Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe) uns, resgatados das páginas de antigos livros das prateleiras de alfarrabistas... outros, rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais, e ainda outros, fundados em testemunhos vivos e em experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os mesmos erros so passado, sejamos capazes de progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

A Baía dos Tigres na segunda metade do século XX







SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA BAÍA DOS TIGRES: As construções públicas

Folheando o livro do autor Cecílio Moreira,  "Baia dos Tigres", encontramos estas fotos que nos mostram a povoação de S. Martinho dos Tigres nos últimos tempos da era colonial, com seus edifícios de arquitectura original, mandados construir pelo Governador Silva Carvalho às vésperas da entrada na década de 1950, alguns dos quais assentes sobre pilares, em forma de "palafita",  para deixarem passar as areias das dunas que ventos fortes faziam movimentar, cobrindo tudo à sua passagem.
 São a Capela, a Escola Primária, a Alfândega, o Posto Sanitário, a Delegação Marítima, a Estação Rádio-Telégrafo-Postal CTT, o edificio do Posto Administrativo, os Seviços Metereológicos,  Tanques de abastecimento de água e algumas Casas para funcionários.
 Alinham-se de um lado e do outro da única rua cimentada e que serve também de pista de aviação.
Construções estas que na minha óptica constituem verdadeiras obras de arte, desde 1975 em total abandono, resistindo ao tempo e à degradação, fazendo lembrar um conjunto fantasmagórico de um quadro surrealista.

Pela mesma altura foi também construida uma rua asfaltada, pelo engenheiro Marques Trindade,  em frente à Igreja, que passou a ser utilizada como pista para aviação, quando teve início a carreira de avionetes para os Tigres, o que acontecia duas vezes por semana. Também aterravam na "pista" aviões que eventualmente se deslocassem aos Tigres, o que acontecia não raras vezes. O Delegado de Saúde do Concelho de Porto Alexandre, deslocava-se ali uma vez por semana, para visita médica, ficando na sua ausência dos doentes ao cuidade de um enfermeiro de 1ª classe.

 

Eis a bela Igreja da Baía dos Tigres, a Igreja de S. Martinho, assente sob placas de betão, cruciforme,   composta por um corpo central com baptrisfério, coro e  torre. Possui uma capela-mor dedicada a S. Martinho, patreono da Igreja, e duas  capelas laterais dedicadas respectivamente à Sra da Nazaré e as S. Pedro. Possui também uma sacristia. Na soleira da porta principal da Igreja de S. Martinho dos Tigres  encontrava-se uma pedra levada para ali, em 24 de Dezembro de 1947, da Fortaleza de Massangano, --velho reduto da resistência de Portugal à ocupação holandesa --, pelo comandante daquela unidade  da Marinha de Guerra Portuguesa, capitão de Mar e Guerra, Vasco Lopes Alves, antigo Governador de Angola.  Foi entregue à Diocese de Nova Lisboa em 1951, que à época se estendia até à antiga Província da Huíla. Assinaram o termo pela estatal construtora, o Engº Marques Trindade, e em representação do Governo , o Intendente de Moçâmedes, José Pedro dos Santos.   

   Os serviços religiosos na Baía dos Tigres estavam ao cargo do Pároco da Freguesia de Porto Alexandre   que alí se deslocava em dias de festas ligadas à Igreja. Visita anual fazia à vila o Bispo de Sá da Bandeira, D. Altino Ribeiro de Santana. Era a maior  festa para as gentes dos Tigres.





A religiosidade sempre esteve presente no coração das gentes dos Tigres, gente carente de protecção e amparo do Altíssimo para os homens do mar e para as suas familias, envolvendo  missas, procissões e outros actos religiosos, que tinham lugar quer em terra quer no mar ...


A vida do habitante da Baía dos Tigres foi melhorando, e em 1965 os Serviços de Educação de Angola, através da Acção Social criaram condições para acolher 40 crianças da vila.  Algum tempo depois foi criado um jardim de Infância na Baía dos Tigres. Crianças que em dias de de tempestades de areia não podiam sair de casa para ir à escola, passaram a ter transporte adequado para as condições do tempo e para o tipo do terreno, que as levava e trazia de novo a casa.

Foi  como referi atrás, o Governador Silva Carvalho a  quem a população dos Tigres ficou a dever a construção da Igreja e dos edifícios públicos, casas para funcionários, etc, bem assim como única estrada asfaltada que era também pista de aviação. Participou no empreendimento o Engenheiro civil, Agostinho Ruqueso Marques Trindade, chefe da Brigada de Construções de Casas do Estado.
  

As gentes dos Tigres já possuiam o seu clube recreativo e desportivo, com salão para actividades, campo de jogos, onde passavam as horas de lazer, e onde passavam o tempo até que a garrôa mais forte amainasse, para poderem avançar para a pesca. Ali podiam assistir a sessões cinematográficas aos fins de semana .

A máquina também tinha vindo em socorro do trabalhador, e as toneladas de areia acumuladas junto das habitações e das instalações que antes eram removidas a pulso, passaram a sê-lo por um tractor que o Governo Geral ofereceu às gentes dos Tigres, tornando a tarefa penosa e difíl mais simples e facilitada.

Recordo perfeitamente o dia  em que um Governador Geral visitou  Moçâmedes, no incio dos anos 1960 e lá estavam as gentes dos Tigres  a reivindicar a aquisição de um tractor para a Baía dos Tigres: "Queremos um Tractor!!! Queremos um Tractor!!! Um tractor para a Baía dos Tigres!!!!! " Pelo menos até bem dentro  dos anos 1950,  havia por parte da autoridade, uma mão muito curta e fechada, para tudo quanto fosse dispender vernbas que contribuissem energicamente para o seu desenvolvimento e para a saída da pasmaceira em que nos durante tempo demasiado estivemos mergulhados. E quando "davam" alguma coisa parecia um favor... Com a entrada nos anos sessenta a situação económica em Angola começou a mudar a uma velocidade nunca até aí alcançada. Como sempre Portugal funcionava sob pressão, e em situação de emergência. Neste caso o motor da acção foram  os acontecimentos de 1961, ou seja, por força da revolta dos movimentos de libertação contra o domínio português,  Portugal procurou agir pelas armas, enquanto era condenado na ONU, ao mesmo tempo que, numa tentativa de recuperação do tempo perdido, promovia o desenvolvimento de Angola,  talvez, quem sabe, à espera  de um novo equilibrio mundial de forças que viesse a correr a favor dos ideais de Salazar.




