Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 7 de fevereiro de 2016

ILHA DE SANTA HELENA






A propósito de uma notícia, datada de 03-07-2010, e publicada no site"Ango Noticias", relacionada com o líder do Partido Democrático Angolano(PDA), António Alberto Neto, que defende a ideia de que o governo angolano devia encetar negociações diplomáticas a fim de obter a soberania de várias ilhas na Antártida, actualmente sob tutela da Grã-Bretanha, ideia contida aliás, num livro que o político lançara com o título «A Outra Face de Angola», onde reivindica a soberania sobre certas ilhas no continente antártico, com destaque para Santa Helena, onde Napoleão Bonaparte Bonaparte esteve exilado e onde acabou os seus dias envenenado. Ou seja, 
"... na sua ZEE, Zona Económica Exclusiva. Junta outras ilhas, casos de Bouvet, Mone Maud e Terra da Nova Suécia, que se situam entre o território Sanae, pertença da África do Sul, e a Novalazareskaia, sob tutela da Rússia. «O continente antárctico deve pertencer também aos países africanos, pois dele depende a sobrevivência da Humanidade, e o seu uso deve ser para fins pacíficos», fundamenta Alberto Neto, que em tese compara a situação ao caso das ilhas Malvinas, cuja soberania é reivindicada pela Argentina, que durante a década de oitenta chegou mesmo a envolver-se numa guerra com a Grã-Bretanha. Polémica ou não, a ideia está posta à mesa. Embora muitas das ideias que Alberto expende no seu livro sejam velhas de anos, ao editá- las agora significa somente que este velho político as mantém. Algumas são mesmo alvo de recensões e actualizações. Folheando os arquivos da história, consta que Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola independente, terá tido isso em mente, chegando em determinada ocasião a mandar farpas ao Ocidente. Para Alberto Neto, que foi um discípulo de Agostinho Neto, não se trata de uma ideia estéril, sem qualquer utilidade prática para o país. Ele acha que Angola poderia estabelecer na Antártida uma base de estudo – à semelhança da África do Sul, Argentina e Chile – que serviria fundamentalmente para fazer um acompanhamento das riquezas desse continente. Serviria ainda, segundo ele, para coisas como o monitoramento da «corrente fria de Benguela e do plâncton acumulado no fundo do mar e depositado na nossa costa. "

FIM DE CITAÇÃO.

A ILHA DE SANTA HELENA
(alguns subsidios para a sua História)

Falemos agora um pouco da Ilha de Santa Helena, a pequena e isolada ilha situada entre Angola e o Brasil, quase a meio do Oceano Atlântico, pertencente ao arquipélago com o mesmo nome, formado por três ilhas, distantes 5.000 quilômetros entre si: Ilha de Santa Helena, ilha Ascensão, e ilha Tristão da Cunha, descoberto por acaso, em 1502, por João da Nova, navegador turco galego, ao serviço de Portugal, que fez parte, no passado, da rota dos navegadores portugueses a caminho da Índia. 
A descoberta da Ilha por portugueses foi mantida em segredo durante bastante tempo, para evitar que holandeses e ingleses se apossassem dela.

Ao tempo da sua descoberta, as ilhas eram desabitadas, e a Ilha de Santa Helena recebeu o seu primeiro habitante permanente, o soldado português Fernão Lopes, que permaneceu isolado em Santa Helena de 1515 a 1545, excepto durante uma breve visita que ele fez à Europa, após 10 anos de isolamento na ilha. Mas na verdade Portugal nunca a colonizou, e a ilha acabou ocupada no século XVII sucessivamente por Holandeses, em seguida por Ingleses, passando em 1673, definitivamente à posse da Inglaterra.  Há notícias que no século XVI, a Ilha de Santa Helena foi usada como base para as aguadas e para o abastecimento das tripulações, ponto de passagem dos navios negreiros ingleses para as Américas. Os cidadãos de Santa Helena são pois, brancos, filhos de ingleses, não falam a língua dos portugueses que a descobriram. Ao arquipélago nunca chegaram as invasões banto, nem nunca lá esteve algum banto. A escolha do nome para o arquipélago deve-se a Helena de Tróia, santa da promiscuidade.

Santa Helena foi também lugar de degredo, para onde a Inglaterra mandava seus presidiários de altíssima periculosidade. Aliás, a Ilha de Santa Helena ficou famosa porque a determinada altura da ocupação inglesa recebeu um hóspede muito especial, Napoleão Bonaparte, depois de ser expulso da França, como cidadão-non-grata e traidor da república. Foi em Santa Helena, seu segundo exilio, o local onde o envenenaram com os característicos copos de leite matinais com arsénico, matando-o. Napoleão morreu no dia 05 de maio de 1821, no mesmo ano em que Dom João VI, que se refugiara no Brasil com a corte, fugindo às invasões francesas, regressou a Portugal, e desembarcou em Lisboa no dia 04 de Julho de 1821, após a queda do absolutismo em Portugal e triunfo dos liberais, em 1820.

A ilha de Santa Helena tem uma população de aproximadamente 4 mil habitantes, sendo a maioria descendentes dos colonos britânicos, dos empregados da Companhia Britânica das Índias Ocidentais e dos trabalhadores trazidos do sul da Ásia, Índias Ocidentais, Madagascar e China

O arquipélago não possui aeroporto e para acudir a toda e qualquer coisa que ocorre na ilha os habitantes servem-se de um barquinho pesqueiro chamado RSS SOS. No entanto chega-nos presentemente a notícia do fim da era de isolamento em Santa Helena. Voos regulares começam em Maio de 2016 no local onde viveu um Robinson Crusoe português. Um dos locais mais isolados e difíceis de visitar no planeta quase a meio do Atlântico Sul, a 2200 quilómetros da costa angolana, passará a ter um aeroporto. Será o fim de séculos de reclusão.

A Ilha de Santa Helena não possui riquezas, vive de ajuda da Inglaterra. Só para ter uma noção, a Ilha não possui nenhuma praia, sendo o seu litoral completamente rochoso, o que impede grandes projectos para desenvolvimento do turismo. A economia local baseia-se no turismo de pessoas endinheiradas que não se importam de viajar para o fim do mundo, apenas para ver a última cama de Napoleão, o último copo de Napoleão e vários outros apetrechos fim-napoleónicos mantidos intactos.  Para os naturais da ilha onde chegaram os portugueses em Maio de 1502, o turismo poderá mudar de maneira permanente o modo de vida local. A construção de hotéis - há inaugurações já para este ano -, estâncias balneares, a venda de propriedades, a própria pressão demográfica deixarão marcas na ilha que tem uma superfície de 122 km2 (a do Faial, nos Açores, tem 172 km2 e 15 mil residentes), paisagens deslumbrantes e uma temperatura média entre os 20-27 graus.

