Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 21 de dezembro de 2008

A primeira traineira de Moçâmedes: década de 1940




A PRIMEIRA TRAINEIRA DE MOÇÂMEDES

Esta enorme «traineira» que aqui vemos em Portimão encostada à muralha do porto, num local muito próximo da «Casa Inglêsa» (o café que tem à venda o melhor que se fabrica na doçaria regional algarvia), foi a primeira traineira que sulcou os mares de Moçâmedes. Chegada a Portugal, em tempos mais atrás, encomendada pela Cooperativa «Galinho», que se dedicava à pesca da sardinha, era movida a vapôr através de caldeiras. Mais tarde, por volta dos anos 1940, foi adquirida pela família Grade, residente em Moçâmedes, mas teve que passar pelos estaleiros de Portimão onde foi submetida a várias modificações, que incluiram a retirada do cano, uma vez que passou a funcionar a motor a gasoil.
Foi levada até Luanda fazendo porte da carga de um navio, porém de de Luanda para a Baía dos Tigres, onde ficava a pescaria do proprietário, viajou pelos seus próprios meios.O primitivo nome que lhe foi então dado foi o de «Nossa Senhora da Luz». Ao chegar a Moçâmedes foi baptizada com o nome da filha do proprietário: «Maria José». Viajaram com ela, António Gonçalves de Matos (Sopapo) e outros algarvios dedicados à arte da pesca, que acabaram por se radicar em Moçâmedes, onde ficaram até à independência de Angola, em 1975. Quando se deu a independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, esta enorme traineira já tinha sido vendida a uma sociedade de que faziam parte Virgilio Gonçalves de Matos, Francisco Velhinho e Miguel de Freitas. Perante o agravar dos conflitos entre os movimentos em luta, e a degradação das condições de vida na cidade de Moçâmedes, os sócios resolveram partir de avião para o Brasil, enquanto a traineira atravessou o mar, rumo às terras de Santa Cruz (Brasil), conduzida pelo seu mestre, de origem madeirense, cujo nome não recordo, que com ele levara a família constituída pela mulher seis ou sete filhos. No Brasil, mais propriamente em Santos, esta traineira acabaria por ser vendida dada a dificuldade na aquisição de licenças de pesca para barcos estrangeiros. Nesse mesmo dia em que a enorme traineira partiu de Moçâmedes, com uma diferença de horas, partiu também na sua traineira rumo ao Brasil, José Vicente Arvela. Nunca se encontraram pelo caminho. A primeira foi dar a Porto Seguro, esta, a S. Salvador da Baía. Imagine-se o que foi a chegada à baía da traineira de José Arvela, sem prévio aviso às autoridades portuárias daquela cidade, com a bandeira portuguesa desfraldada ao vento. A traineira entrou descontraidamente e ficou ali fundeada à espera. Do modo como foram recebidos o seu proprietário jamais esquecerá. A bordo subiu o chefe do Comando do 2º Distrito Naval do Brasil - Salvador da Baía, que logo lhes ofereceu alojamento e alimentação por um ano.



MariaNJardim

Foto gentilmente cedida por Vicente José Arvela, bem como as respectivas informações.

Estaleiros da Torre do Tombo: finais da década de 40



















Foto do livro «Era uma vez Angola... » de Paulo Salvador.

O fluxo de algarvios para Moçâmedes, iniciado em 1860, dez anos após a chegada de portugueses vindos de Pernambuco (Brasil) por força da revolução praeeira, foi o mais importante no que diz respeito ao desenvolvimento da actividade pesqueira em terras do Namibe. Conhecedores que eram das artes de pescar e daquilo que pensavam vir ali a instalar, levaram consigo linhas, anzóis, para a pesca de vários tamanhos de peixes, de fundo e de superfície, chumbadas, roletes de cortiça, cabos variadíssimos, modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc. 

Mas uma simples rede de não mais que cem braças de comprimento, alada de terra a pulso, não permitia pescar para além do necessário para a subsistência do grupo, não chegava para abastecer o interior nem os povos disseminados pelas altas terras da Huila. Também os pequenos barcos de pesca já não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais algarvios para que viessem instalar os seus estaleiros em Moçâmedes, de modo a que ali construíssem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes e pescar.

Sobre os primeiros construtores navais que chegaram a Moçâmedes, refere Carlos Cristão em Memórias de Angra do Negro - Moçâmedes- Namibe (Angola) desde a sua ocupação efectiva:

«(...) A convicção e a vontade de vencer convenceram outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.

E foi assim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se transferiram, do Algarve para Moçâmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de «avô Leandro» e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peyroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo. (...)»


Nota: Hoje tive a notícia de que o meu avô paterno Thomás de Sousa estava ligado a
José de Sousa - conhecido por José de Deus, construtor naval de grande prestígio.

MariaNJardm

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

E lá para a década de 60, vieram os imponentes edifícios públicos, e outros de vários andares...






























A partir de meados da década de 50, Moçâmedes começou a perder o ar pitoresco que a caracterizava, e começou, paulatinamente, a ser invadida, aqui e alí, por modernos edifícios públicos de algum porte, bem assim como alguns prédios de vários andares, inclusive no centro histórico, descaracterizando a cidade, e tudo isto, escusadamente, numa terra onde o espaço não falta.

