o malfadado Tratado de Bolonha. O seu programa curricular, ambicioso na sua matriz, era, contudo, anacrónico e desfasado do mundo real. Daí a não ter passado de um triste epifenómeno, sem ter conseguido criar nem raiz, nem tronco; nem folhas, nem flor. E acabou tristemente por se finar sem ter dado fruto algum.
As personalidades mais esclarecidas e empenhadas de Moçâmedes nada podiam contra este estado de coisas. O Poder estava centralizado em Lisboa, e a implantação da república com as subsequentes guerrilhas partidárias e interesses pessoais conduziram as possessões ultramarinas a um estado de estagnação miserável.

Contudo, no decurso de 1937, com o Estado Novo já consolidado, viria a ser criada a “Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes”, implementando um curso com a duração de 5 anos, o que acrescentados os 4 anos da primária lhe conferia uma escolaridade total de 9 anos. Conforme o seu próprio nome indicava, era uma escola criada com a finalidade de habilitar os seus estudantes com os conhecimentos tidos como suficientes no quadro das actividades ligadas ao comércio, à indústria piscatoria e à função pública. Faziam, no entanto, parte do seu programa curricular, disciplinas tão díspares como: “Salga e Seca” , sobre a qual os miúdos de 13 ou 14 anos aprenderiam muito mais em 2 dias passados numa pescaria da Torre do Tombo ou do Canjeque, do que durante todo o curso; com a “Construção Naval” pretendia-se que os alunos aprendessem a fazer projectos, com base em desenhos cotados e escala, de canoas, baleeiras e até de traineiras; da “Estenografia”, não me lembro de nenhum aluno se ter servido dela, em termos práticos. No entanto, a disciplina tinha o seu lado positivo na disputa de quem conseguia escrever mais palavras por minuto. Se bem me lembro, a vencedora era sempre a Fátima Latinhas, que parecia uma autêntica metralhadora a debitar caracteres. De resto, na vida prática acabou por não ter prática nenhuma; No que toca à “Construção Naval”, que eu saiba, só a Maria Emília Ramos, que morava no Bairro Feio, da Torre do Tombo , se afirmou como projectora de barcos, e com nível muito elevado. Quanto à “Salga e Seca”, até a avó Catarina, que até era analfabeta, sabia muito mais sobre peixe seco e meia-cura do que qualquer estudante que acabava o seu curso e arrumava a correr os seus livros de estudo.

Mas havia, obviamente, umas quantas disciplinas adequadas e bem enquadradas com relação à época, embora no seu todo acabassem por ser à volta de 12 cadeiras, só no último ano.
Mas o curso da Escola de Pesca sofria de três males, qual deles o pior, que levavam a grande maioria a não concluir os seus estudos. O primeiro, desde logo, prendia-se com a indisciplina reinante de alguns alunos mais matulões, verdadeiros “mavericks” que praticavam o booling a torto e a direito contra os mais novinhos, de entre os quais avultavam: o Tó Coribeca, o Mário Bagarrão, o Helder Cabordé, o Romualdo Parreira, o Caparula, o Turra, o Quito Costa Santos, o Adriano Parreira, e mais um ou outro que agora não me ocorre. Era uma autêntica quadrilha sempre pronta a dar porrada aos mais miúdos. Nem o dr. Borges, director da Escola, que tinha fama de grande disciplinador, conseguiu dar-lhes a volta. E nenhum deles, obviamente, concluiu o curso. Mas o padre Galhano, santo homem, fazia verdadeiros milagres. E conseguiu trazer à superfície a bondade que existia dentro daquelas almas. O segundo mal tinha a ver com o facto de, no 5º. ano, isto é, no último ano do curso, os alunos serem obrigados a fazer exames de 12 cadeiras, o que era manifestamente um exagero. E com a agravante de só poderem reprovar numa única disciplina, sob pena de terem de repetir todas elas no ano lectivo seguinte. Finalmente, havia a questão do perfil e das mentalidades dos professores, alguns dos quais se compraziam em humilhar e reprovar os alunos com requintes de malvadez.

