Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Colonização das Terras Altas de Mossamedes: Huila. ODISSEIA DE UMA GENTE – 1884 -1ª Parte



 
Carro bóer – Réplica à escala 1 – 5 m. Construído por Jorge Rodrigues

1884 – ODISSEIA DUMA GENTE - PRIMEIRA PARTE
Duma Ilha para um continente
A 19 de Novembro de 1884, o vapor “Índia” acosta na baía de Moçâmedes. A bordo uma carga humana de 222 almas constituída por homens, mulheres, adolescentes e crianças. Esta carga humana, ao aportar, havia já passado pelos sacramentos do baptismo e do crisma com o nome de “Primeira Colónia de Madeirenses” destinada ao povoamento do planalto Huilano.


PORTELA DO BRUCO “A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros

Registe-se que seis meses antes, este “Índia”, nesta mesma baía, “descarregou” 44 emigrantes entre estes 16 oriundos da Madeira. Esta gente foi despachada a pé para a Humpata, 1800m de altitude, 180km de Moçâmedes. A caminhada foi calcorreada pela íngreme portela do Bruco, via “Colónia Penal do Txivinguiro”. Por via do choque térmico – calor de Serra – Abaixo contra a exposição às chuvas e frias noites do planalto - muitas pessoas adoeceram. O envio destes colonos para a Humpata constituiu, por intenções óbvias, o embrião do estabelecimento de portugueses para ombrear com a irrequieta e problemática comunidade bóer ali instalada em Janeiro de 1881. Recorde-se que no local onde foram fixados estes recém-chegados, existiam alguns casebres degradados obra de sete homens e uma mulher, parcela proveniente da fracassada e dissolvida colónia “Júlio Vilhena”, de Pungo-Andongo/Malange, composta por 41 salteadores e vadios requisitados às cadeias de Lisboa. Esta fracção, expirado o período das regalias de subsídio a juntar a ocorrência dum homicídio por esfaqueamento, abandonou a Humpata deixando as terras como no dia em que ali chegou – Março de 1883.
Tem assim início a realização do sonho de Bernardo de Sá Nogueira Figueiredo, partidário do funesto liberalismo do inconstante D. Pedro IV, (primeiro imperador do Brasil!). Foi este general sem um braço, perdido em combate no Alto da Bandeira contra o exército Miguelista que, feito Marquês de Sá da Bandeira e depois Ministro da Marinha e Ultramar, no reinado de D. Maria II, concebeu um plano para o povoamento, por portugueses, do planalto da Huíla.
Os planos de Sá da Bandeira (falecido em 1876) foram humanamente bem intencionados. Mas, passados à prática na vigência do ministro Pinheiro Chagas (crítico de Sá da Bandeira), como se verá neste breve esboço no tratamento dado aos madeirenses, todos os intervenientes nos preparativos de recepção e fixação destes, não deixaram saudades. No dia 20 de Novembro o governador de Moçâmedes, capitão Sebastião Nunes da Mata, nomeia Câmara Leme director desta primeira colónia baptizada de Sá da Bandeira. Este Câmara Leme, também madeirense, já conhecia bem a região inclusive o local para onde seria conduzida esta “Primeira Colónia”.
Debilitados devido ao enjoo, péssima alimentação e deficiente higiene nos 36 dias que durou a viagem, os “passageiros” são levados em pequenos botes para terra (a ponte cais, obra de Câmara Leme, encontrava-se já assoreada). Ali, o que viram e sentiram? No horizonte, o desolador deserto; sob os pés, muitos deles descalços, areia escaldante; sobre a cabeça, um sol impiedoso. Em grande sofrimento, clamavam por água para matar a secura e um tecto que os aliviasse da inclemente insolação. Apelo inútil: a água foi distribuída a conta-gotas, e um tecto simplesmente não havia sido providenciado e nulas as possibilidades de o improvisar.
Esgotada a paciência, na presença do governador, os até aí submissos ludibriados, enfurecidos, em uníssono, exigiam a sua imediata repatriação. O governador apela à calma e paciência enquanto, ao mesmo tempo, astuciosamente, evocava os contratos assinados e os subsídios de 30$000 réis avançados no momento do engajamento na Madeira. Entre os habitantes que indignados assistiam ao triste espectáculo, um deles, pescador de profissão, colocou à disposição um armazém para instalação precária dos recém-chegados.
Aparentemente amainados os ânimos, com crianças e bagagem às costas, foram-se amontoando, qual rebanho de carneiros, no disponibilizado armazém. Ante tamanha adversidade, a confiança e a esperança que os animou ao embarcarem na Madeira foram esmorecendo.


Carro boer puxado por vária juntas de bois (foto internet)
Para aumentar o desânimo daquela pobre gente, por desleixo das “autoridades”, nem os meios de transporte para o Lubango haviam sido garantidos. Só nesse momento foram solicitados (via terrestre) à Bibala, Capangombe, Bumbo e Humpata os carros possíveis. Os solicitados ao Bumbo, por recusa do proprietário, foram tomados à força. Por tal incúria, de uns 10 dias previstos de permanência na inóspita vila de Moçâmedes, prolongou-se – calculo – por entre 20 e 40 dias.
Os efeitos dessa vergonhosa negligência foram deveras nefastos e desesperantes. Enquanto os homens deambulavam pelas tascas a afogarem as suas desilusões em aguardente e a provocar desacatos, as mulheres e crianças, amarguradas, regavam com suas lágrimas as areias escaldantes do deserto; lágrimas de saudade da sua “Miséria na Madeira”, agora tão distante, para onde nem lhes era permitido escreverem: não fossem as desanimadoras notícias desmotivar os conterrâneos das angariações em curso para aquele enganoso “eldorado”…
Do mar para a serra – penosa viagem
Com intervalos consideráveis, conforme as distâncias de origem, os carros (4 rodas puxados por espanas de 20 bois) e carroças (2 rodas puxadas por 10 bois) foram chegando a Moçâmedes. Porque para além do preço da viagem era cobrada certa importância por cada dia de espera, a “Colónia” foi fraccionada em três grupos, com partidas entre princípios e fins de Dezembro.



