Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 15 de março de 2008

Monumento aos «Pioneiros da Civilização». Mossâmedes , Moçâmedes, Namibe, Angola

"Simões de Almeida aquiesceu. A «maquetta» que modelou , veio mais uma vez confirmar , o fino temperamento, a surpreendente originalidade, e o alto poder de concepção do grande artísta."


O Jardim da Colónia já com muro e gradeamento


Moçâmedes: trecho do Jardim da Colónia para onde esteve projectado um monumento aos pioneiros do qual existe a maquete acima naturalmente arquivada no Municipio da cidade. Nesta foto, à esq, podemos ver, junto do «Jardim da Colónia», parte do edifício da Alfândega (lateral, convergindo para a Rua 4 de Agosto),  bem assim como o nobre edifício de linhas clássicas que foi propriedade da família Zuzarte Mendonça (Torres), e que conheci já como  "Hotel Central", explorado pela família Gouveia na década de 50.  

Curiosidade: segundo informações colhidas junto de antigos moradores, nos anos 30 existiu, no rés-do-chão desse edifício, uma loja de modas muito bem frequentada pelas/os "elegantes" da terra, que importava dos Armazéns "Printemps" de Paris, chapéus, vestidos de noiva, fatos, gravatas, carteiras, perfumes, cremes, etc., enfim, o último grito da moda (*). À dt., o prédio que conheci com a loja de Castro e Silva, nos anos 50 e mais tarde da família Ilha.


O JARDIM DA COLÓNIA

Este foi o primeiro jardim público da vila de Moçâmedes, assim denominado em homenagem às 1ª e 2ª colónias de emigrantes que ali aportaram em 1849 e 1850, vindos de Pernambuco (Brasil), e que ficaram a marcar a data da fundação da cidade.

Situado a poente do edifício da Alfândega, no local onde no início da colonização se ergueram os primeiros barracões montados para lhes servirem de alojamento, do pequeno «Jardim da Colónia», recolhi informações, que se encontrava cuidadosamente tratado pelos serviços da Câmara Municipal, e apresentava um aspecto viçoso imprimido pela profusão de arbustos que contrastavam com a aridez do solo circunvizinho. Além dos embelezamentos arbustivos que o adornavam, haviam sido ali colocados 12 bancos de jardim que em 1869 se encontravam vistosamente pintados, bem assim como portas e gradeamentos. Também existia alí, na mesma altura,  um lago e a necessária "cacimba" de onde era retirada, à bomba, a água para a rega. À tarde, aos domingos e às quintas feiras, era costume reunirem-se no Jardim da Colónia uma quantas pessoas para ouvirem as sessões musicais proporcionadas pela "Banda de Caçadores 3" aquarteladas na Fortaleza de S. Fernando.

Para este jardim chegou a estar projectado, já no início do século XX, a colocação de um monumento, entre verduras e flores, destinado a perpetuar a memória dos pioneiros da fundação de Moçâmedes (hoje Namibe), e a embelezar a cidade, despertando "sentimentos de sã moralidade, de amor pátrio, de admiração e encanto pela Arte", dizia-se então.  Para o efeito, em 4 de Agosto de 1919 chegou a realizar-se no Jardim da Colónia,  com grande solenidade, a cerimónia de lançamento da primeira pedra, tendo em 1924 a Câmara Municipal de Moçâmedes solicitado a José Augusto da Cunha Morais, o aconselhamento e a sua preciosa colaboração escolha na escolha de um dos melhores escultores portugueses em mármore e bronze, porém nenhum outro passo foi dado mais adiante no sentido de ser levada para a frente essa ideia.

