Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 22 de abril de 2016

Porto Alexandre, Cabo Negro, Curoca: exploração agricola vale do Curoca e estabelecimento pescarias




Foto: O Cabo Negro


Na segunda viagem de exploração marítima ao longo da costa ocidental africana, entre 1485 e 1486, Diogo Cão e os nautas, progrediram cerca de 1500km para sul, deram-se conta, em 04 de Janeiro de 1486, de uma ponta de rocha alta e escura e saliente sobre o mar, a que chamaram  Cabo Negro, onde ergueram um terceiro padrão colocado na costa angolana,  porém o primeiro nesta viagem, com cerimónia seguida de celebração de missa. O Padrão do Cabo Negro ficou assim a demarcar,  para a Corôa de Portugal, a posse das terras que hoje formam o sudoeste angolano, abrindo o caminho para  a parte meridional do continente africano...


O primitivo padrão encontra-se acima representado. Este Postal representa o Padrão do Cabo Negro que foi ali colocado em substituição do primeiro que se encontrava em mau estado de conservação.



A seguir Diogo Cão e os nautas entram na Angra das Duas Aldeias ( Porto Alexandre, actual Tombua), a que foi posto este nome por nela os nautas terem achado duas grandes aldeias de negros, gente pobre que se mantinha de pescarias, única riqueza da terra,  nesta terra nam há proveyto , (nesta terra não há proveito).  Nesta baía, que ficava a 45 milhas por via marítima de Moçâmedes,  Diogo Cão resolveu descansar  por cinco dias, e estabelecer contactos com as gentes que habitavam as margens de um rio que ficava próximo, o rio Curoca.


Assim  escreveu Duarte Pacheco Pereira  no seu "Esmeraldo Situ Orbis": 

 … oito léguas adiante do monte negro se faz uma grande angra que entra uma légua e meia pela terra dentro que se chama angra das aldeias e este nome puseram porque no tempo que Dieguo Caão descobriu esta costa por mandado del Rei Dom João que Deus tem, achou dentro nesta angra duas grandes aldeias e por isso lhe pôs o dito nome; os negros desta terra são gente pobre que se nom mantem nem uiuem senom de pescaria que aqui há muita, fazem cazas com costas de baleas cobertas com seba do mar, lançando-lhes por cima areia e ali passam sua triste uida, são Idolatras e nesta terra não há proveito. Do monte negro até aqui se corre a costa nordeste e sudeste e tem as ditas oito léguas na Rota e toda esta terra ao longo do mar é baixa.

 Duarte Pacheco Pereira  no seu "Esmeraldo Situ Orbis":
 "seis léguas adiante da margem das areias faz a terra uma ponta baixa toda coberta de areia que se chama a ponta das pedras e este nome lhe puseram porque quase no rosto desta ponta e assim além dela estão muitos e grandes penedos e até que se corre esta costa nordeste e sudeste e toma a quarta de leste e oeste e tem as ditas seis léguas na rota; e esta terra é muito baixa e má de conhecer mas quem quiser haver conhecimento dela veja como se aparta da linha equinocial dezasseis graus e dois terços contra o pólo antárctico; e esta é a melhor conhecença que tem". .


"Jaz a ponta das pedras e o cabo negro Norte e Sul e tem dez léguas na Rota; e este cabo é muito baixo e a terra em redor dele é toda harca senão quando sobe a ponta deste cabo está uma malha negra, e por isso lhe puseram este nome de cabo negro o qual não parece cabo senão quando homem está uma língua em mar dele e sendo três ou quatro léguas em mar parece tudo costa direita; esta terra é trabalhosa de navegar e o seu inverno é do mês de Abril até fim de Setembro; as naus que vão para a Índia sempre se metem em mar e se arredam desta costa duzentas e cinquenta léguas e mais em maneira que não chegam a ela".




Voltemos a Diogo Cão. Continuando a navegar  à vista duma costa baixa, e correndo nordeste sudoeste a quinze léguas, acharam uma longa restinga de areia, lançada quase na direcção Norte-Sul, paralela à costa , com cerca de 35 kms de comprimento e delimitando um braço de mar com 11 kms de largura máxima, a Norte, e doze a quinze braças de fundo, a que deram o nome de Manga das Areias (Baía dos Tigres). Sem qualquer espécie de arvoredo,  era um  areal a perder de vista. Os negros miseráveis, que viviam do peixe, aproveitavam as costelas das baleias que davam à costa para com elas construirem abrigos cobertos de "seba do mar" e das próprias areias. Não era possível encontrar água ou qualquer abastecimento, além do peixe, em que a costa era riquíssima...

"...além da angra das aldeias é achada uma enseada que terá duas léguas em largura na boca que se chama a manga das areias e esta se estende por dentro pela terra cinco ou seis léguas e na mesma boca e dali por dentro tem doze e quinze braças de fundo e esta terra é deserta e nenhum arvoredo tem porque tudo é areia e dentro desta manga há muita pescaria e em certos tempos do ano vem aqui do sertão alguns negros a pescar os quais fazem casas com costelas de baleias cobertas de sebes do mar, em cima lançam areia e ali passam sua triste vida; esta manga das areias se corre com angra das aldeias nordeste e sudoeste e tem quinze léguas na Rota; a qual mangas se parta em latitude da linha equinocial contra a pólo antárctico dezasseis graus e meio".
 
Depois das viagens de Diogo Cão, passaram quase 3 séculos sem que aquelas terras desérticas fossem ocupadas por portugueses.

Em Janeiro de 1770, por terra,  João Pilarte fez uma visita ao local, que chama “praia das Macorecas”,  e António José da Costa passou ali alguns anos mais tarde, mas sequer lhe faz referência. No século XVIII e primeira metade do XIX,  já se dá o nome vago de " praias ao Sul do Cabo Negro".

As atenções começam a centrar-se no Pinda, e só mais tarde em Porto Alexandre. O capitão da marinha inglesa, James Edward Alexander visitou em 1864  a costa ocidental de África, e  assinalou a velha "Angra das Aldeias" nas cartas do Almirantado, com o seu próprio nome.  "Porto Alexandre" . Esta foi  a denominação que ficou na tradição oral e na toponímia oficial proveniente do nome do explorador britânico James Eduard Alexander, e que foi oficialmente autorizada em 1834.

Apesar de mais tarde escritores com responsabilidade, como Luciano Cordeiro e Afonso de Castilho, chamarem à Angra das Aldeias, a Manga das Areias , numa lamentável confusão com o nome dado à Baía dos Tigres por Diogo Cão, segundo Duarte Pacheco Pereira, "Angra das Aldeias" foi o nome primitivo de Porto Alexandre que perdurou ao século XIX, 1834. Foi de lá que Diogo Cão levou indígenas para Lisboa, repatriados na expedição de Bartolomeu Dias.



Angra das Aldeias ou Angra das Duas Aldeias/Porto Alexandre (actual Tombwa)
 Primitivas  pescarias de Porto Alexandre (actual Tombwa) e a faina da pesca de arrasto com barco à vela




O camelo era o meios de transporte mais aconselhado em substituição dos carregadores a quem tinham que pagar preços considerados exorbitantes, levando menos carga e nem sempre dispostos a prestar os seus serviços onde e quando se requerem, sujeitando o comércio e a agricultura a contingências, de que resultavam prejuízos e despesas.  Eram adquiridos nas Canárias e aclimaram-se bem reproduzindo uma raça robusta, sem vestígio de degeneração. Os adquiridos nas Canárias, variedade da raça primitiva do norte dAfrica,  conseguiam  trilhar terrenos montanhosos, trajectos Mossâmedes,  Chibia, com resultado satisfatório. Um camelo transportava sem grande esforço uma carga de até 450 k, enquanto um carregador em viagem demorada não leva mais de 30 k. Com excepção do distrito de Moçâmedes, onde o estabelecimento da colónia boer veio facilitar as transacções comerciaes com o transporte das mercadorias nos seus wagons, sendo elevados os preços, se exceptuarmos a linha férrea de Loanda a Cazengo, e a carreira fluvial do Kuanza, de Loanda ao Dondo, feita com dois pequenos vapores, em quase toda a província de Angola o comércio e a agricultura estão sob a dependência das caravanas de carregadores e sujeitos as mais variadas contingências, dado a versatilidade e deligências dos pretos, do capricho dos sobas, da rivalidade das casas comerciaes monopolisadoras do negócio, das guerras gentílicas` dos conflitos entre autoridades e os potentados que fecham os caminhos, proibem o negócio nas suas terras, assaltam, aprisionam, saqueiam as comitivas estranhas e desviam as correntes comerciaes, etc. Povos exclusivamente dedicados à vida de carregadores,  os bangalas nos sertões de Loanda, os bienos e bailundos nos de Benguela e os mondombes (em Mossâmedes, os quais monopolizaram os transportes pelas vias comerciaes que cruzam os seus paises, em detrimento de quaisquer outras comitivas, impondo-se como únicos intermediários entre os centros comerciaes da costa e os centros produtores indígenas; é o que, por imprevidência nossa, está sucedendo em maior escala na Lunda, onde os bangalas, ciosos das suas prerrogativas de intermediários do comercio e senhores dos portos do Kuango, não permitem a passagem para oeste aos undas e kiokos, nem para leste aos comerciantes. In Exploração geografica e mineralógica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895.



O fecundo vale do Curoca


Passaram séculos... até àquele dia em que, chegados à "Angra das Aldeias" os nossos povoadores logo se aperceberam das zonas fecundas embora limitadas do vale do Curoca e da contribuição  que as águas temporárias daquele rio podiam dar para o desenvolvimento da região, e logo houve quem resolvesse proceder ao seu arroteamento.  Eram vários os produtos que ali se podiam cultivar, mas como a guerra civil americana veio acompanhada do incentivo ao cultivo algodão, considerado mais rendoso  e indicado, a partir 1860 avançou-se para a cultura da preciosa malvácea. 

João Francisco da Costa Roxo,  em Agosto de 1861, numa viagem que efectuou ao Vale do Curoca, mencionou num relatório que encontrou naquele vale a fazenda de S. João do Sul,  iniciada no inicio daquele ano pelo agricultor João Duarte de Almeida. Refere  também que a mesma  já tinha uma habitação, instalações para descasca e enfardamento de algodão e uma área plantada de seis mil pés, alguns com três palmos de altura.  Duarte de Almeida foi o primeiro colono a fixar-se naquele local onde explorou por largos anos uma outra fazenda. O segundo a montar ali outra fazenda, foi Agostinho Dias Quinta.

Segundo o relatório do Governador Lúcio Albino Crespo,  em 13 de Novembro de 1871 eram em número de doze as fazendas no Vale do Curoca, distribuidas pelas duas margens tendo por proprietários,  João Duarte de Almeida, Alexandre José da Costa, José de Albuquerque Couto,  Joaquim José Pinho, João Dolbeth e Costa,  João António de Sousa,  Manuel Artur de Carvalho e Casal José Silva Veiga. 

