Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 31 de março de 2009

As «grutas» da falésia da Torre do Tombo , Mossamedes, Angola. As obras de construção do cais acostável




Algumas das mais recentes inscrições no morro denominado Torre do Tombo 




"Visitei a Torre do Tombo, sitio junto da bahia, que assim appellidam, e onde os visitantes e os colonos vão inscrever os nomes n'um grés mole de que é composta parte da costa. A lista é numerosa : lá se acham alguns nomes de certas notabilidades portuguezes, esculpidos por filhos, irmãos, ou primos, que o mau fado ou a ambição levaram áquellas praias ; e outros desconhecidos, mas talvez não menos iílustres, com datas de quasi dous séculos. 

In "45 DIAS ANGOLA", de autor anónimo escrito em 1861  "

Repare-se na foto acima, a presença de duas inscrições que nos são familiares : INDIA e SADO. 

INDIA, assim se chamava o navio que a 18 de Outubro de 1884 largara do Funchal rumo a Moçâmedes, com mais de duas centenas de madeirenses, incluindo homens, mulheres e crianças, que vinham dar inicio ao povoamento europeudas terras altas da Huila, tendo ali chegado a 19 de Novembro, com uma criança nascida a bordo.  

Quanto à  inscrição,  SADO, foi neste brigue que chegaram a Moçâmedes,  em Julho de  1857, 12 alunos da Casa Pia e 29 colonos alemães, destinados a  colonização europeia do sul de Angola.  (1)


Nesta foto as «grutas» ou «furnas» do morro da Torre do Tombo parecem estar soterradas


Perspectiva das «grutas» ou «furnas» do morro da Torre do Tombo
 
Perspectiva das "Furnas" ou "grutas" escavadas por mareantes n o morro da Torre do Tombo
 
A zona onde ficavam as instalações da firma Morgado & Morgado, que conhecemos como propriedade de João Martins Pereira

Furnas utilizadas pelas pescarias. Imagem de Missão hidrográfica, 1930-40. IICT

Morro e Furnas. Imagem de Missão hidrográfica, 1930-40. IICT
 
Instalações pesqueiras Martins Pereira (Morgado& Morgado). Imagem de Missão hidrográfica, 1930-40. IICT


Ao centro, as mesmas instalações pesqueiras Martins Pereira (Morgado&Morgado)


 
AS «FURNAS» DO MORRO DA «TORRE DO TOMBO»

Estas históricas «furnas» ou «grutas» faziam parte de um numeroso conjunto que percorria a base da falésia ou morro da «Torre do Tombo», a zona que termina e excede a Ponta do Noronha, ou Ponta do Pau do Sul. Escavadas a punho na rocha branda, desde tempos remotos, para servirem de abrigo a mareantes e corsários que por ali passavam e ali faziam «aguada», foi junto a elas que foram encontradas impressas «inscrições» de incalculável valor histórico. Foi o Tenente Coronel Pinheiro Furtado, comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa quem as registou, quando fazia uma visita em 1785 à «Angra do Negro» (1). Pensa-se que tenha sido este oficial português o primeiro que chamou «Torre do Tombo» ao local, chamando a atenção para o morro das inscrições, e colocando uma ponta de ironia na analogia com o Arquivo Nacional Português com o mesmo nome.


Pinheiro Furtado destacou num ofício datado de 4 de Outubro de 1785 dirigido ao Capitão General de Angola, Barão de Mossâmedes, que essas «inscrições» estavam datadas desde 1645 a 1770, como a seguir se descreve (in Memórias "Histórico-Estatísticas de Brito Aranha" ) :

"Kemy 1723, II-IS-1766;
LUIS DE BARROS passou por aqui em 1765 annos;
ANDRÉ CHEVALIER GY 1665;
JAN DIER;
FRANCISCO DE BARROS,
BERNARDO QUADO ASO DO FEBRO passou por aqui em 1665;
o
- FRN - PM
O
THOMAZ DECOMBRO 1762 e em 1770;
JOSÉ DA ROSA 1645;
MR 1649;
MEDIDA W 1768;
18-1770;
DE TONCHON;
RIO CONENE;
MUNDO en..65;
SF 1770;
Aqui esteve o patacho GOYA 1665;
MANUEL RODRIGUES COELHO;
MARTIM em 1770;
Aqui esteve o piloto MATEUS PIRES DA SILVA POEDRENEIRA 1665;
THOMAZ DE SOUSA;
O CAPITÃO JOSÉ DA ROSA ALCOBAÇA passou por aqui para o Conene no patacho Nossa Senhora da Nazareth em 4 de Janeiro de 1765;
O CAPITÃO MANUEL DE LIMA;
Aos seis de Fevereiro saltou o Sargento DOMINGOS DE MORAIS nesta baia, que é formosa, em companhia do seu Capitão, JOSÉ DA ROSA, em 1665;
JAN DIMMESEN 1669;
VNSSENGAE PARA 1669;
ADRIIEENDIRERSEN".


