Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Ruas e prédios da baixa da cidade...













































1ª foto: Rua das Hortas, podendo ver-se, à dt. a firma Robert Hudson, Lda.

2ª foto: Rua das Hortas. À dt., a loja Graça Mira e Jacinto

3ª foto: Rua dos Pescadores, zona do Hotel Moçâmedes (à esq.).

4ª foto: Avenida da Praia do Bonfim

domingo, 26 de outubro de 2008

Alguns documentos Documentos -de Conhecimento de Embarque de 1899.



Sobre exportações de Moçâmedes e Porto Alexandre, encontrei estes documentos muito antigos, que resolvi por curiosidade colcar aqui:

Documentos - Conhecimento de Embarque de 1899.

Conhecimento de embarque de mercadorias no vapor Ambaca, ancorado no porto de Moçâmedes, com destino a São Tomé. Documento datado de 6 de Abril de 1899. A carga despachada por

para Joaquim Seixas constava de 40 malas com peixe.
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Os 23 conhecimentos de embarque da Empresa Nacional de Navegação consultados, referentes ao período entre 1885 e 1905, incluem 12 documentos de exportação de Angola para S. Tomé – 1 de Porto Alexandre [Tombua], 6 de Moçâmedes [Namibe], 1 de Benguela e 4 de Novo Redondo [Sumbe].

As exportações de Angola eram constituídas pelo seguinte – de Porto Alexandre, peixe seco; de Moçâmedes, bois, peixe (sem indicação de qualquer tratamento) e peixe seco; de Benguela, carne, fubá e tabaco; e de Novo Redondo, aguardente, feijão, fubá e mantimentos não especificados.
As exportações de Porto Alexandre foram efectuadas pela Companhia de Moçâmedes; as de Moçâmedes por Manuel José Alves Bastos, posteriormente (pelo menos a partir de 1897), pela Viúva Bastos & Filhos, e por Torres & Irmão; as de Benguela por Francisco José Freitas; e as de Novo Redondo por Alexandre da Costa, Guimarães & Irmão, e Ferreira Marques e Fonseca.

Em S. Tomé, os destinatários da mercadoria eram C. Palanque (peixe seco de Moçâmedes), Mateus de Bono Paula, administrador da Roça Monte Café (peixe seco de Porto Alexandre e peixe de Moçâmedes), Ricardo Spengler, e Joaquim Seixas (peixe de Moçâmedes).

Até 10 de Julho de 1888, o imposto de selo pago na alfândega de S. Tomé, para produtos vindos de Angola, era de 60 reis, estando documentado um aumento para 80 reis a partir de 16 de Janeiro de1892.

Documentos - Conhecimento de Embarque de 1900

Conhecimento de embarque de mercadorias no vapor Cabo Verde, ancorado no porto de Moçâmedes, com destino a São Tomé. Documento datado de 10 de Maio de 1900.

A carga despachada por Torres & Irmão para Matheus de Bono Paula, administrador da Roça Monte Café, constava de 30 malas com 60 arrobas de peixe comum.

In blogdaruanove

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Fábrica Africana : Companhia do Sul de Angola (posteriormente Sociedade Oceânica do Sul "SOS")





Trata-se da primeira fábrica de conservas iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 , a Fábrica Africana de Figueiredo (1)e Almeida, Lda. Repare-se, em cima, à esq, nas casas existemtes na altura na Avenida Felner, já a entrar pela Torre do Tombo, algumas das quais ainda lá estão.



Outra perspectiva da Fábrica Africana que nos permite ver os carris de ferro que ligavam a ponte ao interior da mesma. Era através de que se deslocavam sobre estes carris, que o peixe, entrando em linha recta para Fábrica. era descarregado para em seguida ser escalado e cozido em grandes caldeirões. A fase seguinte era a do enlatamento e por fim o engradamento,. No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por pessoal africano como  podemos ver.



Foto: Homens de chapéu e de gravata à porta da entrada da Fábrica Aficana (proprietários e empregados a aguardam a visita de alguma entidade?) Sabe-se que esta Fábrica recebeu em 1932 a visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro. Será que esta foto é dessa altura?


Aqui também se secava peixe em giraus ou tarimbas...

A escalagem era uma das primeiras operações...
 
A seguir vinha a fase da cozedura...



As caldeiras para cozedura e o peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração



O peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração
O enlatamento e as enlatadeiras

O encaixotamento


 

 

As duas fotos imediatamente acima, foram retiradas do portal Memória Africa,  Boletim Geral das Colónias  (Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola) Portugal. Agência Geral das Colónias, N.88 - vol VIII. 1932, pg 407, retirei estas fotos da visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932, já no quadro do Estado Novo (Salazar), a esta fábrica. 

Através da leitura do mesmo Boletim das Colónias, N.88 - vol VIII. 1932, pg 407 , na parte que interessa, ficámos a saber que esta fábrica, em 1932, se denominava "Fábrica Africana", e que o sector de legumes e conservas de frutos se encontrava ainda fase de apetrechamento, restando empenhado neste projecto o Dr. Torres Garcia, administrador da "Companhia de Mossâmedes".  

Nesse dia, a visita do Ministro das Colónias, segundo aquele Boletim, visitou outra empresa fabril de conservas de peixe, propriedade de Manuel Costa Santos, mas não refere o local em que a mesma se encontrava instalada. (2)

Sabe-se que, instalada em edifício propositadamente construido para esse fim,  esta fábrica encontrava-se dividida em dois corpos, um dos quais comunicava directamente para a praia, e foi destinada de início a enlatados de legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), a carne de vaca ou de porco, de peixe em salmouras e escabeche, ou mesmo a algumas semi-conservas de charcutaria, conforme consta do apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes.

Como se pode ver pela duas fotos acima,  no topo das janelas da Fábrica Africana  encontrava-se escrito os produtos enlatados que ali se produziam: conservas de carnes salgadas, conservas em azeite (de atum, sarrajão, cavala, merma), conservas de fruta, conservas de escabeche, peixe fumado, etc., bem como símbolo da Fábrica, uma águia.

Há indicações que na década de 1920 e 1930 exportava-se para o mercado italiano e para os Congos Belga e Francês e o Gabão produtos de alta qualidade que rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos, o que levou ao surgimento de novas conserveiras.


