Aqui procurarei depositar, despretenciosamente, retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe) aos quais vou tendo acesso, uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas... outros, rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... E ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e em experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os mesmos erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 1 de agosto de 2015

A fundação de Moçâmedes e o novo paradigma colonial



O Ministro Sá Nogueira em 1838 referia-se a uma colonização que tinha a ver com a aclimatização de comunidades portuguesas como unidades produtivas auto-suficientes em África. Portanto, mais próxima da tradição portuguesa do Brasil e na inglesa sa América do norte, que com a ideia de grandes territórios ultramarinos anexados a uma potência europeia, como o rei Leopoldo dos Belgas popularizou cinquenta anos mais tarde. Nada a ver com aquilo que se convencionou mais tarde chamar de  ‘colonialismo’. Na verdade, naquele tempo toda a autoridade era escassa para manter em Luanda o respeito pelo governo Liberal que se instalou em Lisboa, com a queda do absolutismo, em 1920.

Sá Nogueira, então na pasta da Marinha e Ultramar, nomeara António de Noronha para Governador geral de Angola, em cujo posto se manteve cerca de um ano, governando segundo o novo figurino, com grande autoridade civil em representação da Coroa à maneira britânica, e não já como um capitão-general da antiga tradição ultramarina.  Noronha inaugura a nova política ultramarina portuguesa com a restauração do antigo presídio de Caconda,  demonstrando assim a presença de uma soberania europeia a sul de 13º latitude sul, numa altura em que, desde a seca de 1829, os hotentotes de Orlam entravam a cavalo pela Huíla a dentro em busca de gado. Visava também dar inicio ao projecto anti-esclavagista imaginado pelo ex-primeiro ministro.
 

1839 – O almirante Noronha escolhe para chefe da estação naval de Luanda o tenente da Armada Pedro Alexandrino da Cunha: já servia em Angola havia alguns anos, competindo-lhe vigiar os ‘negreiros’ entre Molembo e Luanda, e por isso conhecia bem o envolvimento da praça da capital no contrabando de escravos. Sá Nogueira autoriza uma expedição do tenente ao sul de Benguela, nos moldes da de Furtado e Mendes em 1785: na costa sul de Angola os contrabandistas não tinham ancoradouros, portanto o governador geral terá pensando em radicar ali uma agricultura local, que ocupasse a população escrava e servisse de exemplo ao norte, visto ser impossível ao tesouro do Reino indemnizar os senhores. Por terra, de Benguela a Quilengues – a antiga Caconda – e de aqui à Huila e ao Jau, marcha o comandante daquele presídio, o tenente de artilharia José Francisco Garcia. Pedro Alexandrino comanda, já como capitão-tenente, a corveta Isabel Maria, acompanhando-o o comerciante António Joaquim Guimarães, encarregado de escolher um ponto para estabelecer indústrias de charqueação e curtumes no porto de Moçâmedes, com promessa de ajuda do governo. De caminho, Cunha dá o nome do governador geral à ponta sul da baía de Moçâmedes.

No ano seguinte, em 1840, é o tenente Garcia escolhido para chefiar o novo estabelecimento, tendo seguido para Mossâmedes a bordo do brigue Raimundo I, que foi entretanto aprisionado em 19 de Fevereiro por um navio da Armada britânica que o confundiu com um navio negreiro. Garcia chegou à baía, na corveta Isabel Maria do comando do capitão-tenente Cunha, já ali se encontravam, não só Guimarães, mas também os empresários de Benguela, Jácome Filipe Torres, Manuel Joaquim Teixeira e João Gonçalves Pinto. 


No dia 13.08 há uma tenda de campanha na praia da baía de Moçâmedes, onde estão presentes os comerciantes, os dois oficiais, e os sobas de Mussungo, Giraúl, Quietena e Jáu: vão estes assinar um acordo com os portugueses, que vêm ali instalar-se para abrir comércio com eles e construir uma fortaleza “que a todos protegesse das frequentes correrias do gentio...” do ‘nano’ 1 , segundo a acta respectiva, 2 assinada por todos os presentes. 

Fundava-se o presídio de Moçâmedes e, acto contínuo, delimitam-se feitorias nas margens do rio das Mortes, o Mbwelo (‘o de baixo’) dos nativos.

A portaria de 31.08.1841 determina a construção de um forte na extremidade norte da falésia da baía do porto de Moçâmedes, a que o tenente Garcia, seu construtor inicial, dá por patrono S. Fernado, o santo homónimo do príncipe que D. Maria II desposara cinco anos antes, Fernando de Saxe-Coburgo Gotha.

As obras da fortaleza em 1842 já se encontram  suficientemente avançadas para que o estabelecimento agrário do porto de Moçâmedes possa ser classificado como presídio, e visitado pelo então governador geral José Xavier Bressane Leite (1842-1843).  Em 1844, o governo Liberal concede distinções aos colonos do norte de Angola que sobressairam na agricultura, tendo o cafeicultor do Cazengo sudo agraciado com o Hábito de Nossa Senhora de Vila Viçosa. Em Lisboa era porém evidente que fundir grilhetas e enxadas tão perto do reino do Congo seria obra demorada.
 

Em 1845 o ministro da Marinha coronel Sá Nogueira, agora barão de Sá da Bandeira, nomeia para governador de Angola Pedro Alexandrino(1845-1848) , que é promovido a capitão-de-fragata e empossado em 31.05, especialmente escolhido, e credenciado para o cargo que o chefe da Estação Naval, para executar o decreto de 1836. O tenente Garcia,  o antigo companheiro de exploração, é enviado para o planalto de Moçâmedes – ‘da Huíla’ – para iniciar outra colónia, substituido-o interinamente na costa António Joaquim de Freitas. É dado o primeiro passo do projecto do capitão-general pombalino, D. Francisco Inocêncio da Sousa Coutinho, de construir uma linha de presídios entre a costa e o rio Zambeze.

Em 1846 o tenente da Armada, Francisco António Correia, é nomeado chefe do presídio de Moçâmedes. Em 06.10 a rainha D. Maria II chama ao paço o Primeiro ministro, Duque de Palmela e demite-o, porque Sá Nogueira, novo ministro da Guerra, também demitira e transferira numerosos oficiais de tendências conservadoras. Talvez por influências de Luanda, uma vez que dos implicados no contrabando de escravos pelas rusgas navais ordenadas pelo governador  Pedro Alexandrino, um é o director das alfândegas de Angola, irmão do juiz presidente de Luanda, que 18 meses antes se perfilara no cais da Alfândega do irmão para saudar o novo Governador geral.

Em 1847, doze meses depois da queda do governo de Palmela
, e após perder duas batalhas, Sá Nogueira é obrigado a aceitar um armistício proposto por um oficial inglês enviado pelo lado ‘conservador’. No porto de Moçâmedes o conde de Bonfim, ali desterrado por actividades a favor dos Cartistas em Portugal, tenta um levantamento e é deportado, tentando contudo evadir-se da escuna Conselho. No Brasil explode em Dezembro a revolução Praieira: o ‘Nativismo’ 1 que, desde a vitória do movimento Liberal brasileiro em 1844, alimentara a “extrema esquerda” brasileira, reacende o antigo antagonismo entre as duas comunidades, “nativa” e portuguesa, do Nordeste. Sob o caudilho conservador português Costa Cabral – o primeiro Ministro favorecido na corte de D. Maria II – assiste-se ao espectáculo, em Angola e Lisboa, de um governador-geral de Angola ser levado a juízo por impor leis incómodas a alguns homens influentes de Luanda.
Em Fevereiro de 1848, a influência conservadora da monarquia francesa está colapsada. Enquanto a revolução Liberal inicia em Paris a 2ª República Francesa, em Lisboa é nomeada uma comissão parlamentar e elaborado um decreto de abolição que se aplica a todo o Ultramar entre Maio e Agosto. O Governador geral Pedro Alexandrino da Cunha é exonerado. O processo que lhe fora movido pelo comerciante de Luanda não chegara a tribunal – a compra de escravos de Molembo e Ambriz era, finalmente, criminalizada. Paradoxalmente, é então que, no Brasil, a meados do ano, estala a onda de terror contra a comunidade portuguesa no Nordeste, Gritava-se “mata que é ‘marinheiro’ . É então que o  professor português de liceu Pernambucano, tão apegado à causa absolutista de D. Miguel que se exilara voluntariamente em Pernambuco, Bernardino de Abreu e Castre decide-se a escrever ao maior Liberal de Portugal pedindo-lhe asilo para si e outros Portugueses “nas Áfricas ou na Índia. A  petição de vai ao encontro dos planos do chefe da Repartição de Angola do Conselho Ultramarino, o Liberal, tipógrafo e historiador, Simão José da Luz Soriano, que sacode a poeira ao relatório de Pinheiro Furtado, escrito 63 anos antes, e apresenta ao ministro da Marinha Sá Nogueira , visconde de Sá da Bandeira,  a ideia de colocar o professor absolutista e os seus seguidores no porto de Moçâmedes. O financiamento do transporte de cento e setenta emigrantes e dois engenhos de açúcar é prontamente arranjado, numa altura em que agricultores do vale do rio das Mortes sofrem o primeiro ataque do gentio do Nano, cujos chefes linhageiros eram antigos beneficiários do tráfico: é uma acção que vai repetir-se, somando-se os seus efeitos psicológicos aos dos outro grande problema administrativo ainda por resolver: o destino a dar à escravaria de Angola.