Graças ao esforço das gentes dos Tigres,  empenhada em progredir, apesar dos sacrificios, a meio da década de sessenta a povoação ostentava já 7 fábricas modernas de farinhas e óleos, sete traineiras de grande tonelagem, devodamente equipadas para a pesca longínqua, e 15 empresas para salga e seca de peixe. Ao iniciar a década de 1970 os Tigres eram já um centro económico respeitável em Angola, com as suas 22 unidades fabris.  As traineiras tinham aumentado para a dezena.

 
Em 1975, quando da debandada geral da população branca dos Tigres começava a ser negociada a comercialização do "peixe verde" para a província, metrópole e estrangeiro, atravé de várias empresas e frio, destinadas à conservação do pescado a exportar, Era finalmente possível aproveitar quase totalmente as potencialidades do mais rico centro de pesca de Angola, terra onde ficou demonstrado como em nenhuma outra a capacidade  indiscutível de trabalho e realização dos portugueses.

Seguem algumas fotos da povoação de S. Martinho dos Tigres, tiradas por volta do ano 2000...





  Baia dos Tigres após a independência, em 2000







 Bibliografia consultada:

-Moreira, Cecilio.  "Baía dos Tigres"
-"Jornal O Namibe", Moçâmedes, 23.09.1972
-B. O. II série, n.19, de 15.05.1929.
 -Cerqueira, Maria Manuela . "Menina do Deserto, Lisboa. Agência Geral do Ultramar, 1969.

sexta-feira, 15 de Agosto de 2014

BAÍA DOS TIGRES: o drama da água e as soluções encontradas ao longo do tempo...








A Baia dos Tigres vista do mar, formada por uma longa restinga de areia, lançada quase na direcção Norte-Sul, paralela à costa, com cerca de 35 kms de comprimento e delimitando um braço de mar com 11 kms de largura máxima (a norte). A restinga é muito baixa, não vai além de 3 a 4 metros de altitude. Pelo contrário, o litoral que lhe fica em frente é constituído por um maciço dunar que sobe até 100-200 m, tem mais de 10 kms de largura e ultrapassa os 100 m a menos de 1 km do mar.



Até ao momento em que se deu o abastecimento de água à Baía dos Tigres, através de um sistema de captação de águas a partir da Foz do Cunene, não havia na povoação água potável, pelo que os seus habitantes eram obrigados a poupar religiosamente a água que iam conseguindo.

   Na praia do lado da baía ficava o depósito de água que era reabastecido pelos  Save ou pelo 28 de Maio, a partir do Curoca ou de Moçâmedes. A água tinha sempre que ser fervida e filtrada em sangas como prevenção.


Nos primeiros tempos quando  os abnegados colonos alí se estabeleceram a partir dos anos 1860, o abastecimento de água provinha de uma duas cacimbas de água salobra na margem continental junto à Baía dos Tigres, mas era intragável e passou a ser apenas utilizada em limpesas e como último recurso, depois de fervida e filtrada. Em seguida o precioso líquido passou a ser transportado de barco desde Moçâmedes ou de Porto Alexandre (Coroca), em barris, muitos dos quais se perdiam durante o trajecto. Eram barcos à vela, de arrojada navegação sempre difícil e perigosa. E se a que estava de reserva nos barris se deteriorava, o que acontecia com frequência, era ser posta a "arejar", como diziam os seus habitantes. Isto é, era posta ao ar durante umas horas, depois era fervida e passada pela "sanga",(1) para ficar pronta a ser consumida, ou a durar como reserva por mais uns tempos. Havia duas cacimbas no lado do continente mas a água era salobra e de má qualidade, e apenas utilizada como último recurso, após fervida e filtrada.

Na Baía dos Tigres passavam-se anos que não chovia, não havia água, não havia frescos, não havia lenha para cozinhar, nem para o aquecimentio nas noites gélidas de Inverno, não havia nada! Apenas areia, dunas e mais dunas, e mar, isolamento e solidão...E quanto mais para trás no tempo, tanto pior...

E se a vida era difícil para os homens também era para os cães. Os cães da Baía dos Tigres ficaram célebres, eles comiam e bebiam o impossível na luta pela sobrevivência. Nadavam e pescavam de cerco e em matilha, empurrando o peixe para terra. Tinham membranas interdigitais. E bebiam água, passando de manhã cedo a língua suavemente por sobre a água salgada, retirando assim a fina camada de água doce que o cacimbo deixava.

Assim decorerram os anos até à década de vinte, sem que a situação se tivesse alterado na Grande Restinga. O habitante da Baía dos Tigres continuava a poupar religiosamente a água que vinha de Moçâmedes e a pagá-la a preços muito além das suas possibilidades. Não se podia perder uma gota sequer.

Sem quaisquer ajudas do Estado, a fixação dos algarvios na Baía dos Tigres foi efectuada por sua conta e risco, e talvez mesmo não interessasse ao Governo português, numa óptica economicista, porquanto investir em infra-estruturas  naquelas paragens poderia não ser lucrativo. Com o aproximar dos finais do século XIX  começam a surgir o interesse por expedições, como a llevada a cabo, em 1894 pelo médico da armada portuguesa, Dr J. Pereira do Nascimento ao serviço da Companhia de Moçâmedes, onde fez um levantamento topográfico. É também desta altura, 1895,  que os alemães do Sudoeste começaram a revelar má vizinhança e a tornar mais claras as desmedidas ambições sobre os terreitório fronteiriços do sul de Angola, muito especialmente sobre o porto da Baía dos Tigres, onde começaram a entrar e a sair como se fosse terra de ninguém, ignorando a efectiva presença portuguesa. Por essa altura a autoridade portuguesa esteve um pouco mais atenta  ao desenrolar dos acont4ecimentos na região, mas a evolução da Baía , quer economicamente, quer em população, caminhava a passos lentos.  Vieram as campanhas de Africa, René Pélissier escreveu que “de 1885 a 1915, o sul de Angola foi a guerra...” e na Baía dos Tigres tão cobiçada por alemães, o desenrolar da vida continuava  sempre igual , sem grandes alterações

Em 1909 já a Baía dos Tigres passara a ter a visita mensal de um navio da Companhia Nacional de Navegação que ali ia levar água, que era paga pela população a preços exóbitantes, que iam muito além das suas possibilidades.




