Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 19 de novembro de 2017

Moçâmedes do antigamente: era Natal...



Já cheirava a Natal!... O Natal estava a chegar e os gourmets da Rua das Hortas sempre a aviar: o Gingubinha; o Brasileiro; o Jaime Cariongo e ainda outros mais que a concorrência era grande e havia que aproveitar.

As lojas de brinquedos, essas então, punham os miúdos a delirar e a sonhar: e era um martírio para os pais arrancá-los das montras dos Armazéns do Minho, do Venâncio Guimarães e do Pires Correia. Mas a mais espectacular de todas era, sem dúvida nenhuma, a montra do Pires Correia.
Era tão apelativa, tão encantatória que alguns miúdos se passavam de todo, sabendo de antemão que nenhum daqueles brinquedos viria a ser seu. Por isso, o Tolentino extravasava as suas raivas metendo pelo buraco das portadas das montras do Pires Correia um fino caniço e com ele jogava o bilhar com os brinquedos, pondo num caos a bonita montra feita com tanto desvelo.

E, então, numa das noites antes do Natal, o velho Pires Correia apanhou o Tolentino em flagrante delito e, furibundo, levantou-o do chão pelos fundilhos dos calções, mas…, milagre de Natal!, fez-se luz... e veio a compaixão. Em vez de dar duas galhetas ao Tolentino, o bom velho Pires Correia fez um trato com o miúdo:

- Eu conheço-te, tu és filho da D. Máxima. Vamos fazer o seguinte: eu dou-te um brinquedo de Natal à tua escolha e tu prometes nunca mais desfazeres a minha montra. Combinado?

E o Tolentino escolheu, então, o maior brinquedo que por lá havia: um carrão dos bombeiros, todo ele feito de madeira, vermelho, vermelhão e com uma dezena de bonitos bonequinhos armados de capacetes também vermelhos...

Depois havia os mucubais que, vindos do Giraul de Cima com os últimos cabritos vivinhos da costa, batiam à porta das casas humildes para vendê-los a preços da uva mijona.

E a avó Catarina perguntava:
- Quanto custa cada cabrito?
- Cinco angolares, Senhora, respondia o mucubal.
- Então, o ano passado era quatro angolares cada um, agora é mais caro 25%? Como é isso?
- E o mucubal volvia, então, com manifesta convicção: “É a inflação, Senhora, é a inflação que não pára”
- Vá lá, contemporizava, contrariada, a avó Catarina, não convencida de todo, instruindo o mucubal: - Dá a volta e leva o cabrito para o quintal.

No quintal, já estava a Maria Torresmo à espera, de facão em riste, para a matança do pobre animal. E mal começava a esquartejar o cabrito, dava logo início a um monólogo bem audível que abria o apetite a quem a ouvia, mesmo aos próprios acamados, que eram muitos nessa altura de transição. E ia fazendo o relato para si, alto e em bom som, do destino a dar ao desgraçado do bicho: -

“estas pernas assadas no forno, com umas batatinhas douradas e arroz de legumes salteados, acompanhados de um fresquinho vinho branco do alentejo; estas mãos, este peito, estas costeletas para a caldeirada, sem poupanças na cebola e no tomate, alho e louro q.b. e com muito gindungo para puxar pelo tintol, que maravilha!...”, dizia a Maria Torresmo, salivando e babando-se já a olhos vistos. E continuava a esquartejar sem dó nem piedade o pobre animal, membro a membro até às partes mais miúdas.

Mas a caldeirada de cabrito destinava-se apenas para o almoço do Natal, pois que para a Consoada era o tradicional bacalhau cozido, com a habitual couve portuguesa cobrindo as batatas e os ovos.
E para o próprio dia de Natal havia sempre uma ou outra família do Bairro da Facada que podia dar-se ao luxo de um almoço com mais requinte, como era, por exemplo, a casa do Tó Lindas.
É que, quanto a isso, o Tó Lindas tinha o seu segredo de Polichinelo bem guardado, supostamente só do seu conhecimento e de alguns poucos amigos.
Na realidade não devia ser bem assim, mas era assim que o Tó Lindas o concebia. Um pouco mais além da velha ponte-cais da Praia das Miragens, a Mãe Natureza tinha caprichosamente plantado no seu fundo arenoso uma vintena de lages, formando autênticos gavetões onde as lagostas tinham fixado residência.

Ninguém sabia ao certo quem tinha sido o seu descobridor, mas a verdade é que os capitães de areia do Bairro da Facada estavam de posse das suas coordenadas.

E era assim que o Tó Lindas nas vésperas de Natal, pelas seis da matina, pegava num saco de rede e nos óculos de caça submarina, vestia uma camisola velha de lã, que as águas em Dezembro ainda eram frias, e, assim munido, lá ia ele para a Praia das Miragens.

E ali chegado, mergulhava na parte norte da velhinha ponte-cais, nadava uns trinta metros para lá do cabeço da ponte e flectia, então, para a Praia do Cano, mas parando logo defronte à Capitania.
Não devia ser difícil configurar as coordenadas do lugar, porque qualquer pescador da Torre do Tombo o fazia diariamente com as suas sacadas ou na pesca à linha, quer fossem algarvios, madeirenses ou quimbares. Mas para os miúdos era obra.