Capelo e Ivens na sua viagem através do continente africano, a partir do Pinda, iniciada a 12 de Março de 1884, referem-se no seu Diário à fazenda de S. Bento do Sul, de Serafim Simões P. de Figueiredo, onde foram muito bem recebidos e coadjuvados por pessoal desta empresa. Trata-se da empresa Figueiredo & Irmão. Referem também que no vale Curoca se dão muito bem as culturas do algodão, cana, milho, maçambala e batata doce, e que viu  ali frondosos eucapiptos, larangeiras, limoeiros, pereiras, macieiras e videiras  como na Europa.

O Curoca,  sendo um rio de águas temporárias dependente das chuvas que no tempo próprio descem do planalto Huíla através das vertentes oriental e ocidental do maciço da Chela, chega a produzir, por vezes, correntes torrenciais nos meses de Janeiro a Abril, que inundam e fertilizam, nas ultimas dezenas de quilómetros do seu curso, os terrenos marginais do vale daquele rio, e arrasta do leito para o mar as areias movediças do deserto que tentam avançar para a margem direita.

Em 1887 foi nomeado autoridade oficial o regedor Dolbeth e Costa, mas só a partir 1893 surgiram os primeiros cuidados sérios da autoridade, nomeação Delegado do Governo Gualdino Martins Medeiros, e foi destacada um sacerdote devia ministrar o culto e em simultâneo o ensino das primeiras letras as crianças então já em número elevado na quase totalidade algarvios, e foi dada verba construção Cemitério.

J. Pereira do Nascimento, no seu relatório de 1892, menciona a existência, naquela data, de cinco fazendas no total de 8 900 ha cultivados, sendo as melhores as de S Bento,  de S. Joaõ do Sul e a de Santa Rosa, e que os principais produtos eram algodão, cana sacarina, cará, trigo e vinho. Mencionou também que ali havia boas várzeas onde pastavam manadas de gado bovino, cavalar, caprino e outros. Também faz referências ao fabrico de manteiga e queijo de vaca, que eram explorados, e à produção de aguardente que naquele ano tinha atingido as 150 pipas.  Segundo os relatórios de Albino Crespo e  de Pereira do Nascimento, com espaço de 20 anos distância,  durante aquele ano foram abandonadas mais de metade das fazendas do Vale do Curoca devido à desvalorização algodão a partir de 1872 .

Em 1894 já ali habitavam mais de duzentos europeus na quase totalidade algarvios e quatrocentos africanos.

 Em 1895 foi criado o Concelho de Porto Alexandre com jurisdição até à Baia dos Tigres. chefiado pelo primeiro tenente João Fonseca Pereira de Melo. O concelho foi dotado de um médico.

Em 10 Junho 1896 o tenente Artur Morais substitui Pereira de Melo nas funções vinha incumbido de organizar vários serviços públicos e cobrança impostos a partir Novembro daquele ano.  Nesse ano de  1896 foi construída, em Porto Alexandre, a primeira casa de madeira destinada ao chefe do Concelho, porém esta não chegou a ser habitada por ter ficado mal localizada, em cima de uma duna, a 2 km da povoação.

Em 1897 são construidas vinte casas de pau-a-pique cobertas com terra, de acordo com  Augusto Castilho, para além de outras trinta e oito cobertas com chapas de ferro e zinco, e de mais  sete em tábuas coberta com chapas de ferro, uma de madeira coberta com telha, oito de adobe e trinta e uma de bordão, cobertas de capim. Mas antes  haviam  sido construidas algumas em caniço e capim com portas feitas com esteira em mateba, conforme testemunho de colonos ainda vivos em meados do século xx.
Por volta de 1899 Porto Alexandre viu-se dotada com as primeiras habitações mandadas construir pelo Estado que bastante valorizaram a povoação. Estas eram feitas de madeira pré-fabricada, em Lisboa, e constavam de uma residência para o administrador, da administração, da secretaria, fazenda publica e correios. Neste ano foi também construída a residência paroquial que deveria servir também de Escola Primária.

A proibição do fabrico álcool, em 1911, levou quase ao  completo abandono da cultura cana no distrito Moçâmedes. Nesse ano de 1911 aconteceu nova divisão administrativa em  consequência  da implantação da República. Desde o inicio do século XX até às duas décadas seguintes nada a assinalar, para além da  dedicação abnegada das gentes de Porto Alexandre.

Em 1920 foi desanexada de Porto Alexandre a área da Baía dos Tigres para formar uma intendência.


Em 22 Novembro 1920 chegou a Porto Alexandre uma segunda colónia de poveiros, esta composta de 35 pessoas, entre homens mulheres e crianças. Encontraram em construção o bairro poveiro onde mais tarde lhes foram atribuídas habitações condignas. Esta foi uma colónia bem sucedida, nada a ver com a primeira que, por ter sido constituída só de homens, não resultou. 

Como já foi aqui deixado escrito a água sempre foi o grande problemas de Porto Alexandre. Em 1923, por decreto 238 de 16 de Fevereiro,  foi mandada canalizar a água para abastecimento da população, captada no leito do rio Curoca, a cerca de 15 km.

Em 1923 foi construído o Hospital de Porto Alexandre. Em 1935  a vila é de novo elevada a sede concelho, sendo concedida a Foz do Cunene como posto administratiavo.

O desenvolvimento de Porto Alexandre, é lento, mas progressivo, e sempre acompanhado do trabalho exaustivo daquelas corajosas e abnegadas gentes. 

Em 1926 foi criada a Divisão dos Serviços de Fixação de Dunas, dependente da Repartição Técnica de Florestas. Tinha por finalidade impedir o avanço para Norte das areais do Deserto e  e executar medidas de protecção a uma povoação que estava em risco de ser soterrada. Os trabalhos tiveram inicio em 1928 sob a direcção  do Engenheiro Bento Alves, chefe da Divisão Técnica daqueles Serviços.  A plantação de árvores tinha que ser precedida de barragens de silvas mortas, colocadas em média, a 700 metros da linha do mar a fim de quebrar a impetuosidade dos ventos dominantes e suster as areias para permitir o avanço dos trabalhos. Entre a barragem e a praia foram plantadas as primeiras árvores adaptadas à constituição geológica do terreno e mais resistentes à percentagem de sal da água da rega de que era possível dispor, proveniente da infiltração do mar através das areias finas das dunas.

Um trabalho iniciado 1928 e continuado à  custa de  muita dedicação e persistência povoadas as grandes dunas numa zona prolongada a barlavento de forma a construir uma cortina protectora. Por outro lado a barragem formada pelas árvores já plantadas tem ocasionado a formação de uma cerrania de dunas, para além da cortina verde. e que, só por si está a constituir uma primeira linha de defesa. Trata-se de plantação de casuarinas equisetifolia e de acácia saligna um numero de árvores gigantesco e por uma superfície de seis quilómetros de comprimento e uma profundidade média de  seiscentos metros. A vila ficou assim defendida dos elementos que a flagelavam e tornavam a vida impossível para as suas gentes Exceptuando os dias de vento leste em época própria  sempre desagradáveis, o clima da vila era até moderado nas duas estações,  quer no Verão, quer na época de cacimbo, no Inverno. Vencida a batalha contra as dunas a luta continuou com o alargamento vila e seu crescimento correspondente  cortina verde e muralha protecção.


A partir 1930, no quadro da administração do Alto Comissário Norton de Matos, houve a esperança de um surto de progresso encorajador com a chegada, a 15 Março de 1921 da 1ª colónia de pescadores poveiros que ficaram alojados nas instalações da Companhia do Sul de Angola, fundada 31 Dezembro 1919.
 

Em 1972 recepção ao Governador Geral, com regata de traineiras




O encarregado do Governo de Moçâmedes, José Pereira Sabrosa, no seu relatório de 1932 sobre o Curoca diz: "a agricultura que em outros tempos aqui teve muita importância, está, presentemente reduzida às necessidades com a alimentação dos trabalhadores empregados nas o pescarias."  33 anos volvidos, apenas no vale do Curoca estão a ser cultivadas as Fazendas de S. João do Sul, Pinda e Camilunga, pertencentes, respectivamente a Adérito Sanches, Lda. Empresa Industrial do Pinda e  José Pereira da Silva.

Em 1936, importa também referir, a firma Antunes da Cunha Lda empreendeu a exploração da Fazenda Camilunga,  com o fim de abastecer de produtos hortícolas o pessoal da sua industria de pesca, sendo o excedente para venda às gentes de Porto Alexandre. A mesma fazenda à qual Capelo e Ivens se referiram no seu relatório, situada a 35 quilómetros da vila. Para transporte foi adquirido entre 1936 e 1944 no Sudoeste Africano alguns casais de camelos que utilizou durante vários anos.
A partir de 1954 com o aumento do transporte automóvel, os camelos são dispensados, acabando por se dispersarem pela região e por se multiplicarem em dezenas de unidades, resultando numa nova espécie Namibe.

No ano de 1957, por portaria 9739 de 27 de Abril,  foi criada a Câmara Municipal de Porto Alexandre, com plano de urbanização aprovado. Por portaria 9776,  de oito de Maio do mesmo ano,  é concedida à Câmara Municipal o domínio dos terrenos do regulamento de Concessão de Terrenos do Estado, aprovado por decreto n. 5847-C de 31 Maio 1919.

 
 A rua principal, a Igreja, o Colégio...


Porto Alexandre, a vila do deserto não parou de crescer de acordo com o crescimento sua economia baseada pesca Na década de 1960 muniu-se de bons arruamentos, logradouros públicos, jardins, campos de jogos, casas de espectáculos, estabelecimentos ensino, primário e secundário. A cidade cresce paralela à baía onde águas afagam uma das melhores praias da província de Angola.

Quando o Chefe do Estado português, Almirante Américo de Deus Tomáz visitou Porto Alexandre, em 17 de Setembro 1963, foi concedido por diploma legislativo ministerial  à vila o uso do escudo de armas e bandeira própria, conforme  Boletim Oficial, 1 série, 2. ,suplemento n.37  do mesmo ano.   Em 19 Novembro  de 1964,  foi criado por portaria o lugar de Presidente Privativo da Câmara Municipal de Porto Alexandre, conforme publicação no Boletim Oficial n.2  2ª serie 9 de Janeiro 1965.

O Parque Infantil


Naquele tempo não havia petróleo, nem a facilidade de acesso ao crédito que há hoje, e foi à custa de um esforço persistente feito por gente dedicada ao mar, numa luta diária contra a rudeza do deserto, garôas temerosas, falta de recursos, que os alexandrenses lançaram ao mar as primeiras redes ali usadas pelo homem, entregues a si mesmos, sem ajudas espécie alguma.


As areias do Deserto do Namibe, transformadas num belo e colorido jardim

As novas gerações no início da década de 1970
Os homens do mar


A fartura de pescado
Uma traineira



 O homem alexandrense na luta contra a aridez Deserto venceu pela sua coragem e graças ao esforço persistente  dos pioneiros... Lamentavelmente a avaliação que tem sido feita pela História dos povos não tem sido justa para com eles. Esperemos que um dia a História  o reconheça.