Ainda recordo, com profunda mágoa, uma cena que assisti num exame de geografia, cujo professor era um tal dr. Lameirão, do Porto, que devia pesar à volta dos 120 kgs, e tinha uma cara de poucos amigos que não enganava ninguém:
Foi num ano em que, por imperativos das suas carreiras profissionais, apareceram a exame, em regime de autopropositura, adultos já casados que tentavam por essa via terminar um curso que em devido tempo e por razões várias não o tinham conseguido. Um deles, natural de Moçâmedes, casado e pai de filhos, tinha vindo do Huambo com esse propósito, e encontrava-se agora ali no meio da garotada, a aguardar a chamada. Ao iniciar o exame, o dr. Lameirão, sem bom dia, nem boa tarde, pergunta-lhe secamente:
- Diga-me lá onde fica o rio Amarelo?
- O rio Amarelo…, não sei, sr. dr.
- Então, e onde fica o rio Vístula?
- O rio Vístula, sr. dr…? Não me lembro..
O dr. Lameirão, vermelhudo, passa-se, e começa aos berros: - Então, você, vai à minha casa, à noite, meter cunhas, e nem sequer sabe onde fica o rio Amarelo, nem o rio Vístula!? Está à espera que lhe pergunte onde fica o rio Bero ou o rio Curoca? Pode sentar-se.
Sr. Albertino Gomes – chama o dr Lameirão pelo seguinte adulto, também já casado e pai de filhos.
Albertino Gomes levanta-se e diz em tom forte e bem silabado: - DESISTO.
E a miudagem desatou toda em altas gargalhadas.
E contra isto nada havia a fazer!


ass. Arménio Aires Jardim (Outubro de 1916)

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

MEMÓRIAS COM HISTORIA: Cine Teatro Garrett em Moçâmedes


Moçâmedes na década de 40/50 era assim...

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 Moçâmedes na década de 1930/40 era assim...


Sem ter conseguido uma foto para aqui expôr, não deixarei contudo de fazer neste blogue uma referência à primitiva sala de espectáculos de Moçâmedes, que foi o Cine Teatro Garrett, situado na Rua Calheiros, da qual era proprietário Raúl de Sousa, onde até meados dos anos 1940 os moçamedenses viram correr os seus primeiros filmes, grande parte dos quais ainda em cinema mudo, e assistiram às primeiras peças de teatro e de revista.
   
Enquadrado no tempo que o viu nascer, este primitivo Cine Teatro, que acabou demolido para dar lugar à sede do Atlético Clube de Moçâmedes,  dizem os que a frequentaram, que ficava num edifício de 1º andar, de fachada vulgar, com porta larga,  encimada pelo nome do "Cine Teatro Garrett", e que do exterior não dava para imaginar como era o requinte do seu interior todo forrado a madeira trabalhada, com suas frisas, camarotes, plateia e reposteiros de veludo vermelho, um requinte que, salvo as devidas proporções, fazia lembrar o Teatro S. Luís de Lisboa.

Contavam os mais antigos, porém, que havia um primeiro Cinema, no local sobre as qual Álvaro Vieira Ascenso viria a construir os seus armazéns de comércio, nos anos 1940, na Rua das Hortas..
Por isso, para além da sua localização, nem uma réstea do nome, nem um indício do seu dono chegou aos nossos dias. Daí o Cine-Teatro Garrett ter ficado na memória colectiva da Moçâmedes do antigamente como o primeiro cinema da cidade, o que também tem a ver com o requinte  do seu interior

Aconteceu contudo que por volta dos anos 1940 já a madeira se encontrava corroída e incapaz para ser aproveitada, e assim encerrou o Cine Teatro Garrett, tendo a cidade ficado temporariamente sem sala de espectáculos, até que surgisse o Cine Teatro de Moçâmedes. Nesse intervalo, era no pequeno palco do edifício-sede do Ferrovia, clube Recreativo e Beneficiente, sito na Rua Serpa Pinto, que decorriam sem grandes condições de acomodamento, e sob a exploração do mesmo Raúl de Sousa, as sessões cinematográficas, e as peças de teatro,  sem nunca atingirem o grande público que tinha entranhada a ideia que somente os sócios do Ferrovia poderiam frequentar aquele espaço. 

Interessante era o modo como era feita a publicidade naquele tempo, através de um Cartaz ambulante conduzido por dois jovens serviçais africanos que corriam a pé as ruas cidade, que o seguravam um de cada lado, onde eram exibidas várias fotos de cenas do filme publicitado, com cerca de 40 cm cada uma.

Na bela sala de espectáculos do Cine Teatro Garrett foram levadas à cena peças de Teatro e de Revista por Companhias metropolitanas que nas suas digressões por Angola e Moçambique se faziam acompanhar, inclusive, pelas respectivas orquestras. 