As primeiras duas fotos mostram-nos os bonitos edifícios das Finanças e da Associação Comercial (ao tempo da colonização).


A 3ª foto mostra-nos três desses novos prédios da baixa de Moçâmedes. O da esq., o mais elevado, então propriedade de José Alnes, que veio substituir o antigo Aero-Clube de Moçâmedes, que era à época um prédio bem enquadrado naquele previlegiado local, de esquina para a Praça Leal, ou Praça de Táxis, e que foi pura e simplesmente demolido.

Será que os actuais e futuros dirigentes da ex-Moçâmedes, hoje cidade do Namibe, irão dar continuidade a esta hecatombe, e que daqui a 10, 20 ou mais anos estaremos em face de um centro histórico completamente descaracterizado, com prédios altos em vez do baixo casario, num autêntico crime de lesa partrimónio histórico e cultural?  Ou será que, pelo contrário, irão ter o sentido histórico que faltou àqueles que ainda no tempo colonial deram início a esta delapidação? Temos notícia que muitos edificios antigos estão a ser recuperados o que denota isso mesmo. Esperemos que nunca desistam para bem do Namibe!

Afinal não foi a «Angra do Negro», Mossãmedes, a primeira urbe edificada por europeus em Angola,  a uma velocidade que pasma, tendo em menos de 10 anos alcançado o estatuto de vila?  E com um outro fito que não o de mero entreposto de escravos? 


A cidade do Namibe tem História, que só é possível contá-la e recontá-la aos vindouros se a  Moçâmedes, a Mossãmedes,  e a «Angra do Negro»  de outros tempos continuar a ser lembrada...


segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O Quiosque de Moçâmedes (Quiosque do Faustino) em fase de construção e já pronto e enquadrado na Avenida.

  
O "Quiosque do Faustino"  surge aqui muito bem enquadrado. Estava-se na 1ª metade dos anos 1950
Um troço da AVENIDA, vendo-se ao fundo o Quiosque do Faustino. À dt o Cine Teratro de Moçâmedes. Postal lançado na comemoração do Centenário, em 04 de Agosto de 1949

A AVENIDA vendo-se a meio o Quiosque do Faustino. Postal lançado na comemoração do Centenário, em 04 de Agosto de 1949

Faustino, o proprietário do Quiosque de Moçâmedes, e esposa


Este bonito Quiosque que se manteve durante décadas a côr rosa, nasceu com um belo enquadramento, no centro dos jardins da vasta Avenida da República, em finais dos anos 1940, em frente ao edifício da Alfândega, e em local onde  até então ficava muito próximo um obelisco erigido à memória de Marquês Sá da Bandeira, o General que havia mandado promulgar, a 10 de Dezembro de 1936, o decreto de abolição do tráfico de escravos.

No início da década de 1950 esta Avenida foi objecto de grandes melhoramentos, e transformou-se num local ainda mais atrente, rodeado de canteiros cobertos de flores de variadíssmas qualidades e das mais diversificadas cores, que era um encanto ver. Bancos de jardim surgiram em maior número, num verdadeiro culto ao divertimento e ao lazer. A Avenida era o nosso "Picadeiro", ou melhor, era um verdadeiro "Passeio Público", onde ranchinhos de rapazes e de raparigas passeavam para cá e para lá, em doce confraternização. O Rádio Clube de Moçâmedes, sob a direcção de Carlos Moutinho levava a cabo aos domingos, em plena Avenida, a seguir às matinés das 5h da tarde do Cine Moçâmedes,  programas de rádio que eram transmitidos através de altifalantes pendurados em árvores que entrevistavam pessoas, lançavam para o ar música a pedido, que incluia tangos de Gardel e outros géneros musicais que faziam partir de emoção os jovens corações. Lá para os finais dos anos 1950 os bailes de finais de tarde,  aos domingos, então disputados entre os salões do Atlético e do Casino, passaram a ser mais frequentes, os encontros desportivos multiplicaram-se, surgiram outros divertimentos e estes usos e costumes são ultrapassados.





Batalha de "cocotes" de farinha, entre Bilibaus e Tragateiros, por ocasião do Carnaval de 1955, nos jardins da Avenida da República,  em frente ao "Quiosque do Faustino".