Voltemos aos comentários ao texto publicado em 3-07-2010, pela "Ango Noticias" sobre as declarações do do líder do Partido Democrático Angolano(PDA), António Alberto Neto:

"Samuel Rodrigues (Luanda): Se a ignorância pagasse imposto muitos agora estariam completamente carimbados. E aqui se inclui o autor de tão absurdas declarações. Como alguém formado em Direito e docente universitário era de esperar que numa questão como esta, que nada tem de polémica, se pretenda fazer crer que a isolada ilha de Santa Helena, situada no Oceano Atlântico, é parte do território da República de Angola. Nada mais falso e desprovido de qualquer sustentação. Não seremos menos angolanos, menos patriotas por reconhecermos isso. Nem é pelo medo de afrontar quem lá está e detém a soberania, no caso a Inglaterra. De acordo com a Carta da União Africana, no seu artigo 4.º, alínea b), as fronteiras dos países africanos são as existentes desde o momento da acessão à independência, princípio que já havia sido invocado com a Carta da OUA. Nós que até vivemos o problema de Cabinda não faz nenhum sentido que agora apareçamos aqui a fazer pronunciamentos dessa natureza. Considerar Santa Helena como território de Angola é uma grande farsa e sem sentido. Nunca foi. As fronteiras dos países africanos são resultado da colonização. No caso de Angola, esse território temo-lo com essa extensão e configuração como resultado das conquistas dos colonos portugueses. Antes nunca houve uma Angola. Muito meno uma que integrasse essa distante ilha de Santa Helena. É nosso dever cívico esclarecer isso. Aquando da descolonização, em momento algum ficou discutido que se devia rever a titularidade daquele território. Nem sequer era um assunto."

Outro comentário, este de "Santa Helena não é nossa!" :

"De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, os países costeiros têm direito a declarar uma zona económica exclusiva ZEE) de espaço marítimo para além das suas águas territoriais, na qual têm prerrogativas na utilização dos recursos, tanto vivos como não-vivos, e responsabilidade na sua gestão. A ZEE é delimitada por uma linha imaginária situada a 200 milhas marítimas da costa. A ZEE separa as águas nacionais das águas internacionais ou comuns. Santa Helena está a 1.000 milhas da foz do Cunene, o ponto mais próximo da Costa. "

Ainda outro comentário de "BB":

"Santa Helena é de quem lá está!!! E se não estiver ninguém, é de quem lá chegou primeiro. Senão, mudo de opinião e acabo por dar razão aos grupos independentistas cabindeses."

FIM DE CITAÇÕES E DO TEXTO


Foto 1: Ilha de Santa Helena no Atlântico Sul. A aproximação desta ilha foi severamente bloqueada após o desembarque de Napoleão Bonaparte. Este bloqueio durou até 1821, ano da morte deste prisioneiro especial.. A ilha é uma das emergências de uma cadeia de montanhas submersas que existe entre a África e a América.

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro






(Um dos livros de autoria de Bernardino (1847), recentemente reeditado no Brasil)

Enquanto se dedica ao ensino de História, Geografia e Latim escreve, ainda, em 1841 a História Geral em seis volumes:

1- História Sagrada do Antigo Testamento
2- História da vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos e História dos Judeus
3- História Antiga e Grega
4- História Romana e da Idade Média
5- História Moderna
6- História de Portugal e do Brasil

Em 1845 edita o Compêndio Elementar de Chronologia




SELO COMEMORATIVO DO CENTENÁRIO DA FUNDAÇÃO DA CIDADE
(Réplica da barca Tentativa Feliz que transportou os colonos)

Esta parte do texto do livro de Gil Duarte, diz tudo. Para que Bernardino, finalmente, não seja ignorado pelos seus conterrâneos, vamos concretizar essa homenagem por ocasião do bicentenário do seu nascimento.


“…um dos maiores beirões….”

Descendentes de Bernardino, conforme livro do poeta Gil Duarte


sábado, 19 de dezembro de 2015

"Mossamedes 1914" : a marcha de regresso a Moçâmedes histórias sobre a guerra


O Tenente-Médico António Monteiro de Oliveira (à direita)
e um companheiro de armas, numa foto tirada em Moçâmedes, em 1915.



Sobre esses momentos históricos que ficaram a marcar a História da colonização de Angola,  encontrei no site http://antigamente1900.blogspot.pt/search/label/CEP Marco Oliveira,  material interessante colocado pelo seu autor, que procura deste modo dar a conhecer essa parte do espólio do seu avô, que participou nas marchas no Sul de Angola, e  nas trincheiras em França, e  deixou, entre outras recordações, postais que  são testemunhos silenciosos do mundo em que ele viveu. 

Procurando introduzir o tema, direi que , na Europa estalára a I Grande Guerra (1914-18). As operações militares no sul de Angola (1914)haviam conduzido à acção indecisa de Naulila, que tivera como consequência a inutilização da soberania no Cuamato, no Humbe e no Evale. Nova expedição metropolitana chega a Angola em 1915, sob comando do General Pereira d’Eça e desta vez a ocupação atinge a actual fronteira a sul, abrangendo os territórios perdidos no ano anterior e o Cuanhama, até então impenetrável.


Eis alguns aspectos retirados ao referido site, relacionados com os incidentes na fronteira sul de Angola, na fase final das Campanhas, que passo a transcrever:

 ".... O meu avô contava muitas histórias (na próxima semana espero publicar aqui algumas) e trouxe vários postais. Num envelope com a inscrição "Mossamedes 1914", encontrei duas colecções de postais sobre esta cidade. Hoje fica aqui a primeira dessas colecções. http://antigamente1900.blogspot.pt/search/label/Angola

 "....Em 1915, com a rendição das forças alemãs do Sudeste Africano ao exército sul-africano e a destruição de vários aldeamentos cuanhamas no sul de Angola, a expedição comandada pelo general Pereira d’Eça devia agora iniciar o regresso ao ponto de embarque. Esgotadas pelas constantes movimentações, pelas condições do território (onde grassava uma seca há mais de quatro anos) e por alguns confrontos, o regresso foi uma longa e penosa marcha que as tropas tiveram de realizar em direcção a costa.

Os dias do regresso sucederam-se monotonamente e sem grandes sobressaltos. Das memórias desses dias, o meu avô repetia com frequência o episódio em que se perdeu numa caçada.

