Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A visita a Mossãmedes do Presidente da República, Óscar Fragoso Carmona, em Agosto 1938

  
 


Mossâmedes /Moçâmedes, 8 de Agosto de 1938. 

Estava-se em plena vigência do Estado Novo (1933-74). Salazar havia «arrumado» a casa portuguesa e, munido do grande prestígio que lhe concedera a qualidade de Ministro das Finanças (1928-1932),  voltava a sua atenção para as colónias de além-mar em África, apoiado num regime de partido único, no quadro de uma nova ordem anti-parlamentar, anti-democrática e anti-liberal.

Ultrapassados estavam os tempos da I República,  e com eles os ideias de emancipação, que prometiam às colónias de além-mar uma autonomia cada vez mais larga de modo a conduzi-las mais tarde à independência, tendo como exemplo o Brasil.


Toda a filosofia politica do Estado Novo, encontrava-se consubstanciada  no artigo 3º do Acto Colonial
 “ os domínios ultramarinos de Portugal denominam-se colónias e constituem o Império colonial português”. (1)

Salazar precavia-se ante o temor pela cobiça estrangeira trazida pelo avanço do capitalismo na sua fase monopolista ou financeira que  provocara a desigualdade entre as nações européias, tendo a disputa por novas áreas, por novos mercados, pela hegemonia do continente africano levado a Europa à 1 Guerra Mundial (1914/18). Com o fim da guerra, a derrota da Alemanha, os Estados Unidos lançaram a idéia de unir os povos a fim de evitar uma nova guerra, numa Liga das Nações que tinha o como princípios fundamentais a autonomia dos povos. A tradicional aliança com a Inglaterra a expedição militar com destino a Angola e Moçambique,  a posição de Portugal  não se podia separar da defesa das colónias ultramarinas, já que as ambições da Alemanha sobre estas eram bastante grandes. o Governo português enviou contingentes militares para África.o tratado anglo-alemão de 1898 previa uma partilha de Angola, Moçambique e Timor,

Assim, com o eclodir da guerra, as possessões portuguesas em África ficavam, novamente, à mercê das ambições da Alemanha. A 25 de agosto de 1914, os militares alemães fizeram uma incursão ao Norte de Moçambique. Em 11 de setembro, Portugal envia a primeira expedição militar para as colónias.No final de 1914, Portugal estava em guerra não declarada com a Alemanha no Sul de Angola e no Norte de Moçambique.


No plano económico, e nesta fase, a preocupação era o equilíbrio e a moderação, o proteccionismo alfandegário e o condicionamento à industrialização. As colónias forneciam as matérias-primas para a indústria metropolitana, e a Metrópole fornecia às colónias os produtos manufecturados de que necessitavam, tudo convergindo na direcção dos interesses de uma burguesia metropolitana instalada no poder, sem grande preocupação pelo real desenvolvimento da colónia e promoção social das suas populações.


No âmbito da política externa, na Europa as coisas não iam bem. Os problemas da política externa portuguesa sempre haviam sido colocados em segundo plano, em prol de outras questões consideradas mais relevantes. Mas a guerra civil espanhola e a eclosao da ...veio alterar essa realidade.

Em 1936, Hitler e Moussolini tinham assinado o Tratado do Eixo, a Alemanha  havia anexado a Austria e  Goebbels tinha ordenado a perseguição dos judeus. Avizinhava-se a todo o vapor a invasão da Polónia pela Alemanha e a eclosão da 2ª Guerra Mundial (1939/45), que se tornaria uma guerra a uma escala sem precedentes. Salazar procurando fugir ao conflito, tinha declarado que em caso de guerra tomaria uma posição neutral (2), enquanto  continuava o comércio de Portugal com os beligerantes, de forma a tirar contrapartidas económicas da guerra. Deve-se, porém, ter em conta que a pedra basilar na política externa portuguesa durante a Segunda Guerra Mundial continuaria a ser a aliança Luso-Britânica, expressão da dependência do Portugal autoritário, antidemocrático e antiliberal, parecendo mais proximo ideologicamente de uma Alemanha e de uma Itália,  ao império britanico, democrático, liberal e parlamentar, movido por interesses económicos e estratégicos. A aliança  perigo da anexação de Portugal pela Espanha franquista (apoiada pelo Eixo) faz prever um alinhamento ao lado dos aliados









  Era este o contexto histórico quando o General Óscar de Fragoso Carmona, 11º Presidente da República Portuguesa, 1º do Estado Novo, na sua digressão às terras portuguesas de África, chegou a Moçâmedes no navio «Angola», às nove horas da manhã do dia 8 de Agosto de 1938.


