Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 23 de maio de 2016

Inauguração do uso de camiões automóvel, em 1915, na Campanha contra os Cuanhamas em N'giva





No sul de Angola, de recente colonização portuguesa, a forte resistência dos Cuanhamas e alguns revezes do exército colonial na região justificaram um outro tipo de ocupação militar sistemática.
É na campanha de 1915 contra os Cuanhamas na sua capital N’giva, que se inicia o uso dos camiões automóveis. Os serviços excelentes prestados pelos carros boers no Bié, no Bailundo e no Moxico, entre outros, dependiam do alimento e da água para os animais. No sul a obtenção da  água era um problema que colocava o exército na mão das populações locais.

No final das operações ficou completa a estrada de automóveis desde a linha do caminho-de-ferro até ao interior do distrito da Huíla. O trajecto entre Mossâmedes e a N’giva, que anteriormente se fazia em 60 a 80 dias passou a poder fazer-se em 36 horas. A rapidez do avanço sobre a N’giva, a capital, ficou a dever-se aos camiões, embora os carros boers seguissem na retaguarda. As populações não conheciam a velocidade nem o rendimento do motor das novas máquinas de transporte.


segunda-feira, 9 de maio de 2016

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe











"De expressão moderna, com volumes de silhueta triangular, em articulação com um expressivo corpo troncocónico em betão aparente, onde se rasgam pequenos vãos de modo irregular, no tipo da Igreja de Romchamp, por Le Corbusier.  Foi projectada pelo arquitecto Luís Taquelim na década de 1960. "
José Manuel Fernandes, professor catedrático na Faculdade de Arquitectura da UT


 

OLHAR A IGREJA DE S. PEDRO DE MOÇÂMEDES/NAMIBE, SOB UMA PERSPECTIVA DIFERENTE...



Regra geral, olhamos superficialmente os edifícios, sofremos o impacto daquilo que eles a nossos olhos  representam, gostamos, não gostamos, fazemo-lo empiricamente, apoiados exclusivamente na experiência e na observação, sem quaisquer análises estética ou ideológica do edifício em si, sem nos preocuparmos com correntes arquitectónicas, nem com aquilo que eles representam, a menos que tenhamos uma formação académica ligada às coisas da arquitectura.

A Igreja de São Pedro, na cidade de Moçâmedes, actual Namibe, em Angola, projectada pelo arquitecto Luís Taquelim na década de 1960, tem algo mais a nos transmitir. Ela segue a arquitectura modernista da Igreja Notre-Dame du Haut (Nossa Senhora das Alturas), mais comumente Igreja de Ronchamp,  projectada por Le Corbusier, considerado o farol da modernidade, reconhecido por alguns dos cometimentos arquitetónicos mais extraordinariamente significativos do século XX, e decisivo para o desenvolvimento da arquitectura da segunda metade do século.

Ronchamp, situada no alto de uma colina vasta e verdejante, a sudeste de Paris, ocupa o lugar que fora há muito tempo de peregrinação católica, e que fora destituído de seu principal símbolo de comunhão, sua Igreja, atingida por um bombardeamento alemão, no Outono de 1944. Esse mesmo edifício já havia substituído outro anterior, destruído por um incêndio em 1913. http://www.archdaily.com.br/…/classicos-da-arquitetura-cape…".
 Construída na década de 50, a Notre Dame du Haut foi desenhada para "criar um local de silêncio, oração, paz e alegria interior", segundo Le Corbusier. Classificado como monumento histórico desde 1967, o edifício atrai anualmente cerca de 80 mil turistas.
 
 Ronchamp
Ronchamp foi uma das obras que causaram mais polémica e dificuldade de assimilação pela crítica, tanto por parte dos arquitectos, quanto pelo público.  Uns viram em Ronchamp um regresso ao passado e à plasticidade, outros um indício da crise do racionalismo. Com Ronchamp, a reprodutividade e a  estandardização cedem espaço à experiência singular, eleva-se a relação entre arquitectura e história, o valor da dimensão simbólica, social e cultural, a importância da identidade tipológica. De um branco brilhante em seus muros externos, paredes grossas e curvilíneas, a um tempo quadrada e redonda, alongada e contida, baixa e alta, vasta e aberta sobre o exterior, com pequenas janelas irregulares que permitem o jogo dos volumes sobre a luz. Uma ação de vandalismo em Ronchamp, na França, causou comoção entre os admiradores da herança deixada por Le Corbusier no século 20. Ronchamp foi depredada numa tentativa de furto e sofreu um dano irreparável: o único vitral assinado pelo grande mestre foi completamente destruído. Os vândalos devastaram um dos componentes mais emblemáticos da capela. Le Corbusier pintou todos os outros vitrais, mas nesse painel claro, onde desenhou a lua, ele tinha escrito a sua assinatura.

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes/Namibe, de Taquelim, inspirada em Romchamp de Le Corbusier, foi construída no quadro do Estado Novo, ela faz parte do conjunto de edifícios modernos que vieram  romper com numa época em que a arquitectura portuguesa era condicionada à vontade do Estado e da ditadura vigente, que se impunha incluso ao nível do gosto e da estética dos cidadãos, com reflexos na arquitectura e no urbanismo. (1) E  não apenas romper com a tradição estado-novista, que começou a mudar, mas também com a  arquitectura eclesiástica  ligada ao dogmatismo religioso, opostas à linguagem moderna de Le Corbusier,  que se  vai revelar em terras da África portuguesa, pela mão de  alguns arquitectos que para lá "emigraram",  munidos com uma nova visão fortemente influenciada pela produção arquitetónica brasileira,  que preconizava uma linguagem internacional.
Inicialmente conformados,  com o advento do modernismo e o forte impacto da arquitectura brasileira junto às novas gerações de arquitectos, os arquitectos portugueses acabam influenciados. Em terras de África, mais libertos de condicionalismos ideológicos,  desde a década de 40, vários arquitectos formados em Portugal puderam levar a cabo um conjunto de intervenções arquitetónicas e urbanísticas influenciadas pelo modernismo, uma vez que do ponto de vista climático o Brasil era semelhante ao continente africano, com soluções e técnicas já experimentadas e saberes sedimentados que poderiam ser transpostos para aquele contexto. Eles construíram edifícios modernos em Angola, acontecendo porém que décadas após a independência, aquele que era provavelmente o mais emblemático de todos, o Mercado do Kinaxixe, foi demolido e no seu lugar viu  nascer um centro comercial com seis pisos e duas torres.

 Com a independência, a generalidade dos arquitectos regressaram a Portugal, mas alguns partiram para o Brasil, estabelecendo a sua actividade naquele país. Em Moçâmedes/Namibe, esse "modernismo tropical" para além da Igreja de S. Pedro, deixaram algumas outras obras de um modernismo de ponta que muito dignifica aquela cidade, quer por aquilo que representam do ponto de vista histórico-ideológico, quer pela contribuição estilística para a paisagem urbana.

MariaNJardim



(1)  Trata-se de um tema pouco debatido,  o da Arquitectura  Moderna desenvolvida nas antigas colónias.  Durante a vigência do Estado Novo, a arquitectura era usada como um instrumento de propaganda do Regime. A Exposição do Mundo Português em 1940, marcou a viragem para uma produção com características nacionalistas e monumentais, e no ano seguinte é apresentada em Lisboa a Exposição da Moderna Arquitectura Alemã, organizada pelo arquitecto Albert Speer, o preferido de Hitler.  O Estado passou a impor os seus próprios valores na arquitectura, e os arquitectos que anos antes tinham seguido os princípios do Movimento Moderno passaram, salvo raras excepções, a instrumentos da criação dos modelos da ditadura, sendo  toda a encomenda pública centralizada no Ministério das Obras Públicas, e controlada pelo ministro Duarte Pacheco. Os edifícios públicos (universidades, cine-teatros e tribunais) aproximavam-se dos exemplos alemães e italianos da época, com um forte carácter monumental e clássico, cujo objectivo era  transmitir aos cidadãos a ideia de autoridade e ordem. Nos edifícios de menores dimensões nas pequenas cidades era escolhida uma linguagem mais regional ( em escolas primárias, pousadas, edifícios dos Correios e da Caixa Geral de Depósitos e nos bairros de habitação social). Em Lisboa raros  arquitectos se opunham às imposições do Estado Novo. No Porto logo ao nível das escolas notava-se a diferença, alí o mestre, o arquitecto Carlos Ramos, apesar de adepto do regime, mantinha uma postura mais liberal, e incentivava os alunos a descobrirem outros caminhos na arquitectura, em constante mutação. Com o fim da II Guerra Mundial Salazar foi proporcionando uma maior abertura no campo cultural, e o I Congresso Nacional de Arquitectura, promovido pelo Governo para celebrar os  “15 Anos de Obras Públicas”,  na verdade, foi o início da contestação da classe de arquitectos. Ao longo dos nos 50 assiste-se a uma progressiva libertação da arquitectura portuguesa que se vai aproximando  dos circuitos internacionais.







segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Uma perspectiva de Moçâmedes, in Navegação de Paz e de Glória, de Dutra Faria

Navegação de paz e de glória.: FARIA, Dutra, 1910-1978






"SUBINDO A SERRA DA CHELA"


..."Cidade de pescadores,em seu aspecto portuguesíssima e paupérrima,com sua população humilde formada por algarvios e outros homens do litoral metropolitano , laboriosos, tenazes,com o gosto, o amor, a paixão do mar,proprietários e tripulantes de trezentos barcos -- Moçâmedes há muito que ficou para trás entalada entre as ondas do Atlântico sulcadas de velas,as rochas da Torre do Tombo esburacadas de cavernas e as areias e pedregais do mais feio, mais árido e mais monótono deserto do mundo,através do qual as cabras de leque galopam,tímidas e airosas,numa fuga desabalada e pânica...