MariaMJardim




segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Uma perspectiva de Moçâmedes, in Navegação de Paz e de Glória, de Dutra Faria

Navegação de paz e de glória.: FARIA, Dutra, 1910-1978





"SUBINDO A SERRA DA CHELA"


..."Cidade de pescadores,em seu aspecto portuguesíssima e paupérrima,com sua população humilde formada por algarvios e outros homens do litoral metropolitano , laboriosos, tenazes,com o gosto, o amor, a paixão do mar,proprietários e tripulantes de trezentos barcos -- Moçâmedes há muito que ficou para trás entalada entre as ondas do Atlântico sulcadas de velas,as rochas da Torre do Tombo esburacadas de cavernas e as areias e pedregais do mais feio, mais árido e mais monótono deserto do mundo,através do qual as cabras de leque galopam,tímidas e airosas,numa fuga desabalada e pânica...

... De novo desembarcados, o nosso automóvel galga já os contrafortes da imensa e agressiva serra da Chela. Os olhos descobrem,na estrada, as primeiras curvas perigosas;alcançam da estrada os primeiros abismos tenebrosos. Lá em baixo,é o deserto que se alonga até aos confins do horizonte"....."Sucedem-se, essas ruínas, por assim dizer de quilómetro em  quilómetro, nuas, desamparadas, esquecidas, sem uma lápida, sem um placa que fale da sua história aos que passam, trágicas como túmulos abandonados. Páginas apagadas -- desfeitas -- de uma epopeia silenciosa e anónima. Marcos de um esforço e de uma vontade animados por uma esperança e por instinto de império. Passos de um lento calvário. Outras tantas experiências de colonização ao longo dos caminhos da serra, na marcha para os planaltos de Angola"...

...A terra parecia fértil, luxuriante, a vegetação dócil, o gentio. Detinha-se numa daquelas clareiras, uma família de colonos. Desengatavam-se os bois da "espana".Amassavam o barro.Punham os tijolos a secar ao sol. Derrubavam árvores. Desbastavam troncos. Levantavam as paredes da casa, cobriam-nas de capim bem seco. E mal o fogo crepitava na pedra da lareira, afugentando para longe as sombras e os pavores da noite africana, o colono voltava-se para a terra, ateando queimadas, arrancando raízes,abrindo canais de irrigação, revolvendo endurecidos torrões a golpes de enxada,deitando,enfim,nos primeiros sulcos do arado,os primeiros grãos de trigo ou de milho. Mas a terra negava-se. Não era,afinal o que parecia. Novamente o colono engatava os bois, novamente partia, comprido chicote em punho, deixando a casa,voltando-se as costas... Mais adiante !...mais adiante !..."

...Entrámos nós também no planalto. Entretanto anoiteceu, e por cima das nossas cabeças parecem mais perto de nós as estrelas. Acabou-se a estrada tormentosa, íngreme,ladeada de precipícios. Rectas agora sucedem-se às rectas. Depois, ao longe, avistam-se luzes como de uma grande cidade. Mas aquelas luzes movimentam-se, deslocam-se, avançam, correm -- vêm ao nosso encontro. São archotes, milhares de archotes empunhados por milhares de pretos. A uma luz vacilante e vermelha destacam-se da treva, por entre a fumarada, tatuagens medonhas, colares e pulseiras de luzidio cobre, facas e azagaias que reluzem, carapinhas emplumadas, bocas abertas, escancaradas num pasmo selagem. " (pgs.: 142-143-144-146) 

(Transcrições parciais da obra: "A NAVEGAÇÃO DE PAZ E DE GLÓRIA" , de DUTRA FARIA (1910-1978) em "ANTOLOGIA DA TERRA PORTUGUESA - O ULTRAMAR PORTUGUÊS - ANGOLA" - 1961  

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

As colonias portuguezas no seculo XIX, by Manuel Pinheiro Chagas








"...As colónias africanas eram um vazadouro para onde despejávamos todas as fezes que tínhamos no reino. Com degredados as povoávamos, com degredados formávamos o seu exercito e, quando não eram degredados, que o compunham, eram batalhões expedicionários que levavam do continente os mais torpes elementos das tropas nacionaes."

Em 1817, quando acabou a guerra peninsular e se tratou de mandar uma expedição para Montevideo, organizou-se com a flol dos nossos regimentos, pozeram-se à sua frente officiais como Lecou, Saldanha, Azevedo e Claudino.

Em 1835, pouco depois de ter acabado a guerra da liberdade, quando se quiz mandar uma expedição para Cabo-Verde, organisou-se um batalhão com os soldados mais ruins e indisciplinados que havia, não no exercito vencedor mas no exercito vencido. Por isso, a façanha que esse batalhão praticou foi matar todos os seus officiaes, á excepção de um ou dois alferes, que escaparam por milagre t

Se essas "colónias não eram senão ninhos de escravos, e era a escravatura a única fonte da sua receita ! . . . Sá da Bandeira appareceu, esse animo generoso. Promulgou a lei de 1836 que abolia a escravatura, e procurou fazel-a cumprir. Mas todos os interesses feridos se sublevavam contra elle. Alcunhavam-no de utopista, accusavam-no de arruinar as colónias. Os governadores que iam para o ultramar, com ordem expressa de acabar com o odioso trafico, viam-se obrigados a transigir, ou a fugir. 
Em Moçambique, o marquez de Aracaty, um Oeynhausen, tinha de suspender a lei de 1836  porque os escravistas não a deixavam executar. D. António de Noronha em Angola, depois de uma lucta formidável, tinha de fugir quasi para a Europa. Joaquim Pereira Marinho, em Moçambique, via-se salteado por toda a espécie de calumnias, e por uma guerra ferocíssima, porque effectivamente debellava os escravistas. O tratado com a Inglaterra concluído em 1842 impunha-nos sacrifícios enormes, sujeitava-nos a continuados vexames, e a tudo nos resignávamos para cumprir lealmente a nossa missão emancipadora. E, emquanto o cruzeiro portuguez se mostrava implacável com os navios que transportavam escravos, emquanto as nossas colónias definhavam porque perdiam uma receita que não era substituída, os navios inglezes tomavam os negros escravos não para os libertar, mas para os levar ás suas colónias, e estas floresciam com o trabalho gratuito dos braços que à escravatura deviam.

De vez em quando algum estadista, algum governador do ultramar pensava nas colónias, muito de relance comtudo, que as guerras civis absorviam-nos. Bonitas palavras na camará de vez em quando, actos raríssimos. Apparecia Pedro Alexandrino em Angola, procurando explorar e conhecer a província, implacável com a escravatura, mas tentando deveras fazer alguma coisa útil.

Depois em 1849 appareceu também um homem dedicado, enérgico, de verdadeira iniciativa, Ber- nardino Freire de Abreu e Castro, que era o verdadeiro fundador da colónia de Mossamedes. Lu- ctava com innumeras dificuldades, mas a colónia lá ia rompendo lentamente, até que afinal se trans- formou na villa, que é hoje uma das nossas glorias ultramarinas. Ha quarenta annos ! E pouco mais se fazia ! Em 1852 appareceu um decreto, em cujo preambulo se dizia pomposamente que, sendo notório e incontestável que innumeros emigrantes portuguezes iam procurar trabalho no Brazil, sonhando phantasticas riquezas e não encontrando afinal senão a miséria e a morte, sendo incontestável ainda que os madeirenses iam procurar em Demerara, nos climas inhospitos da Guyana ingleza, as febres que faziam d'essa colónia britânica um cemitério para os portuguezes, era indispensável que se tratasse de derivar para as nossas colónias africanas essa emigração nacional, e com esse louvável intuito de crear um imposto nas colónias sobre a importação dos vinhos e aguardentes de Portugal. Palavras, e só palavras

Trinta e três annos depois é que o auctor (destas linhas fundava n'esse districto de Mossamedes, tão claramente indicado para a colonisação portugueza, as auspiciosas colónias Sá da Bandeira e S. Pedro de Chibia !"

As colonias portuguezas no seculo XIX (1811 a 1890)

https://archive.org/details/ascoloniasportu00chaggoog


A passagem pelo Ministério da Marinha e Ultramar

Por esta altura os seus dotes de oratória, demonstrados no parlamento e nas cerimónias públicas onde era um dos oradores mais convidados, aliados à sua activa participação na imprensa, tinham feito de Pinheiro Chagas um dos mais importantes e influentes políticos do tempo. Assim, quando em Outubro de 1883 o governo presidido por Fontes Pereira de Melo se viu confrontado com crescentes problemas colocados pelas potências europeias, para além das pressões antiesclavagistas lideradas pela Grã-Bretanha, Pinheiro Chagas foi chamado para substituir José Vicente Barbosa du Bocage na pasta da Marinha e do Ultramar, transitando este para a pasta dos Negócios Estrangeiros.
Manter-se-ia naquela pasta até 16 de Fevereiro de 1886, data em que o ministério presidido por Fontes Pereira de Melo deu lugar a outro, agora presidido por José Luciano de Castro. Tratou-se de um período decisivo em que as rápidas movimentações das potências europeias na frente diplomática, e na consolidação da sua ocupação do território em África, punham em crise a velha partilha de esferas de influência naquele continente, ameaçando a manutenção do controlo luso sobre boa parte dos territórios tradicionalmente reclamados como estando sob soberania ou protectorado português.
Pinheiro de Chagas e o seu colega dos Negócios Estrangeiros, José Vicente Barbosa du Bocage, tiveram de enfrentar difíceis negociações com o governo britânico sobre a soberania portuguesa na costa ocidental de África, com destaque para as questões relacionadas com o controlo da foz do rio Zaire e com o esclavagismo no Daomé, em especial em torno dos problemas levantados pelo presença portuguesa em São João Baptista de Ajudá.
Nas eleições gerais realizadas 29 de Junho de 1884 foi eleito deputado pelas Caldas da Rainha.
Estas questões, associadas à contestação que a França, Alemanha e Bélgica fizeram ao acordo que havia sido laboriosamente negociado em princípios de 1884 sobre a navegação na foz do Zaire, levaram convocação da Conferência de Berlim, que decorreu de Novembro daquele ano a Fevereiro do ano seguinte.
Todas estas difíceis negociações foram feitas num ambiente de grande exaltação patriótica em Portugal, em boa parte preparado pelas intervenções jornalísticas anteriores do próprio Pinheiro Chagas, que tornavam impopulares as posições do governo português, muitas vezes obrigado a transigir face à força dos interesses das grandes potências europeias.
Foi neste contexto de tensão sobre as questões coloniais que Pinheiro Chagas se associou a um grupo de intelectuais e políticos para fundar, à imagem das sociedades de exploração britânicas, a Sociedade de Geografia de Lisboa. O objectivo era dar corpo a um conjunto de viagens de exploração em África que rivalizassem com as realizadas sob a égide britânica, francesa e belga.
Foi assim que nasceu o mapa cor-de-rosa e se realizaram as grandes viagens de exploração de Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, Serpa Pinto, Augusto Cardoso, Henrique de Carvalho e Francisco Newton, quase todas entre 1884 e 1885.
Nas eleições gerais de 1887, 1889 e 1890 foi eleito deputado pelo círculo de Viana do Castelo, mantendo sempre uma muito activa presença parlamentar. Também a sua presença na imprensa não abrandou, para além de ser à época considerado como um dos mais conceituados escritores portugueses. Neste período, também a sua intervenção na Sociedade de Geografia de Lisboa e na Academia das Ciências merece nota.
Por decreto de 29 de Dezembro de 1892 foi nomeado par do Reino vitalício, tomadno assento pela primeira vez na Câmara dos Pares na sessão de 30 de Janeiro de 1893.
Em Agosto de 1893 foi nomeado presidente da Junta do Crédito Público, cargo que ocuparia até falecer.
Manuel Joaquim Pinheiro Chagas faleceu em Lisboa a 8 de Abril de 1895. Foi um dos grandes vultos da história portuguesa, tendo sido vítima de uma odiosa agressão, mal esclarecida, da qual nunca se recuperou.