Foi durante a marcha de regresso a Moçâmedes que decidiu acompanhar um companheiro de armas numa caçada. Levando um cão que farejava possíveis presas, percorreram a savana devastada pela seca sem nada encontrarem. Ao fim de algumas horas, o meu avô – que não era caçador - desistiu da caminhada e regressou ao acampamento. O seu companheiro que persistia em incitar o cão a procurar alguma pista Caminhando sozinho pelo mato, percebeu ao fim de algumas horas que não encontrava vestígios do acampamento. Estava perdido no mato. Sem quaisquer referências resolveu parar. Talvez não estivesse longe do acampamento, mas caminhar ao acaso podia levá-lo a afastar-se cada vez mais. A sorte sorriu-lhe ao fim de algum tempo quando ouviu o ecoar de um clarim. Felizmente nos acampamentos militares tudo funciona a toque de clarim; e este ouve-se a grande distância. Correu na direcção do som enquanto o ouviu, e voltou a parar; pouco depois um novo toque, proporcionou-lhe uma nova corrida. Ao fim de várias corridas, foi-se apercebendo do tropear de milhares de homens e cavalos. Acabou por entrar no acampamento em passo acelerado. Tanto quanto sabemos, o meu avô não voltou a participar em mais caçadas.

A chegada a Moçâmedes e o embarque para Lisboa não tiveram história. Regressando no mesmo navio que o general Pereira d’Eça, várias vezes lhe chamou a atenção para uma bronquite que se agravava. De nada adiantou, porque pouco depois de chegar a Lisboa, o general viria a falecer. Espero na próxima semana poder começar a publicar postais que o meu avô adquiriu durante a sua presença na frente ocidental (1916-1918).http://antigamente1900.blogspot.pt/search/label/Angola

" Ele contava sempre as mesmas histórias sobre a guerra". É bem possível. Uma experiência tão intensa como uma guerra deve deixar muitas recordações bem gravadas na memória. O texto que se segue foi preparado com a preciosa colaboração do meu pai, que reuniu algumas dessas histórias repetidamente contadas pelo meu avô.
....

"...Em 1915, depois de desembarcar em Moçâmedes, a expedição de Pereira d’Eça subiu ao planalto e prosseguiu para Leste, mantendo-se a alguns dias de marcha do Cunene, para evitar incidentes na preocupante fronteira com a colónia alemã do Sudoeste Africano. Nas deslocações de uma coluna militar, a cavalaria tinha por missão explorar o terreno na vanguarda e nos flancos, em constante movimentação, procurando evitar que a infantaria fosse surpreendida.


O tenente-médico Monteiro d'Oliveira, em Moçâmedes, 1915

O tenente-médico Monteiro d’Oliveira, integrado num esquadrão de dragões, acompanhava as deambulações da cavalaria, mas naturalmente a um médico não se considerava necessário fornecer um bom cavalo. O médico deveria colocar-se na retaguarda, para acudir aos feridos que ficassem para trás, ao contrário do comandante, que deveria preceder todos os outros, para ter visibilidade que lhe permitisse avaliar a situação.

Naturalmente que cada cavaleiro teria que conhecer bem o seu cavalo, e o meu avô foi informado que o cavalo se recusava a saltar, além de uma certa tendência para tomar o freio nos dentes. Isto chegou a causar várias vezes uma situação caricata, em que o médico aparecia a galopar à frente de todos, para grande escândalo do comandante. Mas também foi motivo de um pequeno acidente, quando ao tentar contornar um obstáculo, o meu avô foi projectado da sela, porque o cavalo resolveu saltar a par dos outros. Apesar de ter recuperado trabalhosamente a sua posição na sela sem maiores problemas, sofreu uma fractura de um dedo que nunca pode ser bem tratada, e lhe deu uma maneira de escrever muito característica.

O itinerário da expedição tinha sido preparado pelo “serviço de etapas”, fixando os locais de abastecimento, em especial os cursos de água, onde homens e animais poderiam dessedentar-se. No entanto uma seca rigorosa gorou as expectativas, e depois de atravessarem vários leitos secos, houve que inflectir para o Cunene. Foi uma longa marcha, sempre a passo para evitar a transpiração, mas sem paragens, até porque nos últimos quilómetros nada detinha os animais, nem os fazia desviar do caminho do rio. Apesar de toda a sua fidelidade, os cavalos podiam virar a cabeça, apertados pelo freio dos cavaleiros, e tentavam acelerar o passo na direcção da água que já pressentiam, e a que conseguiram chegar nos limites da desidratação.

A cavalaria era uma arma fundamental nas vastidões africanas, mas seguindo o ditado português de que “quem não tem cão caça com gato”, quando não havia cavalos, os dragões montavam muares. Naquelas condições a sua segurança era dramaticamente reduzida, porque a vantagem da cavalaria era a rapidez. Com as mulas não se pode andar a “mata cavalos”, porque quando estão cansadas empinam-se, escoucinham, mas não avançam. Os dragões que só conseguiam mulas para as suas missões de patrulha despediam-se em grande pranto dos camaradas, porque dificilmente conseguiriam regressar.


Militares Portugueses no Lubango, Janeiro de 1915

Reagrupada e reabastecida a expedição, foi decidido que só uma progressão muito rápida sobre os objectivos conseguiria surpreender o inimigo, e concluir com sucesso a expedição. Rapidez significava naquelas circunstâncias, significava andar a mais de 30 quilómetros por dia, que era a velocidade de transmissão das mensagens dos “tantans” africanos. Assim os soldados, subalimentados e desidratados, foram obrigados a uma marcha forçada, que provocava frequentes desfalecimentos.

Certamente havia macas, mas não havia maqueiros, e o Dr. Monteiro d’Oliveira, movimentando-se na rectaguarda, recolhia os soldados desfalecidos, atravessava-os no cavalo, e levava-os até um carro de bagagem , onde ficavam estendidos o resto do dia. Como medicamentação recebiam um remédio precioso pela sua escassez: ¼ de água das pedras. A terapêutica era eficaz a 100% e no dia seguinte os soldados já marchavam ao lado dos camaradas.

A pronta recuperação de tantas baixas acabou por ser notada pelo general Pereira d’Eça, que mais tarde exarou um louvor ao tenente-médico António Monteiro d’Oliveira.

Finalmente a vila de N’giva (futura vila Pereira d’Eça) surgiu à vista da coluna. Era um dos principais objectivos da missão. Os dragões carregaram, a população fugiu, e quando a infantaria chegou a embala estava abandonada. A tomada de NGiva foi um sucesso, não só pelo reduzido número de baixas, mas também pela captura de documentação, nomeadamente uma curiosa carta de um missionário luterano, desaparecido na confusão do ataque, que comunicava aos seus superiores no Sudoeste Africano que a coluna portuguesa tinha sido totalmente derrotada...