... De novo desembarcados, o nosso automóvel galga já os contrafortes da imensa e agressiva serra da Chela. Os olhos descobrem,na estrada, as primeiras curvas perigosas;alcançam da estrada os primeiros abismos tenebrosos. Lá em baixo,é o deserto que se alonga até aos confins do horizonte"....."Sucedem-se, essas ruínas, por assim dizer de quilómetro em  quilómetro, nuas, desamparadas, esquecidas, sem uma lápida, sem um placa que fale da sua história aos que passam, trágicas como túmulos abandonados. Páginas apagadas -- desfeitas -- de uma epopeia silenciosa e anónima. Marcos de um esforço e de uma vontade animados por uma esperança e por instinto de império. Passos de um lento calvário. Outras tantas experiências de colonização ao longo dos caminhos da serra, na marcha para os planaltos de Angola"...

...A terra parecia fértil, luxuriante, a vegetação dócil, o gentio. Detinha-se numa daquelas clareiras, uma família de colonos. Desengatavam-se os bois da "espana".Amassavam o barro.Punham os tijolos a secar ao sol. Derrubavam árvores. Desbastavam troncos. Levantavam as paredes da casa, cobriam-nas de capim bem seco. E mal o fogo crepitava na pedra da lareira, afugentando para longe as sombras e os pavores da noite africana, o colono voltava-se para a terra, ateando queimadas, arrancando raízes,abrindo canais de irrigação, revolvendo endurecidos torrões a golpes de enxada,deitando,enfim,nos primeiros sulcos do arado,os primeiros grãos de trigo ou de milho. Mas a terra negava-se. Não era,afinal o que parecia. Novamente o colono engatava os bois, novamente partia, comprido chicote em punho, deixando a casa,voltando-se as costas... Mais adiante !...mais adiante !..."

...Entrámos nós também no planalto. Entretanto anoiteceu, e por cima das nossas cabeças parecem mais perto de nós as estrelas. Acabou-se a estrada tormentosa, íngreme,ladeada de precipícios. Rectas agora sucedem-se às rectas. Depois, ao longe, avistam-se luzes como de uma grande cidade. Mas aquelas luzes movimentam-se, deslocam-se, avançam, correm -- vêm ao nosso encontro. São archotes, milhares de archotes empunhados por milhares de pretos. A uma luz vacilante e vermelha destacam-se da treva, por entre a fumarada, tatuagens medonhas, colares e pulseiras de luzidio cobre, facas e azagaias que reluzem, carapinhas emplumadas, bocas abertas, escancaradas num pasmo selagem. " (pgs.: 142-143-144-146) 

(Transcrições parciais da obra: "A NAVEGAÇÃO DE PAZ E DE GLÓRIA" , de DUTRA FARIA (1910-1978) em "ANTOLOGIA DA TERRA PORTUGUESA - O ULTRAMAR PORTUGUÊS - ANGOLA" - 1961  
Agência Geral das Colónias, 1945 - 165 páginas

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

As colonias portuguezas no seculo XIX, by Manuel Pinheiro Chagas


Pinheiro Chagas um dos mais importantes e influentes políticos do seu tempo (1842-1895)





Pinheiro Chagas viveu uma época de grande tensão, em que Portugal era confrontado com crescentes problemas levantados pelas potências europeias, especialmente a Grã.Bretanha e a Alemanha, interessadas na "Partilha de África", para além das pressões antiesclavagistas lideradas pela potência britânica que punha em crise a velha partilha de esferas de influência naquele continente, e ameaçava a manutenção do controlo luso sobre boa parte dos territórios tradicionalmente reclamados como estando sob soberania ou protectorado português. Estas e outras questões, levaram à convocação da Conferência de Berlim, que decorreu de Novembro de 1884  a Fevereiro do ano seguinte, num ambiente de grande exaltação patriótica em Portugal, em boa parte preparado. Foi neste contexto que Pinheiro Chagas se associou a um grupo de intelectuais e políticos para fundar, à imagem das sociedades de exploração britânicas, a Sociedade de Geografia de Lisboa. O objectivo era dar corpo a um conjunto de viagens de exploração em África que rivalizassem com as realizadas sob a égide britânica, francesa e belga. Foi assim que nasceu o mapa cor-de-rosa e se realizaram as grandes viagens de exploração entre 1884 e 1885. Pinheiro Chagas  manteve sempre uma muito activa presença parlamentar e na imprensa, para além de ser à época considerado como um dos mais conceituados escritores portugueses.  Faleceu em Lisboa a 8 de Abril de 1895. Foi um dos grandes vultos da história portuguesa, tendo sido vítima de uma odiosa agressão, mal esclarecida, da qual nunca se recuperou.
Eis como Pinheiro Chagas encararava o estado de abandono em que se encontravam as colónias africanas às vésperas da Conferência de Berlim (1884-5), onde, excepto a acção de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o fundador de Moçâmedes, pouco mais se fazia !


"...As colónias africanas eram um vazadouro para onde despejávamos todas as fezes que tínhamos no reino. Com degredados as povoávamos, com degredados formávamos o seu exercito e, quando não eram degredados, que o compunham, eram batalhões expedicionários que levavam do continente os mais torpes elementos das tropas nacionaes."

Em 1817, quando acabou a guerra peninsular e se tratou de mandar uma expedição para Montevideo, organizou-se com a flor dos nossos regimentos, pozeram-se à sua frente officiais como Lecou, Saldanha, Azevedo e Claudino.

Em 1835, pouco depois de ter acabado a guerra da liberdade, quando se quiz mandar uma expedição para Cabo-Verde, organisou-se um batalhão com os soldados mais ruins e indisciplinados que havia, não no exercito vencedor mas no exercito vencido. Por isso, a façanha que esse batalhão praticou foi matar todos os seus officiaes, á excepção de um ou dois alferes, que escaparam por milagre t

Se essas "colónias não eram senão ninhos de escravos, e era a escravatura a única fonte da sua receita ! . . . Sá da Bandeira appareceu, esse animo generoso. Promulgou a lei de 1836 que abolia a escravatura, e procurou fazel-a cumprir. Mas todos os interesses feridos se sublevavam contra elle. Alcunhavam-no de utopista, accusavam-no de arruinar as colónias. Os governadores que iam para o ultramar, com ordem expressa de acabar com o odioso trafico, viam-se obrigados a transigir, ou a fugir.
Em Moçambique, o marquez de Aracaty, um Oeynhausen, tinha de suspender a lei de 1836  porque os escravistas não a deixavam executar. D. António de Noronha em Angola, depois de uma lucta formidável, tinha de fugir quasi para a Europa. Joaquim Pereira Marinho, em Moçambique, via-se salteado por toda a espécie de calumnias, e por uma guerra ferocíssima, porque effectivamente debellava os escravistas. O tratado com a Inglaterra concluído em 1842 impunha-nos sacrifícios enormes, sujeitava-nos a continuados vexames, e a tudo nos resignávamos para cumprir lealmente a nossa missão emancipadora. E, emquanto o cruzeiro portuguez se mostrava implacável com os navios que transportavam escravos, emquanto as nossas colónias definhavam porque perdiam uma receita que não era substituída, os navios inglezes tomavam os negros escravos não para os libertar, mas para os levar ás suas colónias, e estas floresciam com o trabalho gratuito dos braços que à escravatura deviam.

De vez em quando algum estadista, algum governador do ultramar pensava nas colónias, muito de relance comtudo, que as guerras civis absorviam-nos. Bonitas palavras na camará de vez em quando, actos raríssimos. Apparecia Pedro Alexandrino em Angola, procurando explorar e conhecer a província, implacável com a escravatura, mas tentando deveras fazer alguma coisa útil.

Depois em 1849 appareceu também um homem dedicado, enérgico, de verdadeira iniciativa, Ber- nardino Freire de Abreu e Castro, que era o verdadeiro fundador da colónia de Mossamedes. Lu- ctava com innumeras dificuldades, mas a colónia lá ia rompendo lentamente, até que afinal se trans- formou na villa, que é hoje uma das nossas glorias ultramarinas. Ha quarenta annos ! E pouco mais se fazia ! Em 1852 appareceu um decreto, em cujo preambulo se dizia pomposamente que, sendo notório e incontestável que innumeros emigrantes portuguezes iam procurar trabalho no Brazil, sonhando phantasticas riquezas e não encontrando afinal senão a miséria e a morte, sendo incontestável ainda que os madeirenses iam procurar em Demerara, nos climas inhospitos da Guyana ingleza, as febres que faziam d'essa colónia britânica um cemitério para os portuguezes, era indispensável que se tratasse de derivar para as nossas colónias africanas essa emigração nacional, e com esse louvável intuito de crear um imposto nas colónias sobre a importação dos vinhos e aguardentes de Portugal. Palavras, e só palavras. Trinta e três annos depois é que o auctor destas linhas fundava n'esse districto de Mossamedes, tão claramente indicado para a colonisação portugueza, as auspiciosas colónias Sá da Bandeira e S. Pedro de Chibia !"