Carro boer puxado por vária juntas de bois atravessando o Caculuvar (foto internet)
Primeira etapa – Nas referidas viaturas, com toldos montados, sobre as bagagens foram amontoadas as mulheres e crianças. Os homens e adolescentes, por falta de espaço nos carros e necessidade dos seus braços, marcharam a pé na vanguarda do “comboio”, com a tarefa de suavizar os buracos da “estrada”. Devido ao forte calor e escassez de água o percurso pelo deserto até próximo da Bibala, era feito, salvo imprevistos, em dois “trekes” (jornadas) de 3 horas: a primeira, das 5 às 8; a segunda, das 17 às 20, a uma média de 3km/h. De dia, sob a rala sombra das esparsas espinheiras, as pausas eram aproveitadas para confecção de alimentos e pasto dos bois. A da noite, para “repouso” das pessoas e descanso dos bois a ruminarem o insuficiente e seco capim.
Segunda etapa – Ao 12 º dia, percorridos 170km, o “comboio” chega à Bibala (Vila Arriaga desde 1912), 800m de altitude, na falda da imponente escarpa da cordilheira da Chela. Para a gente e bois, os dias de sufocante calor e carestia de água tinham terminado. Mas faltavam ainda 80km, agora com as condições climáticas invertidas – chuva e frio – para alcançarem a “Terra da Promissão”.
A partir da Bibala o trajecto da íngreme ascensão para contornar a alcantilada escarpa, exigia dos peões tapa-buracos, muitas vezes encharcados, esforços redobrados. Os “trekes”, face aos perigos da precipitosa e esburacada “estrada” e de um possível ataque de leões, passaram a ser percorridos em marcha mais lenta: das 6 às 9 h e das 15 às 18. Os peões e “tripulações” (trios) dos carros rapidamente improvisavam, com estacas e rama, uns cobertos para abrigo e protecção das fogueiras, atiçadas durante a noite.
Galgada a serra – talvez numa semana – a primeira fracção da “Primeira Colónia de Madeirenses”, contornada a portela da Quilemba, avista o planalto huilano: a “Terra da Promissão”. E a 25 de Dezembro de 1884, sexta-feira, de zero para 1750m de altitude, acampa finalmente na margem direita do rio Caculuvar, onde é “despejada”.



Mais desencantos – Barracões
Usei o termo “despejada” por considerar o mais ajustado e consentâneo à realidade episódica por que passou esta primeira colónia. Enquanto estes aguardavam em Moçâmedes pelos meios de transporte, foi confiado a um agricultor da Copola – Serra-Abaixo – admitido como colono, para com o auxílio do chefe da Huíla, capitão Pedro Augusto Chaves, proceder à construção de barracões para acampamento temporário dos colonos. Só que à chegada destes ao local, previamente preferido, encontraram apenas o lugar, o “colono extra” de braços cruzados e alguns machados à espera de homens para os manejar. Do chefe da Huíla, que por obrigação do cargo deveria estar presente, nem sinais. Este encontrava-se – onde por sistema permanecia por longos períodos – na Chibía, a gerir o seu monopólio comercial, os grandes campos de cana-doce e os alambiques a destilarem aguardente; prova de absoluto desrespeito pelos insignificantes colonos chegados à área do concelho à mercê da sua autoridade. Por abrigo para os colonos, à deriva, do rigor da chuva, valeu-lhes a boa-vontade dos donos dos carros, permanecendo ali por alguns dias e a cedência de duas lonas estendidas sobre uma armação de paus com uma elevação em ângulo obtuso.
Um dia após a chegada da colónia, homens e adolescentes, enquanto uns empunhando os machados davam início ao corte de paus na área circundante, outros os transportavam, aos ombros, para o local da construção. Terminada a estrutura do primeiro barracão, por falta do capim – em Janeiro esta poácea está ainda a meio crescimento – preferido para coberturas, este foi coberto provisoriamente com várias camadas de rama até atingir o grau de inclinação necessário para escoamento das chuvas. Nas paredes, de pau-a-pique, para protecção do vento, foi também aplicada uma espessa camada de rama presa por varas transversais atadas commalói.

(Extraído do livro “A Colonização de Terras Altas da Huila”) de Carlos Alberto Medeiros Primeiras casas de colonos madeirenses na Chibia
Concluído o primeiro barracão segue-se a construção de outro, talvez com o reforço do pessoal do segundo grupo (não encontrei registo da data da chegada deste). A 18 de Janeiro de 1885 chega ao local o terceiro grupo, ficando assim para triste alegria de todos, reunificada a “Primeira Colónia de Madeirenses”. A inauguração oficial da colónia Sá da Bandeira teve lugar a 19 de Janeiro de 1885 – Segunda-Feira.
Já que principiei vou concluir a história dos barracões. Depois dos dois atrás descritos, a um ritmo mais lento, foram construídos mais dois. Em meados de Maio a espécie de capim “Muhóque”, próprio pela qualidade e tradição para coberturas, está pronto para corte. Porque os bois mesmo em verde mal lhe tocam e resiste às pragas de insectos e lagartas, a sua vegetação espessa, em terrenos abertos, abunda em todo o centro e sul de Angola. Assim, foi fácil a ceifa da quantidade necessária para cobrir os quatro barracões e reserva para algum remendo. As coberturas foram trabalhadas por homens proficientes na arte de colmar. Em simultâneo, todas as paredes, de pau-a-pique, foram barreadas. Por estes barracões passaram as sete colónias de madeirenses: as duas de 1885, e as anuais – 1888 a 1892. Em 1890 serviram ainda de abrigo durante a instalação da colónia do Caculuvar – de má memória – a historiar em capítulo próprio.

Cumprida a sua utilidade, os barracões, votados ao abandono, foram-se degradando e as madeiras, ressequidas, acabaram em cinzas nas trempes do povo das redondezas. Anos depois, como sinal de sentido respeito pelo sítio e pela gente que lhe deu vida, foi erigida uma réplica destes, assistida com os indispensáveis cuidados de conservação até a década de quarenta. Este, descurada a manutenção, aos poucos, teve o mesmo fim dos primeiros. Próximo deste foi erigida uma pequena capela a tijolo e telha e em simultâneo murado o cemitério onde repousam os que ali pereceram.
Desde o primeiro ano da chegada dos madeirenses, 115 anos decorreram. A odisseia dessa gente passou à história; mas os símbolos permanecem indeléveis: O 19 de Janeiro consagrado a feriado da cidade do Lubango; o Lugar conserva o nome de Barracões; a Capela mantém-se erecta e de portas abertas; o Cemitério, incólume e silencioso, esconde no seu seio os que ali dormem até à consumação dos séculos. E, em posição de relevo, a assinalar o Sagrado Lugar, o memorável Monumento no qual, na face orientada ao Atlântico, gravada a Saudosa e Justa Homenagem:

NESTE LOCAL INSTALARAM-SE
OS PRIMEIROS COLONOS MADEIRENSES
EM 1885




Lugar dos barracões





Lugar dos barracões. Foto de Armindo Ferreira da Colorama (Luanda)


Lugar dos barracões


Sobre a colonização de Mossãmedes (Moçâmedes- Namibe-Angola) in Annaes fo Município de Mossãmedes: 1839 a 1856,




Segundo cópia extraída do livro MS "Annaes do Município de Mossamedes", de fls. 1 a 3-V, Annos de 1839 a 1849, especialmente para servir de informação ao autor deste ensaio - gentileza que devo ao chefe da Secretaria de Câmara Municipal de Moçamedes, Sr. Artur Trindade - "Mossamedes cuja bahia foi denominada - Angra do Negro - pelos nossos Navegadôres, foi mandada vezitar pelo Capital General d'Angola Barão de Mossamedes, cuja comissão foi incumbida ao Capitão Mór de Benguella que aqui veio com forças por terra, e a este facto deve a sua denominação.