A mais antiga destas inscrições é, como se vê, a de 1645, mas o documento transladado no número 8 do «Jornal de Mossãmedes», de 25 de Novembro de 1881, cita a seguinte inscrição, de data anterior:

«1641 - D. ANTÓNIO MENESES DA CUNHA
ou D. ANTÓNIO DA CUNHA MENESES »


Esta inscrição foi achada em 1841 por Bernardino José Brochado, que, parece, a fixou de memória. Como a areia acumulada pelo vento cobrisse o morro até grande altura, lembraram-se três moradores de Mossâmedes, em 1858, de o desentulhar e de reproduzir as inscrições, das quais, dizia aquele documento, existem cópias no arquivo da Câmara Municipal. Nesta página, não foi, porém, encontrada a referida inscrição de 1641.

Devemos, finalmente, salientar o natural reparo de Gastão de Sousa Dias sobre a repetição do nome de José da Rosa e sobre a data de 1765 (4 de Janeiro) em confronto com a de 1665 (6 de Fevereiro), pois que, segundo as inscrições, na primeira, «passou pela Angra», indo para o Cunene, e, na segunda, «saltou na Baía». Diferindo aquela data (1765) precisamente um século da primeira (1665), acredita Sousa Dias, houvesse erro, devendo a primeira ser rectificada para 1665.

Reproduzimos a seguir a opinião de Sousa Dias:

«...teremos sempre um capitão José da Rosa, visitando a Angra do Negro (Mossamedes) em 1665; e, na melhor das hipóteses, isto é, sendo aceitável a emenda proposta, teremos na Baía de Mossãmedes um capitão José da Rosa, a 4 de Janeiro, no patacho Nossa Senhora da Nazareth, com destino ao rio Cunene, estando de regresso à mesma baía no mês seguinte, altura em que saltou em terra com o sargento Domingos de Morais.»

«...Procuremos noutra fonte (continua Sousa Dias) a confirmação destes factos. No segundo volume da História das Guerras Angolanas de Oliveira Cadornega, encontra-se a seguinte informação: Sucedeu no governo de André Vidal de Negreiros, ir um homem prático a descobrir esta costa, por nome José da Rosa, por ver se achava alguma notícia de boca de rio que entrasse para os de Cuama (Zambeze), e chegando costa a costa, a dezoito graus para além do Cabo Negro, não achando notícia do que buscava, etc.

Há perfeita concordância de datas (concluiu o distinto escritor), pois que o governo de Vidal de Negreiros durou de 1661 a 1666». (Gastão de Sousa Dias,"Pioneiros de Angola»)

(1) Designação do lugar onde viria a ser erigida a cidade de Moçâmedes
 



 
AINDA SOBRE AS «FURNAS» e sobre as «INSCRIÇÕES» DO MORRO DA «TORRE DO TOMBO»...

Visitei a Torre do Tombo, sitio junto da bahia, que assim appellidam, e onde os visitantes e os colonos vão inscrever os nomes n'um grés mole de que é composta parte da costa. A lista é numerosa : lá se acham alguns nomes de certas notabilidades portuguezes, esculpidos por filhos, irmãos, ou primos, que o mau fado ou a ambição levaram àquellas praias; e outros desconhecidos, mas talvez não menos illustres, com datas de quasi dous séculos.

Quanto ao desaparecimento das «inscrições», diz-nos Manuel Júlio de Mendonça Torres na obra anteriormente citada, que estas foram enormemente danificadas quando no morro da Torre do Tombo foram instaladas as pescarias por famílias dedicadas à pesca do atum, como desapareceram também, ultimamente, várias outras de datas muito mais recentes. Mendonça Torres adianta ainda que Brito Aranha, nas suas Memórias Histórico-Estatísticas (1883), refere que os Governadores Fernando da Costa Leal (1854-1859 e 1863-1866) e  José Joaquim da Graça (1866-1870), deixaram, igualmente, lembrança de si naquele morro.