Vejamos o que nos diz desta viagem o Boletim  


da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16





Notas de reportagem de bordo:
Desde as 9 horas que navegávamos à vista da costa de Moçâmedes. A cidade foi-se pouco a pouco mostrando, com a sua fisionomia de terra de pescadores, branca e graciosa.

Às 9 e 15, no meio duma flotilha composta de mais de trezentas canoas e outras embarcações de pesca, embandeiradas, o «Angola» e o «República» navegavam nas águas da baía. Desses pequenos barcos, e de terra, incessantemente, sobem foguetes no ar. Por cima dos navios que chegam sobrevoam aviões do Aero-clube.

 
Às 10 horas da manhã efectuou-se o desembarque.
É o presidente da municipalidade, Sr. Dr. Francisco Monteiro do Amaral quem primeiro usa da palavra.

(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 312  a 316)
Depois falou o sr. José Antunes da Cunha, presidente da Associação Comercial e Industrial de Moçâmedes, que disse: 
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 316 a 321)
Seguiu-se no uso da palavra o Governador Provincial da Huila sr. Capitão Ferreira Carvalho.
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 321 a  324)

Chegou o momento mais solene da cerimónia. Toda a assistência , homens e senhoras se erguem e preparam-se para escutar. O Sr. Presidente da República, vai falar.
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs.324 a 327)  

Depois o sr. General Carmona condecorou as seguintes pessoas : Coronel médico dr. Monteiro do Amaral, com a Comenda de Cristo; Antunes da Cunha e Dr. Carlos Tenreiro Carneiro, respectivamente, presidentes da Associação Comercial e Sindicato do Pesca, com o grau de Cavaleiro de Mérito Industrial, Manuel Seabra, comerciante do Lubango, Caetano Evaristo Peixoto, funcionário ferroviário, oficiais de Mérito Industrial, António Joaquim Ribeiro, de Moçâmedes, e José Nóbrega, do Lubango, agricultores, oficiais de Mérito Agrícola.
O Sr. Presidente da Republica dirigiu-se para o antigo palácio do Governo, de carro, que a multidão tirou. Foi uma apoteose.  A multidão, - brancos e pretos,  - comprimia-se, galvanizada pelo mesmo anseio de saudar. Os estudantes rodeavam o automóvel. Os alunos do Liceu da Huila cobriam o veiculo com as suas capas negras. O Sr. General Carmona, de pé, comovidamente, agradecia as manifestações de carinho que de novo lhe manifestavam.


Chegado àquele Palácio,  o Sr. General Carmona pareceu à varanda, a-fim-de satisfazer  as instâncias da multidão clamorosa. Igualmente foi chamado o Sr. Ministro das Colónias, que veio acompanhado da  senhor de Fragoso Carmona, a qual foram dados, também «vivas» entusiásticos.
Às 13 e 30 foi o almoço na Fazenda «Nossa Senhora da Conceição» da família Mendonça Torres,  à beira do Bero.

Na residência, o Sr. Eduardo Mendonça Torres, sua esposa, Maria Sales Lane Torres, suas gentis filhas, Maria Antónia e Maria Eduarda  e demais família, recebiam com extremos de gentileza.  O almoço decorreu num ambiente encantador de respeitosa deferência para com o ilustre visitante, Sr. General Óscar Carmona, a quem acompanharam os Srs. Dr. Francisco Vieira Machado, coronel Lopes Mateus, capitão Ferreira de Carvalho e demais pessoas da comitiva. A ementa fora «composta» sobre lindos cartões com fotografias de diversos aspectos da Fazenda e que constituíram uma interessante recordação do encantador local, dquela deliciosa festa íntima.

O Sr. Eduardo de Mendonça Torres, agradecendo a subida honra que lhe dera o Sr. General Óscar Carmona visitando a Fazenda, disse: (vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330)


Por sua vez o Presidente da República erguendo-se, afirmou os seus melhores agradecimentos pelas atenções de que fora alvo, e referindo-se ao que na propriedade acabava de ver, disse todo o seu contentamento de português. Depois condecorou o Sr. Eduardo Mendonça Torres com  a Ordem de Mérito Agrícola.