Agradecimento da Câmara de Mossâmedes ao alferes Monteiro (21 de Dezembro de 1909)


© Família de António Aniceto Monteiro
-
«Mais uma vez a Câmara da minha presidencia tem o prazer e honra de agradecer a V.Excia. a preciosa coadjuvação que tão gostosa e desinteressadamente de ha muito lhe vem dispensando, quer na elaboração da planta da cidade, trabalho proficiente e completissimo, que só por si representa um alto valor de progresso e melhoramento para este municipio, quer na elaboração da planta do mercado, quer ainda nas varias vezes[?] em que a tem illucidado em trabalhos de especialidade, alta competencia e capacidade de V.Excia.
Tudo isso, que tanto trabalho tem revelado a par de profundos conhecimentos tecnicos, muito calculo, muita ponderação e estudo aturado, esta Camara já mais o esquecerá, e faltaria aos mais sagrados dos deveres de gratidão se lhe não demonstrasse, como demonstra, o seu alto reconhecimento e mais profundo agradecimento.
É para esta Camara de bem intensa magua a retirada de V.Excia d'esta cidade; e fazendo votos por uma feliz viajem, deseja que a fortuna e felecidade o galardôem sempre tão grandemente,  quanto os predicados de V.Excia o exigem.»

-
Nota: A assinatura que se vê é, muito provavelmente, de Seraphim Simões Freire de Figueiredo, que seria, então, Presidente da Câmara (ver Fernando da Costa Leal, quinto governador de Mossâmedes (1854-1959)). Seraphim Simões Freire de Figueiredo e o alferes Monteiro foram padrinhos de casamento dos pais de Lídia Monteiro.
===
(...)
No fim desse ano [1909], dá-se uma viragem na vida de António Ribeiro Monteiro e nunca mais regressou à construção dos caminhos de ferro. Em 27 de Dezembro de 1909, por opinião da junta de saúde, veio para Portugal. Desconheço se a família o acompanhou.
(...)
O relatório finaliza com o parágrafo seguinte:
“Tamanha é a gratidão dos habitantes de Mossamedes e tão profundas simpathias alli deixou que a pedido d’aquella cidade vae o alferes Monteiro, muito brevemente, desempenhar alli uma nova comissão de serviço publico”.
Ao ler estas quatro páginas manuscritas que elogiam o alferes Monteiro, é difícil não ver nos traços de carácter descritos, aqueles que viriam a ser os do seu filho, António Aniceto: a grande inteligência, a versatilidade e a amplidão das suas aptidões intelectuais, o sentido prático aliado à competência teórica, a capacidade de comunicação e transmissão dos seus conhecimentos, a simpatia e a coragem.
Em Dezembro de 1910, o recém promovido tenente Monteiro regressou a Angola, tendo embarcado no dia 2 e chegado a Luanda no dia 16.
(...)




Ver também aqui : http://mocamedesregistosefactos.blogspot.pt/2012/11/o-batalhao-de-marinha-expedicionario.html

 http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_10_Marinha.htm

sábado, 12 de dezembro de 2015

Cuisses-Tua. Que povo é esse que acolheu no seu seio "o branco da casa de barro"?





Cuisses (mucuisses, mucuíxes, owakwisis) no Deserto do Namibe e Huila. ICTT
Muíla Sá da Bandeira
Cuisses 

Os Cuísses (mucuisses, mucuíxes, owakwisis), trata-se de um povo de raça negra, classificada como fazendo parte do sub-grupo não banto, que no tempo colonial vivia numa zona geográfica bem definida, no interior do Deserto do Namibe, no distrito do Namibe/ex-Moçâmedes, em Angola, e que constituia toda ela o seu habitat, e o limite para a sua vida errante, a melhor adaptada às condições climatéricas daquele deserto. 


Sobre este povo, nos Annais do Município de Moçâmedes, transcritos nos do Conselho Ultramarino (1839/1849), encontra-se a seguinte anotação:

 "Na costa ao Norte e Sul desta Vila, diz o cronista, encontram-se os Mucuissos, que é uma raça de gentio nómada, que se supõe provir da nação mecuando, que demora ao sul de Dombe, num lugar chamado Munda dos Huambo. Vagueiam pelas pedras e rochedos da costa em pequeno número, sustentando-se de mariscos e de peixe que, industriosamente, colhem com pregos, ou qualquer bocado de ferro, à falta de anzol, não fazendo parada certa nem demorada em parte alguma, sendo bastante tratáveis." 

Desconhece-se a existência de quaisquer referências em relatos efectuados por exploradores ou viajantes no decurso dos tempos, o que talvez encontre justificação no isolamento em que viviam, evitando todo o tipo de convívio com povos de outras etnias,  e mais ainda com elementos da etnia branca. 

Povo monogâmico e monoteísta, organizava-se vivendo em grupos de um máximo de duas famílias, em céu aberto, resguardando-se das chuvas e dos ventos, enquanto podiam sob formações rochosas, sendo o vestuário reduzido a duas pequenas peles de animais, sobretudo antílopes para taparem os órgãos genitais, indumentária que nas mulheres, era completada por pequenas fiadas de cor branca, após a festa da puberdade. 

Alimentam-se exclusivamente de frutos silvestres e da caça, em que são exímios, servindo-se para tal de arcos e flechas envenenadas. Chegavam a atacar animais de grande porte, tais como elefantes e rinocerontes e dominavam como autênticos mestres o emprego de sistemas de armadilhas. Conta-se que em tempos mais atrás, quando o território era atravessado por um ribeiro, chegaram a praticar a agricultura, cultivando o milho.

O nome deste povo surge intimamente ligado ao Morro do Tchitundo-Hulo ou Tchidundulo, local pou eles venerado.  Tal como os Cuvale ou mucubal, do grupo etnolinguístico banto, são povos negros resistentes  à integração. A ausência de referências aos Cuísses pode justificar-se também pela rejeição daquela denominação pelo grupo que se intitula "Cuandos" ou "Cuambúndios", vocábulos etnonímicos que surgem referidos nos finais do século XVIII, num mapa de Pinheiro Furtado. Porém, é interessante notar que a designação "Mucuíxes" surge também, referindo um agregado etno-linguístico, no mesmo mapa. 