Transcrevemos a seguir um passagem de um apontamento histórico de Antonio Martins Mendes da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes (3), subordinada ao tema «Pescas em Portugal - Ultramar- onde o autor nos relata algumas passagens de um importante relatório do Carlos Carneiro, veterinário em Moçâmedes nas décadas de 1920, e 1930 do século passado:
 
... Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu primeiro relatório de serviço (Carneiro, 1931). Nesse trabalho começa por evocar o ano de 1921 (...)  No seu importante trabalho o Dr. Carlos Carneiro aborda o estado da Industria de Conservas. Ficamos a saber que a construção da primeira fabrica fora iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 e estava destinada aos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Preparavam também óleos de pescado que, depois de várias análises e melhoramento da técnica de fabrico, tinham colocação fácil nos mercados britânicos. A fábrica obedecia às exigências da época mas a I Grande-Guerra iria causar grandes dificuldades. A chaparia para o fabrico das embalagens, que era importada e litografada em Lisboa, faltou e a fábrica foi obrigada a fechar. A indústria viria a reanimar-se a partir de 1923, preparando conservas de atum, sarrajão, cavala, mermo, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, mas exportava-se também para os Congos- Belga e Francês e o Gabão. Os produtos exportados eram de alta qualidade e rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos. Por isso fundaram-se outras conserveiras. 



Encontram-se também referências desta Fábrica como sendo propriedade da "Companhia do Sul de Angola", tendo Josino da Costa como arrendatário, e tendo como gerente Olimpio Aquino.

Nos anos 1950 esta Fábrica era designada "Sociedade Oceânica do Sul" (S.O.S), e  há uma referência no livro de Paulo Salvador "Era uma vez...Angola " a um indivíduo de nome Santana como tendo sido proprietário da referida Fábrica (?).

 
A Fábrica possuia uma frota pesqueira que tratava das capturas para a laboração, quer para o sector conserveiro, quer para o sector de salga e seca, e farinação. Para a produção das conservas de peixe iam especiamente os tunídeos: atum, albacora, sarrajão, etc. Para a salga e seca iam essenciamente os peixes de escama, tais como corvina, taco-taco, tico-tico, merma, cachucho, carapau, etc. Para farinação iam as tainhas, sardinha, cavala, carapau, etc. As tainhas pelo seu alto teor de gordura possibilitavam umalto rendimento na produção de óleo de peixe.

O peixe era transportado para o interior da fábrica através de «vagonetas» sobre linha férrea, que ali faziam a sua entrada, em linha recta, onde era descarregado para ser escalado  e cozido em grandes caldeiras. Em seguida vinha a fase do enlatamento, e por fim o encaixotamento. 

No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por pessoal africano feminino como aqui podemos ver (enlatadeiras).

Sabemos que na década de 60, e após um período aureo de grande produção como "Sociedade Oceânica do Sul"(SOS), esta fábrica deixou pura e simplesmente de produzir e foi vendida à empresa "Produtos de Angola Lda" (PRODUANG) cujos sócios eram Gaspar Gonçalo Madeira e seu filho, Ildeberto Serra Madeira, acabando por se transformar num entreposto para exportação de peixe congelado para Moçambique. Esta situação mantinha-se em 1975, quando da independência de Angola. Gaspar Gonçalo Madeira regressou a Portugal, mas seu filho, Ildeberto Serra Madeira mantém-se na cidade do Namibe.
 
Esta fábrica foi testemunho de uma época na história na cidade do Namibe, e hoje em dia corre o risco de desaparecer.  Esperemos que tal não aconteça e que as autoridades de hoje e de amanhã saibam preservá-la, enquanto representativa desta fase e da principal indústria da região de Moçâmedes.

Pesquisa e texto de MNJardim



(1) Poderemos encontrar referencias à Figueiredo & Almeida limitada  que possuia em Mossâmedes, em tempos mais recuados,  uma casa filial que negociava peixe com algarvios em troca géneros europeus: AQUI 

(2) O texto não refere, mas temos conhecimento que a poente da Fábrica Africana, chegou a laborar uma fábrica  ligada à industria piscatória, pertencente a Costa & Pestana. Durante muito tempo podiamos ver alí, junto do início da falésia da Torre do Tombo, o cano do escoamento de fumos

(3) E ainda  em Industria de Pesca e seus deriivados do Distrito de Mossâmedes, 1921-22, rMemórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão

Notas à margem do texto: No livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão encontrei o nome do 1º colono  que  instalou numa fazenda na margem dt. do rio Bero, de nome Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da " Companhia de Moçâmedes", proprietária da referida fazenda. Não sei se tem alguma relação com o 1º proprietário da Fábrica Africana. 


Créditos de Imagem:
Fotos de ICCT  (7)
foto livro de P. Salvador (1).


Alguma bibliografia consultada:

 Boletim Geral das Colónias  (Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola) Portugal. Agência Geral das Colónias, N.88 - vol VIII. 1932, pg 407
"Apontamento histórico" de Antonio Martins Mendes,  Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa
Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão 
"Portugal em Africa: revista scientifica", Volume 5 1898


Ver também

WELWITSCHIA MIRABILIS


WELWITSCHIA MIRABILIS

Moçâmedes é a terra de nascimento da minha mãe e da minha avó e avô maternos e, foi lá que aportou a minha bisavó materna quando ainda tinha poucos anos de vida, depois de uma longa viagem com início na ilha da Madeira.

E é precisamente no deserto de Moçâmedes que se encontram os ÚNICOS exemplares da espécie da flora deste nosso planeta - a WELWITSCHIA MIRABILIS - que eu enquanto residi em Angola tive a oportunidade e a felicidade de a ver e apreciar

A 3 de Setembro comemora-se o dia da Welwitschia Mirabilis, planta desértica, descoberta nesta data no ano de 1859 pelo botânico explorador austríaco Frederich A. Welwitsch
Frederic Welwitsch (1809-1878) foi para Lisboa em 1839.
Posteriormente conseguiu autorização para entrar em Angola, para onde embarcou
a 8 de Agosto de 1853.
Fez demoradas explorações botânicas e descobriu a Welwitschia Mirabilis no deserto de Moçâmedes (actualmente com o nome de Deserto do Namibe).