Nota da visita feita pelos jornalistas à fazenda:

«Os terrenos, como todos os do vale daquele rio, são férteis, mas ali encontra-se a inteligência e  mão do homem a orientar e  trabalhar. A visita deixa uma magnifica impressão, pois ali mostram-se em interessante companhia as árvores de frutos tropicais e as que se dão na metrópole. Os talhões de cultura, de alinhamento impecável estão todos aproveitados. A água, que um grande engenho a vapor tira do sub-solo corre, abundante, pelas valas. As ruas, limitadas por filas de árvores de alto porte, são enormes, rectilíneas, circulando à vontade, por entre elas, os automóveis. O jardim, bem tratado, com lindas flores; as dependências, os estábulos de gado de raça, tudo, enfim, que constitui os elementos de uma fazenda agrícola, ali se encontra bem delineado, bem tratado, numa amplitude e num conjunto que prende e encanta.»
 
Às 16 horas efectuaram-se na sala de recepção do Palácio do Governo os cumprimentos o Sr. Presidente da República. Além das autoridades civis  militares e funcionários superiores , haviam acorrido corporações, colectividades económicas, imprensa, e os colonos do distrito de Moçâmedes, estando a recepção imensamente concorrida. Afavelmente, o Sr. General Carmona recebeu cumprimentos , tendo palavras amáveis para todos.  O mesmo aconteceu no dia seguinte, quando a população dos colonos e deputação com as autoridades e imprensa  da Huila foram levar o Chefe do Estado a expressão da sua respeitosa homenagem.  Todos o General Carmona encantou pela gentileza e simplicidades do trato.


O Sr. Presidente da Republica visitou as instalações do Sindicato da Pesca e as fábricas de conservas da Torre do Tombo, cujos operários o aclamavam com ardor.

Após as visitas às fábricas, o Sr. Presidente da Republica, sempre acompanhado pelos Srs. Ministro das Colónias, governador geral e governador da província, e vários membros da comitiva, deu um passeio de automóvel pela cidade.

À tarde e à noite, no coreto da Avenida da República, tocou a banda da 1ª  C. I.I.  O movimento no lindo jardim de Moçâmedes foi enorme.


Notas da reportagem.
São 19 horas. A cidade iluminada e bela. Os edifícios públicos e a Fortaleza de S. Fernando estão iluminado a electricidade. Vêem-se balões a correr pelas ruas.   Encosta sobre o palácio está cheia de luz. O jardim público regorgita de gente. No Clube Nautico e em outras casas dança-se desde as cinco horas da tarte. O entusiasmo é geral e indescritível. Mossãmedes está a dar, com o Lubango, cuja população na maior parte está aqui, um nota de portuguesismo inexcedível.

9 de Agosto.


A nota cativante deste dia, foi a  festa infantil que teve por quadro o Jardim Público, à beira mar, oferecida pelo Sr. Presidente da Republica e sua ilustre esposa, sra. D. Maria do Carmo de Fragoso Carmona.

Principiou a festa por um desfile de milhares de crianças de Moçâmedes, Lubango e Huila , - e uma explêndida demonstração do poder de adaptação da nossa gente.  Todos aqueles pequeninos eram filhos e até netos de colonos. Lindíssimo espectáculo que arrancou por vezes ardentes palmas à assistência, principalmente ao ser entoado por aquele Portugal de miúdos o hino nacional. Centenas de senhoras presenciaram a festa, tendo algumas delas auxiliado a esposa do Chefe do Estado n distribuição de brinquedos, que dela fez parte.

Depois, o público pequenino sentou-se, em alacre algazarra, às mesas, sobre as quais havia guloseimas em abundância, a encantar os olhos, a alvoraçar o apetite. Terminada a refeição, espalhou-se a pequenada pelo jardim,  brincar, até quase ao fim da tarde.
Eis como um jornalista angolano descreve a festa:


Antes de retirar, o Chefe do Estado percorreu , de automóvel as ruas, tendo sido, durante o percurso, sempre, delirantemente aclamado.À noite, no Palácio, realizou-se um jantar de gala.