WIKIPÉDIA



Moçâmedes e o regresso das forças que participaram nas campanhas do Cuamato em 1907




Na Chibia, recepção à Forças que regressaram do Cuamato


Em Moçâmedes, as  forças que regressaram do Cuamato


Na busca de uma interpretação para estas imagens, encontrei as seguintes passagens sobre a campanha do Cuamato em 1907:

...Aquellas forças que regressaram do Cuamato atravessaram as principaes terras do planalto no meio de festas ruidosas e carinhosas recepções, feitas pelos habitantes impulsionados por um grande sentimento patriótico, que nunca poderemos esquecer; festas que foram o preludio das grandes demonstrações de alegria com que no reino foram acolhidas enthusiasticamente as tropas da metrópole que tomaram parte na columna e o commandante d'ella. 

Em Quihita cumprimentaram-nos e receberam-nos aflectuosamente os missionários ali installados.

...Na Huilla fizeram o mesmo os que lá dirigem proficientemente o grande e antigo estabelecimento missionário do Espirito Santo; aqui estava o nosso conhecido padre Bonefoux, superior geral das missões do planalto, e tanto elle como os seus zelosos coadjutores,redobraram para comnosco de carinho e affecto, de attenções e de dedicações que nunca poderão ser esquecidas; e na povoação da Huilla as auctoridades e a pequena colónia europeia com o seu parocho, o reverendo missionário Pereira, de uma grande amabilidade, aclamaram com enthusiasmo a columna á sua passagem.

A Chibia engalanou festivamente, e a sua numerosa população foi da mais cordeal e franca amisade em todas as festas que nos proporcionou, desde a recepção fervorosa de enthusiasmo que nos fez, até ao grande banquete onde a gentileza das suas damas chegou ao delicado requinte de nos servirem graciosamente a refeição.

Dois dias depois da nossa chegada ao Lubango, a 12 de novembro, era publicada uma ordem de serviço dissolvendo a columna, e indicando ás unidades os dias da partida de cada uma para Mossamedcs, onde de novo nos reunimos todos ahi pelo dia 18 daquelle mesmo mez.
  No Lubango o enthusiasmo augmentou com o numero dos manifestantes e o fervor do seu patriótico contentamento, desde o dia em que chegamos até aquele em que com novas festas nos compensaram, em dias alegres, das amarguras e perigos passados. Nunca poderei lembrar-me dos rápidos dias que passamos n'essa terra, sem recordar a sincera amisade, o grande enthusiasmo e patriótico alvoroço com que ali nos receberam, entre todos, João de Almeida o digno escrivão de fazenda do concelho, e o alferes Bernardino Ferreira, de quem já tive occasião de fallar noutro logar.  Dois dias depois da nossa chegada ao Lubango, a 12 de novembro, era publicada uma ordem de serviço dissolvendo a columna, e indicando ás unidades os dias da partida de cada uma para Mossamedcs, onde de novo nos reunimos todos ahi pelo dia 18 daquelle mesmo mez. Descrever minuciosamente as festas ruidosas com que a galharda população de Mossamedes recebeu durante alguns dias os expedicionários, é tarefa que in- felizmente não posso fazer por não ter podido assistir a ellas. Mas se eu disser que a hospitaleira cidade, bellamente engalanada, esteve em festas constantes, durante aquelles dias, só interrompidas para prestar a homenagem da sua dor ao marinheiro que lá ficou se- pultado, e esta era ainda uma delicada manifestação do seu carinho ; e se eu disser que essas festas, desde a brilhante recepção feita ás forças da columna no terminus da linha férrea (kilometro n.° 73), até ao seu embarque, foram tudo quanto de mais sincero e de mais enthusiasta pôde haver, dando a nota vibrante do civismo dos seus habitantes, seguramente não pecco por excesso, antes ficarei muito áquem da verdade.

Essas demonstrações de regosijo e de affecto, como as que até ali recebêramos, e que ficarão indelevel- mente gravadas no coração reconhecido de todos os expedicionários, terminaram em Mossamedes a 23 de novembro, no momento em que o paquete Africa, levantando ferro, levava para o norte, a caminho da metrópole, um troço dos bravos e valentes soldados que durante cinco mezes se bateram, em regiões inhospitas  e em regiões desconhecidas, comas inclemências do clima hostil e com o furor de um inimigo ousado, levantando bem alto, pela nobreza do seu procedi- mento c pela coragem dos seus esforços, o nome sagrado da PATRIA PORTUGUEZA. Embora por uma pena obscura e humilde, descriptos sem o brilho e sem o realce merecidos, que os seus feitos heróicos e a sua brilhante conducta li quem para sempre gravados nos annaes da nossa historia militar colonial.



A campanha do Cuamato em 1907: breve narrativa acompanhada de photographias



Published 1908

Full text of "A campanha do Cuamato em 1907: breve narrativa acompanhada de photographias"

 Conferencia sobre o sul de Angola, Por J.A. Roçadas:

https://books.google.pt/books?id=xQkTAwAAQBAJ&pg=PA13&dq=boers+em+angola&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwiVotGMiJ7LAhUKHxoKHa_zA7E4HhDoAQhNMAU#v=onepage&q=boers%20em%20angola&f=false

 

 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

ILHA DE SANTA HELENA








A propósito de uma notícia, datada de 03-07-2010, e publicada no site"Ango Noticias", relacionada com o líder do Partido Democrático Angolano(PDA), António Alberto Neto, que defende a ideia de que o governo angolano devia encetar negociações diplomáticas a fim de obter a soberania de várias ilhas na Antártida, actualmente sob tutela da Grã-Bretanha, ideia contida aliás, num livro que o político lançara com o título «A Outra Face de Angola», onde reivindica a soberania sobre certas ilhas no continente Antártico, com destaque para Santa Helena, onde Napoleão Bonaparte Bonaparte esteve exilado e onde acabou os seus dias envenenado. Ou seja, 
"... na sua ZEE, Zona Económica Exclusiva. Junta outras ilhas, casos de Bouvet, Mone Maud e Terra da Nova Suécia, que se situam entre o território Sanae, pertença da África do Sul, e a Novalazareskaia, sob tutela da Rússia ":

"...O continente antártico deve pertencer também aos países africanos, pois dele depende a sobrevivência da Humanidade, e o seu uso deve ser para fins pacíficos", fundamenta Alberto Neto, que em tese compara a situação ao caso das ilhas Malvinas, cuja soberania é reivindicada pela Argentina, que durante a década de oitenta chegou mesmo a envolver-se numa guerra com a Grã-Bretanha. Polémica ou não, a ideia está posta à mesa. Embora muitas das ideias que Alberto expende no seu livro sejam velhas de anos, ao editá-las agora significa somente que este velho político as mantém. Algumas são mesmo alvo de recensões e actualizações. Folheando os arquivos da história, consta que Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola independente, terá tido isso em mente, chegando em determinada ocasião a mandar farpas ao Ocidente. Para Alberto Neto, que foi um discípulo de Agostinho Neto, não se trata de uma ideia estéril, sem qualquer utilidade prática para o país. Ele acha que Angola poderia estabelecer na Antártida uma base de estudo – à semelhança da África do Sul, Argentina e Chile – que serviria fundamentalmente para fazer um acompanhamento das riquezas desse continente. Serviria ainda, segundo ele, para coisas como o monitoramento da «corrente fria de Benguela e do plâncton acumulado no fundo do mar e depositado na nossa costa. "

FIM DE CITAÇÃO.



Falemos agora um pouco da Ilha de Santa Helena...
 
A ILHA DE SANTA HELENA
(alguns subsídios para a sua História) 

A Ilha de Santa Helena, a pequena e isolada ilha situada entre Angola e o Brasil, quase a meio do Oceano Atlântico, pertencente ao arquipélago com o mesmo nome, formado por três ilhas, distantes 5.000 quilômetros entre si: Ilha de Santa Helena, ilha Ascensão, e ilha Tristão da Cunha,  foi descoberta por acaso, em 1502, por João da Nova, navegador turco galego ao serviço de Portugal, que fez parte, no passado, da rota dos navegadores portugueses a caminho da Índia.  A descoberta da Ilha por portugueses foi mantida em segredo durante bastante tempo, para evitar que holandeses e ingleses se apossassem dela, e o arquipélago era ao tempo da sua descoberta desabitado. Santa Helena recebeu em 1515 o seu primeiro habitante permanente, o soldado português Fernão Lopes, que permaneceu isolado em na ilha até 1545,  excepto por ocasião de uma breve visita que fez à Europa, após 10 anos de isolamento na ilha. Mas na verdade Portugal nunca a colonizou Santa Helena, e a ilha acabou ocupada no século XVII, sucessivamente, por Holandeses, em seguida por Ingleses, passando em 1673, definitivamente à posse da Inglaterra.  Há notícias que no século XVI, a Ilha de Santa Helena foi usada como base para as aguadas e para o abastecimento das tripulações, ponto de passagem que se tornara  dos navios negreiros ingleses a caminho das Américas. Os cidadãos de Santa Helena são pois, brancos, filhos de ingleses, não falam a língua dos portugueses que a descobriram. Ao arquipélago nunca chegaram as invasões banto, nem nunca lá esteve algum banto. A escolha do nome para o arquipélago deve-se a Helena de Tróia, santa da promiscuidade.

Santa Helena foi também lugar de degredo, para onde a Inglaterra costumava enviar seus presidiários de altíssima periculosidade. Aliás, a Ilha de Santa Helena ficou famosa porque a determinada altura da ocupação inglesa recebeu um hóspede muito especial, Napoleão Bonaparte, depois de ser expulso da França, como "cidadão-non-grata e traidor da república". Foi em Santa Helena, seu segundo exílio, o local onde o envenenaram com os característicos copos de leite matinais com arsénico, matando-o. A aproximação  à  ilha de Santa Helena foi severamente bloqueada após o desembarque de Napoleão Bonaparte. Este bloqueio durou até 1821, ano da morte deste prisioneiro especial, em 05 de maio de 1821, no mesmo ano em que Dom João VI, que se refugiara no Brasil com a corte, fugindo às invasões francesas, regressou a Portugal, e desembarcou em Lisboa no dia 04 de Julho de 1821, após a queda do absolutismo em Portugal e triunfo dos liberais, em 1820.