Para mais informação ver AQUI


Casal Mucuisse Oncocua


Dos Anais do Clube Militar Naval Lisboa N. 86, segue outro texto que aborda um assunto interessante e fala de gente ligada á caça que bem conhecemos. ou de quem ouvimos falar,  em Moçâmedes:



Os Cuissi-Tua,  conhecidos também por Mu-tuas e o "branco da casa de barro"


As terras entre a Baía dos Tigres e Oncocuo, onde as distâncias eram enormes e o acesso difícil, eram ainda pouco conhecidas dos portugueses em finais do século XIX, e foi no primeiro quartel do século XX que a atracção pela caça levou até elas os primeiros brancos, num tempo em que o acesso fazia-se através de picadas  improvisadas,  nos transportes existentes que exigiam do condutor grande perícia, já que cada digressão se transformava numa verdadeira aventura.  Água, gasolina, rancho, peças sobressalentes, prontos socorros que incluíam quinino, soro antídoto, etc., eram condições sem as quais nenhuma viagem se podia fazer. E como não havia hipótese de a partir do deserto comunicar com a família, convinha não exceder o tempo programado para não as atormentar, se o regresso tardasse. E o mesmo em relação à durabilidade dos mantimentos.

 

 Tito Beiros de Gouveia (pai), pessoa muito conhecida e estimada em Moçâmedes, posa para a posteridade sobre os rochedos de Tchamalinde (?), tendo à sua esq. um autóctone da região


 Do livro Angola: Dever de Memória


As dificuldades eram tantas, que poucos ousavam aventurar penetrar naquelas terras do Iona, excepto uma elite bem conhecida em Moçâmedes, de verdadeiros profissionais entre quais, Tito Beiros de Gouveia (pai), Matos Mendes, Vasco Ferreira, Teodósio Cabral, e poucos mais. Por vezes aderiam à aventura um ou outro administrativo interessado em conhecer melhor a área da sua jurisdição, mas era raro que tal acontecesse.


Alfredo Bobela da Mota, jornalista e poeta
 1905 (f. 1978)

O traçado da primeira picada para transportes rodoviários entre Moçâmedes a foz do Cunene  e a Baia dos Tigres, atravessando terras do Iona(1), foi feito em 1928, por uma missão chefiada por Dr. Bobela da Mota, mas o trabalho era dirigido apenas para o terreno mais aconselhável, e só mais tarde a referida picada foi seguida e corrigida, em parte, por uma outra missão chefiada pelo Administrador Cid, de Porto Alexandre, conforme consta em relatório nos Anais Pecuários de Angola, de 1930.


Caminhando na direcção sul e sudoeste, no Iona,  encontram-se vários maciços montanhosos entre quais o de Tchamalinde,  mais conhecido pelo facto de, na década de 1960 terem sido ali observados fenómenos sísmicos naquela região. A imprensa chegou mesmo a difundir a ideia de um vulcão no Iona, mas acabou desmentindo.  Aconteciam de facto desabamentos de rocha que se desprendiam das escarpas e dos picos  e se despenhavam a centenas metros de fundo, nas gargantas e vales, seguidos de um certo ruído. A imprensa noticiava também a inacessibilidade do maciço de Tchamalinde, em alguns pontos extremamente perigoso, e noutros impossível de transpôr.
Pigmeus



Dizia-se também que os habitantes dessas serranias eram pigmeus de pequena estatura, mas este dito acabou também desmentido.  Na verdade o povo que habitava a zona era de estatura pouco desenvolvida dada as condições de vida, uma vez que viviam como se vivia na Idade da Pedra. Pertenciam ao grupo Cuissi-Tua, ou, segundo o Pe. Carlos Estermann  in "Os Povos Bantos e do Grupo Étnico dos Ambós", eram Vátuas do sul de Angola, conhecidos também por Mu-tuas pelas tribos vizinhas, designação que eles próprios aceitavam, embora depreciativa. Eram os mais antigos habitantes dessas vastas regiões que se estendem ao distrito Moçâmedes, desde Cunene à serra da Neve, já a entrar pelo Distrito de Benguela. Eles assistiram à chegada, há mais de 400 anos, de um povo vindo do norte, pastores criadores de gado, que ocupou todas as terras onde era possível a pastorícia para as suas manadas. Os Chimbas, um grupo deste invasores avançou para Sul obrigando os Cuisses-Tua a  refugiarem-se nessas  serranias vizinhas para fugirem à escravidão, tal como acontecera aos seus irmãos de raça em regiões mais a norte.





 
 
             Chimbas no Deserto do Namibe. Foto de Elmano Cunha e Costa ICCT (1935-1939)


Os Chimbas eram um povo mais evoluído e poderoso e tinham pelos Cuísses uma repugnância atroz. Por seu lado os Tuas que reconheciam essa superioridade, isolavam-se também das restantes etnias.

Os grupos étnicos que viviam num lado e outro das margens do Cunene eram os Chimbas e os Cuissis-Tuas, mas com maior preponderância os primeiros. São povos que não respeitam nacionalidades, rejeitam leis e conceitos como cidadania, que implicam pagamento de impostos, desconhecem identificação, desdenham a civilização ocidental,  contam o tempo pelas cheias dos rios, pelas luas e pelas chuvas, não conhecem relógios nem calendários. Os Chimba viviam mais na anhara e na encosta da serrania.

Os Cuissi-Tua viviam na montanha. Alguns Chimbas aproximavam-se dos europeus mas não abandonavam nunca seus usos e costumes. O homem da montanha vivia ainda em estado primitivo e muitos nunca viram um branco, desconheciam o dinheiro e o mais elementar principio da civilização.  Foram sempre inacessíveis  à acção dos missionários, adoram a liberdade, gostam de ter várias mulheres e de viver a seu modo. Era difícil a penetração nestas regiões, que apenas nas últimas décadas foram penetradas por uma ou outra autoridade, por algum caçador atraído pela abundância de elefantes, rinos e outras espécies.





O caso do "homem da casa de barro"

Cecilio Moreira relata no seu livro Baia dos Tigres, Cap XIV, sob o título "O fugitivo do Iona", que em 1934 as autoridades tiveram conhecimento que ali vivia, clandestinamente,  nos penhascos de Tchamalinde um branco estrangeiro, cuja identidade e actividades eram desconhecidas, sendo tomadas as precauções necessárias no posto administrativo do Parque Nacional de Caça Iona, demarcado por se tratar região abundante em caça e espécies raras,  que em 1975 dispunha já de excelentes instalações. A dada altura, naquele mesmo ano, um funcionário administrativo de nome Bartolomeu de Paiva, juntamente com o caçador Teodósio Cabral e mais dois europeus, quando exploravam junto do Cambeno, encontaram o estrangeiro clandestino que estava transformado num verdadeiro "homem da selva", com hábitos e costumes dos Mu-tuas, que haviam consentido que vivesse no seio da sua tribo, onde vivia acompanhado de uma elegante mestiça, que lhe dera uma menina loura de olhos azuis e cabelos louros.  O homem era admirado e querido na tribo, e fora funcionário no Sudoeste Africano, talvez súbdito britânico. Seu nome era Daniel Dixon. Tinha fugido  às leis do seu pais para não ser condenado por uma falta que cometera, preferiu afastar-se civilização e ali viver desde há longos 11 anos.  