As colonias portuguezas no seculo XIX (1811 a 1890)

https://archive.org/details/ascoloniasportu00chaggoog

Moçâmedes e o regresso das forças que participaram nas campanhas do Cuamato em 1907




Na Chibia, recepção à Forças que regressaram do Cuamato


Em Moçâmedes, as  forças que regressaram do Cuamato



Na busca de uma interpretação para estas imagens, intimamente ligadas às campanha do Cuamato, em 1907, encontrei as seguintes passagens:

...Aquellas forças que regressaram do Cuamato atravessaram as principaes terras do planalto no meio de festas ruidosas e carinhosas recepções, feitas pelos habitantes impulsionados por um grande sentimento patriótico, que nunca poderemos esquecer; festas que foram o preludio das grandes demonstrações de alegria com que no reino foram acolhidas enthusiasticamente as tropas da metrópole que tomaram parte na columna e o commandante d'ella. 

Em Quihita cumprimentaram-nos e receberam-nos aflectuosamente os missionários ali installados.

...Na Huilla fizeram o mesmo os que lá dirigem proficientemente o grande e antigo estabelecimento missionário do Espirito Santo; aqui estava o nosso conhecido padre Bonefoux, superior geral das missões do planalto, e tanto elle como os seus zelosos coadjutores,redobraram para comnosco de carinho e affecto, de attenções e de dedicações que nunca poderão ser esquecidas; e na povoação da Huilla as auctoridades e a pequena colónia europeia com o seu parocho, o reverendo missionário Pereira, de uma grande amabilidade, aclamaram com enthusiasmo a columna á sua passagem.

A Chibia engalanou festivamente, e a sua numerosa população foi da mais cordeal e franca amisade em todas as festas que nos proporcionou, desde a recepção fervorosa de enthusiasmo que nos fez, até ao grande banquete onde a gentileza das suas damas chegou ao delicado requinte de nos servirem graciosamente a refeição.

Dois dias depois da nossa chegada ao Lubango, a 12 de novembro, era publicada uma ordem de serviço dissolvendo a columna, e indicando ás unidades os dias da partida de cada uma para Mossamedcs, onde de novo nos reunimos todos ahi pelo dia 18 daquelle mesmo mez.

No Lubango o enthusiasmo augmentou com o numero dos manifestantes e o fervor do seu patriótico contentamento, desde o dia em que chegamos até aquele em que com novas festas nos compensaram, em dias alegres, das amarguras e perigos passados.

 Nunca poderei lembrar-me dos rápidos dias que passamos n'essa terra, sem recordar a sincera amisade, o grande enthusiasmo e patriótico alvoroço com que ali nos receberam, entre todos, João de Almeida o digno escrivão de fazenda do concelho, e o alferes Bernardino Ferreira, de quem já tive occasião de fallar noutro logar.  Dois dias depois da nossa chegada ao Lubango, a 12 de novembro, era publicada uma ordem de serviço dissolvendo a columna, e indicando ás unidades os dias da partida de cada uma para Mossamedcs, onde de novo nos reunimos todos ahi pelo dia 18 daquelle mesmo mez. Descrever minuciosamente as festas ruidosas com que a galharda população de Mossamedes recebeu durante alguns dias os expedicionários, é tarefa que infelizmente não posso fazer por não ter podido assistir a ellas. Mas se eu disser que a hospitaleira cidade, bellamente engalanada, esteve em festas constantes, durante aquelles dias, só interrompidas para prestar a homenagem da sua dor ao marinheiro que lá ficou se- pultado, e esta era ainda uma delicada manifestação do seu carinho ; e se eu disser que essas festas, desde a brilhante recepção feita ás forças da columna no terminus da linha férrea (kilometro n.° 73), até ao seu embarque, foram tudo quanto de mais sincero e de mais enthusiasta pôde haver, dando a nota vibrante do civismo dos seus habitantes, seguramente não pecco por excesso, antes ficarei muito áquem da verdade.

Essas demonstrações de regosijo e de affecto, como as que até ali recebêramos, e que ficarão indelevelmente gravadas no coração reconhecido de todos os expedicionários, terminaram em Mossamedes a 23 de novembro, no momento em que o paquete Africa, levantando ferro, levava para o norte, a caminho da metrópole, um troço dos bravos e valentes soldados que durante cinco mezes se bateram, em regiões inhospitas  e em regiões desconhecidas, comas inclemências do clima hostil e com o furor de um inimigo ousado, levantando bem alto, pela nobreza do seu procedimento e pela coragem dos seus esforços, o nome sagrado da PATRIA PORTUGUEZA. Embora por uma pena obscura e humilde, descriptos sem o brilho e sem o realce merecidos, que os seus feitos heróicos e a sua brilhante conducta li quem para sempre gravados nos annaes da nossa historia militar colonial.



A campanha do Cuamato em 1907: breve narrativa acompanhada de photographias



Published 1908

Full text of "A campanha do Cuamato em 1907: breve narrativa acompanhada de photographias"

 Conferencia sobre o sul de Angola, Por J.A. Roçadas:

https://books.google.pt/books?id=xQkTAwAAQBAJ&pg=PA13&dq=boers+em+angola&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwiVotGMiJ7LAhUKHxoKHa_zA7E4HhDoAQhNMAU#v=onepage&q=boers%20em%20angola&f=false

  https://archive.org/details/acampanhadocuam00castgoog

 

 

  

 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

ILHA DE SANTA HELENA








A propósito de uma notícia, datada de 03-07-2010, e publicada no site"Ango Noticias", relacionada com o líder do Partido Democrático Angolano(PDA), António Alberto Neto, que defende a ideia de que o governo angolano devia encetar negociações diplomáticas a fim de obter a soberania de várias ilhas na Antártida, actualmente sob tutela da Grã-Bretanha, ideia contida aliás, num livro que o político lançara com o título «A Outra Face de Angola», onde reivindica a soberania sobre certas ilhas no continente Antártico, com destaque para Santa Helena, onde Napoleão Bonaparte Bonaparte esteve exilado e onde acabou os seus dias envenenado. Ou seja, 
"... na sua ZEE, Zona Económica Exclusiva. Junta outras ilhas, casos de Bouvet, Mone Maud e Terra da Nova Suécia, que se situam entre o território Sanae, pertença da África do Sul, e a Novalazareskaia, sob tutela da Rússia ":

"...O continente antártico deve pertencer também aos países africanos, pois dele depende a sobrevivência da Humanidade, e o seu uso deve ser para fins pacíficos", fundamenta Alberto Neto, que em tese compara a situação ao caso das ilhas Malvinas, cuja soberania é reivindicada pela Argentina, que durante a década de oitenta chegou mesmo a envolver-se numa guerra com a Grã-Bretanha. Polémica ou não, a ideia está posta à mesa. Embora muitas das ideias que Alberto expende no seu livro sejam velhas de anos, ao editá-las agora significa somente que este velho político as mantém. Algumas são mesmo alvo de recensões e actualizações. Folheando os arquivos da história, consta que Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola independente, terá tido isso em mente, chegando em determinada ocasião a mandar farpas ao Ocidente. Para Alberto Neto, que foi um discípulo de Agostinho Neto, não se trata de uma ideia estéril, sem qualquer utilidade prática para o país. Ele acha que Angola poderia estabelecer na Antártida uma base de estudo – à semelhança da África do Sul, Argentina e Chile – que serviria fundamentalmente para fazer um acompanhamento das riquezas desse continente. Serviria ainda, segundo ele, para coisas como o monitoramento da «corrente fria de Benguela e do plâncton acumulado no fundo do mar e depositado na nossa costa. "

FIM DE CITAÇÃO.



Falemos agora um pouco da Ilha de Santa Helena...
 
A ILHA DE SANTA HELENA
(alguns subsídios para a sua História) 

A Ilha de Santa Helena, a pequena e isolada ilha situada entre Angola e o Brasil, quase a meio do Oceano Atlântico, pertencente ao arquipélago com o mesmo nome, formado por três ilhas, distantes 5.000 quilômetros entre si: Ilha de Santa Helena, ilha Ascensão, e ilha Tristão da Cunha,  foi descoberta por acaso, em 1502, por João da Nova, navegador turco galego ao serviço de Portugal, que fez parte, no passado, da rota dos navegadores portugueses a caminho da Índia.  A descoberta da Ilha por portugueses foi mantida em segredo durante bastante tempo, para evitar que holandeses e ingleses se apossassem dela, e o arquipélago era ao tempo da sua descoberta desabitado. Santa Helena recebeu em 1515 o seu primeiro habitante permanente, o soldado português Fernão Lopes, que permaneceu isolado em na ilha até 1545,  excepto por ocasião de uma breve visita que fez à Europa, após 10 anos de isolamento na ilha. Mas na verdade Portugal nunca a colonizou Santa Helena, e a ilha acabou ocupada no século XVII, sucessivamente, por Holandeses, em seguida por Ingleses, passando em 1673, definitivamente à posse da Inglaterra.  Há notícias que no século XVI, a Ilha de Santa Helena foi usada como base para as aguadas e para o abastecimento das tripulações, ponto de passagem que se tornara  dos navios negreiros ingleses a caminho das Américas. Os cidadãos de Santa Helena são pois, brancos, filhos de ingleses, não falam a língua dos portugueses que a descobriram. Ao arquipélago nunca chegaram as invasões banto, nem nunca lá esteve algum banto. A escolha do nome para o arquipélago deve-se a Helena de Tróia, santa da promiscuidade.