Em 1929, o Estado mantinha em Angola um navio costeiro, o "Granja", que naquele ano vendeu à Companhia Nacional de Navegação para continuar na costa de Angola, tendo-lhe sido dado o nome de "Save". No contrato da venda ficou desde logo estabelecido que o "Save", obrigatória e gratuitamente, tinha que fornecer água à população dos Tigres, uma vez por mês." (2)

O atraso do "Save" chegava a tomar proporções catastróficas, porquanto o precioso líquido tinha que ser racionado, com ração diária de umas poucas canecas distribuídas, para não morrerem sede.

 A respeito do "Save" e em face do compromisso assumido pela entidade compradora, passaremos a transcrever uma passagem interessante de um livro intoitulado "Menina do Deserto", de Manuela Cerqueira, nascida na aldeia do Leão que alí viveu sua infância, com seus pais.

"Dia de Save, dia de Mãe-Água, dia de outro Mundo, dia de bom comer... Tinha vigilia, como as grandes festas, cheias de ritos de preparação: era a limpeza das praia, o embarque dos barris, a barrela dos soalhos, o banho suplementar, roupa saida das malas... (quem não vestia o melhor em dia de ão Navio?).

O dia do "Save" era pois um dia diferente para as gentes dos Tigres, que  aguardavam de pé firme na praia pela sua chegada. O navio transportava afinal o precioso líquido de que necessitavam para viver, e trazia também mantimentos àquela gente isolada entre o mar e as dunas. Era também o contacto mensal com gente vinda de outro mundo que lhes trazia correspondência e novidades.

Mesmo  com a visita mensal do "Save" o velho destilador de Norton de Matos, já desgatado e cheio de intermitências,  ocasionais pela falta de lenha ou avaria, lá foi funcionando até 1935, acudindo aos atrasos dos fornecimentos daquele navio, quando havia reparações a  fazer ou se atrazava no trajecto, por qualquer motivo. Como recordação do destilador  ficou uma forja e vários ferros que tinham sido utilizados na purificação da água nesses tempos.

O "Save" foi cumprindo a sua  missão até aos anos 1940, tendo a partir daí o fornecimento de água passado a ser efectuado por outros navios costeiros ou de longo curso, ou ainda por navios de guerra portugueses que, quando necessário ali iam propositadamente levar água.

 Por esta altura a Baía dos Tigres já dispunha de um velho batelão, o "Tejo" que servia de depósito para onde a água era transbordada. Era alí que os interessados iam encher os barris que transportavam rolando. para as suas habitações, onde a água permanecia nos mesmos, ou era mudada para recipientes apropriados. Um consumo doseado até novo fornecimento. A água era poupada como quem poupa a vida. Não se podia perder uma gota sequer.

Nos primeiros tempos quando  os abnegados colonos alí se estabeleceram a partir dos anos 1860, o  abastecimento de água provinha de uma ou outra cacimba de água salobra na margem continental da baía. Na praia do lado da baía ficava o depósito de água que era reabastecido pelos  Save ou pelo 28 de Maio, a partir do Curoca ou de Moçâmedes. A água tinha sempre que ser fervida e filtrada em sangas como prevenção.

A partir dos anos 1950 antevia-se já o abastecimento de água à povoação, vinda da foz do Cunene. O sonho das gentes da Baía dos Tigres estava prestes a tornar-se realidade. Com a entrada nessa década, o governo português acabou por se render à audácia daquela gente abnegada e disposta a muito sacrifício, muito trabalho e privações extremas,  e por mandar edificar vários edificios públicos que ajudaram a tornar a  fixação humana possível: o posto sanitário, a escola, a estação radio-telégrafo-postal, o hospital, a delegação marítima , alinhando-se de um lado e do outro da única rua cimentada que serve também de pista de aviação.  E ainda uma Igreja , a Igreja de S. Martinho, cuja arquitectura imponente nos faz lembrar uma catedral, e que para a população dos Tigres era a sentinela vigilante, guardadora  e protectora, no interior da qual nemhum mal lhes podia acontecer.


Quanto ao abastecimento de água a partir da foz do Cunene, passado  que fora o periodo em  regime experimental  que durou até Março de1961,  a empresa responsável tinha feito a entrega das instalações aos Serviços de Obras Públicas de Angola. Em 1962 a população pôde ver correr pela primeira vez o preciso líquido nas torneiras suas casas.  Já podiam beber à vontade uma água de superior qualidade, já podiam lavar a sua roupa em condições, tomar o seu banho à vontade, e à vontade dar o banho aos seus filhos. Uma felicidade!

