Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 14 de agosto de 2007

Aglomerados rurais nas margens do rio Bero e Giraúl . A Fazenda dos Cavaleiros.


[Fazenda+dos+CAVALEIROS.JPG]




A História do Distrito de Mossãmedes seria mutilada se ignorássemos os testemunhos escritos deixados pelos viajantes, e que se pressupõem sinceros, embora, como não poderia deixar de ser, perspectivados sob o prisma da mentalidade da época, nos possam vir a agradar ou  a desagradar.

.................................................................................................................................................................... Extracto do livro «Quarenta e Cinco Dias em Angola», de autor anónimo, publicado em 1862


(Trata-se mais uma vez da «Quinta dos Cavalleiros» (imagem acima), um dos símbolos da fixação do primeiro grupo de portugueses que, idos do Brasil, fugidos aos lastimosos acontecimentos de Pernambuco ocorridos a 26 e 27 de Junho de 1848,  chegaram a Mossãmedes no dia 04 de Agosto de 1849, para alí, em solo que consideravam Luso,  se fixarem e desenvolverem as suas propriedades agrícolas nas margens férteis dos rios Bero e Giraúl ).


«...Sigamos para a quinta dos Cavalleiros. Vamos vêr esse campo de batalha, onde o gentio ainda há pouco deu provas da sua estupidez e covardia. Teremos de dar uma pequena volta, mas não importa; — proporciona-nos a occasião de vermos a propriedade do mais excêntrico dos facultativos.


O cirurgião-médico de Mossãmedes, além de sèr habilissimo na sua arte, é um excellente homem, estimado de toda a gente que tem a felicidade de o conhecer. Lapa e Faro é o seu nome, estudou quatro annos na escola do Porto, frequentou o quinto em Lisboa, entrou para o serviço da armada, e acha-se, não sei como, estabelecido em Mossãmedes, onde gosa dos melhores créditos. Dotado de um génio independente, obsequeia a todos, mas não se torna importuno com pedidos. Qual outro Robinson, poderia o acaso lançal-o em alguma ilha deserta, que pouco se affligiria com isso : habilidoso em todos os officios, é elle que se veste, se calça, e faz os seus chapéos — mas tudo parece mais obra de um hábil mestre, que de um simples curioso. Para mais commodamente visitar os seus doentes, construiu um carro de novo género, tendo por motor um boi-cavallo guiado por um moleque.


Não me era possível vêl-o mettido no seu carro, de chicote na mão, sem se me figurar que ia dentro de um andor dos que se usam nas aldeias do Minho. Preferindo viver no campo, construiu, perto das Hortas, uma casa apalaçada de gosto exquisito, mas que produz magnifico effeito vista a certa distancia: no interior tem uma sala triangular, e conservou na sala de jantar uma grande arvore, que existia n'aquelle sitio. Apesar de casado em Portugal, parece estar no firme propósito de trocar Vizeu, sua terra natal, por Mossamedes, onde tenciona occupar-se da cultura do algodão.


Continuemos agora a nossa excursão.


O caminho, ainda que em parte aberto de novo, é triste e fastidioso: são 13 kilometros de passeio forçado, qual se não respira senão pó, e em que o espirito do viajante cansa na contemplação de um monte árido, de côr monótona, que se estende á direita, e continua ainda além do sitio que vamos visitar; á esquerda fica-nos o rio Béro, que na maior parte do anno está sêcco n'uma distancia de quinze léguas, apresentando sobre a areiado seu leito uma leve crusta de lodo, que o sol faz gretar e arquear em forma de telha, pôde ser transitado, e é até uma sofrivel estrada.


D'esse mesmo lado descobrem-se vários terrenos cultivados, e algumas habitações de lavradores. Entre ellas acolá se avista a de uma portuense celebre, que tendo ido para o Brazil, fez parte da colónia que foi d'aquelle Império para Mossãmedes. D. Isabel d'Austria, era uma senhora muito prendada e de bastante instrucção, que falleceu ha poucos annos ; no cemitério velho vé-se o seu túmulo, mas com o nome quasi ininteligivel. Esta senhora dedicou-se á agricultura e á educação dos seus escravos e escravas : ellas ainda hoje são das mais procuradas, e algumas adoptaram e conservam o nome da sua primeira possuidora.


Esse costume é muito frequente em Angola, e até certos Régulos do interior teem pedido como grande honra a alguns Governadores geraes a mercê de poderem usar de igual nome, inclusivamente do de família.


Eis-nos na quinta dos Cavalleiros. É uma extensão immensa de terreno, cultivado á maneira do Brazil, com excellentes plantações de canna d'assucar de magnifica qualidade, bello algodão, muita mandioca e bananas.


Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro Esta propriedade pertence a um individuo que fazia parte da colónia brazileira, e que hoje se acha na Europa, com pouca tenção de voltar a Mossamedes.


Dentro da habitação do fazendeiro está uma boa machina americana de limpar o algodão, que trabalha com a maior regularidade, dando óptimo resultado. A pequena distancia existem as ruinas do engenho do assucar, que não funcciona por falta de meia dúzia de traves para o reparar provisoriamente !


Tudo quanto do terraço podemos alcançar com a vista foi aqui ha tempos devastado e roubado pelos Munanos ou Nanos, espécie de vândalos do interior, que só vivem de pilhagem. Quando a fome os aperta fazem as suas correrias pelos povos que se dizem nossos vassallos, e a pretexto de cobrarem os tributos, a que não teem direito, roubam o gado aos pastores, devastam tudo por onde passam, e recolhem ao Nano, levando os prisioneiros que poderam fazer, para serem vendidos nas proximidades de Benguella, ou resgatados por grandes quantias.


Cinco mil d'estes gentios tentaram uma invasão em Mossamedes onde já não faltava medo, porque não estavam então preparados para lhes poderem resistir. Entraram pelo lado do norte, que é o mais mal guarnecido, — com quanto fosse fácil forma um reducto a quatro léguas de distancia da villa, para conter em respeito estes bárbaros, — chegaram á quinta, onde umas dezoito pessoas mal armadas os contiveram durante umas poucas de horas; lançaram o fogo e talaram todas as plantações, incendiaram o engenho e a habitação, e retiraram a final, levando prisioneiros o fazendeiro e parte samedes com os trajes que trazia quando veio ao mundo, e alguns escravos que depois conseguiram fugir vieram apresentar-se-lhe.


Assim ficou em poucas horas, este homem laborioso, reduzido quasi á miséria; mas graças aos esforços e hábil administração da pessoa a quem o proprietário deixou entregue a sua quinta, a não serem as ruinas do engenho, nada nos poderia fazer acreditar n'uma semelhante devastação.


Póde-se dizer que a quinta já se acha talvez em melhor estado, do que antes da invasão, mas muito mais se teria conseguido se o fazendeiro contasse o numero de escravos precisos para o serviço. Com muitos sacrifícios tem comprado alguns, mas o seu numero ainda está longe de chegar ao que d'antes era, e esse mesmo, na actualidade, seria insufficiente.


O Governador geral deveria animar este homem brioso, pondo ao seu serviço, durante quatro ou cinco annos, um numero avultado de libertos; quando não, continuará, por falta de braços, a perder-se a colheita da canna e do algodão.


Foi por occasião d'esta invasão que o Governador de Mossamedes deu a mais evidente prova da sua inépcia. Apenas teve noticia que os Munanos(1) se aproximavam, o seu primeiro cuidado foi de flanquear uma loja em que vende manteiga, com quatro peças d'artilheria, e convidar os habitantes para o coadjuvarem. Para o resolver a enviar soccorros á quinta, foi preciso descompôl-o : — mandou então a muito custo uma peça, mas com balas que lhe não serviam !
...»
In Quarenta e cinco Dias em Angola


(1) - Convém não ignorar que nos seus primórdios a colonização de Mossãmedes caminhou a par com as constantes invasões de que eram alvo por parte das chamadas «guerras do Nano», ou seja, dos «munanos». Conforme vem citado no mesmo livro, estes, «quando a fome os aperta fazem as suas correrias pelos povos que se dizem nossos vassallos, e a pretexto de cobrarem os tributos, a que não teem direito, roubam o gado aos pastores, devastam tudo por onde passam, e recolhem ao Nano, levando os prisioneiros que poderam fazer, para serem vendidos nas proximidades de Benguella, ou resgatados por grandes quantias.»




 Ainda relacionado com a «fazenda CAVALEIROS»

 

4 РАRТЕ NAO OFFICIAL ANGOLA. EXTRACTO DA RELAÇÃO DE UMA VIAGEM
 A Roça    Dos Cavalleiros, em Mossamedes,  PELLO PRIMEIRO TENENTE DA ARMADA  JOÄO FRANCISCO REGIO DE LIMA.