A ilha de Santa Helena é uma das emergências de uma cadeia de montanhas submersas que existe entre a África e a América, possui uma população de aproximadamente 4 mil habitantes, sendo a maioria descendentes dos colonos britânicos, dos empregados da Companhia Britânica das Índias Ocidentais e dos trabalhadores trazidos do sul da Ásia, Índias Ocidentais, Madagáscar e China.  A Ilha  não possui riquezas, vive de ajuda da Inglaterra. Para se ter uma noção, a Ilha não possui nenhuma praia, sendo o seu litoral completamente rochoso, o que impede grandes projectos para desenvolvimento do turismo. A economia local baseia-se no turismo de pessoas endinheiradas que não se importam de viajar para o fim do mundo, apenas para ver a última cama de Napoleão, o último copo de Napoleão e vários outros apetrechos fim-napoleónicos mantidos intactos.  Para os naturais da ilha onde chegaram os portugueses em Maio de 1502, o turismo poderá mudar de maneira permanente o modo de vida local. A construção de hotéis - há inaugurações já para este ano -, estâncias balneares, a venda de propriedades, a própria pressão demográfica deixarão marcas na ilha que tem uma superfície de 122 km2 (a do Faial, nos Açores, tem 172 km2 e 15 mil residentes), paisagens deslumbrantes e uma temperatura média entre os 20-27 graus.  O arquipélago não possui aeroporto, e para acudir a qualquer acontecimento que ocorra na ilha, os habitantes servem-se de um barquinho pesqueiro denominado "RSS SOS". No entanto chega-nos presentemente a notícia do fim da era de isolamento em Santa Helena. Vôos regulares vão ter início em Maio de 2016, no local onde viveu o "Robinson Crusoé português". Santa Helena, um dos locais mais isolados e difíceis de visitar no planeta, quase a meio do Atlântico Sul, a 2200 quilómetros da costa angolana, passará a ter um aeroporto. Será o fim de séculos de reclusão.

Concluo integrando em seguida dois comentários relacionados com o citado texto, publicado no site"Ango Noticias":

"As fronteiras dos países africanos são resultado da colonização.  De acordo com a Carta da União Africana, no seu artigo 4.º, alínea b), as fronteiras dos países africanos são as existentes desde o momento da acessão à independência, princípio que já havia sido invocado com a Carta da OUA. Antes nunca houve uma Angola. Muito menos uma Angola que integrasse essa distante ilha de Santa Helena. Aqueles que defender tal ideia absurda deviam pensar que Angola até vive o problema de Cabinda.  É nosso dever cívico esclarecer essa situação. Cabinda fazia parte da Angola colonial Aquando da descolonização, em momento algum ficou discutido que se devia rever a titularidade daquele território. Nem sequer era um assunto"

Outro comentário:  "Santa Helena não é nossa!" :

"De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, os países costeiros têm direito a declarar uma zona económica exclusiva ZEE) de espaço marítimo para além das suas águas territoriais, na qual têm prerrogativas na utilização dos recursos, tanto vivos como não-vivos, e responsabilidade na sua gestão. A ZEE é delimitada por uma linha imaginária situada a 200 milhas marítimas da costa. A ZEE separa as águas nacionais das águas internacionais ou comuns. Santa Helena está a 1.000 milhas da foz do Cunene, o ponto mais próximo da Costa. "

Ainda outro comentário de "BB":

"Santa Helena é de quem lá está!!! E se não estiver ninguém, é de quem lá chegou primeiro. Senão, mudo de opinião e acabo por dar razão aos grupos independentistas cabindeses."

FIM DE CITAÇÕES E DO TEXTO



domingo, 3 de janeiro de 2016

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o fundador de Moçâmedes (Namibe) e a abolição da escravatura








Documento Nº 4 (*)

Opinião de Bernardino sobre “a melhor forma de extinguir a escravatura”

IIlmo e Exmo Snr. – Em cumprimento do officio que V. Excia se dignou mandar dirigir-me com data de 15 de desembro do anno passado, da repartição civil, sob o nº 1842, e recebi em dez do corrente, pela polaca “Esperança”, no qual me determina que exponha a minha oppinião sobre os meios possíveis de acabar por uma vez com o tráfico da escravatura nesta província, direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões e intelligencia me ditam, e bem assim a experiencia de quasi oito annos dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com escravos e gentio livre, me há demonstrado.
Dividirei a questão sob dois pontos de vista:
1º _ Acabar o tráfego da escravatura para fora das possessões portuguezas;
2ª _ Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.
Em quanto ao primeiro ponto, a rasão, a humanidade, e a própria conveniencia reclamam que o Governo Portugues, com as mais urgentes medidas ponha por uma vez termo a tam vil, dehumano, e degradante tráfico, que em vez de ser util as mesmas possessões, é a causa de seu completo, por não dizer vergonhoso atraso.
Sem me demorar em descrever os horrorosos delictos cometidos em um desembarque – delictos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos de homem, e que mal se poderia acreditar que os mesmos homens os cometessem, se se não vissem tantas vezes repetidos:  sem me demorar a descrever o que soffrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde,  mortos de fome e de sede, etc. _ somente direi que tal trafico, alem de ferrete e de ignominia e da barbaridade  que acarreta aos que nela tomam parte, é de nenhuma utilidade, senão de prejuízo para os que residem nas possessões: porquanto raras vezes recebem o producto dos infelises que uma louca ambição os fez sacrificar, e se algum recebem, é tam ceriado e moroso, que não remedeia quase nunca as suas necessidades.
Exemplificarei, a meu modo de ver, a cauza desta illusão. Costumados os habitadores europeus d’ Africa a enviarem para o Brazil um certo numero de escravos, com cuja remessa obtinham, com pouco trabalho, meios abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa, não attenderam a que taes circumstancias haviam mudado;  e animados pró correspondências, e ate por agentes daquelles que alli, depois de tal trafico se fazer por contrabando, eram os únicos que tiravam vatage, e que algumas vezes os engordavam, remettendo exactamente o producto dos escravos embarcados, continuaram porque já tinha tal habito; e os que vieram vindo sem reflexão e “mere pecudam”, seguiram a mesma marcha.

As transições são sempre custozas, e é por isso que o que obtinha escravos, em vez de os educar para os trabalhos agriculas do que tiraria mais sólidas e seguras vantagens - como isso mandava diligencia, trabalho assíduo e estudado, paciência e alguma demora em colher resultados, preferia embarcal-os, o que apenas lhe custava escrever algumas cartas. 

A repetição dos atos constituiu o habito, e para o destruir é mister empregar meios.
Serão estes, porem, difíceis na actualidade?

Parece-me que não. A oppinião do mundo reprova o enfame e criminoso traficio: a situação e ordem das coizas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o sygmatisa: e so tem a seu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados: mas quem são estes? Que o digam os que tem cahido no laço de fazer taes consignações. Se não fora a verdade de que o numero dos loucos é infinito: se não fora a possibilidade dos negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos -  como farão em ultimo recurso, pois que não se limita a venda de escravos so aquela ilha, mas dali se vendem muitos para o sul da America do norte, e por alto preço - eu diria que o trafico dos escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza; porem, em rasão destas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois, que parecem por si so eficazes.
Primeiro:- Tornar responsáveis as auctoridades administrativas e policiais por qualquer embarque que se faça nas terras de suas jurisdições: mas que esta responsabilidade seja acompanhada  das mais severas penas, e não fique so escrita no papel, este so meio acabaria de uma so vez com tal trafico. Quem vive na Africa sabe o que é um embarque, e tem ouvido o retinido das correntes, o eco do pisar dos pés opprimidos com o peso dos ferros, o bulicio das lanchas e botes, o rápido andar de centos de hõmes, que, aceleradamente se dirigem as praias. Bem se ve que difícil é que a auctoridade deixe de o saber, e, portanto, que tal facto, se aconteceu, ou foi por conveniencia ou por tolerância. Admito, porem, ainda que possível, sem que auctoridade o soubesse, e em tal cazo lembro.
Segundo: - Que o Governo da província seja auctorisado a despender, alguns contos de reis com espiões, por anno, os quaes seja obrigados a dar parte as auctoridades administrativas e policiais do local, de qualquer embarque, que se pretenda fazer: penso que assim nenhuma terá logar.
Estes espiões devem ser locaes marcados nas costas: por exemplo, nesta província ter um a seu cargo dar parte do que ocorrer entre Mossamedes e a Lucira: outros entre esta e Benguela, entre Catumbela e a Anha: entre esta e Novo Redondo: entre este e Benguela a Velha, entre esta e rio Longa, entre este e a cidade de Loanda, entre esta e Dande: entre este e Ambriz, entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos despezas que a que se faz com cruzeiros, que poir maiores que sejam e mais vigilantes, faram diminuir, mas não acabar o trafico para o exterior, se consegue o fim desejado.
Dificil é, e de gravíssimo peso, desenvolver o segundo ponto de vista, isto é, acabar na actualidade com a escravatura dentro das possessões portuguesas d’Africa. Há uma lucta do coração com a cabeça: porque, se aquelle diz que é bárbaro e inhumano, que  qualquer homem seja obrigado a servir outro,  e que não gose do mais sublime dote da natureza, o uso da sua liberdade; aquella grita, que é isso verdade, mas aponta-nos as consequências que dahi podem resultar na questão sujeita.
Sera actualmente conveniente que de todo e por uma vez acabe a escravatura dentro das possessões portuguezas d’Africa?
Consideremos:
1º  .O estado das possessões.
2º  .Uzos e costumes dos europeus que as habitam.
3º  .Estado de civilização dos indígenas, seus uzos e costumes.
4º  .Se para se conservarem as possessões, será bastante o commercio, ou se sam necessárias tãobem a cultura e a industria fabris.
5º .Se a cultura e industria fabris podem ser por braços importados da Europa, ou somente pelos indígenas.
Ninguem contestara que é mau o estado actual das possessões portuguezas d’Africa; porquanto o período de transição, que infalivelmente tem de atravessar, esta ainda morosamente passando, fez com que deve absolutamente acabar o trafico da escravatura para o exterior,  que era o seu ramo considerável de commercio, e requer que esta lacuna seja preenchida por outros meios de industria que é mister crear.
É bem sabido que Portugal exerce poder governativo somente nos pontos do litoral, e que no interior se conservam os uzos, costumes e governo do gentio, embora haja chefes que são para alli despachados, pois que estes se acommodam aos mesmos uzos e costumes por necessidade , e para fazerem o seu interesse, que é ordinariamente o que lá os leva. 