Do monumento, sabe-se que:

"...Num «baixo relevo» que há-de comportar cerca de dezoito figuras, vê-se representada a «primeira colónia» esmagada pela adversidade; - os debilitados pelas doenças, as mulheres e crianças numa prostração dolorida de abatimento; de pé, um grupo dos mais robustos e animosos; e, entre eles, o seu prestimoso chefe da apontar um navio que, se divisa ao longe, trazendo a bordo a «segunda colónia» que a todos vem confortar e ajudar, para que possam prosseguir mais esperançados a obra iniciada. Encimando o monumento, avulta, numa atitude magnifica de triunfo, a bem proporcionada figura dum «pescador», como símbolo da principal industria do Distrito. E, o lado, grave e solene sobressai da alvura do mármore, o Brasão de Armas do Município em bronze. A «maquette» é um esbocêto de exíguas dimensões, e nele, por isso, o escultor não pôde, com perfeita nitidez, fixar expressões, nem marcar perspectivas. Estes e outros detalhes, porém, serão pelo artista convenientemente desenvolvidos na execução do trabalho definitivo. A «maquette» mostra-nos, contudo, o que virá a ser o monumento no seu conjunto geral. 
Quanto ao prestimoso Chefe aqui referido, a apontar para um navio que se divisa ao longe,  entenda-se a figura de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o chefe da 1ªcolónia chegada a Moçâmedes, na Barca "Tentativa Feliz", capitaneada pelo Crigue Douro, a 04 de Agosto de 1849, para dar início ao povoamento branco da região. Sobre navio que se divisa ao longe, trata-se também do "Brigue Douro", desta vez acompanhando a "Barca Bracarense"  que transporta consigo a 2ª colónia que a todos veio ajudar e dar ânimo, para que pudessem continuar a obra iniciada.

Transcreve-se na íntegra o texto que segue e que testemunham a carência de meios que existia na época entre a comunidade moçamedense e no seio da própria Câmara Municipal que não conseguiu levar por diante o referido projecto, não obstante a promoção de um espectáculo para recolha de fundos no então Cine Teatro Garrett e de um desafio de futebol realizado para o mesmo efeito:

"...O escultor calculou em seis mil escudos o custo do monumento. E dos livros de escrituração da Câmara Municipal, verificamos que para aquisição se encontrava por enquanto depositado no Banco de Angola uma importancia insignificante. Um pouco mais de quatro mil e quinhentos angolares. Proveio esta importância de um espectáculo promovido no Teatro Garrett, pelo autor Tomás Vieira e por um desafio de «foot-ball» entre funcionários da Alfândega e da Fazenda, e ainda vários oferecimentos feitos por particulares. Para o que falta, que é quase tudo! Pensa-se em realizar uma grande festa, abrir subscrição e conseguir no Orçamento da Câmara um verba especial. É, pois, de crer que desta vez venha a ser um facto o monumento, maravilhando pela sua beleza, a recordar o gesto ousado dos fundadores do Distrito, e a exprimir o preito agradecido dos filhos da terra à gloriosa memória dos seus ilustres avós.

Alguns pormenores sobre a maqueta:

"...O Sr. Cunha Morais, que fundara com Emilio Biel essa publicação notabilíssima que se chama «Arte e a Natureza», em que colaboram os mais brilhantes espíritos do país, mantinha há largos anos com pintores e artistas, relações pessoais muito amistosas, nascidas da comunhão de trabalho e convívio intelectual. Versando em assuntos de arte, e conhecedor do nosso meio artístico, prontamente lhe acudiu à lembrança o nome já consagrado de Simões de Almeida, Sobrinho, o elegante estatuário da Criança, do Riso, ds Ninfas do Mondego, o dedicado medalheiro do Xaá, de Madame X, das Crianças Italianas, o autor de tantos outros trabalhos de reconhecimento e incontestável mérito. Ao convite que logo lhe fora feito, Simões de Almeida aquiesceu. A «maquetta» que modelou , veio mais uma vez confirmar , o fino temperamento, a surpreendente originalidade, e o alto poder de concepção do grande artísta.