As colónias de Moçâmedes

  Em 1849, a última etapa da Abolição passa a decorrer da acção colonial desenvolvida a partir do presídio de Moçâmedes pelo Ministério da Marinha e Ultramar, habilmente aconselhado pelo autodidacta Luz Soriano. O major do Exército Ferreira da Horta é nomeado por portaria de 30.03 para planificar o estabelecimento da colónia que se prepara em Pernambuco, e o decreto de 19.04 nomeia o tenente da Armada António Sérgio de Sousa primeiro governador do novo distrito, talhado do de Benguela e que inclui parte da actual Huila. Os colonos sob a chefia do austero e conservador Abreu e Castro tomam o seu lugar na barca Tentativa Feliz que, escoltada pelo brigue Douro, vai fazer um travessia extraordinariamente lenta, de mais de dois meses, nas calmarias do Atlântico sul: são pessoas de ambos os sexos e todas as idades, empregados do comércio, operários, algumas com as suas famílias – todas “marinheiros” das cidades do Nordeste – por quem o governador geral Adrião da Silveira Pinto espera em vão na baía do Namib, regressando a Luanda por necessidade de serviço. A colónia aporta afinal a 04.08.

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 Em 1850 aporta a Moçâmedes na barca Bracharense mais um grupo de refugiados do Nordeste brasileiro: o Governo português não financiara esta ‘segunda colónia’ mas o desejo de vir para as Áfricas ou as Índias, na expressão de Abreu e Castro, era tal que o fizera ela própria por colecta em Pernambuco; nesse ano a seca e a inexperiência conjugam-se para reduzir muitos membros das duas ‘colónias’ do Namib à indigência; de Luanda vem o generoso auxílio que permite a uns sobreviverem durante o ano e a outros emigrarem para Benguela e a Huíla; os dois engenhos da ‘primeira colónia’ e o da ‘segunda’ são montados e a seu tempo funcionam, empregando a mão-de-obra que abunda ainda em Benguela. Pedro Alexandrino da Cunha toma posse em 29.05 como governador de Macau.

Com a fundação da alfândega de Moçâmdes, em 1851, exporta-se o primeiro açucar. O governador de Macau é encontrado morto em 06.07: assassinado, aparentemente.

Rm 1852, estabelece-se o julgado municipal de Moçâmedes.

Apenas três anos após a Conferência de Berlim, em 1853, o Capitão de mar-e-guerra António Ricardo Graça manda ocupar o porto de Mpinda como forma derradeira de impedir o contrabando em seres humanos no território de Angola, que agora inclui o ‘Congo português’. A mão-de-obra escrava não pode, contudo, deixar de ser utilizada na produção de açúcar do vale do rio Bero; o ministro Sá Nogueira, agora marquês de Sá da Bandeira, insiste para que se fomente uma indústria da pesca no distrito de Moçâmedes.


Em 1854, José Rodrigues Coelho do Amaral chega a Luanda como Governador geral (1854-1860); acompanha-o Fernando da Costa Leal, um capitão do Exército de 28 anos escolhido pelo Geral e que vem nomeado como governador de Moçâmedes, onde toma posse a 26.02. Das primeiras iniciativas que toma, uma é localizar a foz do rio Cunene, o que faz por terra, já que por mar a foz é encoberta por uma barra de areia a maior parte do ano; baptiza o rio mas o nome de “Elefantes” nunca é popular; tem melhor sucesso noutra área: “Obras paralisadas havia muito tempo, como a Igreja, que não andava desde 1849, são rapidamente concluídas. Outras, como a Fortaleza de São Fernando, iniciam-se ainda nesse ano e sem delongas se aprontam.” 1 Mas a mais importante é a concessão das primeiras licenças de pesca comercial, na Baía das Pipas. Em 14.12 é decretada com efeito imediato a libertação dos escravos do Estado: calcula-se que em toda a Angola houvesse então ainda cerca de 60.000 escravos nas mãos de senhores particulares.

Em 1855 a povoação do porto de Moçâmedes é elevada à categoria de vila: consistia então de dois alinhamentos de habitações, as melhores frente à praia, com uma rua de permeio, de 400 metros de comprimento. Neste ano de eleição da primeira vereação da Câmara Municipal, tendo com seu primeiro presidente Bernardino de Abreu e Castro, chefe da primeira colónia, é ocupada a Praia do Baba e a rainha D. Maria II envia 1000 anzóis ao governador do distrito.

Em 1856, no ano em que o hospício de Moçâmedes é inaugurado, o decreto de 15.06 decreta a Abolição em todo o território então sob a soberania portuguesa. Os primeiros armadores portugueses estabelecem-se nas Luciras.

Segundo o governador Leal, estão agora instaladas em Moçâmedes, em 1857,  16 pescarias, com 40 escaleres e 280 escravos, e mais 4 nas praias do Norte: Baía das Pipas, Baba, Lucira e Catara. Mas por outra preocupação, o governante desloca-se aos Gambos acompanhado pelo presidente da Câmara municipal de Moçâmedes: Bernardino Abreu e Castro mais tarde descreve ao Govenador geral o patria potestas banto, verdadeiro motor da escravatura africana. 2 A visita relacionava-se com a resolução de um litígio com o novo soba dos Gambos, ‘Xipalanga’, 3 que o governador dava por usurpador, e foi o prelúdio de pequenas operações militares lançadas da colónia do Lubango pelo governador, contra o parecer da Câmara e a opinião do experiente e educado viajante e comerciante entre os Cuanhamas, Bernardino José Brochado, estabelecido em Moçâmedes. Como o clima de guerra na Huíla convencesse alguns dos colonos do Lubango a deslocarem-se para a costa, a 25.11 o governador Leal assentou praça a dois deles: seguiu-se o protesto da Câmara, a dissolução desta pelo governador, a sublevação dos colonos e o embarque do governador para Luanda. O incidente – reflexo da antiga tradição de independência municipal ibérica, vestígio da colonização Romana e travão perene contra os desmandos dos barões feudais – tem sido, contudo, mal visto por habitantes mais recentes do Namib angolano, onde, por esse ponto de vista mais obediente, naquele tempo “uma indisciplina latente constituía permanente ameaça.” 4
O Governador geral vem a Moçâmedes, em 1858, acompanhado do governador Leal, manda deter os cabecilhas da revolta, dissolve a Câmara – Brochado é nomeado presidente da Vereação  (1858-1860) – e reconduz Leal. Resta pouca dúvida, porém, que a iniciativa militar do jovem governador de trinta e dois anos, inexperiente das “Áfricas” mas assoberbado pelo apoio que teria em Luanda, terá ajudado a acender um fogo entre os povos aguerridos do sul de Angola que só veio a apagar-se meio século mais tarde, depois de outro incidente, o de Naulila. Sai o decreto de 29.04 que estabelece aos senhores particulares um prazo improrrogável de 20 anos para a libertação final dos seus escravos, metade do qual na condição de servitude livre.