Mas ao palco do Cine Teatro Garrett também subiram artistas da nossa terra, crianças, jovens e adultos. Foi ali que Zélia Pimentel Teixeira, ensaiou e levou à cena, nos anos 1940, integrando a Revista "Coração ao Largo", o seu grupo de ballet constituído por dezenas de garotas e jovens de Moçâmedes, que incluía, entre outros bailados, o "Bailado das Horas". Este bailado era desempenhado por 24 bailarinas de diferentes idades, que dançaram magistralmente, e que eram distribuídas por 4 grupos, consoante as idades, representando as mais novinhas, as madrugadas, as da idade seguinte, as manhãs, as mais cresciditas, as tardes, e as mais velhas, as noites. O acompanhamento ao piano teve a cargo da gentil colaboração de Eduarda Torres. Faziam parte desta Revista os seguintes quadros: 

1. Mossâmedes à vista  (naquele tempo escrevia-se com "SS ")
2. No Quiosque do Faustino 
3. Coisas e Losas 
4. Beija-me muito 
5. Cenas de Rua. 


"Coração ao Largo" era uma Revista em 2 actos e 5 quadros, um original de A. Portela Junior. Eram "compéres", ou seja, aqueles que sem abandonarem o palco, permanentemente conduziam a apresentação das cenas:  Zé topa tudo-Norberto Gouveia (Patalim) e Manuel Chibia - António Martins (António Latinhas). O espectáculo foi promovido pelo Atlético de Moçâmedes. Foi levada à cena vezes sucessivas e sempre com bilheteira esgotadas. Os preços da entrada eram variados, conforme se tratava de camarotes, frisas, plateia e geral (desde 102,50 a 5,50).


De entre os participantes da Revista "Coração ao Largo", que foi aplaudida de pé e esgotou sucessivas bilheteiras, deixamos os nomes das irmãs Rosa e Madalena Bento, Mercedes e Ivete Campos, Salette e Lurdes Leitão, Lurdes, Noelma e Zilda Sousa Velli, Lizete e Branca Gouveia, Edith e Odete Serra, Nide e Lurdes Ilha, e também de Aida de Jesus, Octávia de Matos, Maria Adelina, Alexandrina Ascenso, Odete Serra, Odília de Jeses, Aline Gomes, Ana Liberato, Armando de Campos, Augusto Costa, Carlos Ervedosa, Hugo Maia, Joaquim Lemis Loução, José Manuel R. Santos, José Pestana, Mário Rocha, Rui Meneses, Henrique Meneses, Wilson Pessoa, Norberto Gouveia (Patalim), Artur Caléres. A parte musical esteve a cargo de Maria de La Salette Leitão e de Ivete Campos (piano), e ainda de A. Portela Junior (violino), Anselmo de Sousa (trompete) e Firmo Bonvalot (jazz). 


Muito ovacionada foi a canção "Besa-me, besa-me mucho", interpretada em dueto constituído por Rosa Bento e Armando Campos (Rosa Bento era então conhecida como a "voz de ouro do deserto"), e a exibição dos bailarinos Lizette Gouveia e Rui Menezes (valsa), à época namorados, ela de vestido comprido, ele de casaca preta, e a interpretação de Armando Campos que, representando a figura de Leão da Encarnação, um residente da cidade dedicado ao agiotismo, cantou uma canção que rezava mais ou menos assim: " Sou o Leão da Encarnação, o dono de uma Pensão... rataplão... rataplão..." . 

 No Cine Garrett cantaram também, entre outros, Augusto Gavino, e, em tempos mais recuados, subiram à cena peças como a "Gioconda".


Recorte de jornal da época (finais dos anos 1930)


Também era comum por ocasião do Natal levarem à cena  actos de variedades e peças de Teatro com pequenos artistas da terra que revelavam grande talento como era o caso de Norberto Gouveia (Patalim), aqui referido quando tinha apenas 12 anos, e outros como Lolita, Renato Veli e Nito Santos, à época crianças. Eram geralmente festas de caridade, destinadas a angariar ajudas para a "sopa económica" dos desprotegidos da  cidade. O artigo refere nomes de colaborantes, tais como Dina de Sousa (pianista e ensaiadora), Maria Eugénia de Almeida, Rosete Almeida, Venus de Sousa e Beatriz Caleres. 
As imagens abaixo mostram-nos dois recortes de jornal e um folheto publicitando a peça de teatro «O Cão e o Gato», um acto de variedades com a "Orquestra Zíngara de Lisboa", e outro sob o título "Tirolilo", peça que deixou no ar uma cantiguinha que chegou aos meus tempos de criança, e cuja letra era mais ou menos assim:

"...Cá em cima está o tiro-liro
Lá embaixo está o tiro-liro-ló
Juntaram-se os dois à esquina
A tocar a concertina
E a dançar o sol e dó...