Santa Helena foi também lugar de degredo, para onde a Inglaterra costumava enviar seus presidiários de altíssima periculosidade. Aliás, a Ilha de Santa Helena ficou famosa porque a determinada altura da ocupação inglesa recebeu um hóspede muito especial, Napoleão Bonaparte, depois de ser expulso da França, como "cidadão-non-grata e traidor da república". Foi em Santa Helena, seu segundo exílio, o local onde o envenenaram com os característicos copos de leite matinais com arsénico, matando-o. A aproximação  à  ilha de Santa Helena foi severamente bloqueada após o desembarque de Napoleão Bonaparte. Este bloqueio durou até 1821, ano da morte deste prisioneiro especial, em 05 de maio de 1821, no mesmo ano em que Dom João VI, que se refugiara no Brasil com a corte, fugindo às invasões francesas, regressou a Portugal, e desembarcou em Lisboa no dia 04 de Julho de 1821, após a queda do absolutismo em Portugal e triunfo dos liberais, em 1820.

A ilha de Santa Helena é uma das emergências de uma cadeia de montanhas submersas que existe entre a África e a América, possui uma população de aproximadamente 4 mil habitantes, sendo a maioria descendentes dos colonos britânicos, dos empregados da Companhia Britânica das Índias Ocidentais e dos trabalhadores trazidos do sul da Ásia, Índias Ocidentais, Madagáscar e China.  A Ilha  não possui riquezas, vive de ajuda da Inglaterra. Para se ter uma noção, a Ilha não possui nenhuma praia, sendo o seu litoral completamente rochoso, o que impede grandes projectos para desenvolvimento do turismo. A economia local baseia-se no turismo de pessoas endinheiradas que não se importam de viajar para o fim do mundo, apenas para ver a última cama de Napoleão, o último copo de Napoleão e vários outros apetrechos fim-napoleónicos mantidos intactos.  Para os naturais da ilha onde chegaram os portugueses em Maio de 1502, o turismo poderá mudar de maneira permanente o modo de vida local. A construção de hotéis - há inaugurações já para este ano -, estâncias balneares, a venda de propriedades, a própria pressão demográfica deixarão marcas na ilha que tem uma superfície de 122 km2 (a do Faial, nos Açores, tem 172 km2 e 15 mil residentes), paisagens deslumbrantes e uma temperatura média entre os 20-27 graus.  O arquipélago não possui aeroporto, e para acudir a qualquer acontecimento que ocorra na ilha, os habitantes servem-se de um barquinho pesqueiro denominado "RSS SOS". No entanto chega-nos presentemente a notícia do fim da era de isolamento em Santa Helena. Vôos regulares vão ter início em Maio de 2016, no local onde viveu o "Robinson Crusoé português". Santa Helena, um dos locais mais isolados e difíceis de visitar no planeta, quase a meio do Atlântico Sul, a 2200 quilómetros da costa angolana, passará a ter um aeroporto. Será o fim de séculos de reclusão.

Concluo integrando em seguida dois comentários relacionados com o citado texto, publicado no site"Ango Noticias":

"As fronteiras dos países africanos são resultado da colonização.  De acordo com a Carta da União Africana, no seu artigo 4.º, alínea b), as fronteiras dos países africanos são as existentes desde o momento da acessão à independência, princípio que já havia sido invocado com a Carta da OUA. Antes nunca houve uma Angola. Muito menos uma Angola que integrasse essa distante ilha de Santa Helena. Aqueles que defender tal ideia absurda deviam pensar que Angola até vive o problema de Cabinda.  É nosso dever cívico esclarecer essa situação. Cabinda fazia parte da Angola colonial Aquando da descolonização, em momento algum ficou discutido que se devia rever a titularidade daquele território. Nem sequer era um assunto"

Outro comentário:  "Santa Helena não é nossa!" :

"De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, os países costeiros têm direito a declarar uma zona económica exclusiva ZEE) de espaço marítimo para além das suas águas territoriais, na qual têm prerrogativas na utilização dos recursos, tanto vivos como não-vivos, e responsabilidade na sua gestão. A ZEE é delimitada por uma linha imaginária situada a 200 milhas marítimas da costa. A ZEE separa as águas nacionais das águas internacionais ou comuns. Santa Helena está a 1.000 milhas da foz do Cunene, o ponto mais próximo da Costa. "

Ainda outro comentário de "BB":

"Santa Helena é de quem lá está!!! E se não estiver ninguém, é de quem lá chegou primeiro. Senão, mudo de opinião e acabo por dar razão aos grupos independentistas cabindeses."

FIM DE CITAÇÕES E DO TEXTO



domingo, 3 de janeiro de 2016

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o fundador de Moçâmedes (Namibe) e a abolição da escravatura








Documento Nº 4 (*)

Opinião de Bernardino sobre “a melhor forma de extinguir a escravatura”

IIlmo e Exmo Snr. – Em cumprimento do officio que V. Excia se dignou mandar dirigir-me com data de 15 de desembro do anno passado, da repartição civil, sob o nº 1842, e recebi em dez do corrente, pela polaca “Esperança”, no qual me determina que exponha a minha oppinião sobre os meios possíveis de acabar por uma vez com o tráfico da escravatura nesta província, direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões e intelligencia me ditam, e bem assim a experiencia de quasi oito annos dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com escravos e gentio livre, me há demonstrado.
Dividirei a questão sob dois pontos de vista:
1º _ Acabar o tráfego da escravatura para fora das possessões portuguezas;
2ª _ Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.
Em quanto ao primeiro ponto, a rasão, a humanidade, e a própria conveniencia reclamam que o Governo Portugues, com as mais urgentes medidas ponha por uma vez termo a tam vil, dehumano, e degradante tráfico, que em vez de ser util as mesmas possessões, é a causa de seu completo, por não dizer vergonhoso atraso.
Sem me demorar em descrever os horrorosos delictos cometidos em um desembarque – delictos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos de homem, e que mal se poderia acreditar que os mesmos homens os cometessem, se se não vissem tantas vezes repetidos:  sem me demorar a descrever o que soffrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde,  mortos de fome e de sede, etc. _ somente direi que tal trafico, alem de ferrete e de ignominia e da barbaridade  que acarreta aos que nela tomam parte, é de nenhuma utilidade, senão de prejuízo para os que residem nas possessões: porquanto raras vezes recebem o producto dos infelises que uma louca ambição os fez sacrificar, e se algum recebem, é tam ceriado e moroso, que não remedeia quase nunca as suas necessidades.
Exemplificarei, a meu modo de ver, a cauza desta illusão. Costumados os habitadores europeus d’ Africa a enviarem para o Brazil um certo numero de escravos, com cuja remessa obtinham, com pouco trabalho, meios abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa, não attenderam a que taes circumstancias haviam mudado;  e animados pró correspondências, e ate por agentes daquelles que alli, depois de tal trafico se fazer por contrabando, eram os únicos que tiravam vatage, e que algumas vezes os engordavam, remettendo exactamente o producto dos escravos embarcados, continuaram porque já tinha tal habito; e os que vieram vindo sem reflexão e “mere pecudam”, seguiram a mesma marcha.

As transições são sempre custozas, e é por isso que o que obtinha escravos, em vez de os educar para os trabalhos agriculas do que tiraria mais sólidas e seguras vantagens - como isso mandava diligencia, trabalho assíduo e estudado, paciência e alguma demora em colher resultados, preferia embarcal-os, o que apenas lhe custava escrever algumas cartas. 

A repetição dos atos constituiu o habito, e para o destruir é mister empregar meios.
Serão estes, porem, difíceis na actualidade?

