Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 24 de março de 2010

OS PRIMEIROS PRODUCTORES DO DISTRITO DE MOSSÃMEDES NA EXPOSIÇÃO DO PORTO EM 1865

Front Cover
João Duarte de Almeida 
João Duarte d'Almeida
Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro  
Bernardino Freiré de Figueiredo Abreu e Castro
Joaquim Paiva Ferreira

Joaquim Paiva Ferreira

[1ªcolonia+Bumbo.png]
José Leite de Albuquerque


A cultura do algodão  iniciada pelos colonos de 49 e 50, assumiiu no sul de Angola um tão acentuado desenvolvimento, que o porto de Moss
ãmedes chegou a ser, de todos os portos da província, aquele por onde se fazia mais larga exportação daquela preciosa malvácea. E a cultura da cana, tentada simultaneamente no distrito, que iria medrar, com notável pujança, nos vales do Giraúl, do Bero e do Curoca, merecera, de igual modo, a atenção e os vigilantes cuidados aos antigos colonos.
Carta do Brasão de Armas do Município de Moçâmedes encontra-se registada no livro nº. 50 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.»

PRODUCTOS DO DISTRITO DE MOSSAMEDES
DA RELAÇÂO DOS PRODUCTOS DA PROVINCIA DE ANGOLA ENVIADOS PARA A EXPOSIÇAO DO PORTO

PRIMEIRA DIVISÄO.
307. Bernardino Freir de Figueiredo Abreu
e Castro, Mossamedes. Gesso em pedra.
369. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Mossamedes. Gesso em camadas.
376. O mesmo: - Cobre
377. O mesmo :-Bumbo -braceletede Cobre
395. Nogueira Souza e Comp., Mossamedes - Cafe
401. Affonso Lage - Mossamedes - feijao Quiburi
406. Conselho Ultramarino, Mossamedes  -Massambala branca
A Comnissao da Provincia (Mossamedes - Massango
407- Massambala branca
408 - Massambala rubra
409-Conselho Ultramarino, Mossamedes -Massango
410- A Comissao da Provincia Mossamedes - Massango
414- Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (Mossamedes) -Fruto  de Umpeque
415- A Comnissao da Provincia (Mossamedes) -Mendhoin

CLASSE 4.a 
Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (Mossamedes)
488. Assucar mascavado.
489. Assucar branco
CLASSE 6."
520. Conselho ultramarino, Mossamedes. Urzela de arvore.
Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (.Mossamcdcs)
525. Urzella do arvore.
536. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Mossainedcs. — Sal amargo
550. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Mossamedes.Óleo de uuaueque
557. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro. Mossamedes. Aguardente de cana.
558. José Joaquim Costa, Mossamedes Aguardente de cana.
559. José Leite de Albuquerque, Mossamedes.— Aguardente de cana.
560. Augusto Guedes Cuchicho Garrido, Mossamedes.Aguardente de cana.
Joaquim de Paiva Ferreira (Mossamedes)
561. Aguardente de 24 graus
668. Álcool de 36 grau
TERCEIRA DIVISÃO.
CLASSE 21.a
João Duarte d'Almeida (Mossamedes)
565. Capulhos de algodão arbóreo.
666. Capulhos de algodão rasteiro.
567. Conselho ultramarino, Mossamedes. Algodão com caroço.
570. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Mossamedes.— Algodão com caroço.
578. Affonso Lage, Mossamedes. Algodão com caroço.
575. O mesmo, Mossamedes.— Algodão amarello com caroço.
579. Affonso Lage, Mossamedes.—Algodão amarello com caroço.
Luiz .José de Oliveira (Hossamedes)
580. Fio de algodão.
581. Grosseria d'algodão.
583. Sarja de algodão.
583. Panno tecido com algodão amarello.
584. Cotim de algodão.
585. Cobertor de algodão.
587. Manoel dos Santos Ferrão, Huilla. — Pelle de bezerro.
588. Conselho ultramarino, Huilla.Solla.

Inclui Fotos de 4 proprietarios concorrentes a esta exposição, incluidos na lista. Tenha-se em conta que esta exposição realizou-se em 1865, ou seja, 16 anos apos a chegada dos primeiros colonos que idos de Pernambuco fundaram em 1849 a povoação de Mossamedes

Sobre José Leite de Albuquerque, ver referencias elogiosas por  Francisco Travassos Valdez Jornal do Commércio publicado periodico "O PORTUGUES" 1862 , artigo intitulado Ultramar "O Triunpho" , em como chegado de Pernambuco, Brasil a Mossamedes em 1849, após 13 anos de trabalho arrendara a sua Fazenda no Bumbo (cana de açucar e aguardente) e passou a viver na Metrópole de rendimentos. Ver mais ou menos a meio da página:AQUI

Sobre João Duarte de Almeida
A viver no Brasil desde 1838, em 1849,  por força da onda de antilusitanismo que grassava em Pernambuco, viajou para Angola na barca Tentativa Feliz, integrado na 1. colónia de emigrantes chefiada por Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, que vinha dar inicio a povoamento de Mossãmedes.

Em1859 era proprietário de três fazendas em via de desenvolvimento, uma, situada na Várzea dos Casados, outra em S. Nicolau, e a terceira no Coroca.  Foi o maior cultivador de algodão do distrito de Mossãmedes, e cultivou tambem a cana de açúcar para aguardente. No decénio de 1849-1859  também se dedicou  a outros ramos de actividade, como o da indústria de charqueação e o da colheita da urzela. Em 1890 possuía o maior empreendimento agrícola da Colónia de Angola, com 1300 hectares de terreno cultivados e com 400 serviçais a trabalharem para si. Duarte de Almeida e Alves de Bastos, eram à época os dois homens mais ricos da colónia de Angola. Concorreu a várias exposições agrícolas e industriais (de Paris, de Antuérpia, do Porto, etc), sendo-lhe conferidas medalhas de ouro pela boa apresentação dos seus produtos.
Lutou ao lado de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro pela abolição  da escravatura em Angola (do Livro intitulado "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro" by Vicente, Jose (Gil Duarte), pg 1959, e sobre a repressão do tráfico de escravos, correspondia-se com o Ministro Sá da Bandeira que, em carta que lhe dirigira, o considerava o braço direito da abolição da escravatura. Era agraciado com as comendas das ordens de Cristo e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Exerceu em Mossãmedes os cargos de juiz substituto e de Presidente da Câmara Municipal.

Testemunhou, com o doutor Lapa e Faro, o acto solene do reconhecimento, manifestado pelos antigos colonos, na Escritura de Promessa e Voto, de 4 de Agosto de 1859.

Casou com D. Amélia Josefina da Costa (foto acima), filha de Jose Joaquim da Costa, chefe da 2 colonia ida de Pernambuco para mossamedes, em 1850, seu companheiro de colonização, e tiveram 6 filhos: Alfredo, Amélia, Laurentino, Adelaide, Albertina e Elisa Duarte de Almeida. Alfredo. Faleceu a 9 de Julho de 1898. Repousa, sob artístico mausoléu «aristocrático» que ainda hoje e pode ver no Cemitério de Mossãmedes, como tantos outros portuguêses que se transferiram na primeira metade do século XIX de Pernambuco para Mossãmedes, em túmulos de estilo luso-Católico.
Nota: No principio da decada de 1860 Mossamedes possuia 11 fazendas onde se cultivava algodao,  empregando 350 escravos e libertos, sendo o total de 350, a maior parte das quais pertenca de Duarte de Almeida. Da producao anual nessa epoca calculava-se em 1780 arrobas de algodao.
 .

Fontes:
in «Moçâmedes», 1º volume de Manuel Júlio de Mendonça Torres
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É já admiravel este desenvolvimento da cultura da preciosa planta textil em Mossãmedes, mas não é tudo: no primeiro semestre do anno de 1866, a exportação subiu a 105:239 kilogrammas, na importancia de 67:5385918 réis, isto é, foi superior em 5:5435518 réis ã exportação de todo o anno de 1865.

E não só melhorou em quantidade, como vemos, mas tambem em qualidade; pois, segundo informações hem fundadas, o algodão em Mossamedes já é mui considerado nas fabricas de Portugal pela sua excellente qualidade, e goza egualmente de hom credito em Inglaterra, pelo que tem mais valor no mercado que o de outras procedencias. A importância da nossa producção colonial, sobre tudo em Inglaterra, onde as industrias sahem o que lhes convem e sõ apreciam o que é hom e util, lisonjeia-nos, na verdade, e póde servir de estimulo e incitamento para os futuros povoadores da Africa Occidental, tão desprezada, tão esquecida, e, principalmente, tão desconhecida c tão mal apreciada.
Em 1865, a importação pela alfandega de Mossamedes foi de 86:0675606 réis.
A exportação foi de 148:8315485 réis   CONT...