Embora a dacta do seu descobrimento seja muito antiga, o princípio de sua povoação dacta de 1939. Neste anno veio de Banguella a Quillengues, e de aqui a Huilla, Jau, e depois a Mossamedes o Tenente de Artilheiria João Francisco Garcia, onde já achou fundeada no porto a Corveta Izabel Maria commandada por Pedro Alexandrino da Cunha Garcia vinha nomeado Regente. 

Já então existia no local que hoje se chama - Hortas - huma feitoria bem montada pertencente a Jacomo Fellipe Torres, de Benguella, administrada por hum homem de sobrenome Guimarães, que fazia muito negócio, e se achava acreditada com o gentio, o que lhe accarretou tal perseguição que foi prezo na mesma Corveta para Loanda roubando-se-lhe e destruindo a feitoria. Jacomo protestou contra a violencia, e obteve justiça, mas não reparação. Apezar deste accontecimento ainda assim veio em 1840 Clemente Eleutherio Freire montar outra feitoria de sociedade sociedade com D. Anna Ubertal de Loanda, e em 1843 veio pois veio João Antônio de Magalhães estabelecer outra feitoria de sociedade com Augusto Garrido; porem de todas estas feitorias so existe hoje a de Fernanda, por se ter fundado na pesca e dedicado também à cultura. 

Começou pois esta povoação por hum presidio em que alem da força millitar e degredados se estabelecêrão algumas feitorias, e d'entre alguns de seus administradôres taes como Fernanda e Freire; bem como o Tenente de Marinha A. S. De Souza Soares de Andreas, e Commandante do Brigue "Tejo", e sua guarnição foi que nascerão os primeiros ensaios da Agricultura. A força de vegetação que se conheceo em algumas sementes lançadas à terra, a descripção feita por alguns officiaes de Marinha; e a benignidade do clima fizerão suscitar a idea da colonização deste local por gente não degredada.
 
 Os partidos politicos do Brazil, principalmente em Pernambuco, tendo sempre por fim a maior ou menor perseguição aos Portuguezes alli residentes desgostarão estes, e muito concorreo tal perseguição para fornecer a idea de colonizar Mossamedes; as expozições que de Pernambuco se fizerão para o Governo Portuguez sendo acolhidas, este deu providencias para se transportarem colonos Portuguezes do Brazil para Mossamedes. Em Maio de 1849 sahirão o Brigue Douro e a Barca Tentativa Feliz da barra de Pernambuco; e em 4 de Agosto do mesmo ano chegarão a Mossamedes transportando famillias e homens solteiros de todas as classes e idades; sendo todas as despezas feitas à custa do Governo ( Ate aqui seguimos huma memoria fornecida a esta Câmara pelo cidadão Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, a qual por sêr bastante extensa deixamos de transcrever; e continuaremos a approveitar d'ella o que julgar-mos necessário e util. A ditta memoria acha-se archivada n'esta Camara, onde pode ser consultada).

Em 13 de Outubro de 1850 huma outra expedição deixava as agoas de Pernambuco a bordo do Brigue Douro, e da Barca Bracharense que se denominou segunda colónia; cujo transporte e despezas forão feitas à custa de huma subscripção Portugueza, e que apezar das notícias a drede espalhadas por meio de carta hidas de Massamedes na "Escuna Maria" que fazião huma descripção miseravel, e infelizmente verdadeira naquella epoca, deste estabelecimento, não deixou de ser numeroza; aportando a Mossamedes a 26 de Novembro do ditto anno. Estes segundos colonos que deixando Pernambuco em hum estado mais calmo do que aquelle em que deixarão os primeiros de seus compatriotas, e que por conseguinte vivião já em melhor tranquilidade vierão achar aquelles em hum estado deploravel, e faltos de animo. Huma esterilidade espantoza motivada pela secca; pessimo sustento composto de má farinha de mandioca, feijão pôdre, etc. Huma nudez quazi completa, e finalmente hum completo exaspêro, a ponto de muitos se julgarem felizes com a praça que se lhe assentava em recompensa de tantas privações! Quinze mezes erão passados, e nesta epoca de esterilidade que poderia fazer-se? Alem da secca, faltavão sementes; o directôr da colonia foi a Loanda levando em sua companhia hum colono (Francisco da Maia Barreto); este foi ao Bengo, e de alli trouxe as primeiras sementes de cana, maniva etc., e pouco antes da chegada destas chegárão algumas sementes ao cidadão Fernando Joze Cardozo Guimarães que forão plantadas (a canna) sob a direcção do colono Joze de Albuquerque na horta daquelle senhôr, e foi d'estas sementes que se crearão viveiros para os annos fucturos. 

Foi ainda nesta epoca de verdadeira calamidade que chegárão mais colonos do Rio de Janeiro, e Bahia, dos quais ficárão mui poucos por falta de recursos; entre os desta ultima cidade alguns vinhão que trazião capitaes e querião ficar para negociar, o que não seria pequena vantagem; infelizmente fôrão disso despersuadidos. A este facto, e ao de terem-se escripto d'aqui pessimas noticias para o Brazil se deve o não terem continuado a aportar aqui colonos vindos à sua custa; - mas como virião elles se para alli se escrevia dizendo-o clima é pessimo - he um lugar de degredados onde sômos tractados como taes ( e em parte havia razão para o dizer) - he peor que na Ilha de Fernando de Noronha - não nos deixão de aqui sahir sem completar 10 annos - e outras muitas couzas? Dizemos que em parte tinhão razão por que a mortandade foi espantoza nos primeiros dois annos: Colono houve que foi 10 e 15 vezes ao Hospital em hum anno, donde sahia como entrava por falta de tratamento! Como não seria grande a mortandade se pessoas que habituadas a hum tratamento regular vivião agora a meia ração, e esta muitas vezes damnificada? Se hum lugar pouco salubre como o Bumbo em quanto que a chuva cahia a jorros se achavão miseros infelizes debaixo de alguns ramos aquentando-se a huma fogueira sem roupa para cobrir-se, por que muitos a deixarão no Estabelecimento por falta de conductôres quando para alli fôrão; tendo tido huma penosa viagem a pé por caminhos quazi intranzitaveis sem poder suportar o calôr de huma areia quazi ardente? Examine-se um pequeno numero de artistas e outras pessoas, que puderão sustentar-se com hum alimento mais saudável, e que não passarão essas privações, e vêr-se la que não tiverão até hoje huma baixa ao Hospital, e alguns dos quaes no decurso de seis annos não sofrêrão ainda huma intermittente; e examine-se tambem essas pessoas que aqui chegão do Reino ou do Brazil, e que não soffrem essas privações; veja-se a sua robustez, e conhecer-se ha esta verdade. Foi em consequência dessas privações que alguns colonos fugirão da Huilla, e que hum melhor futuro fez volver ou trazer a Mossamedes, porque desde o momento que os colonos podérão sustentar-se à sua custa, desaparecêrão essas molestias, e Mossamedes de hoje (1870?) he hum Paraizo comparada ao de 1850.