A planta que recebeu o binome de Welwitschia Mirabilis Hook. F. era tão diferente, morfologicamente de todas as espécies botânicas conhecidas, que dada a grandeza dessa diferenças, não “cabia” em nenhum dos géneros já descritos.
Houve, por isso, a necessidade de criar um género novo, o qual ainda se conserva, como uma única espécie consequentemente.
Houve ainda que definir uma nova família de plantas para este único género, a família das WELWITSCHIACEAE.
WELWITSCHIA , é também conhecida por "Tumbo", pelos autóctones, nativos da região do deserto de Moçâmedes.


As suas flores são unisexuadas.
Os estames masculinos atingem aproximadamente 6 cm (antenas com 3 divisões) localizam o óvulo estéril envolto pelo periano.



Welwitschia é uma planta da família das gimnospérmicas adaptada á vida nas regiões desérticas da África tropical.
É uma planta acaule de grandes dimensões, com a forma de um gigantesco cogumelo dilatado e côncavo de 50 a 75 cm de altura que parece partida pelo golpe de um machado em tiras. As suas grandes folhas, duras e muito largas, deitadas no chão, arrastam-se pelo deserto podendo atingir dois ou mais metros de comprimento.
Diversos trabalhos mundiais sobre a Welwitschia encontram-se em exposição em vários
Jardins botânicos espalhados pelo mundo.

Que se encontram descritos no livro Botanical Gardens of the World

Entre outras pessoas que deram igualmente o seu contributo na pesquisa desta espécie no período de 1953 a 1955, podemos destacar os seguintes Professores:
A.H. Church,
E. Salisbury,
Henri Humbert,
Jose Dalton Hooker,
Luís Wittnich Carrisso,
Melo Geraldes,
R. J. Rodin,
W.J.Hooker
Mais recentemente, Maria Helena Boavida
Coisas que já se disseram acerca da "welwitschia mirabilis":

"A "welwitschia mirabilis", descoberta nas vizinhanças do Cabo Negro, da costa odicental africana, é a mais curiosa das gnetaceas e talvez que de todas as dicotiledoneas. Este bizarro vegetal é conhecido entre os indígenas pelo nome de TUMBO."
(Dr. José Dalton Hoecker, Presidente da Socidade Real de Londres e sócio da Academia das Ciências de Paris)
"Uma das curiosidades do deserto de Moçâmedes é a célebre "welwitschia mirabilis", planta estranha, verdadeiro aborto do reino vegetal. O caracteres aberrantes do seu aparelho vegetativo, conferem-lhe um lugar de destaque no conjunto das formas vegetais."
(Dr. Luís Wittnich Carrisso, Professor de Botânica da Universidade de Coimbra.)
"A "welwitschia mirabilis" é uma das maiores maravilhas que tem produzido a natureza."
(Dr. Augusto Henriques Rodolfo Griesbach, Professor de Botânica da Universidade de Göttingen)
"É sem sombra de dúvida a planta mais maravilhosa e também a mais feia que jamais trouxeram a este país."
(Regius Keeper, do Royal Botanic Gardens, Kew - 1863)
"Foi nos anos de 1858/59 que o botânico austríaco Dr. Welwitsch, contratado pelo governo português, descobriu e classificou a "welwitschia mirabilis", dando-lhe o nome de "tumboa bainesii". Os caracteres desta notável planta são de tal modo desconsertantes, que vindo a ser estudada há perto de 80 anos pelos mais eminentes botânicos, ainda hoje se discute qual o lugar que lhe compete na escala botânica, como se pode ler nos autores citados e nos trabalhos de Baines, Anferson, Júlio Henriques, Hallier, Chodal, etc..
A "welwitschia mirabilis" por consenso geral é tida como a maior descoberta botânica do século XIX e, em todo o globo, é o distrito de Moçâmedes o único lugar em que ela vegeta, havendo centenas de milhares na parte desértica, desde os minúsculos exemplares, até aquelas que, pelo seu porte, demonstram uma existência multissecular."
(M.A. de Pimentel Teixeira)
Consultar ainda:

in PSITACIDEO........
Mais sobre o assunto:
explorador zoologico Francisco Newton in
http://www.triplov.com/newton/welwits.html

Banha de Andrade O Naturalista José de Anchieta
http://hybris.no.sapo.pt/newton/welwits.html



....



Além de Welwitsch, quem visitou a Welwitschia, porque a sua missão incluía o deserto de Moçâmedes e saber se o curso do Coroca tinha ligação com o Cunene, foram Capelo e Ivens, como eles próprios contam em De Angola à Contracosta. 

As missões em África tinham muitos opositores. A ala liberal nunca foi colonialista, apoiava as independências. Capelo e Ivens iniciam a travessia de África de 1884 por Moçâmedes, seguem pela Huíla, descem o rio Caculovar até ao Humbe e prosseguem até Quiteve pela margem direita do Cunene.  Decifram o enigma dos morros de ferro magnético ( o Tongotongo é um morro, no Hai - Huíla).  Onde abbundava o sesquióxido de ferro magnético, encontrando-se grandes massas de magnetite, que produzem sobre a agulha os mais extraordinários desvios. O morro era conhecido também pelo nome de morro Sagrado, onde os indígenas da localidade celebravam anualmente uma festa. Os locais por onde Júlio Henriques faz passar Newton - Chimpumpunhime, Xicussi, etc., são estações do roteiro de Capelo e Ivens.

Antes deles e de Welwitsch, o pioneiro da exploração de Moçâmedes, Huíla, Bumbo, Cunene, Giraul, Cubal, etc., foi Gregório Mendes, no final do século XVIII. Quanto ao enigma da foz do Cunene, invisível por no tempo seco as águas se infiltrarem nas areias e nem chegarem ao mar, só em 1854 Fernando Leal a descobriu.

O Lubango foi um dos locais de colheita de Newton em situação de ubiquidade (errática).No dua 31 de Dezembro de 1881. Frank Newton, na Secretaria do Governo de Moçâmedes, tratava de qualquer documento, pelo que pagou $185 de emolumentos (Boletim Official de Angola). Se Newton andou pela Huíla, conheceu Duparquet, até porque os exploradores se alojavam nos fortes, nas roças ou nas missões. Mas conheceu-o depois de 1883. Porém, como Duparquet morreu no ano seguinte, e Newton, em 1883, não saiu do Giraul, de Monhino nem de Bibala, em Moçâmedes, só o pode ter conhecido  através da  literatura.






