Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 23 de julho de 2008

Cine Moçâmedes: vulgo Cinema do Eurico (anos 50





 

O CINE TEATRO DE MOÇÂMEDES (na fabulosa arquitectura "ARTE DÉCO")



Foi neste espaço ajardinado, o "Jardim da Colónia", nesta altura sem muros a contorná-lo, que foi erguido o Cine Teatro de Moçâmedes

 


Enquadramento paisagístico em postal editado por ocasião do Centenário, em 04 de Agosto de 1949




Este é o Cine Teatro de Moçâmedes (vulgo cinema do Eurico), situado na então denominada Rua da Praia do Bonfim, em Moçâmedes, a rua principal da cidade, paralela à Avenida da República. Este Cine Teatro veio substituir o Cine Teatro Garrett, a bela sala de espectáculos de Raúl de Sousa, situada na Rua Calheiros que, com as suas frisas, camarotes, plateia, etc, em estilo clássico, seus reposteiros de veludo vermelho, fazia lembrar o Teatro S. Carlos de Lisboa,  salvaguardando é claro, as devidas proporções, e que acabou por ser demolido para dar lugar à construção da sede do Atlético Clube de Moçâmedes.

Eram
proprietários do Cine Teatro Moçâmedes, Eurico Martins, António Pedro Bauleth, Gaspar Gonçalo Madeira e António Nascimento Marques. A sua inauguração teve lugar em meados da década de 1940, com grande satisfação dos moçamedenses que ansiavam por uma sala de espectáculos à dimensão da cidade, na medida em que, desde a demolição do Cine Garrett, passara a ser no pequeno palco do salão de festas do Ferrovia, na Rua Serpa Pinto, sob a exploração de Raul de Sousa, que decorriam a sessões cinematográficas, obviamente sem grande comodidade.
 
No que respeita ao anterior «Jardim da Colónia», importa lembrar que para o local foi na época projectado um monumento aos «colonos» pioneiros, cuja primeira pedra chegou a ser lançada em acto solene, mas que nunca chegou a efectivar-se. (veja AQUI)




 O movimento era enorme aos domingos à tarde...



O Cine Teatro de Moçâmedes foi na década de 50 o grande animador da cidade, a par dos salões de festas, sobretudo o do Atlético Clube de Moçâmedes e o do Clube Náutico (Casino), onde decorriam aos fins de semana animados bailes e matinées dançantes, e também dos campos desportivos espalhados pela cidade, onde se disputavam aos fins de semana renhidos jogos de futebol, hóquei em patins e basquetebol masculino e feminino.


Até ao surgimento do Cine Esplanada Impala, na década de 1960, era o Cine Teatro de Moçâmedes, a única sala de espectáculos da cidade onde decorriam concorridíssimas sessões cinematográficas, diariamente, a partir das 21 horas, e aos fins de semana, também, sessões de matinée a partir das 17 horas da tarde. Na década de 1960, a cidade de Moçâmedes, como todas as cidades de Angola, conheceu um significativo crescimento demográfico, e o Cine Esplanada Impala veio colmatar uma lacuna que já se fazia sentir na matéria, já que a bilheteira da única sala de espectáculos sempre esgotava. A partir da mesma década, também o Cine Teatro de Moçâmedes passou a exibir aos domingos à tarde suas sessões, a das 15 e a das 17hs, geralmente frequentada pelos mais novos.









Esta bela foto tirada à entrada do Cine Moçâmedes , em 1946,  junto a um Cartaz publicitário do filme "Romance Sensacional", interpretado por Ester Williams e Van Jonhson, mostra-nos  um grupo de jovens estudantes finalistas da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes: Maria Emilia Ferreira Ramos, Francisco José Magalhães Monteiro, Albano Pestana da Costa Santo (Carriço) , Humberto dos Santos Pinho Gomes e Maria Edith Lisboa Frota. Era o tipo de filme que sempre agradava, um musical romântico. Moçâmedes sempre gozou da fama de ter mulheres bonitas, fama que aqui se confirma plenamente. Mas a verdade é que  eles não ficavam atrás!
 