Chamando eu a Africa portugueza “um deserto de moralidade”, teria com duas palavras explicado quaes os uzos e costumes dos europeus que a habitam, salvas as devidas e honrosas excepções: porem, inda assim, dividirei estes em três classes: a de funcionários públicos; a de homes que vem procurar fortuna: a de degredados. A primeira classe que é a mais numerosa, bem sabido é que se compõe de pessoas, que não vem a Africa para tomar ares, mas para fazer seus interesses; pois que o amor da pátria, e do seu augmento, e o de conseguir gloria, constitui hoje limitada excepção a esta regra.
Há algumas que procuram fazer aquelles interesses por meios lícitos: para o maior numero todos o sam uma vez que consigam o seu fim.
Não parece que esta seja uma das cauzas porque as possessões não hão de melhorar, antes ir cada vez em maior decadência. As autctoridades para as possessões, são aquellas sobre que devia hacer mais apurada e escrupulosa escolha: porque se uma exorbita no reino, facile pronto pode ser o remédio; mas nas possessões, quando ele chega, que de males já se não tem causado?
A segunda classe é dos que vem procurar fortuna, e como esta se otinha por meio de desembarque de escravos, claro esta ser a ideia dominante ate há poucos annos: posso dizer, sem perigo de errar que o numero dos que não sam dela afectados não é o maior que se dirigem a cultura precisam luctar com quase insuperaveis dificuldades. Ter consciência mais que ordinária e vontade de ferro para não desanimar logo no principio. Ainda assim , tal qual o impulso se lhe tem dado, mormente em Mossamedes, em cujo porto já entram por annos dezenas de navios que vem procura prouos agiculas.
A terceira classe é a dos degredados, os quaes quasi todos sam soldados, e não é a menos útil pois que não servem mal, e melhor o fariam, se não tivessem tanta demora nas prisões do reino, cuja escola lhes ensina o que muitas vezes ainda não sabiam, e os torna de má saúde e de hábitos occiosos.
 
Costumes, religião e governo do gentio sam quasi geralmente os mesmos da primitiva. So com a diferença de que nada de bom lhes tem ensinado os europeus, antes communicado os nossos vícios. Não se diga que sou exagerado, poderia referir muitos factos que tenho presenciado, que demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar innativo nas terras do litoral, mas correr os sertões ver o que por la vae, e se faz, para bem avaliar o que dizemos. Não é possível referir aqui todos os costumes do gentio; seria isso matéria para uma obra volumosa: referirei somente alguns que tem relação com a matéria em questão.
Sabido é que a maior parte do gentio d’Africa tem o seu governo, sob uma ou outra denominação, sob uma ou outra forma de sucessão. O governo patriarchal indistinctamente a todos os que governam seus filhos, ou seus escravos.Dispoem, ouvindo a oppinião dos seus conselheiros (esta é a forma de governo mais seguida). Da vida e da propriedade de todos tomando  por pretexto este ou aquelle crime: por exemplo, o de olhar para o “Tembo”, a primeira amiga do chefe -porque passou por tal lugar, porque é feiticeiro. Este ultimo crime, que quase sempre recae sobre quem possue gados, é frequentemente imputado, e a pena é ser morto o feiticeiro, escravisada a gente que com ele residia, e tomados os gados e tudo o mais que possuíam. Muitas vezes a pena de morte do feiticeiro é comutada em degredo, para fora do estado, sendo vendidos com  escravos. Ora, sendo muitos os governos, porque quasi todos são menores em terreno e população do que uma das nossas províncias do reino, e sendo este o costume de todos já se vê o numero de escravos feiros por anno, por tal motivo. 
É honra e signal de nobreza entre o gentio, ser bêbado e ladrão, e aquelle que mais guerras faz e rouba maior quantidades de gado e pessoas, é o maior e mais fidalgo; sendo esta a rasão de tantas e tam repetidas correrias, a que chamam guerras. Todas as pessoas nelas agrarradas sam escravisadas  -velhas. moças e creanças - e os seus parentes as vam resgatar, ou sam vendidas ou mortas,  e daqui se pode concluir o numero de escravos que tal costume deve produzir. Em quasi todos os governos pode o chefe mandar vender um dos seus filhos, ou escravos, quando carecer de pólvora, d’armas, de vestidos, etc.., e assim daqui vem ainda o augmento do numero de escravos.
Os pretos, segundo os seus uzos,  não devem trabalhar na cultura nem nos serviços domésticos: sam as pretas: A profissão deles é caçar, pescar e carregar. Se um preto, por exemplo, tiver sua mulher doente, e for buscar uma cabaça d’agua, ou um feixe de lenha, comete maior crime e paga maior multa, do que se matasse outro preto.
Quem percorre os sertões, e com os olhos de investigação observa o que se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os pretos; porque as pretas sam os que cultivam, fazem a comida, preparam as bebidas, e ate o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: tem estes, quasi todos, mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correa na cintura, com um palmo de couro que lhes cubra as partes pudendas, e outro palmo que cubra por detrás, eis um preto vestido de ponto em branco.
Dois ou tres porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo faz, ou – a parte que tem de ferro os seus ferreiros-, ei-lo armado e pronto a seguir por toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia. À vista, pois, dos costumes que venho a referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das possessões, é necessario, ou que o gentio obedeça e cumpra a lei que se lhe impuzer, e perca seus maus e inveterados uzos, por meio da força, ou que se empregue meios de o civilizar, incutindo-lhes os princípios da sã moral. O primeiro meio quase impossível porque demanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor;  o segundo é o mais conveniente, e depende somente de espalhar entre eles, bons missionários. Com estes meios, em poucos annos, muito se conseguiria.

Ora, isto é quanto ao gentio: para acabar a escravidão entre os  súbditos portugueses há que considerar.
1º Que o commercio so por si não é sufficiente para manter as possessões.
2º Que sam necessárias a agricultura e a industrial fabril, e que estas não podem existir sem braços.
3º Que estes,  attentos aos uzps e costumes do gentio, não se obtem senão obrigando-os.
4.º Que segundo  a situação actual, e o poder que sobre os pretos exerce o governo, o único meio de os obrigar é comprando-os, porque entendem que logo sam vendidos, tem o dever de prestarem a quem os compra os serviços.
5. Que para acabar por uma vez com a escravatura dentro das possessões é de justiça que os que tem escravos, recebem o valor dos mesmos, parao que são necessários muitos centos de contos de reis.
Acresce ainda mais, e esta consideração é de grande peso, que se não comprarem os pretos que os costumes gentílicos fazem escravos em todos os annos, serão muitos deles mortos, porque os captivos nas guerras, e os condenados por feitiçarias, e por outros taes crimes, a não serem vendidos, serão assassinados, e por conseguinte, a medida de acabar por uma vez com a escravatura dentro das possessões, ditada pela civilização, pela justiça, e pela humanidade, é, nas actuaes circunstancias, não so prejudicial, mas talvez aniquile as mesmas possessões, leve em seus resultados, a que cometam crimes ainda mais inhumanos.
Quando as circunstancias me obrigaram a ir convocar uma guerra gentílica contra os Gambos, muitas forão as embaixadas que recebi, e em todas se me dizia que tal Soba estava pronto para o serviço do Rei, porem que este os queria prejudicar acabando com os escravos, que era o seu primeiro redito.  Combato, como em taes lances me foi possível, semelhante reclamação e talvez que ouvissem a este respeito o que ainda não tinham ouvido.  Combati esse bárbaro costume, e taes razões lhes dei, que não lhes ficando esperança depoderem continuar tam degradante uso, ainda assim obtive o que pretendi.. e foi d’ahi que tirei por conclusão que, com bons missionários fácil seria fazel-os mudar de seus maus costumes, sendo a primeira necessidade, incutir-lhes o amor ao trabalho; 
porquanto, a occiosidade que professam, lhes faz abraçar todos os uzos que a favorecem.
Os poucos pretos com que trabalho, podem hoje ser livres, porque continuarão a ser úteis e felizes pela sua agencia, que para eles já é habito. Eduquei-os antes com boas maneiras, do que com castigos bárbaros: não tem tido fome, nem falta do essencial, e por isso me não fogem, e vivem satisfeitos. Se em vez de trinta tivesse tido três mil, daria hoje a Africa outros tantos bons trabalhadores. Será porem possível fazer-se nas possessões d’Africa, com braços importados da Europa, a cultura?
É facílimo resolver esta questão negativamente; porquanto, sem lembrar a difficuldade de os obter, e as enormes despezas para isso necessárias, direi não ser possível cultivar com os europeus, porque ficam logo iimpossibiltados do trabalho braçal, em rasão das moléstias de que são atacados, e, porque tão
bem não se pode obter o numero suficiente para a cultura e industria fabril; e assim o ultimo recurso é aproveitar os indígenas, e o medo é compral-os, pois assim se sujeitam sem o menor obstáculo e sem repugnância, e se depois fogem, é isso devida a maior parte das vezes, ao mau modo de os tratar. So no fim de tres ou quatro annos é que um preto gentio fica bom trabalhador, e neste período é necessário muita paciência em o ensinar, e em so o ir exigindo diariamente mais um pouco de serviço.
Não me agrada a distinção de escravos e livres, nem admito na minha fazenda. Todos sam agricultores com iguaes direitos e obrigações. So é distincto o que merece, pelo seu comportamento. Esta nomenclatura é causa de rivalidade, portanto, origem de desordens e fugas.
Entendo que bem podia legislar-se sobre os serviços que deviam prestar os pretos que a humanidade mesmo reclama se comprem nas nossas possessões segundo o estado actual, sem se uzarem os reprovados nomes de escravos e liberto.  Se o infeliz háde injustamente perecer, é mais humano comprar-lhe os seus serviços que tam úteis se podem tornar em mãos de homes e intelligentes, sendo taes serviços por enquanto essencialmente necessarios nas mesmas possessões. Era isso mais racional e justo uma vez que se fizessem regulamentos em respeito ao modo como deviam ser tratados os comprados – regulamentos, cuja exata execução fosse encarregada as auctoridades administrativas e policeais, com a mais severa responsabilidade; porem, repito ainda que esta responsabilidade não devia ficar somente escripta no papel , como acontece a quase todas as nossas leis.
Expendi francamente a minha opinião, e fui bastante extenso; mas ainda maior extensão podia a matéria, que julgo de toda a transcendencia.
Sou na província o menos entendido; porem dos que mais desejam o progresso, augmento e civilização das nossas possessões.
Deos Guarde a V. Exa. Por mui dilatados annos. - Mossamedes, 15 d’Abril de 1857. IIImo e Exmo. Snr. José Rodrigues Coelho do Amaral, Governador Geral da Provincia. – Bernardino F.F.A. e Castro.
(*) Boletim Oficial de Angola, n. 611, de 13 de Junho de 1857.





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Ainda sobre a repressão do tráfico de escravos... do Livro intitulado  "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro"  by  Vicente, Jose (Gil Duarte), pg 1959.