 

sábado, 4 de outubro de 2008

Manuel Abreu (o Mata-porcos), exibindo um troféu de caça, uma leoa abatida no Deserto do Namibe - 1922



Manuel Abreu, o Mata-Porcos


Anos 30. Noutros tempos dizia-se que leões rondavam vila de Moçâmedes... para quem não acredita, prova está aqui. Havia mesmo leões em zonas circunvizinhas. Manuel Abreu (filho), mais conhecido por «Mata-Porcos», no quintal da sua casa da Rua dos Pescadores, em Moçâmedes exibe a leõa que acabara de abater.


*

O porquê "MATA PORCOS"?

O patriarca remoto desta família, José de Abreu, avô de Manuel Abreu (filho) enquanto na Ilha da Madeira exercia a profissão de produtor de fumados e salsicharia, profissão que Manuel, seu neto, continuou a exercer em Moçâmedes, para onde a família se mudou, e onde era proprietário do «Bazar do Povo», loja que ficava situada numa esquina da Rua das Hortas com a Rua 4 de Agosto e onde vendia de tudo um pouco.

Mas Manuel de Abreu era também um exímio caçador dos animais do deserto de Moçâmedes. Aliás a sua faceta de caçador encontra-se intimamente ligada à sua actividade do comércio de carnes.

 

Naquele tempo não havia assistência profilática pecuária em Moçâmedes e muitas das rês dos bovinos abatidos para consumo da população não ofereciam garantias devido à contaminação que amiúde acontecia, uma vez que apresentavam a presença da «cisticercose». Para colmatar essa carência, Manuel de Abreu ia para o deserto caçar os animais selvagens, que ele próprio esquartejava e preparava, para pôr à venda no seu «Bazar do Povo», apetrechado do respectivo talho.



Aconteceu porém que em pouco tempo o gostinho pela caça acabou por se entranhar no espírito de Manuel de Abreu e do seu grupinho de amigos que passaram a frequentar o Deserto do Namibe, não já apenas para matar gazelas, olongos, guelengues, e outros animais, tendo em vista as carências alimentares da população, mas também, e sobretudo, pelo puro prazer de experimentar a pontaria e apresentar troféus de caça, situação que viria a afastar os animais da periferia da cidade para mais longe, para fugirem às perseguições de que eram alvo,  difícultando o transporte dos animais abatidos para a cidade.


Mas como o engenho humano não pára, eis que um dia Jacinto Gomes, outro emigrado da Ilha da Madeira a viver em Moçâmedes, ao regressar de umas férias na Metrópole, trouxe consigo um casal de cães galgos que passaram a ajudar, perseguindo e rodeando a caça, de modo a atrair os animais para mais próximo do alvo dos atiradores. Lamentavelmente não seria por muito tempo, porquanto subitamente estes galgos viriam a morrer não se sabe bem de quê. 


Foi quando o Engº Bernardo de Figueiredo, natural de Moçâmedes, no regresso da Alemanha trouxe consigo uma moto com «side-car», que este veiculo veio facilitar as caçadas, sempre necessárias, e para fazer o gosto ao dedo, o Engº convidava o «Mata-porcos» para o acompanhar e o ajudar posteriormente no esquartejamento dos animais. Outras vezes era Raúl de Sousa, mecânico por excelência, que o acompanhava nessas caçadas de «side-car» pelo Deserto do Namibe. 

 

E era assim que durante muito tempo a população de Moçâmedes se ia abastecendo de carne, para
além do bom peixe que no rico mar da terra sempre existia com fartura. Mas ainda não ficamos por aqui, pois com o decorrer do tempo surgiu em Moçâmedes o primeiro automóvel, um «Ford T» de 4 cilindros a gasolina que para ser posto a trabalhar necessitava de manivela. Estava-se em 1922. A partir daí tudo ficou mais facilitado em termos de distâncias, mas como o reverso da medalha nunca deixa de estar presente, é preciso que se diga que muitas e muitas barbaridades se fizeram com a matança de gazelas e de outros antílopes mais corpulentos, incluindo equideos.  Os abusos chegaram a tal ponto que, quando foi criada a Delegação dos Serviços Pecuários em Moçâmedes, alguns anos depois, o Dr. Carlos Carneiro teve que pôr aquela gente na ordem ao ter-se apercebido da situação, e acabou por probir as ditas caçadas até à publicação de regulamentação por aqueles Serviços.

Voltando a Manuel de Abreu, importa referir que ele era também uma espécie de ortopedista, ou mais propriamente, era um «endireita», pois sempre que havia alguém acidentado lá ia ajudar a pôr as articulações no devido lugar. E o mais curioso é que o fazia sem que a pessoa em causa ficasse a apresentar no futuro quaisquer sequelas. Outro «ortopedista-endireita» de Moçâmedes era João Ferreira, carpinteiro de profissão, que ajudou muita gente da terra a colocar no lugar ossos e articulações que sem a sua intervenção ficariam aleijados para sempre.





Crianças da familia observam a leoa abatida.no quintal da casa de Manuel de Abreu, na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes


  Exibindo o troféu de caça na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes, na frente de uma carrinha «Brokway».  Imagino como seria o primeiro carro de Moçâmedes, o carro do Dr. Lapa e Faro, médico na década de 1860 em Moçâmedes, que ohavia mandado construir para transportar as pessoas para caçadas pelos areais do deserto. Trata-se de um carro que além de conduzir passageiros, servia também para transportar doentes e combalidos.



Exibindo o troféu de caça. De braços no ar, Mata-Porcos, e Raul de Abreu
Manuel Abreu, à esq., David Abreu (óculos). António Abreu (?)…

 

 Manuel Abreu (3º, da dt para a esq.), David Abreu (2º à dt.), Raul Abreu ao volante

 
Manuel de Abreu à dt., com o seu grupo de familiares e amigos na sua «Brokway», adaptada com carroceria a camionete para que todos pudessem se deslocar às feridas caçadas no Deserto do Namibe. O 2º à dt., de branco é filho de Manuel, o Raul de Abreu, o 3º, David Abreu... Repare-se como naquele tempo ia-se para o deserto caçar de fato e gravata...