Este Quiosque transformou-se, na década de 1950 no ponto de encontro de um grupo de «velhotes» da terra que para ali convergiam, religiosamente, ao fim do dia, onde permaneciam até à hora do jantar, em agradável  «cavaqueira», enquanto jogavam uma partida de damas ou dominó, e  tomavam a tradicional «café», talvez um cognac ou uma qualquer bebida. Eram eles o veterano Virgilio Gomes (do Armazém), ou Virgilio Russo, grande contador de anedotas que inventava com grande imaginação e talento, também «carinhosamente» conhecido por «Virgilio aldrabão», devido ao insólito das mesmas anedotas. Era o industrial e comerciante João Duarte, residente num grande casarão de traça colonial bem portuguesa, situado na Torre do Tombo, proprietário de uma pescaria na Praia Amélia, que era alí deixado religiosamente, todos os dias ao declinar o sol, pelo «chauffeur» da sua «limousine». Era o velho Pequito da Farmácia da Praça Leal, que acabou os seus dias com uma paragem cardíaca enquanto sentado no interior da mesma Farmácia. Era o velho Pimentel Teixeira, que trabalhava na farmácia do Sindicato da Pesca, na Torre do Tombo, e que faleceu de uma queda da bicicleta, seu transporte habitual, depois de ter  descido a descida da Fortaleza, e de ter sofrido o embate contra uma carrinha que fizera uma paragem brusca, quando passava em frente à empresa de Gaspar Gonçalo Madeira, na Rua da Praia do Bonfim. Era o velho Cabral (conhecido por «caído da Lua»), que andava sempre de fato branco e laçinho, e morava na Rua da Praia do Bonfim, num velho edificio recuado, de 1º andar, ao lado do Salvador fotógrafo. Era o velho Ringue, solteirão de origem holandesa (boer), domiciliado no Hotel Moçâmedes, ex-produtor de tabaco na zona da Bibala, que fora vigarizado por uma tabaqueira e acabou por perder a sua propriedade, tendo acabado por viver os últimos anos da sua vida como tradutor de algumas empresas da cidade. Mas havia outros frequentadores do Quique do Faustino nesses 1ºs anos da sua construção, cujos nomes de momento não me ocorrem. Aliás ainda no tempo do Padre Basílio, portanto em tempos mais atrás, há notícia que o dito padre, de cuja fama de malandreco e atiradiço para as raparigas,  não escapava,  frequentava este Quiosque, onde aparecia aos finais de tarde com o seu inseparável chapéu preto para se pôr ao corrente das últimas novidades. Mas creio que deveria frequentar mesmo era o primitivo quiosque de ferro.

Frequentava na época essa zona, não o Quiosque, mas ali perto, uma figura típica, natural de Moçâmedes, um homem que possuia uma bem timbrada e forte voz, e em tempos havia sido um brilhante administrativo, mas que por motivos que desconheço acabaria por perder o tino, e levava os seus dias sentado num banco do jardim que funcionava como fosse o seu local de trabalho, o "escritório" : era conhecido por Faria das Baleias. Faria apesar de indigente, nunca perdeu a sua educação e cumprimentava sempre, atenciosamente, toda a gente que via e que por ali passava. Abandonado pelos seus, como se dizia, recolhia-se ao fim do dia para pernoitar  no interior de um velho moinho em ruinas, onde tinha por companheiros os seus muitos cães.



Sabemos que recentemente a côr do Quoisque foi mudada para amarelo laranja, uma côr mais ao gosto dos povos dos trópicos. Também sabemos que este Quiosque sofreu algumas alterações na sua estrutura, com o acrescento de mais um pequeno andar. Ladeando lateralmente os jardins da Avenida, do lado da Praia das Miragens, ficava um belo caramanchão onde cresciam trepadeiras cobertas de flores vermelhas que era um gosto de se ver. 

Mas recuemos no tempo até aos anos 1930 e 1940... Como podemos ver pela foto que segue o edificio da Alfândega de Moçâmedes tinha na altura, à sua frente, em plena Avenida, onde foi construido o definitivo Quiosque, um obelisco  de grande sobriedade que fora para ali trazido, proveniente da "Praça Sá da Bandeira", (1) uma praça que existiu ocupando o quarteirão onde foi construída a Escola Portugal. Este este  monumento de grande sobriedade, também conhecido por monumento ao “Esforço da Colonização”, foi erguido sobre um plinto prismático, o qual ostentava referências, escritas e gravadas, aos heróis da gesta colonizadora. Desconhece-se o seu estado actual.


 


Havia também, a uns metros mais a sul,  um primitivo Quiosque de ferro, bastante mais pequeno e estreito, pintado de verde escuro, com o tecto beje, e com idênticas funções,
porém acabou por ser  também retirado, e nunca mais ninguém soube o que foi feito dele.  Era, como se pode ver pelas fotos, um quiosque de estilo romântico idêntico aos que hoje em dia ainda podemos ver numa ou noutra rua de Lisboa.

 
 A praça junto do Bairro da Facada, para onde foi transferido o Obelisco a Sá da Bandeira, simbolo da liberdade relacionado com a abolição do tráfico de escravos para o Brsil e Américas, e onde se encontra presentemente
http://www.africanos.eu/ceaup/uploads/EB087.pdf


O obelisco foi transferido para o largo em frente à casa comercial de João Pereira Correia (foto imediatamente acima), próximo do «Bairro da Facada», onde ainda hoje se encontra, porém já sem a histórica dedicatória, o que é de lamentar. Por curiosidade acrescentarei que o transporte do referido obelisco foi efectuado em «vagonetas» rolando sobre carris, que foram na altura colocados apenas para o efeito, na estrada,  ao longo da Avenida e até ao novo local, sendo em seguida retirados.
O primitivo quiosque de ferro podia ter sido aproveitado tal como foi o obelisco, e colocado em outro local (foto acima ), uma vez que fazia parte do património urbanístico da cidade,  mas acabou num qualquer amontoado de «ferro velho», numa das lixeiras da cidade. Ainda há a referir que era em redor dele que no decurso da 2ª Grande Guerra Mundial (1939/1945) se reuniam os homens da terra para ouvir os noticiários difundidos pela BBC de Londres. Eram poucas as famílias que na cidade possuíam aparelhos de rádio, que na altura ainda eram alimentados a bateria.  No anúncio  colocado abaixo podemos ver dois modelos desses aparelhos de rádios .