"... Grupo de gente boa e menos boa e até má, que, com todas as suas contradições, iniciou a construção de uma cidade de que toda a gente que nela viveu ou vive se orgulha.

"...No futuro, o neo-colonialismo obedecerá a esquemas de Estados, subordinados a programas das multinacionais. A colonização portuguesa foi feita ao sabor do espírito aventureiro de um povo que se sentia mal-tratado na sua própria terra. O Estado só apareceu para estragar."

    In "Os colonos"

de Antonio Trabulo

***



Cântico

Bendito seja quem te visionou
Aquém do grande mar,
E, escorraçando medos te encontrou
E sorriu ao teu virgem despertar!

Bendito seja quem te abriu o seio
E nele fecundou o gosto pela vida!
E misturou o trigo e o centeio
Com o maná da terra prometida!

E quem te deu a vida incondicionalmente,
Só pelo gosto puro de ser teu;
E quem por ti lutou e o sangue quente
Por ti feliz verteu!
E mais sincerasmente:
BENDITO SEJA QUEM POR TI MORREU!


Bendito seja quem te pôs a água
No seio do deserto a arder em mágoa!
Bendito quem te deu cravos e rosas
E carnes sãs e frutas saborosas!


Bendito quem te deu as velas brancas,
Os risos claros e as almas francas!
 

Bendito seja quem te abriu as ruas
E que te fez linda como virgens nuas!
Benditos sejam todos os que lutam,
Os que aqui vivem, sofrem e labutam,
Pioneiros do Sonho e da Verdade!
Benditos sejam todos! Que o meu grito
Repercuta sonoro no infinito
E faça eco em Deus na eternidade!

(Angelino da Silva Jardim, poeta moçamedense)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Mossamedes Antiga na pena de José Pereira do Nascimento In «O districto de Mossamedes: 1892

 



Fotografias: Moraes, J.A. da Cunha, Álbum photographico e descriptivo, África Occidental. David Corazzi Editor, Lisboa, sem data.


Villa de Mossamedes

«A capital do districto e cabeça do concelho, denominada a Cintra d' Africa pela amenidade do seu clima, está situada em bella prespectiva no fundo de uma ampla e bem  abrigada bahia em forma de ferradura na latitude do parallelo 15º.

Foi fundada em 1845 por um grupo de corajosos colonos que imigraram do Brazil e se estabeleceram na bahia da Angra do Negro, onde apenas havia uma feitoria iniciada em 1840.

Possue ruas espaçosas, compridas, bem alinhadas e divididas em quarteirões simetricos, todas calçadas e illuminadas a petróleo. Nota-se n'ellas extremo aceio e limpeza, que rivalisam com a regular disposição e óptima divisão. Possue uma bella avenida arborisada que se prolonga com a praia e dá lindo aspecto ás suas casas, que se destacam por entre renques de palmeiras.

As casas são lindas construcções modernas, em que as boas condições hygienicas andam a par com o bom gosto e solidez. Quasi todas são assoalhadas e forradas com boas madeiras da Europa. São bem divididas, bem orientadas e aceadas. Os seus tectos são chatos e as frontarias, pintadas com gosto, são dispostas com arte e belleza. Quasi todas possuem jardim e quintal, que fornece excellentes hortaliças e tem uma ranma d'onde se extrae a agua para os usos ordinários.

Existem largos e jardins publicos bem situados, com tanques d'agua para uso do publico.

A leste da villa encontra-s um largo gradeado, em cujo centro foi erigido por subscripção publica um monumento em honra do benemérito governador Leal, que  iniciou os grandes melhoramentos que tornam Mossamedes a mais  formosa cidade europea da costa occidental da Africa e a única que pode compelir em aceio, regularidade e hygiene com as cidades da Europa.


Os seus principaes edifícios públicos são : o palácio do governo, o melhor das nossas possessões, bella obra de architectura montada com luxo e grandeza; n'elle estão installadas as principaes repartições publicas: a fortaleza de S. Fernando, construída sobre um rochedo, que domina a formosa bahia; serve de quartel ao 4º batalhão de caçadores: a alfandega, lindo edifício situado a meio da rua principal, próximo á praia; possue vastos armazéns e boas sallas; communica por meio de carris de ferro com a ponte-caes, boa construcção em ferro e madeira: o hospital em corpos separados formados de barracões, systema Tollet: a igreja, o matadouro situado optimamente á beira mar, o cemitério, bastante afastado da villa, a repartição do correio e das obras publicas, etc. 

Entre os edifícios particulares encontram-se bellos e elegantes primeiros andares e rez-do-chão, que fariam honra a qualquer cidade europêa, destacando-se d'entre elles pela sua elegância, situação e commodidade o chalet da companhia telegraphica.

A natureza não foi pródiga na distribuição dos seus benefícios a Mossamedes. O terreno sobre que assenta a villa é secco, arenoso e areno-calcareo ; a vegetação expontânea é rachitica: pois apesar de tão pouco favorecida, Mossamedes revela a que ponto chega o esforço da raça, que em 40 annos de trabalho persistente conseguiu transformar aquelle areal em uma formosa villa com jardins e hortas, onde os recursos são abundantes, a alimentação é excellente, barata e variada, com lojas onde se encontram todos õs géneros europeos e um mercado bem sortido.

Tudo quanto ali ha é devido á iniciativa e trabalho do europeu que se aclimou e produziu gerações sadias e robustas em 3º e 4º grau, que ali vivem e se desenvolvem sem manifestações apparentes que revellem resistências orgânicas á adaptação ao novo meio. A raça branca ali procreada progride de um modo evidente ; as creanças coradas, robustas e alegres não manifestam o menor vestígio da intoxicarão palustre.

Continua....

In «O districto de Mossamedes» , de José Pereira do Nascimento
0 Críticas. Typographia do jornal As Colonias Portuguezas, 1892 - 172 páginas

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quinta-feira, 18 de março de 2010

António Aniceto Monteiro, um ilustre filho de Mossamedes ( a ex-Mocamedes, actual Namibe - Angola)


Em meados dos anos 40 e durante a sabática

Digitalização de Jorge Rezende
Agradecimentos a Edgar Ataíde
© Família de António Aniceto Monteiro
António Aniceto Monteiro é o primeiro investigador moderno português em Matemática. Foi um dos impulsionadores do Movimento Matemático que, entre 1936 e 1947, a partir de Lisboa, lançou os fundamentos do que foi na altura, e que poderia ter continuado a ser, uma verdadeira Escola de Investigação, de Divulgação e de Ensino daquela Ciência em Portugal. No que diz respeito à investigação científica foi ele, sem dúvida, a figura central do Movimento Matemático.  Há três nomes maiores do Movimento Matemático (1936-1947): Bento de Jesus Caraça, Ruy Luís Gomes e António Aniceto Monteiro. Não se pode dizer que este último tivesse uma envergadura menor do que os outros dois. É o menos conhecido porque foi obrigado a exilar-se em 18 de Fevereiro de 1945, nunca tendo sido professor de uma escola portuguesa.
*   *   *

Os pais de António Aniceto Monteiro

Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro
Ver:
Angola e António Aniceto Monteiro
Maria Joana Lino Figueiredo da Silva
António Ribeiro Monteiro (1880-1915)

Intervenção no "Colloquium António Aniceto Monteiro", 4 de Junho de 2007

Angola e António Aniceto Monteiro
Jorge Rezende (*)



Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro

Estas fotografias dizem respeito à segunda estadia (depois de 16 de Dezembro de 1910) do tenente Monteiro em Angola. Devem ser datadas já de 1911 a 1915. Ver: Angola e António Aniceto Monteiro.



                   António Aniceto Monteiro – O matemático que olhava Portugal de longe

António Aniceto Monteiro nasceu em 1907, em Moçâmedes, filho de um oficial do Exército que viria a desaparecer quando cumpria uma comissão de serviço em Angola. Tal como tem acontecido com muitos jovens desde 1803, ano da fundação do Colégio Militar, a sua Mãe recorreu aos serviços do nosso Colégio e Aniceto Monteiro ingressou nele a 1 de Novembro de 1917 com o nº78.