João Duarte de Almeida e Bernardino Abreu e Castro foram dois apóstolos da abolição da escravatura. João Duarte de Almeida faz, sobre o assunto, fez  diversas exposições ao ministro Sá da Bandeira, porém não lhe sobrando espaço em seu livro para transcrever as suas exposições ao Governo Central de Lisboa  o padre José Vicente detém-se sobre a que fez Bernardino em 15 de Abril de 1857 ao governador-geral da província,  José Rodrigues Coelho do Amaral, a pedido deste :

Temos sobre os olhos esse notável documento, glória de quem o escreveu. Escreve o fundador de Moçâmedes: 

"... Direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões de inteligência me ditam, e bem assim o que a experiência de quase oito anos, dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com escravos e gentio livre, me há demonstrado. Dividirei a questão sob dois pontos de vista:
 

1º.- Acabar o tráfico da escravatura para fora das possessões portuguesas; 
 2º.- Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.
 

Enquanto ao primeiro ponto, a razão, a humanidade, e a própria conveniência reclamam que o governo português, com as mais urgentes medidas, ponha por uma vez termo a tão vil, desumano e degradante tráfico, que, em vez de ser útil às mesmas possessões, é causa do seu completo, para não dizer vergonhoso atraso.
 

Sem me demorar em descrever os horrorosos delitos cometidos em um embarque – delitos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos de homem, e que mal me poderia acreditar de que os mesmos homens os cometessem, se se não vissem tantas vezes repetidos: sem me demorar a descrever o que sofrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde, empilhados, mortos de fome e de sede, etc. - somente direi que tal tráfico, além do ferrete da ignomínia e da barbaridade, que acarreta aos que nele tomam parte, é de nenhuma utilidade, se não é de prejuízo para os que residem nas possessões, porquanto, raras vezes recebem o produto dos infelizes que uma louca ambição os faz sacrificar, e, se algum recebem, é tão cerceado e moroso, que não remedeia quase nunca as suas necessidades."

Bernardino comprova a seguir as suas afirmações de forma irrefitável, denunciando os traficantes de escravos que obtinham, com pouco trabalho, meios abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa.

Continua: " A opinião do mundo reprova o infame e criminoso tráfico: a situação e ordem das coisas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o estigmatiza: e só tem a seu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados. Mas quem são estes? Que o digam aqueçes que têm caido no laço de fazer tais consignações. Se não fora a verdade de que o número de loucos é infinito, se não fora a possibilidade de os negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos -- como farão em último recurso, pois  que não se limita a venda de escravos só àquela ilha, mas dalí se vendem muitos para o sul da América do Norte, e por alto preço -- eu diria que o tráfico de escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza, porém em razão dessas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois que me parecem por si só eficazes.

Primeiro, tornar responsáveis as autoridades administrativas e policiais por qualquer embarque que se faça nas terras das suas jurisdições: mas que essa responsabilidade seja acompanhada das mais severas penas, e não fique só escrita no papel; este só meio acabaria de vez com tal tráfico Quem vive na África sabe o que é um embarque, e tem ouvido o ritinido das correntes, o eco do pisar dos pés oprimidos pelo peso dos ferros, o bulício de lanchas e botes, o rápido andar de centos de homens, que aceleradamente se dirigem às praias. Bem se vê que difícil é que as autoridades deixem de o saber, e, portanto, por tal facto, se aconteceu, ou foi por conveniência ou por tolerância. Admito, porém, ainda que fosse possível, sem que a autoridade o soubesse, em tal caso, lembro.



Segundo, que o Governador da Província seja autorizado a despender alguns contos de réis com espiões, por ano, os quais sejam obrigados a dar parte às autoridades administrativas e policiais do local, de qualquer embarque, que se pretende fazer: penso que assim nenhum terá lugar.



Estes espiões devem ter locais marcados nas costas: por exemplo, nesta província ter um a seu cargo dar parte do que ocorrer entre Mossamedes e a Lucira: outros, entre esta e Benguela, entre a Catumbela e a Anha: entre esta e Novo Redondo: entre este e Benguela Velha: entre esta e o rio Longa. entre esta e a cidade de Loanda: entre esta e o Dande: entre este e o Ambriz: entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos despesa do que a que se faz com os cruzeiros, que por maiores que sejam e mais vigilantes, farão diminuir, mas não acabar com o tráfico para o exterior, se consegue o fim desejado."



Bernardino faz depois judiciosas considerações sobre o problema da abolição da escravatura dentro das possessões portuguesas de África, Diz que, neste capítulo, se trava uma luta entre o coração e a cabeça. Aquele --acentua-- diz que é bárbaro e unhumano, que qualquer homem seja obrigado a servir outro, e que não gose do mais sublime dote da natureza, o uso da sua liberdade, esta grita que isso é verdade, mas aponta-nos as consequências que daí podem resultar para a questão sujeita.



Considera o estado das possessões; os usos e costumes dos europeus que as habitam; o estado da civilização dos indígenas que as habitam; se para se conservarem as possessões será bastante o comércio, ou se são necessárias também a cultura e a indústria fabris; e se a cultura e indústria fabris podem ser feitas por braços importados da Europa, ou somente por indígenas.

Bernardino é abertamente contra a manutenção da escravatura em África, mas opina que, para tanto, devem os europeus esforçar-se por civilizar as populações indígenas, o que não se verifica. Com efeito, diz: "costumes, religião, e governo do gentio, são quase geralmente os mesmos da primitiva, só com a diferença de que nada de bom lhe têm ensinado, antes comunicado os nossos vícios. Não se diga que sou exagerado: podia referir muitos factos que tenho presenciado, que demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar inactivo nas terras do litoral, mas correr os sertões, ver o que por lá vai e o que se faz, para bem avaliar o que dizemos". 



Aceita o fundador de Moçâmedes que é preciso usar de alguma força para convencer os nativos que têm de trabalhar. E explica: "Os pretos, segundo os seus usos, não devem trabalhar na cultura nem nos serviços domésticos: são as pretas. A profissão deles é caçar, pescar e carregar, Se um preto, por exemplo, tiver uma mulher doente, e for buscar uma cabaça de água, ou uma feixe de lenha, comete maior crime e paga maior multa do que se matasse outro preto."



Continua: "Quem percorre os sertões, e com olhos de investigação observa o que se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os pretos, porque as pretas são as que cultivam, fazem comida, preparam as bebidas e até o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: têm estes, quase todos,  mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correia na cintura com um palmo de couro que lhe cubra as partes podendas, e outro palmo que lhe cubra as partes por detras, eis um preto vestido de ponto em branco. Dois ou três porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo faz , -- ou a parte que tem ferro, os seus ferreiros --ei-lo armado e pronto a seguir para toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia."



Deduz, com verdade lógica Bernardino: "À vista, pois, dos costumes que venho de referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das possessões, é necessário, ou que o gentio obedeça e que cumpra a lei que se lhe impuser, e perca seus maus e inveterados usos por meio da força, ou que se empreguem meios de o civilizar, incitando-lhes os princípios da sã moral. O primeiro meio é quase impossível, porque demanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor: o segundo é o mais conveniente, e depende somente de espelhar por entre os gentios bons missionários. Com este meio, em poucos anos muito se conseguiria."



Não restam dúvidas de que Bernardino é absolutamente contra a escravatura, Mas é preciso preparar, para tanto, os próprios gentios. Conta ele:

"Quando as circunstâncias me obrigaram a ir convocar uma guerra gentílica contra oa Gambos, muitas foram as embaixadas que recebi, e em todas se me dizia que tal soba estava pronto para o serviço do Rei, porém que este os queria prejudicar, acabando com os escravos, que era o seu primeiro rédito. Combati, como em tais lances me foi possível, semelhante reclamação, e talvez que ouvissem a esse respeito o que ainda não tinham ouvido.  Combato esse bárbaro costume, e tais razões lhes dei, que não lhes ficaram esperanças de poderem continuar tão degradante uso, assim tive o que pretendi, e foi daí que tirei por conclusão, que, com bons missionários, fácil seria fazê-los mudar de seus maus costumes, senso a primeira necessidade incutir-lhes amor ao trabalho; porquanto a ociosidade que professam, lhes faz abraçar todos os maus usos que a favorecem". 



Neste pormenor se revela a personalidade de colonizador e civilizador de Bernardino. "Os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis, e felizes pela sua agência, que para eles já é hábito. Eduquei-os antes com boas maneiras do que com castigos bárbaros: não têm tido fome, nem falta do essencial, e por isso me não fogem, e vivem satisfeitos. Se, em vez de trinta, tivesse tido três mil, daria hoje à África outros tantos bons trabalhadores".



E mais adiante: " Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores, com iguais direitos e obrigações. Sé é distinto o que merece, pelo seu comportamento."



Bernardino conclui: "Entendo que bem podia legislar-se sobre os serviços que deviam prestar os pretos e a humanidade mesmo reclama se comprem nas nossas possessões, segundo o estado actual, sem se usarem os reprovados nomes de escravo e liberto. Se o infeliz há-de injustamente perecer, é mais humano comprar-lhe os seus serviços, que tão úteis se podem tornar em mãos de homens bons e inteligentes, sendo tais serviços, por enquanto, essencialmente necessários nas mesmas possessões. Era isso mais racional e mais justo que se fizesse, uma vez que se fizessem regulamentos em respeito ao modo como deviam ser comprados e tratados -- regulamentos cuja exacta execução fosse encarregada às autoridades administrativas e policiais, com a mais severa responsabilidade; porém , repito ainda,  que esta responsabilidade não deveria ficar somente escrita no papel, como acontece a quase todas as nossas leis. Sou, na província, o menos entendido; porém, dos que mais desejam o progresso, aumento e civilização das nossas possessões."

Bernardino escreveu estas palavras em 1857, como acima deixamos dito. Pois uma ano decorrido, em 1858, Portugal decretou que, passados vinte anos não poderia haver escravos; mas onze anos depois, isto é, em 1869, aboliu o estado de escravidão, pelo que passaram à condição de libertos todos os escravos, em todas as suas possessões.

Extraordinária vitória esta! Mas, para que a mesma fosse possível, decisiva influência tiveram João Duarte de Almeida e Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.

Honra lhes seja! "
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Reacção em Angola (Benguela e Luanda) à abolição do tráfico. Alguns exemplos.

Com a independência do Brasil em 1822, Portugal correu o risco de Angola vir a ser anexada pelos brasileiros. E havia bons motivos para tal...

Durante mais de 300 anos, Brasil e Angola estiveram nas duas pontas do tráfico de escravos, que fez desembarcar nas terras de Santa Cruz quase 70% dos cerca de cinco milhões de africanos que iam de Angola e do Congo. E as relações, pelo menos desde o século XVII, iam além do tráfico negreiro, abrangiam laços mercantis, familiares e culturais. Daí que após a independência do Brasil, Portugal tivesse que enviar centenas de soldados para assegurar o controle de Angola e fosse adiado o regresso a Lisboa de um navio de guerra que se encontrava fundeado na baía de Luanda. Não foi por acaso que em 1826, no tratado de reconhecimento da independência do Brasil por Portugal, foi incluída uma cláusula proibindo a ex-colónia de incorporar qualquer colónia ou território luso no continente, que na altura englobava Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé, Guiné Bissau e o Forte de Ajudá, no Golfo do Benim. Essa medida foi uma imposição da Inglaterra, já então interessada na abolição do tráfico.