Mas a água correu nas torneiras da Vila de S. Martinho apenas no ano de 1962. Quiz o cruel destino, mais uma vez, castigar as esforçadas, sacrificadas e desafortunadas gentes  da Baía dos Tigres, dificultando-lhes de novo a vida. Nesse ano um fenómeno natural, que se concluiu ser ciclico, provocou a ruptura do istmo da restinga   no ponto em que  ligava a restinga ao Continente, destruindo naquele ponto a conduta de fibrocimento que conduzia a água através do Deserto, daí resultando o corte do fornecimento de água canalizada vinda do Cunene, à população.  A Baía dos Tigres deixara de ser uma restinga, passou  a ser uma Ilha...  No dia 14 de Março de 1962, pouco depois de ter sido construído o sistema de captação de águas na Foz do Cunene, o mar vingou-se com forte calema. Atirada de SW, bateu furiosamente a parte de fora do saco da restinga, com ondas de mais de dez metros de altura. Cortou a língua de areia que unia o continente à Baía dos Tigres e rompeu as condutas. Isolou ainda mais os sofridos pescadores que lá viviam e pendurou-lhe mais uma cruz nas costas. Foi um espectáculo enorme, segundo contam. E a que a população diminuta assistiu impotente e temerosa, sempre à espera de que a própria ilha fosse tragada pelo Atlântico. A verdade histórica é que tudo leva a crer que este fenómeno seja periódico. No Mapa Mundi de 1623 de António Sanches é assinalada uma restinga. Na Carta Geográfica da Costa Ocidental desenhada em 1790 por Pinheiro Furtado é uma ilha. Pedro Alexandrino visita-a em 1839 a bordo da corveta Izabel Maria e vê uma restinga. Mas em 1846, nos seus Ensaios Estatísticos, Lopes de Lima já fala outra vez em ilha. Em 1861, os primeiros pescadores Algarvios que aqui chegam encontram uma restinga fechada. A verdade é que desde 1962 até hoje é uma ilha.


O projecto de canalização da água tinha incentivado os industriais de pesca dos Tigres à montagem de novas fábricas e à remodelação das antigas, e levara ao aumento da população. Após esta calamidade, a autoridade, levada a agir de imediato,  viu-se obrigada a adquirir um rebocador que levava um batelão cisterna até ao terminal da conduta, junto ao Continente, enchendo-o de água que era bombeada para os depósitos existentes e distribuida à população seguindo as normas habituais.

A água continuava a chegar através do Deserto em boas condições, situação que facilitava o racionamento, que passou a acontecer sem necessidade das antigas restrições. Apenas se verificou a redução do consumo, através do controle de gastos. Enquanto os técnicos procuravam resolver o problema, o que levou 8 anos, foram construidos 3 depósitos, dois subterrâneos e um elevado, igualmente abastecidos pelo batelão cisterna, cuja capacidade de armazenamento já permitia algum desafogo.

Mas importa ainda referir, que no decurso do tempo, na tentativa de fornecer água à população, houve "soluções" intermédias, entre as quais a destilação da água do mar...

Com a chegada de Norton de Matos a Angola, em 1921, não tardou que uma onda de progresso sacudisse a Província. Os Tigres beneficiaram da acção daquele governante, pelo menos em parte. Entre outras medidas tomadas logo de início, Norton de Matos mandou instalar nos Tigres, no ano seguinte, um destilador de água do mar que produzia vinte e dois mil e quinhentos litros diários de água doce. Não era uma grande abundância, mas já era uma boa ajuda para os nossos pescadores do Deserto e sem os pesados encargos da que vinha de Moçâmedes. Embora a água destilada tivesse os seus inconvenientes para a saúde, era no entanto, água que podia ser bebida, o que não acontecia com a água horrorosa das cacimbas do outro lado, que os auxiliares de pesca africanos tiveram que beber muitas vezes até 1931, altura em que um chefe do posto mais enérgico pôs termo a essa desumana discriminação. 





Sanga

 Desenho de uma "sanga", por Carlos Janeiro  (1)




Quando em 1975 a população branca  da Baía dos Tigres, ou melhor de S. Martinho dos Tigres teve que abandonar a sua Ilha, em vésperas da independência, ante o fogo cruzado dos movimentos de libertação, em ambiente de total anarquia que tornara a vida impossível, com a administração portuguesa em retirada, e a internacionalização do conflito, a situação não se tinha alterado no respeitante ao fornecimentio de água, desde 1962.
Quem hoje visita a “Baía dos Tigres”, um dos mais desoladores da terra, poderá confrontar-se com toda uma série de edificações abandonadas que alí existiram na época colonial,  alguns dos quais em forma de palafita, assentes em pilares para deixarem  passar as areias das dunas movidas por ventos fustigantes que tudo cobriam à sua passagem, tornando a  fixação humana possível. Eram o posto sanitário, a escola, a estação radio-telégrafo-postal, o hospital, a delegação marítima , a imponente Capela de São Martinho,  alinhando-se de um lado e do outro, com a única rua cimentada  ali existente, que servia também de pista de aviação, autênticos monumentos históricos, que persistem em ficar de pé, resistindo ao tempo e à degradação,  simbolo do quanto pode a abnegação e a resistência humanas.

Esta é uma boa parte do drama de vida em que sempre viveu a população dos Tigres.
Ficam mais estas recordações. 

MariaNJardim





(1) Numa separata  do autor Cecilio Moreira, n.6 da Revista Africana. Univ Portucalense, Porto, 1990, com o título "Das Pedras de Filtro à Arte Funerária dos Quimbares no Sul de Angola", encontrei o desenho de uma "sanga" (desenho de de Carlos Janeiro) destinada a filtrar a água para beber, que existia em muitas casas no distrito de Moçâmedes.  A velha "sanga", que  conforme Cecilio Moreira, deixou saudades a quem mourejava pelas plagas africanas de Angola... Não só filtrava a água, como a tornava muito fresca e dava-lhe um gostinho muito agradável...

 Eram construidas por artistas canteiros do Distrito de Moçâmedes (quimbares), que utilizavam para o efeito um bloco de pedra  de forma de cubo ou de paralelipípedo, (pedra de filtro de Moçâmedes, feita de um arenito existente na região), que desbastavam com maceto de ferro e cinzel até ganharem a forma interior e exterior pretendida. 

Na cavidade cónica ficava o depósito de água a ser filtrada (ia de 5 a 25 litros, tudo dependia do tamanho da "sanga"). A água infiltrava-se através dos poros da pedra e corria para dentro de um pote de barro. A utilização destes filtros era possível porque assentavam sobre um armário de madeira que tinha uma porta para o interior, onde era colocado um recipiente para aparar a água que para ali caia muito lentamente. Esse armário podiam ser de vários feitios, mais simples ou mais elaborados, e também servia de decoração. Era ao conjunto da pedra e armação de madeira que a suportava,  que se dava o nome de "sanga".