Decorria o ano de 1917 e em Portugal anunciava-se o milagre de Fátima e apelava-se à oração pela Paz, pois na Europa ela era uma utopia. Na Europa Ocidental assistia-se à 1ª Grande Guerra, 1914-18, onde o desprezo pelos direitos humanos levou ao massacre de dezenas de milhões de civis inocentes. Entretanto, na Europa Oriental, dava-se a revolução bolchevique na Rússia que viria a ter grandes reflexos na futura conjuntura política europeia e mundial. Em contraponto na Inglaterra, livre do flagelo da guerra, a paz, a democracia, o respeito pelos direitos humanos e os desenvolvimentos económico e social eram uma realidade. Longe estaria Aniceto Monteiro de pensar, nesse momento, que algumas consequências destes acontecimentos políticos iriam afectar decisivamente o seu futuro.

Mas, voltemos a Aniceto que vai frequentar o Colégio até 1925 onde se revela um aluno mediano, nada fazendo crer que mais tarde se tornaria num ilustre matemático, internacionalmente reconhecido. Aniceto Monteiro possuía uma formação cívica sólida e foi, ao longo da sua actividade colegial, distinguido com três louvores, designadamente, dois pelo seu “procedimento moral”; no entanto, jovem e irrequieto que era, também sofreu castigos um dos quais no último ano por fumar, hábito que não o largou a vida inteira. Terminou o Curso Complementar de Ciências no Colégio Militar com a média geral de 12 valores e 14 valores a Matemática tendo, contudo, na generalidade melhores classificações em Física.

No ano seguinte Aniceto matricula-se no Curso de Ciências Matemáticas da Faculdade de Ciências de Lisboa, concluindo a sua licenciatura em 1930 com a média de 15 valores. De 1931 a 1936, é bolseiro do Instituto para a Alta Cultura, em Paris, tendo, em 1936, obtido o grau de Doutor em Ciências Matemáticas pela Universidade de Paris com a menção distintíssima de “très honorable”. O seu doutoramento foi orientado por Maurice Fréchet, professor da Sorbonne, e mereceu do júri, para além da mais alta classificação, a seguinte referência: “agradecemos ao Instituto para a Alta Cultura por nos ter enviado um candidato que revelou grande entusiasmo e aptidões excepcionais para a investigação” Destaquei apenas esta frase de vários parágrafos da carta, elogiosa, que foi dirigida ao Instituto para a Alta Cultura.. Em França, Aniceto contacta com a investigação Matemática e com os moldes da sua organização e aí ganhou incentivo para o prosseguimento das suas investigações. Regressa a Portugal com o entusiasmo de um jovem que sempre teve “uma atitude rica perante a vida” que, como um cidadão exemplar, entende que tendo sido bolseiro, deverá retribuir ao País os frutos do seu trabalho e da sua capacidade.



Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro




Mas se, em 1917, ano em que se torna “menino da luz”, os tempos não são fáceis para a Europa, em 1936, ano em que regressa a Portugal, a conjuntura política Europeia adensa-se e adivinham-se novos e terríveis conflitos cada vez mais desumanos. A Europa continua a não encontrar a Paz e a retardar os caminhos da democracia quer através de novos conflitos regionais étnicos, quer através de regimes ditatoriais. Os desenvolvimentos económico e social de alguns países, alicerçados numa democracia com respeito pelos direitos humanos, continua a não ser um exemplo para muitos dirigentes políticos europeus. À criação do regime comunista implantado na Rússia, com a revolução bolchevique, respondem alguns países da Europa Ocidental e Mediterrânica, entre os quais Portugal, com regimes ditatoriais de direita, cerceando as liberdades civicas de muitos cidadaos, impedindo-os ate de exercer actividades profissionais no seu pais.
Digitalização de Jose Marcilese© Família de António Aniceto Monteiro
António Aniceto Monteiro, Lídia Monteiro e filhos no Porto
(22 de Março de 1944)

Foi exactamente isto que aconteceu com Aniceto Monteiro quando chegou a Portugal. Nesse tempo, era obrigatório assinar um compromisso de fidelidade (estabelecido pela Constituição Política de 1933) para ter acesso à função pública. Aniceto recusa-se a assinar tal compromisso, mesmo depois de pressionado por vários amigos, alguns deles meninos da luz como ele, porque, apesar de não ter qualquer actividade de carácter político, Aniceto considerava o dito compromisso “um insulto à sua inteligência”. Entretanto, os apelos da comunidade matemática repetiam-se e o Regime continuava a negar-lhe o ingresso na carreira universitária. Apesar de consciente que, enquanto se mantivesse o Regime do Estado Novo, seria marginalizado no seu país, Aniceto Monteiro não era homem para desistir e, por isso, não podia deixar de fazer o que sabia e o que mais gostava – exercer funções docentes e de investigação – o que fez mesmo sem auferir qualquer remuneração.

A crise de desenvolvimento da cultura matemática portuguesa era uma realidade. Até Fernando Pessoa através de Álvaro de Campos se referiu ao fraco reconhecimento, que no país, se atribuía ao conhecimento científico afirmando “o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso”. Para inverter esta situação, Aniceto Monteiro, apesar de não ser professor no ensino oficial, fez parte de um movimento pela renovação da cultura matemática portuguesa, para a modernização do ensino e da investigação científica, tendo uma participação associativa muito activa no seio da sociedade civil, conjugando vontades e articulando esforços. Neste âmbito foi um dos três impulsionadores do Movimento Matemático em Portugal, com Bento de Jesus Caraça e Ruy Luís Gomes. Associando-se a estes e a outros eméritos cientistas portugueses participou também na criação da Junta de Investigação Matemática, do Centro de Estudos Matemáticos de Lisboa, da Fundação da Sociedade Portuguesa de Matemática, da qual foi o seu primeiro Secretário-Geral e das revistas científicas da área: Portugaliae Mathematica e Gazeta Matemática. A Portugaliae Mathematica veio colmatar uma brecha nas publicações de nível universitário que se verificou com o desaparecimento, no início do século, da primeira revista portuguesa da especialidade e passou a constituir um local privilegiado para a publicação de trabalhos portugueses inéditos. A Gazeta Matemática era dirigida aos professores de Matemática e aos estudantes universitários para melhor informação sobre o movimento matemático nacional e aos pré-universitários para prepararem devidamente o seu ingresso no ensino superior. Para Aniceto Monteiro, já nesta altura, os jovens, ainda no ensino secundário, já representavam o futuro cientifico em Portugal.

Finalmente, a 2ª Guerra Mundial, 1939-45, está a terminar mas, os ventos de mudança não parecem querer chegar a Portugal tão cedo e o Regime, apesar da vitória dos aliados, irá continuar a não tolerar espíritos livres nem movimentos modernizadores. A repressão aumenta e torna-se imperioso silenciar os intelectuais. O Regime prepara a depuração, a nível universitário, mesmo daqueles que assinaram o compromisso político recusado por Aniceto Monteiro.

Sobrevivendo em condições económicas precárias, Aniceto Monteiro aceita, em 1945, um contrato como professor de Álgebra Superior na Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro, tendo sido recomendado nada mais, nada menos por: Albert Einstein, John von Neumann e Guido Beck. Aí irá, durante quatro anos, organizar o ensino e promover a investigação em Matemática junto dos jovens universitários brasileiros, colaborar na criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas do Rio de Janeiro e influenciar um grande número de futuros matemáticos desse país.

Enquanto outros países tudo faziam para importar cérebros Portugal bania-os. Como foi possível a um país como Portugal não aproveitar o saber de um Matemático recomendado nomeadamente, por Einstein , “apenas” Prémio Nobel da Física em 1921, e John von Neumann que para além de Físico Nuclear, realizou trabalhos muito importantes em Física Quântica, foi especialista na Teoria de Jogos (Matemática/Economia) e criador do ENIAC o primeiro computador da nova geração!

Apesar do modo como foi tratado pelas autoridades portuguesas, Aniceto Monteiro estabeleceu, sempre, relações científicas com o país continuando a orientar teses de doutoramento e a constituir um marco de referência para os jovens Matemáticos Portugueses. Mas o Governo Português continuava a não lhe perdoar a sua verticalidade e generosidade e mais uma vez, através da Embaixada Portuguesa no Brasil, o perseguiu influenciando a decisão da não renovação do seu contrato por parte da Faculdade Brasileira. Lá teve, em 1950, Aniceto Monteiro de procurar novo país de acolhimento.