 Postal da colecção do Centenário, em 04 de Agosto de 1949
A ponta Pau do Sul, a baía os barcos de pesca, uma paisagem cinzenta e triste...







 Moçâmedes beijada pelo Deserto
 


"A velha ponte-cais

de traves carcomidas,
O morro triste,

 a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre

 da sua
poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."

(In "Poemas Imperfeitos" de
Joaquim Paço D´Arcos.









Era assim que o poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta, premiado diversas vezes , Joaquim Paço D´Arcos via Moçâmedes. Paço D'Arcos enquanto criança esteve em Moçâmedes entre de 1912 e 1914, com seu pai que foi Governador do Distrito. Tempo de estagnação no  desenvolvimento, de Moçâmedes e de Angola, aqueles que antecederam a l República, tempo de total anarquia, tendo muitos  portugueses sido levados a abandonaram o território, onde desde a Conferência de Berlim (1884-5) se procurava com muita dificuldade fixar as bases de uma nova administração,  promover o povoamento com famílias portuguesas e levar a cabo o desenvolvimento económico.  Norton de Matos, em 1912, havia reacendido a esperança de um tempo novo, mas a fronteira sul ainda por demarcar e a revolta do gentio,  eram uma realidade do que resultou a última fase das Campanhas Militares do Sul de Angola, que fizeram de Moçâmedes o seu porto de desembarque.






O que resta das furnas ou grutas da Torre do Tombo, e o significado histórico das mesmas...


 Se é certo que a primeira grande insensibilidade registada contra este histórico local teve lugar por ocasião da construção das primitivas pescarias que fizeram desaparecer as antigas e históricas «inscrições» gravadas na rocha branda do morro da «Torre do Tombo», não é menos certo que nova insensibilidade se registou quando, com a demolição dessas mesmas pescarias, na década de 1950, por força da construção do cais acostável, foram retiradas do morro, sem só nem piedade, na fase dos aterros e terraplanagens, milhares de toneladas de terra que desfiguraram a topografia do terreno. Estas «grutas» até então encobertas pelas pescarias, passaram a ficar mais expostas à erosão do tempo, e à impiedosa mão do homem, e, após a independência de Angola,  mais ainda se vêm estragando. Eis o seu aspecto actual.  

E, no entanto, apesar do aspecto árido, seco e agreste, este local guarda Historia intrinsecamente ligada à cidade de Moçâmedes e a Angola. É um «ex-libris», faz parte da História de Portugal e da História Universal de Portugal. A "Angra do Negro" de Diogo Cão, serviu de ponto de passagem dos primeiros navegantes que passaram por ali nas suas navegações pelo vasto mundo, e, pelo muito que representam, mereciam ter chegado aos dias de hoje preservados, e e não maltratado ou destruídos.


Para além de terem servido de abrigo a mareantes e corsários que no decurso dos séculos por ali passavam e ali faziam «aguada», deixando impressas «inscrições» de grande valou histórico, estas  furnas ou grutas serviram de primeira morada aos pioneiros algarvios que, idos de Olhão começaram a chegar a Moçâmedes a partir de 1861,  fazendo-se transportar sem quaisquer ajudas dos Estado, em caíques, palhabotes e barcos à vela, e que a despeito de muitas e variadíssimas contrariedades, ali se foram estabelecendo, construindo as suas primeiras habitações, lançando ao mar as primeiras redes, e dando início ao desenvolvimento de uma nova era para o Distrito, cuja riqueza seria proporcionada pelo mar.   

Há notícia que também foi nestas «grutas» que se alojaram alguns dos elementos das colónias de luso-brasileiros, vindas de Pernambuco, Brasil, que haviam chegado a Moçâmedes, em 1849,  na barca «Tentativa Feliz» e  em 1850, na barca «Bracarense», por não terem conseguido lugar nos «barracões» mandados construir para os receber.