Mas para o Tó Lindas, em particular, era canja; olhava para o Casino e para a grande árvore do quintal do dr Soares Pinto, e já estava; a sul, bastava olhar para o último canhão da Fortaleza de S. Fernando e para a pedreira da Torre do Tombo e… voilà!

Era só mergulhar, ir directo à capoeira das lagostas e escolher três das maiores. Apenas três, que o Tó Lindas não era nada ganancioso.
Quando chegava a casa, era recebido em festa. E havia almoço de Natal com requintes de gente fina; lagosta cozida com maionese. Maravilha!... E a avó Catarina não conseguia reter umas lágrimas que teimosamente lhe corriam pela face roída pelo tempo e pelas agruras da vida.
- Então, e o Capitão do Porto? – perguntava por fim a avó Catarina.

- O quê que tem, avó, o mar é dele?

À tarde, era o cinema do Eurico que passava o filme do Tarzan e, como habitualmente, os miúdos pobres tinham o seu presente com entrada livre no dia de Natal. E lá estavam todos eles na fila de entrada, os capitães de areia do Bairro da Facada, com o Tó Lindas à cabeça.
Começava o filme e quando o Tarzan, numa luta feroz, matava o leão ou nadava mais rápido do que o jacaré, a sala do cinema vinha quase abaixo com tanta claque e algazarra dos miúdos do Bairro da Facada.

Depois do filme terminado, iam todos a correr de alma cheia e coração ao alto, com alguns tostões nas algibeiras, directos para o Quiosque do Fautino para o lanche do Natal:

- Sr. Faustino, dois molhados para cada um.
- O que é isso de molhados, perguntava o Sr. Faustino.
- São panguengues – respondiam os miúdos.
- Falem português, seus palermas.
- Então, o Sr. Faustino não sabe? Molhados ou panguengues são papo-secos só com o molho das bifanas - explicitava o Tó Lindas.
- Não, não temos cá disso, só temos sandes de carne assada na panela – respondia o Sr. Faustino.
- Então o Bar do Sporting tem panguengues e o Sr. Faustino não tem! Como é isso, então?

E lá iam eles, os capitães de areia do Bairro da Facada, cantando e rindo, felizes e contentes, a caminho do Bar do Sporting em demanda dos molhados ou panguengues, que Deus Nosso Senhor assim mesmo os fez como são, por alguma boa razão que não conseguimos enxergar: pobretes… mas alegretes!...

Porque era Natal… e foi em Belém!...


(ass) Arménio Jardim

Moçâmedes do antigamente era ali....






Aquela velhinha ponte-cais da Praia das Miragens era o pão nosso de cada dia para as gentes de Moçâmedes do antigamente.

Tinha ela o guindaste na extremidade direita, que indiscriminadamente tudo carregava e descarregava, com o velho Veli e o Rogério Camusseques como maquinistas omnipresentes. Do outro lado da ponte, ficava o pequeno farol cuja principal função era sinalizar a localização da ponte em sintonia com o farol da Ponta do Pau de Sul e o farol do Saco de Giraul.

Era ali… e por ali que tudo se passava. A exportação da farinha de peixe em sacos de serapilheira, o óleo de sardinha, taínha e chicharro, acondicionados em velhos tambores de gasolina e até bois vivos seguiam para os cargueiros fundeados ao largo, através daqueles conhecidos batelões que ficavam um pouco para lá da jangada dos nossos mergulhos, dos nossos namoricos e dos nossos contentamentos.
Depois, havia o dia de S. Vapor, o dia em que os navios de passageiros chegavam com novidades do Puto e traziam os mais variados produtos, desde os nacionais até aos dos Armazéns Printemps, importados directamente de Paris.

Era uma festa para a cidade e os gasolinas do Mário de Almeida e do Raul de Sousa andavam todo o dia numa roda viva de cá para lá e de lá para cá, transportando sem parar cavalheiros e senhoras, mais senhoras do que cavalheiros, que nos barbeiros do navio compravam de contrabando sedas, lingeries, perfumes da marca Tabu e outras coisas mais.

No portaló do navio havia sempre um guarda-fiscal de plantão, mais para marcar presença do que para fiscalizar o contrabando, que era tudo gente boa e conhecida, pelo que, no regresso, as senhoras desciam as escadas do navio numa alegre e descontraída cavaqueira, não obstante o excesso de fragrâncias do perfume Tabu que carregavam atrás de si.

E já em terra, no Posto da Guarda-Fiscal, ali existente mesmo à saída da ponte, estava a palpadeira de serviço, a D. Fernanda, funcionária da Alfândega, velha solteirona que sofria de uns pequenos handicaps e que por isso ou por via disso andava sempre com um pintainho dentro do soutien para lhe aquecer o peito e cuja onomatopeia que de lá vinha ninguém conseguia discernir se era do piar do pintainho, se era da pieira ou farfalheira da bronquite crónica, que com o cacimbo só lhe piorava a vida.