Esse país foi a Argentina onde, para além de ter leccionado em três Universidades, desfrutou, a partir de 1957, da grande oportunidade de criar um projecto cientifico de raiz, fazendo do Instituto de Matemática de Bahía Blanca um dos centros de Matemática mais importantes da América Latina, associado a uma Biblioteca, de nível internacional, adequada à realização de trabalhos de investigação, à qual em sua homenagem foi dado o seu nome. É designado «Professor Emérito da Universidade Nacional del Sur» na Argentina e jubila-se em 1975.

Em 1977, regressa a Portugal, passados trinta e dois anos de exílio e aqui permanece, como investigador do Instituto Nacional de Investigação Científica, até 1979. Em 1978, é distinguido com o Prémio Gulbenkian de Ciência e Tecnologia tendo a Revista da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar feito uma referência dessa atribuição ao “bom e querido Aniceto”. Que manifestação de afecto e de camaradagem por parte dos outros meninos da luz. Regressa à Argentina continuando a trabalhar até aos seus últimos dias, pois a sua paixão pela matemática não tinha limites. Vem a falecer em Bahía Blanca, em 1980. Em 2000, o então Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, concede-lhe a título póstumo, e no âmbito das comemorações do Ano Internacional da Matemática, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Santiago da Espada. Mais uma vez o nosso país, deixa partir um daqueles que se afirmaram como uma referência, homenageando-o e à sua obra de forma tardia.

Com a sua energia, visão e persistência Aniceto Monteiro dinamizou, por onde passou, a criação de Centros de Investigação e Bibliotecas que deixaram uma marca muito precisa do seu pensamento científico de que a Ciência era para ser partilhada por todos e não apenas por alguns. Foi, sem dúvida alguma, um percursor da globalização dos conhecimentos a nível do ensino, da investigação e da divulgação científica.

Fez parte de uma geração que tudo fez para que Portugal entrasse na modernidade mas, muitos deles, como Aniceto Monteiro foram impedidos de realizar, no nosso País, a sua ambição científica.

O seu comportamento cívico exemplar e o seu carácter, com certeza muito enraizados na sua personalidade pela educação colegial, foram determinantes para as suas actividades profissional e social granjeando de todos que com ele trabalharam e privaram o respeito, a estima e uma amizade duradoura.

Referi, apenas, alguns aspectos da vida de um dos maiores matemáticos portugueses do século XX , de reconhecido mérito internacional, que foi António Aniceto Monteiro aluno 78 de 1917-25 e que será mais uma das grandes referências do nosso Colégio no Âmbito da Matemática juntamente com Fernando Vasconcelos aluno 56 de 1887 e Luís Albuquerque aluno 89 de 1929.

Muito obrigado pela vossa atenção

Vasco Lynce de Faria

Referências: Ana Gerschenfeld “António Aniceto Monteiro - O matemático que olhava Lisboa de longe” - PÚBLICO Comunicação Social SA (Maio 2007).

António M. Fernandes “António Aniceto Monteiro” Educação e Matemática –Revista da Associação de Professores de Matemática (Junho 2007).

José Manuel Sena Neves “António Aniceto Ribeiro Monteiro – Centenário do nascimento de um notável matemático (ex-aluno 78 / 1917-25 do CM) – Revista O COLÉGIO MILITAR (Julho 2007).

Sociedade Portuguesa de Matemática

“António Aniceto Monteiro – Uma fotobiografia a várias vozes” Coordenadores: Jorge Rezende, Luíz Monteiro e Elza Amaral (Maio 2007).

1958
“Ele fundou tudo quanto havia a fundar, participou em tudo quanto havia a participar”
Jorge Rezende
FONTE 

António Aniceto Monteiro: um testemunho sobre o impacto recente da sua obra em Álgebras da Lógica

Seminário de Álgebra
"António Aniceto Monteiro: um testemunho sobre o impacto recente da sua obra em Álgebras da Lógica"Isabel Ferreirim (Universidade de Lisboa, Portugal)
Sexta-feira, 09 de Novembro de 2007, 14h30, Anfiteatro


Complexo Interdisciplinar da Universidade de Lisboa
Av. Prof. Gama Pinto, 2
1649-003 Lisboa




António Aniceto Monteiro tem uma rua com o seu nome em Bahía Blanca, Argentina.
António Aniceto Monteiro não tem qualquer escola ou rua com o seu nome em Portugal ou em Angola, onde nasceu!

Seria de máxima justiça que, pelo menos, fosse dado o seu nome a ruas de Namibe, de Lisboa e do Porto.

O seu amor à terra onde nasceu (Mossâmedes, actualmente Namibe) justificam-no plenamente. Que António Aniceto Monteiro tenha nascido em Angola deve ser motivo de orgulho para os angolanos e também um incentivo para a juventude de Angola.

Todo o trabalho que realizou em Portugal com relevo para Lisboa e para o Porto não está reconhecido ao nível da toponímia das duas cidades. Muito se proclama a necessidade de promover a Matemática em Portugal, mas nenhuma escola portuguesa tem o nome de um dos seus maiores promotores no século XX.
Ver CRONOLOGIA

*    *   * 

CERTEZAS

Vejo as nuvens do céu
os sonhos da minha infância
claridades azuladas
na infinita distância.

Vejo no céu estas nuvens
Brancas, negras, azuladas
que se esfuman num momento
e deformam sem cessar.

Os sonhos da minha infância
Mortos no céu para sempre?

Na infinita distância
Os vazios transparentes.
Azuis, roxos, encarnados
que se turvam num instante
e deformam sem cessar.

Claridades azuladas
Vivas no céu
desde sempre.

Tenho os pés postos no chão
e firmados com vigor
Nos sonhos da minha infância.
Não são sonhos são certezas
que só encontro na Terra!

Claridades azuladas
de transparente constância.
Não estou parado no tempo
Não tenho os olhos fechados!
Na infinita distância
Claridades azuladas
Não são sonhos são certezas
Que só encontro na Terra.

[António Monteiro, 1959]

Antonio Ribeiro Monteiro, as campanhas do sul de Angola e a construção do caminho de ferro de Mossâmedes





Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro
Estas fotografias dizem respeito à construção do caminho de ferro de Mossâmedes (depois Moçâmedes e, actualmente, Namibe) durante a primeira estadia (antes de 27 de Dezembro de 1909) do alferes Monteiro em Angola. Ver: Angola e António Aniceto Monteiro. Ver ainda: CAMINHO-DE-FERRO DE MOÇÂMEDES 1909/1910.

Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro
Esta fotografia diz respeito à construção do caminho de ferro de Mossâmedes (depois Moçâmedes e, actualmente, Namibe) durante a primeira estadia (antes de 27 de Dezembro de 1909) do alferes Monteiro em Angola. Deve ser do início da estadia (à volta de 1906). Ver: Angola e António Aniceto Monteiro.*

O tenente António Ribeiro Monteiro em Angola

Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro
Esta fotografia diz respeito à segunda estadia (depois de 16 de Dezembro de 1910) do tenente Monteiro em Angola. Deve ser datada já de 1914 ou 1915. Ver: Angola e António Aniceto Monteiro

Ver Intervenção no "Colloquium António Aniceto Monteiro", 4 de Junho de 2007

Angola e António Aniceto Monteiro
Jorge Rezende (*)

Digitalização de Jorge Rezende
© Família de António Aniceto Monteiro
O pai de António Aniceto Monteiro chamava-se António Ribeiro Monteiro e era alferes de infantaria quando, em 4 de Julho de 1905, foi requisitado para desempenhar uma comisão de serviço dependente do Ministério da Marinha e Ultramar na construção do caminho de ferro de Mossâmedes. Dois dias depois, na Paróquia dos Anjos, casou com Maria Joana Lino Figueiredo da Silva, “tendo sido dispensados dos proclamas por provisão de Exmo. Prelado” [AAM-CM] datada da véspera. No dia seguinte ao casamento, António Ribeiro Monteiro embarcou para Angola. Dez anos depois, dia por dia, a 7 de Julho de 1915, na sua casa de Mossâmedes, na rua dos Pescadores, morreu de doença, contraída durante operações militares resultantes da guerra no sul de Angola. Era então tenente de infantaria e deixou Maria Joana viúva e órfãos os dois filhos, Maria Petronila e António Aniceto, de nove e oito anos, respectivamente.