Termino, lembrando a necessidade de preservação deste histórico local, com este texto de Mário Pinto de Andrade, primeiro sociólogo angolano e Presidente, à época, do recém fundado MPLA, quando da prisão de Agostinho Neto pela PIDE:

«A cultura compreende tudo o que é socialmente herdado ou transmitido, o seu domínio engloba uma série de factos dos mais diferentes: crenças, conhecimentos, literatura (muitas vezes tão rica, então sob a forma oral, entre os povos sem escrita) são elementos culturais do mesmo modo que a linguagem ou qualquer outro sistema de símbolos (emblemas religiosos, por exemplo) que é o seu veículo, regras de parentesco, sistemas de educação, formas de governo e todos os outros modos segundo os quais se ordenam as relações sociais são igualmente culturais; gestos, atitudes do corpo, até mesmo as expressões do rosto, provêm da cultura, sendo em larga escala coisas socialmente adquiridas, por via da educação ou da imitação; tipos de habitação ou de vestuário, instrumentos de trabalho, objectos de trabalho, objectos fabricados e objectos de arte, sempre tradicionais, pelo menos em algum grau - representam, entre outros elementos, a cultura sob o seu objecto material»
in Mário Pinto de Andrade Do Preconceito Racial e da Miscigenação [inédito].




A "gruta" ou "furna" que pertenceu à pescaria dos meus avós, já em estado avançado de degradação. à esquerda e à direita, os quartos em adobe que serviam de armazém à pescaria
  

Das minhas memórias...


Finalmente consegui a foto que tanto gostaria de colocar aqui:
 

AS GRUTAS DO MORRO DA «TORRE DO TOMBO»,  E A PESCARIA DA MINHA AVÓ...

Em Moçâmedes nasci, nasceram os meus pais, em Moçâmedes casei e nasceram os meus filhos. Na infância e na adolescência trepei algumas vezes, de cima baixo e de baixo para cima, este morro, entrei em algumas dessas «grutas» ou «furnas», que na sua maior parte serviam de minúsculos armazéns às pescarias, mas nunca na Escola fui sensibilizada para a importância deste histórico local. Nem eu nem ninguém...  Os programas das escolas, cingidos que se encontravam a regulamentos, não lhes deram qualquer atenção. Mais importante era aprendermos os apeadeiros dos Caminhos de Ferro portugueses, as serras, os montes e as montanhas do território metropolitano e ilhas adjacentes, etc, etc... Não admira, a política de então, era o silenciamento em relação às grandes questões que tocavam a todos nós! Vivíamos como que alienados, sem nos darmos conta que estávamos construindo as nossas vidas sobre um barril de pólvora que a todo o momento poderia explodir. E um povo sem História é obviamente um povo sem memória,  incapaz de compreender o passado, incapaz de se situar no presente, logo, incapaz  de se projectar o futuro. Futuro esse que em Moçâmedes, não estava reservado para nós!


Continuemos...

Na adolescência assisti à demolição das pescarias que circundavam a falésia  da Torre do Tombo, e deixaram as «grutas» ou «furnas» a descoberto. Confesso que nunca pensei fossem tantas! Lamentavelmente, não me lembro de lhes ter dado alguma importância, não obstante as memórias que ainda hoje evocam.

 

Olhando melhor para a foto da "gruta" ou "furna" que pertenceu à pescaria dos meus avós, parece incrível que eles tivessem conseguido transformar três delas, que se achavam anexas à sua pescaria, na casa perfeitamente habitável que conhecemos. Essa «casa» cavada na rocha branda, possuía três compartimentos construídos no interior, ou melhor,  três «grutas», ligadas entre si por um pequeno corredor interior de comunicação.  O acesso era efectuado através de duas portas, e  as «grutas» eram ventiladas através de duas janelas com as respectivas portadas envidraçadas (a 1ª foto apenas permite ver uma porta e uma janela). Num dos dois primeiros compartimentos encontrava-se uma autêntica sala comum devidamente mobilada, com mesa, cadeiras, louceiro, sofá onde se podia dormir, e até havia quadros na parede; o outro fazia de quarto de dormir e possuía uma cama de casal, duas mesas de cabeceira e um guarda roupa. No terceiro compartimento havia uma pequena mesa, cadeiras, um pequeno armário, e no lado de fora, junto da entrada, um forno construído em tijolo e barro, com porta de abrir e fechar, onde se podia cozer pão.  O tecto das «grutas» eram altos e ligeiramente arredondados, e tal como as paredes e a entrada, encontravam-se rebocados e caiadas de branco, tal como o interior do forno era assim arredondado, mas em miniatura. Na parte de fora havia um canteiro com flores e duas oliveiras que davam azeitonas apesar de a terra ali estar perto do mar. Tudo isso era possível graças à terra humosa trazida das "hortas" que ladeavam as margens do rio Bero.

