Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe) uns, resgatados às páginas de antigos livros retirados das prateleiras de alfarrabistas... outros, rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... E ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e em experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os mesmos erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 12 de Outubro de 2014

Desembarque em Moçâmedes de material de guerra, e as Campanhas do Cuamato




PO|STAL COM INTERESSE HISTÓRICO, que nos mostra o naval trawlers, NRP "Salvador Correia l" da classe Dance,  que foi lançado a água em Inglaterra em 26 de Maio de 1895, para servir de transporte em Angola. Até prova em contrário, estaria aqui, encostado à ponte de Moçâmedes,  no contexto da expedição ao CUAMATO, comandada pelo capitão ALVES ROÇADAS, a descarregar metrial para uma Companhia de Guerra

Quem poderia imaginar este navio-vapor, o Salvador Correia (1895-1929), construido em ferro e de certo porte, atracado à ponte de Moçâmedes (Mossâmedes e hoje é Namibe)?  A parte traseira do navio encobre parte, e deixa ver outra parte, dos tectos do piquete da Guarda-fiscal e do edifício da Alfândega de Moçâmedes, bem assim como as águas-furtadas do edfício de Mendonça Torres. À direita, vêem-se os barracões que à época ainda se encontravam na Avenida, e ao longo da praia, a profusão de palmeiras ou coqueiros, espécie adaptada à salinidade das areias.


Outro postal com interesse historico. Este representa tambem esses tempos em que Moçâmedes foi porto de desembarque de batalhoes militares destinados ao sul de Angola. Na Avenida de Moçâmedes, hoje Namibe, o Governador Geral passando revista a uma Companhia de Guerra.



 


A chegada a Moçâmedes do Governador geral de Angola, Conselheiro Antonio Duarte Ramada Curto, médico,  para a resolução dos complexos problemas da administração de Angola.


 


Este postal que nos mostra o belo piquete de arquitectura romântica, refere-se à inauguração  da Estação principal do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes  ,em 28 de Setembro de 1905, data em que teve lugar a assinatura da acta, e se deu o assentamento da primeira pedra no cunhal leste da estação pelo Exmo. Snr. Conselheiro Governador Geral da Provincia, Dr. Ramada Curto, tendo em 29 de Setembro de 1905 sido oferecido um copo d'agua no Saco pela comissão de festejos, composta de comerciantes e agricultores da cidade.  Não esqueçamos que o Caminho de Ferro avançou, mais porque militarmente se mostrava necessário que a pensar no desenvolvimento ecómico da região.A saber, esta visita ocorreu numa altura em que problemas graves, internos e externos, ocorriam na Metrópole e nos territórios de além-mar em África.    Estava-se num período crucial da história portuguesa (ver AQUI ), atravessada por uma grave crise política, social e económica, que coincidia com a decadência da Monarquia e a alvorada da República, em que a tutela portuguesa no imenso território de uma África cobiçada e considerada necessária ao progresso europeu, era colocada em cheque. Era contra o Golias germânico, entre outros, que o pequeno Portugal tinha de se haver. A coabitação, a dominação e a influência dos Portugueses, por antigas que fossem, podiam a todo o momento ser contestadas pelos seus súbditos, vassalos e vizinhos.  As revoltas no sul de Angola haviam sido de alguma forma torneadas ou ignorados, mas não resolvidas, como os grandes revezes sofridos um ano antes, em Setembro de 1904, pelos expedicionários portugueses no Kuamato, em que um guia ovimbundo que fora deportado para o Humbe os levara a cair numa emboscada em Umpungo. Em 2 de Janeiro de 1904 dera-se revolta dos hereros contra os colonizadores alemães na então África do Sudoeste, atual Namíbia tendo a resposta alemã sido avassaladora.

No dia 25 de Setembro de 1905, o jornal português O Século, recorda o dis 25 de Setembro de 1905:
"...É hoje dia de luto nacional e mui principalmente para as armas portu­guesas, por passar o primeiro aniversário do trágico massacre das nossas forças na margem esquerda do Cunene (...). Atacados de surpresa por forças cuamatas muito superiores, não temendo a aventura perigosa que se ia travar, mal imaginando o seu fim tenebroso, oficiais e praças, numa comunhão de pensamento, somente se lembraram de que, ali, no interior do sertão, repre­sentavam a honra do País, que deviam conservar imaculada, e o nome portu­guês, que tinham de levantar bem alto. "

Na mesma página de O Século, na parte reservada aos sufrágios, podia ainda ler-se uma comunicação lacónica: Amanhã, pelas 11 horas da manhã, na igreja dos Mártires, rezar-se-á uma missa por alma do tenente Luz Rodrigues, outra vítima da catástrofe, missa a que tencionam assistir os oficiais do batalhão de caçadores de el-rei, a que o desditoso extinto pertenceu. (...)".                             