Em 1823 o governo brasileiro enviou três navios de guerra para Angola para proteger navios negreiros que operavam na área, e quase em simultâneo  foi inaugurado um consulado brasileiro em Luanda, sob o comando de Rui Germack Possolo. Era  uma espécie de governo paralelo, na medida em que o cônsul chegou a ameaçar emitir licenças de partida para navios, extrapolando as suas atribuições, na defesa de traficantes brasileiros detidos por disputas com comerciantes locais, entrando em choque com o governador de Angola, Nicolau de Abreu Castelo Branco. 

A verdade é que os brasileiros desde há muito tinham conseguido grande influência  junto do poder em Angola, e ocupavam cargos da administração civil e militar, muitos dos quais tinham sido enviados para África como degredados, acabaram por se estabelecer, e por ganhar poder e prestígio. Um exemplo foi o do baiano Joaquim José da Silva Menezes, enviado como degredado para Benguela, em finais do século XVIII, onde esteve preso durante quatro meses por ter solicitado um cargo ao governador de Angola, pedido considerado uma afronta por aquele governador, que travava então uma disputa de poder com a autoridade da capital. Chamado ao palácio do governo, Menezes recebeu do ajudante-de-ordens a seguinte resposta: "só podia servir para carniceiro, ou tambor, chamando-lhe também negro, filho-da-puta e outros mais convívios".  Menezes acabou por prosperar, de escriba tornou-se alferes das forças locais, e mais tarde foi administrador do contrato de sal, e tornou-se traficante de escravos e proprietário de um navio negreiro. Ele que na Bahia, tinha sido escravo.

O tráfico de escravos era a função da maioria dos brasileiros em Angola. Degredados, agentes de casas comerciais sediadas no Brasil e marinheiros, aventuravam-se pelos sertões em busca de bons negócios. Francisco Roque Souto é outro exemplo. Salvadorenho, ex-capitão de navios negreiros, foi tentar a sorte em Luanda, mas acabou por se radicar na  Kisama, fora do controle português, onde casou com a companheira de um dos sobas  locais. Estando o monopólio do comércio interno de escravos  sob a alçada dos reinos de Kasanje e Matamba,  Souto foi intermediário dos primeiros contactos entre Luanda e outro reino local, Holo, actividade que lhe rendeu altos lucros, beneficiou negociantes daquela cidade, mas enfureceu os outros dois reinos, tenso como resultado  uma guerra entre Matamba e os portugueses, em 1744, na qual Souto participou como um dos comandantes do exército português. Este conflito teve como resultado a destruição da capital do reino africano (Mbanza da Rainha) e o envio de centenas de escravos para o Brasil. Souto acabou preso em Luanda por alguns meses.


As relações de proximidade entre Angola e o Brasil  eram tais que levaram a que um carioca se tenha tornado governador de Benguela, em 1835. Trata-se de Justiniano José dos Reis, que foi  membro da junta do governo provisório daquela cidade no período agitado a seguir  à independência do Brasil, em que rumores surgiram de um movimento em Benguela  interessado na anexação à ex-colónia.   Teria participado da conspiração o carioca Francisco Ferreira Gomes, que vivia naquela cidade desde 1800, também ele um degredado que fora soldado no Batalhão de Henriques,  formada inteiramente por negros. Gomes acabou promovido a tenente e depois a tenente-coronel, e  rapidamente subiu vários escalões da burocracia de Benguela, tornando-se almoxarife e escrivão da Fazenda Real, proprietário de pelo menos dois navios negreiros e numerosas fazendas. Tal como Francisco Souto, também se casou com a filha do soba de uma região vizinha, o Dombe Grande. Após a independência do Brasil esteve ligado a uma conspiração, juntamente com outros negociantes que tinham como plano  prender o governador e em seguida  içarem alí a bandeira do Brasil. Dizia-se que Gomes pensou usar uma de suas embarcações para bombardear Benguela, e que o governador Joaquim Bento da Fonseca, por precaução colocou um dos seus próprios navios para se proteger de eventual ataque, e transferiu o seu quartel-general para uma embarcação ancorada na baía, tendo a partir dali comandado uma verdadeira ofensiva contra os revoltosos, deportando pelo menos um para o Brasil e manifestado a intenção matar outros três.  Nas visitas que fez a Francisco Gomes e seus  apaniguados, na prisão, chamou-os de “ladrões, bodes e negros”, o que mostra a tensão  política e  racial em que se vivia. De Benguela, os revoltosos foram enviados de navio para Luanda. Mas não termina aqui o que há por dizer sobre Francisco Gomes, que foi rapidamente reabilitado, tendo regressado ao comércio de escravos, e enriquecido ainda mais, aumentando o seu prestígio através de benfeitorias levadas a cabo em Benguela,  apoios para reformas ao nível da Igreja local, auxílio ao Hospital da cidade, etc, etc. 

Tal como outros negociantes de escravos,  enviou seu filho, José Ferreira Gomes, para o Rio de Janeiro a fim de ali ser educado, voltando a Benguela e aos negócios da família. Ao fim de mais de três décadas em África, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, passando a fazer visitas esporádicas a Benguela. O filho José acabou por retornar a Benguela, assumindo os negócios do pai, e tornou-se juiz de fora daquela cidade, sendo  um dos líderes de uma revolta contra os brancos, em 1835, em parte motivada por rumores de que Portugal ia abolir o tráfico de escravos. Mais tarde, serviria-se do soba da Catumbela, seu parente por parte de mãe, para fugir das autoridades que combatiam o tráfico.
Estas as trajectórias destes quatro homens  Joaquim Menezes, Francisco Souto, Francisco Gomes e seu filho José Gomes, mostram o quanto eram intensas as relações  entre angolanos e brasileiros, enquanto durou o tráfico negreiro. A partir de meados do século XIX, a administração de Luanda passou a registar todos os brasileiros que chegavam à cidade, e  a cadastrar os que ali moravam.
 

Com o fim definitivo do tráfico em 1869, alterou-se o tipo de relação entre estes povos. 
A Conferencia de Berlim, em 1884, obrigou  Portugal a enveredar decisivamente para um novo paradigma colonial, voltado para a fixação de familias portuguesas nas colónias,  para o desenvolvimento económico dos territórios, e para o aproveitamento da mão de obra dos nativos que algum tempo mais tarde passou ao regime de contratados.

Ora não podemos considerar  a colonização de Moçâmedes no quadro deste modelo que vigorou em Luanda e sobretudo em Benguela durante séculos. Quando o General Sá da Bandeira decretou em 10 de Dezembro de 1836 a abolição do tráfico, a uma velha Angra do Negro era ainda um ermo, e só veio a ser colonizada em 1849, portanto após o Decreto, nesse período critico entre 1836 e 1869, em que o tráfico passara a fazer-se na clandestinidade.  Foi graças ao envolvimento na luta contra o tráfico do visconde Sá da Bandeira, "apóstolo" da ideia abolicionista, viveu o suficiente para, em 1875, poucos meses antes de morrer, ter o ensejo de assistir à aprovação nas Cortes de um projecto de lei que emancipava os libertos das colónias. Tratava-se do culminar de um percurso de décadas que o então marquês percorrera com persistência e obstinação, ainda que muitas vezes isolado ou quase isolado. Em 1836 foi  promotor de uma proposta de lei abolicionista apresentada em vão às Cortes, que aproveitaria o período da ditadura Setembrista para fazer passar, em 10 de Dezembro de 1836, um decreto que abolia totalmente o tráfico de escravos português. Mas tratava-se de uma medida que não correspondia a algo de verdadeiramente assumido pelo país, e que não seria imediatamente aplicada, vindo mesmo a estar na base de uma crise política equivalente à do Ultimato. As resistências à supressão imediata do tráfico eram enormes, e terão levado Sá da Bandeira a enveredar por uma política dúplice que procurava, por um lado, promover a abolição, e por outro, resistia à conclusão de um tratado abolicionista com a Inglaterra, que Portugal se comprometera a assinar, e sem o qual o tráfico dificilmente seria suprimido. Essa política poderia ter tido  êxito se se apoiasse em sólidos interesses pela África e se obtivesse resultados práticos, mas os emigrantes e financeiros mantiveram-se arredados das praias africanas, e as autoridades continuaram a contemporizar com os negreiros. Pressionado pela Inglaterra, e manietado por um país que se recusava a segui-lo, Sá foi-se emaranhando num labirinto de argumentos e minúcias legais que viria a ser desfeito no Verão de 1839 quando o Parlamento britânico aprovou o chamado Bill Palmerston, concedendo à Royal Navy poderes para apresar quaisquer navios com bandeira portuguesa (ou sem bandeira) que transportassem escravos ou estivessem equipados para fazer esse transporte. Escudados nessa lei, os cruzadores britânicos apresaram ou meteram a pique muitas dezenas de navios protegidos pelo pavilhão português. A acção violenta da Inglaterra causou um forte abalo na honra nacional portuguesa e só cessou com a assinatura do tratado anglo-português de 3 de Julho de 1842.
Uma vez apaziguada a exaltação nacionalista suscitada pelo bill Palmerston, Sá começou de novo a levantar a questão da abolição da escravidão. Contudo, a oposição a tal medida era grande e, não obstante várias propostas legislativas, durante a década de 1840 não se fez qualquer avanço nesse sentido. Terá sido fundamentalmente por isso que, a partir de 1851, Sá da Bandeira optou por uma estratégia de fraccionamento, visando apenas pequenas vitórias, que cumulativa e lentamente lhe permitissem chegar à meta final. Tratava-se de uma política a que ele próprio chamaria de “actos progressivos” e foi com base nessa perspectiva fraccionada e ultra-cautelosa que os abolicionistas começaram a plantar aquilo que viria a transformar-se numa verdadeira floresta legislativa destinada a acabar com a escravidão de uma forma indolor.


A "Lei Palmerston", imposta por Londres sobre a "proibição do tráfico de escravos",  que concedia aos cruzadores britânicos, na primeira metade do século XIX – "à revelia de qualquer acordo com o governo português" – a faculdade de visitar e apresar os navios com bandeira portuguesa suspeitos de envolvimento no tráfico de escravos. Na verdade  para onde os ingleses levavam os escravos depois de apresarem os navios portugueses. Levavam-nos para as colónias que lhes restavam. Já não tinham a América mas tinham duas colónias de plantação: a Jamaica e a Serra Leoa. Este é um dos segredos que a História oculta”

 É neste quadro que devemos avaliar a posição de Bernardino Freire  de Figueiredo Abreu e Castro e de João Duarte de Almeida,  enquadrando estes dois homens no contexto da época em que viveram, e não à luz dos nossos dias.




Alguma biliografia consultada:

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII (Companhia das Letras, 2000).

MARQUES, João Pedro. “Os Sons do Silêncio: O Portugal de Oitocentos e a Abolição do Tráfico de Escravos” (Instituto de Ciências Sociais, 1999)





trafico_escravatura_sa_da_bandeira.pdf
 Ver aqui

Capa

Documentos ácerca do trafico da escravatura extrahidos dos papeis relativos ...