 
Bartolomeu de Paiva e o caçador Teodósio Cabral ficaram impressionados ao verem aquele homem e aquela mulher levando o tipo de vida  da selva, no  seio daquela tribo primitiva, dispondo apenas de uma casa rudimentar, feita de pedra e barro , embrenhado numa agricultura rudimentar, sinais de civilização. Era conhecido na tribo pelo "homem da casa de barro", e acabou por se naturalizar português com nome de Dixon Ferreira. Ali viveu em terras Namibe vários anos tendo falecido por volta  de 1945, lembrado pelos nativos com respeito como  o primeiro branco a fazer parte sua tribo. O conhecido caçador Vasco Ferreira, de Moçâmedes, que pertencia a uma família muito conhecida, ligada a empresas agricolas e comerciais,  tornou-se amigo de Dixon desde que ele, após descoberto, descera da montanha. Teria  sido essa amizade que levou Daniel Dixon  a adotar o nome e apelido Dixon Ferreira?

Cecilio Moreira procurou saber a verdade sobre o caso do "homem da casa de barro"  o que o levara de facto a fugir para ali,  palmilhando mais de 2.500  quilómetros, por terras inóspitas, em busca se um lugar seguro, que veio encontrar naquele maciço? A que ficou a dever-se o sigilo da autoridade? Ele que tinha um filho e duas filhas? Onde estavam? Quem eram? Porque não o repatriaram? O jornal dera a notícia mas nada esclarecera. Moreira contactou velhos amigos de Dixon, comerciantes isolados na selva , consultou livros de assentos em repartições, vasculhou velhos arquivos,  consultou documentos oficiais,  deslocou-se ao sudoeste africano, e acabou com um mais amplo conhecimento sobre  o "homem da casa de barro" das região montanhosa do maciço de Tchamalinde. Nunca conseguiu saber a sua verdadeira naturalidade. Inglaterra, talvez, e não Cabo como consta dos assentos existentes no Tribunal judicial da Comarca de Moçâmedes, e tenha vindo para a União Sul Africana em serviço oficial como funcionário. Não soube ao certo a sua idade, mas soube que quando se acoitou junto dos Mu-tuas já não era muito novo. Quanto às motivações que o levaram para ali, Matos Mendes e Bartolomeu Paiva tinham a sua opinião. As autoridades portuguesas dada a situação não fizeram grandes interrogatórios, quase aceitaram a versão que ele mesmo lhes deu da sua presença ali, mas estes dois companheiros afirmavam  que Dixon  de viva voz nunca tinha revelado seu segredo. Talvez porque eles também não o instaram para isso, mas quando no mato sentados volta fogueira, nas longas noites de cacimbo, tiveram conhecimento que a sua fuga para Angola estava ligada a uma desavença entre ele o chefe de repartição onde trabalhava, no Cabo, que teria dado lugar a uma luta violenta, faltas que eram severamente punidas pelas leis inglesas na sua antiga colónia. Punição que não considerava justa e o teria levado a embrenhar-se na floresta até encontrar refugio seguro. Dixon tinha trabalhado no Sudoeste, em Sesfontein e no Kookoveld, sabia portanto que naquelas montanhas encontraria refúgio fácil, quando se dirigiu para norte do Cabo. Ele devia saber que autoridades portuguesas não apareciam por ali naquele maçiço e naquelas regiões inexpugnáveis. Ele contactou depois a tribo dos MU-tuas que o aceitou. E mais tempo teria ali ficado, no seu secreto esconderijo, se não tivesse descido naquele dia do cimo das cerranias para admirar os animais selvagens, ver as chanas verdejantes, e ver pastar pachorrentamente sem serem incomodados os  amigos o acolheram em TCHAMALINDE, o local onde podia viver e morrer em paz, ter sua familia e os MU-tua.

 O fino trato que os dois caçadores moçamedenses viram em Dixon impressionou-os, e deve ter impressionado a autoridade portuguesa quando  falaram pela primeira vez. Os 11 anos com a tribo não tinham demolido sua esmerada educação, sua elegância de trato à boa maneira inglesa.  Tudo isso teria levado ao silenciamento do facto e à concessão da nacionalidade portuguesa. Tudo isso se passou à margem da imprensa angolana, na época mais voltada para assuntos sociais da vida luandense.  E o Iona estava a 1700 km distância...para sul. Os meios de comunicação ali não chegavam e praticamente não existiam.

Nacionalizado português, a partir 1934 Dixon Ferreira tornou-se um óptimo criador de gado, foi caçador guia, oficial para as várias entidades nacionais e estrangeiras que se deslocavam a Angola, a convite do governo da Província, ou do Governo Central. Dominava o português e a língua da sua pátria,  era culto e possuía longa experiência, seu saber era tido em alta consideração. A vida selvagem não tinha para ele segredos.

Reconhecido a Portugal por várias vezes manifestou seu apreço e seu orgulho em viver à sombra da bandeira lusa. Também os portugueses nunca o abandonaram até ao último minuto da sua vida. O Governo de Angola em 13.03.1941, como forma de gratidão pelos serviços prestados na Província, fez-lhe a oferta de uma espingarda para a caça grossa, que era o sonho de todos os caçadores. E ainda de 200 cartuchos. Era uma Mauser em cuja coronha ostentava uma chapa de prata com uma inscrição dedicada ao homenageado. Foi-lhe entregue em Sá da Bandeira pelo tenente-coronel de infantaria José da Cunha Amaral Belo.

Quando Dixon abandonou Tchamalinde, teve de deixar a mulher Mu-Tua com quem viveu , e que preferiu ficar na sua tribo, com a linda menina branca, filha de ambos. Dixon viveu depois com Ema Wustron, filha de uma senhora mestiça e de um boer,  que vivia nas terras do Otchinjau, de quem teve dois filhos, o Jaime e o Pedro. Não eram perfilhados. Foram-no em 1949, após a morte dos pais, pelo Tribunal da Comarca de Moçâmedes, onde correram os autos de inventário orfanológico. Daniel Ferreira, criador de gado, era já falecido.  Quanto à perfilhação dos dois orfãos, o Tribunal declarou
 " E porque os pais se encontravam muito longe do local onde podiam efectuar o asssento relativo ao registo civil, não os perfilharem..."  Ema Wustron tinha falecido no Otchinjau, em Dezembro de 1941, tendo as crianças ido para casa de um tio, boer, Ernesto Wustron, onde ficaram até ao falecimento do pai.