Comadre, minha comadre,
gosto muito da sua afilhada,
É bonita, apresenta-se bem e
parece que tem,
a face rosada...


etc..
A revista "Coração ao Largo" promovida pelo Atlético Clube de Moçâmedes, foi um êxito de bilheteira.
Programa da Revista "Coração ao Largo"





Naquele tempo em que as ruas da cidade sequer eram asfaltadas e convenientemente iluminadas e as pessoas andavam a pé, sendo escassas as lojas de moda, conta-se que as nossas e os nossos elegantes quando assistiam a espectáculos no Cinema Garrett exibiam elegantes tailleurs bordados a fita e lantejoulas, casacos de peles, luvas, chapéu, etc, elas, e eles modernos fatos, com colete, gravata e chapéu de marca, indumentárias mandadas vir dos Armazéns "Printemps" de Paris, através de uma loja de Moçâmedes denominada "Armazéns Primavera", situada no rés-do-chão do edifício centenário que foi residência dos Mendonça Torres, no gaveto entre a Rua dos Pescadores e a Rua 4 de Agosto, mais tarde Hotel Gouveia.

Mas também se conta que no tempo do Cine Garret  não havia quaisquer restrições à entrada de crianças, e até as mães podiam levar os seus bebés ao colo, o que transformava as noites de cinema numa alegre festa em família.

De início eram os Cine-Teatros...

Porquê? 

O surgimento do Cinema acompanhou as mudanças ocorridas com a industrialização do final do século XIX, e foi a resposta da época no campo da manifestação artística. Enquanto forma de expressão, o Cinema vai buscar ao teatro as primeiras tentativas de uma estética própria, que o levaria a procurar, também, um lugar apropriado para a exibição dos filmes. Apresentado inicialmente como uma curiosidade para o público frequentador dos music-halls, dos cafés-concertos e dos pequenos teatros, aos poucos o Cinema vai criando salas próprias para um público próprio, numa trajetória evolutiva que passa pelo período efervescente da belle époque até o período áureo, marcado pela conquista arquitetónica definitiva, com a associação ao movimento arquitetónico e artístico do Art déco surgido nos loucos anos 20, em Paris, reconhecido hoje em dia como um primeiro passo rumo à modernidade.

Ficam estas recordações de  momentos passados num outro tempo, num outro lugar, por gentes que na maioria a morte já ceifou, mas que merecem esta homenagem, pelo brilho com que  com a sua participação, o seu envolvimento em eventos sociais e lúdicos, imprimiram à vida monótona de um povo labutador e honesto que um dia, por imperativos do destino revolveu fixar-se  naquela que, sendo então a Moçâmedes do seu tempo, é hoje a cidade do Namibe.

 MariaNJardim  (direitos de autor)
20.06.2008



Nota: Este texto insere-se na série de textos aqui publicados, que visam fornecer um retrato, o mais vivo e real possível, daquilo que foram as vivências e as convivências em Mossâmedes/Moçâmedes, hoje cidade do Namibe, em Angola, no decurso da época colonial. São textos baseados em memórias de vivos, experiências vividas, que nos mostram como a cidade foi evoluindo ganhando terreno ao deserto, e permitem desvendar modos de ser e de estar, atitudes perante o quotidiano, aos quais se juntam também referências retiradas à História, na medida em que a luz do passado ilumina o presente ajudando-nos a interpretá-lo e a compreendê-lo. Encontra-se protegido por direitos de autor, pelo que só pode ser reproduzido por outrem desde que seja mencionada a fonte de onde provêm. As fotos aqui colocadas não poderão ser reproduzidas para fins comerciais.