(Para mais informação, ver AQUI)


Assuntos relacionados passíveis de interesse:

Relatorio das operações de guerra no districto da Huilla em 1905
A pauta das alfândegas de Loanda, Benguella e Mossamedes: approvada por ...1892
Estatistica geral das alfandegas de Loanda, Benguella, Mossamedes e Ambriz ...  1890/94


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Foi em Mossâmedes, depois Moçâmedes, (a actual Namibe) que em 1914 e 1915 desembarcou grande parte do efectivo militar português, cujo objectivo era enfrentar a ameaça alemã vinda do Sudeste Africano e as populações sublevadas naqueles territórios.


Sobre as CAMPANHAS DO CUAMATO, ninguém melhor as poderá relatar que David Martins de Lima, um soldado expedicionário que viveu esses momentos e os descreveu (1908) através do livro que poderá ser lido aqui: http://archive.org/stream/acampanhadoscua00limagoog#page/n17/mode/2up

Esta fase da colonização que conduziu ao momento que nos trás aqui, começou a desenrolar-se após a célebre Conferência de Berlim (1884/5), que culminou na "partilha de África" entre as potências europeias,  obrigou Portugal a definir fronteiras em relação aos territórios cuja posse reivindicava por direito histórico, e levou à promoção de campanhas em prol da fixação de familias portuguesas e não só, no sudoeste de Angola. Ou seja, foi um tempo de lutas e de guerra que começou com a 1ª revolta do Humbe (1885-1886), prosseguiu com a 2ª, de 1891, e a terceira de 1897-1898(8) , até que em 25 de Setembro de 1904(9), se deu um momento de viragem com a vitória dos Cuamatos (uma tribo Ovambo), na batalha do Vau de Pembe, sendo as baixas portuguesas de centenas, entre mortos e desaparecidos. Diz René Pélissier: “É preciso que se meça bem a amplidão desta derrota, que equivalia a eliminar num único dia perto de um décimo das forças totais existentes em Angola”. Em Lisboa soou o alarme e fizeram-se planos pormenorizados de envio de homens e material para uma campanha de seis meses sendo chamado para dirigir todas as operações, o capitão do Estado-Maior Alves Roçadas que, segundo René Pélissier, “estava longe de ser um génio como se provaria com os acontecimentos de 1914”.

Toda esta fase da colonização encontra-se muitissimo bem documentada através de fontes originais, inúmeros livros, relatórios de governadores, relatos de viagem, cadernos coloniais, etc, para além dos escritos dos historiadores. Do mesmo modo como bem documentada se encontra o desenrolar da colonização de Moçâmedes até pelo menos esta fase.

A este respeito poderá ser consultado, através do link que deixo a seguir:
-o livro "A Campanha do Cuamato em 1907" da autoria do Alferes Veloso de Castro, 1908: ver tb: http://archive.org/stream/acampanhadocuam00castgoog#page/n9/mode/2up

E também de Alves Roçadas,in Cadernos Colonias:
http://memoria-africa.ua.pt/DesktopModules/MABDImg/ShowImage.aspx?q=%2FCadernosColoniais%2FCadernosColoniais-N06&p=1

Inúmera bibliografia sobre Mossâmedes: https://docs.google.com/viewer?a=v&q=cache%3AFU45dRVQEvsJ%3Adited.bn.pt%2F30124%2F1117%2F1534.pdf+&hl=en&gl=pt&pid=bl&srcid=ADGEEShQumEMTPRePT03aDvsOde0_296PwUOrAHIc_6pf6EKqOp6xwikhZ2DAURXcPrPw-faF7WXr33l4DKGD48CRMOSQwZvTytcNOkeVfNosPwR5pl2d5nnFVzjc7t9Dp9LuQuqBwVC&sig=AHIEtbQpwvGVdu4EpP0WjNxn6Z_CdTq67A