Mas a verdade é que a D. Fernanda era uma santa mulher sem qualquer vocação para palpadeira. De modo que, quando as senhoras lhe chegavam à sala privada com as suas saias largas e redondas carregadas subrepticiamente com as lingeries e os perfumes Tabus, a D. Fernanda recebi-as com um sorriso de menina inocente e dizia simplesmente: - “Minhas queridas, que rica fragrância têm esses perfumes Tabus que carregam. Poupem, que o próximo vapor só por cá passa daqui a dois meses”.
E era ali, naquela ponte-cais, antes do sol raiar e do galo cantar, já depois dos pescadores da Torre do Tombo terem dobrado a Ponta do Pau do Sul com as suas baleeiras à vela, à bolina ou de vento em pôpa, a caminho do mar da Alemanha ou dos Três Irmãos, que se acomodavam os capitães de areia do Bairro da Facada.

Vinham todos eles, felizes e contentes, o Patona e o Monacaia, o Armando Galã e o Tó Lindas, mais o Mário Cantor e o Peniquinho, para a pesca dos chocos, dos cabolobolos e dos camoxilos.
À noite, depois do jantar, eram os mais velhos, viciados na pesca desportiva, que apareciam: o Cristiano Faustino, o velho Pinho Gomes, o Craveiro do café torrado, o Rufino sapateiro e outros mais que o tempo dissipou.

O pisca-pisca do farol da ponte atraía toda a espécie de bicharada. No ar, eram os gafanhotos, libelinhas e formigas de asas brancas; no mar, peixe espada para os pescadores à cana; moriangas, roncadores e corvinas prateadas para os amantes da pesca à linha.
No outro dia, ao final da tarde, quando o pôr do sol na Ponta do Pau do Sul matizava o horizonte de vermelhos, amarelos e laranjas, reuniam-se, então, os mais velhos na esplanada do Quiosque do Faustino debitando as suas piedosas mentiras, próprias dos pescadores amadores, que para os profissionais as suas histórias eram bem diferentes.

E era ali…, e era ainda ali, na velha ponte-cais, que apareciam aqueles rufias matulões, o Tó Coribeca, o Helder Cabordé, o Mário Bagarrão, o Romualdo Parreira e outros que tais, que eram como uma quase lenda viva para os miúdos do Bairro da Facada.

A sua manifestação de habilidade e coragem deslumbrava toda a gente, em particular os capitães de areia. Os seus mergulhos do alto do guindaste, em estilo livre ou em asa de anjo, os seus triplo-saltos mortais da ponte, em corrida ou de parada, ou mergulhos em parafuso do alto do tejadilho do guindaste eram tão espectaculares que levavam os miúdos a imitá-los junto à rebentação.

Mas a apoteose, o que mais tocava os nossos corações de criança, acontecia quando apareciam mesmo junto à praia, entre a jangada e a rebentação, pequenos cardumes de toninhas e golfinhos que vinham brincar como cachorrinhos com aqueles rufias matulões. Que os miúdos ainda eram miúdos de mais e tinham medo daqueles bicharocos, que afinal só queriam brincadeira.

E, no final, alheio ao pôr do sol, ao tempo ameno, às discussões bizantinas da esplanada do Oásis e do Hotel Turismo, ali estava o Dominguinhos ceguinho, sentado no passeio da loja do Henriques Pessoa, tocando quissange e improvisando as suas cantigas de maldizer para os cazicutas do carnaval, acerca do estupro da menina, criada da D. Rosa:

“Canta no ramo o pardal,
Canta no mar a baleia!
Fernandinha no hospital,
Gingubinha na cadeia!”


(ass) Arménio Jardim

sábado, 18 de novembro de 2017

O Padrão do Cabo Negro



 O padrão original do Cabo Negro
 O padrão original encontra-se desde 1892 no átrio da Sociedade de Geografia, em Lisboa.
 

 A réplica do Padrão do Cabo Negro que foi destruída 
no pós independência de Angola, em 1975



Este padrão não é o original. É uma réplica do padrão original do Cabo Negro, assente pela guarnição de Diogo Cão em 1486. O padrão original encontra-se desde 1892 no átrio da Sociedade de Geografia, em Lisboa. Foi o governador Guilherme Augusto de Brito Capelo, que em 1891 ordenou a substituição, porque o original sofreu a erosão natural e foi alvo de mutilação por vândalos, tal como vinha acontecendo com os vários padrões, que eram 4 ao todo.  A réplica do padrão original do Cabo Negro foi vandalizada no pós independência, em 1975.

A vandalização de símbolos da colonização foi uma constante ao longo dos séculos. Em 1975 tratou-se de um gesto anti-colonial em ambiente de euforia patriótica, com a conquista da independência. Mas em outros tempos atrás a vandalização acontecia por outras motivações.  Só para se fazer uma ideia, o padrão de D. Jorge o 1º padrão que foi colocado por Diogo Cão e os nautas, a 26 de Abril de 1483, na foz do Zaire, num local conhecido por ponta do Padrão, perto da Moita Seca, foi objecto de 4 vandalizações, seguidas da colocação  no mesmo local de 4 réplicas. Era dos quatro padrões o  mais exposto à navegação estrangeira. Foi em 1642 destruído pelos holandeses e deu lugar a uma 1ª réplica que por sua vez, em 1648, foi destruída. Mais tarde, em 1855, um navio de guerra inglês a vapor assinalou a sua passagem, despedaçando a tiros de artilharia essa nova réplica do Padrão de S. Jorge, cujos pedaços foram recolhidos por nativos do Soyo que passaram a venerar os pedaços como poderoso feitiço, um feitiço de branco, até que vieram para Portugal e foram entregues à guarda da Sociedade de Geografia de Lisboa.
Um escaler da marinha inglesa, tentou recuperar a parte superior do padrão, onde se encontravam as inscrições e a cruz original, mas ao dirigir-se para o navio maior, voltou-se e a parte superior padrão perdeu-se nas águas do rio”!. (Luciano Cordeiro, Diogo Cão, pág. 50).
Em 1859, o governador de Angola mandou colocar no mesmo local outro padrão, uma 2ª réplica, mas este cinco anos depois, em 1864 desapareceu, destruído por uma grande cheia ou maré.