 

 
                          Manuel de Abreu, à esq., segurando a corda atada ao pescaoço da zebra.


Grupo de que faz parte Angelo Abreu (1º à esq.), Manuel Abreu (5º, à partir da dt.) e esposa (senhora 3ª à esq. da qual apenas se vê o chapéu), João Abreu? e algumas senhoras vestidas a preceito, entre as quais sentada e a segurar o chifre do guelengue, Emilia Abreu (?)...




 


Raúl de Abreu, à esq e Manuel de Abreu de cigarro na boca, à dt. com familiares e amigos, exibindo o troféu da caça: um enorme guelengue. 

 
A IDA DA FAMILIA ABREU PARA MOÇÂMEDES

A foto que segue mostra-nos Manuel Abreu, o "Mata Porcos" quando ainda criança, à esq., vestido de menina com  laços e uma boneca na mão, na companhia de seus pais Manuel de Abreu (pai) e Anastácia de Jesus, e de seu irmão Raúl de Abreu, à dt, vestido de marujo e também segurando oma boneca. .




A foto: Os modos de se vestir e de se apresentar ao mundo revelam o modo de ser de cada época da história da humanidade. Quando esta foto foi tirada, no Lubango, no início do século XX, como podemos ver, as senhoras ainda usavam vestidos compridos, e era chic, em certos estratos sociais, vestirem as crianças à marujo, assim como era comum verem-se crianças pequenas, do sexo masculino, geralmente o 2º filho do casal, vestidas como fossem meninas, com vestidos de folhos, laços no cabelo, cabelos compridos, caracóis, etc. Também era tido como normal, os meninos brincarem com bonecas. Talvez porque deste modo as mães, ainda que por breve período de tempo, matassem o desejo impossível de terem a seu lado a menina que tanto desejavam... Quanto aos homens, estes usavam grossas correntes, em prata ou em ouro, que seguravam relógios de bolso, o que também constituia um distinto em termos sociais, colete e gravata, esta contornando uma gola de camisa diferente da que conhecemos nos dias de hoje. Para além dos bigodes retorcidos, é claro! Mudam os tempos, mudam as mentalidades e as modas também, mas ficam registos interessantes como este, que para além de trazerem à recordação familiares antigos, ficam para sempre inscritos na história dos costumes e da moda de determinada época, povo e região


Manuel de Abreu pai era filho de José de Abreu, natural de Tábua, e de Maria do Nascimento. Dos quatro que se encontram nesta foto, apenas Manuel de Abreu pai integrou a 2ª colónia de madeirenses, em 1885,  quando tinha 7 anos de idade, viajando na companhia de seus pais e de 7 irmãos, Maria, Vitorina, Francisco, Antónia, Virginia, João, Manuel e António (mediando entre os 23 e os 3 anos de idade). Os três da foto, Anastácia e os filhos de ambos, Manuel (o "Mata Porcos") e Raúl,  eram  já nascidos no Lubango.  Foto do início do século XX

Portanto, em 8 de Junho de 1885, no vapor "ÁFRICA", partiu do Funchal (Ilha da Madeira) uma 2ª colónia composta por 206 madeirenses rumo a Moçâmedes (à época Mossâmedes/ actual cidade do Namibe, em Angola), onde chegaram a 19 de Agosto do mesmo ano. Iam juntar-se aos madeirenses ali chegados em 1884. Após uma estadia de cerca de um mês em Moçâmedes, tal como acontecer com os seus companheiros, partiram, a pé, e em carroças boers, atravessarem o deserto e escalaram a Serra da Chela, para ali, a muitos quilómetros do mar, se fixarem através das maiores adversidades, e contribuirem para o povoamento europeu da terras altas da Huila (Sá da Bandeira/Lubango).


Antecedentes

O primitivo impulso para a deslocação dos colonos da Ilha da Madeira para o Lubango veio do receio de Portugal face à ambição das nações europeias dirigidas para o sul do território, nomeadamente da parte da Inglaterra, a velha aliada, e da Alemanha. Foi então que o condutor de Obras Públicas ao serviço no Distrito de Moçâmedes, Câmara Leme, impressionado com o paradisíaco vale do Lubango, procurou levar a cabo diversas tentativas tendo em vista o povoamento dirigido naquelas terras desabitadas do planalto sul de Angola, nomeadamente na Huíla, Humpata, Palanca e Bibala, região excepcional para a agricultura, cujas serranias faziam-lhe lembrar a Ilha da Madeira, seu berço natal, onde abundavam terrenos férteis, água pura e cristalina, e onde encontrariam um clima de uma amenidade incomparável em África. Aliás, no ano partida do 1º contingente de colonos madeirenses, teve inicio a Conferência de Berlim (1884-1885) que teve a participação de 15 países, 13 pertencentes à Europa, incluindo Portugal, e o restante advindo dos Estados Unidos e da Turquia,  tendo por objectivo a elaboração de um conjunto de regras que dispusessem sobre a conquista da África pelas potências coloniais da forma mais ordenada possível, mas que acabaria resultando em uma divisão nada pacífica (Partilha de África).

A ideia de Câmara Leme veio ao encontro da preocupação governamental de contrabalançar os contingentes boers, emigrados da África da Sul para as terras planálticas da Huila, acossados pelas forças militares inglesas, e levou-o a deslocar-se à Metrópole para a expôr ao Ministro da Marinha e Ultramar, uma vez que o Governador Geral da Colónia não possuía poderes para tal. E foi assim se desenvolveu na Ilha da Madeira toda uma campanha de angariação de povoadores que visava ao mesmo tempo contrariar o fluxo migratório dos madeirenses para o Hawai, ilhas Sandwich, Demerara, onde em alguns destes locais, conforme a imprensa da época passou a veicular, se praticava uma autêntica escravatura branca.

Assim teve início a fixação da 1ª colónia de madeirenses em terras do Lubango, que constituiu uma verdadeira epopeia, ainda que o processo tivesse merecido uma planificação mais cuidada, na esteira da transferência dos portugueses de Pernambuco para Moçâmedes, em 1849. A colónia agrícola destinada ao planalto da Huila foi programada nas secretarias do Ministério da Marinha e Ultramar, em Lisboa, no primeiro semestre desse ano em que teve início a célebre Conferência.