Eram, regra geral, colocados em varandas, e escolhia-se o lado dos ventos predominantes para que a água se mantivesse o mais fresquinha possível. Lembro-me que com o rodar o tempo a parte de baixo e exterior da pedra cobria-se de avencas. Para se fazer uma ideia do apreço que se tinha por estas sangas, em 1857 e 1858, menos de 10 anos após a fundação, segundo um apontamento do médico Dr Lapa e Faro, foram exportadas 150 pedras de filtro pela Alfândega de Moçâmedes, a 3 mil e 5 mil reis por unidade. Apontamentos existem que referem terem sido bons clientes desta pedra, na 2ª metade do sec XIX, a Ilha de Santa Helena,a Costa Oriental, o Congo belga, o Congo francês, S. Tomé, e o Gabão. A pedra de filtro iria dar lugar, também, à célebre arte funerária Mbari ou Mbali, arte do povo quimbar.  (2)


 Ficam mais estas recordações.
MariaNJardim




 Bibliografia consultada:

-Moreira, Cecilio.  "Baía dos Tigres"
-"Jornal O Namibe", Moçâmedes, 23.09.1972
- B. O. II série, n.19, de 15.05.1929.
 -Cerqueira, Maria Manuela . "Menina do Deserto, Lisboa. Agência Geral do Ultramar, 1969.
-Districto de Mossâmedes, Explorações e Viagens por J.Pereira do Nascimento 1888 a 1895

sábado, 9 de Agosto de 2014

Subsidios para a História da colonização de Mossâmedes,Moçâmedes, actual Angola e para a biografia do seu fundador, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro





A AFRICA PORTUGUEZA


"...As colónias africanas eram o vazadouro para despejávamos todas as fezes que tínhamos no reino. Com degredados as povoávamos, com degredados formávamos o seu exercito e, quando não eram degredados, que o compunham, eram
batalhões expedicionários que levavam do continente os mais torpes elementos das tropas nacionaes. Em 1817, quando acabou a guerra peninsular (…)
Em 1835, pouco depois de ter acabado a guerra da liberdade, quando se quiz mandar uma expedição para Cabo-Verde, organisou-se um batalhão com os soldados mais ruins e indisciplinados que havia, não no exercito vencedor mas no exercito vencido. Por isso, a façanha que esse batalhão praticou foi matar todos os seus officiaes, á excepção de um ou dois alferes, que escaparam por
milagre 

Se essas "colónias não eram senão ninhos de escravos, e era a escravatura a única fonte da sua receita ! . . . Sá da Bandeira appareceu,  esse animo
generoso. Promulgou a lei de 1836 que abolia a escravatura, e procurou fazel-a cumprir. Mas todos os interesses feridos se sublevavam contra elle. Alcunhavam-no de utopista, accusavam-no de arruinar as colónias. Os governadores que iam parao ultramar, com ordem expressa de acabar com
o odioso trafico, viam-se obrigados a transigir, ou a fugir.

Em Moçambique, o marquez de Aracaty, um Oeynhausen, tinha de suspender a lei de 1836 os escravistas não a deixavam executar.

D. António de Noronha em Angola, depois de uma formidável, tinha de fugir quasi para a Europa. Joaquim Pereira Marinho, em Moçambique,via-se salteado por toda a espécie de calumnias, e por uma guerra ferocíssima, porque effectiva-
mente debellava os escravistas. O tratado com a Inglaterra concluído em 1842 impunha-nos sacrifícios enormes, sujeitava-nos a continuados vexames, e a tudo nos resignávamos para cumprir lealmente a nossa missão emancipadora. E, em-
quanto o cruzeiro portuguez se mostrava implacável com os navios que transportavam escravos,emquanto as nossas colónias definhavam porque perdiam uma receita que não era substituída, os navios inglezes tomavam os negros es-
cravos não para os libertar, mas para os levar ás suas colónias, e estas floresciam com o trabalho gratuito dos braços que á escravatura deviam.

De vez em quando algum estadista, algum governador do ultramar pensava nas colónias, muito de relance comtudo, que as guerras civis absorviam-nos. Bonitas palavras na camará de vez emquando, actos raríssimos. Apparecia Pedro Ale-
xandrino em Angola, procurando explorar e conhecer a província, implacável com a escravatura, mas tentando deveras fazer alguma coisa útil.

Depois em 1849 appareceu também um homem dedicado, enérgico, de verdadeira iniciativa, Bernardino Freire de Abreu e Castro, que era o verdadeiro fundador da colónia de Mossamedes. Luctava com innumeras dificuldades, mas a colónia
lá ia rompendo lentamente, até que afinal se transformou na villa, que é hoje uma das nossas glorias ultramarinas. Ha quarenta annos !

E pouco mais se fazia ! 

Em 1852 appareceu um decreto, em cujo preambulo se dizia pomposamente que, sendo notório e incontestável que innumeros emigrantes portuguezes iam procurar trabalho no Brazil, sonhando phantasticas riquezas e não encontrando afinal senão a miséria e a morte, sendo incontestável ainda que os madeirenses iam procurar em Demerara, nos climas inhospitos da Guyana ingleza, as febres que faziam d'essa colónia britânica um cemitério para os portuguezes, era indispensável que se tratasse de derivar para as nossas colónias africanas essa
emigração nacional, e com esse louvável intuito de crear um imposto nas colónias sobre a importação dos vinhos e aguardentes de Portugal. Pa-
lavras, e só palavras !

Trinta e três annos depois é que o auctor destas linhas fundava n'esse districto de Mossamedes, tão claramente indicado para a colonisação por-

segunda-feira, 28 de Julho de 2014

Mossâmedes, Moçâmedes, hoje Namibe: a iluminação eléctrica






O aspecto féerico da Avenida da República, na zona que sobe para o Palácio da Justiça e o Espelho de água ladeado por 2 gazelas Anos 1950







Falar de iluminação de rua em Moçâmedes, a antiga Mossâmedes, actual Namibe, obriga-nos  a recuar no tempo até pelo menos ao início do século XX, data previsível dos postais que apresento a seguir, e que testemunham  a existência de candeeiros, naturalmente alimentados a óleoe ou a petróleo, talvez mesmo óleo de cetáceos capturados e industrializados por uma fábrica que noruegueses possuiam na Praia Amélia, ou talvez de outra proveniência.