Para compreendermos as circunstâncias históricas que determinaram este início dramático da vida e do percurso angolano de António Aniceto Monteiro, temos que recuar até 1884.


Em 15 de Novembro de 1884, iniciou-se a Conferência de Berlim que se prolongaria até 26 de Fevereiro de 1885, em que participaram vários países europeus, incluindo o Império Otomano e ainda os Estados Unidos da América, tendo em vista a definição das regras para a partilha de África. Este continente tinha um solo e, sobretudo, um subsolo riquíssimos, que despertavam a cobiça das grandes potências de então. A grande burguesia industrial e financeira precisava dos recursos naturais africanos, nem que fosse em detrimento das populações de origem europeia que já estavam instaladas no litoral e, acima de tudo, das populações indígenas que, ao longo de gerações e gerações, ali sempre tinham vivido.
Claro que já havia conflitos em África resultantes das pretensões das potências europeias e, justamente, a Conferência de Berlim visava definir as regras daquilo que veio a chamar-se o “scramble for Africa”, a corrida desenfreada para a ocupação de África. Isso implicou o envio maciço de tropas e a consequente escalada dos conflitos principalmente com as tribos africanas. Aquele inverno de Berlim acabou por atear fogo a todo o continente.
Interessa especialmente o que se passou então na região de Mossâmedes, actualmente chamada Namibe. A província de Namibe fica no extremo sul e litoral de Angola e, vendo o mapa no sentido dos ponteiros do relógio, é banhada a oeste pelo Atlântico e faz fronteira, a norte, com Benguela, a leste, com Huíla (cuja capital é Lubango, antiga Sá da Bandeira) e Cunene (cuja capital é Ondjiva, antiga Pereira de Eça) e, a sul, com a Namíbia.
Ao longo de 1900 km, paralelamente à linha costeira, a província de Namibe e a Namíbia são atravessadas por um deserto que se estende para o interior cerca de 80 a 150 km. É considerado o mais antigo deserto do mundo, com mais de 80 milhões de anos, e a sua aridez é causada pelo ar frio e seco provocado pelas águas geladas da corrente de Benguela que corre de sul para nor-noroeste e das profundezas do oceano para a superfície, sobretudo devido à rotação da Terra.

Forças expedicionárias a caminho de África, em 1914
CRONOLOGIA DA PARTICIPAÇÃO PORTUGUESA NAPRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
A DEFESA DAS COLÓNIAS DE ÁFRICA, DE 1914 A 1920