Parece-me que não. A oppinião do mundo reprova o enfame e criminoso traficio: a situação e ordem das coizas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o sygmatisa: e so tem a seu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados: mas quem são estes? Que o digam os que tem cahido no laço de fazer taes consignações. Se não fora a verdade de que o numero dos loucos é infinito: se não fora a possibilidade dos negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos -  como farão em ultimo recurso, pois que não se limita a venda de escravos so aquela ilha, mas dali se vendem muitos para o sul da America do norte, e por alto preço - eu diria que o trafico dos escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza; porem, em rasão destas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois, que parecem por si so eficazes.
Primeiro:- Tornar responsáveis as auctoridades administrativas e policiais por qualquer embarque que se faça nas terras de suas jurisdições: mas que esta responsabilidade seja acompanhada  das mais severas penas, e não fique so escrita no papel, este so meio acabaria de uma so vez com tal trafico. Quem vive na Africa sabe o que é um embarque, e tem ouvido o retinido das correntes, o eco do pisar dos pés opprimidos com o peso dos ferros, o bulicio das lanchas e botes, o rápido andar de centos de hõmes, que, aceleradamente se dirigem as praias. Bem se ve que difícil é que a auctoridade deixe de o saber, e, portanto, que tal facto, se aconteceu, ou foi por conveniencia ou por tolerância. Admito, porem, ainda que possível, sem que auctoridade o soubesse, e em tal cazo lembro.
Segundo: - Que o Governo da província seja auctorisado a despender, alguns contos de reis com espiões, por anno, os quaes seja obrigados a dar parte as auctoridades administrativas e policiais do local, de qualquer embarque, que se pretenda fazer: penso que assim nenhuma terá logar.
Estes espiões devem ser locaes marcados nas costas: por exemplo, nesta província ter um a seu cargo dar parte do que ocorrer entre Mossamedes e a Lucira: outros entre esta e Benguela, entre Catumbela e a Anha: entre esta e Novo Redondo: entre este e Benguela a Velha, entre esta e rio Longa, entre este e a cidade de Loanda, entre esta e Dande: entre este e Ambriz, entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos despezas que a que se faz com cruzeiros, que poir maiores que sejam e mais vigilantes, faram diminuir, mas não acabar o trafico para o exterior, se consegue o fim desejado.
Dificil é, e de gravíssimo peso, desenvolver o segundo ponto de vista, isto é, acabar na actualidade com a escravatura dentro das possessões portuguesas d’Africa. Há uma lucta do coração com a cabeça: porque, se aquelle diz que é bárbaro e inhumano, que  qualquer homem seja obrigado a servir outro,  e que não gose do mais sublime dote da natureza, o uso da sua liberdade; aquella grita, que é isso verdade, mas aponta-nos as consequências que dahi podem resultar na questão sujeita.
Sera actualmente conveniente que de todo e por uma vez acabe a escravatura dentro das possessões portuguezas d’Africa?
Consideremos:
1º  .O estado das possessões.
2º  .Uzos e costumes dos europeus que as habitam.
3º  .Estado de civilização dos indígenas, seus uzos e costumes.
4º  .Se para se conservarem as possessões, será bastante o commercio, ou se sam necessárias tãobem a cultura e a industria fabris.
5º .Se a cultura e industria fabris podem ser por braços importados da Europa, ou somente pelos indígenas.
Ninguem contestara que é mau o estado actual das possessões portuguezas d’Africa; porquanto o período de transição, que infalivelmente tem de atravessar, esta ainda morosamente passando, fez com que deve absolutamente acabar o trafico da escravatura para o exterior,  que era o seu ramo considerável de commercio, e requer que esta lacuna seja preenchida por outros meios de industria que é mister crear.
É bem sabido que Portugal exerce poder governativo somente nos pontos do litoral, e que no interior se conservam os uzos, costumes e governo do gentio, embora haja chefes que são para alli despachados, pois que estes se acommodam aos mesmos uzos e costumes por necessidade , e para fazerem o seu interesse, que é ordinariamente o que lá os leva. 

Chamando eu a Africa portugueza “um deserto de moralidade”, teria com duas palavras explicado quaes os uzos e costumes dos europeus que a habitam, salvas as devidas e honrosas excepções: porem, inda assim, dividirei estes em três classes: a de funcionários públicos; a de homes que vem procurar fortuna: a de degredados. A primeira classe que é a mais numerosa, bem sabido é que se compõe de pessoas, que não vem a Africa para tomar ares, mas para fazer seus interesses; pois que o amor da pátria, e do seu augmento, e o de conseguir gloria, constitui hoje limitada excepção a esta regra.
Há algumas que procuram fazer aquelles interesses por meios lícitos: para o maior numero todos o sam uma vez que consigam o seu fim.
Não parece que esta seja uma das cauzas porque as possessões não hão de melhorar, antes ir cada vez em maior decadência. As autctoridades para as possessões, são aquellas sobre que devia hacer mais apurada e escrupulosa escolha: porque se uma exorbita no reino, facile pronto pode ser o remédio; mas nas possessões, quando ele chega, que de males já se não tem causado?
A segunda classe é dos que vem procurar fortuna, e como esta se otinha por meio de desembarque de escravos, claro esta ser a ideia dominante ate há poucos annos: posso dizer, sem perigo de errar que o numero dos que não sam dela afectados não é o maior que se dirigem a cultura precisam luctar com quase insuperaveis dificuldades. Ter consciência mais que ordinária e vontade de ferro para não desanimar logo no principio. Ainda assim , tal qual o impulso se lhe tem dado, mormente em Mossamedes, em cujo porto já entram por annos dezenas de navios que vem procura prouos agiculas.
A terceira classe é a dos degredados, os quaes quasi todos sam soldados, e não é a menos útil pois que não servem mal, e melhor o fariam, se não tivessem tanta demora nas prisões do reino, cuja escola lhes ensina o que muitas vezes ainda não sabiam, e os torna de má saúde e de hábitos occiosos.
 
Costumes, religião e governo do gentio sam quasi geralmente os mesmos da primitiva. So com a diferença de que nada de bom lhes tem ensinado os europeus, antes communicado os nossos vícios. Não se diga que sou exagerado, poderia referir muitos factos que tenho presenciado, que demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar innativo nas terras do litoral, mas correr os sertões ver o que por la vae, e se faz, para bem avaliar o que dizemos. Não é possível referir aqui todos os costumes do gentio; seria isso matéria para uma obra volumosa: referirei somente alguns que tem relação com a matéria em questão.
Sabido é que a maior parte do gentio d’Africa tem o seu governo, sob uma ou outra denominação, sob uma ou outra forma de sucessão. O governo patriarchal indistinctamente a todos os que governam seus filhos, ou seus escravos.Dispoem, ouvindo a oppinião dos seus conselheiros (esta é a forma de governo mais seguida). Da vida e da propriedade de todos tomando  por pretexto este ou aquelle crime: por exemplo, o de olhar para o “Tembo”, a primeira amiga do chefe -porque passou por tal lugar, porque é feiticeiro. Este ultimo crime, que quase sempre recae sobre quem possue gados, é frequentemente imputado, e a pena é ser morto o feiticeiro, escravisada a gente que com ele residia, e tomados os gados e tudo o mais que possuíam. Muitas vezes a pena de morte do feiticeiro é comutada em degredo, para fora do estado, sendo vendidos com  escravos. Ora, sendo muitos os governos, porque quasi todos são menores em terreno e população do que uma das nossas províncias do reino, e sendo este o costume de todos já se vê o numero de escravos feiros por anno, por tal motivo. 
É honra e signal de nobreza entre o gentio, ser bêbado e ladrão, e aquelle que mais guerras faz e rouba maior quantidades de gado e pessoas, é o maior e mais fidalgo; sendo esta a rasão de tantas e tam repetidas correrias, a que chamam guerras. Todas as pessoas nelas agrarradas sam escravisadas  -velhas. moças e creanças - e os seus parentes as vam resgatar, ou sam vendidas ou mortas,  e daqui se pode concluir o numero de escravos que tal costume deve produzir. Em quasi todos os governos pode o chefe mandar vender um dos seus filhos, ou escravos, quando carecer de pólvora, d’armas, de vestidos, etc.., e assim daqui vem ainda o augmento do numero de escravos.
Os pretos, segundo os seus uzos,  não devem trabalhar na cultura nem nos serviços domésticos: sam as pretas: A profissão deles é caçar, pescar e carregar. Se um preto, por exemplo, tiver sua mulher doente, e for buscar uma cabaça d’agua, ou um feixe de lenha, comete maior crime e paga maior multa, do que se matasse outro preto.
Quem percorre os sertões, e com os olhos de investigação observa o que se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os pretos; porque as pretas sam os que cultivam, fazem a comida, preparam as bebidas, e ate o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: tem estes, quasi todos, mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correa na cintura, com um palmo de couro que lhes cubra as partes pudendas, e outro palmo que cubra por detrás, eis um preto vestido de ponto em branco.
Dois ou tres porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo faz, ou – a parte que tem de ferro os seus ferreiros-, ei-lo armado e pronto a seguir por toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia. À vista, pois, dos costumes que venho a referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das possessões, é necessario, ou que o gentio obedeça e cumpra a lei que se lhe impuzer, e perca seus maus e inveterados uzos, por meio da força, ou que se empregue meios de o civilizar, incutindo-lhes os princípios da sã moral. O primeiro meio quase impossível porque demanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor;  o segundo é o mais conveniente, e depende somente de espalhar entre eles, bons missionários. Com estes meios, em poucos annos, muito se conseguiria.