Portugal estava a braços com uma sistemática crise financeira e social, e o recrutamento efectuado através da imprensa e de editais colocados no adro das Igrejas, ao qual apenas responderam apenas os madeirenses, não foi selectiva nem organizativa o quanto baste, e acabou por obedecer apenas a exigências de natureza política. O Estado limitou-se "arrebanhar", candidatos sobretudo onde a pobreza era mais premente, como era o caso da ilha da Madeira,  gente indiferenciada, sem emprego, que deambulava por cidades e vilas: Funchal, Machico, Câmara de Lobos, etc, que por razões de ordem social e/ou económica estava disposta a partir para rumos desconhecidos. Câmara Leme apodou-os de "vadios". Na Ilha da Madeira por aquele tempo, a miséria dos campos levou à fuga para as vilas e cidades, de gente não preparada, sem condições para acompanhar as transformações em curso, gerando uma tensão permanente entre os antigos moradores.  Na Madeira não existia terreno fértil por demarcar, e por esta altura os que quisessem sobreviver apenas encontravam no Estado a oportunidade de uma oferta de passagens e de um pouco de terreno para cultivar, lá muito longe onde os esperava um futuro não menos incerto. Foi, pois, neste desassossego que partiram mar fora, muitos dos 222 madeirenses, que embarcaram no Funchal, no vapor "Índia", destinados ao povoamento do planalto da Huila. Quanto à coesão e à diversidade deste grupo, afirma António Trabulo: “Na maioria dos casos, os emigrantes não se conheciam. […] Pouco mais de metade dos novos colonos trabalhava a terra desde sempre. Os outros eram marinheiros sem barco, pescadores sem rede, artífices sem emprego, ladrões, umas tantas prostitutas em idade da reforma e alguns chulos. Unia-os a pobreza e a esperança numa vida melhor. […] A bordo, as famílias foram obrigadas a dividir-se… homens e mulheres ficaram separados e apenas as crianças pequenas puderam acompanhar as mães.”  In TRABULO, António – Os Colonos. Lisboa: Esfera do caos Editores Lda. 2007, p. 22-25.

Por essa altura, tinha chegado à Colónia de S. Januário, na Humpata, um inglês de nome Mr Botha, que vinha convencer os colonos boers ali instalados, a regressarem ao Transval, e a integrarem uma acção contra os povos revoltosos da Damaralândia, e para os aliciar, assegurava haver ali marfim em quantidade. Mas o grupo boer preferiu avançar até ao Bailundo, a noroeste Benguela, e daí avançar até ao Quipungo, Caconda, bacias Cunene e Cubango, e acabaram por se instalar em Otchinjau. Para estas digressões, que tiveram o apoio Governadores Geral e de Moçâmedes, chegou a ser organizada uma subscrição de recolha de fundos para prendas aos sobas da região.

Voltando ao 1º grupo de colonos madeirenses, estes saíram do Funchal no vapôr "India", acompanhados de D. José da Câmara Leme, o Director da colónia, também ele madeirense, conhecedor do sul de Angola, (Câmara Leme tinha construído a ponte de cais em Moçâmedes, destinada a barcos de pequeno calado). Chegados a Moçâmedes , o "India" esteve ancorado ao largo, na baía, enquanto decorreu o desembarque, através de escaleres,  e os colonos foram alojados em barracões provisórios, ficando  a aguardar a saída para o planalto, prevista para os dias seguintes, porém os carros bóers, contratados no Bumbo e na Humpata pelas autoridades portuguesas, sequer tinham dali saído, pelo que tiveram que aguardar em Moçâmedes cerca de um mês, até que em meados de Dezembro de 1884, já o tempo tinha aquecido, partiram rumo ao Planalto. Também os carros disponíveis se revelaram insuficientes para transportar todas aquela gente e suas modestas bagagens, que incluíam alfaias agrícolas e géneros alimentares, para o período de carência que se avizinhava. A colónia foi dividida em dois grupos,  cerca de metade dos colonos ficaram a aguardar por um segundo transporte de pessoas e bens. Foi uma viagem atribulada, por estradas não pavimentadas, sob um sol escaldante, comendo pó pelo caminho, ou debaixo de chuvas torrenciais, após transporem o Deserto e chegar ao sopé da Chela. O primeiro momento complicado surgiu-lhes na descida para o vale do rio Giraúl. Superada a grande subida, chegaram a um plateau que conduzia à chamada "Pedra do Major", onde passaram a primeira noite. Manhã cedo do 2º dia, voltaram à longa e estafante caminhada por uma espécie de estrada plena  de pedregulhos, por onde caminharam sem parar até à chamada "Pedra Grande", um bloco de granito pouco elevado, existente na zona entre Moçâmedes e a Serra da Chela, onde resolveram descansar, uma vez que era totalmente impossível alcançar o Munhino, antes do pôr-do-sol. No dia seguinte chegaram à região do Munhino, zona ocupada por um vale fértil e verdejante a cerca de 40 km da Bibala (Vila Arriaga), onde encontraram plantações de milho, cana de açúcar e batata doce, e algumas construções dispersas. Descansaram no leito de areia, e retomaram a marcha até alcançarem o início da subida da Serra da Chela. O percurso até à Bibala (Vila Arriaga), a cerca 900 metros de altitude, levaria dois dias a percorrer. Pideram observar outras plantações de cana sacarina e alguns campos de algodão. Estafados, pernoitaram próximo de uma das casas mais afastadas do povoado, e na madrugada seguinte retomarem o caminho, tendo que aliviar a carga dos carros bóers, e os empurrar para que estes conseguissem vencer as sucessivas e perigosas subidas, até finalmente chegarem ao vale do Lubango, onde encontraram à sua espera dois barracões provisórios, erguidos no local que passou a ser conhecido por "Barracões", nas margens do rio Caculovar, ou seja, no limite sudeste do extenso vale do Lubango. A viagem tinha demorado nove dias tendo a escalada da Serra da Chela consumido cerca de 100 horas de grande canseira. 

Na manhã seguinte, serra abaixo, viajariam para Moçâmedes as carroças boers. Iam buscar a gente que ficara à espera. E alguns dias depois chegava ao Planalto da Huila a segunda leva deste primeiro contingente de colonos oriundos da Madeira. Concretizava-se assim a iniciativa do ministro Pinheiro Chagas, de instalar uma colónia agrícola no vale fértil do Lubango.