A Roça do Sr. Bernardino situada na encosta d'uma montanha, na margem do S. do rio Веrо ou Rio de mortes, occupa a melhor posição que em todas aquellas proximidades se pode achar; pois que além de que о terreno ali se torna um pouco favoravel à cultura, aproveita a corrente de agua, única ali no tempo das cheias, que Ihe passa quasi pelo centro da fazenda; e é á falta d'ella, quando faltam as chuvas, que se deve a cultura não poder 1er aquella animação que devia. Entretanto aos esforços do Sr. Bernardino, que com tantos inconvenientes, desvantagens e falta de material e pcssoal tem arrestado, se deve o haver hoje próximo a Mossãmedes um engenho de moer cana de assucar, casa para cristalisar, purgar, etc., e distillador para extrahir aguárdente da melhor que tenho visto, e em grau muito subido.

A roça compöe-se de um grande barracäo, coberto de palha, mas perfeitamente arranjado, o qual se acha repartido ao meio, existindo n'uma das metades o engenho para moer a cana pela força de bois. O engenho é simples: compöe-se de urna grossa barra vertical, girando sobre dois eixos nos seus extremos, a qual por meio de um syslema de rodas dentadas рое em movimento tres cylindros quasi tangenciaes e dispostos a formarem os seus eixos um prisma triangular. Da barra vertical saem quatro barras um pouco inclinadas para baixo, as quaes se ligam dois bois a cada uma, que a fazem girar, pondo em movimento todo o engenho. Os cylindros postos em movimento, introduz-se a cana por um dos lados entre elles, indo sair pelo opposto, poróm reduzida quasi unicamente ao bagaço, tendo deixado seco lodo, o qual passa para uma pia que se acha inferiormente, d'onde depois passa para outras caldeiras. Na outra metade do barracäo acham-se dispostas quatro grandes caldeiras, com as competentes fornalhas, para as quais passa o suco da cana extrahido no engenho; ahi elle toma o ponto ou consistencia necessaria, passando depois à purgaçào. Em seguida a este barracäo acha-se um armazem de grande comprimento, o qual dos dois lados é guarnecido de vigas, sobre as quaes se acham dispostas tábuas com buracos onde se introduzem uns vasos de barro da forma de urna pyramide cónica, cujo vértice fica para baixo e no qual elles têem um pequeño orificio: estes vasos sao dispostos simétricamente em alinhamentos, passando pelos orificios dos vértices de todos elles calhas que vao terminar em dois grandes tanques de pedra no extremo do armazem. N'estes vasos se deita o liquido que sáe das caldeiras, o qual ali se vae solidificando e crislalisando, saindo o melaço e mais impurezas pelo orificio, passando para a calha e dahi para o tanque. E a esta operaçao que dào o nome de purgaçao do assucar. Na occasiäo em que ali estivemos, achava-se o armazem completo de um lado, tendo muito próximamente quatrocentas arrobas de assucar a purgar; e um pouco que o Sr. Bernardino nos mostrou, vimos ser muito claro, e como nao suppunhamos que se podesse extrahir logo directamente. Em seguida á casa da purgaçào, passado um pequeno espaço, existe um outro armazem bastante comprido, no extremo do qual tenciona o Sr. Bernardino montar um engenho, para da mandioca fazer a farinha de pau: depois seguem-se tres casas que servem de depósitos, sendo urna d'ellas onde presentemente se faz a farinha n'um pequeño engenho movido por braco de pretos: perpendicularmente a este armazem segue-se urna correnteza de casas terreas, n'um do edificio, das quaes metade servem de depósitos para guardar différentes objectos, e a outra metade serve de morada aos habitantes da roça, em quanto fila não toma uma forma mais regular; pois que o intento do Sr. Bernardino é fecha-la em quadrado, deixando no centro uma espécie de pateo: pelo lado de trás da casa que serve de morada, existe o curral que serve para o gado, com um ripado de dois metros de altura, o qual o leão não poupa, pois que segundo nos contaram ali saltou dentro algumas vezes, tornando a sair saltando pelo ripado com um boi sobre o costado.

Em seguida á morada existem uma pequena cabana para negros, e um pequeno telheiro, coberto de palha, para alojar gado durante o dia. No ponto determinado proximamente pelo encontro das linhas tiradas da casa do engenho e da cubata Ao gado, e pelo qual o Sr. Bernardino tenciona formar o quadrado para o completo estabelecimento da roça, está uma pequena barraca onde está o alambique destinado á distillação da aguardente. Compõe-se de um barracão onde existem tinas alinhadas de encontro ás paredes, aonde o melaço e mais sueco da cana destinado á formação da aguardente se lança, e onde fermenta, e das quaes só passado certo numero de dias, dependente da qualidade do liquido, da qualidade da tina e da posição em que ela se acha, passa ao alambique, do qual se extrahe pura aguardente de 29 e 30 graus, tão clara e límpida que se poderia confundir com agua pura a não ser o cheiro activo que possue.

O alambique collocado fora do barracão é mui pequeno, e o Sr. Bernardino tenciona em breve montar um outro de muito maiores dimensões. Como a lenha não é em abundância, serve o bagaço ou resto que fica da cana, depois de extrahido o sueco todo, para sustentar o fogo no alambique, sendo este mais um proveito que a cana pôde fornecer. Para E. da casa do engenho e deposito estendera-se por toda a margem do rio as plantações de cana perfeitamente dispostas, bem como muitas bananeiras, por um espaço muitíssimo longo, tendo já em muitos lugares encanamentos arranjados para quando as aguas começam com muita força.

À povoação de Mossamedes, situada no fundo da excellente babia d'aquelle nome, e pelos inglezes denominada Little Fish Bay algum incremento tem tomado depois da sua fundação, principalmente n'estes últimos ânos. A povoação da primitiva da fundação acha-se quasi abandonada, hoje substituída por outra, formada próxima, separadas por uma ponta denominada a Ponta Negra, a qual se estende um pouco para o NO, e sobre a qual está collocada a fortaleza. Admiramo-nos que em Mossamedes não houvesse uma igreja, pois que apenas existem três paredes no local onde ha muito está destinado o faze-la: a fortaleza era formada de pedra solta; agora é que se lhe começaram a fazer as muralhas de alvenaria, tendo, quando ali estivemos, já prompta a cortina que olhava para o mar, com sete canhoneiras completas, tudo formado com bastante solidez, e toda a obra devida aos esforços do Capitão Leal, que ali se achava governando. Além d'isto em Mossamedes apresentam-se as difficuldades a todos os momentos; pois que quasi.ao mesmo tempo falta o material e o pessoal: para a construcção da muralha utilisaram-se de dois soldados servindo de pedreiros, outro para picar a pedra, e um outro servindo de serralheiro; acontecendo, em quanto ali estivemos terem as ferramentas todas estragadas e não lerem um pouco de carvão de pedra para lançarem na forja para novamente as arranjarem, valendo-lhe um pouco que nós lhe podemos fornecer. É a falta de material e pessoal, o mesmo mal de que o Sr. Bernardino se queixa para o arranjo completo da roça.



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Kifrnctn ilnnin carta do Dr. Phynleo-nicVr da Provincia de Angola, Jacquen 1%'leolau de Nitlll*. sobre o enfado da Colonia de Mossãmedes». 


Aportámos a Mossamedes no dia 20 de Novembro (18.HS).

Esta Colónia está em progresso. O Governador do Districto, Fernando da Costa Leal, edificou de pedra a igreja, que ficou muito bonita; e tambem construiu de pedra a parte da fortaleza do lado do mar. Vimos plantações extensas de algodão a uma légua e a duas distantes de  Villa; nos Cavalleiros ha plantações riquíssimas de canna saccarina, algodão, mandioca, batata europêa e do Brazil (Cará) de 3 até 10 e 11 arráteis cada uma. Esta plantação dos Cavalleiros pertence ao incansável e intelligente Director da Colónia, Bernardino de Figueiredo.

Vimos moer a canna, coser e preparar o assucar, e distillar aguardente de excellente melaço. Vimos as duas machinas de descaroçar algodão em movimento. O algodão e bello, tão bom ou melhor do que o de Moçambique, que ainda é silvestre.

O Director Bernardino exporta por anno cincoenta arrobas d'este género. Vi seis qualidades de feijão, repolhos grandes, excellente hortaliça etc. etc. As uvas dão duas vezes por anno, e são saborosas. No paiz dos Gambos e dos Huilas ha bello trigo duas vezes por anno, tão bom como o das margens do Zambeze; e tudo isto promoveu aquelle laborioso colono com trinta negros, em quatro annos, edificando officinas etc. Com mais três ou quatro annos terá elle um rendimento para viver na Europa como um fidalgo.

Aqui vi pela primeira vez na África o uso de carros puxados por bois, e com estes moer a canna. Vi o arado de ferro, invenção moderna, e vi finalmente que a agricultura não só é possível, mas proveitosa e recompensadora na África.