As pessoas mais antigas de Moçâmedes, guardavam também no seu pensamento notícias  dessa outra guerra de 1914/18, que envolveu as nações mais ricas da Europa, e cujos antagonismos económicos, coloniais e políticos ameaçaram arrastar a África para o conflito. Nessa altura não havia emissões de rádio, nem havia energia eléctrica. Os candeeiros das ruas eram alimentados a óleo de cetáceos (baleias) produzido numa fábrica de noruegueses que existia na Praia Amélia . As notícias sobre a guerra a que se tinha acesso vinham através de jornais que passaram a ser vendidos no pequeno quisque, ou eram transmitidas oralmente, porque, não esqueçamos, em Moçâmedes desembarcaram Companhias de Guerra que, subindo a Chela, rumaram à região do Cunene para combater as populações indígenas sublevadas e instigadas pelos alemães. Refiro-me às campanhas de África  que redundaram no desastre de Naulila, (18 /Dezembro/1914). AS forças expedicionárias portuguesas desembarcaram em Moçâmedes em 9 de Outubro de 1914, a recuarem perante o ataque alemão a partir da Damaralândia. Os alemães, aproveitando a animosidade dos cuanhamas, atravessaram o Cunene e chacinaram as guarnições portuguesas, no começo da guerra de 14-18. Também desembarcaram em Moçâmedes, em 7 de Abril de 1915, as forças do general Pereira D'Eça para vingar a derrota de Naulila e recuperar o Cuanhama. Em 2 de Setembro com a ocupação de N'Giva, terminou essa campanha. Foi um alívio para as comunidades pacificas que viviam em Moçâmedes. A Alemanha tinha dado um salto económico  entre 1880 e 1914 e não aceitou a partilha da Ásia e da África na base do direito histórico que Portugal reclamava. Era forte concorrência entre as potências europeias na busca  de matérias-primas, mão de obra africana, e  mercados consumidores. A Conferência de Berlim (1884-5) dividira Africa pelas potências europeias industrializadas e para a Alemanha Portugaldevia ficar fora da partilha.  A guerra de 1914/18 aconteceu, como voltou a acontecer uma nova Guerra, em 1939/45, devido às pretensões da Alemanha de ser a potência mais forte do mundo.  Portugal defendeu sempre, e a todo o custo, as fronteiras de Angola, da intromissão de outras potências, muito sangue português foi vertido, como muito sangue dos autóctones nestras guerras. A despeito dos erros cometidos na colonização, o que ninguém poderá negar, é que o povo angolano ficará para sempre a dever aos portugueses a definição das fronteiras do imenso território que receberam na hora da Independência,  bem como a própria identidade angolana.  A língua portuguesa está permitindo unir  povos de etnias diferentes aquilo, aquilo que os etnocentristas têm procurado cindir. 
Isto para dizer que todos os episódios da guerra eram seguidos atentamente, o quanto possível, na cidade por aqueles que frequentavam  o primitivo quiosque, e já na ultima de 1939/45  através dos tais aparelhos de rádio alimentados a bateria...  



 

MariaNJardim
Ver também AQUI

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Angola: 500 Anos de Evangelização





















Os 500 anos do início da evangelização de Angola, no antigo Reino do Congo (1491), são o motivo que levam Bento XVI a este país lusófono pela primeira vez. Uma ocasião para recordar que o Cristianismo chega a Angola através dos Portugueses.

A fim de satisfazer os pedidos do Rei do Congo, saiu de Lisboa, em 1490 a primeira missão de cooperação e evangelização, chegando a 29 de Março de 1491 ao Soyo, foz do Rio Zaire. A catequese começou pelo rei e pelos nobres, enquanto os operários portugueses construíram a primeira igreja. O início da evangelização de Angola, ocorreu no antigo Reino do Congo (1491), pouco tempo após...

Nesta primeira fase destaca-se o rei Dom Afonso I, Mvémba–Nzínga (1506-1543), que foi naquele tempo o maior missionário do seu povo. O Reino do Congo procurou ter relações directas com a Santa Sé em Roma, enviando aí embaixadores.
A pedido de D. Afonso, D. Manuel I, de Portugal, enviou ao Congo dois grupos de missionários. O primeiro partiu de Lisboa em 1504 e o segundo, formado por padres toios, em 1508. Era chefiado por frei João de Santa Maria.
Em 1517, o Papa Leão X nomeou bispo o Príncipe D. Henrique, que foi o primeiro Bispo da África Negra. Em 1534, foi criada a diocese de São Tomé, desmembrada da do Funchal. O Congo passou a depender da diocese de São Tomé.
Mais tarde, pela bula “Super specula militantis Ecclesiae”, de 20 de Maio de 1596, o Papa Clemente VII desmembrava da Diocese de São Tomé a nova Diocese do Congo, com sede em Mbanza Congo, chamada São Salvador do Congo.
O Papa Urbano VIII, pede, por intermédio da Congregação da Propaganda fidei, o envio de missionários para o Congo e em 1640 cria-se prefeitura Apostólica do Congo e Frei Boaventura de Alessano é nomeado Prefeito Apostólico.
Em 1643 prepara-se nova expedição, sob a direcção do mesmo Frei Boaventura de Alessano. O embarque deu-se a 20 de Janeiro de 1645 e o desembarque na foz do rio Zaire foi em Junho do mesmo ano, após uma viagem acidentada.
Angola passou praticamente a constituir um domínio do Brasil, que em África encontrava o mercado de escravos de que precisava para a agricultura e, mais tarde, para o trabalho das minas. O século XVIII foi já de profunda decadência, principalmente com a expulsão dos jesuítas e com a decadência das Ordens Religiosas em quase toda a Europa.
Octávio Carmo (retirado DAQUI)