Este postal, que situo no início do século XX, talvez 1907, data da subida de Moçâmedes de vila a real cidade,  e nesse caso com a real presença do Principe D. Luiz Filipe, exibe um candeeiro de iluminação a óleo que pode ser visto junto ao Coreto do Jardim. Nesta altura a moda feminina era ainda o vestido comprido como se pode vêr. Sei por uma foto da minha avó,  que em 1912, as senhoras, em Moçâmedes ainda usavam  vestidos compridos (nem que fosse para a fotografia...). Na verdade, foi a 1ª Guerra Mundial (1914-18) que levou ao encurtamento da moda feminina, a partir do momento em que mulheres europeias foram encorajadas a entrar no mercado de trabalho, incluindo a indústria de munições, enquanto os homens eram alistados para as frentes de batalha.Os vestidos compridos só empatavam e deixaram de ter razão de existir.  Estou falando nisto, compreenda-se,  apenas para  situar no tempo a data do postal que já exibe a presença de um candeeiro de iluminação pública,  naturalmente alimentado a óleo.
O mesmo tipo de candeeiro podemos ver no interior do "Jardim da Colónia" , o jardim que até aos anos 1930 existiu no local onde na década de 1940 foi erguido o Cine Teatro Moçâmedes. Dizem que este gradeamento foi aproveitado de um outro largo e trazido para aqui. Esse outro largo era o Largo Sá da Bandeira , erguido à memória do ilustre General que mandou abolir, através do decreto de 10 de Dezembro de 1936, o tráfico de escravos. Ficava num largo, onde mais tarde foi construida a Escola Portugal (Escola n 55 ).



Este postal mostra-nos vários candeeiros na Avenida, então denominada Avenida D Luiz. Assim se denominava antes da queda da monarquia . Depois de 1910 passou a Av. da República. D. Luiz, filho de D. Maria II, que herdou a coroa em 1861, um rei culto de grande sensibilidade artística, que pintava, compunha ,  tocava  piano e violoncelo, e falava correctamente algumas línguas europeias. Era principalmente um homem das ciências, apaixonado pela oceanografia, foi um modelo de monarca constitucional, respeitador escrupuloso das liberdades públicas. Foi contemporâneo da Questão Coimbrã (1865-66), das Conferências do Casino Lisbonense (1871)  a que andavam ligados  nomes de  expoentes de uma geração que se notabilizou na vida intelectual portuguesa, Antero de Quental e Eça de Queiroz, entre outros. De temperamento calmo e conciliador, foi um modelo de monarca constitucional, respeitador escrupuloso das liberdades públicas.Falecido em 1889, seu reinado foi rico em acontecimentos: 1884/5 foi efectuada a Conferência de Berlim, resultando daí a apresentação por Portugal do Mapa-cor-de rosa que levou à "partilha de África" pelas  grandes potências europeias.Também no seu reinado foram fundados alguns dos partidos políticos portugueses, como o Partido Reformista, em 1865, o Partido Socialista português, em 1875, com o nome de Partido Operário Socialista, e o Partigo Progressista, em 1876 , e deu-se a  realização do Congresso de Comissão Organizadora do partido Republicano.


 Pespectiva da Rua da Praia do Bonfim e Avenida, onde se pode ver mais um candeeiro de iluminação publica. Por esta altura ainda não existia o edifício que conhecemos como do Banco de Angola, mas que foi inaugurado vomo filial do Banco Nacional Ultramarino que lhe antecedeu.
 Pespectiva da Praça Leal em Moçâmedes, onde cse pode ver também, um candeeiro de iluminação pública existente à época.

 
Postes de iluminação pública junto ao Observatório Metereológico, «GOMES DE SOUZA», erguido por subscrição pública, e inaugurado em 1903



 

Outro testemunho da existência de candeeiros de iluminação de rua. nesta foto dos Armazens Printemps no edificio de Mendonça Torres, gaveto entre a Rua dos Pescadores e a Rua 4 Agosto



 
Num tempo intermédio entre o primitivo  e rudimentar tipo de iluminação de rua alimentada a óleo e  a iluminação  proveniente da Barragem da Matala, após 1959, a electricidade em Moçâmedes era conseguida através de dois geradores, estes inicialmente instalados num armazém que conhecíamos como a "Casa da luz", e ficava na Rua Bastos, a rua que sobe junto à Capitania e à Fortaleza, paralela à Avenida da República, tendo  esta mais tarde passado para um outro armazém  situado por detrás do edificio do  Cabo Submarino, a caminho da Aguada. A  "Casa da luz" inicial acabaria transformada em quartel dos Bombeiros, sob a orientação do Comandante Sacadura Bretes.

Não sei a  partir de quando o sistema na base de geradores se instalou em Moçâmedes. Sei que por volta de finais de 1940, inicios de 1950, embora havendo iluminação de rua à base de geradores eléctricos, muitas casas em Moçâmedes eram ainda iluminadas a candeeiro a petróleo, ou a petromax, sobretudo as mais afastadas do centro. Sei também que os candeeiros de rua acendiam apenas entre as 18 hs e as 21 hs. A cidade a partir dessa hora e até ao romper do dia ficava completamente às escuras. O Cine Teatro de Moçâmedes, o popular Cinema do Eurico, para poder funcionar tinha um gerador de electricidade próprio, que ficava numa casa tipo armazém que existia ao lado, onde mais tarde foi construido um edificio  horizontal de 2 andares, onde abriu o Café Avenida, de Mário Martins. Foi nessa casa tipo barracão que Eurico Martins perdeu um braço, apanhado  pela correia do mesmo gerador enquanto trabalhava.