O Commercio foi pouco este anno. Exportaram-se 600:000 arrobas de peixe secco. O azeite de peixe (cação) faz-se em abundância na bahia das Pipas, cinco léguas ao norte da Villa. (um morador (Paiva) disse-me que o anno passado se vendeu entre 50 e 100$000 réis a pipa. O movimento commercial foi no dito anno de 200:000$000 réis.

Ha três moinhos de assucar, e vae montar-se o quarto. A exportação da batata foi considerável n'este anno. O clima é excellente. Vêem-se boas cores nos habitantes; vê-se grande numero de lindas creanças, cheias de vida e saúde, e a Villa augmenta todos os dias.
FONTE
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Conforme relatório datado de 19.06.1877 do governador do Distrito, Fernando Augusto da Costa Cabral, eram os seguintes os aglomerados rurais que constituiam as fazendas agricolas situadas nas margens dos rios Bero (Hortas, Quipola e Cavaleiros) e do Giraúl.


Hortas-
António Moreira da Silva e Sousa, António Acácio de Oliveira Carvalho, António Jacinto Teles, João José de Oliveira, Manuel de Oliveira Soares, Rodolfo Adão


Quipola-
António Moreira da Silva e Sousa, António Rodrigues Boa Tarde, Aires Correia de Sousa, Casal de Manuel Ferreira de Lima, Domingos Gomes Galambas, Inácio Saraiva Serrão Pimentel, Joaquim de Paiva Ferreira, José Joaquim da Costa, José Augusto Liberman, José António Todo Bom, Luis Soares Ferreira, Manuel Pinto e Silva, Manuel Moreira da Silva e Manuel José Machado.


Cavaleiros-
António Tomás dos Santos
Aguiar & Poire
Casal de Justino António Ferreira dde Carvalho
Casal de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro
Dâmaso Moreira da Silva e Sousa
Elias Fortunato
José Ferreira Soares
Maria Madalena Rodrigues
Simião José Abreu


Giraúl-
Aires Borges de Azevedo
Francisco José Moreira
Inácio Eugénio Ribeiro
José Joaquim da Costa
José Ferreira Duarte Leitão
Liberman & Pereira
Manuel de Almeida Soares
Moreira & Irmão

Um total de 39 propriedades, importantes e produtivas.

Nas das Hortas, e sobretudo dos Cavaleiros, que se estendiam pelas margens do rio Bero, abundavam plantações de cana de açucar, nas do Giraúl, culturas de algodão. Mais desviadas de Mossãmedes havia mais dez fazendas, inclui o mesmo relatório, mais a norte, nas margens do rio S. Nicolau, mais a sul, nas margens do Curoca.

Fonte: Relatório datado de 19.06.1877 do governador do Distrito, Fernando Augusto da Costa Cabral,


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"...A 23 de Maio de 1849, finalmente a concretização do projecto. Partia de Pernambuco, a barca "Tentativa Feliz" e o brigue da marinha portuguesa "Douro" com 166 portugueses a bordo, rumo ao estabelecimento de Moçâmedes, na Província de Angola, então província do reino de Portugal. Na viagem, sucumbiram, com bexigas, 3 adultos e 5 crianças.

Após 73 dias de viagem chegam ao destino. Entram na baía de Moçâmedes e avistam um vasto areal servido por um rio seco, o rio Bero, que mais tarde Bernardino chamou de Nilo de Moçâmedes, porque na época das chuvas a água das enxurradas invade toda a terra, trazendo os fertilizantes naturais para novas sementeiras, num microclima temperado. Era ali que os novos colonos íam reconstruir as suas vidas em tranquilidade, em paz e em território pátrio. Era o dia 4 DE AGOSTO DE 1849, que ficou na História como o dia da FUNDAÇÃO DE MOÇÂMEDES.

Houve recepção de boas vindas, discurso oficial pelo governador do distrito na presença das autoridades tradicionais: sobas Mossungo e Giraúl. Ficaram alojados em barracões construídos de pau a pique, cobertos de palha e amarrados com mateba ou cordas de cascas de árvores. No dia seguinte foram conduzidos às áreas agrícolas onde foram distribuídas as terras. Bernardino seguiu para Luanda no dia 16 de Agosto afim de apresentar cumprimentos ao governador geral.

No dia 21 de Outubro foi a instalação, no Vale dos Cavaleiros, dos engenhos de açúcar: às 7 da manhã içou-se, no local, a bandeira portuguesa, na presença do governador do distrito, com uma salva de 21 tiros. A maior parte dos colonos ali compareceu e houve arraial com largada de foguetes. Almoçaram e jantaram em barracas improvisadas.

Bernardino ergueu a sua habitação no Sítio da Bandeira, (designação que ficou na tradição popular), no Vale dos Cavaleiros.No dia 13 de Outubro foi investido num cargo no Conselho Colonial de Moçâmedes. Faz viagens de estudo, contacta sobas, colabora com as autoridades, sobe a Chela, entra na Huíla, visita a lagoa dos cavalos marinhos, que fica a 4 léguas ao norte de Lopolo, onde os rios gelam em Maio e Junho. Já lá existem alguns colonos. Outros irão fixar-se noutras áreas do planalto da Huíla em consequência do estudo feito. Uma vida de líder, de rija têmpera, apostado em tudo fazer pela "sua" colónia.

 
Mas a natureza não se compadeceu dos recém-chegados. Uma estiagem de 3 anos secou as terras, perdendo-se todas as sementeiras. A 1ª. colónia luta com falta de tudo, desde alimentos a vestuário. A situação é desesperada. Alguns opinam mudar a colónia e comentam: "Antes fôssemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas cheias de carne e comíamos pão com fartura, do que padecer com fome neste deserto." Bernardino mantém-se firme e lança a máxima: "Vence quem perseverar até ao fim".O governador do distrito oficia a desesperada situação dos colonos. Há um intenso movimento de solidariedade em Luanda e em Benguela, promovido pelas respectivas câmaras municipais. Os víveres, vestuário, dinheiro e outras ofertas chegam finalmente a Moçâmedes e tudo se vai normalizando.


Entretanto, em Pernambuco, os portugueses organizam, a expensas suas, uma segunda leva de colonos (125) para se dedicarem á agricultura em Moçâmedes, chefiada por José Joaquim da Costa. Viajam na barca Bracarense e no brigue Douro, da marinha portuguesa. Chegam a Moçâmedes no dia 26 de Novembro de 1850. Dedicam-se também à pesca. Lançam mão a pessoal conhecedor da técnica de escalagem e secagem do peixe que trabalhou na feitoria montada no estabelecimento pelo olhanense Cardoso Guimarães, 7 anos antes.

Bernardino reconhece que os colonos conseguiram vencer as adversidades e o deserto. São o maior exemplo de perseverança em toda a Província.Moçâmedes engradece-se ràpidamente e é elevada a vila por decreto de 26 de Março de 1855. Em 1857 já existem 16 pescarias onde trabalham 280 escravos. Ao festejarem o décimo aniversário da chegada da colónia, no dia 4 de Agosto de 1859, verificaram a existência de 83 propriedades agrícolas nas margens do rio Bero, 3 no Giraúl, 2 no Bumbo, 3 em S. Nicolau, 1 no Carujamba, 3 no Coroca, 7 na Huíla.

Tinha-se materializado o sonho do Barão de Moçâmedes, Luz Soriano e Sá da Bandeira, de fixar populações nas regiões a sul de Benguela. Foi graças à liderança forte de Bernardino que esse desiderato foi possível. Mas havia uma outra luta que todos eles estavam empenhados: a abolição da escravatura.Bernardino não permite na sua fazenda mão de obra escrava. Bate-se pela abolição da escravatura. Escreve em 1857: "os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis. Eduquei-os com boas maneiras e não com castigos bárbaros e por isso não me fogem e vivem satisfeitos. Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores com iguais direitos e obrigações". Em 1858 Portugal decretou que, passados 20 anos não poderia haver escravos; mas, 11 anos depois, em 1869, aboliu o estado de escravidão.