Renascimento
O problema do clero indígena é dos mais graves e delicados nas actividades missionária. As dificuldades tanto vinham dos evangelizados como dos evangelizadores. Os sacerdotes que se encontravam em Angola eram pouco numerosos e geralmente faltava-lhes organização, zelo missionário e métodos apropriados ao apostolado missionário. O encerramento das casas religiosas em Portugal pelo Governo Liberal em 1834 tirou a esperança da recuperação durante muitos anos. Um bispo do século XIX pedia para Portugal que se acudisse à sua "moribunda diocese e a um outro, de meados deste século atribui-se esta frase de desalento: "Das Missões de Angola e Congo só resta a memória". Na realidade o número de sacerdotes chegou ao índice mais baixo em 1853: 5 angolanos, encontrando-se 4 em Luanda I em Benguela. As antigas paróquias e igrejas tinham desaparecido quase todas, missões propriamente ditas no interior não havia nenhuma.Desde 1885 até 1910 a vida religiosa foi-se desenvolvendo com certa intensidade: o pessoal missionário - padres, irmãos e irmãs - iam aumentando progressivamente e as populações iam-se abrindo à evangelização. Mas algumas guerras de ocupação do território tornaram certos povos impermeáveis por algum tempo, como os cuanhamas.
Era de esperança a acção religiosa em 1910, com a chegada anual de vários sacerdotes, irmãos e irmãs. Em 5 de Outubro daquele ano, a revolução que suprimiu a monarquia e instaurou o regime republicano em Portugal mostrou-se logo de início contra a Igreja Católica e suas instituições: supressão dos Institutos religiosos, dos seminários e do ensino religioso nas escolas, nacionalização dos bens eclesiásticos - seminários, residências episcopais e paroquiais e das comunidades religiosas - imposição do casamento civil, admissão do divórcio, etc. Ao mesmo tempo, na imprensa intensificou-se a propaganda, que já vinha detrás, contra a Igreja e a vida católica.
Em Angola, os reflexos destas leis e da campanha anti-religiosa encontravam numerosos adeptos, mesmo em algumas autoridades. Vários missionários, sobretudo estrangeiros, foram perseguidos, foram expulsas as religiosas que trabalhavam em Luanda e Moçâmedes, e suprimidos os subsídios que o Estado vinha concedendo a várias missões e outras instituições católicas. Mas a supressão dos Institutos Religiosos e dos seminários em Portugal tinha consequências mais desastrosas em Angola e nas outras colónias portuguesas. Quanto às Religiosas sucedia o mesmo: as Franciscanas Hospitaleiras retiraram-se para Portugal e não voltaram mais.
Em 1940 a Santa Sé e o Governo Português estabeleceram dois acordos: A Concordata e o Acordo Missionário, aos quais o Governo Português acrescentou o Estatuto Missionário. Estes documentos condicionaram o funcionamento das missões. Tais documentos consagraram o nacionalismo missionário, como afirmaram alguns responsáveis do tempo. O Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, referindo-se ao Acordo Missionário, declara a 10 de Dezembro de 1940: "Pelo Acordo Missionário continua no Ultramar a nossa vocação de dilatar a Fé e o Império". " A constituição da hierarquia nas nossas mais importantes Colónias é um acto simbólico da sua ocupação, para Cristo e para Portugal". A 25 de Maio do mesmo ano, Salazar acrescenta: "Não pode pôr-se, entre nós, o problema de qualquer incompatibilidade entre a política da Nação e a liberdade da evangelização; pelo contrário, uma faz parte da outra. O governo condiciona a evangelização à formação patriótica do clero". Monsenhor Alves da Cunha concluiu: "Com o Acordo Missionário a Santa Sé favorece os altos interesses nacionais de Portugal. A Organização Missionária Católica será essencialmente portuguesa".
Entre 1926 e 1940, a expansão da Igreja Católica foi visivelmente impulsionada com a fundação de 29 novas missões. De 1930 a 1960, mais de 20 Congregações missionárias enviaram pessoal para Angola: Beneditinos, Beneditinas, Doroteias, Irmãs do SS. Salvador, Irmãs de la Salette, Capuchinhos, Franciscanas Missionárias de Maria, Reparadoras, Teresianas, Redentoristas, Ordem Trapista, Irmãozinhos de Jesus, Irmãos Maristas, Irmãs do Amor de Deus, Dominicanas de Se. Catarina, Espiritanas, Missionárias Médicas de Maria, Dominicanas do Rosário, Irmãs da Misericórdia.
Em 28 anos (1940-1968), o número de Padres angolanos passou de 8 a 71. Durante a 2." Guerra Mundial (1939-1945), não foi possível a entrada de pessoal missionário estrangeiro; mas, finda a Guerra, muitas Congregações acorreram ao apelo e dedicaram-se ao apostolado missionário em Angola.
Em 1954, Ano Santo Mariano, a revista “O Apostolado” deu início à campanha para a fundação de uma Emissora Católica de Angola (E.C.A.). No dia 8 de Dezembro de 1954 (encerramento das comemorações marianas) realizou-se a primeira emissão da Rádio Ecclesia, Emissora Católica de Angola.
Na cidade de Luanda, em 15 anos (1960-1975), as paróquias passaram de 5 a 14. A expansão missionária prosseguia com novas dioceses e novos seminários diocesanos, com frequência muito animadora. A evangelização foi feita com mais profundidade e, em muitos lugares, era uma autêntica pré-evangelização.