Pormenoriza do aspecto da sala, o aspecto local:


«Profusão de luzes, de flores e de cristais. Notas de distinção e de elegância. A refulgência dos ouros das fardas e a severidade do negro das casacas contrastavam com as cores variadas dos vestidos das senhoras, de grande elegância,sôbre os quais as jóias punham cintilantes fulgurantes».

Abriu a série de brindes, o Sr. capitão Manuel de Abreu Ferreira de Carvalho, governador da província, que disse:
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg. 335 a 339)

Falou depois o sr Eduardo de Mendonça Torres pelos colonos do planalto:
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg . 339 a 343

Pouco depois pediu vénia para brindar o representante dos colonos da Huíla, sr. João Ricardo Rodrigues, que se expressou nos seguintes termos:
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg. 343 a 346 )

Encerrou a série de brindes, o Dr. Carlos Baptista Carneiro,  pelos orbanismos económicos da Huíla
:(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg. )

Por último o Sr. Presidente da República pronunciou breves palavras de profundo reconhecimento pelas atenções que lhe têm sido dispensadas e mostrando quão grata tem sido para o seu coração de lusíada esta viagem que o trouxe a terras tão portuguesas, onde todos se congregam para dignificar o nome de Portugal.

10 de Agosto

Às 16 horas, realizou-se uma parada militar, a que assistiram, numa tribuna, levantada na Avenida, o Sr. Presidente da República, o Sr. Ministro das Colónias, o sr. Governador Geral, casas civil e militar do Chefe do Estado, e outras altas entidades.

Ao lado da tribuna formava uma força da marinha do aviso «República». Brilhantíssima de impecável garbo a marcha das forças militares. À passagem das unidades, o publico irrompia em aplausos. Ao desfile das duas companhias de Infantaria Indígena, seguiu-se os das deputações indígenas de toda a província. Cada soba vestia farda de pano branco, de alamares verde e encarnados, trazendo na cabeça bonés de pala. Na Avenida comprimia-se o povo curioso do bizarro espectáculo desse desfile. Iniciaram-no os escoteiros.


Vinha depois o grupo dos quarenta cavaleiros cuanhamas que passaram em frente da tribuna, no belo arranque de um galope, a saudarem, agitando no ar os chapéus emplumados, soltando ao mesmo tempo entusiástica gritaria.



A seguir, numerosas tribus, cada uma formada por numerosos indígenas, indo à frente a rainha Galinaxo do Cuanhama, com seu trajo de gala e grande séquito de damas, uma das quais, a seu lado, ostentava alto a bandeira portuguesa.


«No local onde estamos, - descreve o representante da Província de Angola, - vê-se a Avenida extensa que é um mar de pretos e de tribus, todos com bandeirinhas nacionais que agitam no ar, produzindo um lindíssimo efeito e comunicando o seu entusisasmo à multidão que irrompe em «vivas» prolongados.


Todas as tribus indígenas, levavam, ao lado, os respectivos sobas e régulos, bem como a bandeira nacional. Sempre que passavam em frente da tribuna presidencial, para saudar o Chefe do Estado, - soltando gritos de entusiasmo, a seu modo, como homenagem do máximo respeito e veneração a Sua Exª - , ouviram-se também , entre os gritos, muitos «vivas» a Portugal e de simpatia pela Nação. Cada tribu apresentou os seus batuques ao som dos quais os guerreiros e dançarinos negros rodopiavam e faziam cabriolas, oderecendo assim um espectáculo inédito, de cor local interessantíssina. Toda a gente o admirou, incluindo aqueles que vivem em Angola.O desfile prolongou-se por longo tempo. Muito curioso o facto de se terem apresentado na parada, indumentárias indígenas das mais variadas, tanto em homens como em mulheres, segundo as regiões. As mães conduziam à mão ou às costas os filhos, visto que associavam a família a estas manifestações.»


Assim foram passando cuanhamas, cuamatos, cacondas, ngivas, naulilas, evales, namacundes, quipungos, quilengues, muílas, muhembes, - as raças bravias do Sul de Angola …

Terminado o desfile a rainha Galinacho (*), com o seu séquito e as mulheres dos principais sobas, dirigiram-se à tribuna a cumprimentar o Chefe do Estado , que comunicou por meio de um intérprete, e ofereceu à soberana preta cortes de seda, além de outros valiosos presentes,entregando aos chefes medalhas comemorativas da sua visita a Angola.