 


O Cinema do Eurico como lhe chamavam... Foto Salvador, anos 1950

O  corredor lateral do Cine Teatro de Moçâmedes
O interior do Cine Teatro de Moçâmedes: plateia e o cimo da escadaria de acesso ao 1º piso
Escadaria de acesso ao 1º piso


Foi neste Cinema, o Cinema da minha infância e da minha adolescência, local de risos e de lágrimas, de apertos de mãos e suspense, que muitos namoricos tiveram o seu início, que muitos noivados se consolidaram, e que, no apagar das luzes, carícias furtivas e beijos adolescentes eram roubados em plena projecção, aproveitando a ausência da luz... num tempo em que seria um escândalo dá-los à luz do dia, um tempo em que as «meninas» eram ansiosamente guardadas pelas suas mamãs, que mesmo lá de longe nunca deixavam de as vigiar, não fosse o diabo tecê-las. Moçâmedes era uma cidade pequena, com alguma bisbilhotice e a reputação feminina era ma época um tesouro a assegurar...


Foi neste Cinema, o cinema da minha infância , que crianças sentadas nas primeiras filas a partir do palco (2ª plateia, a mais barata), enquanto os pais ficavam mais atrás, na 1º plateia, assistiram aos seus primeiros filmes de bonecos animados (Pato Donald, Rato Mickey, Poppey, Branca de Neve e os 7 anões, Cinderela, etc. etc), e mais tarde, já adolescentes, assistiram a tantos filmes musicais, westerens (vulgo «filmes de cowboiadas»), de pirataria, históricos, românticos, etc. Foi ali  que a juventude do meu tempo   assistiu a filmes que marcaram essa fase das suas vidas, como o Capitão Morgan, o Gavião dos Mares, Zorro, Tarzan, a Múmia, Frankenstein, O Homem Lobo, As Mil e uma noites, a Lâmpada do Aladino, A Máscara de Ferro, David e Golias, Os 10 Mandamentos, Sissi ,a Jovem Imperatriz, E tudo o Vento Levou, Escola de Sereias, etc etc. Os heróis no ínicio da década de 1950 eram o Errol Flyn, o John Weissmuller, o Tyrone Power, o Gary Cooper, o John Wayne, o Glen Ford, o Alan Ladd, o Clarck Douglas, o Victor Mature, o James Mason, o Humphrey Bogart, o Robert Taylor, o Clark Gable, o Fred Astaire, o Frank Sinatra, etc... As heroínas, eram a Betty Davis, a Elizabeth Taylor, a Ava Gardner, a Olívia d' Havilland, a Ginger Rogers, a Ingreed Bergman, a Dorothy Lamour, a Ester Williams, a Vivien Leigh, a Rommy Schnneider, etc. etc. Aliás, no interior do Cine Teatro de Moçâmedes, enquanto subíamos as escadarias que nos levavam ao 1º andar onde ficavam os camarotes e os balcões, logo os nossos olhos se deparavam com dezenas de fotos de muitos destes e destas artistas que decoravam as paredes laterais, e que funcionavam como autênticos ídolos ou modelos para nossa juventude.

 Filmes houve cujos musicais que os acompanharam marcaram uma época. Foi o caso do Filme ANNA em que Silvana Mangano canta e dança «El Negro Zumbón». Recordo-me como de imediato o popular conjunto musical «Os Diabos do Ritmo» incluiu no seu reportório este género musical que todo o mundo começou a dançar com grande habilidade e graciosidade nos bailes e matinées dançantes nos salões do Atlético Clube de Moçâmedes e do Casino. A letra: «Ya viene el negro zumbon, Bailando alegre el baion Repica la zambomba. Y llama a la mujer Tengo gana de bailar el nuevo compass Dicen todos cuando me ven pasar "¿ Dhica , donde vas?" "Me voy a bailar, el baion!"... O ritmo uma mistura de rumba e baião. Silvana Mangano tem o crédito de cantora, tanto no filme quanto no disco, mas quem canta é Flo Sandon, cantora italiana. A partir desse filme, espalhou-se entre nós, raparigas de então, a moda das calças à Anna, isto, em meados da década de 1950. A música El Negro Zumbón, do compositor, pianista e director de orquestra Perez Prado. foi feita para este clássico filmado em 1951 e dirigido por Alberto Lattuada. Contracenaram com Silvana Mangano, Vittorio Gassmann e Ralf Vallone. Nessa altura a cultura musical brasileira já tinha uma indústria fonográfica poderosa e sos seus sucessos invadiam outras culturas, incluindo a nossa, neste cantinho de África. Foi o caso do êxito da canção «A namoradinha de um amigo meu», de Roberto Carlos, cantarolada entre os mucubais, povo do Deserto, secularmente impermeável à aculturação, quando desciam à cidade...