Era um tempo em que, sem luz eléctrica, sem TV nem computadores, às 20/21 horas toda a gente ia para a cama.  O bairro da Torre do Tombo, por exemplo, só teve iluminação eléctrica de rua já depois de 1956.  Lembro-me de um dia ter saido de minha, casa na Torre do Tombo,  com a minha mãe,  na direcção da Estação do Caminho de Ferro,  para apanhar o combóio para Sá da Bandeira, antes do nascer do dia, com a cidade completamente às escuras. Ia cheia de medo. Lembro-me também  de  estudar à luz do candeeiro a petróleo, e dos petromax que iluminavam mais fortemente. Os primitivos postes eléctricos, os desta fase, eram em forma de ponto de interrogação, feitos em ferro pintados de cinzento prateado.

Andava eu no ciclo preparatório da Escola Comercial (ex Escola de Pesca), isto em 1951/52/53, quando a  iluminação por cabo subterrâneo começou  a ser montada na  parte mais central da cidade de Moçâmedes.  Recordo-me perfeitamente de diariamente passar pela zona do Tribunal (também à época em construção), no topo da Avenida da República, e ver o pessoal abrir a pá e picareta, valas para introdução dos cabos de electricidade. Era uma empresa espanhola e havia grandes rolos de madeira onde o cabo da electricidade vinha enrolado, com a designação: "Los cables del Lion". 

Luz eléctrica em termos modernos é preciso que se retenha isto, não existia nesta fase. Esta só chegou mesmo com a  inauguração da Barragem da Matala, se não estou em erro em 1959/60. E  quando chegou  a luz da Barragem da Matala, a estação de electricidade já  mais aparatosa ficava na Aguada, a seguir à loja do Mamedes dos Caranguejos.

Foi pois, gradual, a evolução do sistema de iluminação pública na cidade de Moçâmedes. Primeiro alimentada a óleo/petróleo, depois a geradores, finalmente por via da electricidade transportada da Barragem da Matala.

Mas porquê tanto atraso?

Recuemos de novo no tempo...
Angola padeceu durante demasiado tempo de uma situação de indiferença por parte do governo central.
De nada serviram os sonhos de Norton de Matos que nos anos 1920 chegaram a fazer nascer a esperança de uma mão cheia de grandes projectos para a colónia. Sem um Banco financiador à altura, nem um Estado empenhado, o pouco que se ia conseguindo era, como disse, como que arracado a ferros. 

Em Janeiro de 1934 publicava o “Semanário Mossâmedes” , em  notícia assinada por or J.A.M., que desde 1928, não obstante a Câmara Municipal de Moçâmedes ter à sua frente um grupo de residentes empenhados ---- que os levou a partir para um projecto de construção de passeios, marcos fontenários, arborização dos bairros da Torre do Tombo e Aguada, abertura de novas ruas e nivelamento de largos, etc,  e de em Janeiro de 1934  estar lançada a "continuação da Avenida da República", com o grande empenhamento de Fernando Pestana na transformação daquela que consideravam a mais bela avenida da Província, e do empenhamento de outras personalidades tais como o Governador José Pereira Sabrosa, o Capitão José Maria de Mendonça, o Comandante Engenheiro Mello Vieira, e o Director dos Portos e Caminhos de Ferro do Sul, que tornaram possíveis o desmoronamento do morro que cercava a Fortaleza de S. Fernando e o atêrro do largo destinado ao Estádio Municipal ---- esses melhoramentos eram de dificil realização. 

Publicava-se também no mesmo “Semanário Mossâmedes” a notícia, assinada por or J.A.M., de que por esta altura faziam parte da Câmara Municipal de Moçâmedes, António Monteiro Portela, Fernando Pestana, Bernardo de Figueiredo, Joaquim Afonso Salavisa, Oscar Duarte de Almeida, Herculano Morgado, José Augusto Vilela e J.A. Monteiro, e que o programa dos melhoramentos para a cidade englobava a montagem da luz eléctrica para fornecimento a particulares, a rede de esgôtos e canalização de água, entre outros, para a qual se empenhou o vereador do pelouro, Bernardo Figueiredo.

Em Janeiro de 1934 conforme se publicava no já atrás referido “Semanário Mossâmedes”, estes melhoramentos embora fossem de fácil realização eram de difícil concretização dada a exiguidade do orçamento, sendo feitas ao Governo inúmeras exposições a solicitar um empréstimo da ordem dos 3000 contos, embora autorizados pelo conselho de ministros, tardavam em ser efectivados, encontrando-se adiada a montagem da luz eléctrica e a higiene da cidade. Entretanto ainda muito tempo iria passar para que se chegasse à concretização do sonho...





 



No entanto a nossa cidade, inda assim, ia a muito custo ganhando estrutura e beleza, exibindo aos visitantes a mais bela Avenida de toda a Angola...

Portanto, a cidade que hoje, na Angola independente, conhecemos por  cidade do Namibe, desde os tempo em que se chamava Mossâmedes, depois Moçâmedes, teve um percurso de desenvolvimento lento da sua economia, por imperativos do modelo de colonização imposto pela Metrópole, e só mais tarde, na célebre década de 1960, quando tudo em Angola começou a mudar ..., veio a ser contemplada com a chegada  da luz eléctrica da barragem da Matala, já nos anos 1960. Ao nível da habitação, uma vénea à Sociedade Cooperativa "O Lar do Namibe" e ao seu fundador, Mariano Pereira Craveiro, um homem anti-regime, a quem as gentes de Moçâmedes muito ficou a dever. Na sua maioria, as familias de então viviam do vencimento único do chefe de família, e puderam finalmente aceder ao sonho de ter casa própria. Uma actividade que acabou por se estender  à cidade de Porto Alexandre (hoje Tombwa), à cidade de Serpa Pinto (hoje Menongue), e por se expandir por toda a Angola e restantes ex-províncias ultramarinas, chegando mesmo à Metrópole da época (Portugal) onde já havia associados, uma vez que não existiam à data, em Angola, financiamentos bancários à habitação própria.