Depois do falecimento de Ema,  a antiga mulher Mu-tua ainda chegou a estar com Dixon. Sabe-se que ele queria tirar a filha daquela tribo que vivia na Idade da Pedra, e pensou levá-la para Moçâmedes para ser criada e educada junto da família de Vasco Ferreira, seu bom amigo, então já falecido. Mas não conseguiu porque Mu-tua ao aperceber-se da sua intenção, pegou na menina branca e levou-a para junto da sua gente, no maciço onde era impossível localizá-la. Mais tarde a rapariga branca como era conhecida pelos nativos, foi vista numa zona junto da margem esquerda do rio Cunene,  para sudoeste, onde havia também zonas rochosas, mas à aproximação de qualquer europeu refugiava-se na montanha.

Cecílio Moreira que nos fornece todas estas informações refere que nunca um branco conseguiu aproximar-se dela. Quando em 20 de Setembro de 1945 Dixon faleceu, em casa do seu amigo administrador da  Circunscrição do Coroca Norte, Nolasco da Silva, foi no Otchinjau que ficou sepultado. Conforme escreveu a esposa do Administrador, D. Marilia Aguiar Nolasco da Silva, nos últimos momentos da sua vida Dixon agarrou-se ao marido e pediu-lhe para criar e educar as suas crianças. Foi a extremosa D. Marília quem olhou pelas duas crianças, que as baptizou em 13 Setembro 1947, na Missão da Quihita, e que lhes ensinou a falar português  e as primeiras letras, porque em casa dos tios apenas se falava boer. A Senhora Nolasco num escrito que Cecilio Moreira possui cópia,  manifestou pena por não ter conhecido Dixon, porque quando o inglês faleceu ela ainda estava noiva do marido. De Dixon sabia através do marido, que era um inglês velhote de carácter intensamente cortês, e quando  este faleceu na casa e na cama do seu futuro marido que cedera na doença ao amigo  e companheiro de trabalho no mato e nas estradas que ambos marcaram e fizeram abrir durante meses.  O Jaime e o Pedro ficaram dois anos com o casal Nolasco mas  estes entenderam mandá-los para a Casa Pia em Lisboa, em 1948, para serem educados uma vez que  no mato, em Angola não havia condições. Ali concluiram os cursos secundários.

Cecilio Moreira refere o Jaime era funcionário da Fazenda, e nunca o conheceu, mas o Pedro  escreveu-lhe uma carta para Nova Lisboa referente à reportagem do "Homem da Casa de Barro" e falou uma vez com ele em Luanda, onde era um conceituado comerciante da praça. Mostrou interesse em querer saber tudo sobre o pai por quem tinha admiração e respeito.  Manifestou desgosto por não conhecer a irmã.

Cecilio Moreira refere ainda a mágua dele próprio por não ter conseguido saber da "Rapariga Branca", e lembra-nos que foi Dixon quem ensinou a Teodósio Cabral os segredos da caça. Os Mu-tuas mantiveram por ele consideração depois de ter ido viver junto dos brancos. Ultimamente foi capataz na circunscrição do Curoca Norte, usufruindo de um útil vencimento.

Estas são historias reais de uma terra velha e sem idade, apetecida por aventureiros internaciomais, a que as Nações Unidas chamam Namibe!


Bibliografia:
 Moreira, Cecílio, Baia dos Tigres, Universidade Portucalense
Anais do Clube Militar Naval Lisboa N. 86 Jan e Março 1956

(1)
Em 1944, graças ao reconhecimento das condições excepcionais daquelas terras para fauna africana, a Administração portuguesa foi levada criar o Parque Iona, na região mais aconselhável onde se encontrava uma equipa de pessoal técnico, que a  partir 1966 era chefiada por um médico veterinário que habitava o Parque.  As terras do Iona, na margem direita do rio Cunene, estendem-se para norte e formam a zona de transição de grandes dunas do Namibe para as encostas das regiões planálticas. Dela fazem parte várias planícies que aqui e além são interrompidas por aglomerados rochosos e uma vegetação arbustiva raquítica e rara, devido à secura do terreno, constantemente  em luta contra o calor, especialmente nos meses entre Novembro e Março, época do Verão no hemisfério sul. Contudo à medida que se vai avançando para o topo da serra, a vegetação vai-se tornando mais atraente  e verdejante.



terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O interesse da Alemanha por Angola e o projecto de Mittelafrika


 

O "SALVADOR CORREIA" a desembarcar material de guerra na ponte de Moçâmedes




A Baia dos Tigres, Porto Alexandre e mesmo Moçâmedes, chegaram a ser o foco de um plano alemão ambicioso, que destacava a necessidade de meter a região do Sul de Angola na região do Sul do rio Cunene (Sudoeste Africano). Chegou a Alemanha a preparar uma missão destinada à obtenção de terrenos para colonos alemães em Moçâmedes, mas acabaram por desistir.  Esses planos incluiam desde os anos oitenta do século XIX. a construção de um transafricano a partir da Baía dos Tigres, que, passando pelo Sudoeste Africano se prolongaria até ao Transval, dando apoio à República Sul-Africana, proporcionando-lhes uma saída pelo Atlântico, e daí até Lourenço Marques e ao Oceano Índico, a fim de facilitar o comércio alemão que teria acesso, por sua vez, aos portos marítimos.  

Ainda sobre o interesse expansionista da Alemanha em Angola:  

Do blog Angola Brasil transcrevo:

 "Em 1895, no ano da nomeação de ARTUR DE MORAIS para Administrador do concelho de PORTO ALEXANDRE, a grande bacia que era um ponto estratégico, chegavam ali diversos navios de guerra alemães, e também alguns alemães idos de MOÇÂMEDES, pelo deserto, a pé, recomendados pelo Governo do Distrito para que lhes fosse facilitado um transporte para a BAÍA DOS TIGRES e rio CUNENE. Para espanto do Administrador, um deles era uma ilustre personagem, nada menos que o Príncipe de ESSE, que alugara uma canoa na qual pretendia, sem resultado, içar a bandeira alemã. Esse incidente fez deslocar-se a PORTO ALEXANDRE o Alto-Comissário Régio, GUILHERME CAPELO, na canhoneira "VOUGA". E ainda nesse dia chegou ali a canhoneira "SALVADOR CORREIA", transportando o Governador do Distrito, MASCARENHAS GAIVÃO. Este segue depois com o alferes FRANÇA, a pé, a caminho do rio CUNENE.
1895 - OUTUBRO/NOVEMBRO - Chegam a PORTO ALEXANDRE diversos navios : - o couraçado "VASCO DA GAMA", sob comando do capitão de Mar e Guerra, AUGUSTO CASTILHO ; - a canhoneira "ZAMBEZE" com o capitão-tenente, MARTINHO MONTENEGRO; - a "VOUGA" comandada por GOMES COELHO e a "SALVADOR CORREIA" com o primeiro tenente GASPAR. Era uma forte formação pronta a defender as costas angolanas já ameaçadas por forças estrangeiras (especialmente alemãs), com conivências inglesas, preparando-se para "um banquete" !


