Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Colonização das Terras Altas de Mossamedes: Huila. ODISSEIA DE UMA GENTE – 1884 -1ª Parte



 
Carro bóer – Réplica à escala 1 – 5 m. Construído por Jorge Rodrigues

1884 – ODISSEIA DUMA GENTE - PRIMEIRA PARTE
Duma Ilha para um continente
A 19 de Novembro de 1884, o vapor “Índia” acosta na baía de Moçâmedes. A bordo uma carga humana de 222 almas constituída por homens, mulheres, adolescentes e crianças. Esta carga humana, ao aportar, havia já passado pelos sacramentos do baptismo e do crisma com o nome de “Primeira Colónia de Madeirenses” destinada ao povoamento do planalto Huilano.


PORTELA DO BRUCO “A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros

Registe-se que seis meses antes, este “Índia”, nesta mesma baía, “descarregou” 44 emigrantes entre estes 16 oriundos da Madeira. Esta gente foi despachada a pé para a Humpata, 1800m de altitude, 180km de Moçâmedes. A caminhada foi calcorreada pela íngreme portela do Bruco, via “Colónia Penal do Txivinguiro”. Por via do choque térmico – calor de Serra – Abaixo contra a exposição às chuvas e frias noites do planalto - muitas pessoas adoeceram. O envio destes colonos para a Humpata constituiu, por intenções óbvias, o embrião do estabelecimento de portugueses para ombrear com a irrequieta e problemática comunidade bóer ali instalada em Janeiro de 1881. Recorde-se que no local onde foram fixados estes recém-chegados, existiam alguns casebres degradados obra de sete homens e uma mulher, parcela proveniente da fracassada e dissolvida colónia “Júlio Vilhena”, de Pungo-Andongo/Malange, composta por 41 salteadores e vadios requisitados às cadeias de Lisboa. Esta fracção, expirado o período das regalias de subsídio a juntar a ocorrência dum homicídio por esfaqueamento, abandonou a Humpata deixando as terras como no dia em que ali chegou – Março de 1883.
Tem assim início a realização do sonho de Bernardo de Sá Nogueira Figueiredo, partidário do funesto liberalismo do inconstante D. Pedro IV, (primeiro imperador do Brasil!). Foi este general sem um braço, perdido em combate no Alto da Bandeira contra o exército Miguelista que, feito Marquês de Sá da Bandeira e depois Ministro da Marinha e Ultramar, no reinado de D. Maria II, concebeu um plano para o povoamento, por portugueses, do planalto da Huíla.
Os planos de Sá da Bandeira (falecido em 1876) foram humanamente bem intencionados. Mas, passados à prática na vigência do ministro Pinheiro Chagas (crítico de Sá da Bandeira), como se verá neste breve esboço no tratamento dado aos madeirenses, todos os intervenientes nos preparativos de recepção e fixação destes, não deixaram saudades. No dia 20 de Novembro o governador de Moçâmedes, capitão Sebastião Nunes da Mata, nomeia Câmara Leme director desta primeira colónia baptizada de Sá da Bandeira. Este Câmara Leme, também madeirense, já conhecia bem a região inclusive o local para onde seria conduzida esta “Primeira Colónia”.
Debilitados devido ao enjoo, péssima alimentação e deficiente higiene nos 36 dias que durou a viagem, os “passageiros” são levados em pequenos botes para terra (a ponte cais, obra de Câmara Leme, encontrava-se já assoreada). Ali, o que viram e sentiram? No horizonte, o desolador deserto; sob os pés, muitos deles descalços, areia escaldante; sobre a cabeça, um sol impiedoso. Em grande sofrimento, clamavam por água para matar a secura e um tecto que os aliviasse da inclemente insolação. Apelo inútil: a água foi distribuída a conta-gotas, e um tecto simplesmente não havia sido providenciado e nulas as possibilidades de o improvisar.
Esgotada a paciência, na presença do governador, os até aí submissos ludibriados, enfurecidos, em uníssono, exigiam a sua imediata repatriação. O governador apela à calma e paciência enquanto, ao mesmo tempo, astuciosamente, evocava os contratos assinados e os subsídios de 30$000 réis avançados no momento do engajamento na Madeira. Entre os habitantes que indignados assistiam ao triste espectáculo, um deles, pescador de profissão, colocou à disposição um armazém para instalação precária dos recém-chegados.
Aparentemente amainados os ânimos, com crianças e bagagem às costas, foram-se amontoando, qual rebanho de carneiros, no disponibilizado armazém. Ante tamanha adversidade, a confiança e a esperança que os animou ao embarcarem na Madeira foram esmorecendo.