Em 1892, o governador de Angola mandou erigir novo padrão, uma 3ª réplica, do padrão primitivo, que permaneceu até 1932 na Ponta do Padrão, num local mais afastado da margem das águas do rio. Foram então procurados e obtidos que os fragmentos que os habitantes da península conservaram em número de dois, e levados para o museu da Sociedade de Geografia em Lisboa.

Mas esta 3ª réplica do padrão de S Jorge ainda iria ter lugar uma 4ª réplica. Por ocasião da primeira viagem do Presidente Carmona em 1938 a S. Tomé e a Angola, foi erguido na foz do Rio Zaire um outro padrão, este uma cópia fiel do Padrão de S. Jorge de 1486 que ali havia sido colocado pela guarnição de Diogo Cão. O Presidente Carmona, no areal escaldante da foz do rio Zaire, na presença da marinha de guerra que prestava a guarda de honra, e na presença de muitas autoridades gentílicas, sobas das regiões nortenhas, e uma grande multidão compacta, ao som de tambores e clarins, depôs uma coroa de flores em bronze transportada pelos marinheiros vindos dos barcos de guerra, fundeados ao largo, e proferiu em seguida o seu patriótico discurso.
MariaNJardim

sexta-feira, 17 de novembro de 2017



 O primitivo  Padrão do Cabo Negro


Porque o Padrão do Cabo Negro tem inegavelmente o seu lugar na História da Humanidade!



Texto de: Manuel João de Pimentel Teixeira

“Um facto inegável que tem ajudado a enriquecer este trabalho é a contribuição que se recebe da família, de amigos, de e - amigos e de pessoas anónimas. São os moçamedenses que mais têm colaborado. Reconhecidamente orgulhosos da sua terra, jamais perdem a oportunidade de dá-la a conhecer. E está correcto! É quase uma obrigação de quem provém de uma cidade que tem por seus eternos companheiros, de um lado o mais antigo deserto do mundo, o Deserto do Namibe, do outro o mar, o Atlântico Sul... 

 
 A réplica do Padrão do Cabo Negro



 



“Um canto da nossa terra tão desconhecido e com tanta História.”

“A frase faz parte do relato que me foi feito por Manuel João de Pimentel Teixeira sobre a sua ida ao Cabo Negro, no Sul de Angola, Província do Namibe, no passado mês de Julho desse ano (2003). O que me contou assim como as fotografias que me enviou do local sensibilizaram-me: foi-me dado conhecer, ainda que virtualmente, um local que é História.

Chocou-me ver a destruição a que o símbolo que o Homem lá instalou há mais de 5 séculos tinha mais uma vez sido objecto. O símbolo que não diz respeito somente a Angola e a Portugal. Porque faz parte de feitos que mudaram o mundo. É, portanto, um símbolo que ultrapassa fronteiras, atravessa o tempo.

Em Angola, a terra que nos viu nascer, passados que estão os tempos de ânimos exacerbados, de lutas fratricidas, deve também ter-se em conta que nem tudo o foi feito estava errado, nem tudo o que se faz é correcto.

Assim foi e será sempre porque o Homem não é perfeito. Mas Deus concedeu-lhe a capacidade de discernir, de se sensibilizar. Se quiser, saberá que, se aproveitar o que foi/é bom, deixando que a História faça o seu julgamento, o povo será o grande beneficiado, a nação será engrandecida. E porque assim sinto e vejo “as coisas”, querendo partilhar as imagens e a mensagem do Cabo Negro, pedi e obtive a anuência do autor para aqui reproduzir o que me descreveu. Importa, também, que recordemos o que a História nos relata sobre este local.

As páginas finais desta crónica disso darão conta. Basear-me-ei na obra “O Distrito de Moçâmedes”, da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, edição da Agência -Geral do Ultramar, Lisboa, 1974 (reprodução fac-similada da edição de 1950). São dois volumes e o melhor e mais completo estudo sobre a história do Distrito de Moçâmedes, hoje Namibe.

Deve, todavia, ter-se em conta que esse escrito reflecte o pensamento da época, o sentimento de nação, de patriotismo, de posse de terra. Como já uma vez escrevi, as ideias e os ideais alteraram-se, a História reescreveu-se. Não pode, todavia, modificar-se o que foi escrito e que, independentemente dos ideais de cada um, transmite ensinamentos preciosos. Este símbolo possa um dia ser reconstruído.
Os dois relatos, infelizmente, não se completam, mas é preciso que se tome conhecimento de ambos. Na esperança de que se acordem consciências. Para que Porque o Padrão do Cabo Negro tem inegavelmente o seu lugar na História da Humanidade!