Um dia visitou Moçâmedes um amigo da família de Bernardino. Esteve na Fazenda dos Cavaleiros. Um negro idoso apontou a ruína duma casa onde muitos anos antes teria vivido um branco. Não se lembrava do nome. Num alto, a ruína domina toda a extensão da terra, numa vigília constante de mais de uma centena de anos. É também o Sítio da Bandeira onde os colonos íam beber a Pátria Portuguesa, naquela terra adoptiva de Angola e onde foi sonhada uma cidade: a cidade de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe da República de Angola.
Moçâmedes foi elevada a cidade em 1907, 36 anos após a morte de Bernardino.
publicado por Cláudio Frota em in  www.memoriaseraizes.blogspot.com

Colonos algarvios chegados a Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola) em finais do século XIX e as primeiras gerações ali nascidas... (Família Frota)


 

  
Nunca é demais publicar neste blog alguns dos textos assinados por Claudio Frota, sobre a odisseia dos olhanenses que começaram a fixar-se em Mossâmedes a partir de 1861, bem assim como a de seus antepassados, que um dia, resolveram partir de Olhão para Mossâmedes (Moçâmedes, Angola) num palhabote, nesses tempos a seguir à Conferência de Berlim (1884/86) em que em relação às colónias passou a vigorar o «princípio da ocupação efectiva» e já não sireito histórico que Portugal reivindicava. Tempos de crise para Portugal, que após a independência do Brasil, em 1822, era obrigavaso a olhar com interesse renovado para as possessões africanas. Tempo do célebre “mapa cor-de-rosa”, que, ao colidir com os interesses da velha aliada Inglaterra levara à reacção do governo inglês, em 1890, sob a forma de ultimato exigindo a retirada de Portugal do território entre Angola e Moçambique que reivindicava. Tempo de choque profundo à pressão britânica, de manifestações de repúdio contra os ingleses e contra coroa portuguesa, de aproveitadamento pelo emergente Partido Republicano que conduziu ao descrédito o regime monárquico, já de si abalado por uma grave crise financeira. Foi também um período de grande fervor patriótico, com o qual se procurava reabilitar o duramente atingido orgulho nacional. Um ano depois do ultimato, em 31 de Janeiro de 1891, eclodiu no Porto a primeira revolta republicana que embora sufocada, serviu para revelar a existência de uma ameaça real às instituições vigentes, que viriam a sucumbir menos de duas décadas depois, no dia 5 de Outubro de 1910.
JANEIRO DE 1893-A GRANDE VIAGEM E MOÇÂMEDES, NOVO BERÇO FAMILIAR 


Foram inúmeras as viagens que os olhanenses fizeram para o sul de Angola. Serviram-se das canoas de pesca, de palhabotes de transporte e de caíques que eram utilizados na pesca e sobretudo no comércio marítimo. Os vapores, em carreiras regulares, levaram muitos povoadores na expectativa de um melhor futuro. Os barcos de pesca, as linhas de pesca, as redes e as diversas artes que existiam na época foram transportadas pelos seus proprietários, na certeza de melhores dias. Não fora a audácia dos pioneiros algarvios que não olharam a sacrifícios para transporem o mar e levantarem uma indústria na costa de Angola, a sul de Benguela, pouco se teria feito.

Nas histórias que se contam não se procura enfeitar realidades ou enfatizar pormenores. Na paz serena do dever cumprido as gerações mais velhas contam o que há para contar, depois de reflexões e reflexões, sobre tempos de vidas consumidas na labuta diária árdua, em lugares remotos e em condições de vida difíceis de suportar, nas empresas criadas por empreendedores audaciosos ou em trabalhos por conta própria. O que era necessário fazer-se, fez-se. Os capitais foram surgindo no investimento, em consequência das valias do progresso. As gerações seguintes encontraram os alicerces firmes de uma casa em construção, e quem constrói uma casa constrói a vida, algo de definitivo e seu, transforma o meio, usufruindo-o em cada dia numa progressão imparável, onde se constrói o futuro e se modela a alma.

O barco que transportou os meus avós em Janeiro de 1893 na grande viagem para África bem podia ter sido o caíque Judith do mestre Sebastião dos Reis, pela coincidência de datas entre o dia de início das operações de cabotagem por aquele caíque na costa angolana (24 de Fevereiro de 1893) com a época de chegada dos meus avós ao porto de Moçâmedes cuja data se situa também na segunda quinzena desse mês e ano. Era um caíque modesto com 17,5 metros de comprimento e cerca de 40 tons. de porão.

O que se sabe, na verdade, é que o barco da grande viagem dos meus avós para África, partiu do porto de Olhão, talvez do cais "bate estacas" junto à praça do peixe, num dia de Janeiro de 1893. A bordo íam 3 passageiros especiais para a família Santos e para a família Frota, todos eles naturais de Olhão: a Carolina de 21 anos de idade, o Manuel de 24 e o pequeno Manuel de 18 meses, filho de ambos. Navegaram 41 dias pelo Atlântico até aportarem Moçâmedes, a actual cidade do Namibe, no sul da República de Angola, onde desembarcaram. Contava a minha avó Carolina que as fraldas do seu pequeno Manuel secavam no mastro daquele barco e o dia de embarque fora uma despedida definitiva à sua terra natal, à família e aos amigos que ficavam. Deixaram, também, as regalias que o "Compromisso Marítimo" oferecia aos mariantes e aos pescadores da vila nele inscritos: o médico, a botica e as ajudas nas aflições. Levavam a esperança de uma nova vida em África, a promessa de um advir mais promissor por terras de Moçâmedes. Não se conta qualquer facto relevante passado durante a viagem. Chegaram simplesmente ao porto de destino, sem sobressaltos, numa viagem tranquila. A terra era estranha, pisada pela primeira vez por aquele jovem casal na flor da idade e com um filho pequenino nos braços. Reencontraram o seu meio social, conterrâneos que labutavam por aqueles mares há alguns anos, alguns instalados na vila, capital do distrito que proporcionava melhores condições de estar, outros nas praias isoladas, beneficiando dos abastecimentos que "os dias do pão fresco" veio trazer: a água potável transportada de Moçâmedes em barris em substituição da água salobra das cacimbas (poços) escavadas na areia e o pão fresco, também levado de Moçâmedes, em substituição da mandioca cozida e outros géneros necessários à vida.

PRIMEIRO DESTINO: A BAÍA DOS TIGRES

As memórias da minha avó Carolina indicam como primeiro destino a Baía dos Tigres, onde se encontrava já instalada, ao que se supõe, a "armação à valenciana" pioneira de Manuel Joaquim Frota, meu bisavô, pai do meu avô Manuel, levada de Olhão e instalada em Moçâmedes em 1887, transportada depois para aquela praia, em data indeterminada, alguns anos depois. "Trabalharam juntos, pai e filho", contava um familiar, rebuscando nas memórias de palavras ditas e de histórias vividas anteriores ao seu tempo.

Contava a minha avó Carolina que conheceu a violência das garrôas, o vento do deserto, que abria frestas na sua casa de madeira por onde entravam as areias das dunas, levadas por esse vento forte, trazendo desconforto ao pequeno Manuel, que sentia na camita as areias que se depositavam. A minha avó, vigilante, ía sacundindo as roupas de cama do seu bebé Manuel, contava. Àquela praia, quase na foz do rio Cunene, já chegara os "dias do pão fresco" assim chamados os dias de chegada dos barcos das carreiras regulares de abastecimento e a minha avó encomendava o leite em pó, o pão fresco de Moçâmedes, a água potável que vinha em barris , os frescos. Por vezes a água era insuficiente e a solução era escavar na areia até se encontrar a água salobra que era consumida como último recurso. Segundo alguns livros, por essa altura, a população branca reduzia-se a sete casais de olhanenses ou nem tantos e era uma praia onde não se vislumbrava um ponto verde. Não existia lenha para cozinhar, serviam-se das cabeças de peixe seco como combustível para o fogão e para o aquecimento nos dias de inverno. É curioso notar a existência de cães selvagens, eram de grande porte e peludos, cuja raça fora estudada muitos anos depois. Originária da Terra Nova, Canadá, dóceis, quando criados em cativeiro junto do homem e adaptados à circunstância de terem de sobreviver naquele deserto. Eram porventura sobreviventes de algum naufrágio, dizem uns, ou levados pelos holandeses que conquistaram Angola, aquando do domínio filipino, dizem outros. O que é certo é que esses cães mantinham também uma luta heróica pela sobrevivência, lambendo a película de água doce que existe à superfície do mar e alimentando-se do peixe que dava à costa ou tentando abocanhar de surpresa os que nadavam perto, numa espera calculada. Os únicos animais selvagens que existem na zona. Não existem tigres. O nome, Baía dos Tigres, tem origem nas sombras projectadas nas dunas que mais parecem listas escuras semelhantes às listas que os tigres ostentam. Visão obtida do mar.

Decerto que o desencanto daquele lugar, o clima agreste bastante agressivo, a dificuldade de se obter o essencial para a subsistência familiar e o isolamento teriam de provocar ansiedades e desilusões. A Baía dos Tigres não era a "Terra Prometida" que aquele jovem casal sonhara para realizar o seu futuro. Houve desentendimentos com o mandador e pai, contava o mesmo familiar continuando a rebuscar memórias.

Saíram daquele lugar próprio para desterrados com destino a Porto Alexandre, hoje Tômbua onde permaneceram não se sabe por quanto tempo. Um familiar refere-se a uma "concessão régia" concedida ao meu avô ou ao meu bisavô para montar uma pescaria ou para construir uma casa naquela praia (nesse terreno foi construída uma escola, mais tarde). Porto Alexandre oferecia melhores condições de vida. A água potável vinha das margens do rio Curoca que passava perto. Era um rio seco, mas fàcilmente se obtinha a tão necessária água para uma população já bastante numerosa de duzentos habitantes brancos e quatrocentos pretos. Havia também as cacimbas (poços) de água salobra que era consumida como último recurso e os frescos chegavam mais amiúde, por estar mais próxima a fonte de abastimento que era a então Vila de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe e das fazendas existentes nas margens do rio Curoca que também elas abasteciam a urbe em crescimento.