Nota da autora: inclui fotos de missões estrangeiras em Angola

em Agência Eclésia

domingo, 2 de novembro de 2008

E a cidade começou a encher-se de bonitas vivendas...































































Foi graças à Sociedade Cooperativa « O Lar do Namibe», nascida na década de 40, tendo como Presidente Mariano Pereira Craveiro, que os moçâmedenses, gente que na sua maioria vivia do produto do seu trabalho, puderam finalmente aceder ao velho sonho de ter casa própria, através de reduzidas quotizações mensais que iam ali depositando, sendo a aquisição do direito de construção efectuada através de três sistemas, um por sorteio mensal entre os associados, outro por número de ordem de antiguidade (número de ordem também ele efectuado por sorteio na fase de arranque da referida Cooperativa), e outro por leilão. Foi assim que começaram a surgir bonitas vivendas e moradias que ofereceram à cidade um toque de modernidade, enquanto se ia alargando em várias direcções, vencendo determinadamente as soltas areias do deserto.

Mas a actividade da «Cooperativa o Lar Namibe» não se limitou apenas à cidade que a viu nascer, ela acabou por se estender, numa primeira fase, à cidades de Porto Alexandre (hoje Tombwa), em seguida a Serpa Pinto (hoje Menongue), acabando por se expandir por toda a Angola e restantes ex-províncias ultramarinas, chegando mesmo à Metópole onde já havia associados.


Esta Cooperativa foi um bem para a cidade , uma vez que não existiam à data financiamentos bancários à habitação própria, e muito poucos podiam dispor de capitais próprios para o fazer. Faço aqui uma referência especial à cidade de Serpa Pinto que estava a ser praticamente urbanizada pela «Cooperativa o Lar do Namibe» que a transformou de uma vila do interior numa cidadezinha bonita e moderna, à base de lindas vivendas, em cujas fachadas ainda hoje se podem ver os azulejos com o distintivo desta Cooperativa.

Mariano Pereira Craveiro, o Presidente da Sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe», era um Republicano de raiz maçónica oposicionista ao regime. Ele fez parte, juntamente com Carlos Martins Cristão e outros moçamedenses, da campanha a favor do General Humberto Delgado, o General sem Medo,(*) nas eleições presidenciais realizadas no ano de 1958 contra o Almirante Américo Tomás. Recordo ainda o discurso arrebatador proferido por Carlos Martins Cristão que, sentado a seu lado no palco do Cine-Teatro de Moçâmedes, com a sua forte e bem timbrada voz, dizia, referindo-se ao regime vigente: «Eles é que têm as armas...eles é que têm os canhões, nós só temos os braços para trabalhar...

Aqui fica a minha humilde homenagem à memória do grande «Patrono» que foi MARIANO PEREIRA CRAVEIRO, figura que merece ser erguida das brumas do esquecimento e ser para sempre lembrada, mesmo ainda hoje na cidade do Namibe (ex-Moçâmedes). Aliás, Mariano Pereira Craveiro mereceria, desde logo e ainda hoje, ter o seu nome ligado ao grande largo existente na cidade de Moçâmedes que se encontra totalmente rodeado por casas construidas pela «Cooperativa o Lar do Namibe».

* - Video discurso de Salazar sobre Hu

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Ruas e prédios da baixa da cidade...



































































1ª foto: Rua das Hortas, podendo ver-se, à dt. a firma Robert Hudson, Lda.

2ª foto: Rua das Hortas. À dt., a loja Graça Mira e Jacinto. A Rua das Hortas em Moçâmedes era a rua comercial por excelência. Era ali que ficavam a maioria das lojas da cidade, farmácias, oficinas, etc etc.Era por isso das ruas mais movimentadas.

3ª foto: Rua dos Pescadores, zona do Hotel Moçâmedes (à esq.). Esta rua tal com a  Rua da Praia do Bonfim eram também bastante movimentadas, embora com menor numero de lojas, nem oficinas, elas albergavam algum comércio, pastelarias, Bancos. Na Rua da Praia do Bonfim acrescente-se algums estabelecimentos comerciais,  o Cinema e a sede de Companhias de Navegação.

4ª foto:  Rua da Praia do Bonfim, Avenida, e Rua Bastos

domingo, 26 de outubro de 2008

Alguns documentos Documentos -de Conhecimento de Embarque de 1899.



Sobre exportações de Moçâmedes e Porto Alexandre, encontrei estes documentos muito antigos, que resolvi por curiosidade colcar aqui:

Documentos - Conhecimento de Embarque de 1899.