Em 1859, o Governador Fernando da Costa Leal deixa o distrito de Moçâmedes para ir trabalhar com o marquês de Sá da Bandeira na compilação da primeira carta geográfica de Angola
Em 1860, dez anos depois da chegada dos portugueses vindos do Brasil começa a colonização dos algarvios que para aqui se deslocam nos seus próprios barcos, em viagens de autênticos aventureiros honrando bem os seus antepassados navegadores: o primeiro é José Guerreiro de Mendonça, de Olhão.
 

No  decurso do Governo geral de Sebastião Lopes Calheiros de Menezes (1861-1862) o levantamento dos povos do baixo Cunene – herança do governo do capitão Leal – obriga à constituição do Batalhão de Caçadores 3 com seis companhias, das quais a 1.ª e 2.ª se vão estacionar na Huíla, a 3.ª nos Gambos, a 4.ª no Humbe; a 5.ª C. caç. é colocada em Capangombe e constroem-se os fortes dos Cavaleiros e Boa Esperança, no vale do rio Bero: a guerra do Nano descia à cidade. Famílias de pescadores de Moçâmedes estabelecem quatro feitorias na ponta do Pinda, adjacente à antiga angra das Aldeias, o porto Alexander das cartas náuticas do almirantado britânico.

Entre 1862 e 1865, a reacção dos chefes tribais do sul de Angola ao aparecimento dos destacamentos militares não se fazem esperar, inaugurando um longo período de instabilidade para os colonos do planalto. Em Luanda o Governador geral é o militar que pacificara os Dembos e subtraíra finalmente o Ambriz às atenções britânicas; é, no entanto, durante este período conturbado da primeira vigência do notável Governador geral José Baptista de Andrade (1862-1865) que, na costa do distrito de Moçâmedes, se radicam pescadores algarvios não só em Moçâmedes, mas também na Baía das Pipas, Baba e Baía das Salinas: os do Baba mudam-se para o porto Alexandre, onde em 1863 já há seis feitorias de gente de Moçâmedes; iniciam-se as obras do hospital de Moçâmedes (1863), a construção do troço Bruco-Chela da estrada Moçâmedes-Huila e a fundação de uma indústria de tecelagem em Moçâmedes (1864), e se inaugura a estrada de Moçâmedes à pousada da Pedra Grande (1865); neste ano, os algarvios atingem na enseada do Leão, na enorme Great Fish-bay da marinha inglesa: o jogo de sombras às listas nas dunas da costa sugerem-lhe o nome moderno, ‘baía dos Tigres’, e a falta de água obriga-os a fazer um plano. 

No ano em que o marquês de Sá da Bandeira deixa definitivamente a política, em 1870, as estradas para a Huila estão acabadas, não só na antiga passagem por Capangombe à Huíla, pelo Bruco, mas também para a Bibala, pelo Munhino; e há um numeroso grupo de pescadores algarivos na baía dos Tigres, que para ali transportam a água potável nas suas frotas. Governa Angola novamente, por um breve período, o enérgico Coelho do Amaral (1869-70).

Em 1876 morre Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, o marquês de Sá da Bandeira, e em sua memória é decretada para o dia 29.04 – dois anos antes do previsto em 1859 – a libertação dos poucos escravos que ainda existem em território português.

Em 1884, os oficiais da Armada Hermenegildo Brito Capelo e Roberto Ivens partem de Moçâmedes para Tete, no rio Zambeze, na sua travessia de África até Moçambique: é que as potências internacionais interessam-se por partilhar o sempre difícil continente e o Governo português toma precauções, uma delas o convite de muitas famílias da populosa e pobre ilha da Madeira a estabelecerem-se nas ‘Áfricas’. São pescadores e agricultores, aqueles com destino a Moçâmedes – a maioria ao Baba, outros a Porto Alexandre – estes em rota para a colónia de Lubango, na Huíla. De resto, a imigração portuguesa para Angola encontra-se agora facilitada, 1 e pela primeira vez se pensa em Angola como uma ‘província’ aberta a todos os Portugueses particulares, como as do continente europeu.

Em 1885, por decreto do Ministro da Marinha e Ultramar, a vila do Lubango passa a conhecer-se pelo título do marquês cuja iniciativa humanitária e denodo político lhe dera origem: Sá da Bandeira.



sexta-feira, 31 de julho de 2015

Rainha Galinacho em Moçâmedes







Galinacho, sentada à esq. , ao lado de um estandarte com a bandeira portuguesa, aguarda, na qualidade de rainha dos Quanhamas, o desembarque do Presidente da República General Carmona de visita a Moçâmedes, em 1938.  O navio "Angola" faz a sua entrada na baía, onde era aguardado por centenas de barcos de pesca à vela
 

 À direita, subindo para a tribuna de honra, montada na Avenida da República, onde se encontrava o  Presidente da República General Carmona, a rainha Galinacho apresenta os seus cumprimentos Ver AQUI

  




De Henrique Galvão, in "Outras Terras e Outras Gentes", segue este texto:



"À data da minha última viagem pelo Cuanhama, reinava, em termos bem diferentes, é claro, a sobrinha do Mandume – a Kalinaxo.

O Cuanhama era então, como hoje, apenas uma circunscrição de Angola – e a Kalinaxo, apenas uma raínha preta, muito dona dos seus gados e pouco rainha das suas gentes.

Era fina e manhosa.

Bebia champagne como o Mandume, mas preferia trajar à maneira dos seus: a n'ctuba assente sôbre as nádegas, o peito ressequido orgulhosamente nu, a manteiga escorrendo do cabelo e o perfume do leite azêdo a espalhar-se em volta.

Quando conversei com ela, tinha um ar irónico mas triste – um meio sorriso que assentava como um postiço na máscara melancólica.

Tinha razão. Ela conhecera a vida fulgurante do Mandume e comparava-a com a monotonia da sua. Trazia encarcerada na substância aventurosa de cuanhama, a ância das guerras, das razias, da prepotência e do domínio – e esmorecia na paz, sob a quietação bovina das manadas e na sucessão de dias iguais.

Era apenas uma Raínha de pastores, vassala práticamente de um Chefe de Pôsto – ela, a sobrinha do Mandume, que fôra Chefe altivo e indomável de guerreiros e ladrões!
Compreendo perfeitamente a melancolia da Kalinaxo - muito melhor do que compreendo o orgulho dos civilizados do nosso tempo.

Quando comparo as qualidades e defeitos de homens como o Fraga e o Mandume, com as qualidades e os defeitos dos triunfadores da minha geração, choca-me, antes de mais nada, a antítese entre dois sistemas morais.

Acima dos defeitos dos primeiros – ou como qualidade dos seus defeitos – pairava o respeito pela coragem, a consideração pela valentia e o culto organizado do brio individual e colectivo.

No alto das qualidades dos segundos – ou como um defeito das suas qualidades – vingam o desprêzo pela coragem e pelo carácter e os processos de deformação da coluna vertebral."

  
Capa (?) e ilustrações de Fausto Sampaio (datas desconhecidas).

Henrique Galvão (1895-1970), Outras Terras, Outras Gentes, 2.º volume, (1942?).










quarta-feira, 29 de julho de 2015

Chilongos: habitações dos indígenas. Usos e costumes.

 



"...Vivem em habitações em forma circular ou chilongos, dentro de cada um dos quais, cercados de pau a pique, existe um número variável de cubatas, cada uma correspondente a cada mulher, com sala de visitas, celeiros arrecadados, ficando em volta os currais de gado, e tendo comunicações internas em complicado labirinto, propositadamente, para defesa da casa face possíveis assaltos de povos estranhos. São corredores estreitos onde só cabe uma pessoa de cada vez, e aquele que lá entra dificilmente consegue sair não, sendo possível o encontro entre pessoas que entram e pessoas que saem do chilongo, tal a disposição do corredor.

O Soba pode escolher as consortes que quizer, e como não existe a fase do namoro, utiliza um estratagema quando visita as povoações, ou seja, como todas as pessoas têm o dever de correr às portas das casas para o cumprimentar, ele vai com toda a atenção verificando à passagem quais as casas onde encontra uma ou outra rapariga que lhe agrada, cala-se, deixa passar um tempo, pede formações ao seu ministro confidente (o lenga) acerca dos donos das referidas casas, se ricos em gados, e após ter feito escolha que mais lhe convém comunica ao lenga para a transmitir ao pai da jovem o seu interesse e avisar que em tempo oportuno a levará a casa do soba para lhe falar, não tendo os pais nem os tios maternos o direito de escusar a proposta. Então o soba manda entregar aos pais da rapariga três ou quatro vacas a título de doação temporária, só para lhe aproveitar o leite. Se a rapariga for filha de pobres, então o soba antes de qualquer contacto manda oferecer à escolhida 10 a 12 vacas e faz o pedido só algum tempo depois.