Assim, não obastante ter-se chegado a efectuar neste jardim, em 1919, com grande solenidade, a cerimónia simbólica da colocação da primeira pedra do monumento, e posteriormente,  em 1924,  a Câmara Municipal de Moçâmedes ter confiado a um artista o estudo do monumento,  por anuência do reconhecido amigo da terra, José Augusto da Cunha Moraes, que aconsehou os melhores escultores de expressar pelo mármore e pelo bronze, história da colonização do Distrito, o projecto foi abandonado, e após meados da década de 40 o «Jardim da Colónia» foi pura e simplesmente desmantelado para dar lugar ao «Cine Teatro de Moçâmedes» 

Terminava aqui, ingloriamente, o sonho da colocação de um monumento destinado a perpetuar memória dos pioneiros da fundação de Moçâmedes. Este não seria erigido aqui nem em lado nenhum. Moçâmedes era uma cidade pobre, possuia uma Câmara pobre, e as autoridades competentes estavam em Angola para algo mais importante que ajudar os Municipios ou para homenagear «colonos»!

pesquisa e texto de MNJardim






Bibliografia consultada
Jornal da Europa, Nº 10 2ª série in Boletim da Agência Geral das Colónias N.º 47, 1929 pág. 323
2 Boletim Geral do Ultramar, nºs, 348 e 349
(Do jornal da Europa, Nº 10 2ª série) 



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No site "Grand Monde", encontrei este artigo, que nos fala dos Zuzarte de Mendonça, familias antigas que estariam numa das vagas de colonos que teriam emigrado dos Açores para Pernambuco e mais tarde para Mossâmedes, onde, com esforço e tenacidade vingaram a sorte daqueles que padeceram com as biliosas e o paludismo. Por estar de certo modo relacionado com o assunto em questão, passarei a transcrever:

«
Os Cunha Moraes de fio a pavio II

O fotógrafo José Augusto da Cunha Moraes nas suas deslocações a Moçamedes terá conhecido Albertina Teixeira Pinto Zuzarte de Mendonça, filha de Maria Rosa Oliveira Teixeira Pinto e de José Júlio de Zuzarte Mendonça, Juiz de Paz e Comandante do porto de Moçamedes, família de grande prestígio naquela região conhecida como a Madeira da África Ocidental Portuguesa.
José Augusto contraiu matrimónio com Albertina Mendonça, porém não deixam descendência. As suas frequentes viagens a Moçamedes acompanhado pela mulher e pelos seus irmãos, favorecem e proporcionam outros laços familiares entre os Cunhas Moraes e os Zuzarte Mendonça, a tal ponto que o seu irmão Joaquim Júlio, após ter sido forçado pelos irmãos mais velhos a acabar com o namoro com uma mestiça, vem a casar-se com Matilde Teixeira Pinto Zuzarte de Mendonça, irmã de Albertina.
Mais tarde uma irmã de José de Sousa Maia, cunhado de José Augusto pelo matrimónio contraído com Henriqueta da Cunha Moraes, viria a casar com um dos filhos de José Júlio de Zuzarte Mendonça.
Eventualmente os Zuzarte de Mendonça estariam numa das vagas de colonos que teriam emigrado dos Açores para Pernambuco e mais tarde para Mossãmedes onde com esforço e tenacidade vingaram a sorte daqueles que padeceram com as biliosas e o paludismo. Mossãmedes inegavelmente marcou estas duas famílias.
 “... Só em 1924 é que a Câmara Municipal se lembrou de confiar a um artista o estudo do monumento. Para esse fim, dirigiu um oficio ao Sr. José Augusto da Cunha Morais, amigo provadíssimo de Mossâmedes, a solicitar-lhe a obsequiosa anuência em incumbir um dos nossos melhores escultores de expressar, pelo mármore e pelo bronze, a história da Colonização do Distrito. O Sr. Cunha Morais, ,...mantinha, há largos anos, com escritores e artistas, relações pessoais muito amistosas, nascidas da comunhão do trabalho e do convívio intelectual. ....prontamente lhe acudiu à lembrança o nome já consagrado de Simões de Almeida, Sobrinho, ...”