Os dois primeiros filhos nascidos em África, o Miguel e o José faleceram muito jovens. Foi uma época perturbada por esses acontecimentos que causaram grande sofrimento no seio da família e talvez por isso pouco mencionada.

Moçâmedes seria o destino definitivo do jovem casal. Na Praia Amélia, a 6 kms. do bairro Torre do Tombo, foi instalada uma empresa da pesca da baleia por noruegueses em 1918, onde o meu avô se empregou. Instalaram-se numa casa de madeira adjacente à fábrica. Os noruegueses eram exímios tocadores de concertina, alegres e divertidos, mas no ano de 1929 partiram para nunca mais voltarem. Um dia o meu pai surpreendeu-nos com umas modinhas antigas tocadas num brinquedo oferecido a um neto, o João Carlos Frota Carranca, que não se lembra do facto por ser muito jovem. Embora o instrumento fosse um brinquedo e evidentemente com limitações próprias e estando o meu pai há mais de 30 anos sem tocar, demonstrou ter ainda uma grande agilidade nos dedos, denotando ter sido um excelente instrumentista nos seus tempos de juventude, espelho dos seus excelentes mestres.





Por fim a fixação definitiva na Torre do Tombo que se tornou o bairro, a casa, a escola e a morada da primeira geração, uma prole de doze filhos: para além dos já mencionados: Manuel, Miguel e José, a Ilda, a Felicidade, a Silvéria, o Serafim, o Mário, o Henrique, o José (Zeca), a Maria da Conceição, que faleceu muito jovem e o Álvaro. Eram unidos e amigos. No cimo dessa união familiar estava o meu avô, o mandador das armações à valenciana Manuel Fernandes Frota e a grande "matriarca" e educadora que foi a minha avó Carolina dos Santos Frota. Na casa grande, na Torre do Tombo nasceram os primeiros netos. A sala de jantar enchia-se, agora, com a garotada da segunda geração. Conheceram o avô Manuel a tratar das redes no seu enorme quintal. Faleceu nos finais da década de 1930.

 Carolina dos Santos Frota

Conheci a minha avó Carolina já muito velhinha. Faleceu nonagenária.Um dia um neto de Carolina na curiosidade dos seus 6 ou 7 anos perguntou à sua mãe porque é que a avó Carolina foi com o avô para a Baía dos Tigres. A pergunta apanhou a mãe de surpresa e não teve resposta imediata. Perante a insistência respondeu de sopetão: "porque andava sempre atrás do teu avô". Os tempos eram outros. Já os céus eram cruzados por avionetas que encurtavam distâncias e há perguntas que não têm resposta fácil. Esse neto é o penúltimo de uma vasta lista de 35, compreendeu há muito, porque é que Carolina tivera sempre o carinho dos filhos e os netos à sua volta, em respeito e admiração. À mesa grande da sala de jantar reunia-se a vasta prole de filhos e netos. Carolina amara incondicionalmente e soubera transmitir os valores da família pela forma mais credível: pelo exemplo de uma vida dedicada, nos bons e nos maus momentos, sempre ao lado do seu marido Manuel.

Do sítio onde estiverem: o Manuel, a Carolina, os doze filhos que tiveram, os netos e bisnetos que foram chegando, quer sejam nos altos promontórios das rotas dos caíques, quer no cimo da falésia da Torre do Tombo ou ainda na açoteia da casa cúbica da Rua João dos Santos na baixa de Olhão que pertencera à família Santos, eles observam-nos e congratulam-se com a lição aprendida. Olham a mesa grande muito aumentada onde se sentam agora gerações e gerações da sua prole a comungarem os valores semeados.

              Manuel Joaquim Frota-O Mandador Pioneiro das Armações à Valenciana


Ía o nosso tempo em África e já Manuel Joaquim Frota era uma referência na história de Olhão. A ele se deve a ída para Angola da primeira "Armação à Valenciana" da pesca da sardinha, decorria o ano de 1887. Foi montada em Moçâmedes, seguindo depois para a Baía dos Tigres...."

É a parte inicial do texto de homenagem que foi prestada a Manuel Joaquim Frota por cerca de 30 bisnetos e trinetos, frente à sua catacumba, no cemitério velho de Olhão, no dia 7 de Outubro de 2000.
No ano seguinte promoveu-se novo encontro, desta vez com divulgação organizada para que a informação pudesse chegar a todos os familiares de norte a sul do País.
A resposta excedeu todas as expectativas. Cancelaram-se compromissos e reuniões e no dia 6 de Outubro de 2001, cerca de 100 descendentes do mandador pioneiro, nascidos em Angola, encontraram-se novamente no cemitério velho de Olhão, numa sentida homenagem. A nova geração nascida em Portugal esteve também presente.

 
Manuel Joaquim Frota, nasceu em Olhão no dia 15 de Janeiro de 1838. Em 1887, com 49 anos de idade decidiu fazer a travessia do Atlântico a bordo do palhabote S. José, de Manuel Pereira Gonçalves, levando a primeira "Armação à Valenciana" da pesca da sardinha que Angola conheceu e que foi montada na então Vila de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe. Não se sabe o local onde foi instalada, talvez na Torre do Tombo, na praia onde foi construído o cais comercial, na ponta do Noronha. Demorou-se pouco tempo por ali e antes de 1893, ano de chegada do meu avô, já estaria montada na Baía dos Tigres.

Outras armações foram chegando: a de Lourenço Morgado que foi instalada, provàvelmente no lugar da primeira ou muito próximo, e a de Francisco de Sousa Ganho, montada no Baba.

As armações fixas, eram as artes de pesca mais avançadas dessa época e de grande rentabilidade, que fizeram aumentar a produção do pescado naquela zona do litoral angolano.

Poucos familiares conheciam a aventura africana deste nosso ascendente. Porque decidiu emigrar numa idade já um tanto avançada para este tipo de aventura? Porque mudou os seus planos de permanência em África? São perguntas que ficarão sem resposta certa, mas um familiar recordava-se que talvez houvesse um motivo forte para o seu regresso a Olhão: recordava-se de comentários feitos no seio da família que em dado momento, a minha bisavó reconsiderou o embarque definitivo para África, criando a dúvida se lá teria estado alguma vez. O motivo desta decisão da minha bisavó, talvez esteja nas difícies condições de vida que o meio sul angolense oferecia naquela época, com relativa excepção para a vila capital do distrito: Moçâmedes.

Manuel Joaquim Frota, o mandador pioneiro, regressou a Olhão em data indeterminada e faleceu no dia 12 de Outubro de 1912 aos 74 anos.


O TESTEMUNHO DE MR. GRUVEL

As armações à valenciana foram aparecendo no distrito de Moçâmedes em grande número: na Lucira, no Mocuio, em Porto Alexandre, na Baía das Pipas, no Baba, etc., e até mais do que uma em cada uma dessas praias, e com elas o aumento da produção do pescado e do peixe seco que era comercializado nos portos de Angola, Congo Francês, Gabão e S. Tomé, levados pelos caíques olhanenses. O desenvolvimento tornou-se imparável e suscitou a admiração de portugueses e estrangeiros pela obra que se estava a realizar naquela zona de África.
Mr. Gruvel era um oficial da marinha francesa, que encarregado pelo seu governo de fazer um inquérito às pescarias da costa Ocidental de África em 1909 referiu-se a Angola, nestes termos:
"Não podemos deixar Angola sem falarmos da impressão extraordinária que nos deixaram dois dos principais centros de pesca: Porto Alexandre e Baía dos dos Tigres.
O que poderá ser a vida sedentária dum europeu numa região formada de areia pura, sem um traço de vegetação, estendendo-se tão longe quanto a vista pode alcançar? Um vento violento que sopra muitas vezes em verdadeiras tempestades, levanta quase todo o dia nuvens duma areia fina que penetra por toda a parte; bebe-se, come-se e ...sufoca-se!
É neste país de desolação, ao pé do qual Port-Etienne parece um verdadeiro paraíso, que vivem isolados do resto do mundo, bebendo água que vai de Moçâmedes, cerca de trezentos brancos em Porto Alexandre e cem na Baía dos Tigres."
"Não temos maneira de felicitar todos os portugueses que habitam este deserto, pela admirável coragem de que dão prova, vivendo assim nessas regiões de desolação".
A terminar:" Quando se vêm os milagres de energia que os portugueses têm tido que dispender para criar esta magnífica indústria de pesca em semelhantes regiões, pensa-se que temos de desesperar do nome francês se não conseguirmos fazer tão bem ou melhor que eles ...não apresentando nada de comparável ao que existe em Porto Alexandre e sobretudo na Baía dos Tigres."
Por portaria editada no Diário de Governo de 27 de Junho de 1925 o governo português louva o esforço colonizador no distrito de Moçâmedes, terminando nestes termos:

"Manda o Governo da República Portuguesa pelo Ministério das Colónias que seja dado público testemunho do muito apreço em que é tido o valioso trabalho realizado por estes colonos, que tanto honram a Pátria e por esse motivo sejam louvadas as populações de Moçâmedes e Porto Alexandre por serem os principais núcleos desta colonização.