Se nos demorarmos em mencionar este facto he porque julgamos de interesse e seu conhecimento no fucturo; he porque sômos Portuguezes, e desejamos que se saiba no Brasil, em Portugal, e se possivel fôr em todo o mundo, que o clima de Mossamedes he melhór do que o de toda a Africa; superior ao de todo o Brazil; superiôr ao de muitos lugares de Portugal, e quazi igual ao melhor e mais temperado deste ultimo paiz; e desejamos emfim que se desvaneção esses restos de receio de vir aqui habitar; porque só assim e com hum governo poderemos prosperar; e para prova do que acabamos de dizer deste clima salutar examine-se ainda essas crianças nascidas e creadas aqui; a sua robustez, e sobre tudo essa côr purpurina de suas faces, huma grande parte das quaes vive continuamente exposta aos raios abrazadôres do sol!".


Segundo cópia extraída do livro "ANNAES DO MUNICIPIO DE MOSSAMEDES", DE FLS. 41 E 41-V, ANNOS de 1839 A 1856, é o seguinte o "REZUMO DOS FOGOS, POPULAÇÃO, E PREDIOS URBANOS, CONCLUIDOS E EM CONSTRUCÇÃO NA VILLA, E ARREBALDES, ATE AO FIM DO ANNO DE 1856", isto é, sete anos depois da chegada à África dos primeiros "brasileiros";
FOGOS
Na Villa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
No local das Hortas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
Na Bôa Esperança. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
Na Bôa Vista. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
Nos Cavalleiros e Macalla. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
Total 85
POPULAÇÃO LIVRE
Sexo masculino. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 164
Ditto femenino. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .108
Total 272
POPULAÇÃO ESCRAVA
Sexo masculino. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .475
Ditto femenino. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .157
Total 632
54 Libertos do dois sexos.
PRÉDIOS CONCLUIDOS
Na Villa
De pedra. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .36
De adobe. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . 8
De pau a pique. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22
Cubatas de palha. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .10 76
Nas Hortas e Aguada
De adobe.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
Cubatas de palha e pau a pique.. . . . . . . . . . . . . . . . . .. 4 10
Na Boa Esperança
De adobe. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 20
De pau a pique. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 27
Boa Vista
De adobe. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - 2
Nos Cavalleiros e Macalla
De pedra. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
De adobe. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . 2 3
PRÉDIOS EM CONSTRUÇÃO
Na Villa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .12
Nas Hortas... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
Na Boa Esperança. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 19
Engenhos
Nos Cavalleiros (montado). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1
Ao que se deve acrescentar o seguinte "REZUMO DOS PRODUCTOS AGRICOLAS DURANTE O ANNO DE 1856":
Assucar 178 As Vendeu-se de 7.200 a 9.000 Rs. a. a.
Algodão 1.672 As. Regulou 600 reis por a. em carôço
Aguardente 41 ½ pipas Em todo o Districto

Aboboras 400 Somente de hum arimo
Batatas 5.405 As. Pode avaliar-se em mais um têrço
Bananas 400 cachos Somente de um arimo
Cará 4.247 As. Pode avaliar-se em mais um têrço
;Canna sacha 14 milheiros Regulou 20$ reis o milheiro
Farª de mandioca 8:170 Cazungueis. Pode avaliar-se em mais um têrço
Feijão 128 Dittos
Milho 813 Dittos
Azeite de carrapata Peqª quantidade
Hortaliças - grande quantidade"
E, ainda, êste, de "PRODUCTOS DE INDUSTRIA":
"Carne secca 612 as. Só em um estabelecimento e até agosto
Couros de boi 112 Só em um estabelecimento e até agosto
Peixe secco 12.600 Mattetes - Maior quantidade
Azeite de cação 206 pipas Ditto. . .ditto
Tijollo. . . . . . . . . 21 milheiros
Cal. . . . . . . . . . . . . 56 moiosAdobe. . . . . . . . . . 60 milheiros"
"Também êstes informes, que foram extraídos de livros MSS, hoje do arquivo da Câmara Municipal, devemo-los à gentileza do chefe da Secretaria da mesma Câmara, Sr. Artur Trindade".
São vários os amigos portuguêses do Oriente e da África a quem devo agradecimentos pelo modo por que me facilitaram a colheita de documentos e fotografias sôbre êste e outros assuntos luso-tropicais, afins do versado neste pequeno ensaio.
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3 Manuel Júlio Mendonça Torres - O Distrito de Moçamedes nas fases da Origem e da Primeira Organização, (1485 - 1859), Lisboa 1950, pag. 511 [voltar]
4 Negro Anthology, organizada por Nancy Cunard, Londres 1934, pag. 679. [voltar]
5 Negro Anthology, cit., pag. 688. [voltar]
6Londres, 1951, Pag. 137. [voltar]
7 Londres, Nova Iorque e Toronto, 1949, pag. 55. [voltar

Fonte: FREYRE. Gilberto. Em tôrno de alguns túmulos afro-cristãos. Salvador: Livraria Progresso; Editora e Universidade da Bahia, [1959]. 88p. il. (Coleção de estudos brasileiros. Série Marajoara, n.26).
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sábado, 13 de novembro de 2010

João Francisco Garcia. Jornada pelo sertão, de Benguela a Mossãmedes, em 1839.