Visita ao Cabo Negro no dia 27 de Julho de 2003


Estava muito cacimbo, a estrada de asfalto molhada e escorregadia. Uma viagem agradável e serena. O ar limpo e húmido. Pouco vento. Nas praias que cercam o cabo e nas suas proximidades, tudo vazio, sem vivalma.
Subimos ao Cabo Negro. É uma marca inconfundível. Visto de longe, a Norte, percorrendo a estrada batida de terra, depois de deixar o asfalto, na direcção do mar, assemelha-se a um barco de pedra, enorme, pronto a entrar no oceano, a meio de praias rasas, solitário.
O carro avança com calma, até um ponto a quase 3/4 da altura das rochas, pela areia. Chegámos. Dirigimo-nos pelo topo, a pé, na direcção do local do Padrão, bem acima do mar, no pequeno "plateau", ponto mais elevado, mas sem grandes socalcos. Ao longe, mais a norte, a Rocha Magalhães, com as salinas que foram as mais produtivas de Angola.
A placa de mármore cravada na rocha de formas estranhas, que se vê nas fotos, tem cerca de 50 cm altura por 60 cm de largura, e um corte em forma de ranhura funda como moldura, a dois centímetros das margens e podia ler-se ainda, mas com dificuldade, mas sempre do lado direito no fim da primeira linha,
em cima .................. oyses Pinho
no meio, ......................... Sagres.
depois, mais afastada destas linhas, lia-se por baixo, ............ nove
As letras entalhadas, muito esbatidas já. A data mencionada talvez fosse de - ou por volta de - 1939, 1949 ou mesmo 1959. Será necessário confirmá-la, possivelmente em relatos escritos sobre alguma comemoração no local.
Qualquer coisa me diz ser possivelmente uma data dessas, não sei por que causa histórica, mas parece-me já ter lido algo sobre isso há muito tempo.....em criança talvez, até relativamente á Mocidade Portuguesa, á história de Gago Coutinho, ou de qualquer coisa assim.
Creio até que foi Setembro, o mês do meu aniversário.
Seria Dom Moisés Alves de Pinho?? Cardeal, Arcebispo, creio eu!!!!!! Para lá ir, pode chegar-se com o automóvel (4X4, obviamente), tirando-se algum ar das câmaras - de - ar dos pneus, de todos igualmente, para melhor se conduzir na areia, como se faz no deserto, e indo pelo Sul para a parte mais alta, em declive macio. Depois caminha-se bem a pé, sem qualquer problema, cerca de 50 metros. Vasculho com os olhos toda a área... Vou-me aproximando e, como num filme, em zoom, tristemente confirmo o que jamais imaginei: encontro-me perante o que restou do Padrão de Diogo Cão.
A sua história, todos a conhecemos, devidamente fundamentada e largamente difundida, para quem se interessa pela História da Humanidade. O toco, deixado por vândalos da inconsciência e das paixões políticas levadas ao extremo, nada mais é que a sua base com cerca de 40 cm de lado por cerca de 25 cm de altura até ao chão, aonde se eleva, quebrado de Poente para Nascente, num ângulo de 50 graus, com 60 cm no ponto mais alto do corte. O tronco do Cruzeiro tem cerca de 24 cm de diâmetro.
Possivelmente foi construído com algum tipo de calcário granulado, como aliás se vê no Cabo Negro, e está muito desgastado pela acção do tempo. Quando me propus visitar o Cabo Negro, que não conhecia, perguntei a muita gente, dali mesmo e de Porto Alexandre, se sabiam aonde era a cabeça do Diogo Cam, e ninguém soube informar-me. Foi a minha teimosia e a certeza de que o que o meu Avô escrevia era absolutamente EXACTO, que me fez e ao motorista Fernando, de Benguela, escalar pedras e a falésia, perigosa, e depois, por fim, decidir-me a ir por baixo, pela praia, até um ponto mais dentro do mar... mas não muito, quando há baixa-mar (não era baixa-mar na altura).
Teimosamente, dizia a mim próprio: “Se o meu Avô disse e fotografou como sendo aqui, TEM QUE SER AQUI!” (Há os que, dizendo-se conhecedores da região, se referem à “Ponta Negra” como se fosse um outro local, muitíssimo mais a Norte, e a Norte de Moçâmedes!).
Para se ver o "busto de Diogo Cam" ou a "cabeça de Diogo Cão", deve sair-se sempre duas horas antes da baixa-mar, a partir de Porto Alexandre - ou Tombua, como erradamente se lhe designa hoje aquela angra tão bela (o nome usado pelos habitantes do Deserto para designar a welwitschia mirabilis é tumbo) - pelo Sul e pela praia junto do Cabo, até aonde o carro puder ir, o que se faz sem problema, mas tomando-se sempre as devidas e acima mencionadas precauções, até uma distância de cerca de cem metros da ponta do cabo.
É claro que é necessário saber-se dirigir em areia, fugindo sempre das curvas muito apertadas - quanto mais largas melhor, pois numa curva fechada os pneus sem pressão poderão sair das jantes - e nunca forçando movimento algum, nem acelerando demais.
Instala-se o carro em ponto relativamente mais alto que as marcas da maré-alta anterior deixadas na praia, e desloca-se a pé, sem problemas, e como que em reflexão meditativa, até á base do Cabo Negro junto ao mar, pela praia molhada, na direcção Sul -Norte.
A chegada às rochas da base é feita sem o mínimo perigo, até para crianças, - com cuidado para não escorregar ao subir às rochas baixas - e tem-se a admirável visão que tantos outros antes de nós tiveram, maravilhados. O meu Avô, há 100 anos, inclusive, aquele apaixonado pelas terras que adoptou como suas, sem jamais haver regressado "à Metrópole" após ter vindo para Angola, concluído que teve o seu Curso em Coimbra e no Porto, e com toda a certeza, deleitado e sentindo-se sublimado também, como Diogo Cão ter-se-á sentido à 518 anos.
E alguns e poucos mais antes de mim, há menos tempo, mais recentemente, se é que tal viram. Era perigosa a descida, diziam. Mas há caminhos mais simples e menos abruptos. É preciso sabê-los. E saber ir em Paz. 