Grande alegria produziu a gentileza do Sr. Presidente da República, que foi aclamado pelos negros, assim como o nome de Portugal. O Sr. General Carmona retirou-se em seguida para o Palácio, sempre muito ovacionado pela multidão, que também aclamou os Srs. Ministro das Colónias, Governador Geral e Governador da Província. 

À noite, os edifícios e a fortaleza iluminavam novamente, assim como muitas casas particulares. A Câmara Municipal ofereceu um baile que decorreu com o maior brilho. Moçâmedes apresentava o aspecto de uma animação de que não se guardava memória.


Às 6 horas da manhã, do Palácio do Governo, largou uma extensa fila de automóveis.

Ia-se ao deserto de Mossãmedes a caçar. Diversão interessantíssima em honra do Sr. General Carmona. No Pico do Azevedo foi servido o pequeno almoço. Depois repartiram-se em três grupos de caçadores, cada qual com o seu sentido, tomando o do Sr. Ministro das Colónias, a direcção do local onde faleceu o Dr. Luiz Carriço, - Os morros Paralelos – onde foi prestada homenagem à memória do ilustre professor e naturalista.


«O deserto apresenta aspectos vários e diferentes. Encontra-se areia endurecida sobre a qual os carros deslizam velozes; e noutros pontos pedras soltas. No fundo vêem-se morros altos que o circundam, e árvores de pequeno porte que vivem numa espécie de leito de rios que aqui se chamam danibas e são locais geralmente frequentados por caça de toda a espécie».


A primeira peça abatida foi uma gazela com um tiro da carabina do Sr. Dr. Francisco Vieira Machado, que por esse motivo recebeu muitas felicitações. Encontrou o grupo Leste chefiado pelo velho caçador João Teixeira e Raimundo Serrão , várias manadas de cabras das quais foram abatidas algumas.

Cerca das 11 horas encontrava-se outra de guelengues, - grandes antiólopes- de que, na perseguição, tombaram três exemplares.
O primeiro caiu com uma bala do Sr. António Eça de Queiroz, que também derrubou um famoso e célebre avestruz. Correm lebres. Fora do alcance do tiro, precipitam-se na fuga manadas de zebras. Os operadores cinematográficos não descansam. Os carros rodam a toda a velocidade, em todos os sentidos, e às 13 horas voltam ao Pico do Azevedo, para o almoço.



que conduzia o Sr. General Carmona, e sus esposa, que haviam saído de Mossãmedes às 11 e meia. O automóvel encontrou uma gazela que o Sr. Presidente encontrara no trajecto, matando-a com um tiro certeiro no coração, dado a mais de 50 metros e com o automóvel em movimento, o que foi aplaudido por todos os presentes.

O almoço decorreu com a maior alegria e à-vontade. Conversando com familiaridade, o Sr. General Carmona inquiria de todos acerca dos princípios da caçada. A um brinde do Sr. Eduardo Torres, felicitando-o pelo belo tiro certeiro, o Sr. General Carmona respondeu espirituosamente, dizendo que para não envergonhar os caçadores saira mais tarde, mas uma gazela, teimosamente, viera postar-se na trajectória da bala, sacrificando-se à sua glória de caçador. A assistência levantou três calorosos «vivas», ao Sr. Presidente da República.

Balanço da caçada: 8 cabras, 6 guelengues. 1 avestruz e uma «tua» abatida por um tiro do sr. dr. José Saldanha, secretário do Sr. Ministro das Colónias. Foi então digna de ver-se a competição dos carros, como numa grande corrida em enorme pista, todos procurando atingir primeiro o carro do Sr. Presidente da República, ao qual formaram por fim um grande séquito até perto da cidade. O Sr. Presidente da República, com um tiro certeiro, abatera outra gazela.Um magnífico fecho da caçada , - escreveram os jornalistas:

À entrada da cidade, próximo do seu acampamento, encontravam-se os cavaleiros cuanhamas, que, compondo alas, aguardam o automóvel presidencial, acompanhando-o depois, no meio de ruidosas aclamações. Todos os outros indígenas dançaram à passagem, dando «vivas» e saudando calorosamente o Chefe do Estado, que, descendo do automóvel com a sua esposa, se acercou das pretas, risonho, afável.