Conhecimento de embarque de mercadorias no vapor Ambaca, ancorado no porto de Moçâmedes, com destino a São Tomé. Documento datado de 6 de Abril de 1899. A carga despachada por

para Joaquim Seixas constava de 40 malas com peixe.
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Os 23 conhecimentos de embarque da Empresa Nacional de Navegação consultados, referentes ao período entre 1885 e 1905, incluem 12 documentos de exportação de Angola para S. Tomé – 1 de Porto Alexandre [Tombua], 6 de Moçâmedes [Namibe], 1 de Benguela e 4 de Novo Redondo [Sumbe].

As exportações de Angola eram constituídas pelo seguinte – de Porto Alexandre, peixe seco; de Moçâmedes, bois, peixe (sem indicação de qualquer tratamento) e peixe seco; de Benguela, carne, fubá e tabaco; e de Novo Redondo, aguardente, feijão, fubá e mantimentos não especificados.
As exportações de Porto Alexandre foram efectuadas pela Companhia de Moçâmedes; as de Moçâmedes por Manuel José Alves Bastos, posteriormente (pelo menos a partir de 1897), pela Viúva Bastos & Filhos, e por Torres & Irmão; as de Benguela por Francisco José Freitas; e as de Novo Redondo por Alexandre da Costa, Guimarães & Irmão, e Ferreira Marques e Fonseca.

Em S. Tomé, os destinatários da mercadoria eram C. Palanque (peixe seco de Moçâmedes), Mateus de Bono Paula, administrador da Roça Monte Café (peixe seco de Porto Alexandre e peixe de Moçâmedes), Ricardo Spengler, e Joaquim Seixas (peixe de Moçâmedes).

Até 10 de Julho de 1888, o imposto de selo pago na alfândega de S. Tomé, para produtos vindos de Angola, era de 60 reis, estando documentado um aumento para 80 reis a partir de 16 de Janeiro de1892.

Documentos - Conhecimento de Embarque de 1900

Conhecimento de embarque de mercadorias no vapor Cabo Verde, ancorado no porto de Moçâmedes, com destino a São Tomé. Documento datado de 10 de Maio de 1900.

A carga despachada por Torres & Irmão para Matheus de Bono Paula, administrador da Roça Monte Café, constava de 30 malas com 60 arrobas de peixe comum.

In blogdaruanove

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Fábrica Africana : Companhia do Sul de Angola (posteriormente Sociedade Oceânica do Sul "SOS")





Trata-se da primeira fábrica de conservas iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 , a Fábrica Africana de Figueiredo (1)e Almeida, Lda. Repare-se, em cima, à esq, nas casas existemtes na altura na Avenida Felner, já a entrar pela Torre do Tombo, algumas das quais ainda lá estão.



Outra perspectiva da Fábrica Africana que nos permite ver os carris de ferro que ligavam a ponte ao interior da mesma. Era através de que se deslocavam sobre estes carris, que o peixe, entrando em linha recta para Fábrica. era descarregado para em seguida ser escalado e cozido em grandes caldeirões. A fase seguinte era a do enlatamento e por fim o engradamento,. No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por pessoal africano como  podemos ver.



Foto: Homens de chapéu e de gravata à porta da entrada da Fábrica Aficana (proprietários e empregados a aguardam a visita de alguma entidade?) Sabe-se que esta Fábrica recebeu em 1932 a visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro. Será que esta foto é dessa altura?


Aqui também se secava peixe em giraus ou tarimbas...

A escalagem era uma das primeiras operações...
 
A seguir vinha a fase da cozedura...



As caldeiras para cozedura e o peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração



O peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração
O enlatamento e as enlatadeiras

O encaixotamento


 

 

As duas fotos imediatamente acima, foram retiradas do portal Memória Africa,  Boletim Geral das Colónias  (Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola) Portugal. Agência Geral das Colónias, N.88 - vol VIII. 1932, pg 407, retirei estas fotos da visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932, já no quadro do Estado Novo (Salazar), a esta fábrica. 

Através da leitura do mesmo Boletim das Colónias, N.88 - vol VIII. 1932, pg 407 , na parte que interessa, ficámos a saber que esta fábrica, em 1932, se denominava "Fábrica Africana", e que o sector de legumes e conservas de frutos se encontrava ainda fase de apetrechamento, restando empenhado neste projecto o Dr. Torres Garcia, administrador da "Companhia de Mossâmedes".  

Nesse dia, a visita do Ministro das Colónias, segundo aquele Boletim, visitou outra empresa fabril de conservas de peixe, propriedade de Manuel Costa Santos, mas não refere o local em que a mesma se encontrava instalada. (2)

Sabe-se que, instalada em edifício propositadamente construido para esse fim,  esta fábrica encontrava-se dividida em dois corpos, um dos quais comunicava directamente para a praia, e foi destinada de início a enlatados de legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), a carne de vaca ou de porco, de peixe em salmouras e escabeche, ou mesmo a algumas semi-conservas de charcutaria, conforme consta do apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes.

Como se pode ver pela duas fotos acima,  no topo das janelas da Fábrica Africana  encontrava-se escrito os produtos enlatados que ali se produziam: conservas de carnes salgadas, conservas em azeite (de atum, sarrajão, cavala, merma), conservas de fruta, conservas de escabeche, peixe fumado, etc., bem como símbolo da Fábrica, uma águia.