 




 O Quiosque do Faustino, alí mesmo ao lado...

Na década de 50 os filmes que passavam neste Cinema eram passados pela censura, e muitos eram interditos a menores de 17 anos, como foi o caso do inofensivo «O Monte dos Vendavais.» baseado num romance de Emilly Bronte publicado por volta de 1846, considerado um clássico da literatura inglesa. Recordo que nesse dia eu própria estava a assistir a este filme na companhia dos meus pais, bem como todo um grupo de adolescentes que ali se encontravam com ou sem família, e fomos pura e simplesmente postos na rua. Isto após termos entrado com bilhetes comprados e o filme estar já próximo do intervalo. Fomos postos na rua, porque alguém da comissão de censura que não tinha deito o "trabalho de casa" e estava ali a assistir, a determinada altura levantou-se e deu essa ordem ao porteiro, porque o filme foi por esse alguém, tardiamente considerado impróprio para a nossa idade.O mesmo é dizer, não estava de acordo com os princípios morais estabelecidos pelo Estado Novo para a educação dos juventude. 

 «O Monte dos Vendavais» transportava consigo ideais de liberdade e de independência que era necessário não deixar germinar na juventude de então.E no entanto, não era mais que a história de um casal que no decurso de uma viagem resolve adoptar uma criança que vai suscitar sentimentos antagónicos nos seus dois filhos naturais, ou seja, sentimentos de afastamento, humilhação, ódio e ciúme, por um lado, e de aproximação e amor platónico, por outro, redundando num enredo trágico tipo Romeu e Julieta, passado na época vitoriana. Em contrapartida, não havia mal algum que as inocentes criancinhas e os jovens de então assistissem a filmes onde o lobo mau comia avó, ou onde americanos matavam índios como bichos, e índios arrancavam os escalpes aos americanos... É claro reclamámos e recebemos de volta o dinheiro, mas foi de facto um exagero.  Nesse tempo não eram exigidos à entrada os bilhetes de identidade, o que facultava aos jovens adolescentes e sobretudo às raparigas, que amadureciam mais cedo, a possibilidade de, através de uma toilette mais senhoril, enganarem o porteiro, que na dúvida, não se atrevia a não as deixar entrar.


Eram sempre  concorridas e animadíssimas as matinées aos domingos à tarde. Como os bilhetes na 2ª plateia eram os mais baratos, a garotada corria para ali em busca do melhor lugar, o mais afastado possível do palco, plateia que era frequentada também por africanos jovens na sua maioria empregados domésticos (criados).  Quando tocava para intervalo era ver os garotos sairem apressadamente na direcção do Bar bar do Cinema,ou do Quiosque do Faustino, ali perto, onde se vendiam gulodices. Mais tarde, a alternativa, era também o café Avenida que ficava ali mesmo ao lado.  

E quando corriam os western's, era vê-los todos, sem excepção, baterem palmas de euforia quando aparecia a 7ª cavalaria a defender as caravanas que estavam sendo atacadas pelos índios, ou então a esconderem a cabeça, indignados, quando os índios tiravam o escalpe aos brancos e faziam destes trunfos de guerra.