Mais uma vez os Cunha Moraes se encontravam com os Zuzarte de Mendonça na cidade de Moçâmedes...
Publicada por Grand Monde



E Moçâmedes foi salva..
.

«Quando a segunda colónia chegou a Mossãmedes em 26 de Novembro de 1850, os primeiros colonos encontraram falhas de recursos de toda a espécie e a sua patriótica tentativa de colonização parecia condenada a sossobrar ingloriamente...»


Minados pela febre, agonizantes,
já temiam aqueles homens fortes
que fosse vão seu feito de gigantes:
-ali jaziam cerca do Rio das Mortes

da Primeira Colónia os emigrantes,
«os maus fados cumprindo em suas sortes -
em covais, nas areias escaldantes,
achando, em grande parte, os certos nortes!

E nessa conjuntura dolorosa,
já não crendo em ajudas deste mundo
viraram-se p`ra o Céu à Milagrosa

Senhora destes Reinos, a Maria
erguendo preces em fervor profundo!
..................................................................

E viu-se como a Santa os atendia!

Moçâmedes, ano do Centenário (1949)




José Trindade



O Observatório Metereológico de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe), mais tarde demolido


  
O Observatório Metereológico «GOMES DE SOUZA», de Moçâmedes. Junto da janela do observatório podemos ler: "1903".
Enquadramento do Observatório Metereológico «GOMES DE SOUZA», de Moçâmedes, junto à praia e muito perto da Avenida da República. Colecção editada por ocasião da subida da "vila de Mossâmedes" a real-cidade, em  1907, com  a presença do Principe Real D. Luis Filipe, filho de D. Carlos e de D. Amélia,  o malogrado Príncipe que pouco após o regresso a Portugal viria a falecer, juntamente com seu pai, vítima do Regicídio.



O Observatório Metereológico de Mossâmedes, «GOMES DE SOUZA», foi assim denominado em homenagem aos trabalhos do ilustrado Director do Observatório de Luanda. A sua construção  ficou a dever-se a uma proposta dirigida ao Governo Geral de Angola pelo DR. JOSÉ PEREIRA DO NASCIMENTO, explorador naturalista que, para levar avante o projecto da sua construção, teve que recorrer a uma subscrição pública, na qual participaram alguns nomes sonantes de residentes na então vila,   como Serafim Simões Freire de Figueiredo, que foi presidente de uma anterior vereação da Câmara Municicipal, o Visconde do Giraul, Alfredo Duarte d'Almeida, Alfredo de Oliveira Luso, Hemry Guilmin, Augusto dos Reis Figueiredo, Filipe Castanheda, Torres & Irmão, Morgado & Morgado e António César Corrêa Mendes. As primeiras observações foram feitas no dia 1 de Janeiro de 1904 pelo ilustre naturalista, apenas com os poucos aparelhos de que dispunha.
A lembrança que tenho deste edifício é do início dos anos 1950. Ficava situado a poente do local onde foi construido o edifício dos Correios (CTT), e próximo do sítio onde nos anos 1960 foi construida uma gasolineira. Era um belo edifício em forma de Torre com alguns traços que nos fazem lembrar a Torre de Belém, salvaguardando é claro as devidas proporções. E por sinal até se encontrava bem enquadrado, como o postal testemunha.

Quanto  aos motivos que levaram à sua demolição, sabe-se que no decurso da visita à cidade do Ministro das Colónias, Dr. Armindo Monteiro, em 1932, quando Salazar era Ministro das Finanças,  a Câmara Municipal apresentou uma exposição em que chamava a atenção para questões tidas como da maior importância, e solicitava ao Governo, entre outras, autorização para reservar para «Praia de Banhos» a zona marítima,  que ia desde o Observatório Metereológico até à Fortaleza de São Fernando, fazendo-se desaparecer dali todas as construções.