Segundo cópia extraída do livro MS "Annaes do Município de Mossamedes", de fls. 1 a 3-V, Annos de 1839 a 1849 

-"Mossamedes cuja bahia foi denominada - Angra do Negro - pelos nossos Navegadôres, foi mandada vezitar pelo Capital General d'Angola Barão de Mossamedes, cuja comissão foi incumbida ao Capitão Mór de Benguella que aqui veio com forças por terra, e a este facto deve a sua denominação. Embora a dacta do seu descobrimento seja muito antiga, o princípio de sua povoação dacta de 1939. Neste anno veio de Benguella a Quillengues, e de aqui a Huilla, Jau, e depois a Mossamedes o Tenente de Artilheiria João Francisco Garcia, onde já achou fundeada no porto a Corveta Izabel Maria commandada por Pedro Alexandrino da Cunha Garcia vinha nomeado Regente. Já então existia no local que hoje se chama - Hortas - huma feitoria bem montada pertencente a Jacomo Fellipe Torres, de Benguella, administrada por hum homem de sobrenome Guimarães, que fazia muito negócio, e se achava acreditada com o gentio, o que lhe accarretou tal perseguição que foi prezo na mesma Corveta para Loanda roubando-se-lhe e destruindo a feitoria acomo protestou contra a violencia, e obteve justiça, mas não reparação. Apezar deste accontecimento ainda assim veio em 1840 Clemente Eleutherio Freire montar outra feitoria de sociedade sociedade com D. Anna Ubertal de Loanda, e em 1843 veio pois veio João Antônio de Magalhães estabelecer outra feitoria de sociedade com Augusto Garrido; porem de todas estas feitorias so existe hoje a de Fernanda, por se ter fundado na pesca e dedicado também à cultura. Começou pois esta povoação por hum presidio em que alem da força millitar e degredados se estabelecêrão algumas feitorias, e d'entre alguns de seus administradôres taes como Fernanda e Freire; bem como o Tenente de Marinha A. S. De Souza Soares de Andreas, e Commandante do Brigue "Tejo", e sua guarnição foi que nascerão os primeiros ensaios da Agricultura. A força de vegetação que se conheceo em algumas sementes lançadas à terra, a descripção feita por alguns officiaes de Marinha; e a benignidade do clima fizerão suscitar a idea da colonização deste local por gente não degredada."

 No semanário O Panorama, de litteratura e instruccão, Volume 8 , Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis (Portugal), Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis (Lisbon, Portugal), encontramos o seguinte relato
da dviagem de exploração de Benguela a Mossãmedes, por terra, através de Quillengues, Huilla e Jau, escrito pelo próprio  Tenente de Artilheiria João Francisco Garcia, em 1839, que passamos a transcrever:

                                          Jornada pelo sertão em 1839.

Neste anno de 1839 o Sr. João Francisco Garcia , 1.° tenente de artilharia, atravessou por motivos de serviço, de Benguella a Mossamedes. Por serem de muita importancia todas as noticias que respeitam ás nossas possessões africanas damos o oficio em que o Sr. Garcia relata a sua viagem, de que obtivemos copia pela louvavel curiosidade de um nosso assignante : 

—«Ill.'"° Sr.—Tenho a honra de levar ao conhecimento de V.S.* que, sahindo desta cidade a 19 de setembro passado, afim de dar cumprimento á commissão de que V. S.* me encarregou , — de ir encontrar-me com a corveta Isabel , nas immediações de Cabo-Negro , depois de explorar sertões limitrophes d'aquelle ponto e bahia de Mossamedes; e conjunctamente com o commandante daquella embarcação , consultar sobre a possibilidade de naquella costa se formar um estabelecimento commercial: cheguei a Quilengues a 28 do dito mez , e dalli parti para a Huila a 5 de outubro, onde cheguei a 12 do mesmo. Desde a minha chegada á Huila tratei logo de dispor ao soba dalli a dar-me auxilio para me transportar pelo interior do paiz até á costa, no que encontrei bastante repugnancia ; comtudo á força de dadivas e razões, e pela antiga amizade que com aquelle soha tenho, pude afinal conseguir o dar-me um macota e carregadores , para acompanhar um morador do paiz, do meu conhecimento e confiança, e pago á minha custa, até á costa , de donde, assim que chegasse, deveria tratar de procurar noticias da corveta , communicar com ella , se lhe fosse possivel, e dar-me quanto antes todos os esclarecimentos e noticias que tivesse. Eu fiquei no entanto na Huila, não só por estar soffrendo das febres, mas tambem por me ser ainda vedado o progresso no paiz. Por esta occasião suhe que no Iáu estava prezo , por certos crimes de feiticaria , um sobeta nome Loquengo , hahitante da costa do mar, e como me occorresse que este Loquengo poderia ser de alguma utilidade para meus fins, pelo logar que hahitava, determinei o captiva-lo pela gratidão, fazendo-o soltar; o que pude conseguir pela influencia que o soba da Huila tem sobre o do Iáu , ainda que a bastante custo; porque estes crimes de feiticeria , cousa mui frequente entre o gentio, é a maior parte das vezes um pretexto para os potentados espoliarem os mais fracos, e parece que, neste caso, o soha do Iáu ainda não estava satisfeito com o que linha extorquido ao Loquengo. 

— Intimei a este sobeta que, quando solto, queria que me acompanhasse até á sua terra, ao que assentiu : porem logo que se viu livre , tratou de quanto antes se pór fóra do alcance do seu perseguidor , mandando-me dizer que não esperava por temer ser outra vez prezo ; e que o podaria seguir na certeza de que me recommendaria pelo caminho, e que contasse com, os seus hons officios logo que chegasse á sua terra.

— No emtanto cu não cessava de solicitar a licença de ir pessoalmente até á costa , o que a final consegui, tendo alegado como o principal fim das minhas instancias , o lerem dado á costa dois navios, e que por este motivo ea tinha sido mandado por terra para me juntar com a corveta que andava no mar, afim de pormos no tal sitio uma pedra ou marca para que se não perdessem mais navios.

— Parti da Huila no 1.º de novembro ás 8 da manhã , chegando ás 3 da tarde á libata do soba de Iáu : entre estes dois pontos ha tres leguas de um terreno mui fertil, banhado por um grande rio perenne, que corre a igual distancia das duas libatas, e em cujas margens pastam os gados dos dois povos.— Pelo soba do Iáu fui mui bem recebido e agasalhado a seu modo, prestando-se logo a promptificar carregadores e a nomear um ruacota que me guiasse , acompanhando-me o mesmo soba em todo o primeiro dia de marcha , que teve logar no dia 4 de novembro, até á ultima libata de sua terra onde pernoitei.