Em Moçâmedes havia a prática das entradas à «boleia» nas sessões cinematográficas que um ou outro rapazinho atrevido conseguia, passando despercebido do porteiro. Outros chegavam mesmo a pular a janela lateral, sendo por vezes "agarrados" pelos vigilantes e postos fora. Que vergonha então sentiam, chegavam a confessar...


A respeito de «boleias»
quero registar aqui o nome de uma benemérita senhora de Moçâmedes, a Dona Aninhas de Sousa, esposa Raúl de Sousa, o já aqui citado proprietário do antigo Cine Garrett, e mãe do Raúl de Sousa Junior (Lico de Sousa, que foi vereador da Câmara Municipal de Moçâmedes, e cujo nome ficou ligado ao Parque de Campismo da cidade).  Como acima referi, quando da demolição do Cine Garrett, Raúl de Sousa alugou o salão do Ferrovia onde fazia passar as suas sessões cinematográficas. Ora, a chegada ao Ferrovia de Dona Aninhas, sua esposa, era sempre ansiosamente esperada por algumas crianças que ficavam à porta daquela associação à sua espera, porque que assim que ela chegava, entravam (à borla) com ela.


Mas no Cine Teatro de Moçâmedes não se realizaram apenas sessões cinematográficas. Ao seu palco subiram peças de teatro, actos de variedades, espectáculos de revista à portuguesa, teatro de comédia, espectáculos de bailado, etc. etc. Ali cantaram Alberto Ribeiro, Tony de Matos, Horácio Reinaldo, Luís Piçarra, Marisol, Carlos do Carmo, Trio Odemira, Duo Ouro Negro, Nelson Ned, e tantos outros grandes cantores que o tempo não deixa recordar. Ali actuaram o Orfeão Académico de Coimbra (que de visita a Moçâmedes cantou uma serenata nas escadarias do Palácio da Justiça -Tribunal), o Humberto Madeira, o Octávio de Matos, etc.



Carlos Moutinho e Cecília Victor

Também no Cine Teatro de Moçâmedes apresentaram os seus shows as coristas vindas da Metrópole  que na sua curta estadia ali  partiam de amor sedentos corações masculinos. Ali declamou o grande João Villaret,  e na década de 50 ali decorreram  animados «Programas da Simpatia» patrocinados pelo Rádio Clube de Moçâmedes e pelo grande radialista Carlos Moutinho, que incluiam concursos vários, de canto, de dança, testes de conhecimentos gerais, etc. etc.

E tantas vozes bonitas de gente da terra tivemos o prazer de ouvir cantar. Recordo a noite em que Nélinha Costa Santos com sua voz de soprano ao cantar Avé Maria de Schubert, foi aplaudida de pé. Recordo a Fernanda Braz de Sousa (música clássica); o Mário Cantor (Canções ligeiras, tais como «Amor dou-te o meu coração... que foi um autêntico sucesso); a Maria Lídia com a sua voz melodiosa, em dueto com José Manuel Frota; a Maria José Camacho (Moçâmedes nasceu à beira mar..., outra canção de grande sucesso na cidade); o Adriano Parreira (tenor), o Jerónimo Ribeiro (tenor); o José Patrício; o Armando Duarte de Almeida (fados de Coimbra); e tantas outras vozes cujos nomes dos intérpretes não recordo de momento. E a Lena Rocha, menina ainda, mas já com uma voz forte e bem timbrada a cantar «O Calhambeque», de Roberto Carlos, mais tarde, em 1965, editada em EP para DECCA. E ainda, o «Grupo Boa Vontade» com Dina Chalupa, e o grupo de dança rítmica e ballet de Mme Sybleras, sem esquecer as festas e teatros dos estudantes finalistas, os desfiles de vestidos de chita e trajes de Carnaval. 