Ora, isto é quanto ao gentio: para acabar a escravidão entre os  súbditos portugueses há que considerar.
1º Que o commercio so por si não é sufficiente para manter as possessões.
2º Que sam necessárias a agricultura e a industrial fabril, e que estas não podem existir sem braços.
3º Que estes,  attentos aos uzps e costumes do gentio, não se obtem senão obrigando-os.
4.º Que segundo  a situação actual, e o poder que sobre os pretos exerce o governo, o único meio de os obrigar é comprando-os, porque entendem que logo sam vendidos, tem o dever de prestarem a quem os compra os serviços.
5. Que para acabar por uma vez com a escravatura dentro das possessões é de justiça que os que tem escravos, recebem o valor dos mesmos, parao que são necessários muitos centos de contos de reis.
Acresce ainda mais, e esta consideração é de grande peso, que se não comprarem os pretos que os costumes gentílicos fazem escravos em todos os annos, serão muitos deles mortos, porque os captivos nas guerras, e os condenados por feitiçarias, e por outros taes crimes, a não serem vendidos, serão assassinados, e por conseguinte, a medida de acabar por uma vez com a escravatura dentro das possessões, ditada pela civilização, pela justiça, e pela humanidade, é, nas actuaes circunstancias, não so prejudicial, mas talvez aniquile as mesmas possessões, leve em seus resultados, a que cometam crimes ainda mais inhumanos.
Quando as circunstancias me obrigaram a ir convocar uma guerra gentílica contra os Gambos, muitas forão as embaixadas que recebi, e em todas se me dizia que tal Soba estava pronto para o serviço do Rei, porem que este os queria prejudicar acabando com os escravos, que era o seu primeiro redito.  Combato, como em taes lances me foi possível, semelhante reclamação e talvez que ouvissem a este respeito o que ainda não tinham ouvido.  Combati esse bárbaro costume, e taes razões lhes dei, que não lhes ficando esperança depoderem continuar tam degradante uso, ainda assim obtive o que pretendi.. e foi d’ahi que tirei por conclusão que, com bons missionários fácil seria fazel-os mudar de seus maus costumes, sendo a primeira necessidade, incutir-lhes o amor ao trabalho; 
porquanto, a occiosidade que professam, lhes faz abraçar todos os uzos que a favorecem.
Os poucos pretos com que trabalho, podem hoje ser livres, porque continuarão a ser úteis e felizes pela sua agencia, que para eles já é habito. Eduquei-os antes com boas maneiras, do que com castigos bárbaros: não tem tido fome, nem falta do essencial, e por isso me não fogem, e vivem satisfeitos. Se em vez de trinta tivesse tido três mil, daria hoje a Africa outros tantos bons trabalhadores. Será porem possível fazer-se nas possessões d’Africa, com braços importados da Europa, a cultura?
É facílimo resolver esta questão negativamente; porquanto, sem lembrar a difficuldade de os obter, e as enormes despezas para isso necessárias, direi não ser possível cultivar com os europeus, porque ficam logo iimpossibiltados do trabalho braçal, em rasão das moléstias de que são atacados, e, porque tão
bem não se pode obter o numero suficiente para a cultura e industria fabril; e assim o ultimo recurso é aproveitar os indígenas, e o medo é compral-os, pois assim se sujeitam sem o menor obstáculo e sem repugnância, e se depois fogem, é isso devida a maior parte das vezes, ao mau modo de os tratar. So no fim de tres ou quatro annos é que um preto gentio fica bom trabalhador, e neste período é necessário muita paciência em o ensinar, e em so o ir exigindo diariamente mais um pouco de serviço.
Não me agrada a distinção de escravos e livres, nem admito na minha fazenda. Todos sam agricultores com iguaes direitos e obrigações. So é distincto o que merece, pelo seu comportamento. Esta nomenclatura é causa de rivalidade, portanto, origem de desordens e fugas.
Entendo que bem podia legislar-se sobre os serviços que deviam prestar os pretos que a humanidade mesmo reclama se comprem nas nossas possessões segundo o estado actual, sem se uzarem os reprovados nomes de escravos e liberto.  Se o infeliz háde injustamente perecer, é mais humano comprar-lhe os seus serviços que tam úteis se podem tornar em mãos de homes e intelligentes, sendo taes serviços por enquanto essencialmente necessarios nas mesmas possessões. Era isso mais racional e justo uma vez que se fizessem regulamentos em respeito ao modo como deviam ser tratados os comprados – regulamentos, cuja exata execução fosse encarregada as auctoridades administrativas e policeais, com a mais severa responsabilidade; porem, repito ainda que esta responsabilidade não devia ficar somente escripta no papel , como acontece a quase todas as nossas leis.
Expendi francamente a minha opinião, e fui bastante extenso; mas ainda maior extensão podia a matéria, que julgo de toda a transcendencia.
Sou na província o menos entendido; porem dos que mais desejam o progresso, augmento e civilização das nossas possessões.
Deos Guarde a V. Exa. Por mui dilatados annos. - Mossamedes, 15 d’Abril de 1857. IIImo e Exmo. Snr. José Rodrigues Coelho do Amaral, Governador Geral da Provincia. – Bernardino F.F.A. e Castro.
(*) Boletim Oficial de Angola, n. 611, de 13 de Junho de 1857.





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Ainda sobre a repressão do tráfico de escravos... do Livro intitulado  "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro"  by  Vicente, Jose (Gil Duarte), pg 1959.





João Duarte de Almeida e Bernardino Abreu e Castro foram dois apóstolos da abolição da escravatura. João Duarte de Almeida faz, sobre o assunto, fez  diversas exposições ao ministro Sá da Bandeira, porém não lhe sobrando espaço em seu livro para transcrever as suas exposições ao Governo Central de Lisboa  o padre José Vicente detém-se sobre a que fez Bernardino em 15 de Abril de 1857 ao governador-geral da província,  José Rodrigues Coelho do Amaral, a pedido deste :

Temos sobre os olhos esse notável documento, glória de quem o escreveu. Escreve o fundador de Moçâmedes: 

"... Direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões de inteligência me ditam, e bem assim o que a experiência de quase oito anos, dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com escravos e gentio livre, me há demonstrado. Dividirei a questão sob dois pontos de vista:
 

1º.- Acabar o tráfico da escravatura para fora das possessões portuguesas; 
 2º.- Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.
 

Enquanto ao primeiro ponto, a razão, a humanidade, e a própria conveniência reclamam que o governo português, com as mais urgentes medidas, ponha por uma vez termo a tão vil, desumano e degradante tráfico, que, em vez de ser útil às mesmas possessões, é causa do seu completo, para não dizer vergonhoso atraso.
 

Sem me demorar em descrever os horrorosos delitos cometidos em um embarque – delitos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos de homem, e que mal me poderia acreditar de que os mesmos homens os cometessem, se se não vissem tantas vezes repetidos: sem me demorar a descrever o que sofrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde, empilhados, mortos de fome e de sede, etc. - somente direi que tal tráfico, além do ferrete da ignomínia e da barbaridade, que acarreta aos que nele tomam parte, é de nenhuma utilidade, se não é de prejuízo para os que residem nas possessões, porquanto, raras vezes recebem o produto dos infelizes que uma louca ambição os faz sacrificar, e, se algum recebem, é tão cerceado e moroso, que não remedeia quase nunca as suas necessidades."

Bernardino comprova a seguir as suas afirmações de forma irrefitável, denunciando os traficantes de escravos que obtinham, com pouco trabalho, meios abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa.

Continua: " A opinião do mundo reprova o infame e criminoso tráfico: a situação e ordem das coisas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o estigmatiza: e só tem a seu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados. Mas quem são estes? Que o digam aqueçes que têm caido no laço de fazer tais consignações. Se não fora a verdade de que o número de loucos é infinito, se não fora a possibilidade de os negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos -- como farão em último recurso, pois  que não se limita a venda de escravos só àquela ilha, mas dalí se vendem muitos para o sul da América do Norte, e por alto preço -- eu diria que o tráfico de escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza, porém em razão dessas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois que me parecem por si só eficazes.

Primeiro, tornar responsáveis as autoridades administrativas e policiais por qualquer embarque que se faça nas terras das suas jurisdições: mas que essa responsabilidade seja acompanhada das mais severas penas, e não fique só escrita no papel; este só meio acabaria de vez com tal tráfico Quem vive na África sabe o que é um embarque, e tem ouvido o ritinido das correntes, o eco do pisar dos pés oprimidos pelo peso dos ferros, o bulício de lanchas e botes, o rápido andar de centos de homens, que aceleradamente se dirigem às praias. Bem se vê que difícil é que as autoridades deixem de o saber, e, portanto, por tal facto, se aconteceu, ou foi por conveniência ou por tolerância. Admito, porém, ainda que fosse possível, sem que a autoridade o soubesse, em tal caso, lembro.



Segundo, que o Governador da Província seja autorizado a despender alguns contos de réis com espiões, por ano, os quais sejam obrigados a dar parte às autoridades administrativas e policiais do local, de qualquer embarque, que se pretende fazer: penso que assim nenhum terá lugar.



Estes espiões devem ter locais marcados nas costas: por exemplo, nesta província ter um a seu cargo dar parte do que ocorrer entre Mossamedes e a Lucira: outros, entre esta e Benguela, entre a Catumbela e a Anha: entre esta e Novo Redondo: entre este e Benguela Velha: entre esta e o rio Longa. entre esta e a cidade de Loanda: entre esta e o Dande: entre este e o Ambriz: entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos despesa do que a que se faz com os cruzeiros, que por maiores que sejam e mais vigilantes, farão diminuir, mas não acabar com o tráfico para o exterior, se consegue o fim desejado."