Há indicações que na década de 1920 e 1930 exportava-se para o mercado italiano e para os Congos Belga e Francês e o Gabão produtos de alta qualidade que rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos, o que levou ao surgimento de novas conserveiras.


Transcrevemos a seguir um passagem de um apontamento histórico de Antonio Martins Mendes da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes (3), subordinada ao tema «Pescas em Portugal - Ultramar- onde o autor nos relata algumas passagens de um importante relatório do Carlos Carneiro, veterinário em Moçâmedes nas décadas de 1920, e 1930 do século passado:
 
... Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu primeiro relatório de serviço (Carneiro, 1931). Nesse trabalho começa por evocar o ano de 1921 (...)  No seu importante trabalho o Dr. Carlos Carneiro aborda o estado da Industria de Conservas. Ficamos a saber que a construção da primeira fabrica fora iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 e estava destinada aos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Preparavam também óleos de pescado que, depois de várias análises e melhoramento da técnica de fabrico, tinham colocação fácil nos mercados britânicos. A fábrica obedecia às exigências da época mas a I Grande-Guerra iria causar grandes dificuldades. A chaparia para o fabrico das embalagens, que era importada e litografada em Lisboa, faltou e a fábrica foi obrigada a fechar. A indústria viria a reanimar-se a partir de 1923, preparando conservas de atum, sarrajão, cavala, mermo, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, mas exportava-se também para os Congos- Belga e Francês e o Gabão. Os produtos exportados eram de alta qualidade e rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos. Por isso fundaram-se outras conserveiras. 



Encontram-se também referências desta Fábrica como sendo propriedade da "Companhia do Sul de Angola", tendo Josino da Costa como arrendatário, e tendo como gerente Olimpio Aquino.

Nos anos 1950 esta Fábrica era designada "Sociedade Oceânica do Sul" (S.O.S), e  há uma referência no livro de Paulo Salvador "Era uma vez...Angola " a um indivíduo de nome Santana como tendo sido proprietário da referida Fábrica (?).

 
A Fábrica possuia uma frota pesqueira que tratava das capturas para a laboração, quer para o sector conserveiro, quer para o sector de salga e seca, e farinação. Para a produção das conservas de peixe iam especiamente os tunídeos: atum, albacora, sarrajão, etc. Para a salga e seca iam essenciamente os peixes de escama, tais como corvina, taco-taco, tico-tico, merma, cachucho, carapau, etc. Para farinação iam as tainhas, sardinha, cavala, carapau, etc. As tainhas pelo seu alto teor de gordura possibilitavam umalto rendimento na produção de óleo de peixe.

O peixe era transportado para o interior da fábrica através de «vagonetas» sobre linha férrea, que ali faziam a sua entrada, em linha recta, onde era descarregado para ser escalado  e cozido em grandes caldeiras. Em seguida vinha a fase do enlatamento, e por fim o encaixotamento. 

No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por pessoal africano feminino como aqui podemos ver (enlatadeiras).

Sabemos que na década de 60, e após um período aureo de grande produção como "Sociedade Oceânica do Sul"(SOS), esta fábrica deixou pura e simplesmente de produzir e foi vendida à empresa "Produtos de Angola Lda" (PRODUANG) cujos sócios eram Gaspar Gonçalo Madeira e seu filho, Ildeberto Serra Madeira, acabando por se transformar num entreposto para exportação de peixe congelado para Moçambique. Esta situação mantinha-se em 1975, quando da independência de Angola. Gaspar Gonçalo Madeira regressou a Portugal, mas seu filho, Ildeberto Serra Madeira mantém-se na cidade do Namibe.
 
Esta fábrica foi testemunho de uma época na história na cidade do Namibe, e hoje em dia corre o risco de desaparecer.  Esperemos que tal não aconteça e que as autoridades de hoje e de amanhã saibam preservá-la, enquanto representativa desta fase e da principal indústria da região de Moçâmedes.

Pesquisa e texto de MNJardim



(1) Poderemos encontrar referencias à Figueiredo & Almeida limitada  que possuia em Mossâmedes, em tempos mais recuados,  uma casa filial que negociava peixe com algarvios em troca géneros europeus: AQUI 

(2) O texto não refere, mas temos conhecimento que a poente da Fábrica Africana, chegou a laborar uma fábrica  ligada à industria piscatória, pertencente a Costa & Pestana. Durante muito tempo podiamos ver alí, junto do início da falésia da Torre do Tombo, o cano do escoamento de fumos

(3) E ainda  em Industria de Pesca e seus deriivados do Distrito de Mossâmedes, 1921-22, rMemórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão

Notas à margem do texto: No livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão encontrei o nome do 1º colono  que  instalou numa fazenda na margem dt. do rio Bero, de nome Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da " Companhia de Moçâmedes", proprietária da referida fazenda. Não sei se tem alguma relação com o 1º proprietário da Fábrica Africana. 


Créditos de Imagem:
Fotos de ICCT  (7)
foto livro de P. Salvador (1).


Alguma bibliografia consultada:

 Boletim Geral das Colónias  (Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola) Portugal. Agência Geral das Colónias, N.88 - vol VIII. 1932, pg 407
"Apontamento histórico" de Antonio Martins Mendes,  Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa
Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão 
"Portugal em Africa: revista scientifica", Volume 5 1898


Ver também