Ainda sobre esses momentos históricos, encontrei no site http://antigamente1900.blogspot.pt/search/label/CEP Marco Oliveira,  material interessante colocado pelo autor, que procura dar a conhecer essa parte do espólio dixado por seu avô, que participou nas marchas no Sul de Angola e na vidas nas trincheiras em França, deixou, entre outras recordações, postais que  são testemunhos silenciosos do mundo em que ele viveu. Eis alguns aspectos retirados ao referido blog, relacionados com os incidentes na fronteira sul de Angola, na fase final das Campanhas, que passo a transcrever:

 ".... O meu avô contava muitas histórias (na próxima semana espero publicar aqui algumas) e trouxe vários postais. Num envelope com a inscrição "Mossamedes 1914", encontrei duas colecções de postais sobre esta cidade. Hoje fica aqui a primeira dessas colecções. http://antigamente1900.blogspot.pt/search/label/Angola

 "....Em 1915, com a rendição das forças alemãs do Sudeste Africano ao exército sul-africano e a destruição de vários aldeamentos cuanhamas no sul de Angola, a expedição comandada pelo general Pereira d’Eça devia agora iniciar o regresso ao ponto de embarque. Esgotadas pelas constantes movimentações, pelas condições do território (onde grassava uma seca há mais de quatro anos) e por alguns confrontos, o regresso foi uma longa e penosa marcha que as tropas esgotadas tiveram de realizar em direcção a costa.

Os dias do regresso sucederam-se monotonamente e sem grandes sobressaltos. Das memórias desses dias, o meu avô repetia com frequência o episódio em que se perdeu numa caçada.

O Tenente-Médico António Monteiro de Oliveira (à direita)
e um companheiro de armas, numa foto tirada em Moçâmedes, em 1915.

Foi durante a marcha de regresso a Moçâmedes que decidiu acompanhar um companheiro de armas numa caçada. Levando um cão que farejava possíveis presas, percorreram a savana devastada pela seca sem nada encontrarem. Ao fim de algumas horas, o meu avô – que não era caçador - desistiu da caminhada e regressou ao acampamento. O seu companheiro que persistia em incitar o cão a procurar alguma pista.

Caminhando sozinho pelo mato, percebeu ao fim de algumas horas que não encontrava vestígios do acampamento. Estava perdido no mato. Sem quaisquer referências resolveu parar. Talvez não estivesse longe do acampamento, mas caminhar ao acaso podia levá-lo a afastar-se cada vez mais.

A sorte sorriu-lhe ao fim de algum tempo quando ouviu o ecoar de um clarim. Felizmente nos acampamentos militares tudo funciona a toque de clarim; e este ouve-se a grande distância. Correu na direcção do som enquanto o ouviu, e voltou a parar; pouco depois um novo toque, proporcionou-lhe uma nova corrida. Ao fim de várias corridas, foi-se apercebendo do tropear de milhares de homens e cavalos. Acabou por entrar no acampamento em passo acelerado. Tanto quanto sabemos, o meu avô não voltou a participar em mais caçadas.

A chegada a Moçâmedes e o embarque para Lisboa não tiveram história. Regressando no mesmo navio que o general Pereira d’Eça, várias vezes lhe chamou a atenção para uma bronquite que se agravava. De nada adiantou, porque pouco depois de chegar a Lisboa, o general viria a falecer. Espero na próxima semana poder começar a publicar postais que o meu avô adquiriu durante a sua presença na frente ocidental (1916-1918).http://antigamente1900.blogspot.pt/search/label/Angola

" Ele contava sempre as mesmas histórias sobre a guerra". É bem possível. Uma experiência tão intensa como uma guerra deve deixar muitas recordações bem gravadas na memória. O texto que se segue foi preparado com a preciosa colaboração do meu pai, que reuniu algumas dessas histórias repetidamente contadas pelo meu avô.
....

Em 1915, depois de desembarcar em Moçâmedes, a expedição de Pereira d’Eça subiu ao planalto e prosseguiu para Leste, mantendo-se a alguns dias de marcha do Cunene, para evitar incidentes na preocupante fronteira com a colónia alemã do Sudoeste Africano. Nas deslocações de uma coluna militar, a cavalaria tinha por missão explorar o terreno na vanguarda e nos flancos, em constante movimentação, procurando evitar que a infantaria fosse surpreendida.