Carro boer puxado por vária juntas de bois (foto internet)
Para aumentar o desânimo daquela pobre gente, por desleixo das “autoridades”, nem os meios de transporte para o Lubango haviam sido garantidos. Só nesse momento foram solicitados (via terrestre) à Bibala, Capangombe, Bumbo e Humpata os carros possíveis. Os solicitados ao Bumbo, por recusa do proprietário, foram tomados à força. Por tal incúria, de uns 10 dias previstos de permanência na inóspita vila de Moçâmedes, prolongou-se – calculo – por entre 20 e 40 dias.
Os efeitos dessa vergonhosa negligência foram deveras nefastos e desesperantes. Enquanto os homens deambulavam pelas tascas a afogarem as suas desilusões em aguardente e a provocar desacatos, as mulheres e crianças, amarguradas, regavam com suas lágrimas as areias escaldantes do deserto; lágrimas de saudade da sua “Miséria na Madeira”, agora tão distante, para onde nem lhes era permitido escreverem: não fossem as desanimadoras notícias desmotivar os conterrâneos das angariações em curso para aquele enganoso “eldorado”…
Do mar para a serra – penosa viagem
Com intervalos consideráveis, conforme as distâncias de origem, os carros (4 rodas puxados por espanas de 20 bois) e carroças (2 rodas puxadas por 10 bois) foram chegando a Moçâmedes. Porque para além do preço da viagem era cobrada certa importância por cada dia de espera, a “Colónia” foi fraccionada em três grupos, com partidas entre princípios e fins de Dezembro.



Carro boer puxado por vária juntas de bois atravessando o Caculuvar (foto internet)
Primeira etapa – Nas referidas viaturas, com toldos montados, sobre as bagagens foram amontoadas as mulheres e crianças. Os homens e adolescentes, por falta de espaço nos carros e necessidade dos seus braços, marcharam a pé na vanguarda do “comboio”, com a tarefa de suavizar os buracos da “estrada”. Devido ao forte calor e escassez de água o percurso pelo deserto até próximo da Bibala, era feito, salvo imprevistos, em dois “trekes” (jornadas) de 3 horas: a primeira, das 5 às 8; a segunda, das 17 às 20, a uma média de 3km/h. De dia, sob a rala sombra das esparsas espinheiras, as pausas eram aproveitadas para confecção de alimentos e pasto dos bois. A da noite, para “repouso” das pessoas e descanso dos bois a ruminarem o insuficiente e seco capim.
Segunda etapa – Ao 12 º dia, percorridos 170km, o “comboio” chega à Bibala (Vila Arriaga desde 1912), 800m de altitude, na falda da imponente escarpa da cordilheira da Chela. Para a gente e bois, os dias de sufocante calor e carestia de água tinham terminado. Mas faltavam ainda 80km, agora com as condições climáticas invertidas – chuva e frio – para alcançarem a “Terra da Promissão”.
A partir da Bibala o trajecto da íngreme ascensão para contornar a alcantilada escarpa, exigia dos peões tapa-buracos, muitas vezes encharcados, esforços redobrados. Os “trekes”, face aos perigos da precipitosa e esburacada “estrada” e de um possível ataque de leões, passaram a ser percorridos em marcha mais lenta: das 6 às 9 h e das 15 às 18. Os peões e “tripulações” (trios) dos carros rapidamente improvisavam, com estacas e rama, uns cobertos para abrigo e protecção das fogueiras, atiçadas durante a noite.
Galgada a serra – talvez numa semana – a primeira fracção da “Primeira Colónia de Madeirenses”, contornada a portela da Quilemba, avista o planalto huilano: a “Terra da Promissão”. E a 25 de Dezembro de 1884, sexta-feira, de zero para 1750m de altitude, acampa finalmente na margem direita do rio Caculuvar, onde é “despejada”.