O soba não se limitam a fazer apenas uma festa de noivado para uma única rapariga, mas sim para o grupo das raparigas suas escolhidas, realizando casamentos em série. O bem estar do soba e dos seus súbditos está dependente do maior número de mulheres possíveis pois são elas que cultivam as terras, asseguram os mantimentos para sustento de todos, e com elas pode ter os filhos em grande numero que constituem grande riqueza destes povos. Trata-se de uma poligamia organizada segundo costumes com força de lei, pois não só não destrói como fortifica a família, porque dá aos chefes maior abastança, maiores mantimentos e proventos, mais relações, mais alianças, mais autoridade. Mas nestas tribos há uma diferença entre a primeira mulher escolhida e as que se seguem, pois é ela a confidente dos seus segredos, nada resolve sem sua consulta, é quem dirige e olha pelos haveres do chilongo, e em caso de morte é ela que evita o desaparecimento dos elementos que constituem a riqueza que legalmente lhe pertençam. Apesar de disputas frequentes nestes lares múltiplos tudo se resolve bem dado o interesse do chefe que reconhece ser esta a melhor forma de viver tranquilo, dando até licença alternadamente às mulheres para visitar parentes e amigos, sendo curioso se a primeira mulher o exorta a procurar e trazer mais mulheres suas companheirasa só esta gosa de prestigio outras mulheres do marido procuram assim ser venerado pelo maior numero de companheiras, e ver diminuido o seu trabalho com entrada de novos obreiras. Para o chilongo, em tudo parecido com uma colmeia, sendo seus filhos para todos os efeitos os que dentro dela nascem. O soba passa o dia a fumar o cachimbo seu cachimbo e toma apenas alem do mata-bicho, uma refeição diária sendo á noite que esta tem lugar rodeando-se da mulher e filhos e de cuidados especiais para grantir a sua vida. Este chefe sai dos seus aposentos para a sala de visitas 8  (Olupal) serve também de casa da mesa, senta-se no lugar ocupa desde feito soba, entram a seguir os filhos dá boa noite e senta-se também Depois entram , uma após outra as mulheres trazendo cada uma cesta de pirão e a mais antiga das suas mulheres a panela com molho de carne.

Esta senta-se a seu lado, mais próximo dele que as outras, sobre troncos de árvores em semi-circulo. Então soba, rodeado da mulher e filhos, e tendo perto de si as cestas do pirão e a panela do molho tira um pouco de pirão, mistura bem formando uma bola com os dedos, ensopa no molho e dá um pouco a cada mulher, espera que comam (o seguro morreu de velho, pensa ele) e só depois de ter verificado que todas comeram é que faz a distribuição da comida, começando pela primeira mulher, em seguida serve-se a ele próprio, e depois serve cada uma das outras, e fica para o fim, os filhos e os cães, que são sempre em grande numero."



SOBA Costumes gentílicos in Cadernos Coloniais 02 António Lebre, 1939

terça-feira, 10 de março de 2015

Arsénio Pompílio Pompeu Carpo

 Arsénio Pompílio Pompeu Carpo



A História de Angola, desde o século XVII até bem dentro do século XIX, foi marcada pelo tráfico de escravos para o Brasil e Américas( o Novo Mundo), pela deportação ou degredo (1) de criminosos dos mais diversos graus, e pela projecção das famílias criolas, no seio das quais emergiram as famosas "donas",  Dona Ana Francisca Ferreira Ubertaly e Dona Ana Joaquina dos Santos Silva, (2)  frequentemente referidas nos textos de George Tams (1), juntamente com outros grandes negreiros, tais como Arsénio Pompílio Pompeu Carpo, Pinto da Fonseca, Nicolau Tabana. 

Tams considera-os: «Todos eram iguais, porque duvido que houvesse um só que não fosse negociante de escravatura e que recusasse entrar em qualquer transacção criminosa, contanto que por meio dela pudesse aumentar os seus lucros».

Os homens que a partir de 1820, na era abolicionista, dominaram o odioso comércio, eram, na maioria, recém-chegados que até então não haviam tido tinham qualquer papel  relevante na época do tráfico legal. Eles trouxeram consigo novas condições de risco e de lucros desmesurados que levaram ao afastamento dos investidores tradicionais, e abriu a porta a aventureiros insensíveis à causa da humanidade e atraídos pela promessa de ganhos. Eles viviam instalados no Rio de Janeiro ou na Baía, em Havana ou Nova Iorque, praticavam o tráfico ilícito, construíram fortunas meteóricas, a partir de seus parcos haveres, e num curto intervalo de meia dúzia de anos, dispunham de plantações, riquezas, influência política, por vezes títulos de nobreza. Mas havia outros que seguiram trajectórias lentas e sinuosas,  iniciando-se pelos elos mais difíceis e penosos da cadeia, como capitães dos tumbeiros ou como agentes das casas escravistas na costa africana, e que subiam a pulso, até à qualidade de líderes do tráfico transatlântico.  Mas havia os perdedores de quem ninguém falava. O tráfico ilícito recorria aos mais sofisticados  meios de comunicação e de financiamento, operava através de sociedades com accionistas espalhados por vários países, apoiado numa rede de participantes que se estendia da Europa à África e às Américas, cada uma das quais envolvia gente com funções e objectivos diferentes que, desde o soba negro, vendedor de escravos, até ao plantador americano que os utilizava, se constituía numa infinidade de intermediários e coniventes (mercadores, autoridades coloniais subornadas que permitiam a exportação ou importação de escravos, marinheiros que os transportavam através do Atlântico, etc, todos quantos actuavam no circuito).
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Arsénio Pompílio Pompeu Carpo nasceu no Funchal em 1792, onde foi baptizado com o nome de Arsénio dos Santos. Seguiu a profissão de seu pai, trabalhando como pedreiro. Em 1817 encontrando-se em Lisboa, foi aprisionado no Castelo de S. Jorge, como protagonistas da conspiração de Gomes Freire. Diz-se que estava na hora errada no local errado. Algum tempo depois foi recambiado para a Madeira, e em Março de 1820 partiu para o Rio de Janeiro (Brasil), onde teria mudado os  sobrenomes para Pompilio Pompeu do Carpo. 

Regressado à Madeira, envolveu-se em 1823 numa conspiração contra o governo central, e foi deportado para Angola para cumprir um pena de cinco anos,  onde como era habitual, foi obrigado a servir nas forças militares, que não impedia os deportados de desenvolver actividades paralelas como negociantes, incluindo o tráfico de escravos para o Brasil e Américas.  

No final da década de 1820, depois de ter cumprido a pena, voltou ao Brasil e fixou residência no Recife. Pensa-se que teria sido aí que começou a dedicar-se ao vil negócio, que na época já abolido (1836) no quadro da revolução setembrista, entrara na clandestinidade.  

Em meados da década de 1830, era já proprietário de vários navios negreiros que frequentarem as rotas de Angola para o Brasil, Cuba e Uruguai. 

Em 1837 regressou a Luanda, Angola, onde foi considerado o maior negreiro em acção no território, e onde ganhou influência no meio político da capital, tendo contribuido, com uma missiva enviada às cortes, em 1839, para a demissão do almirante António de Noronha, que na época estava a pôr em prática a lei da abolição do tráfico, contra os traficantes locais, publicada por Sá da Bandeira.  

Em Luanda a sua influência estendeu-se a negociações com os ingleses que resultaram em acordos, que possibilitavam um fim do tráfego de escravos demorado e por fases. 

Foi presidente da Câmara Municipal de Luanda, e a 10 de Dezembro de 1842 foi nomeado coronel comandante dos distritos do Bié, Bailundo e Huambo. Títulos puramente honoríficos. 

Em 7 de Março de 1843 foi condecorado e nomeado comendador da Ordem Militar de Cristo.