Mas a componente comercial, como não podia deixar de ser, também fazia parte do projecto. Para aproveitar o tempo na troca das bobinas que continham o filme, havia dois intervalos sem tempo definido.
O público passava, então, para as elegantes galerias, onde se encontravam à sua espera os quintadeiros com os famosos bolinhos de coco, bêbados e canudos com canela, para além da banca fixa do quimbar César das Chupetas, antigo cozinheiro do Hotel Moçâmedes e que passou a trabalhar por conta própria com uma fabriqueta caseira, produzindo chupetas, caramelos e rebuçados de mentol.
E era sempre a aviar!... Bêbados, canudos e cerveja para os adultos; chupetas e pirolitos para as criancinhas.
Feliz ou infelizmente, vivemos num mundo finito ao qual não conseguimos escapar. E nem o Cuprinol da Robbialac, produto supostamente contra o caruncho, conseguiu salvar o Cine-Teatro Garrett da derrocada total.
É que, ao longo do tempo, o bicho-carpinteiro foi-se alimentando do madeirame de uma tal forma tão subreptícia e insidiosa que as estruturas do Garrett começaram inesperadamente a ranger por tudo quanto era sítio.
E numa manhã de cacimbo, após uma noite de ruidoso e animado filme de piratas e corsários, o pessoal de limpeza deu de chofre com aquele triste espectáculo.
Essa deve ter sido a última noite de grande farra para os carunchos e os escaravelhos, pois deixaram de tal modo esboroados os camarotes, as frisas e o balcão do Galinheiro, que a partir de então o Cine-Teatro Garrett passou apenas a servir de local onde a miudagem do Bairro da Facada ia brincar às escondidas e aos polícias e ladrões.
Só as duas goiabeiras do quintal do Cinema Garrett choravam lágrimas de seiva amarga, pois o Tó Lindas e o Monacaia não perdiam ocasião para dar caça às bengalinhas que nelas poisavam para os seus cantos divinais.
Tempos depois, sobre os escombros do Cine-Teatro Garrett, viria a ser construído a Sede do Atlético Clube de Moçâmedes, atirando para as brumas da memória aquele elegante e singular Cinema que tantas alegrias havia proporcionado aos nossos queridos “Cabeças de Pungo”.
Mas, com desgraças ou sem elas, a vida não pára!... E o Raul de Sousa ultrapassou a desdita, alugou o salão de festas do Ferrovia e transformou-o num Cinema open space: paredes e plateia, nada mais. Apenas uma reminiscência do Cine-Teatro Garrett: para a miudagem, os bancos corridos atrás dos reposteiros do palco, que a D. Aninhas, esposa de Raul de Sousa, era uma Santa Mulher e levava atrás de si toda a criançada que por ela aguardava à entrada.
Mas o Cinema do Ferrovia acabaria por se tornar numa fugaz miragem, num epifenómeno, de pronto ultrapassado pela construção do Cine-Teatro Moçâmedes, popularmente conhecido como o cinema do Eurico e que resistiu com total êxito até aos idos de Abril.
Não mais a D. Aninhas e as criançinhas que arrastava atrás de si à boleia. Não mais cadeiras trazidas para o passeio defronte ao Cinema do Ferrovia, onde nas noites brancas de lua cheia a avó Catarina e a vizinhança se reuniam em paz, tranquilamente, vendo e tagarelando sobre as últimas modas das “Lojas do Printemps” que iam passando em gracioso desfile à entrada do Cinema.
Era a modernidade do pós-guerra que chegava!...
E quando, em amenas cavaqueiras com amigos de infância, recordamos essa Moçâmedes do antigamente, acabamos sempre por montar no vento leste e cavalgar no tempo, viajando por esses sonhos intemporais onde ainda vivem e moram a Myrna Loy e o Gary Cooper, a Greta Garbo e o Errol Flynn, o Zorro e o Tarzan… E outros tantos mais!...
ooo O ooo


quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O regime de trabalho do contratado indígena em Angola no tempo colonial







No sistema colonial português, até 1961, os “indígenas” não eram considerados cidadãos plenos, e era entre estes estratos da população negra, geralmente vindos do interior para trabalhar onde fossem considerados necessários, que se encontravam os "contratados", que eram angariados junto dos "sobas" nas suas terras, por intercepção de um curador, com responsabilidades em todos os trâmites do contrato, e cujo "contrato" ocorria muitas vezes contra vontade dos próprios, sendo em seguida transportados para as pescarias do litoral, para as fazendas do café, para as roças do litoral, e, principalmente até 1953, para S.Tomé. Este sistema que foi criado a pensar nas grandes Companhias (1), alargou-se a todas as actividades económicas, mo distrito de Moçâmedes essencialmente na pesca e na agricultura.  Portanto, pela necessidade que as actividade económicas tinham de braços de trabalho era comum os colonos em Angola solicitarem aos administrativos para lhes arranjarem pessoal.