Na foto: Nélinha Costa Santos cantando "Avé Maria de Schubert. num "Programa da Simpatia". Foto Salvador




 


 



 




Mas este Cine Teatro também teve os seus momentos tristes, e o pior aconteceu com a grande tragédia que abalou o nosso pequeno burgo, quando num fatídico dia em que decorria o filme «Amanhã será tarde», a casa dos filmes, no 1º andar, começou a arder após uma explosão, e apanhou algumas pessoas pela frente, projectando outras pelas janelas fora. Morreram bombeiros, morreu Jorge Madeira (sobrinho do industrial e comerciante, Gaspar Gonçalo Madeira), jogador de futebol do Benfica e defesa central da selecção de Moçâmedes. Jorge nem sequer tinha ido ao Cinema. Tinha regressado de um treino, e ao passar junto ao Cine Moçâmedes foi apanhado quando alguém na bilheteira lhe pediu um lenço para se proteger do fumo. Foi precisamente no momento em que acabara de entregar o lenço, quando se volta de costas, que uma grande explosão fez a casa das filmagem ir pelos ares, e arrastou-o consigo. As queimaduras e os danos que Jorge Madeira sofreu foram de tal ordem que veio a falecer oito dias depois. Nessa explosão Dina de Sousa Chalupa, a concorrente feminina que ficou conhecida pela sua participação nos 1ºs. rallies das Festas do Mar, participou em várias provas automobilistas, na década de 1950, em Moçâmedes, e mãe dos dois conhecidos hoquistas, foi projectada também foi pelos ares e não morreu por um triz.

Já nos primeiros tempos do Cine Teatro, quando ainda funcionava com um gerador de electricidade, um outro grave acidente havia acontecido, no qual um dos proprietários, Eurico Martins, perdeu um braço, apanhado pela correia do referido gerador. O casa que abrigava o gerador ficava ali mesmo ao lado do Cinema, e com a chegada da electricidade à cidade acabou por ser demolida e dar lugar ao novo e moderno edifício onde, nos finais da década de 50 , se instalou a Pastelaria Avenida.



Resta ainda referir que este Cinema foi palco de um animado comício político aquando da campanha eleitoral de Humberto Delgado. Estava-se em plena ditadura salazarista, numa época em que as anteriores candidaturas da oposição eram forçadas a desistir por força das pressões e perseguições decorrentes da próprio regime e da falta de condições para a liberdade da votação. Foi o caso do caso do general Norton de Matos, de Arlindo Vicente, etc., não foi o caso de Humberto Delgado. A candidatura do general Humberto Delgado despertou em todo o país um enorme entusiasmo, e tornara bem evidente o descontentamento que pairava em relação à política do Estado Novo. Mariano Pereira Craveiro, o empreendedor presidente da Sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe» (2) era um republicano de raiz maçónica, oposicionista do regime, e fez parte, juntamente com Carlos Martins Cristão e outros moçamedenses, da campanha a favor do General Humberto Delgado nas eleições presidenciais realizadas no ano de 1958 contra o Almirante Américo Tomás. Recordo ainda o discurso arrebatador proferido por Carlos Martins Cristão que, sentado ao lado de Pereira Craveiro, junto a uma mesa colocada no palco do Cine Teatro de Moçâmedes, com a sua forte e bem timbrada voz dizia, referindo-se ao regime vigente: «Eles é que têm as armas...eles é que têm os canhões, nós só temos os braços para trabalhar...»    Escusado será dizer que os resultados oficiais das eleições deram a vitória ao candidato Américo Tomás, que se foi mantendo na Presidência da República até 1974. De facto a candidatura do General Humberto Delgado motivou uma forte mobilização da Oposição Portuguesa em Angola tendo-se aqui registado a única vitória distrital do general em todo o espaço eleitoral. O general Humberto Delgado o “General Sem Medo” contestou as eleições e afirmou sempre a sua vitória. A sua derrota foi atribuída à viciação dos cadernos eleitorais e ao não controlo das urnas de voto pela oposição. A sua ousadia viria a custar-lhe a vida, anos mais tarde, quando, caindo numa cilada, foi assassinado pela Pide no dia 13 de Fevereiro de 1965, em Villanueva del Fresno, Espanha.  (incluo no final link para hiperligação com o livro "Comunidades Imaginadas" por Luís Reis Torgal, Fernando Tavares Pimenta,Julião Soares Sousa, que nos fala sobre o assunto.)