Apesar de traficante foi considerado, diz-se, um activista setembrista, em oposição ao cabralismo  que o perseguia. 

Com a crescente pressão política internacional sobre o tráfico e sobre o governo português, sobretudo a partir de meados de 1845, foi a boa relação de Carpo com militares e negociantes ingleses da região que foi adiando a sua prisão, até que, com a tomada de posse do novo governador de Angola, Pedro Alexandrino da Cunha, foi preso acusado de ligações ao tráfego de escravos ilegal, a fraudes fiscais e a incumprimentos legais enquanto presidente da câmara de Luanda e como vereador. 

Transferido para Lisboa, amigos ligados aos negócios e à maçonaria, conseguiram criar, nos meios políticos, económicos, e na imprensa, um clima em sua defesa. Motivo, a forte ameaça de Carpo de publicar os nomes de quem com ele tinha colaborado no negócio lucrativo.

A 20 de Março de 1846, o Supremo Tribunal declara ilegal prisão de Carpo e manda anular o processo. Dois juizes consideraram  a acusação  nula por falta de material apreendido, enquanto os outros decidiram que o tribunal lisboeta não era competente para o caso. Também a acusação de desobediência às ordens da rainha não foi provada pelo Conselho de Guerra. 

Depois de libertado, Carpo tentou voltar a Angola, procurando que lhe fosse concedido o governo de Angola. Com a perda de todos meios económicos e com o alastrar da Guerra das Patuleias, refugiou-se nos Açores, em Fevereiro de 1847, onde tentou ganhar nova influência política e económica. 

Com o fim da guerra e o restauro do governo Cabral, muda-se para Londres, onde com os seus relacionamentos económicos com empresários portugueses, e buscando apoio junto de Sá da Bandeira, cria a ideia de uma Companhia Africana Ocidental Portuguesa com sede em Luanda. 

Em 1848 procurou construir a primeira ligação ferroviária em Angola, plano que não foi concretizado, e que consistia em unir, por caminho de ferro, Luanda e Calumbo, na margem do Cuanza, utilizando locomotivas a vapor.

Teve ainda outros planos que não tiveram apoio oficial.


Com o fim do mandato de Pedro Alexandrino da Cunha como governador, voltou a Luanda em Março de 1849, onde depois de restabelecidos os seus velhos contactos e recuperado parte do seu património, partiu para o Brasil onde recupera os seus bens e ligações. Porém chegado ao Rio de Janeiro, em Junho de 1849, foi preso palas autoridades brasileiras, que após várias acusações, o extraditaram em Setembro de 1849, regressando a Luanda com a família, em Novembro de 1849.

 Em fins de 1851, estando falido, foi acusado por um negociante daquela cidade, de nome António Lopes da Silva, de falência culposa e fraudulenta, levantamento de fazendas alheias, escrituras simuladas, burla e estelionato. Julgado foi condenado a dez anos de degredo em S. Tomé, tendo-lhe sido retiradas todas as graduações, patentes, honras e títulos honoríficos. Após um apelo a Lisboa, foi transferido de novo para o Castelo de São Jorge no final de 1852, mas novamente a sentença foi anulada por motivos processuais, sendo em Junho de 1853 libertado. 

Regressou a Luanda, mas nessa altura vivia-se a decadência total do comércio de escravos, e não conseguiu relançar-se nas suas actividades económicas, porém em final de 1853 conseguiu ser nomeado governador do presídio de Ambaca, no extremo leste de Angola, onde permaneceu pelo menos até Maio de 1854, data em que Livingstone por lá passou. 

Carpo obteve ainda entre 1854 e 1857 a exploração de uma mina de cobre no distrito do Golungo Alto, e uma mina de prata no presídio do Duque de Bragança, porém com resultados muito aquém das expectativas, tendo caido numa situação precária que o obrigou a solicitar à Coroa «qualquer emprego civil». Valeu-lhe uma antiga relação familiar e comercial com os Oliveira Machado, que em Maio de 1857 o tornou administrador ou representante em Luanda da casa comercial de José Joaquim de Oliveira Machado, de Lisboa. Integrou ainda a comissão de onze membros que em meados de 1861 começava a organizar a representação de Angola à Exposição Internacional de Londres, reaslizada no ano seguinte. Mas sua actividade não para a aqui, e ainda conseguiu manter actividades como benemérito local em Luanda. Aliás Carpo teria apoiado financeiramente muitos projectos de utilidade pública e culturais em Luanda, sobretudo na década de 1840, e continuava a desenvolver actividades beneméritas, tendo em 1858, juntamente com outros comerciantes de Luanda, promovido uma angariação de donativos em Lisboa, tendo em vista o combate a uma epidemia de febre amarela. Nos últimos anos da sua vida ainda investiu fortemente no comércio com o interior angolano. Faleceu em Luanda em 1869.



Para mais informação sobre Arsénio Pompílio Pompeu Carpo :

http://www.redalyc.org/pdf/770/77021122002.pdf

http://analisesocial.ics.ul.pt/…/1218728170D4mJR8cg0Tq46KK0…


http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-87752013000300003&script=sci_arttext





(1) Aliás, a deportação e o degredo foram, no século XIX e princípio do século XX, uma poderosa arma ao serviço dos regimes políticos em todo o mundo. Uma forma de migração forçada, como meio para impedir a acção dos opositores políticos, e lugar de castigo para condenados por delito comum, assassinos, etc, enfim, a escória que Portugal nem o Brasil queriam fora dos seus territórios. A prática já vinha da Grécia e da Roma antiga, e a partir de 1797 é testemunhada com a ida dos opositores da Revolução Francesa para a Guiana, prática que os franceses mantinham a partir de 1852 com as chamadas ilhas presídio, como foi o caso das ilhas do Diabo, Caiena, e de Saint-Laurent-du-Maroni. Esteve ligada aos colonialismos. Em Portugal a conjuntura politica oitocentista post revolução liberal, e post independência do Brasil, provocou perseguições e migrações forçadas para as ilhas da Madeira, Açores, Cabo Verde e Angola, de políticos e militares não gratos aos diversos regimes políticos, que se serviram desses espaços de deportação . Angola tornou-se um lugar de castigo, chegando a receber centenas de deportados por ano. Era considerada a pena mais severa, remetê-los para espaços conflituosos e incertos, como era o caso de Angola, a nova «joia da corôa». Com a Conferência de Berlim (1884-5), a imposição do aumento da presença europeia e a conversão económica em que se insere a abolição do tráfico de escravos, explodiu o número de degredados em Angola. Impunha-se a Portugal a tarefa povoar, e as familias portuguesas preferiam outras paragens menos doentias para emigrar. Mas os degredados não foram passivos, eles actuaram no território angolano, na politica portuguesa para Angola. Foram usados como grupo marginal, e como importantes instrumentos no processo de povoamento tomaram parte no processo de embate e diálogo cultural, intensificado na segunda metade do século XIX. No dia 6 de Maio de 1847 desembarcou na Angra do Negro, Moçâmedes, um importante degredado político. Era o conde do Bonfim, José Lúcio Travassos Valdez, que na batalha de Torres Vedras, em 22 de Dezembro de 1846, no decurso do governo de Costa Cabral, fora feito prisioneiro e enviado com outros deportados políticos para Angola. Ver aqui: "O Conde do Bomfim: noticia dos seus principaes feitos":


 


(2) Ana Francisca Ferreira Ubertaly, viúva de um médico natural da Sardenha, um degredado que se estabelecera em Luanda, «tinha nascido no interior da África e havia sido trazida como escrava para Luanda, onde vivia. Seria  uma das pessoas que maior negócio faria com escravos. Ana Joaquina dos Santos Silva, a «Rainha do Bengo» como era chamada pelos oficiais franceses que se hospedavam junto da sua casa, a sua riqueza teria resultado «não apenas dos benefícios alcançados através do tráfico, como da prática de comércio lícito e da exploração de terras que lhes pertenciam por herança ou por doação, recorrendo ao trabalho escravo» Ambas «possuíam plantações de açúcar na região do rio Bengo, ao Norte de Luanda e em Moçâmedes, e tanto uma como a outra subscreviam novos projectos. Ambas estabeleceram-se  em Moçâmedes no início da colonização, onde mantinham agentes de suas firmas luandenses, para tocarem propriedades, mas também "para gerenciarem a mercadoria recebida em barracões escondidos longe do mar" refere Tams, As Anas negreiras seriam, também, senhoras de roças em S. Tomé.