[Retirado de O Portal da História]
Portugal enviou tropas para todas as regiões de África que reivindicava na altura. Em toda a parte havia conflitos, nomeadamente em Angola e Moçambique, mas a situação era particularmente grave no sul de Angola. Segundo René Pélissier “de 1885 a 1915, o sul de Angola foi a guerra”(1).
As populações do sul de Angola eram um mosaico de pequenos núcleos de origem europeia, que coexistiam com a esmagadora maioria de populações negras de diferentes etnias. Entre os primeiros, estavam os boers, instalados durante um período de tempo num território próprio na Huíla(2) e havia, ainda, colonos idos da ilha da Madeira, do Brasil, etc(3). As mais diversas correntes religiosas procuravam exercer a sua influência: católicos, protestantes, espiritanos franceses, luteranos, e outras(4).
Havia o tráfico de armas, como as Martini-Henry e as Westley Richards(5), algumas provindas da guerra civil americana, outras da África do Sul. As tribos africanas não só estavam organizadas – possuindo meios rudimentares de comunicação militar, por exemplo – como estavam armadas com armas de fogo das mais diversas origens(6).
A vida dos soldados portugueses não era, portanto, nada fácil. Além das dificuldades do terreno desértico ou semi-desértico, tinham que contar com uma resistência armada forte e quando, a partir de Outubro de 1914(7), tiveram que combater os alemães, por estes terem invadido o sul de Angola, continuavam a ser os negros os piores adversários. Os soldados que morriam, quando não morriam nos combates, morriam de sede e de doenças provenientes, muitas vezes, de beberem água inquinada. As marchas eram forçadas e os itinerários eram escolhidos de acordo com a necessidade de serem mais velozes do que a transmissão das mensagens através dos tantãs africanos. Os animais eram muito utilizados e, para o transporte de militares, os cavalos eram o meio preferido e, até, imprescindível.
Dos momentos mais altos da guerra, antes da chegada do alferes Monteiro, destacam-se as revoltas do Humbe: a primeira, de 1885-1886, a segunda, de 1891, e a terceira de 1897-1898(8). Um momento de viragem registou-se em 25 de Setembro de 1904(9), com a vitória dos Cuamatos (uma tribo Ovambo), sobre os portugueses, na batalha do Vau de Pembe. As baixas portuguesas foram centenas, entre mortos e desaparecidos. Diz René Pélissier: “É preciso que se meça bem a amplidão desta derrota, que equivalia a eliminar num único dia perto de um décimo das forças totais existentes em Angola”(10). Em Lisboa soou o alarme e fizeram-se planos pormenorizados de envio de homens e material para uma campanha de seis meses cuja despesa prevista era de 1 884 contos, “isto é, aproximadamente o mesmo que em 1892 tinha custado à França a conquista do Daomé”(11). Para dirigir todas as operações, foi chamado o capitão do Estado-Maior Alves Roçadas(12) que, segundo René Pélissier, “estava longe de ser um génio como se provaria com os acontecimentos de 1914”(13). Foi, provavelmente, dentro deste plano geral de ofensiva no sul de Angola que o alferes Monteiro foi requisitado para partir para África num tão curto espaço de tempo.
O alferes Monteiro, pai de António Aniceto Monteiro, tinha nascido em 1880 e assentado praça como voluntário em 1898, com dezoito anos incompletos. Finalizou o curso de infantaria da Escola do Exército em 1902 e foi promovido a alferes em 15 de Novembro de 1903.
Mal chegou a Luanda, em 1905, já casado com Maria Joana, foi enviado para o sul para participar na construção do caminho de ferro de Mossâmedes, que foi iniciada nesse ano, embora a autorização do Governo remontasse a carta de lei de 1890. Em 1907, estavam prontos os primeiros 67 quilómetros. O engenheiro encarregado das obras era Artur Torres, futuro sogro de António Aniceto Monteiro. O projecto previa que a linha fosse até Lubango, antiga Sá da Bandeira, mas as obras pararam em 1910, provavelmente devido à guerra, quando estavam prontos 186 quilómetros. As obras só retomariam em 1917 e ficaram concluídas em 1923.
O casal António e Maria Joana teve dois filhos: Maria Petronila, que nasceu em 5 de Abril de 1906, e António Aniceto, que nasceu em 31 de Maio de 1907, ambos na freguesia de Santo Adrião de Mossâmedes.
Em 8 de Fevereiro de 1908, António Ribeiro Monteiro foi nomeado para provisoriamente exercer o cargo de chefe de dia e obras do caminho de ferro de Mossâmedes e, em 9 de Julho de 1909, foi nomeado condutor de 1ª classe.
No fim desse ano, dá-se uma viragem na vida de António Ribeiro Monteiro e nunca mais regressou à construção dos caminhos de ferro. Em 27 de Dezembro de 1909, por opinião da junta de saúde, veio para Portugal. Desconheço se a família o acompanhou.
Em 5 de Outubro de 1909, chegou ainda a ser nomeado para condutor de 1ª classe do caminho de ferro de Luanda, lugar que nunca ocupou. Em 17 de Abril de 1911 foi colocado na direcção fiscal do caminho de ferro de Benguela mas, não é certo que aí tivesse efectivamente trabalhado.
Nos três primeiros meses de 1910 António Ribeiro Monteiro esteve doente em Lisboa.
No dia 1 de Abril de 1910, foi colocado no Regimento de Infantaria nº 11, em Setúbal e, no dia 1 de Dezembro desse ano, é promovido a tenente. É através de um relatório manuscrito [ARM1], datado de 5 de Novembro, extremamente elogioso, acerca dos serviços prestados por António Ribeiro Monteiro nesse regimento (e que pode ter servido para a sua promoção), que ficamos a conhecer um pouco da sua personalidade singular.
Esse relatório, assinado por José Narciso d’Andrade(14), Coronel Comandante do D.R.R. 5, ao referir-se ao alferes Monteiro, diz “não ser fácil encarecer à altura do seu valor as qualidades de tão illustrado oficial, honestíssimo caracter e homem de sciencia”. Fala ainda nas suas qualidades como “constructor e engenheiro”, nos seus “conhecimentos especiaes ou scientificos”, na sua capacidade de ministrar a instrução aos soldados “subordinado a um plano pratico e compreensivel” e nas “referencias altamente elogiosas” que lhe foram feitas pelo comandante da brigada “motivadas pela execução rapida, perfeito acabamento e rigorosa disciplina em todos os trabalhos feitos”.
Mais adiante o relatório acrescenta:
“Querendo tornar extensivos aos officiaes do meu regimento a pratica dos levantamentos topographicos à vista, convidei o Snr. Alferes Monteiro a expor à corporação o que de mais util houvesse sobre esta especie de trabalhos.
Com tal profundeza de conhecimentos, clareza e feição desenvolveu o thema escolhido que não pude furtar-me a intimá-lo a apresentar por escripto a conferencia oral desenvolvida, com o fim de ser remettida para o Ministério da Guerra e ser devidamente apreciada”.
Entretanto, tinha ocorrido a revolução republicana de 5 de Outubro e, a esse propósito, o relatório do coronel Narciso d’Andrade refere:
“Por ocasião da Revolução que proclamou a Republica em Portugal, Setúbal foi, como se sabe, theatro de desorientação popular que se traduziu por incendios a repartições publicas, egrejas, etc.
Necessario se tornava mandar para a rua a força publica com o fim de evitar, sendo possivel a continuação de similhantes desvairamentos. Um capitão e um subalterno, levando sob o seu comando as praças disponiveis, saíram a coadjuvar a autoridade. Porem a população desrespeitou a força e feriu gravemente o seu comandante, bastante conhecido pelas suas ideias liberaes. Teve a força de retirar, à vista de similhante attitude.
Foi então que chamei o Alferes Monteiro e com uma diminuta força o encarreguei de se dirigir ao povo e obstar à continuação dos vandalismos até então praticados e em ameaça de continuarem.
De tal forma se houve e tal diplomacia desenvolveu que toda a gente acolheu com palmas as palavras do Alferes Monteiro e debandou sem que houvesse a mais leve resistencia ou continuassem na pratica dos actos pelos mesmos praticados. Attenta a attitude do povo, expôs-se n’esta difficil missão, aquelle illustre official, não só a ser desrespeitado como a ser esmagado pelo povo.
A pacificação e tranquillidade dos animos foi obtida pelo habil official da seguinte forma: Mandou fazer alto à sua força a uma distancia consideravel dos ajuntamentos, mas de forma que por todos fosse presenciado. Embainha depois a sua espada e dirigindo-se ao povo, falla-lhe tão patrioticamente que começando a ser ouvido com apupos terminou por ser obedecido com vivas e palmas.
Dias depois a população de Setubal, reconhecedora, combinava-se para lhe preparar uma manifestação de simphatia. Ignoro se se chegou a realizar; mas realizasse ou não, certo é que o Senhor Alferes Monteiro, é hoje, em Setubal, a pessoa de mais consideração que a sua cidade encerra”.
Mais adiante o relatório conta que tendo ele sido nomeado “defensor officioso” de um desertor, foi “por todos considerado um orador eximio, mais parecendo um distincto profissional na advocacia do que um homem que fez a sua estreia como amador”.
O relatório diz ainda que “como chefe de família e caracter está superior a todo o elogio”, o que parece significar que, nesse ano, a família vivia com ele em Setúbal.
É de assinalar que esta estadia do alferes Monteiro em 1910 em Setúbal explica a razão pela qual António Aniceto está registado no “livro de registos de nascimento da Administração deste concelho do ano de – 1910-1911”.
O relatório finaliza com o parágrafo seguinte:
“Tamanha é a gratidão dos habitantes de Mossamedes e tão profundas simpathias alli deixou que a pedido d’aquella cidade vae o alferes Monteiro, muito brevemente, desempenhar alli uma nova comissão de serviço publico”.
Ao ler estas quatro páginas manuscritas que elogiam o alferes Monteiro, é difícil não ver nos traços de carácter descritos, aqueles que viriam a ser os do seu filho, António Aniceto: a grande inteligência, a versatilidade e a amplidão das suas aptidões intelectuais, o sentido prático aliado à competência teórica, a capacidade de comunicação e transmissão dos seus conhecimentos, a simpatia e a coragem.
Em Dezembro de 1910, o recém promovido tenente Monteiro regressou a Angola, tendo embarcado no dia 2 e chegado a Luanda no dia 16.
Não se percebe muito bem onde esteve e o que fez, exactamente, o tenente Monteiro, em 1911. Até ao fim da vida viveu sempre, muito provavelmente, em Mossâmedes e, em 1911, pode ter estado parcialmente ao serviço do caminho de ferro, embora não na sua construção, que estava parada(15).
Entretanto, no ano de 1912, deu-se outro momento de viragem na vida do tenente Monteiro. Em Mossâmedes, no dia 9 de Abril, dirige o seguinte requerimento ao Presidente da República:
“António Ribeiro Monteiro, tenente de infantaria do exército da Metrópole, nomeado em Novembro de 1910, em comissão extraordinária, condutor de 1ª classe do Caminho de Ferro de Mossâmedes – onde já serviu desde Agosto de 1905 até Dezembro de 1909 – encontrando-se actualmente, por exoneração daquele cargo, apresentado na Secretaria Militar do Governo deste Distrito, necessita por motivos de força maior e para tratar de assuntos imperiosos de carácter particular, passar à situação de licença ilimitada; e assim, na sujeição de todas as disposições legais que lhe possam ser aplicáveis,
Pede a V. Ex.ª haja por bem conceder-lhe a referida licença”. [ARM1]
O que este documento significa exactamente, não sei. Apenas podemos imaginar o que sentiria um militar com família, que incluia dois filhos menores, em idade escolar, numa zona de guerra intensa que só tinha tendência a agravar-se. A licença foi concedida, a partir de 1 de Agosto, e o que ele fez depois, com essa licença, ignoro(16).
Sabe-se que, desde 1 de Setembro de 1913, “continuou na situação de adido mas em comissão extraordinária de serviço no Ministério das Colónias” [ARM1], e que foi colocado na “Secretaria Militar de Mossâmedes, por haver desistido da Licença ilimitada, no referido dia 1 de Setembro” [ARM1], tendo sido “nomeado chefe da Secção Militar da Fazenda de Mossâmedes na mesma data” [ARM1]. Foi exonerado deste cargo em 30 de Novembro de 1914.
Sabe-se, também, que até ao fim de 1913 não teve nenhum posto de comando, isto é, nunca participou, directamente, na guerra. A partir do início de 1913, o tempo de serviço em Angola deixou de ser acrescido de 50%, como até aí. Em 20 de Abril desse ano, um documento, assinado pelo tenente Monteiro em Mossâmedes, confirma que a situação tinha mudado radicalmente. Trata-se de um compromisso formal, obrigatório(17), que contém o seguinte texto premonitório:
“Eu, António Ribeiro Monteiro, tenente d’infantaria, juro pela minha honra, como cidadão, como oficial, que, enquanto pertencer à oficialidade do exército portuguez, defenderei a Patria e as leis da Republica, e servirei com zêlo e valor, cumprindo as ordens legais dos meus superiores, fazendo-me obedecer e respeitar dos meus subordinados, segundo a mais severa disciplina, observando e fazendo observar os direitos e deveres de cada um, e procurando por todos os meios ao meu alcance acrescentar a glória da Pátria e do exercito portuguez, para o que, se tanto fôr necessario, sacrificarei a propria vida. E, para firmeza de tudo, assim o declaro”. [ARM1]
Desde o desastre de Vau de Pembe, de 1904, que a guerra não teve um momento de pausa, mas seria despropositado contar aqui tudo o que sucedeu. Seriam necessárias muitas dezenas de páginas. Como já se disse, no final de 1914, os alemães invadiram o sul de Angola. A 18 de Dezembro de 1914, em virtude de opções tácticas erradas, Alves Roçadas é derrotado em Naulila pelas tropas alemãs(18). Mais uma vez, o número de baixas portuguesas é impressionante. No seguimento, Alves Roçadas acaba por vir embora de Angola, sem honra nem glória, embarcando no início de Maio de 1915 [ARM3].