Paços do Governo da República 27 de Junho de 1925"
3ª foto retirada de http://paterhu.multiply.com/journal/item/34
texto e fotos 2ª e 4ª in: www.memoriaseraizes.blogspot.com



A CATACUMBA ABANDONADA

Decidi um dia entrar no cemitério velho de Olhão, naquele que é uma das principais fontes documentais da cidade, com arquivo próprio.
O funcionário era um simpatizante da pesquisa histórica e prontificou-se consultar os inúmeros registos ao seu dispor. Dois deles chamaram a minha atenção: a sepultura abandonada de um tio-bisavô, Francisco Lopes Frota e a catacumba, também abandonada que servia de última morada ao meu bisavô Manuel Joaquim Frota, o mandador pioneiro das armações à valenciana. Desloquei-me aos dois lugares onde fiz um breve recolhimento. Francisco Lopes Frota era um dos irmãos mais velhos do meu bisavô e não deixou descendência. Mais tarde, numa visita, constatei não existir mais a pedra da sua sepultura. A catacumba do mandador, meu bisavô, encontrava-se sem qualquer identificação, só em parede caiada, graças ao zelo dos funcionários. A minha bisavó migrou para Lisboa com a restante família deixando Olhão para sempre, daí não ter podido cuidar da sua manutenção. Existiu uma chapa, posta por um parente que tinha um táxi mas caíu e perdeu-se,(um gesto de rara sensibilidade vindo de um sobrinho-neto do meu bisavô). Há muitos anos era visitada por familiares ligados à minha bisavó, a família Lota, recordava-se o funcionário que manteve uma forte relação de amizade com o meu parente taxista José Sérgio Frota e que nutria por ele grande respeito e admiração por ser um talentoso apresentador de teatro e autor de várias peças representadas na saudosa sala do teatro velho de Olhão por artistas amadores da cidade. Tive o grato prazer de o conhecer, já reformado, numa breve visita em sua casa, perto de Lisboa, há cerca de 20 anos.


Confesso que, diante daquela catacumba, senti-me deveras emocionado. Ali estava sepultado o meu bisavô, um "africanista olhanense" que fez uma viagem épica a bordo de um palhabote e que era pioneiro das armações á valenciana. A sua pele fora curtida pelas maresias do mar de Moçâmedes e pelas garrôas e lestadas da Baía dos Tigres. Na certidão de óbito vinha mencionada a idade aparente: 88 anos, quando na verdade tinha 74.


Prometi, naquele recolhimento, encontrar a melhor forma de lá colocar uma lápide. Como propriedade particular que era, só ao proprietário era concedida a autorização para tal e o proprietário era a minha bisavó Maria Teresa Frota, falecida há muito em Lisboa. Decidi então fazer o pedido por escrito à Câmara Municipal de Olhão e juntar uma fotocópia da página de um livro onde menciona o meu bisavô como pioneiro. E assim fiz.


A autorização demorou quatro longos e expectantes meses. O pedido veio, finalmente, deferido. Manuel Joaquim Frota ía ter lápide na sua catacumba por ter sido reconhecido o mérito da sua iniciativa pioneira. A família Frota, nascida em Angola, soube respeitar a memória daquele nosso ascendente comparecendo em grande número às homenagens que lhe foram prestadas. A primeira, a mais restrita, no dia 7 de Outubro de 2000, 113 anos após um sonho africano e 25 anos após a nossa chegada e dispersão por Portugal. A segunda com divulgação a todos os familiares de norte a sul do País. Uma iniciativa ímpar do meu primo Rui e do meu irmão Walter que criaram uma autêntica máquina de divulgação, e no dia 6 de Outubro de 2001, cerca de cem familiares descendentes de Manuel Joaquim Frota, encontraram-se, numa sentida homenagem. As recordações brotaram, nas intervenções de grande qualidade que se seguiram ao almoço, num total de 110 presenças. Recordámos a velha Torre do Tombo onde nasceram e viveram os meus tios e pai, uma prole de 12 irmãos; a praia Amélia onde o meu avô trabalhou na pesca da baleia; as agruras por que passaram os meus avós na Baía dos Tigres devido ao clima hostil e ao isolamento; ao perfil de todos eles, pela vida de rectidão que levavam, desenhado pelo meu primo José Manuel, com a espontaneidade e boa disposição a que nos habituou e a que se deve aos muitos anos na rádio como chefe de produção do Rádio Club de Moçâmedes e como repórter da antena 1 em Portugal, um grande comunicador; as palavras sábias do meu primo Mário Ângelo, homem de grande carácter e elevada cultura, que viajou desde Coimbra e seguiu para Madrid nesse dia para uma conferência, não deixando, por isso, de estar presente. Um envolvente, belo e inesquecivel exercício da memória. Um pensamento foi aflorado e comungado por todos: "quando o passado está presente o exercício da memória é quase um dever". É quase um dever, diria, quando esse passado tem a dignidade do dever cumprido.
Outros encontros se sucederam, desta feita em Alcácer do Sal, com um récord de 120 presenças no primeiro lá realizado.
Seria memorável e talvez inédito nas famílias portuguesas, um encontro global em Portugal de uma família que espalhou o seu apelido por diversos países do mundo. Muitas foram. A nossa foi uma delas: Portugal, Angola, Brasil, Estados Unidos, Argentina, etc., (sabendo que a de Angola entronca sómente na de Olhão), a exemplo dos Galvão, que têm organizado os seus encontros em França, com um número de presenças que rondam os mil, segundo consta. Um encontro global dos Frotas a realizar-se em Portugal, seria por bem em Alcácer do Sal ou Setúbal, cidades onde moram os pergaminhos do apelido e os portos de onde partiram em demanda das terras brasileiras nos séc. XVI a XVIII, onde se fixaram, e onde ainda residem os seus inúmeros descendentes.

Mossâmedes, Moçâmedes , Namibe: Torre do Tombo e falésia no último quartel do século XIX









































































 




























Fotos inéditas da Torre do Tombo em outras eras...


 


Nesta foto, a zona mais ao fundo, de costas para o deserto, era conhecida por "Bairro Feio" . A zona mais próxima era cheia de depressões no terreno que duraram até 1975. sem terraplenagem. A Torre do Tombo foi no tempo colonial , até pelo menos aos anos 1940, um bairro bastante dinâmico, cujos habitantes na sua maioria oriundos do Algarve, sobretudo de Olhão, ali começaram a se estabelecer desde 1861, para se dedicarem à industria pesqueira, quer como pescadores, quer como industriais. Foi sempre um bairro descurado pela autoridade competente, sendo no entanto aquele que mais contribuiu, para a economia da cidade de Moçâmedes e até do distrito.





Aqui nasceu Mossãmedes, a actual cidade do Namibe!

Mossãmedes, Moçâmedes, Namibe..., de início era não era mais que um areal desertico junto à foz onde Bero ou Rio das Mortes ia desaguar...

«Angra do Negro»
, assim lhe chamaram os primeiros navegantes que em tempos remotos ali aportaram. Mas havia quem lhe chamasse outros nomes: "Tchitoto tchobatua" (buraco dos passarinhos) era o nome por que era conhecida pelos mucubais; "Ombala» (terra do litoral oceânico), assim lhe chamavam os Muhilas, Mossungo, nome do soba da região pelo qual era conhecida.

Não se sabe ao certo se a designação «Angra do Negro» teria a ver com o embarque de escravos para o Brasil. Pensa-se que não, pois foi tardia a fixação dos portugueses por estas paragens agrestes e pouco convidativas.
Benguela sim, e Luanda foram incontestavelmente portos marcados por esse tráfico que ficou para sempre a representar a maior nódoa da colonização portuguesa e europeia em terras de África. O interesse pela fixação em terras ao sul de Benguela veio a acontecer bastante depois da independência do Brasil em 1822, quando, perdidas aquela colónia e as riquezas que representava, Portugal se vira finalmente, para África. Mossãmedes seria, quando muito, o símbolo dessa viragem. Para bem ou para mal de angolanos e portugueses, foi a partir daí que começou a colonização. Até aí Angola não passou de um interposto de tráfido de escravos para o Brasil.