(1) Viajante alemão George Tams, refere em  Visita às possessões portuguesas na Costa Ocidental da África, p.111 a existência de 300 brancos em Benguela no início de 1840. A maioria desses indivíduos viveria em regiões próximas à cidade, como mostrado mais tarde por um censo, que listou 78 brancos em Benguela propriamente dita em 1860.





Ainda sobre Pompeu do Carpo...





"...Pedro Alexandrino da Cunha tomou posse em 6 de Setembro de 1845 e no dia 13 do mesmo mês, era publicado o primeiro exemplar de um jornal em Angola. É evidente que o novo governador, que substituíra Lourenço Possolo, trazia ordens rigorosas para dar cumprimento ao despacho do ministro das Colónias. Mas em Luanda existia um prelo muito mais moderno, com tipos de excelente qualidade, servido por oficiais tipógrafos, com o armazém cheio de papel do melhor e tintas de fino pigmento, tudo importado de Londres, na época o centro mundial da Imprensa, onde se destacava o circunspecto Times. Essa tipografia particular estava nas mãos erradas de um libertário madeirense, deportado para Luanda “por crime revolucionário”. Era ele Arsénio Pompílio Pompeu de Carpo.
O deportado era um intelectual e homem de cultura. Assim que foi libertado das celas da fortaleza de S. Miguel logo dinamizou um grupo de teatro amador onde era actor principal. Ele acrescentou ao seu nome verdadeiro, Pompeu de Carpo, mais os nomes de Arsénio e Pompílio, nomes de personagens que ele havia representado como actor amador. A comunidade europeia, na época, era muito pequena e maioritariamente analfabeta. Até os oficiais das tropas de ocupação eram analfabetos, porque nas leis de então, só o sargento-mor era obrigado a saber ler e escrever. Os oficiais, muitos deles oriundos de famílias nobres, não precisavam de se submeter à aprendizagem da leitura e da escrita. Deportado mas longe da cela do presídio, Pompeu do Carpo começou a trabalhar e em tempo de árvore das patacas fez fortuna rapidamente. Dominava perfeitamente o inglês e essa particularidade permitiu-lhe iniciar uma bem-sucedida carreira de agente comercial, representando as melhores casas de Londres. Foi esta relação que lhe permitiu adquirir um moderno prelo mecânico e excelentes tipos. De Portugal importou os mestres tipógrafos.
O prelo da Imprensa Nacional era de má qualidade e os tipos ainda piores. O Boletim Oficial ressentia-se dessa debilidade técnica. Pompeu do Carpo viu aí uma forma de adquirir a liberdade plena. E ofereceu a Pedro Alexandrino da Cunha a sua oficina completa e trespassou para o Governo-Geral os mestres e sabedores tipógrafos. Pedro Alexandrino da Cunha pagou-lhe, levantando a pena de degredo que impendia sobre o libertário madeirense. Para mostrar o seu patriotismo ao representante do rei de Portugal na terra, Pompeu do Carpo fez-se coronel de segunda linha e chegou a comandar as guarnições do Bailundo e do Bié. O Governo do Reino fez dele comendador. Mais livre para os negócios, Pompeu do Carpo em breve era um dos homens mais ricos de Luanda. E enquanto a sua maquinaria gráfica imprimia a folha oficial, ele já congeminava com outros libertários a importação de mais prelos mecânicos.
O governador mandou prender Pompeu do Carpo e o revolucionário fez o percurso inverso, seguiu a ferros para a Metrópole e chegado a Lisboa foi encarcerado no castelo de S. Jorge. O libertário estava de novo a conspirar e desta vez criando na sombra uma indústria gráfica para imprimir jornais que proclamavam a liberdade de Imprensa e a autonomia de Angola. Pompeu do Carpo tinha muito dinheiro e em breve comprou a sua liberdade. Em 1848, já estava em Londres a negociar com os seus parceiros ingleses a construção de uma via-férrea entre Luanda e Kalumbo. O comboio era na época um transporte moderno e revolucionário. No coração da sociedade industrial, Pompeu do Carpo também comprou máquinas a vapor para uma serração de madeiras, a instalar nas matas do rio Kwanza. E encomendou aos engenheiros ingleses um projecto arrojado para canalizar a água do Kwanza até Luanda. Os seus sonhos foram atirados por terra pelo poder instituído, que lhe moveu uma perseguição impiedosa até conseguir aniquilá-lo social e economicamente. Em 1854, a Junta de Justiça de Luanda dava Pompeu do Carpo como indigente. Mas enquanto não sucumbiu, ele escreveu e pôs a circular na cidade de Luanda panfletos ácidos, textos de fino recorte literário que demoliam o poder, o governador e a sua corte corrupta e analfabeta. Pompeu do Carpo foi, nesta época, o mais temido dos panfletários. Mas todos os intelectuais do seu tempo, europeus ou africanos, eram terríveis polemistas e panfletários. Foi assim que nasceu a Imprensa Angolana. Num clima panfletário e libertário.
O Boletim do Governo seguia os seus passos, distintamente impresso na tipografia oferecida por Pompeu do Carpo. Em 1845, a folha oficial dava uma notícia social. A Assembleia de Luanda, onde se juntava a alta burguesia europeia e africana, ia dar um baile em homenagem ao governador Pedro Alexandrino da Cunha. Mais tarde, publicava um anúncio comercial. O comerciante Valentim José Pereira dava nota pública de que era comprador de todas as folhas de tabaco que lhe aparecessem. Em 1846, o Boletim Oficial (em 13 de Setembro de 1845, mudou de nome) dava a sua primeira notícia cultural. O Teatro Providência, ali na Rua dos Mercadores, levava à cena a peça “O Fugitivo da Bastilha”. Desde então, o Boletim Oficial passou a ser um verdadeiro jornal mas controlado pelo Governo-Geral. Por isso, os intelectuais da época, decidiram criar a Imprensa Livre, em oposição à Imprensa Oficial. E não demorou muito tempo. Tirado DAQUI
http://jornalcultura.sapo.ao/eco-de-angola/um-jornalismo-de-combate-pela-liberdade-e-autonomia/fotos

domingo, 4 de janeiro de 2015

Postal antigo da baía de Moçâmedes (Namibe) com poema de Joaquim Paço d'Arcos


Clicar sobre o postal, para aumentar. É panorâmico


Joaquim Paço D' Arcos escreveu este poema sobre Moçâmedes. Assim a preto e branco Moçâmedes (Namibe) apresenta um aspecto muito triste, como aliás devia ser, e que já nada tem a ver com aquilo em que se foi transformando ao longo do tempo, sobretudo a partir de meados do século XX .

Eis o poema:

Moçâmedes, Beijada pelo Deserto

"A velha ponte-cais de traves carcomidas,
O morro triste, a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre da sua poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."

In"Poemas Imperfeitos" de Joaquim Paço D' Arcos

Mas Quem foi Joaquim Paço D´Arcos ?
Nasceu em Lisboa, em 1908 , seguindo em 1912 para Moçâmedes onde viveu de Setembro de 1912 a Fevereiro de 1914, devido à nomeação do pai para Governador do Distrito. Era neto do primeiro conde de Paço d'Arcos. Romancista, dramaturgo, ensaísta e poeta, foi premiado diversas vezes e muito lido nos anos 40 e 50 do século XX. Uma das suas obras mais conhecidas é o conjunto de seis romances Crónica da Vida Lisboeta sobre a qual Óscar Lopes disse: «Quando se quiser ver a nossa época [anos 40 - 60] num cosmorama literário, tal como hoje vemos a época da Regeneração através de Camilo, Júlio Dinis ou Eça de Queirós, será preciso recorrer a estes romances de Paço d'Arcos quanto a determinados sectores portugueses.» Na poesia, a sua obra encontra-se em Poemas Imperfeitos, de 1952

Clicar sobre o Postal. É panorâmico.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Fábrica Africana, a primeira fábrica de conservas de Moçâmedes, Namibe, Angola





Perspectiva da Fábrica Africana, primeira fábrica de conservas iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 ,  de Figueiredo * e Almeida, Lda.  Repare-se, em cima, à esq, a então Avenida Felner já a entrar pela Torre do Tombo, com as poucas casas que nesta altura alí existiam e pertenciam, a da esq. à familia Grade, e as três da dt,. a Conceição e Manuel Paulo, à familia Velhinho e a António Paulo. Situo nos anos 1920/30  esta foto.