Durante o contrato os contratados recebiam alimentação, roupas, e um salário, em muitos casos sob abusos e extorsões que deixaram sequelas difíceis de sarar, acontecendo que os que iam para S.Tomé, raramente regressavam. E de nada servia denunciar este regime injusto pois até Henrique Galvão, enquanto deputado por Angola, fartou-se de o fazer sem nunca ter sido atendido, antes pelo contrário, acabou por ser preso.
 

Era um hábito que persistia desde os primórdios e que nunca sofreu alteração, excepto no curto governos de Norton de Matos (1912/1914 e 1920/1923), que foi demitido, por duas vezes, devido à sua extrema repugnância pelo trabalho compelido. 

Também o Governador Geral Freitas Morna em 1941 chamou a atenção para os abusos e tentou mesmo um sistema inovador para suprir as necessidades das fazendas e das pescarias através da fixação de trabalhadores permanentes, vivendo com a família em boas casas e com ensino para os filhos. Só governou 10 meses . Aos administrativos era imposta uma prática que persistiu até 1961. Eram célebres os “contingentes” confidencialmente solicitados.


Adriano Moreira referiu  a existência de um «...condicionamento de mão de obra indígena consagrado pela doutrina universitária racista marcelista sobre o papel do indígena na economia, o trabalho compelido, as culturas obrigatórias, o estatuto de concessionários refreavam ou anulavam a iniciativa competitiva. Havia também impedimentos legais à livre circulação dos portugueses entre as colónias, o que matava, na fonte, o aparecimento de uma classe empresarial».
 
Também os indígenas tinham que ter autorização do administrador do concelho para viajar para fora da sua área de residência, ainda que fosse na realidade muito difícil esse controle. 

Este regime começou a chegar ao fim começou com o governo de Venâncio Deslandes, em 1961, e foi erradicado com Silvério Marques de 1963 a 1966, ante a fúria de alguns colonos e daqueles  que com ele beneficiavam. Está-se mesmo a ver, em primeiro lugar as grandes Companhias que mais beneficiavam com o sistema, e funcionavam como um Estado dentro doutro Estado. 

Até 1961 não havia, pois, de um regime de contrato em condições laborais honestas que assegurasse o trabalho a pessoas que dele necessitassem e dignificasse tanto o trabalhador como o empregador, como aliás acontece em todo o mundo hoje em dia, ainda que se verifiquem abusos e violências que pareciam existirem apenas em África.

Desde 1961 e até 1974 foi praticado em Angola um regime laboral moderno, mas já era tarde. Sequelas profundas relacionadas com as injustiças praticadas no passado mais longínquo ou mais recente sobrepuseram-se aos esforços efectuados que levaram a ascensões sociais entre os africanos que mesmo assim não esqueceram  as injustiças como as dos contratos e as discriminações sociais.  13 anos de recuperação do tempo perdido não foi suficiente, teriam que decorrer bastantes mais para que seguindo o trajecto a partir de 1961, as injustiças se esbatessem. Esta situação teve grande influência no abandono em massa dos colonos em 1975. Se a maioria era gente pacifica que estava ali para trabalhar e até ajudou a melhorar a condição da vida os africanos, muitos havia que tinham colaborado com as injustiças. O regime de ditadura, com a PIDE à cabeça teve grande influência no silenciamento das maiorias.



(1)-Como se sabe o colonialismo português foi tardio com relação à sua duração em relação às demais colónias.  Portugal no final da 2ª Grande Guerra (1939-45) era um pais atrasado inserido numa Europa desenvolvida, e com um regime ditatorial, que olhava as colónias como uma oportunidade , enquanto as outras potências que haviam efectuado com a Conferência de Berlim a "partilha de África" iam dando a independência aos territórios africanos que ocupavam, as elites portuguesas submetidas a um regime que as tornara dependentes da Metrópole e das decisões tomadas por capitais internacionais, buscavam mercados e melhor rentabilidade  mas colónias, essencialmente em Angola, atraídas pelo potencial mineral e a extensão territorial daquela colónia. Assim surgiu em meados de 50 a exploração do petróleo e dos diamantes a quem foram feitas concessões a longo prazo, gerando grandes receitas que permitiram expansão