Foi aqui que, em pleno «morro», «grutas» foram escavadas a punho
na rocha branda por mareantes que em tempos remotos por ali passavam e ali faziam «aguada» (forneciam-se de água e descansavam). Foi aqui que foram encontradas impressas «inscrições» registadas em pelo Tenente Coronel Pinheiro Furtado, comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa de visita em 1785 à Angra do Negro.

Mais tarde, lá para meados do século XIX, foram essas grutas que abrigaram os primeiros colonos algarvios que, estimulados pelas promessas do Governo português, a quem interessava a fixação, partiram de Olhão para Mossãmedes em busca de melhores condições de vida, e que, em levas sucessivas, voluntariamente, sem apoios governamentais, continuaram pelo século XX a dentro a chegar... Os primeiros, em caiques e barcos à vela (pequenas cascas de noz, de vela latina triangular, utilizados na pesca e comércio de cabotagem na costa portuguesa, no norte de África e no Mediterrâneo).

Foi aqui que os primitivos algarvios e os que vieram a seguir instalaram as primeiras pescarias e reconstruiram as suas vidas, e inaugurarem uma nova era de progresso para um distrito, cuja riqueza seria proporcionada pelo mar.

Foi perto daqui, que, mais tarde, no local a 1km da vila, aos poucos começaram a surgir aqui e ali, as primeiras casas e a tomar forma esse bairro habitado por pescadores e constituído por um térreo casario, ao qual ironicamente fora dado o nome de «Torre do Tombo» (5ª foto), em analogia com o Arquivo Arquivo Nacional Português, devido às inscrições impressas no morro. No início construidos em pau-a-pique, mas que incluia já um tipo de construção erguida com pedra e cimento. Não tardou que o Hospital , ladeado de pavilhões infecto-contagiosos, chegasse às populações carecidas (5ª foto à esq.).

Nas fotos 1 e 2, ainda que apagadas, vêem-se algumas das «grutas» que mais tarde foram aproveitadas como armazém de material das pescarias. Como se pode facilmente verificar, o «morro» ou falésia da Torre do Tombo corria nesta altura directo ao mar, não existindo uma estrada sequer que permitisse o acesso dos proprietários às suas pescarias, construidas mais a sul, no local designado «Pedras», onde em finais da década de 1950 passaram a ficar a ARAN e o cais-acostável.

Nas fotos 1 e 3 vêem-se instalações que mais tarde seriam ocupadas pelo Sindicato da Pesca de Mossãmedes, organismo detentor de vastos armazéns e casas para o pessoal contratado, pontes, etc. , criado em 1929, numa altura em que Mossãmedes atravessara uma grande crise , não porque não houvesse peixe mas porque este não escoava para o exterior , e, ou apodrecia nos armazéns ou era deitado ao mar.


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AS INSCRIÇÕES ENCONTRADAS IMPRESSAS NO «MORRO»

Em 1785 o Tenente Coronel Pinheiro Furtado, comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa, visita a Angra do Negro, (designação do lugar onde mais tarde seria erigida a cidade de Moçâmedes da época colonial portuguesa, hoje, cidade do Namibe, no sul da república angolana) e registou as inscrições gravadas por mareantes e corsários na rocha branda.
Talvez tivesse sido este oficial português o primeiro que chamou ao morro das inscrições Torre do Tombo, pondo uma ponta de ironia na analogia com o Arquivo Nacional Português com o mesmo nome. Eis as inscrições:
1645-José da Rosa Alcobaça
1665-O capitão josé da Rosa Alcobaça passou por aqui indo para o Cunene no patacho Nossa Senhora da Nazareth em 4 de Janeiro de 1665.
O Piloto Pederneira
O sargento Domingos de Morais em companhia de José Rosa Alcobaça.
Bernardo Quado Goya
1666-André Chevalier
1723-Kenny
1762-Tomás Decombo
1765-Luís Barros
1768-W. Taylor
1770-Tomás Decombo
Manuel Rodrigues Coelho
Martin

In «Moçâmedes» de Mendonça Torres


.....................
«...Visitei a Torre do Tombo, sitio junto da bahia, que assim appellidam, e onde os visitantes e os colonos vão inscrever os nomes n'um grés mole de que é composta parte da costa. A lista é numerosa : lá se acham alguns nomes de certas notabilidades portuguezes, esculpidos
por filhos, irmãos, ou primos, que o mau fado ou a ambição levaram áquellas praias ; e outros desconhecidos, mas talvez não menos iílustres, com datas de quasi dous séculos. »
In «Quarenta e cinco dias em Angola»

Camara Municipal de Moçâmedes (ex- Mossâmedes) e Carta de Brasão de Armas de Nobreza e Fidalguia



 

Brazão de Armas

Dado foi a este Povo enobrecido
Pelo seu valor nunca desmentido
Brazão d’Armas respresentado:
Escudo bem lançado, esquartelado,
No primeiro quartel. As sem rival
Armas do nosso q´rido Portugal!

Assenta em campo d’oiro verdadeiro
No segundo, um ramo de algodoeiro
Com cana d’ áçucar em aspas posto
Com inimitada arte e fino gosto,
Simbolizando então a Agricultura,
Que aos Povos traz riquezas e ventura

No terceiro, em campo de prata está,
A mostrar a riqueza que o Mar dá,
Barco de pesca verde sobre o Mar.
Assim podemos nós asseverar
- E a Verdade conhece-a bem o Mundo –
Que não há nenhum outro tão fecundo
E o verde do barco diz  -Esp`rança –
Pelo que – quem porfia sempre alcança!

E, mo campo vermelho, d’oiro o arado.
No quarto bem está simbolizado.
- Em gloriosa Data, a vez primeira.
Debaixo dessa lídima  Bandeira.
Lusas gentes e sem igual no Mundo –
Audazes, arrostanto o Mar profundo,
Vieram estar terras desbravar
E no solo sementes espalhar!

Num listão azul, posto em contrabanda
Fica a sobressair, numa cor branda,
Por lindas mãos de Fada bem bordada,
Legenda altiva e letra prateada:
O “Labor omnia vincit”, seu teor,
É lema deste Povo vencedor!


Repousa sobre o escudo c`roa mural,
Que é dum aspecto belo, senhorial!
Por timbre a Cruz vermelha e bem florida,
A Cruz cercada d’oiro e no Céu erguida –
Símbolo de Jesus: o Redentor,
Que aos homens trouxe Luz, Paz e Amor!


Moçâmedes, 04 de Agosto de 1935

António Menandro Guerra





Edifício da Câmara Municipal de Moçâmedes (ex-Mossâmedes), ou Casa da Câmara, como era conhecida nos primórdios da sua fundação.

Edifício da Câmara Municipal, onde funcionou em tempos idos uma Escola. Postal de colecção particular

 
 O lado oposto do pateo.

 
Perpsectiva do interior do edificio






 


No livro «O Distrito de Moçâmedes», da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, encontrei este texto, que passo a transcrever:

«Moçâmedes, a gentil cidadezinha do Sul de Angola, possui , desde 1895, a sua Carta de Brasão de Armas de Nobreza e Fidalguia.


A Câmara Municipal tendo
deliberado em sessão de 31 de Dezembro de 1890, presidida por Vital Bettencourt Corte Real do Canto, aprovar o Brasão de Armas representado no desenho , que à mesma sessão fora presente , requerera ao Governo Central, em 4 de Janeiro de 1891, a concessão para o usar.

Em Novembro do ano anterior havia passado por Moçâmedes o doutor Manuel Moreira Feio, na qualidade de secretário particular do eminente estadista
Mariano de Carvalho, que então empreendia uma viagem de estudo às nossas possessões africanas. A especial situação e o fino trato do doutor Moreira Feio, levaram a Câmara a solicitar-lhe a incumbência de obter dos Ministérios da Marinha e do Reino favorável e pronto despacho ao seu requerimento de 4 de Janeiro : de alcançar o respectivo diploma; de o fazer registar na repartição competente; de conseguir uma cópia do desenho do Brasão executada por artista da sua escolha; e de o mandar abrir em pedra para ser colocado num edifício destinado a Paços do Concelho, cuja construção a Câmara estava construindo. A esta solicitação, resolvida em sessão de 14 de Janeiro, anuiu prontamente o doutor Moreira Feio , que, em carta de 22 de Abril, comunicou à Câmara ter vencido as dificuldades inerentes ao processo de concessão, já desembaraçado àquela data dos Ministérios da Marinha e do Reino, e ainda da Procuradoria Geral da Coroa, estações oficiais por onde tivera de transitar. Cumpridas todas as formalidades do processo, publicou o Diário do Governo de 2 de Junho de 1891, referendado pelo Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino Lopo Vaz de Sampaio e Melo. o decreto de 29 de Maio do mesmo ano, que concedeu à Câmara Municipal de Moçâmedes, para distintivo honorífico do seu Municipio, o requerido Brasão de Armas, «para que dele pudesse usar em devida forma».