                                                           Canôa/Embarcação

Como estas «grutas» ficavam num plano um pouco acima da base da falésia, para se chegar a elas, como se pode ver pela foto, tínhamos que subir um pequeno lance de escadas que tinham início num corredor entre dois quartos de adobe, que ficavam entre a estreita estrada de terra batida e a pescaria, e que serviam de morada para os serviçais que eram muito poucos, não contratados, mas sim "quimbares" livres, dedicados à pesca à linha numa canôa (pequena embarcação). Esses quartos de adobe são visíveis na foto exposta. De início não havia estrada, era um simples e atribulado carreiro que ia dando acesso às pescarias que percorriam a base do morro, porém quando a minha avó ficou viúva e tornou a casar, o seu segundo marido, Manuel Paulo, tinha recebido uma herança de família vinda da Metrópole, e dado o grande apreço que tinha pelas ditas «grutas»,  investiu nos anos 40 no seu arranjo. A estreita estrada que mais tarde passou a existir, foi Manuel Paulo que nessa altura trabalhava ali perto, nos armazéns do Sindicato da Pesca,  que  em conjunto com outros proprietários das pescarias da zona,  procedeu à sua abertura. A iniciativa foi tomada por particulares, porque nem as autoridades da terra, nem o governo geral davam na altura qualquer importância às gentes que ali laboravam, ou qualquer atenção ao local. O trabalho da abertura da estrada foi efectuado por degredados metropolitanos a  cumprir pena na Fortaleza de S Fernando em Moçâmedes.

O meu irmão Amilcar e a tia Lidia à porta da "furna" ou "gruta" . 1942. A tia Hélia a espreitar, e o avô Manuel Paulo sentado no interior da "furna" de perna cruzada.


À beira da chegada a meados do séc XX, continuava ainda a velha mania de fazer de Angola um lugar de destino para degredados a cumprir pena, e de toda escória humana que a sociedade metropolitana não queria, e que tanta má fama deu à colonização. Aliás de início era com degredados que se tentava colonizar, nesse  tempo em que os portugueses negavam-se a "emigrar" para África devido à fama da malignidade do clima, mortífero para europeus. Havia que cumprir os ditâmes saídos da Conferência de Berlim (2884-5) que obrigaram Portugal a que proceder à ocupação efectiva das colónias africanas, sem a qual corria o risco de a ter que as ceder a outra potencia em condições de o fazer.  E  no caso dos deportados, é preciso que se diga, que muitas injustiças foram cometidas. Degredados houve que não passaram de gente metropolitana pobre e indefesa. Um dos deportados para Moçâmedes requisitado para aquele trabalho da abertura da estrada, na década de 1940, chamava-se Lino. A criatura, um bom homem, era oriunda da Póvoa de Varzim, latoeiro de profissão. Sempre se  afirmou inocente em relação ao crime de assassinato que lhe haviam inculpado. Os meus avós acreditavam na sua inocência, consideravam-no uma pessoa educada e  de porte irrepreensível.  O pobre Sr. Lino tinha sido condenado e degredado para  Moçâmedes  porque numa fatídica manhã, ao romper do dia, quando ia de bicicleta para o trabalho, pela berma da estrada,  encontrou caído junto a uma ravina um homem ensanguentado, e,  julgando-o ainda vivo, tentava arrastá-lo para a estrada a fim de pedir socorro. Mas o verdadeiro assassino encontrava-se escondido por detrás de uma árvore, e para se ilibar, incriminou-o, pondo-se aos gritos a chamar-lhe "assassino... assassino..." . Não obstante o  carinho que meus avós lhe proporcionaram, minado pelo desgosto, e saudoso da sua terra e da sua família  (tinha uma filha a estudar para professora e teve que desistir) , foi acometido de doença súbita enquanto fazia os trabalhos da estrada, e acabou por falecer a meio caminho para o Hospital, quando estava a ser transportado numa tipóia. A prova da sua inocência chegou alguns anos mais tarde, quando à beira da morte, arrependido, o assassino acabou por confessar a autoria do crime. Estas eram estórias que eu desde a infância me habituei a escutar, e que fui retendo, até que vieram ao de cima quando hoje em dia vou tentando compreender aquilo que foi de facto a colonização. Colonização que só será entendida no dia em que o historiador for capaz de se distanciar o suficiente para ser capaz de distinguir colonização (simples sistema de fixação de emigrantes trabalhadores e pequenos investidores) de colonialismo.