A Senhora de Fragoso Carmona, o Sr. Ministro das Colónias, visitaram, antes de deixarem Mossãmedes, os acampamentos indígenas, onde as mulheres lhes ofereceram pulseiras, retribuindo generosamente as ilustres senhoras, o que às presenteadas causou grande alegria. 

Apesar do Sr. Presidente da República se ter ausentado para o deserto, na cidade continuaram sempre no meio do maior interesse e entusiasmo, as festas em sua honra. Assim, à tarde, realizaram-se na Avenida Marginal várias diversões que estiveram muito concorridas, vendo-se em grande número, crianças que vestiam trajos regionais portugueses.    

                                 

À noite percorreu a cidade, que continuou a iluminar, uma deslumbrante marcha «aux flambeaux», que, dirigindo-se ao Palácio do Governo, ali saudou o Chefe do Estado, principalmente quando sua excelência apareceu na varanda a agradecer. O Sr. Ministro das Colónias, que se encontrava ao lado do Sr. Presidente da República, foi também na ocasião vivamente aclamado. O embarque do Sr. Presidente da República para o Lobito estava marcado para as dez horas. Já muito antes daquela hora na ponte-cais e nas proximidades comprimia-se a concorrência. Estava triste o dia, sem sol. Não se tratava duma despedida, depois de dois dias de grande alegria, duma animação como nunca a cidade ali conhecera. Estão as Escolas, - alunos, mestres e estandartes em duas filas; os estudantes do liceu da Huila, os rapazes da Escola de Pesca; o elemento oficial, figuras notáveis da colónia; a guarda de honra; duas companhias de Infantaria Indígena. A multidão é cada vez mais densa. A mocidade escolar solta diversos «vivas» patrióticos: a Portugal, ao Chefe do Estado, a Salazar, ao Ministro das Colónias…



11 horas e meia.
Morteiros estalando no ar anunciam a saída do Senhor Presidente da República do Palácio do Governo. Ao chegar junto das crianças das escolas, o Sr. General Carmona, saindo do automóvel, passou a pé entre elas, que «vivaram» com calor.O Sr. General Carmona afaga-as e despede-se dos professores. Tornando ao automóvel que o vai levar ao ponto do embarque, pelo caminho fora as aclamações não cessam. Um toque de sentido. Os soldados perfilam-se. É o Sr. Presidente que chega. Às vozes do comando os soldados apresentam armas. Segue-se a cerimónia da revista à guarda de honra, finda a qual o Chefe do Estado se despede dos oficiais. A multidão aclama sempre. A emoção da despedida a todos toma. E é no meio de uma multidão compacta, carinhosa, que expande a sua saudade, que o Sr. Presidente da República se dirige para a ponte, onde muitas senhoras compareceram, também para apresentar as suas despedidas às esposas dos Srs. General Carmona e Dr. Vieira Machado.



O Sr. Presidenta da República aperta a mão aos vereadores de Mossãmedes, aos magistrados, aos representantes de associações e organismos e funcionalismo.Depois, num gesto gentilíssimo, a todas as senhoras presentes agradecendo assim o carinho com que o receberam e a sua esposa. Acompanhado pelos Srs. Ministro das Colónias, governador geral e governador da província, embarca em seguida no «gasolina» qie iça imediatamente o pavilhão presidencial. O «República» salva. Dos barcos ancorados soltam-se também saudações: 


Recebidos a bordo, o Sr. Presidente da República, o Sr Ministro das Colónias, e pessoas da sua comitiva, logo o Angola levantava ferro e começava a afastar-se...



Citando Carmona, o título não podia ser mais expressivo: "Agradeço hoje à Providência o ter-me guardado para esta jornada maravilhosa".Estes são os tempos do império e da redefinição do orgulho nacional, época do Acto Colonial - pedra angular da primeira época do Estado Novo e da sua visão de Portugal no mundo - e de uma "Pátria em tamanho natural, duma Pátria em que se confundem todas as raças e todos os séculos", lia-se no editorial desse dia.