"Que seja concedida ao Municipio a faixa maritima, desde o Observatório Metereológico até à Fortaleza, para a Câmara poder livremente embelezar essa faixa e promover uma praia de banhos dos recursos necessários para a segurança e comodidade dos banhistas."  (1)

O objectivo era, feita a concessão, arborizar tôda essa area, a fim de "tirar à cidade, o aspecto desolador que oferece vista do mar, e trazer-lhe uma maior concorrência de turistas na época balnear, notando-se já que êste melhoramento está despertando bastante interesse no Planalto da Huila, sendo natural que o mesmo venha a contecer ao norte, onde o clima não favorece iniciativas desta natureza."

 Na realidade o que pedia esta exposição era que se libertasse a zona da praia «desde o Observatório Metereológico até à Fortaleza São Fernando», e não que o Observatório ou a Fortaleza fossem demolidos.

Sabe-se que muito tempo decorreu entre a referida exposição e o início das obras na zona. Obviamente, poupou-se a Fortaleza, mas a verdade é que estupidamente o Observatório Meteorológico acabou demolido. (ver AQUI)

Como foi possível tal ter acontecido? Grande distanciamento (cerca de 20 anos) entre a data da solicitação ao Ministro (1932) da autorização para o desimpedimento da area, e a data da concretização ddo mesmo? Má interpretação do texto? Falta de sensibilidade em relação à preservação do património arquitectónico e histórico da cidade?  Ninguém desconhece que os edifícios de arquitectura são a memória colectiva de uma cidade, e que,  portanto, não deveriam ser destruidos, mas sim preservados, sob pena de se estar a apagar a história viva de um povo.

Como foi dito este Observatório nasceu do esforço e diligência do Dr José Pereira do Nascimento, explorador naturalista, e foi erguido através de subscrição pública entre os moradores da Vila, com o apoio da Câmara, e dele próprio, que em grande parte concorreu para  a verba consignada a despesas,  com seus trabalhos de exploração, e mesmo com os seus vencimentos. 

Eis o teor de dois oficios enviados em 1904 pelo explorador naturalista ao Governo do Distrito de Mossâmedes: 


"Governo do Distrito de Mossâmedes - Exploração Científica da Província - Nº. 2

Illmo e Exmo. Senhor


Para conhecimento de S.Exa o Sr. Governador do Distrito, tenho a honra de comunicar a V.Exa que tendo vindo a este Distrito em missão de estudo para construir um observatório meteorológico com a aprovação do Governo Geral e para proceder a pesquisas mineralógicas a fim de completar os estudos das minas e da carta mineira deste Distrito, trabalho por mim iniciado em 1894 e de que dei conta ao Governo da Metrópole em um relatório que foi publicado sob o título “Exploração Geográfica e Mineralógica no Distrito de Mossâmedes”, fui surpreendido com a notícia da minha exoneração do cargo de naturalista na ocasião em que, já desembaraçado da construção do observatório, me dedicava à preparação e catalogação das colheitas geológicas e mineralógicas reunidas durante os dois últimos anos de exploração à zona central do Distrito de Luanda, Lunda e Mossâmedes, à elaboração do relatório e carta mineira deste Distrito e da carta geral dos terrenos por mim percorridos e estudados durante cinco anos de estudo nesta Província e à publicação de um dicionário de línguas africanas desta costa.

Para evitar que fiquem perdidos para a ciência a maior parte destes trabalhos, venho rogar a S. Exa. o Sr. Governador do Distrito se digne solicitar de S. Exa. o Governador Geral a minha permanência neste Distrito, por dois a três meses, tempo que julgo suficiente para a conclusão dos referidos trabalhos.