— No dia 3 levantei para o Quiácuto, descendo parte do grande despenhadeiro , que aqui faz o terreno e que olha para o sul ; dormimos a cousa de um terço da altura : do cimo desta altura sahe um pequeno rio que serpenteando pelo monte ahaixo, se vem a perder de vista na planicie. Toda a encosta é cuberta de arvoredo carregado de urzela. A este monte, ou antes despenhadeiro chamam os do paiz a munda do Quiácuto: do cimo desta munda se goza de um golpe de vista maravilhoso, descubrindo-se todo o fertil e ameno territorio dos cubaes. No dia 4 acabei de descer a munda, que me custou um penoso dia de marcha, e por fim cheguei á haixa , terra de cubaes; paiz em geral plano em toda a sua extensão, que é mui consideravel ; semeado de montes e outeiros mais ou menos consideraveis, separados por valles e varzeas de grande fertilidade, onde os naturaes cultivam grande porção de massango , e algum milho que consomem mesmo verde , recolhendo o massango para o tempo das sèccas. A quantidade de gado vaccum e ovelhum neste districto é immensa. Neste dia fiquei na libata de Mélequilungo , soba destes arredores, que mui bem me tratou, e me presenteou com bois e carneiros, tudo devido ás recommendações que a meu respeito tinha. Neste logar, que chamam o Quiácuto , soffri hastante incommodo porquanto, os rapazes e creanças que, pela primeira vez viam um homem branco, tinham de mim tal medo , que mal por acaso me avistavam , partiam espavoridos, e se precipitavam aterrados por entre as pedras de que o logar abunda , com grande risco: o que obrigou o soba a ordenar-me que me conservasse dentro da cabana ou libata , que apenas tinha duas varas de diametro e 2% palmos quadrados d'abertura de porta, e que, quando quizesse sahir deste forno, deveria primeiro faze-lo sahir, afim de dar aviso aos rapazes para se porem a salvo atempo.— Ha aqui a fruta chamada mabóque, cuja apparencia exterior é exactamente a de uma laranja : a casca comtudo é mui dura , e partindo-se se encontra dentro uma polpa mui saborosa, um tanto acida e cheia de pevides miudas. 

— Já no districto de Iáu , eu encontrei a figueira agreste, cujo fructo , e inteiramente igual ao figo da Europa em tudo, menos na grandeza, que excede a das maiores peras, e na arvore que os dá que é de mui avultadas dimensões : os naturaes lhe chamam cúios, e os comem, na falta de outro mantimento, cosidos e desfeitos em polme ou malete.—

A uns cincoenta passos do Quiácuto , corre um magestoso rio acompanhado de arvoredo em ambas as margens, e parece vir do sueste : delle tomei agua até a Faiòna, onde a agua que leva já é mui pouca e quasi estagnada.— No dia 5 levantei deste logar, acompanhado de um macota do Mélequilungo, que de muito me serviu nos seis dias de marcha até a Faiòna , fazendo-me fornecer em todo o transito de bois, carneiros e grande copia de leite, dos repetidos e numerosos rebanhos de gado, que por todo este territorio dos cubaes encontrei: a minha comitiva nesta data chegava a cincoenta pessoas.

— A 11 cheguei a Faiona : é uma povoação cercada de muito boa madeira, de paus mui grossos muito altos e direitos : encontrei os mesmos arimos [fazendas], a mesma linguagem, e abundancia de gado. O soba de Faiòna é ao parecer, de 50 annos de idade, muito alegre e franco. 

— Do Quiácuto a Faiòna é o caminho em geral bom, o terreno coherto de madeiras e a vegetação mui vigorosa.

—Tanto esta povoação como a do Quiácuto tem mui pouca gente, e pelo caminho encontrei seis libatas abandonadas, sendo o motivo , o andar esta população espalhada com os numerosos rebanhos, pelos logares deste vasto territorio onde o pasto é mais abundante, e não falta água.

— Esta gente dos Cubáes é a mais simples que eu conheço n'estas partes: todo o seu alvo é tratar dos seus rebanhos, e nada sahem de roubos nem de guerras, como o outro gentio. Não tinham ainda por aqui visto um branco, e por isso a minha presença lhe causou grande admiração: com tudo tem boa opinião dos brancos, e os tratam com amizade. Não conhecem a vil prática de se venderem uns aos outros, e quando apanham algum ladrão dos seus gados preferem o mata-lo ao resgate. Como os gados lhes fornecem com abundancia os meios de subsistencia , tratam pouco da agricultura ainda que o terreno seja mui fertil. Em Faiòna tive a noticia de que a corveta [que elles chamam elefante do mar] estava fundeada n'um logar que depois (•) Vide n.° precedente sube ser a hahia de Mossamedes. Partindo de Faiòna, atravessei um terreno arido, sècco, e sem vegetação, e não vi nem gente, nem gados, até ao dia 16 em que desci uma montanha de areia de grande altura. Ao chegar ao cimo desta descida se observa uma lista de vasto arvoredo que na baixa junto ao monte faz cotovello , estendendo-se para o norte e para o oeste. Este arvoredo marca o alveo do rio de que me tinha separado ha tres dias, que vem aqui ter da banda do norte e vai desaguar na bahia de Mossamedes e Loquengo, no tempo das cheias : agora ainda corria mui pouca agua ao pé do cotovelo no fundo do monte de areia de que fallei, e daqui para haixo só encontrava agua debaixo da areia , o que se obtinha abrindo mesmo com a mão uma pequena cova , e logo a um palmo apparecia mui boa agua. Cheguei finalmente no dia 17 de novembro a Mossamedes, e no mesmo dia communiquei com o commandante da corveta.

— No seguinte dia fui visitado pelo soba Loquengo [aqurlle que eu soltei no Iáu] trazendo-me um boi e dois carneiros.