 

 Uma rocha única, uma obra natural, desconhecida como "arte" por África e pelo Mundo. Um ornamento natural para a História de Angola. Um monumento eterno. É realmente um espectáculo, observar-se tanta simplicidade e tanta nobreza, trabalho imponente criado pela Mãe Natureza, esculpindo com o mar, com o vento e com as areias, nas marés calmas ou no mar irado, um símbolo tão belo, como que elevando o Homem acima do mar e do tempo.




Escrito aos 23 de Agosto de 2003, em Luanda. "

















domingo, 12 de novembro de 2017






A ponte de cais de Moçâmedes






“Não obstante a extensão e a superioridade do fundeadouro, na baía de Moçâmedes os embarques e desembarques faziam-se aos ombros dos nativos que desastrados por vezes compeliam os passageiros a um banho forçado” . 


"A bahia de Mossamedes é uma das mais bellas que tenho visto—o seu fundeadouro é magnifico e vasto.



Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862



Como na maior parte das nossas possessões africanas, faz-se o desembarque aos ombros de barqueiros, o que sempre apresenta certo risco aos visitantes que se não acharem preparados para tomar um banho de choque."
 

Um caes bem construido, que nivelle a praia pela altura proximamente das construcções regulares que alli existem, com escadarias para os desembarques, e uma ponte de descarga para o serviço da Alfandega, são as obras mais urgentes.  


Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862

 

Quando o autor anónimo publicou o livro «Quarenta e cinco dias em Angola», em 1862, ainda não existia  em Moçâmedes qualquer ponte de embarque e desembarque de pessoas e mercadorias, conforme assim deixou escrito.

Na realidade através desta foto de data anterior à da construção da foto, mas bastante posterior à descoberta da fotografia, em 1820,  podemos aquilatar que antes da ponte, era sobre uma jangada que nativos descarregavam, na praia, as armas e munições e outras mercadorias mais, que eram trazidas pelos navios. Obviamente deveria acontecer o mesmo com os pessoas...
No mesmo livro o mesmo autor aproveita para sugerir a necessidade urgente da construção de um cais que nivelasse a praia pela altura aproximadamente das construções regulares, com estacarias para embarque/desembarque de pessoas, e uma ponte de carga e descarga para o serviço da Alfândega.



Fernando da Costa Leal foi um abnegado e competente governador de Moçâmedes entre 1854-1859 e entre 1863-1866


Refere também que já Fernando da Costa Leal, o 5º governador de Moçâmedes estava empenhado na construção de uma ponte que convergisse com a Alfândega, mas até 1873 esta continuava por construir por falta de verbas, com grande prejuízo para a economia do Distrito.

Esta referência in Archivo Pittoresco, Semanário Ilustrado, vol x, 1867, mostra bem a penúria da colonização portuguesa à época:

"...Noticias posteriores dizem que o governador ultimamente nomeado, o sr. Graça, completando o pensamento do seu antecessor, o sr. Costa Leal, ia mandar construir o caes em frente da alfandega, para o que encontrara já alli amontoado não pouco material; mas, como lhe faltassem para isso os necessários meios, abrira uma suhscripçâo particular entre as pessoas mais abastadas e mais interessadas do municipio, e esta subscripçao  em alguns dias, produziu logo a quantia de 20000 réis. A construção do caes é de grande utilidade, pois torna mais commodo e menos perigoso o desembarque de pessoas e mercadorias." 

Dada a carência de meios, subscrições públicas eram um recurso muito utilizado pelos colonos quando o apoio estatal era ausente, como aliás se veio a verificar em Moçâmedes em várias situações e nas diferentes épocas.

Passaram ainda por Moçâmedes mais dois governadores, Estanislau de Assunção e Almeida (1870 até 1871) e Lúcio Albino Pereira Crespo (1871 até 1876) . 

Foi em 1873, 24 longos anos após a fundação de Moçâmedes, quando já muitos colonos fundadores vindos de Pernambuco (Brasil), em 1849 e em 1850 haviam perecido, que a primeira ponte em madeira, assente sobre estacas, foi inaugurada. Mas esta pouco tempo depois ruiu e se inutilizou, conforme o governador Costa Cabral (1877-1878) viria a informar superiormente o Governo de Luanda, solicitando a urgente substituição, e lamentando a inexistência no local de outros meios de embarque/desembarque, que se faziam em ocasiões de grandes calemas com perigosos riscos pessoais e sensíveis prejuízos para as mercadorias.