Porém, não partiu para Lisboa sem antes ter colocado o tenente Monteiro na 27ª Companhia Indígena de Infantaria, em 6 de Março de 1915, não se sabendo se este, que tinha mais um perfil de intelectual e nunca tinha ocupado um posto dessa natureza, chegou a combater.
Entretanto, em 21 de Março o general Pereira de Eça(19,20) é nomeado comandante em chefe das tropas e governador geral de Angola. O seu principal objectivo era resolver o problema do sul, e para aí se dirigiu imediatamente para, pessoalmente, dirigir as operações contra os alemães e, sobretudo, contra a população negra.
Mostrando ser mais inteligente que Roçadas, Pereira de Eça nomeou o tenente Monteiro chefe da Secretaria Militar do Distrito de Mossâmedes, no dia 24 de Maio.
O principal documento que relata os últimos dias de vida do tenente Monteiro é de um tenente coronel de infantaria, João Ortigão Peres(21), ex-chefe do estado maior do corpo expedicionário no sul de Angola, e diz o seguinte:
(...)“o tenente de infantaria António Ribeiro Monteiro, encontrando-se em comissão extraordinária no sul de Angola (...). (...) havendo necessidade de proceder a um reconhecimento na região dos Cubáes (serra da Chella) este oficial, apezar de estar ainda bastante atacado pelas febres, pediu insistentemente que lhe fosse confiado esse serviço, que conseguiu levar a bom termo, regressando porem a Mossâmedes num tal estado que faleceu dias depois da sua chegada”.(...) [AAM-CM, AAM-RUL]
A ser verdade que, quando partiu, o tenente Monteiro já se encontrava doente e sendo conhecidas as dificuldades que uma tal missão, de vários dias, comportava, só é de admirar que ainda tivesse regressado com vida.
Anos mais tarde, António Aniceto Monteiro contava, assim, este episódio, provavelmente por lhe ter sido relatado pela mãe: “Tratava-se de averiguar se os alemães tinham invadido o sul de Angola. O meu pai voltou com uma perniciosa. Ao chegar a Mossâmedes, foi saudar a minha mãe e ao sair para o Estado Maior para informar do resultado da expedição caíu desmaiado mas mesmo assim foi ao Estado Maior. Nessa noite jantou em casa o General Roçadas. Meu pai teve que assistir ao jantar deitado numa cadeira de viagem. Faleceu nessa mesma noite”.
Uma missão de reconhecimento à serra da Chela foi a última do tenente de infantaria António Ribeiro Monteiro, pai de António Aniceto Monteiro. Já então doente, viria a falecer a 7 de Julho de 1915, na sua casa, em Mossâmedes.