Nos anos 60 surgiu uma segunda casa de espectáculos em Moçâmedes, o Cine Esplanada Impala, propriedade de que eram sócios Norberto Gouveia, Artur Pinho Gomes e ?..., e veio fazer concorrência ao Cine Teatro de Moçâmedes, mas mais no Verão, pois as noites de Inverno em Moçâmedes, sobretudo no mês de Junho, Julho e Agosto eram geladas, e o Impala, com a sua arquitectura neo-modernista de espaços abertos e ao ar livre, tornava-se um lugar desagradável levando a que muita gente preferisse o «veterano» Cine Teatro Moçâmedes, o popular Cinema do Eurico...

Mais que uma forma de lazer ou de evasão ao fim de cada semana de trabalho, o Cine Teatro de Moçâmedes, tal como todos os Cines do mundo, deu o seu contributo para a grande mudança ao nível das mentalidades que se verificou no pós última Grande Guerra. Moçâmedes era uma cidade onde os modelos se mantinham perenes e onde nada de novo costumava acontecer, pelo menos até ao início da década de 1950 . A máquina dos sonhos contribuiu para uniformizar os corpos moldar espíritos, generalizar tipos de comportamentos, estilos de vida, posturas, modas, penteados, etc. E ao impor modelos, moldou até os próprios sonhos dos espectadores...

O Cinema foi ainda utilizado como arma de guerra durante a 2ª Guerra Mundial, como poderoso meio de difusão de modelos sócio-culturais e de padronização de comportamentos. Veículo de propaganda política e de impregnação ideológica dos regimes ditatoriais da Europa, o Cinema teve papel fundamental na política e na formação da opinião pública, ao manipular censura, propaganda, crítica reprovadora de alguns comportamentos sociais ou regimes políticos. Recordo como os documentários que abriam as sessões de Cinema veiculavam a propaganda do Estado Novo. Mas o Cinema também serviu de meio de instrução .Todos aprendíamos algo de novo em cada sessão, os mais cultos e os menos cultos, e neste caso contribuiu para reduzir a diferença de conhecimentos entre pessoas instruídas e pessoas não instruídas, proporcionando ainda ao grande público programas culturais que de outro modo lhe estariam interditos.




Através da segunda foto podemos verificar a grande afluência que tinha o Cine Teatro Moçâmedes nas tardes de domingo. Na década de 60 este Cinema passou a proporcionar duas sessões domingueiras, em matinées, para além da soirée. E foi sempre assim muito concorrido até uns meses antes independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, quando começou a ponte aérea para a Metrópole e com ela, a debandada geral da população de origem europeia.

Quando se deu o 25 de Abril em 1974, e começaram as conversações para a independência de Angola, um novo Cinema já estava em fase adiantada de construção e não iria faltar muito tempo para ser inaugurado. Era uma sala de espectáculos de arquitectura neo-modernista, espacial e futurista mas, ao contrário do Cine Esplanada Impala, era bastante fechada, e ainda hoje se encontra por acabar, mais de 30 anos após a independência de Angola. Esta nova casa de espectáculos, que creio pertencia dos mesmos proprietários do Cine Teatro de Moçâmedes, está situada por detrás dos modernos edifícios públicos que naquele tempo se encontravam ocupados pela Associação Comercial, as Repartição de Finanças e o Governo do Distrito, na então Avenida Felner, a avenida sobranceira ao mar que faz a ligação entre a parte baixa da cidade e a Torre do Tombo.


Estas são recordações de um tempo que já lá vai e não volta mais, tempo da minha juventude, de gente saudável e irrequieta, cujas memórias venho procurando neste blogue registar. E só faz sentido fazê-lo, porque como tantas outras, na imensa Angola daquele tempo, fomos uma comunidade que num repente se esfumou, e que dela, hoje dispersa pelo mundo, só restam recordações ténues quando não apagadas, que imagens e textos como este vão ajudando a lembrar...