Chegaram exaustos e ansiosos, tristes e vencidos pelo cansaço,  homens, mulheres e crianças, que haviam caminhado a pé e em carros boers, que atravessaram o escaldante Deserto do Namibe, e subiram a serra da Chela por caminhos acidentados, em períodos de chuvas torrenciais, que não se fizeram esperar.  E mais desanimados ficaram quando, após descarregaram os carros viram os 4  barracões de pau-a-pique que os aguardava, cobertos a capim, mandados construir para eles, onde tiveram que ficar divididos (dois para casais e crianças, os outros dois para filhos crescidos e solteiros um para cada sexo), sem as mais elementares comodidades, e onde promiscuidade entristecia.   Em separado foram erguidas cubatas destinadas ao director da Colónia, ao médico, secretaria provisória e ambulância.

A 19 de Janeiro foi fundada oficialmente a Colónia Sá da Bandeira, em homenagem ao Marquês com o mesmo nome, que à época chefiava o Ministério do Ultramar, a qual passaria a ser dirigida pelo condutor de Obras Públicas D. José da Câmara Leme. Foi ali rezada a 1ª missa pelo padre José Maria Antunes, reitor da missão da Huíla. 25 MEDEIROS, Carlos Alberto – A Colonização das Terras Altas da Huíla (Angola).

Os primeiros tempos foram difíceis de suportar. Sentiam-se como que numa enorme prisão sem grades, desiludidos, revoltados, sem meios financeiros para regressar à sua Ilha da Madeira, mais pobres que nunca, incapazes de decidir e expôr os seus protestos, sujeitos a castigos e a punições, e acabaram por ficar. Uma situação complicada que obrigou Câmara Leme a evidenciar todas as suas qualidades de chefia e de autoridade. Ainda mal refeitos da estafante subida da Chela, foi-lhes ordenado que iniciassem a abertura de uma vala que conduziria a água do Mucúfi até à zona escolhida para centro do povoamento, local onde se distribuiriam terrenos aos colonos, e que ficou  praticamente concluída em finais de Fevereiro. E também construção de um açude regulador da captação de água.

Para os mais diligentes e para os mais abnegados, não tendo outro remédio, foi o arregaçar de mangas, o meter ombros com ardor e entusiasmo à tarefa urgente de desenvolver condições de vida na selva e criar uma povoação próspera que começaram a desbravar. Outros aceitaram mais facilmente as ordens do promotor, de arrotear e semear os campos, e a ideia de que o Lubango a partir de então era a sua terra e a terra dos seus filhos, acolhendo os aconselhamentos dos padres e das irmãs da Missão da Huila. E assim de imediato os colonos se meteram tarefa de desenvolver condições de vida na selva que desbravaram com denodo, e, em menos de trinta dias realizaram os trabalhos indispensáveis para fazer a inauguração oficial da "Colónia de Sá da Bandeira", a 19 de Janeiro de 1885. Era na altura governador de Moçâmedes, Sebastião Nunes da Mata.

Ao primeiro contingente, seguiu-se um segundo, de 206 colonos, também eles embarcados no Funchal, em 18 de Junho de 1885,  no vapor "África", que chegou a Moçâmedes em 19 de Agosto desse ano, perfazendo o número global de 428 pessoas.  Este grupo de colonos já obedeceu a um melhor critério de selecção, evitando-se tudo quanto fossem considerados marginais, deportados, etc., como era a prática dos governantes portugueses com relação às colónias de África. Foi neste contingente, como referido atrás, que a família de Manuel de Abreu se integrou.

A seguir outros portugueses foram chegando à região de Moçâmedes que então englobava o Planalto da Huila (Terras Altas de Mossâmedes), vindos de vários pontos do território metropolitano,  funcionários públicos, professores, homens de negócios, de comércio, de industria, agricultores, isoladamente, e todos juntos operaram no Lubango um ritmo de crescimento considerado por muitos superior às demais cidades de Angola. Não foi vertiginoso, mas foi progressivo e seguro o crescimento de Sá da Bandeira, que em 1889 era elevada a sede do concelho do Lubango, e mais tarde, com Norton de Matos, em 31 de Maio de 1923, ascenderia a cidade.

Algumas famílias de madeirenses, mais tarde se transferiram para Moçâmedes,  onde se dedicaram à pesca, à agricultura e ao comércio.  Foi o caso da família de Manuel de Abreu, o "Mata Porcos", à qual esta postagem  refere.


AS FAMÍLIAS ABREU E JESUS NA LISTA DOS COLONOS MADEIRENSES


Através dos nomes que seguem, tirados da lista dos colonos de 1884 e de 1885, podemos facilmente detectar a frequência com que os apelidos das famílias Abreu e Jesus, surgem . Sabe-se que uns acabaram por se radicar em Moçâmedes, mas que a maioria subiu a Chela e fixou se definitivamente em Sá-da-Bandeira (Lubango). Parece tratar-se de duas famílias bastante interligadas entre si atraves de casamentos. Os nomes que seguem foram retirados das listas do livro «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres. 1º volume: 

Familiares que integraram a 1ª colónia desembarcada em Moçâmedes a 18(19) de Novembro de 1884, composta por 222 (213 ?) colonos madeirenses vindos a bordo do "ÍNDIA" , saído do FUNCHAL, em 12 de Outubro, de acordo com o projecto de D. JOSÉ DA CÂMARA LEME:


--- FRANCISCO MARQUES DE JESUS - natural de Santa Ana(48 anos), casado com JOANA ROSA DE JESUS; filhos : - Maria(17), Manuel(13), Francisco(5) e João (16 meses ?).
--- FELISBERTO GONÇALVES DELGADO - natural de Porto Monis(4o anos), casado com MARIA DE JESUS.
--- FRANCISCO GOMES FARIA - natural de Curral das Freiras(26 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel (1),João (nasceu a 1/6/1885).
---JOSÉ FERREIRA JÚNIOR - natural de S. Martinho(20 anos). Casou com MARIA DE JESUS em Janº/1886; filho : - Manuel(17/9/1886).
--- LUIS DE ABREU FARIA - natural de Ribeira Brava(30 anos), casado com CRISTINA DA SILVA DE JESUS; filho - Manuel(20 anos).
--- MANUEL PAULO DE FREITAS - natural de Boaventura(35 anos), casado com BASÍLIA DE JESUS; filhos :- Maria(3) e Manuel(nascido em Dezº 1886.
--- MANUEL VICENTE FERREIRA - natural de S.Jorge(42 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel(8), Maria(6) e António(2).