O Brasão de Armas do Município é composto, segundo o Decreto de 29 de Maio de 1891, do seguinte modo:- um escudo esquartelado, tendo no primeiro quartel as armas de Portugal; no segundo, em campo de oiro, um ramo de algodoeiro e uma cana de açuçar postos em aspas; no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca verde sobre o mar e no quarto, em campo vermelho,um arado de oiro: - em contra banda um listão azul, com a legenda «Labor Omnia Vincit»; sobre o escudo a corôa mural, e por timbre, uma cruz vermelha florida e contornada de ouro.

A cultura da preciosa malvácea, iniciada pelos colonos de 49 e 50, assumira no sul de Angola um tão acentuado desenvolvimento, que o porto de Moçâmedes chegou a ser, de todos os portos da Província, aquele por onde se fazia mais larga exportação de algodão. E a cultura da cana, tentada simultaneamente no Distrito, merecera, de igual modo, por suas vantagens económicas, vigilantes cuidados aos antigos colonos, que viriam medrar, com notável pujança, nos vales do Giraúl, do Bero e do Curoca, a conhecida gramínea.

No terceiro quartel, avulta a mancha graciosa de um barco de pesca. É a animada representação da indústria piscatória so Distrito. Com a chegada dos antigos colonos nascera igualmente essa compensadora indústria, a maior fonte de riqueza do Sul de Angola. O barco que a representa, vê-se a singrar o Oceano, esse mesmo Oceano que amorosamente beija as Praias de Portugal, e cujas águas encerram com abundância, variados e saborosos peixes, que, constituindo pelo valor da sua exportação, o mais poderoso factor da economia distrital, tem sido também sustento e delícia de quantos vivem nesta porção remota, mas hospitaleira da terra portuguesa.

Nota-se no último quartel, o singelo recorte dum arado, rememorando o período florescente da agricultura distrital. A agricultura, que no Distrito, remontava, assim como a indústria piscatória , aos primórdios da colonização, que atingira de facto, em determinada época, um grau elevado de prosperidade. A quebrar a monotonia do deserto, estadeavam-se então, luxuriantes, pitorescos, os deliciosos oásis, cheios de sombra e de frescura, formados nas margens dos rios e nas abas da Chela, riquíssimos de húmus, onde os antigos colonos, ensaiaram, com sucesso, além das culturas de algodão, de açucar postos em aspa: no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca verde sobre o mar, e no quarto um campo vermelho, um arado de ouro; em contrabanda, um listão azul com a legenda Labor Omnia Vincit;- sobre o escudo a coroa mural e por timbre uma cruz vermelha florida e contornada de ouro.

O simbolismo contido no Brasão de Armas do Municipio de Moçâmedes, perfeito na sua evocadora dignificação, exalta, num hino brilhante de colorido e opulento de harmonia, a firmeza do sentimento patriótico e a vida árdua de trabalho dos beneméritos fundadores do Distrito, realçando, para exemplo e incentivo das gerações vindouras, o êxito sem igual da sua obra magnifica de colonização.

O escudo das quinas, a insígnia heráldica da Nação, ocupa o primeiro quartel. Orgulhosos da sua Pátria, os antigos colonos adoptaram no Brasão de Armas do Município essa elegante e gloriosa divisa, que, na era dos Descobrimentos e Conquistas, pompeara por toda a Orbe, e ainda hoje se ostenta, ufanosamente, no Pendão Nacional. Anelando, com o melhoramento da própria condição, o prestígio e o engrandecimento de Portugal, os antigos colonos conseguiram, à custa de uma luta pertinaz, acerba por vrzes, erguer, no areal adusto da baía de Moçâmedes, a donairosa cidade de igual nome, e difundir por todo o Sul da Província, norteados pelo mesmo alto desígnio e fortalecidos pela mesma indómita vontade, o consolador benefício da civilização da Mãe-Pátria.

Figuram, no segundo quartel, doid emblemas expressivos: um ramo de algodoeiro e uma cana de açúcar. Indicam as espécies arbustivas mais cultivadas então no Distrito. A cultura da preciosa malvácea. iniciada, e da cana, as das plantas hortenses, e as das árvores frutíferas.

O conjunto, imponente pela eloquência dos símbolos e aprazível pelo encanto da policromia, é cortada em diagonal por uma faixa de côr azul, onde se lê o conhecido fragmento Labor Omnia Vincit dum verso das Geórgicas, o célebre poema didascálico de Virgilio. A máxima virgiliana «o trabalho tudo vence», sobreposta ao Brasão, traduz com nobresa, a epopeia de esforços e o assinalado triunfo dos antigos colonos, enaltecendo-lhes e glorificando-lhes a honrosa memória.

A corôa mural e a cruz florida, motivos ornamentais da arte heráldica, rematam superiormente o todo, dando-lhe graça, distinção e beleza.

O Diploma que concedeu à Câmara o uso do Brasão de Armas está registado no Cartório da Nobreza do Reino, no livro 10º, a folhas 72, v.º, do Registo Geral de Brasões; e o escudo das mesmas armas, acha-se debuxado e iluminado no livro do Tesouro da Nobreza de Portugal.

Depois de haver procedido ao registo do Diploma e bem assim, ao debuxo e à iluminura do escudo, foi pelo rei D. Carlos concedida à Câmara, em 15 de Abril de 1895, a respectiva «Carta Brazão de Armas de Nobreza e Fidalguia» que lhe confere os direitos e regalias que dela constam.

Pela Carta de Brasão, de 15 de Abril de 1895, a Câmara Municipal de Moçâmedes pode usar o Escudo de Armas descrito no Decreto de 29 de Maio de 1891, mandá-lo esculpir em seus edifícios e aplicá-lo em seus reposteiros, sinetes, divisas e diplomas, cabendo-lhe, outrossim todas as hontras e privilégios de que gozam as demais Câmaras que têm obtido igual mercê.

No edifício dos Paços do Concelho, o Brasão de Armas, burilado em pedra, decora-lhe, com gravidade a porta de entrada, e, na sala das sessões, fulgura, ostentosamente, pintado num belo quadro e bordado em esplêndidos reposteiros.

Guarda o Arquivo dos Paços do Concelho um artístico livro, com capa de marroquim e folhas de pergaminho, que contém a reprodução da Carta de Armas do Município. É assinada pelo rei, pelo Conde de Ficalho, mordomo-mor, e por Carlos da Silva Campos, escrivão da Nobresa do Reino. O livro fecha com o visto do Rei de Armas, que era, naquele tempo, João Baptista dos Santos.

A Carta do Brasão de Armas do Município de Moçâmedes encontra-se registada no livro nº. 50 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. »

Curiosidades encontradas na Net:

Sobre as dificuldades orçamentais que desde sempre as Câmaras Minicipais se confrontavam, um mal antigo em relação ao qual, já em 1908 o Presidente em exercício da Câmara Municipal de Mossâmedes se manifestara atraves de oficio de congratulações dirigido a Braamcamp Freire, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, eleito pelas listas do Partido Republicano, cujo mandato lhe merecera inequívocos elogios:

"Congratula-se pois em ter ocasião de prestar homenagem à corporação a que V. Exª dignamente preside e que com raro valor tão sabiamente tem administrado, já zelando os interesses dos seus munícipes, já pugnando por que não sejam cerceadas as poucas regalias municipais e relegando a política para um plano tão inferior que ninguém a descortina nas vossas acertadas deliberações.
5(5) Anselmo Braancamp Freire (1849-1921) / Sua actividade política, José Miranda do Vale, Lisboa, Ed, Seara Nova, 1950, p, 66.
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Tambem na Net, encontrei esta Constituição da Câmara Municipal de Moçâmedes
para o biénio 1856-1857, eleita por sufrágio directo realizado a 16 de Dezembro de 1855:

Presidente: José Joaquim da Costa
Vice-Presidente: José António Lopes da Silva
Vereadores:
António Romano Franco
João Dolbeth e Costa
Joaquim da Silva Costa Fradellos

in “Programa das X Festas do Mar” – 1971
pesquisa de José Frade
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O primeiro Código Administrativo, promulgado para vigorar na Metrópole, em 16 de Março de 1842 (Costa Cabral), era, na época de que nos estamos ocupando, o principal diploma que também regulava nas províncias ultramarinas a acção administrativa nos Municípios. Logo na acta da primeira sessão da Câmara Municipal de Moçâmedes, de 02 de Janeiro de 1856, se faz referência àquele código, donde se presume, embora nele expressamente não se declare, que foi, com a sua publicação, tornado extensivo ao Ultramar. Assim devemos concluir, pois, que, no Decreto Orgânico das Províncias Ultramarinas, de 01 de Dezembro de 1869 (Rebelo da Silva), se lê que, nesta data, aquele código «se considerava em vigôr em todas as colónias». (Dec.Org. cit., artº 76).