O tenente-médico Monteiro d'Oliveira, em Mossamedes, 1915

O tenente-médico Monteiro d’Oliveira, integrado num esquadrão de dragões, acompanhava as deambulações da cavalaria, mas naturalmente a um médico não se considerava necessário fornecer um bom cavalo. O médico deveria colocar-se na retaguarda, para acudir aos feridos que ficassem para trás, ao contrário do comandante, que deveria preceder todos os outros, para ter visibilidade que lhe permitisse avaliar a situação.

Naturalmente que cada cavaleiro teria que conhecer bem o seu cavalo, e o meu avô foi informado que o cavalo se recusava a saltar, além de uma certa tendência para tomar o freio nos dentes. Isto chegou a causar várias vezes uma situação caricata, em que o médico aparecia a galopar à frente de todos, para grande escândalo do comandante. Mas também foi motivo de um pequeno acidente, quando ao tentar contornar um obstáculo, o meu avô foi projectado da sela, porque o cavalo resolveu saltar a par dos outros. Apesar de ter recuperado trabalhosamente a sua posição na sela sem maiores problemas, sofreu uma fractura de um dedo que nunca pode ser bem tratada, e lhe deu uma maneira de escrever muito característica.

O itinerário da expedição tinha sido preparado pelo “serviço de etapas”, fixando os locais de abastecimento, em especial os cursos de água, onde homens e animais poderiam dessedentar-se. No entanto uma seca rigorosa gorou as expectativas, e depois de atravessarem vários leitos secos, houve que inflectir para o Cunene. Foi uma longa marcha, sempre a passo para evitar a transpiração, mas sem paragens, até porque nos últimos quilómetros nada detinha os animais, nem os fazia desviar do caminho do rio. Apesar de toda a sua fidelidade, os cavalos podiam virar a cabeça, apertados pelo freio dos cavaleiros, e tentavam acelerar o passo na direcção da água que já pressentiam, e a que conseguiram chegar nos limites da desidratação.

A cavalaria era uma arma fundamental nas vastidões africanas, mas seguindo o ditado português de que “quem não tem cão caça com gato”, quando não havia cavalos, os dragões montavam muares. Naquelas condições a sua segurança era dramaticamente reduzida, porque a vantagem da cavalaria era a rapidez. Com as mulas não se pode andar a “mata cavalos”, porque quando estão cansadas empinam-se, escoucinham, mas não avançam., Os dragões que só conseguiam mulas para as suas missões de patrulha despediam-se em grande pranto dos camaradas, porque dificilmente conseguiriam regressar.


Militares Portugueses no Lubango, Janeiro de 1915

Reagrupada e reabastecida a expedição, foi decidido que só uma progressão muito rápida sobre os objectivos conseguiria surpreender o inimigo, e concluir com sucesso a expedição. Rapidez significava naquelas circunstâncias, significava andar a mais de 30 quilómetros por dia, que era a velocidade de transmissão das mensagens dos “tantans” africanos. Assim os soldados, subalimentados e desidratados, foram obrigados a uma marcha forçada, que provocava frequentes desfalecimentos.

Certamente havia macas, mas não havia maqueiros, e o Dr. Monteiro d’Oliveira, movimentando-se na rectaguarda, recolhia os soldados desfalecidos, atravessava-os no cavalo, e levava-os até um carro de bagagem , onde ficavam estendidos o resto do dia. Como medicamentação recebiam um remédio precioso pela sua escassez: ¼ de água das pedras. A terapêutica era eficaz a 100% e no dia seguinte os soldados já marchavam ao lado dos camaradas.

A pronta recuperação de tantas baixas acabou por ser notada pelo general Pereira d’Eça, que mais tarde exarou um louvor ao tenente-médico António Monteiro d’Oliveira.

Finalmente a vila de N’giva (futura vila Pereira d’Eça) surgiu à vista da coluna. Era um dos principais objectivos da missão. Os dragões carregaram, a população fugiu, e quando a infantaria chegou a embala estava abandonada. A tomada de NGiva foi um sucesso, não só pelo reduzido número de baixas, mas também pela captura de documentação, nomeadamente uma curiosa carta de um missionário luterano, desaparecido na confusão do ataque, que comunicava aos seus superiores no Sudoeste Africano que a coluna portuguesa tinha sido totalmente derrotada...



Ver tambem aqui : http://mocamedesregistosefactos.blogspot.pt/2012/11/o-batalhao-de-marinha-expedicionario.html

 http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_10_Marinha.htm