— Passados dias fomos eu e o commandante á libata do Loquengo que nos tratou muito bem e nos obsequiou o melhor que póde, e ao commandante pediu com grande instancia que o avassalasse afim de ficar protegido contra as vexações do soba do Iáu e outros que o opprimiam, como ha pouco lhe tinha acontecido. Pediu que lhe pozesse um nome, e lhe désse alguma insignia que indicasse a sua auctoridade; estimámos muito estas hoas disposições do soba, e consultando-me o commandante sobre o caso, assentámos de annuir aos seus desejos, e então se Ibe deu o nome de Giráhulo, cuja palavra exprime as relações que os seus antepassados tiveram com os brancos. Depois deste acto que teve logar com o ceremonial do costume, lhe recommendou muito o commandante que tratasse bem os brancos, que désse todo o auxilio aos navios que alli aportassem, e que soccorresse os naufragados, o que tudo protestou fazer de boa vontade. Convidou-o o commandante a ir a bordo da corvela, onde queria corresponder aos seus obsequios, e dar-lhe o distinctivo da sua nova auctoridade. Passados alguns dias foi com efeito o soha a bordo, onde foi mui hem tratado, e alli repetiu todas as promessas anteriores. Na presença da guarnição em parada , lhe poz o commandante uma bella capa encarnada , toda ornada de botões dourados e lavores, todo feito a bordo, e lhe deu uma cadeira , com o que, e uma salva de oito tiros de despedida ficou o homem por extremo contente e satisfeito. Alem do soba Giráhulo de quem tenho fallado, e que tem a sua libata no Loquengo a cousa de 4 a 5 milhas,' na costa do norte fóra da bahia, ha ainda outro mesmo na bahia , a que chamam Mussungo, que pela pouca importancia que parece ter, foi quasi neutro em todas estas transacções ; ficou com tudo muito satisfeito da nossa estada , pois que alem do beneficio que dela lhe resultou na boa porção de fazendas que lhe deixámos, tanto minhas como da corveta, não houve uma unica pessoa tanto de bordo como da minha comitiva que lhe désse o menor desgosto , ou praticasse o minimo excesso.

— Por todos estes motivos ambos os sobas ficaram dispostos a entrar em qualquer transacção com os brancos , e ambos mostraram grande desejo de que alli se fosse assentar algum estabelecimento. Os terrenos que occupam estes dois sobas, são duas varzeas nas margens do rio que desagua na hahia de Mossamedes , deitando um braço para o Loquengo e em amhos os logares tem terrenos que parecem de grande fertilidade, onde tem alguns arimos em que as mulheres cultivam feijão, milho, aboboras e alguma mandioca, que são as plantas que exclusivamente se cultivam por todos estes sertões. Concluidas as minhas observações e as do commandante da corveta, partimos para Benguela , onde me acho prompto a receher as ordens de V. S. 

— Deus Guarde a V. S. — Benguela 13 de dezembro de 1839. — Ill.0'° Sr. governador da Benguela e suas dependencias. (Assignado ) — João Francisco Garcia , 1.* tenente.

In O Panorama: semanario de litteratura e instruccão, Volume 8 Por Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis (Portugal),Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis (Lisbon, Portugal)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A colonização de Mossãmedes (Moçâmedes-Namibe-Angola) e o cultivo do algodão: 1854

O cultivo do algodão em Mossãmedes, nos primeiros tempos da sua fundação: 
Do livro Anais do Conselho Ultramarino, parte oficial, serie I, Fevereiro de 1854 a Dezembro 1858, Lisboa 1867.

Manda Sua Majestade El-Rei, regente em Nome do Rei, pela Secretária de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, remeter a Junta da Fazenda da Província de Angola os dois inclusos conhecimentos, datados de 26 de Outubro do ano passado e 10 do corrente, de duas maquinas de descaroçar algodão, que se remetem pelo brigue novo africano, capitão José Preim da Costa, ao qual a mesma junta satisfará a quantia de 117$925 reis, pela importância do frete dos referidos objectos, que deverão ser enviados para Moçâmedes, e ali entregues ao colono Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o qual deverá satisfazer á referida junta, com o produto do primeiro algodão em rama ali preparado, não só a predita quantia de 117$925 reis, importância do frete, como também a de 33$095 reis fortes, em que importaram as referidas maquinas, responsabilizando-se a esse pagamento por meio de uma obrigação, que deverá assinar no acto em que lhe forem entregues.

Paço, 18 de Janeiro de 1854 = Visconde de Athoguia.
                                                           
                                                             *   *   *

Manda sua majestade el-rei, regente em nome do rei, pela secretaria de estado dos negócios da marinha e ultramar, comunicar ao governador de Moçâmedes, que nesta data se remeteu a junta da fazenda de Angola, pelo brigue novo africano, as duas maquinas de descaroçar algodão, que havia requisitado o colono Bernardino Freire, ao qual a mesma junta as mandará entregar mediante uma obrigação que ele deverá nesse acto, e na forma do seu pedido, assinar, em que declare se responsabiliza a satisfazer a sua importância pelo produto do primeiro algodão em rama já preparado; e por esta ocasião manda o mesmo augusto senhor recomendar ao referido governador, que informe de seis em seis meses a respeito do uso que delas tiver feito aquele colono, e do estado em que achar a cultura do algodão, para que em vista de tais informações possam adoptar-se as providencias que mais convier.

Paço, 18 de Janeiro de 1854 = Visconde de Athoguia.


A cultura do algodão  iniciada pelos colonos de 49 e 50, assumiu no sul de Angola um tão acentuado desenvolvimento, que o porto de Mossãmedes chegou a ser, de todos os portos da província, aquele por onde se fazia mais larga exportação daquela preciosa malvácea. E a cultura da cana, tentada simultaneamente no distrito, que iria medrar, com notável pujança, nos vales do Giraúl, do Bero e do Curoca, merecera, de igual modo, a atenção e os vigilantes cuidados aos antigos colonos. 


Carta do Brasão de Armas do Município de Moçâmedes encontra-se registada no livro nº. 50 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
                                                                          *   *   * 

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Um conto de vez em quando: o Padre Basílio

    A Igreja paroquial de Santo Adrião, vendo-se à esquerda a sacristia




O Padre Basílio


Sobre o Padre Basílio transcrevo a seguir um texto que mostra bem a personalidade do muito propalado homem de Igreja que um dia foi mandado estar à frente da Paróquia de Santo Adrião, em Moçâmedes.

"...O padre Basílio foi um padre bizarro que passou por Mossâmedes (Moçâmedes-Angola) nos anos 1930/1940, uma vez que possuía um comportamento pouco ortodoxo que não se enquadrava nos padrões morais da época, nem se enquadrariam ainda hoje, passados que foram mais de 70 anos, e de tal modo que se tornou para quem ali vivia, como que uma figura mítica, rodeada por uma auréola de negatividade.  Dele se dizia que era rezingão e malcriado, que não gozava da simpatia e dos favores da população, que poucos o amavam e muitos o odiavam, que alguns o toleravam, pelos muitos anos que levava pastoreando o mesmo rebanho de fiéis, pelo respeito pela batina negra que vestia, e pelas compridas barbas que pendiam do seu rosto mal encarado e mal amado.

O padre Basílio, tinha o seu próprio código de honra, de ética e de convivência, desajustado para a figura de  uma pessoa que deveria primar pelo exemplo da conduta e da contenção da palavra.  Pai de um casal de mestiços que com ele partilhava a residência paroquial, na parte traseira da Igreja paroquial de Santo Adrião,  nunca escondeu a ninguém a paternidade das crianças, assumindo-a na sua plenitude, como se fosse a coisa mais vulgar deste mundo um sacerdote seguir à letra o preceito da bênção de Deus a Noé  aos seus filhos: «Sejam férteis, cresçam e encham a Terra».