Outra perspectiva  que nos  permite ver os carris de ferro por onde passavam as vagonetas que levavam o peixe da ponte para o  interior da Fábrica, para onde entrava em linha recta. O pescado era então descarregado para ser escalado e cozido em grandes caldeirões. Em seguida vinha a fase do enlatamento. No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por enlatadeiras africanas.



Srs. de chapéu e gravata à porta da entrada da Fábrica (proprietários e empregados?) Sabe-se que esta Fábrica recebeu a visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932. Será que esta foto é dessa altura? Estariam ali, encostados, a aguardar a visita? 

 
 Perspectiva do interior da Fábrica com portão de ferro a dar para o exterior, por entre entram e saiem as "vagonetas" que transportavam o peixe a partir da ponte


Aqui também se secava peixe em giraus ou tarimbas...

A escalagem era uma das primeiras operações...
 
A seguir vinha a fase da cozedura em grandes caldeiras...




O peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração
O enlatamento e as enlatadeiras africanas

O encaixotamento
Como referi atrás a Fábrica também se dedicava ao peixe seco

Perpectivas: Uma vagoneta transportando o peixe seco já ensacado



Perspectivas : a rotina dos trabalhadores




 



Conforme o livro "Huila e Moçâmedes, Considerações sobre o Trabalho Indígena", de Afonso Medes, esta fábrica, a primeira de todo o Distrito,  foi mandada edificar em 1914 pela firma Figueiredo & Almeida. Conforme Artur Moraes no seu Memórias de Angola, pg 73, Caleidoscópio-Edição e Artes Gráficas, 2001, a iniciativa da criação da fábrica de conservas "Africana" deve-se a Miguel Duarte de Almeida, casado com Amélia Figueiredo Duarte de Almeida, e tomou corpo com o apoio  do grande colono Serafim Freire de Figueiredo, sogro do primeiro.

Do portal Memória Africa , Boletim Geral das Colónias  ( Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola) Portugal. Agência Geral das Colónias , N.88 - vol VIII. 1932, pg 407, retirei estas fotos da visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932, já no quadro do Estado Novo (Salazar), a esta fábrica.  Através da leitura do mesmo Boletim, na parte que interessa, ficámos a saber que esta fábrica, nessa altura  denominava-se "Fábrica Africana" e que o sector de legumes e de conservas de frutos se encontrava ainda fase de apetrechamento, estando empenhado neste projecto o Dr. Torres Garcia, na sua qualidade de administrador da Companhia de Mossâmedes.   


Conforme consta do apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), e de uma referência feita à obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes, a "Fábrica Africana" destinava-se de início a enlatados dos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria.  Como se pode ver pela duas fotos acima,  no topo das janelas da "Fábrica Africana"  encontravam-se escritos os produtos enlatados que ali se produziam, ou se pensava viessem a ser  ali produzidos na íntegra: conservas de carnes salgadas, conservas em azeite (de atum, sarrajão, cavala, merma), conservas de fruta, conservas de escabeche, peixe fumado, etc. Vê-se também o símbolo da Fábrica, uma águia.

 A Fábrica, instalada em edifício propositadamente construido para esse fim,  encontrava-se dividida em dois corpos, um dos quais comunicava directamente com  o exterior, ou seja, com uma ponte pertença da mesma empresa, onde o pescado era descarregado e em seguida transportado para o interior da Fábrica, directamente, através de vagonetas que deslizavam sobre carris de ferro.  


Há indicações que na década de 1920 e 1930 se exportavam da "Fábrica Africana" produtos de alta qualidade para o mercado italiano e para os Congos-Belga e Francês e  Gabão, que rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos, o que levou ao surgimento de novas conserveiras.

Em 1932, o Ministro das Colónias visitou esta Fábrica, e visitou também, conforme o mesmo Boleim, uma outra empresa fabril de conservas de peixe pertencente a Manuel da Costa Santos. Na verdade, a poente da "Fábrica Africana" ficava uma outra fábrica, mais pequena, pertencente a Costa & Pestana (?).  

Esta fábrica, mais adiante no tempo, foi propriedade da Companhia do Sul de Angola, tendo Josino da Costa como arrendatário. Olimpio Aquino era o então gerente. Nos anos 1950 era designada por "Sociedade Oceânica do Sul" (SOS). Há referência no livro de Paulo Salvador "Era uma vez Angola " a um indivíduo de nome Santana como  proprietário da referida Fábrica (?).

A Fábrica possuia uma frota pesqueira que tratava das capturas para a laboração, quer para o sector conserveiro, quer para o sector de salga e seca, e farinação. Para a produção das conservas de peixe iam especiamente os tunídeos: atum, albacora, sarrajão, etc. Para a salga e seca iam essenciamente os peixes de escama, tais como corvina, taco-taco, tico-tico, merma, cachucho, carapau, etc. Para farinação iam as tainhas, sardinha, cavala, carapau, etc. As tainhas pelo seu alto teor de gordura possibilitavam umalto rendimento na produção de óleo de peixe. Como atrás referido, o pescado era descarregado através da ponte anexa à Fábrica, e dalí era transportado para o interior da mesma, através de «vagonetas» que deslizavam sobre carris de linha férrea, num trajecto em linha recta,  para após descarregado ser escalado  e cozido em grandes caldeirões, e proceder-se ao enlatamento. No início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar nesse sector, porém mais tarde esta tarefa passou a ser desempenhada por pessoal africano feminino como podemos ver ( eram as enlatadeiras).

Sabemos que na década de 60, após um período aureo de grande produção nesta Fábrica enquanto  Sociedade Oceânica do Sul (SOS), a mesma deixou pura e simplesmente de produzir e foi vendida à Produtos de Angola Lda (PRODUANG) cujos societários eram Gaspar Gonçalo Madeira e seu filho, Ildeberto Serra Madeira. Acabou por se transformar num entreposto para exportação de peixe congelado para Moçambique, situação que se mantinha em 1975, quando da independência de Angola. Gaspar Gonçalo Madeira regressou a Portugal, mas seu filho, Ildeberto Serra Madeira mantém-se em Moçâmedes ainda hoje.
 
Esta fábrica foi testemunho de uma época na história na cidade do Namibe, e hoje em dia corre o risco de desaparecer.  Esperemos que tal não aconteça e que as autoridades de hoje e de amanhã saibam preservá-la, enquanto repersentativa desta fase da conjuntura colonial,  na região de Moçâmedes.

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Transcrevemos a seguir passagens de um apontamento histórico de António Martins Mendes da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários  de Moçâmedes **, subordinada ao tema «Pescas em Portugal - Ultramar-  onde o autor nos relata algumas passagens de um importante relatório do Carlos Carneiro, veterinário em Moçâmedes nas décadas de 20, e 30 do século passado:
 
«... Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu primeiro relatório de serviço (Carneiro, 1931). Nesse trabalho começa por evocar o ano de 1921, ...


«...No seu importante trabalho o Dr. Carlos Carneiro aborda o estado da Industria de Conservas. Ficamos a saber que a construção da primeira fabrica fora iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 e estava destinada aos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Preparavam também óleos de pescado que, depois de várias análises e melhoramento da técnica de fabrico, tinham colocação fácil nos mercados britânicos. A fábrica obedecia às exigências da época mas a I Grande-Guerra iria causar grandes dificuldades. A chaparia para o fabrico das embalagens, que era importada e litografada em Lisboa, faltou e a fábrica foi obrigada a fechar. A indústria viria a reanimar-se a partir de 1923, preparando conservas de atum, sarrajão, cavala, mermo, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, mas exportava-se também para os Congos- Belga e Francês e o Gabão. Os produtos exportados eram de alta qualidade e rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos. Por isso fundaram-se outras conserveiras. »
(...)



Créditos de Imagem:
Fotos de ICCT  (7)
foto livro de P. Salvador (1).