Apesar de algumas imprecisões devidas ao esfumar da memória que a passagem do tempo induz, como a referência a Alves Roçadas que, como sabemos, nessa altura, já não estava em Angola, este relato tem o mérito de informar que, na noite da morte do tenente Monteiro, uma alta patente, provavelmente o próprio Pereira de Eça, esteve em sua casa. O episódio mostra até que ponto o estado maior, sediado em Mossâmedes, estava ávido de informações sensíveis da parte de um homem que, por ter trabalhado precisamente nessa zona como topógrafo militar durante vários anos na construção do caminho de ferro, conhecia o terreno como ninguém.
Para que fique completo o relato da guerra com os alemães em Angola, basta dizer que, dois dias depois, tudo tinha acabado com eles, por se terem rendido aos sul-africanos do general Botha, no Sudoeste Africano, hoje Namíbia.
Esta primeira guerra colonial em Angola que começou com o “scramble” que se seguiu à Conferência de Berlim, durou cerca de quarenta anos, desde 1885 até 1925(22,23), serviu para destruir quase completamente a estrutura social que existia, definir as fronteiras daquele que é hoje um país independente e desenvolver a estrutura colonial que durou até 1974-1975. E a guerra acabou, porque as tropas europeias foram substituindo as mulas, os cavalos e os bois, por veículos motorizados(24), e, sobretudo, foram substituindo as carabinas e as espingardas por uma arma temível que, essa, os negros não possuiam – a metralhadora(25). Duvido que haja uma contablização absolutamente credível mas, ao todo, foram, muito provavelmente, centenas de milhares de mortos, a esmagadora maioria deles entre a população negra(26).
Ontem como hoje, todas as guerras têm consequências dramáticas. Em primeiro lugar, para as populações que nelas são forçadamente envolvidas ou delas têm que se defender. Em segundo lugar, para os soldados que para elas são conduzidos, a maior parte das vezes, enganados por uma propaganda ilusória. Em terceiro lugar, sofrem com as guerras as famílias destes soldados. Tal foi, seguramente, o caso da família do tenente Monteiro, que em Angola ficou sepultado, e, em particular, para a sua filha que tão cedo perdeu o pai.
Como afirmou um militar relativamente a outro camarada [JSP], talvez António Ribeiro Monteiro tenha “sido enterrado na cerca de arame farpado junto à muralha”, e lá tenha ficado “esquecido, e hoje ignorado, como tantos outros que por aqueles sertões morreram, faltando saber se com melhor sorte que aqueles que viveram”. De facto, muitos desses soldados sobreviventes continuaram a combater os negros em África ou vieram combater para a Europa, na guerra mundial de 14-18.
Seria necessário esperar cerca de 30 anos, após o fim da primeira guerra colonial em Angola, para se assistir ao início da derrocada do império e das ilusões coloniais. A União Indiana, que tinha conquistado a independência em 1947 (o que só por si devia ter feito meditar Salazar), começou nos anos 50 a reivindicar os territórios que Portugal ocupava – os enclaves de Goa, Damão Diu, Dadrá e Nagar-Avely.
Em fins de Julho de 1954, forças da União Indiana assaltaram e ocuparam definitivamente os dois pequenos enclaves de Dadrá e Nagar-Avely. A crise política desencadeada então entre os dois países durou cerca de um ano, mas os portugueses foram expulsos definitivamente de Goa, Damão e Diu em 19 de Dezembro de 1961, nas circunstâncias bem conhecidas. A tensão entre Portugal e a União Indiana só terminou em 31 de Dezembro de 1974.
Nesse ano de 1954, a 11 de Agosto, em Portugal, o Movimento Nacional Democrático, cujo presidente era o matemático Ruy Luís Gomes, enviou aos jornais uma “nota oficiosa”(27), um extenso documento, que vale a pena ler, sobre a situação política em Portugal e sobre o que se estava a passar na Índia, condenando a política colonial do governo. Foi o suficiente para que Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura, Lobão Vital, José Morgado e Albertino Macedo fossem presos e acusados de traição à pátria(28), ameaçados com cinquenta anos de prisão mais medidas de segurança, e passassem por vários julgamentos até serem finalmente libertados em 1957.
O próprio Ruy Luís Gomes, no seu Curriculum Vitae político [RLG], refere que foi “preso pela PIDE em 19 de Agosto de 1954 por ter, juntamente com os restantes elementos da Comissão Central do MND, elaborado um documento condenando a política colonial do Estado Novo e defendendo a autodeterminação dos Povos, por ocasião de incidentes ocorridos em Goa, Damão e Diu. Foi então acusado de traição à Pátria e julgado em Junho de 1955 no Tribunal plenário do Porto. Foi condenado em 18 meses de prisão. Recorreram da sentença, aguardando em liberdade o resultado do recurso. Anulado o julgamento, recolheu de novo à cadeia em meados de 1956. Novamente julgado em meados de 1957 foi condenado em dois anos de prisão. Mais de metade deste tempo foi passado na Colónia Penal de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, prisão especialmente destinada a presos comuns de difícil correcção; muitos destes presos eram dementes”.
Na sequência destes acontecimentos, Ruy Luís Gomes, expulso da Universidade desde 1947 e com a vida muito dificultada em Portugal, vai, em Setembro de 1958, exilado, para Bahía Blanca, na Argentina, a convite do seu amigo António Aniceto Monteiro que já lá se encontrava.
A influência mútua destes dois homens é conhecida, tanto no plano político, como no plano científico. António Aniceto Monteiro foi o principal dínamo das iniciativas do Movimento Matemático no que respeita à investigação e contagiou Ruy Luís Gomes. Por sua vez, Ruy Luís Gomes, vindo de uma família com tradições, era aquele que, dos dois, estava mais informado e era mais activo politicamente. Em ambos, o traço comum de um vida inteira de coerência cívica e científica, indestrinçáveis uma da outra.
Em 4 de Fevereiro de 1961, um grupo de angolanos ataca prisões de Luanda, tentando libertar presos políticos dando início, assim, à segunda guerra colonial em Angola – a guerra que conduziu à independência. Um dos muitos objectivos dessa acção, que envolveu cerca de 200 pessoas armadas de catanas e outras armas artesanais, era a libertação da maioria dos presos políticos do processo dos 50 que estavam na Casa de Reclusão Militar e que se suspeitava que iriam ser transferidos em breve para o Campo de Concentração do Tarrafal.
No Brasil, vivia um grande grupo de exilados portugueses, a maioria dos que estavam na América Latina. Entre eles, interessa-me destacar, nesta intervenção, Manuel Sertório e Henrique Galvão. Este último tinha liderado o desvio do navio Santa Maria em 22 de Janeiro de 1961, que muita gente pensava ir aportar a Luanda, mas que acabou por ir para o Recife, no Brasil. Muitos jornalistas de vários países acorreram então à capital de Angola, na expectativa de relatarem a chegada do Santa Maria, tendo sido a possiblidade de uma grande cobertura internacional mais um factor que incentivou o 4 de Fevereiro de 1961. Os resistentes angolanos desejavam chamar a atenção para a grave situação que se vivia naquela colónia, com destaque para o massacre dos camponeses da Baixa de Cassange que estavam a ser bombardeados e mortos, aos milhares, com napalm.
Nenhuma das acções do 4 de Fevereiro teve êxito, mas, pelo menos, conseguiram chamar a atenção do mundo inteiro para o que se passava em Angola. As autoridades coloniais designavam os resistentes africanos de “terroristas” ou, ainda mais depreciativamente, de “turras”. Para os mais racistas, todos os negros eram “terroristas”. No seguimento do 4 de Fevereiro, foi desencadeada a caça generalizada ao “turra” e mais massacres foram perpetrados.
O grupo de exilados no Brasil era politicamente muito heterogéneo. O capitão Henrique Galvão tinha sido um adepto entusiasta de Salazar, mas começou a divergir deste, sem nunca romper com a ideologia que sempre tinha apoiado, nomeadamente na sua componente colonialista.
Na organização da oposição na América Latina, Manuel Sertório, que vivia em São Paulo, era o elemento que fazia a ligação com os dois portugueses de Bahía Blanca, Ruy Luís Gomes e António Aniceto Monteiro.
Assumindo sempre as suas raízes angolanas, como “tendo nascido em Angola”, António Aniceto Monteiro troca com Manuel Sertório, em 1961, algumas cartas [AAM-MS] que visavam a elaboração de uma declaração conjunta de oposicionistas sobre a situação que se vivia na colónia portuguesa.
As quatro cartas que António Monteiro escreveu então a Manuel Sertório, estão marcadas com um sotaque argentino e, aqui e ali, com alguma fina ironia.
Na carta de 23 de Março de 1961, afirma o seguinte
“Creio que não é suficiente condenar o envio de forças armadas para os territórios coloniais e que se deveria também reclamar que se retirem todas as tropas de repressão enviadas nos últimos tempos. Ao mesmo tempo convém aclarar que a responsabilidade de todos os sucessos que ocorram nas colónias recai inteiramente sobre o governo de Portugal e serão uma simples consequência da sua política de repressão, que se pode contrapor à atitude dos diversos movimentos para a independência das colónias que reclamam insistentemente negociações pacíficas”. Termina citando a frase “nenhum povo pode ser livre se oprime outro povo”.
A carta seguinte, de 24 de Abril de 1961, exprime o desapontamento por alterações entretanto introduzidas ao documento, no Brasil, por Henrique Galvão e outros:
“(...) tenho aqui à mão uma declaração sobre o problema colonial, que a Comissão de Inter-Ligação enviou ao Prof. Ruy Gomes em 30 de Março. Trata-se de um documento com uma orientação essencialmente distinta da declaração impressa à qual enviei a minha adesão na carta que lhe escrevi em 23 de Março.
Devo dizer-lhe que não assinarei a declaração de 30 de Março anteriormente indicada, porque o problema da autodeterminação dos povos coloniais está posto em termos ambíguos.
Em primeiro lugar se reconhece o direito à irrestrita autodeterminação, mas logo a seguir se agrega «sob as necessárias garantias de exercício desse direito em condições humanamente progressivas, etc.» o que pode significar, por exemplo, que os povos coloniais terão de esperar mais alguns séculos para que se lhes reconheça esse direito”.
E, mais adiante, António Aniceto Monteiro diz que “o artigo 6º (...) usa o tom dum patrão a falar para um escravo”, para, depois, concluir do seguinte modo:
“sobre o problema da autodeterminação dos povos coloniais não pode haver nenhuma espécie de reticências. Depois de uma política de opressão, escravidão e extermínio que durou séculos o governo iniciou actualmente uma guerra de extermínio em Angola e outras colónias, que é necessário condenar nos termos mais enérgicos apoiando os povos coloniais na sua luta pela independência nacional.”
A terceira carta, de 29 de Maio de 1961, mostra que a redacção final da referida declaração acaba por ser de acordo com a opinião de António Aniceto Monteiro, porque diz a Manuel Sertório: “pode pôr o meu nome entre o das pessoas que assinam a declaração em questão que consta de três pontos”. A parte final da carta revela que ele, em Bahía Blanca, a milhares de quilómetros dos centros de decisão, via mais longe do que Salazar e os seus acólitos:
“A situação em Angola agrava-se cada vez mais. Os jornais já falam de 25 000 mortos (negros); mobilizaram em Portugal, segundo me informa Ruy, a classe de 58. Estamos frente a uma guerra colonial que só terminará com a derrocada do fascismo e a instauração dum governo provisório revolucionário; a menos que se consiga interromper a guerra pela intervenção da ONU”.
A quarta e última carta, de 6 de Junho de 1961, é, como as outras, muito interessante sob o ponto de vista histórico. Destaco a seguinte passagem:
“Há 11 anos que estou completamente isolado das coisas portuguêsas e só agora, desde que está aqui o Ruy, é que tenho mais algumas notícias, além das que leio em Portugal Democrático. De um modo geral penso que no exterior o que é fundamental é apoiar as directivas da frente interna de resistência.
O Galvão acabou por revelar-se completamente como um autêntico colonialista nos 3 artigos que escreveu num diário de São Paulo. Para mim as reticências que ele punha à primeira redacção da declaração tinham um significado perfeitamente claro e por isso mesmo não quiz assinar a segunda redacção”.
Como se vê, estas quatro cartas de António Aniceto Monteiro não podiam ser mais claras.
E, para terminar, direi que o objectivo principal desta minha intervenção foi o de revelar situações e factos históricos pouco conhecidos relacionados com a vida de António Aniceto Monteiro, prestando homenagem a um homem que, apesar de todas as dificuldades, realizou um trabalho científico notável em vários países, sempre ambicionando viver pacificamente, mas nunca virando a cara à luta.
Vêm-me à memória as palavras que António Aniceto Monteiro escreveu a Guido Beck, do Rio de Janeiro, numa carta enviada em 1948: “Também conheço mal a situação na Argentina. Mas seria possível viver em paz, sem ser perseguido pelas minhas opiniões? Deve responder com precisão a esta pergunta, dizendo o que pensa” [AF-AV]. Soube-se, depois, qual foi a resposta que a realidade lhe deu.
Tal como o fez António Aniceto Monteiro há que lutar contra todos os fatalismos e conformismos. Temos que confiar que a luta pelo direito a viver e a trabalhar em paz tem que ser bem sucedida, porque a conquista desse direito é absolutamente necessária.
Por ocasião do seu centenário aqui fica, pois, nesta intervenção, a minha homenagem ao homem bom que, como poeta, assinava com o pseudónimo de “Adrião de Mossâmedes”.
 Continua...

Ver tambem : The conquest of southern Angola
Cronologia: O regime republicano de 1910 a 1915

Aqui serão colocadas ligações que podem ter interesse para a compreensão da História de Angola e da vida de António Aniceto Monteiro:

1) Angola - parte de Country Studies (USA)....
Expansion and the Berlin Conference
SETTLEMENT, CONQUEST, AND DEVELOPMENT
The Demographic Situation
Military CampaignsAdministration and Development
ANGOLA UNDER THE SALAZAR REGIME
Angola under the New State
Salazar's Racial Politics
RISE OF AFRICAN NATIONALISM
...
2) Direcçao Nacional dos Caminhos de Ferro - Da Wikipedia, l'enciclopedia libera (em italiano).