Deus Guarde a V. Exa.
Mossâmedes, 15 de Janeiro de 1904
Illmo e Exmo. Senhor Secretário do Governo do Distrito de Mossâmedes
O Explorador-Naturalista,
(A) JOSÉ PEREIRA DO NASCIMENTO,
Médico Naval de 1ª. Classe


ESTÁ CONFORME:- Secretaria do Governo de Mossâmedes, 16 de Janeiro de 1904 - O Secretário, (A) Francisco da Silva Ferreira.
Fevereiro de 1904 - O Secretário Geral Interino, (a) Ilegível


Governo do Distrito de Mossâmedes - Exploração Científica da Província - Nº. 2

Illmo e Exmo. Senhor

Para conhecimento de S. Exa. o Sr. Governador do Distrito, e das estações superiores, tenho a honra de comunicar a V. Exa. que está concluído o edifício do “Observatório Meteorológico Gomes de Sousa”, em homenagem aos trabalhos do ilustrado Director do Observatório de Luanda, e que comecei a fazer as observações no dia 1 do corrente mês, com os poucos aparelhos de que disponho.

Por esta ocasião devo recordar que, tendo vindo a Mossâmedes retemperar a minha saúde, bastante deteriorada por três anos e meio de viagens de exploração, pelo interior dos Distritos de Luanda e Lunda, propus ao Governo Geral construir, por subscrição pública, um Observatório na Vila de Mossâmedes, onde há mais de 60 ano se fixou e radicou o elemento europeu que se tem progressivamente propagado até à quarta geração, mercê das suas boas condições climatéricas, criando um importante núcleo de irradiação da raça portuguesa em África.

Com o apoio e auxílio do Governo Distrital, e da Câmara Municipal, que patrioticamente perfilharam a minha ideia, abri uma subscrição entre os moradores desta Vila, que me forneceu os elementos necessários para iniciar a obra no fim do ano próximo passado. Para esta construção concorri em grande parte com a verba que o Governo consignou para as despesas dos meus trabalhos de exploração e com os meus vencimentos de explorador naturalista da província.

Dou por bem empregado o sacrifício que fiz, pela satisfação de ter contribuído para dotar com um estabelecimento científico esta bela Vila, a que me prendem a dedicação, estima e gratidão dos seus moradores pelos meus trabalhos de propaganda a favor do seu progresso material e moral.

Construindo à custa de uma subscrição pública sob o apoio da Câmara, era de justiça que o edifício pertencesse ao município. Assim o entendi, convidando a Câmara Municipal, como representante dos moradores, a tomar posse do edifício, cerimónia que se realizou no dia 13 do corrente mês.

Para seu regular funcionamento, carece este estabelecimento de um observador permanente, que pode ser um dos sargentos que tem adquirido prática de observação meteorológica no Observatório de Luanda, bem como carece de uma colecção de aparelhos, sendo de toda a vantagem que a sua direcção técnica fique subordinada ao Observatório de Luanda.

Para terminar cumpro o grato dever de citar os nomes de alguns beneméritos cidadãos que mais contribuíram para este melhoramento, que veio colocar Mossâmedes à altura de um centro de população civilizada, a par das melhores colónias estrangeiras. São os Exmos. Senhores SERAFIM SIMÕES FREIRE DE FIGUEIREDO, presidente da vereação transacta; VISCONDE DO GIRAUL, ALFREDO DUARTE DE ALMEIDA, ALFREDO DE OLIVEIRA LUSO, pela Companhia Comercial de Angola; HENRY GUILMIN, pela Companhia de Mossâmedes; AUGUSTO DOS REIS FIGUEIREDO; FILIPE CASTANHETA, TORRES & IRMÃO; MORGADO & MORGADO; ANTÓNIO CÉSAR CORRÊA MENDES.

Deus Guarde a V. Exa.

Illmo e Exmo. Senhor Secretário do Governo de Mossâmedes

Mossâmedes, 20 de Janeiro de 1904

O Naturalista-Explorador
(A) J. PEREIRA DO NASCIMENTO,
Médico da Armada Real


Pesquisa e texto de MariaNjardim


(1) Boletim Geral das Colónias . VIII - 088, [Número especial dedicado à visita do Sr. Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola]
PORTUGAL. Agência Geral das Colónias, Vol. VIII - 88, 1932, 708 pags.
 http://memoria-africa.ua.pt/Library/ShowImage.aspx?q=/BGC/BGC-N088&p=480