Segundo Manuel Júlio de Mendonça Torres, a actual ponte foi finalmente inaugurada no dia 04 de Agosto de 1881, conforme mencionado in Conspecto Imobiliário do Distrito de Moçâmedes, anos 1860 a 1879, Boletim do Ultramar.

Mas não termina aqui a história à volta desta ponte, pois já bem dentro do século XX o seu estado continuava precário, e há notícia de que não cessavam os pedidos ao Governo para que fosse reabilitada, uma vez que a ponte existente já não permitia escoar toda a mercadoria recebida e expedida através de navios nacionais e estrangeiros que demandavam o porto, dada a morosidade dos carregamentos, correndo-se o risco de ficar paralisada a navegação pelos prejuízos causados às agências.

Na verdade, qualquer obra do género em Angola obrigava importar o material quer da Metrópole quer do estrangeiro, e se no século XIX a situação de debilidade financeira não foi favorável a obras de fomento e de lançamento das infraestruturas necessárias ao avanço da economia, no século XX, não o foi também, pelo menos na sua primeira metade perpassada por duas grandes guerras, a guerra de 1914-1918 e a de 1939-1945, no decurso das quais as fábricas europeias estiveram inteiramente ao serviço do armamento.

Moçâmedes vivia então praticamente da pesca e esta encontrava-se afundada numa grave crise por falta de escoamento o peixe que apodrecia nos armazéns, por escassez de encomendas. A agricultura estava arrasada e nada tinha a ver com tempos áureos criação da "Companhia de Mossâmedes". A precaridade de meios era tal que o próprio Memorial entregue pela Câmara Municipal ao Dr. Armindo Monteiro, Ministro das Colónias de Salazar, no decurso da sua visita à cidade,  não deixa mentir.

Eis algumas passagens de uma petição ao Dr. Armindo Monteiro, em prol do melhoramento desta ponte, retiradas do Boletim Geral das Colónias nr. 88 de 1932, dedicado à sua visita:

"o estado caótico da única ponte cais de existente em Moçâmedes, que embarcação alguma podia ali atracar, sendo as descargas das mercadorias importadas efectuadas por lanchas, de forma morosa, tendo que se aguardar a maré cheia, e mesmo assim correndo o risco de se despedaçarem de encontro a ela, bastando para tal um pouco de calema."
(...)
"a atenção para o facto de esta situação não se coadunar com o nível elevado de exportação do distrito à época, sendo o porto frequentado por regular navegação nacional e estrangeira, correndo-se o risco de se ficar, num futuro bem próximo, sem a navegação necessária que garanta a exportação normal dos produtos, dada a demora nos carregamento dos vapores que deixam de aceitar carregar por fretes por não compensam o dispêndio resultante da permanência no porto." Sugeria-se que se "poderia servir das estacas cimento armado que na época se encontravam dispersas pela praia desde há uns anos atrás, quando se pensou no prolongamento da ponte actual, bem assim como vigas ferro para assentamento do leito, um bate estacas e uma caldeira a vapor."

Não conseguimos saber se entretanto foram efectuados melhoramentos nesta ponte quando do desembarque ali do Presidente da República, General Carmona, em 1938. Sabemos que havia um plano quinquenal a levar a cabo em Angola, mas que no período II Guerra Mundial (1939-45),  tudo paralisou ao nível de infra-estruturas, uma vez que o material era importado da Europa industrializada e as fábricas europeias nessa fase estavam inteiramente envolvidas na produção de material bélico. 
Falta explorar se no quadro desses mesmos planos quinquenais activados no pós guerra, foi feito algum melhoramento nesta ponte.
 
Segundo Manuel Júlio de Mendonça Torres, a actual ponte foi inaugurada no dia 04 de Agosto de 1881, conforme mencionado in Conspecto Imobiliário do Distrito de Moçâmedes, anos 1860 a 1879, Boletim do Ultramar. 

Sem dúvida que foi através desta ponte, inaugurada no dia 04 de Agosto de 1881, e que acabou por exercer a sua função benéfica para o desenvolvimento do Distrito e do Interland, que se procedeu durante 76 longos anos, até 1957, data da inauguração do 1º troço do cais acostável, ao embarque e desembarque de pessoas e mercadorias, num sucessivo e imparável movimento de ir e vir, de import/export, conservas, óleo, farinha de peixe, sisal, peixe seco, mármores, gado, peles, etc. que o distrito de Moçâmedes produzia, desde os tempos em que o fundeadouro permitia encostar à ponte, antes dos assoreamentos, até tempos mais próximos em que ficavam ao largo, fundeados a meio da baía, e a carga para ela convergia através de batelões, e os passageiros através de pequenos "gasolinas" . Era por ali que escoava também o peixe seco, o sal, etc, através de caíques e palhabotes que faziam a cabotagem ao longo da costa angolana. 