* No livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão encontrei o nome do 1º colono  que e instalou numa fazenda na margem dt. do rio Bero, de nome Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da Companhia de Moçâmedes, proprietária da fazenda. Não sei se tem alguma relação com o 1º proprietário da Fábrica Africana. 


Poderemos encontrar também referencias à Figueiredo & Almeida limitada  que possuia em Moçâmedes, em tempos mais recuados,  uma casa filial que negociava peixe com algarvios em troca géneros europeus:AQUI 

** E ainda  em Industria de Pesca e seus deriivados do Distrito de Mossâmedes, 1921-22, relatório de um inquérito de Afonso José Vilela, 1923.


Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5 1898


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Em 1953. já a industria de pesca de Moçâmedes tinha em actividade 14 fábricas de conservas, 155 instalações de pesca e peixe seco,  40 de farinha e óleos de peixe, tudo avaliado em 225 355 contos. Estavam empregados 5904 indígenas contratados. "Huila e Moçâmedes, Considerações sobre o Trabalho Indígena", de Afonso Medes,



terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Subsidios para a História de Moçâmedes, hoje Namibe: 1869 Insubordinação na Fortaleza de S. Fernando






Subsidios para a História de Moçâmedes/Namibe:





A Fortaleza de Moçâmedes (Mossâmedes/Namibe), tal como a de Capangombe e até mesmo as pequenas fortificações erguidas naquele distrito, no sul de Angola, contribuiram, sem dúvida, para o desbravamento e para o povoamento daquela região. Queira-se ou não, fortalezas são baluartes históricos dum passado distante que possibilitaram a Portugal alargar o território angolano às terras desertas do sul, cobiçadas pelo estrangeiro, sobretudo alemães,  que de outro modo não seria possível.

A primeira unidade aquartelada na Fortaleza Fernando foi a "Companhia de Moçâmedes", criada por portaria de 22 de Agosto do Ministério da marinha e Ultramar, substituida em 1854 pelo "Batalhão de Caçadores 3", que ali se manteve por longos anos. Qualquer daquelas unidade teve sempre um elevado numero de degredados nas suas fileiras, e foi esta gente que esteve sempre presente nas várias acções realizadas naquela região ao sul de Angola ao longo de três quartos de século. Normalmente dividiam-se entre Moçâmedes, Huila e Capangombe. Em 1861, das seis Companhias que compunham o  "Batalhão de Caçadores 3",  estavam duas na Huila, uma nos Gambos, uma no Humbe e outra em Moçâmedes. Em 1901 este Batalhão foi substituido na Fortaleza, pela "4ª Companhia de Depósitos de Degredados de Angola". Em 1932, já se encontrava aquartelada na Fortaleza de S. Fernando, a "Companhia Disciplinar", sucessora da "4ª Companhia de Depósitos de Degredados". O Depósito de Degredados em Angola constituiu a mais longa forma de degredo penitenciário, tendo vigorado até 1932, data da proibição do degredo de Portugal para Angola.   Divididos em companhias e classes de comportamento, a disciplina era o principal critério para avaliar o grau de reconversão moral e social dos condenados que desempenhavam trabalhos como militares,  nas oficinas, como carcereiros, na limpeza e  tarefas de limpeza, ao serviço do Estado ou do Município da província,  nas obras públicas, saneamento das ruas da cidade e de hospitais ou fazendo o policiamento da cidade. Integravam companhias agrícolas, após libertados . 
O recurso a degredados devia-se, pois à carência de efectivos humanos para concretizar a ocupação efectiva, até porque a emigração para o Brasil continuava a levar uma grande parte dos excedentes demográficos metropolitanos.  A própria fixação dos madeirenses agricultores na Huíla, em 1884 e 1885 foi efectuada sem um planeamento que gerasse mercados que lhes comprasse a produção. 

Em termos de exploração sistemática dos territórios africanos do interior, agrícola e comercial, esta praticamente começou a fazer-se a partir do fim da 1ª Grande Guerra (1914-18). 

Importa lembrar que foram degredados que após o cumprimento das penas, se interiorizaram no mato, tornaram-se comerciantes, constituiram familia com africanas, etc  etc., acabando por se tornarem precursores da colonização. Não foram passivos, eles foram usados -grupo marginal- no contexto de transformação, com o impulso crescente colonial. Foram importantes instrumentos como povoadores e tomaram parte no processo de embate e diálogo cultural, intensificado na segunda metade do século XIX.





Insubordinação na Fortaleza de S. Fernando


Em 1869 estava aquartelado na Fortaleza de S. Fernando um contingente de 100 praças pertencentes ao Batalhão de Caçadores 3, na sua quase totalidade criminosos de delitos graves, que ali cumpriam as suas penas. Na noite de 14 de Novembro daquele mesmo ano, essas praças amotinaram-se para protestarem, segundo afirmavam, contra os serviços violentos a que eram obrigados, contra os castigos rigorosos que sofriam, e contra os descontos excessivos que eram feitos nos seus prés. Acusavam o capitão Miranda como responsável de toda aquela situação. Avisado o chefe do Concelho, Major Joaquim José da Graça do que se estava a passar, este dirigiu-se à Fortaleza, onde, perante o seu espanto, os soldados já pegavam em armas. O Major Graça foi alvejado pelos amotinados, com um tiro de pistola, mas sem consequências. Contudo o oficial em causa conseguiu dissuadi-los dos seus intentos, e prometeu, recebê-los no dia seguinte, na secretaria do Concelho, a fim de apresentarem as suas queixas.  Após o diálogo apaziguador, o Major Graça retirou-se, parecendo tudo estar debelado. Porém os soldados voltaram mais tarde a sublevar-se e convenceram-se que os habitantes da vila se preparavam para os dominar pela força. Assim, armados de novo, carregaram as peças, e apontaram-nas para a vila, prontas a fazer fogo. Afirmavam a sua intenção de destruir a povoação e incendiar as casas de seguida. Os moradores apavorados, receando toda a espécie de atrocidades, abandonaram as suas habitações e procuraram refúgio nas Hortas, que ficavam a três quilómetros do aglomerado populacional.  No meio de tão dramática situação, e quando parecia estar tudo perdido, a Sra D. Maria do Carmo Lobo de Ávila, esposa do chefe do Concelho, saiu resolutamente da sua casa, encaminhou-se ligeira para a Fortaleza, e confiada, corajosa, varonil, aparece de improviso perante a turba arrogante e impetuosa dos revoltados. A gentileza senhorial do seu porte e o excesso prestigio das suas virtudes, contiveram-lhes os rancorosos impulsos. Tomados do espanto que o imprevisto lhes causara, e confundidos pela severidade que resumbrava do nublado rosto da dama, receberam-na com todo o respeito, formando fileiras, e apresentando-lhe armas. Perante a atitude de acatamento das praças, a Senhora Dona Maria do Carmo pôde plenamente desempenhar a nobre missão que se impusera: a de os vencer pelo sentimento. Para o conseguir, mostrou-lhes, dominada por irreprimível eloquência, a hidiondez do crime que iam cometer, e dirigiu-lhes, numa inflexão de voz, tocantemente angustiosa, suplicas ardentes e afervoradas. Comoveram-se. Os revoltosos, em cujos olhos borbulhavam lágrimas de arrependimento, protestaram, em seguida, inteira obediência. O Chefe do Concelho, que durante a alocução estivera sempre junto da sua esposa, ordenou-lhes então, como lhe cumpria, que descarregassem as peças e as espingardas e recolhessem a pólvora. Tinham-se entregado. A vila estava salva. O espírito de rancor, de violência e de rebeldia que desorientara as praças, que por pouco as não levou à destruição da mesma vila, fora inteiramente subjugado pela palavra enternecedora duma dama fraca e delicada.






MariaNJardim. 





Bibliografia consultada:
(1)Torres obra cit 2 vol pp. 201 a 206
Separata n.8 da Revista Africana Universidade Portucalense, Porto, 1991.Cecilio Moreira : "Fortalezas, Fortes, Fortins e Fazendas de Moçâmedes no Sul de Angola". Subsidios para a História de Portugal em Angola. 



Ver aqui: Portugal século XIX  http://comum.rcaap.pt/bitstream/123456789/3551/1/NeD03PedroCardoso.pdf