Foi assim que na cidade de Moçâmedes começaram a surgir ,  fora do "centro histórico" , bonitas vivendas e moradias, o que permitiu à cidade modernizar-se, alindar-se, e ir vencendo as areias do deserto, transformando-se na bela cidade que um dia, empurrados pelos "ventos da História", tivemos que abandonar...


MariaNJardim (das minhas memórias...)







sexta-feira, 11 de Julho de 2014

Mossâmedes (Moçâmedes/ Namibe) : Escritura de Promessa e Voto em 04 de Agosto de 1859, no reconhecimento da Proteção Divina


BRAZÃO DE MOSSÃMEDES
(Actual Namibe)





O Sarau

Transcrição Integral da Escritura de Promessa e Voto

Escritura de Promessa e Voto que fazem Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro; e José Joaquim da Costa, em 4 de Agosto de mil oitocentos e cinquenta e nove.
Saibam quantos este público instrumento de escritura virem, que sendo no ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e cincoenta e nove anos, aos quatro dias do mês de Agosto de dito ano, em esta Vila de Moçâmedes, e meu cartório, apareceram em suas próprias pessoas Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro e José Joaquim da Costa, reconhecidos por mim como os próprios que dou fé; e disseram que concluindo-se hoje quatro de Agosto, dez anos, depois que chegaram a este porto de Moçâmedes os primeiros colonos, vindo em seguida outros unir-se a seus irmãos de Pátria, e leais sentimentos, todos dispostos a promoverem nesta Província da nossa África Ocidental em geral, e em especial no limite de Moçâmedes, a agricultura, as artes e a indústria lícita; e como a Divina Providência concedeu a vida, as forças, a coragem e a perseverança a muitos, que puderam conseguir e cumprirem os desígnios com que das terras do Brasil se transportaram às d'África; reconhecendo todos a visível e manifesta Protecção Divina, sem a qual jamais poderiam ter arrostado com tantos contratempos, trabalhos, privações, e até com certa oposição, que se não foi directa, o foi indirecta; publicando-se que Moçâmedes era sòmente um areal e para nada prestava, tentando desta arte esfriar a acção do Governo e a protecção do mesmo, da qual tanto carecem as Colónias nascentes; o que todavia jamais poderão conseguir; reconhecendo todos os colonos, tornaram a dizer os referidos Figueiredo e Costa, a bem da manifesta Protecção da Divina Omnipotência, resolveram de comum acordo dar um testemunho público deste seu reconhecimento, testemunho que isto atestasse às gerações vindouras, fazendo como faziam a mais solene promessa e voto de em todos os anos e no dia quatro de Agosto, se celebrar na Igreja Matriz desta Vila uma missa rezada actualmente e cantada com Te Deum Laudamus, logo que as proporções de Moçâmedes o permitam; e isto em acção de Graças ao Omnipotente por ter conservado a vida, as forças, a coragem e a perseverança àqueles que hoje reunidos no Templo dão de sua gratidão um testemunho público. Disseram mais os referidos que por si, e por todos os Colonos, impunham a eles próprios e àqueles que depois deles possuissem por qualquer título as suas fazendas, e engenhos Purificação da Luta nos Cavaleiros; e Patriota na Boa Vista, frutos de tantos trabalhos, diligências, despesas e cuidados, a obrigação de satisfazerem ao Reverendo Pároco da freguesia Matriz em todos os anos no dito dia quatro de Agosto, a quantia de oito mil reis, moeda corrente na Província enquanto a Missa fosse rezada; e quarenta mil reis logo que fosse cantada, e com Te Deum, para que o dito Reverendo Pároco celebrasse a Missa rezada no referido dia mediante a esmola de oito mil reis; ou cantada e com Te Deum mediante a de quarenta. E para constar em todo o tempo e ninguém poder alegar ignorância de que as ditas fazendas e engenhos são sobrecarregados com o onus de seus possuidores pagarem anualmente cada um metade das acima mencionadas quantias, e no referido dia quatro de Agosto ao Reverendo Pároco, faziam eles Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro e José Joaquim da Costa esta escritura pública, declarando ser esta a sua livre e espontânea vontade. Depois de escrita esta eu Tabelião a li perante eles outorgantes; e testemunhas presenciais, João Duarte de Almeida, negociante e proprietário, e João Cabral Pereira Lapa e Faro, facultativo deste partido, ambos moradores nesta sobredita Vila e são os próprios que assinam com eles outorgantes e comigo João Caetano Alves, Tabelião a escrevi e assinei em público e razo e de meu uso que tal é
Em Testemunho de Verdade
O Tabelião,
João Caetano Alves
Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro
José Joaquim da Costa
João Duarte d'Almeida
João Cabral Pereira Lapa e Faro


quinta-feira, 10 de Julho de 2014

António Sérgio de Sousa, o 1º Governador de Mossâmedes e o estabelecimento da 1ª colónia em 1849 in Boletim do Conselho Ultramarino, vol 1.




 Capitão de Fragata António Sérgio de Sousa, 1º Governador do Estabelecimento de Mossâmedes(Moçâmedes - Namibe)
1849



Subsídios para a História de Moçâmedes/Namibe. António Sérgio de Sousa (19.1V.I849 -1851), Capitão de Fragata, 1º Governador de Mossâmedes

Clicando no link que segue, os interessados poderão consultar o Boletim do Conselho Ultramarino, vol 1, onde se encontram, nas pgs 660 a 668, as instruções dirigidas pelo Visconde de Castro, Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, ao Capitão de Fragata António Sérgio de Sousa, nomeado Governador do Estabelecimento de Mossâmedes e da colónia agrícola, que do Brasil para alí se acha destinada:

http://books.google.pt/books?id=gcorAQAAMAAJ&pg=PA660&dq=António+Sérgio+de+Sousa%2C+1º+Governador+de+Mossâmedes&hl=en&sa=X&ei=f355Uo2kDcaQ7AbvlICACA&ved=0CDsQ6AEwAg#v=onepage&q=António%20Sérgio%20de%20Sousa%2C%201º%20Governador%20de%20Mossâmedes&f=false