Por esta ponte que se manteve activa até à inauguração do cais acostável, em 1957, não passaram apenas pessoas comuns, gente de trabalho e de negócios, mercadirias de toda a ordem, e até gado, que era introduzido em batelões através de guindastes, etc, etc, no ir e vir das partidas e chegadas.
Henrique de Paiva Couceiro e o Principe D. Luiz Filipe à sua chegada, em 1907 ?
 

Visita do Conselheiro Governador-Geral da provincia, Dr. Ramada Curto para inauguração do C. F. de Moçâmedes - entre 28 de setembro e 1 de outubro de 1905]
 
 Dr. Ramada Curto para inauguração do C. F. de Moçâmedes - entre 28 de setembro e 1 de outubro de 1905]
Batalhão em Moçâmedes
 Passagem de revista a uma Companhia de Guerra na Avenida de Moçâmedes
Desfile de um batalhão desembarcado em Moçâmedes rumo à fronteira sul
 
 Navio descarregando material destinado ao Caminho de Ferro, na ponte de Moçâmedes


"Salvador Correia" descarregando material de guerra na ponte de Moçâmedes

 Batalhão desembarcado em Moçâmedes
 Batalhão desembarcado em Moçâmedes, rumo ao Cuamato



Testemunho silencioso da História de Moçâmedes, foi em finais do século XIX e inícios do século XX, ponto de desembarque de batalhões militares, armas e munições, no quadro das Campanhas Militares do Sul de Angola, que eram dirigidos para as zonas consideradas de fronteira, com a dupla missão de dominar as populações nativas insubmissas, e assegurar os contornos da fronteira sul face à cobiça da Alemanha, a quem na "partilha" coubera o Sudoeste Africano (actual Namibia), nem que fosse em detrimento das populações de origem europeia que já estavam instaladas no litoral, e das populações indígenas que, ao longo de gerações e gerações ali tinham vivido...


                                    Chegada do Bispo de Angola, D. António a Moçâmedes
O Presidente Carmona à chegada à baía de Moçâmedes, em 1938



Por ela passaram expedicionários, passaram exploradores em missão, passou um Principe real, passaram Presidentes da República, Governadores Gerais, Ministros, políticos, gente de negócios, gente da Igreja (missionários, padres, bispos, cardeais), militares, etc. etc. Gente que naquelas paragens longínquas contribuiu activamente para o desenrolar da História de Portugal e da História de Angola, e do mundo.

E até a imagem de Nossa Senhora de Fátima por ali passou, quando vinda Cova da Iria em peregrinação por terras de África, em 1948, esteve em Moçâmedes e na baía, onde teve lugar a cerimónia da "benção do mar" que reuniu grande número de embarcações, e até já algumas traineiras que tinham começado a surgir.



 




Esta ponte serviu também de mirante nas horas de lazer, a partir da qual as gentes de Moçâmedes podiam apreciar eventos vários, desenrolados nas águas calmas da baía, no decurso dos tempos, tais como regatas de barcos à vela, corridas de natação, etc etc. E mais recentemente, regatas de sharps e de snyps da Mocidade Portuguesa. Ou até mesmo de simples miradouro para curiosos que desse modo procuravam matar o tempo, olhando o movimento dos banhistas na Praia das Miragens...

E se de início o fundeadouro permitia aos barcos de um determinado porte acostar, com os posteriores assoreamentos que obrigaram ao aumento da extensão da ponte, passaram todos a ficar ao largo, fundeados a meio da baía, sendo a carga e os passageiros que para a ponte convergiam, no vai vem do para cá e para lá, transportados com a ajuda de guindastes em batelões (a carga), e através de pequenos "gasolinas" (passageiros, visitantes, tripulação). 


Mas também foi nesta ponte que em finais do século XIX e inícios do século XX, desembarcaram militares, armas e munições, que no quadro das Campanhas Militares do Sul de Angola. Iam para as zonas consideradas de fronteira com a missão de dominar as populações nativas insubmissas, bem como assegurar a demarcação da fronteira sul cobiçada por alemães do vizinho Sudoeste Africano.

Resta referir que a ponte de embarque/desembarque de Moçâmedes, inaugurada em 1881, tal como o Caminho de Ferro de  e o primeiro comboio inaugurado em 1905, que vinham sendo durante décadas solicitadas ao Governo pelos colonos, só avançaram, na data em que avançaram, porque imperativos estratégicos e militares assim obrigaram, e não tanto pelos benefícios que trariam às populações carecidas e ao desenvolvimento económico da região.


 
 A entrada no cais do 1º navio

                              A entrada no cais do 1º navio

 A entrega simbólica das chaves da cidade ao Governador Geral



 

 A partir de 1957 os embarques e desembarques passaram a ser efectuados através do cais acostável. Na foto, o cais de Moçâmedes em tempos de inauguração do 1º troço, numa altura em que os trabalhos se encontravam em curso, e as pescarias ainda se mantinham no lado norte da baía.

A inauguração do 1º troço do cais acostável, em 1957, marcou o início da decadência desta ponte, que foi deveras útil para a economia de Moçâmedes e do Interland, e que para nós já faz parte da paisagem, ainda que dela, hoje em dia, apenas reste o esqueleto.

Esta é a simbologia desta ponte que guarda tanta História, mas que parece ninguém querer salvar!

MariaNJardim.







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