Com relação ao mesmo assunto, segue um texto  da doutoranda Marisa Alexandra Santos Fernandes:  GEOPOLÍTICA DA ALEMANHA NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL: O CASO DO SUDOESTE AFRICANO:


"O Projecto de Mittelafrika e o interesse da Alemanha por Angola "
                                  
".... 2.2. A Baía dos Tigres e o Projeto de um Transafricano Alemão

- Desde os anos oitenta do século XIX que a Baía dos Tigres, a maior ilha de Angola, era considerada como o ponto de partida para a construção de um Transafricano sob direção do II Reich que, passando pela Deutsch-Südwestafrika, prolongar-se-ia até ao Transvaal (dando assim apoio à República Sul-Africana ao  proporcionar-lhe uma saída pelo Atlântico) e deste até Lourenço Marques (hoje Maputo) e ao Oceano Índico. O objectivo deste seria estabelecer uma via de comunicação férrea que facilitasse o comércio alemão do Atlântico ao Índico, onde se teria acesso, por sua vez, aos portos marítimos. De facto, cedo a Alemanha compreendeu que para se tornar na “campeã mundial de exportações” (como se auto-intitula), teria de recorrer ao transporte marítimo, o que a torna economicamente competitiva visto os custos serem comparativamente menores ao utilizar o mar como via de comunicação preferencial. Daí a importância que a Alemanha confere à criação de condições para o transporte de mercadorias e matérias-primas, através do desenvolvimento da indústria marítima e  portuária (em coordenação com a rede ferroviária) (Fernandes, 2013b, p. 440). Com efeito, isto é corroborado por Guevara (2006, p. 49) ao afirmar que os relatórios navais alemães de 1882 já refletiam o interesse alemão nos portos e nas baías das colónias portuguesas em África.Neste contexto, surgiram até, inclusivamente, notícias na imprensa alemã dando conta que a colónia da Deutsch-Südwestafrika conseguiria reunir todo o território de Ovambo, que se encontrava dividido desde 1886, o que motivou o envio do navio português “Dom Luís” para esta baía (Guevara, 2006, p. 273). Em 1896, três exploradores alemães Esser, Hoesch e Zintgraff realizaram uma expedição à Baía dos Tigres, tendo solicitado no seu regresso uma concessão de 700.000 hectares, à Companhia de Mossamedes, nas margens do rio Cunene que possibilitasse ao II Reich estabelecer um porto e um caminho-de-ferro a partir da Baía dos Tigres (Guevara, 2006, p. 274).  Wilhelm II apoiava estas atividades e em Berlim havia mesmo quem defendessem que a baía devia ser ocupada por forças militares alemãs que apoiassem o avanço para Norte da fronteira Sul de Angola, beneficiando a
Deutsch-Südwestafrika. Georg Hartmann, engenheiro alemão especialista na exploração de minas que entrou para o Ministério dos Negócios Estrangeiros Alemão em 1900, propôs o estabelecimento de uma coligação de interesses entre alemães, portugueses e belgas contra ingleses, de forma a conseguir concretizar o projeto do Transafricano antes que Cecil Rhodes pudesse colocar em prática o projeto de ligação do Cabo ao Cairo (Guevara, 2006, pp. 284-285). No entanto, em fevereiro de 1899, um representante do governo da África do Sul veio a Lisboa solicitar uma concessão de direitos para a construção de um porto e caminho-de-ferro na Baía dos Tigres e para a exploração de minério (cobre), tendo igualmente a pretensão de ir a Berlim negociar este projeto. Por sua vez, Wilhelm II acreditava que se devia anexar a Baía dos Tigres e, por isso  mesmo, preparava-se em cooperação com a Marinha alemã uma ocupação militar desta mediante o envio de mais navios. Havia igualmente uma discussão entre a Secção Colonial e os financeiros Bleichröder e Warschauer acerca da rentabilidade do caminho-de-ferro da Baía dos Tigres. Para além das firmas  R.Warschauer & Co e S. Bleichröder, o Deutsche Bank e a
Discontogesellschaft também eram partes interessadas. Esta última, por exemplo, enviou um requerimento ao governo português pedindo a concessão da construção do caminho-de-ferro da Baía dos Tigres ao Cunene, a 11 de setembro de 1899 (Guevara, 2006, pp. 292-293). Com o apoio dos financeiros Bleichröder e Warschauer, criou-se uma nova companhia denominada de Otavi Minen-und Eisenbahn Gesellschaf, cujo objetivo assentava na construção do referido caminho-de-ferro Transafricano. Neste sentido, seria enviada ao Sul de Angola uma expedição alemã para estudar qual o melhor trajeto para a efetivação deste projeto. Em finais de 1899, a R.Warschauer & Co e S. Bleichröder, o Deutsche Bank
e a Discontogesellschaft  já tinham colocado à disposição desta expedição um montante para pagamento das despesas (Guevara, 2006, pp. 293-294). Porém, a 16 de outubro de 1899, foi cancelado o plano de ocupação militar alemã da  Baía dos Tigres, perante o afastamento  da possibilidade de ocupação britânica da Baía de Lourenço Marques, verificando-se a retirada dos navios alemães para a colónia dos Kamerun. A posse do Sul de Angola pelo II Reich permitir-lhe-ia ter o controlo de importantes portos que serviriam de bases de apoio à Marinha alemã, permitindo-lhe contrabalançar o poder da Grã-Bretanha como rainha dos mares, ao mesmo tempo que responderia aos princípios da  Weltpolitik.
                                
Ainda assim, chegou a Mossamedes um navio a vapor alemão com um grupo de representantes da Discontogesellschaft destinado a realizar estudos sobre o projeto do  caminho-de-ferro Transafricano que seguiu, posteriormente, para a Baía dos Tigres e para o Cunene. Também na segunda metade  do mês de outubro, um oficial alemão apresentou-se no forte do Humbe (Cunene) na companhia de uma força militar, referindo que estava para proceder ao reconhecimento de terreno com vista à construção de um caminho-de-ferro desde as minas de Otavi ao Cunene (Guevara, 2006, p. 301).

O texto integral pode ser visto AQUI:

http://www.iesm.pt/cisdi/revista/Artigos/R3-3.pdf