Manuel Paulo, o meu 2º avó, tinha investido o dinheiro da sua herança, vindo da metrópole, nas «grutas» da Torre do Tombo, que de início serviam de armazém onde guardava os apetrechos da pescaria que passara a administrar ao ter casado com a minha avó que anos antes tinha ficado viúva. Fê-lo por uma paixão e  «apego» àquele histórico local, e porque elas ficavam muito próximas dos Armazéns do Sindicato da Pesca de Moçâmedes onde trabalhava, o que lhe facilitava na gestão do tempo. Sei que era ali que almoçava e dormia a sesta, regressando ao fim do dia para a casa grande que possuíam, juntamente com um terreno, próximo de uma pedreira e do edifício onde mais tarde foi construida a Escola Industrial  e Comercial Infante D. Henrique, de Moçâmedes.

Resta referir que as  «furnas» da minha avó que abrangiam 3 amplos compartimentos, como se de uma casa se tratasse, de tão bem cuidadas que se encontravam, que eram motivo de curiosidade de altos dignitários do governo português, que, embora nada tivessem feito por elas, quando de passagem por Moçâmedes não deixavam de as visitar, conduzidos para ali pelo grande amigo de Moçâmedes, o muito estimado veterinário Dr. Carlos Carneiro.

Embora não venha referido no programa oficial da visita a Moçâmedes do Presidente Óscar Fragoso Carmona, em 1938, estas «grutas» foram visitadas por sua esposa e filha, Maria do Carmo Fragoso Carmona e Cesaltina Carmona Silva e Costa que ali se deslocaram acompanhadas de vários elementos masculinos e femininos da comitiva presidencial, de entre os quais, Maria do Carmo Vieira Machado, esposa do Ministro das Colónias, Francisco José Vieira Machado.  Antes porém já havia sido visitada por um outro elemento da Comitiva, o General Amílcar Mota, que para ali se deslocou no automóvel do moçamedense Mário de Sousa (o conhecido proprietário de uma oficina de reparação de automóveis e de um taxi) para combinar o momento da visita. Mário de Sousa sempre disponibilizava o transporte para estas deslocações.

Estas informações foram-me fornecidas pela minha muito querida tia Maria do Carmo Paulo Matos,  (Carminha), hoje com 85 anos de idade, na época uma adolescente, porém dotada de uma memória incrível, uma vez que não esqueceu os nomes completos dos visitantes, que não se cansa de referir. E é com certa mágua que a tia Carminha recorda o momento dessa visita em que Maria do Carmo Fragoso Carmona, a esposa do Presidente da Républica, Carmona, talvez atraída pelo facto de ambas possuírem o mesmo nome, a convidara para ir para a Metrópole continuar os estudos, ficando à sua guarda, ideia que a sua mãe, a minha avó, recusara, prejudicando o seu futuro. Hoje sei que naquele tempo o nome Maria do Carmo  estava muito em voga.
Nós junto do morro, em 1955. Por esta altura estavam fazendo terraplanagens 
para as obras da marginal e cais acostável



Em 1954 no decurso de uma visita a Moçâmedes do Presidente da República, General Craveiro Lopes, tiveram inícios as obras da marginal e cais acostável. Em 1957 o 1º troço foi inaugurado, com a presença do Governador Geral.

Momentos da inauguração, em 1957, com a presença do Governador Geral.

 Celísia Calão, basquetebolista do Ginásio Clube da Torre do Tombo entrega as chaves da cidade  à chegada do Governador Geral. 
 
 Entidades representantes das "Forças Vivas" da cidade de Moçâmedes recebem no cais o  Governador Geral. 
 

Com as terraplanagens, o morro sofreu vários desgastes e as grutas ou furnas igualmente. Posteriormente estas têm vindo a sofrer, progressivamente, a erosão do tempo.







MariaNJardim

 Nota: Tive a agradável notícia dada por alguém recentemente chegado de Angola, que o governo está empenhado em avançar junto da UNESCO, a propositura destas «furnas» ou «grutas» ao estatuto de património mundial.  Será que vão a tempo?