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Familiares que integraram a 2ª colónia de madeirenses, em 18 de Junho de l885, embarcados no vapor "ÁFRICA", no FUNCHAL, rumo a Mossãmedes/Angola, tendo ali chegado em 19 de Agosto:


~-- ANTÓNIO DE ABREU, natural de Boa Ventura(24 anos),casado com MARIA DE JESUS.
----ANTÓNIO GOMES JÚNIOR - natural de S. Roque(32 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Matilde (21), Gregório(9), Maria(3 meses).
--- ANTÓNIO MANUEL GOUVEIA - natural de S. Vicente(31 anos), casado com ANTÓNIA DE JESUS; filhos : - Maria(4), Manuel(7 meses), Isabel(nascida a 28/9/1886), Maria(nascida 23/7/1887).
--- ANTÓNIO MARQUES LUIZ - natural de Santa Ana(46 anos), casado com JOAQUINA FREITAS DE JESUS; filhos : - Maria(14), José(12), Carolina(8), Ana(6), Luisa(3) e António (22 dias).
--- FRANCISCO DE GOUVEIA - natural de Ribeira Brava(25 anos),casado com ISABEL DE JESUS GOMES.
--- JOSÉ DE ABREU - natural de Tábua, casado com MARIA DO NASCIMENTO ; filhos : - Maria(23), Vitorina(20), Francisco(18), Antónia(16), Virgínia(12), João(10), Manuel(7), António(3).
--- JOÃO NUNES - natural de Ribeira das Galinhas(20 anos),solteiro. Casou com MARIA DE JESUS em 1/8/1887.
--- JOSÉ DE CASTRO - natural de Santo António(49 anos),casado com ANTÓNIA DE JESUS; filhos : - Luis(15), Alexandre(13) e Augusto(1).
--- JOÃO DE FREITAS - natural do Machico(43 anos),casado com CRISTINA DE JESUS; filhos : - Romana(13), Maria(12), Augusta(10), Cristina(7), Manuel(5), Tereza(2) e Alexandrina(1 mês).
--- JOÃO DOS SANTOS - natural de S.Martinho(29 anos),casado com JUSTINA DE JESUS; filha - Maria(2) e cunhado JOSÉ DE PONTES(17 anos).
--- JOÃO MARQUES CALDEIRA - natural de S. Jorge(45 anos), casado com MARIA ROSA DE JESUS; filhos - Maria(16),FRancisco(12) e José(8).
--- JOÃO SOARES DE ABREU - natural de Porto da Cruz(40 anos), casado com MARTA ROSA; filhos : - Rosa(6), João(4), José(nascido a bordo em 20/5/1885).
--- JOÃO DE FREITAS GOMES - natural de Santa Ana(48 anos), casado com MARIA DE FREITAS DE JESUS; filhos : - Maria(20),António(16), Joaquina(12) e António(primo - 19 anos).
--- JOÃO MARQUES LUIS - natural de Santa Ana(41 anos), casado com MARIA DE FREITAS DE JESUS; filhos : - Manuel(6),Maria(4), Gertrudes(2) e João (nascido a bordo em Outubro de 1885).
--- JOÃO DA COSTA - natural de Machico(32 anos), casado com FRANCISCA DE JESUS; filhos : - Maria(13),Francisca(10),José(8), Francisco(6) e João(4 anos).
--- JÓSÉ DE ABREU PEREIRA - natural de Tábua(42 anos), casado com VIRGINIA ROSA; filhos : - António(11), Jacinto(7), Maria(4) e Manuel Francisco(pupilo).
--- JOÃO FERNANDES DA SILVA - natural de Calheta(50 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel(12), Cristina(7)e Maria(6 anos).


Ficam estas recordações
MariaNJardim


Nota: As fotos foram dispensadas por Nito Abreu, filho de Raúl de Abreu. Por Nito Abreu foram fornecidos também os elementos sobre a sua familia, aqui descritos. 

Alguma bibliografia consultada:
-Felner, A. de A. Angola: apontamentos sobre a colonização dos planaltos e litoral do sul de Angola. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1940.
- Machado, C. R. Colonização do Planalto de Huíla e Moçâmedes. Boletim da Soc. Geog. Lisboa.
-Medeiros, C. A colonização das terras altas do Huíla. Lisboa, 1976.
-Silva, R. J. C. da S. Subsídios para a História da Colonização do Distrito de Moçâmedes durante o século XIX: capítulo III. Studia, n. 35, p. 421-439, 1972b.
-Torres M. J. de M. O distrito de Moçâmedes nas fases de origem e de primeira organização (1485-1859). Lisboa, 1950.
-Vicente, Pe. J. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1969.



Consultámos também, Net:
Livro Emigração da Ilha da Madeira



A respeito de caça e de troféus de caça...

O moçamedense António A. M. Cristão, publicou no seu livro «Memórias de Angra do Negro -Namibe- Angola», uma crónica assinada por Silvestre Newton da Silva que representa uma sentida alusão aos vândalos e caçadores furtivos que já nessa altura (1958) vinham dizimando a fauna do Deserto do Namibe, em busca de troféus que, segundo autor, para nada mais serviam que a serem exibidos a ingénuos pacóvios...

Silvestre Newton da Silva foi um jornalista profissional que a determinada altura abandonou o jornalismo para se tornar Gerente do Banco de Angola em Moçâmedes, e posteriormente

abandonou o Banco de Angola para, juntamente com Raúl Radich Júnior, criar a empresa Cicorel que se dedicava ao comércio, à construção civil e à industria extractiva de mármores e granitos. Foi graças a esta empresa que os mármores e granitos de Moçâmedes se tornaram conhecidos além fronteiras, e que vendidos em bruto, chegaram a ser em seguida transaccionados, dada a sua qualidade, como se de mármores de Carrara se tratasse.
Clicar AQUI para ler A excelente crónica de Newton da Silva sobre a caça no deserto de Moçâmedes.


Nota: Tudo o que for retirado deste blog deverá respeitar a sua proveniência)