Bernardino faz depois judiciosas considerações sobre o problema da abolição da escravatura dentro das possessões portuguesas de África, Diz que, neste capítulo, se trava uma luta entre o coração e a cabeça. Aquele --acentua-- diz que é bárbaro e unhumano, que qualquer homem seja obrigado a servir outro, e que não gose do mais sublime dote da natureza, o uso da sua liberdade, esta grita que isso é verdade, mas aponta-nos as consequências que daí podem resultar para a questão sujeita.



Considera o estado das possessões; os usos e costumes dos europeus que as habitam; o estado da civilização dos indígenas que as habitam; se para se conservarem as possessões será bastante o comércio, ou se são necessárias também a cultura e a indústria fabris; e se a cultura e indústria fabris podem ser feitas por braços importados da Europa, ou somente por indígenas.

Bernardino é abertamente contra a manutenção da escravatura em África, mas opina que, para tanto, devem os europeus esforçar-se por civilizar as populações indígenas, o que não se verifica. Com efeito, diz: "costumes, religião, e governo do gentio, são quase geralmente os mesmos da primitiva, só com a diferença de que nada de bom lhe têm ensinado, antes comunicado os nossos vícios. Não se diga que sou exagerado: podia referir muitos factos que tenho presenciado, que demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar inactivo nas terras do litoral, mas correr os sertões, ver o que por lá vai e o que se faz, para bem avaliar o que dizemos". 



Aceita o fundador de Moçâmedes que é preciso usar de alguma força para convencer os nativos que têm de trabalhar. E explica: "Os pretos, segundo os seus usos, não devem trabalhar na cultura nem nos serviços domésticos: são as pretas. A profissão deles é caçar, pescar e carregar, Se um preto, por exemplo, tiver uma mulher doente, e for buscar uma cabaça de água, ou uma feixe de lenha, comete maior crime e paga maior multa do que se matasse outro preto."



Continua: "Quem percorre os sertões, e com olhos de investigação observa o que se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os pretos, porque as pretas são as que cultivam, fazem comida, preparam as bebidas e até o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: têm estes, quase todos,  mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correia na cintura com um palmo de couro que lhe cubra as partes podendas, e outro palmo que lhe cubra as partes por detras, eis um preto vestido de ponto em branco. Dois ou três porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo faz , -- ou a parte que tem ferro, os seus ferreiros --ei-lo armado e pronto a seguir para toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia."



Deduz, com verdade lógica Bernardino: "À vista, pois, dos costumes que venho de referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das possessões, é necessário, ou que o gentio obedeça e que cumpra a lei que se lhe impuser, e perca seus maus e inveterados usos por meio da força, ou que se empreguem meios de o civilizar, incitando-lhes os princípios da sã moral. O primeiro meio é quase impossível, porque demanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor: o segundo é o mais conveniente, e depende somente de espelhar por entre os gentios bons missionários. Com este meio, em poucos anos muito se conseguiria."



Não restam dúvidas de que Bernardino é absolutamente contra a escravatura, Mas é preciso preparar, para tanto, os próprios gentios. Conta ele:

"Quando as circunstâncias me obrigaram a ir convocar uma guerra gentílica contra oa Gambos, muitas foram as embaixadas que recebi, e em todas se me dizia que tal soba estava pronto para o serviço do Rei, porém que este os queria prejudicar, acabando com os escravos, que era o seu primeiro rédito. Combati, como em tais lances me foi possível, semelhante reclamação, e talvez que ouvissem a esse respeito o que ainda não tinham ouvido.  Combato esse bárbaro costume, e tais razões lhes dei, que não lhes ficaram esperanças de poderem continuar tão degradante uso, assim tive o que pretendi, e foi daí que tirei por conclusão, que, com bons missionários, fácil seria fazê-los mudar de seus maus costumes, senso a primeira necessidade incutir-lhes amor ao trabalho; porquanto a ociosidade que professam, lhes faz abraçar todos os maus usos que a favorecem". 



Neste pormenor se revela a personalidade de colonizador e civilizador de Bernardino. "Os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis, e felizes pela sua agência, que para eles já é hábito. Eduquei-os antes com boas maneiras do que com castigos bárbaros: não têm tido fome, nem falta do essencial, e por isso me não fogem, e vivem satisfeitos. Se, em vez de trinta, tivesse tido três mil, daria hoje à África outros tantos bons trabalhadores".



E mais adiante: " Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores, com iguais direitos e obrigações. Sé é distinto o que merece, pelo seu comportamento."



Bernardino conclui: "Entendo que bem podia legislar-se sobre os serviços que deviam prestar os pretos e a humanidade mesmo reclama se comprem nas nossas possessões, segundo o estado actual, sem se usarem os reprovados nomes de escravo e liberto. Se o infeliz há-de injustamente perecer, é mais humano comprar-lhe os seus serviços, que tão úteis se podem tornar em mãos de homens bons e inteligentes, sendo tais serviços, por enquanto, essencialmente necessários nas mesmas possessões. Era isso mais racional e mais justo que se fizesse, uma vez que se fizessem regulamentos em respeito ao modo como deviam ser comprados e tratados -- regulamentos cuja exacta execução fosse encarregada às autoridades administrativas e policiais, com a mais severa responsabilidade; porém , repito ainda,  que esta responsabilidade não deveria ficar somente escrita no papel, como acontece a quase todas as nossas leis. Sou, na província, o menos entendido; porém, dos que mais desejam o progresso, aumento e civilização das nossas possessões."

Bernardino escreveu estas palavras em 1857, como acima deixamos dito. Pois uma ano decorrido, em 1858, Portugal decretou que, passados vinte anos não poderia haver escravos; mas onze anos depois, isto é, em 1869, aboliu o estado de escravidão, pelo que passaram à condição de libertos todos os escravos, em todas as suas possessões.

Extraordinária vitória esta! Mas, para que a mesma fosse possível, decisiva influência tiveram João Duarte de Almeida e Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.

Honra lhes seja! "
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Reacção em Angola (Benguela e Luanda) à abolição do tráfico. Alguns exemplos.

Com a independência do Brasil em 1822, Portugal correu o risco de Angola vir a ser anexada pelos brasileiros. E havia bons motivos para tal...

Durante mais de 300 anos, Brasil e Angola estiveram nas duas pontas do tráfico de escravos, que fez desembarcar nas terras de Santa Cruz quase 70% dos cerca de cinco milhões de africanos que iam de Angola e do Congo. E as relações, pelo menos desde o século XVII, iam além do tráfico negreiro, abrangiam laços mercantis, familiares e culturais. Daí que após a independência do Brasil, Portugal tivesse que enviar centenas de soldados para assegurar o controle de Angola e fosse adiado o regresso a Lisboa de um navio de guerra que se encontrava fundeado na baía de Luanda. Não foi por acaso que em 1826, no tratado de reconhecimento da independência do Brasil por Portugal, foi incluída uma cláusula proibindo a ex-colónia de incorporar qualquer colónia ou território luso no continente, que na altura englobava Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé, Guiné Bissau e o Forte de Ajudá, no Golfo do Benim. Essa medida foi uma imposição da Inglaterra, já então interessada na abolição do tráfico.


Em 1823 o governo brasileiro enviou três navios de guerra para Angola para proteger navios negreiros que operavam na área, e quase em simultâneo  foi inaugurado um consulado brasileiro em Luanda, sob o comando de Rui Germack Possolo. Era  uma espécie de governo paralelo, na medida em que o cônsul chegou a ameaçar emitir licenças de partida para navios, extrapolando as suas atribuições, na defesa de traficantes brasileiros detidos por disputas com comerciantes locais, entrando em choque com o governador de Angola, Nicolau de Abreu Castelo Branco. 

A verdade é que os brasileiros desde há muito tinham conseguido grande influência  junto do poder em Angola, e ocupavam cargos da administração civil e militar, muitos dos quais tinham sido enviados para África como degredados, acabaram por se estabelecer, e por ganhar poder e prestígio. Um exemplo foi o do baiano Joaquim José da Silva Menezes, enviado como degredado para Benguela, em finais do século XVIII, onde esteve preso durante quatro meses por ter solicitado um cargo ao governador de Angola, pedido considerado uma afronta por aquele governador, que travava então uma disputa de poder com a autoridade da capital. Chamado ao palácio do governo, Menezes recebeu do ajudante-de-ordens a seguinte resposta: "só podia servir para carniceiro, ou tambor, chamando-lhe também negro, filho-da-puta e outros mais convívios".  Menezes acabou por prosperar, de escriba tornou-se alferes das forças locais, e mais tarde foi administrador do contrato de sal, e tornou-se traficante de escravos e proprietário de um navio negreiro. Ele que na Bahia, tinha sido escravo.