Enquanto o Estado Novo reforçava a sua imagem interna e externa, as páginas do DN registam o acumular de sinais que vão culminar no ataque alemão à Polónia no 1 de Setembro do ano seguinte. Sob o título "Hitler fez ontem uma visita de inspecção às fortificações da Renânia", lia-se que "são desfavoráveis as perspectivas de acordo entre checos e sudetas". Ao lado, registavam-se ainda as "manobras navais" da esquadra portuguesa, que fundeara no dia anterior na baía do Funchal.Estes eram os tempos em que o DN inscrevia na primeira página «Visado pela Censura».


(1) Com a revisão da Constituição de 1933 em 1951, o Acto Colonial é revogado, e as «colónias» passam a designar-se, de novo, «províncias ultramarinas», a única designação que traduzia a concepção de indivisibilidade e integridade do território nacional. A partir dessa década é financiada a construção de infraestruturas, principalmente as relacionadas com o comércio regional, como os caminhos de ferro e a fixação de colonos. Os cidadãos mais pobres da Metrópole são incentivados  a emigrar para as colónias  de África, onde, pelo trabalho árduo e dedicação decerto iriam encontrar condições de vida ... enquanto paralelamente, através de congressos, conferências e exposições, era incutinda  a mística imperial, como se o Império fosse a razão da existência histórica de Portugal.

(2) Em 1914, Portugal não  conseguiu manter-se  neutral, após a declaração de guerra à França pela Alemanha, dada a sua posição estratégica no Atlântico, a forte influência que a Inglaterra exercia como velha aliada e  a  necessidade de defesa dos territórios de Angola e Moçambique que faziam fronteira com as colónias alemãs.  Na madrugada do dia 25 de Agosto de 1914, pouco depois de definida a posição de Portugal perante o conflito europeu,  o  pasto de Maziúa, na província de Moçambique e Naulila e Cuangar, no Sul de Angola foram atacados de surpresa por forças alemães,  obrigando ao envio de duas expedições militares ao Sul de Angola, comandadas, a primeira,  por  Alves Roçadas e a  segunda, por Pereira d‘Eça. Em Moçambique, os conflitos com as forças Alemãs  só terminaram com o Armistício em 1918. Portugal havia decidido participar nas trincheiras da Flandres. Em Fevereiro de 1942, os japoneses, os aliados da Alemanha invadem Timor e fazem dezenas de milhares de mortos. Derrotado o Japão pelas forças aliadas, em Setembro de 1945, é reposta a administração portuguesa.
FIM DE REPORTAGEM

             
 
Pesquisa e compilação de textos: MariaNJardim





FONTE 
Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162 de 1938. Os discursos foram propositadamente omitidos porque tornariam o texto demasiado extenso.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

O KANE-WIA, quem subir não volta!! O Dr Luis Carrisso




Sobre o KANE-WIA, o mítico morro do Namibe, transcrevo o texto que segue:
«No interior da província do Namibe, em Angola existe, próximo do Virei, um morro conhecido pelo nome de Kane-Wia, termo que, em idioma Tchierero (língua dos Mucubais) significa “quem o subir não volta” ou "quem sobe não volta". Contava-me o meu avô (João Craveiro de Tombwa) que nunca ninguém ousou subir este morro porque as histórias contadas pelos Mucubais referiam que quem subisse este acidente geográfico não mais regressaria. Portanto, O Kane-Wia vivia sossegado e inexplorado, uma espécie de montanha sagrada onde Deus dorme e, por esse motivo, interdita ao comum dos mortais. Em 1937, um eminente biólogo da Universidade de Coimbra, Dr. Luís Wittnich Carrisso, veio até ao Namibe para estudar a flora local e como homem racional e de ciência que era resolveu contrariar a crença subindo o Kane-Wia. Seja por mera coincidência ou por outra estranha razão o grande cientista português, embora socorrido pelo seu companheiro, veio a sucumbir em pleno deserto, a cerca de 80 km da cidade de Moçâmedes (actual Namibe). Nesse mesmo local foi, posteriormente, erguida uma lápide com a seguinte inscrição: “Dr. L. W. Carrisso XIV-VI-MCMXXXVII”. Namibiano Ferreira

Namibiano Ferreira.....................
»

Para saber mais, clicar AQUI
e AQUI
 Monumento no Deserto do Namibe ao Dr. Carrrisso
 Welwitschia Mirabilis