Nem o bispo, nem as pessoas mais importantes da cidade, muito menos as beatas mais militantes ousavam frontalmente censurá-lo, com temor das suas reacções ou das represálias contundentes, onde quer que fosse, no púlpito da Igreja, no salão requintado, ou em qualquer esquina ou rua da cidade. E com o avançar da idade mais ainda foi apurando o  seu génio briguento, de tal modo que corria pela cidade, naquela década, que quando a vizinhança uma vez clamou contra a praga de ratos que vinham do templo consagrado à oração, ele próprio decidiu fazer a desratização da sacristia, da Igreja e da residência paroquial...a tiros de revólver.

Outra faceta do mau feitio deste padre era revelada pelo modo como catalogava os seus paroquianos, dos mais carenciados aos mais abastados,  dos pobres de espírito e pobres de cultura aos pobres de estrutura. A estes, esporadicamente, quando se recolhiam no seu confessionário para se libertarem dos pecados, mesmo que  implorassem, não lhes era concedida a penitência nem a absolvição. "

Mário Augusto da Silva Lopes 
 
                                            


P.S.

O que o meu amigo Mário Augusto não referiu, foi uma cena ocorrida no interior da Igreja Paroquial de Santo Adrião, em Moçâmedes, que teve como protagonistas o  padre Basílio, e duas jovens  estudantes,  e que deu brado em toda a cidade.

Por essa altura  uma das escolas primárias da terra funcionava  no rés-do-chão do Palácio do Governador, ali mesmo ao lado da Igreja. Contavam as senhoras que viveram aquele tempo (anos 1930-40) que um dia, a duas jovens estudantes, ao passarem pela Igreja no regresso a casa, apeteceu-lhes empurrar a porta que estava entreaberta, entrar, e ficar ali a rezar um pouco. E se tal pensaram, assim o fizeram. Com o que não contavam foi com a cena que se iria desenrolar à sua frente, quando, vindo dos lados do altar, o atrevido padre Basílio, envolvido numa capa que lhe cobria o corpo nu, ao aproximar-se delas, abriu a capa e  deixou-se exibir... Resultado, as jovens envergonhadas saíram a correr, apavoradas, da casa do Senhor Jesus Cristo, e a notícia correu a cidade de canto a canto. A  partir de então, as raparigas da pacata  Moçâmedes aconselhadas pelas vigilantes mamãs quanto ao risco que corriam ao entrar naquela Igreja, nunca se atreveram a ali entrar sem a companhia de alguém de um adulto da sua confiança. Pelo menos enquanto ali esteve o malandreco Padre.



MariaNJardim

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Os incidentes de Pernambuco (Brasil) na origem do arranque da colonização branca de Mossãmedes(Moçâmedes, actual Namibe), em 04.08.1848

















Transcreve-se a parte de um texto ass. por Jorge Fernandes Alves, pelo interesse de que se reveste para o assunto tratado neste blog:


Tensões nativistas


Depois das agruras da viagem, o português desembarcado no Brasil, depara, particularmente nos tempos pós-independência, com uma luso-fobia acentuada, que sintetiza vários tipos de animosidades ( políticas, económicas, sentimentos de rua contra a caristia...). Pedro Calmon sublinhou devidamente as dificuldades iniciais de um sistema «imigrantista» que substituisse a escravidão, devido a preconceitos ancestrais de xenofobia colonial, cuja informe agressividade espicaçava, nas ruas, o delírio nacionalista». E, «consumada a independência, resta o acto popular de desforra, o mata-maroto que na Baía se repete, pitoresca e tragicamente todo o ano, e em Recife tem aspecto de uma ameça permanente, social da Patuleia, contra o comércio retalhista».

Multiplicaram-se este tipo de motins na época regencial, mas o seu lastro permaneceu durante muito tempo, tendo muitos jornais da época, verdadeiramente incendiários no seu  radicalismo jacibino, contribuiso para os criar ou ampliar.

A Revista Universal Lisbonense, dá-nos conta deste ambiente ao longo de vários números, e publica textos de defesa em 1851, escritos por portugueses radicados no Brasil, para divulgação neste país, dado o número elevado de assnantes da publicação aqui existentes. Entre insultos, o Argos Maranhense apontava o essencial: «são mais protegidos do que nós no comércio, dedicam-se exclusivamente a ele, e além dos tropeços que encontramos em uma legislação incoerente com os interesses nacionais, impõem-nos uma barreira insuperável e impedem que brasileiro algum se possa proficuamente ocupar neste ramo de industria. Outros jornais brasileiros, como o Estandante ou o Progresso, afinam pelo mesmo diapasão, numa propagação da luta contra o facto de o comércio a retalho estar em mãos portuguesas, pelo que se apela à nacionalização do comércio.

Esta campanha pela nacionalização do comércio a retalho, no âmbito da hostilidade dos portugueses,  terá sido desencadeada em 1842, em Pernambuco, por ocasião da rebelião "praieira" . Mais tarde, em 1844, o mesmo partido praieiro terá peomovido um abaixo assinado em que se  requeria ao governo a expulsão de artistas estrangeiros, e a proibição de certas produções industriais por estrangeiros. E, em 1848 (26 de Junho), ainda em Pernambuco, a partir de uma briga entre um estudante  brasileiro e um caixeiro português, de que o primeiro saiu ferido, estala um motim anti-português, em que aos gritos de "mata-marinheiro" se liquidaram vários portugueses comerciantes e se solicitou de novo à assembleia provincial a expulsão dos estrangeiros  do comércio a retalho, bem como a a expulsão de todos os portugueses solteiros com mais de 15 anos, num cortejo de acusações que proliferavam em jornais e clubes nocturnos. Vários enviados do governo português colocaram-se à disposição dos  emigrantes, para os conduzir à  alternativa de África, indo algumas centenas construir então a colónia de Moçâmedes, Angola.

Embora amainando è medida em que surgiam medidas graduais no longo caminho da abolição da escravatura e se desenvolviam políticas de emigração, esta animosidade está subjacente ao relacionamento do brasileiro com o português, num clima vivencial qie Pedro Calmon definiu exemplarmente "o contraste entre a transacção lusófila do alto e a trepidante lusofobia das ruas" . Assim, de vez em quando emergem conflitos em que o português se torna "bode expiatório"...

In "Variações sobre o brasileiro". Tensões na emigração e no retorno do Brasil. Revista Portuguesa de História. Tomo XXXIII (1999). U. Coimbra
Para ler o texto completo: AQUI