O tráfico de escravos era a função da maioria dos brasileiros em Angola. Degredados, agentes de casas comerciais sediadas no Brasil e marinheiros, aventuravam-se pelos sertões em busca de bons negócios. Francisco Roque Souto é outro exemplo. Salvadorenho, ex-capitão de navios negreiros, foi tentar a sorte em Luanda, mas acabou por se radicar na  Kisama, fora do controle português, onde casou com a companheira de um dos sobas  locais. Estando o monopólio do comércio interno de escravos  sob a alçada dos reinos de Kasanje e Matamba,  Souto foi intermediário dos primeiros contactos entre Luanda e outro reino local, Holo, actividade que lhe rendeu altos lucros, beneficiou negociantes daquela cidade, mas enfureceu os outros dois reinos, tenso como resultado  uma guerra entre Matamba e os portugueses, em 1744, na qual Souto participou como um dos comandantes do exército português. Este conflito teve como resultado a destruição da capital do reino africano (Mbanza da Rainha) e o envio de centenas de escravos para o Brasil. Souto acabou preso em Luanda por alguns meses.


As relações de proximidade entre Angola e o Brasil  eram tais que levaram a que um carioca se tenha tornado governador de Benguela, em 1835. Trata-se de Justiniano José dos Reis, que foi  membro da junta do governo provisório daquela cidade no período agitado a seguir  à independência do Brasil, em que rumores surgiram de um movimento em Benguela  interessado na anexação à ex-colónia.   Teria participado da conspiração o carioca Francisco Ferreira Gomes, que vivia naquela cidade desde 1800, também ele um degredado que fora soldado no Batalhão de Henriques,  formada inteiramente por negros. Gomes acabou promovido a tenente e depois a tenente-coronel, e  rapidamente subiu vários escalões da burocracia de Benguela, tornando-se almoxarife e escrivão da Fazenda Real, proprietário de pelo menos dois navios negreiros e numerosas fazendas. Tal como Francisco Souto, também se casou com a filha do soba de uma região vizinha, o Dombe Grande. Após a independência do Brasil esteve ligado a uma conspiração, juntamente com outros negociantes que tinham como plano  prender o governador e em seguida  içarem alí a bandeira do Brasil. Dizia-se que Gomes pensou usar uma de suas embarcações para bombardear Benguela, e que o governador Joaquim Bento da Fonseca, por precaução colocou um dos seus próprios navios para se proteger de eventual ataque, e transferiu o seu quartel-general para uma embarcação ancorada na baía, tendo a partir dali comandado uma verdadeira ofensiva contra os revoltosos, deportando pelo menos um para o Brasil e manifestado a intenção matar outros três.  Nas visitas que fez a Francisco Gomes e seus  apaniguados, na prisão, chamou-os de “ladrões, bodes e negros”, o que mostra a tensão  política e  racial em que se vivia. De Benguela, os revoltosos foram enviados de navio para Luanda. Mas não termina aqui o que há por dizer sobre Francisco Gomes, que foi rapidamente reabilitado, tendo regressado ao comércio de escravos, e enriquecido ainda mais, aumentando o seu prestígio através de benfeitorias levadas a cabo em Benguela,  apoios para reformas ao nível da Igreja local, auxílio ao Hospital da cidade, etc, etc. 

Tal como outros negociantes de escravos,  enviou seu filho, José Ferreira Gomes, para o Rio de Janeiro a fim de ali ser educado, voltando a Benguela e aos negócios da família. Ao fim de mais de três décadas em África, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, passando a fazer visitas esporádicas a Benguela. O filho José acabou por retornar a Benguela, assumindo os negócios do pai, e tornou-se juiz de fora daquela cidade, sendo  um dos líderes de uma revolta contra os brancos, em 1835, em parte motivada por rumores de que Portugal ia abolir o tráfico de escravos. Mais tarde, serviria-se do soba da Catumbela, seu parente por parte de mãe, para fugir das autoridades que combatiam o tráfico.
Estas as trajectórias destes quatro homens  Joaquim Menezes, Francisco Souto, Francisco Gomes e seu filho José Gomes, mostram o quanto eram intensas as relações  entre angolanos e brasileiros, enquanto durou o tráfico negreiro. A partir de meados do século XIX, a administração de Luanda passou a registar todos os brasileiros que chegavam à cidade, e  a cadastrar os que ali moravam.
 

Com o fim definitivo do tráfico em 1869, alterou-se o tipo de relação entre estes povos. 
A Conferencia de Berlim, em 1884, obrigou  Portugal a enveredar decisivamente para um novo paradigma colonial, voltado para a fixação de familias portuguesas nas colónias,  para o desenvolvimento económico dos territórios, e para o aproveitamento da mão de obra dos nativos que algum tempo mais tarde passou ao regime de contratados.

Ora não podemos considerar  a colonização de Moçâmedes no quadro deste modelo que vigorou em Luanda e sobretudo em Benguela durante séculos. Quando o General Sá da Bandeira decretou em 10 de Dezembro de 1836 a abolição do tráfico, a uma velha Angra do Negro era ainda um ermo, e só veio a ser colonizada em 1849, portanto após o Decreto, nesse período critico entre 1836 e 1869, em que o tráfico passara a fazer-se na clandestinidade.  Foi graças ao envolvimento na luta contra o tráfico do visconde Sá da Bandeira, "apóstolo" da ideia abolicionista, viveu o suficiente para, em 1875, poucos meses antes de morrer, ter o ensejo de assistir à aprovação nas Cortes de um projecto de lei que emancipava os libertos das colónias. Tratava-se do culminar de um percurso de décadas que o então marquês percorrera com persistência e obstinação, ainda que muitas vezes isolado ou quase isolado. Em 1836 foi  promotor de uma proposta de lei abolicionista apresentada em vão às Cortes, que aproveitaria o período da ditadura Setembrista para fazer passar, em 10 de Dezembro de 1836, um decreto que abolia totalmente o tráfico de escravos português. Mas tratava-se de uma medida que não correspondia a algo de verdadeiramente assumido pelo país, e que não seria imediatamente aplicada, vindo mesmo a estar na base de uma crise política equivalente à do Ultimato. As resistências à supressão imediata do tráfico eram enormes, e terão levado Sá da Bandeira a enveredar por uma política dúplice que procurava, por um lado, promover a abolição, e por outro, resistia à conclusão de um tratado abolicionista com a Inglaterra, que Portugal se comprometera a assinar, e sem o qual o tráfico dificilmente seria suprimido. Essa política poderia ter tido  êxito se se apoiasse em sólidos interesses pela África e se obtivesse resultados práticos, mas os emigrantes e financeiros mantiveram-se arredados das praias africanas, e as autoridades continuaram a contemporizar com os negreiros. Pressionado pela Inglaterra, e manietado por um país que se recusava a segui-lo, Sá foi-se emaranhando num labirinto de argumentos e minúcias legais que viria a ser desfeito no Verão de 1839 quando o Parlamento britânico aprovou o chamado Bill Palmerston, concedendo à Royal Navy poderes para apresar quaisquer navios com bandeira portuguesa (ou sem bandeira) que transportassem escravos ou estivessem equipados para fazer esse transporte. Escudados nessa lei, os cruzadores britânicos apresaram ou meteram a pique muitas dezenas de navios protegidos pelo pavilhão português. A acção violenta da Inglaterra causou um forte abalo na honra nacional portuguesa e só cessou com a assinatura do tratado anglo-português de 3 de Julho de 1842.
Uma vez apaziguada a exaltação nacionalista suscitada pelo bill Palmerston, Sá começou de novo a levantar a questão da abolição da escravidão. Contudo, a oposição a tal medida era grande e, não obstante várias propostas legislativas, durante a década de 1840 não se fez qualquer avanço nesse sentido. Terá sido fundamentalmente por isso que, a partir de 1851, Sá da Bandeira optou por uma estratégia de fraccionamento, visando apenas pequenas vitórias, que cumulativa e lentamente lhe permitissem chegar à meta final. Tratava-se de uma política a que ele próprio chamaria de “actos progressivos” e foi com base nessa perspectiva fraccionada e ultra-cautelosa que os abolicionistas começaram a plantar aquilo que viria a transformar-se numa verdadeira floresta legislativa destinada a acabar com a escravidão de uma forma indolor.


A "Lei Palmerston", imposta por Londres sobre a "proibição do tráfico de escravos",  que concedia aos cruzadores britânicos, na primeira metade do século XIX – "à revelia de qualquer acordo com o governo português" – a faculdade de visitar e apresar os navios com bandeira portuguesa suspeitos de envolvimento no tráfico de escravos. Na verdade  para onde os ingleses levavam os escravos depois de apresarem os navios portugueses. Levavam-nos para as colónias que lhes restavam. Já não tinham a América mas tinham duas colónias de plantação: a Jamaica e a Serra Leoa. Este é um dos segredos que a História oculta”

 É neste quadro que devemos avaliar a posição de Bernardino Freire  de Figueiredo Abreu e Castro e de João Duarte de Almeida,  enquadrando estes dois homens no contexto da época em que viveram, e não à luz dos nossos dias.




Alguma biliografia consultada:

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII (Companhia das Letras, 2000).

MARQUES, João Pedro. “Os Sons do Silêncio: O Portugal de Oitocentos e a Abolição do Tráfico de Escravos” (Instituto de Ciências Sociais, 1999)





trafico_escravatura_sa_da_bandeira.pdf
 Ver aqui


Capa

Documentos ácerca do trafico da escravatura extrahidos dos papeis relativos ...