Mais desencantos – Barracões
Usei o termo “despejada” por considerar o mais ajustado e consentâneo à realidade episódica por que passou esta primeira colónia. Enquanto estes aguardavam em Moçâmedes pelos meios de transporte, foi confiado a um agricultor da Copola – Serra-Abaixo – admitido como colono, para com o auxílio do chefe da Huíla, capitão Pedro Augusto Chaves, proceder à construção de barracões para acampamento temporário dos colonos. Só que à chegada destes ao local, previamente preferido, encontraram apenas o lugar, o “colono extra” de braços cruzados e alguns machados à espera de homens para os manejar. Do chefe da Huíla, que por obrigação do cargo deveria estar presente, nem sinais. Este encontrava-se – onde por sistema permanecia por longos períodos – na Chibía, a gerir o seu monopólio comercial, os grandes campos de cana-doce e os alambiques a destilarem aguardente; prova de absoluto desrespeito pelos insignificantes colonos chegados à área do concelho à mercê da sua autoridade. Por abrigo para os colonos, à deriva, do rigor da chuva, valeu-lhes a boa-vontade dos donos dos carros, permanecendo ali por alguns dias e a cedência de duas lonas estendidas sobre uma armação de paus com uma elevação em ângulo obtuso.
Um dia após a chegada da colónia, homens e adolescentes, enquanto uns empunhando os machados davam início ao corte de paus na área circundante, outros os transportavam, aos ombros, para o local da construção. Terminada a estrutura do primeiro barracão, por falta do capim – em Janeiro esta poácea está ainda a meio crescimento – preferido para coberturas, este foi coberto provisoriamente com várias camadas de rama até atingir o grau de inclinação necessário para escoamento das chuvas. Nas paredes, de pau-a-pique, para protecção do vento, foi também aplicada uma espessa camada de rama presa por varas transversais atadas commalói.

(Extraído do livro “A Colonização de Terras Altas da Huila”) de Carlos Alberto Medeiros Primeiras casas de colonos madeirenses na Chibia
Concluído o primeiro barracão segue-se a construção de outro, talvez com o reforço do pessoal do segundo grupo (não encontrei registo da data da chegada deste). A 18 de Janeiro de 1885 chega ao local o terceiro grupo, ficando assim para triste alegria de todos, reunificada a “Primeira Colónia de Madeirenses”. A inauguração oficial da colónia Sá da Bandeira teve lugar a 19 de Janeiro de 1885 – Segunda-Feira.
Já que principiei vou concluir a história dos barracões. Depois dos dois atrás descritos, a um ritmo mais lento, foram construídos mais dois. Em meados de Maio a espécie de capim “Muhóque”, próprio pela qualidade e tradição para coberturas, está pronto para corte. Porque os bois mesmo em verde mal lhe tocam e resiste às pragas de insectos e lagartas, a sua vegetação espessa, em terrenos abertos, abunda em todo o centro e sul de Angola. Assim, foi fácil a ceifa da quantidade necessária para cobrir os quatro barracões e reserva para algum remendo. As coberturas foram trabalhadas por homens proficientes na arte de colmar. Em simultâneo, todas as paredes, de pau-a-pique, foram barreadas. Por estes barracões passaram as sete colónias de madeirenses: as duas de 1885, e as anuais – 1888 a 1892. Em 1890 serviram ainda de abrigo durante a instalação da colónia do Caculuvar – de má memória – a historiar em capítulo próprio.

Cumprida a sua utilidade, os barracões, votados ao abandono, foram-se degradando e as madeiras, ressequidas, acabaram em cinzas nas trempes do povo das redondezas. Anos depois, como sinal de sentido respeito pelo sítio e pela gente que lhe deu vida, foi erigida uma réplica destes, assistida com os indispensáveis cuidados de conservação até a década de quarenta. Este, descurada a manutenção, aos poucos, teve o mesmo fim dos primeiros. Próximo deste foi erigida uma pequena capela a tijolo e telha e em simultâneo murado o cemitério onde repousam os que ali pereceram.
Desde o primeiro ano da chegada dos madeirenses, 115 anos decorreram. A odisseia dessa gente passou à história; mas os símbolos permanecem indeléveis: O 19 de Janeiro consagrado a feriado da cidade do Lubango; o Lugar conserva o nome de Barracões; a Capela mantém-se erecta e de portas abertas; o Cemitério, incólume e silencioso, esconde no seu seio os que ali dormem até à consumação dos séculos. E, em posição de relevo, a assinalar o Sagrado Lugar, o memorável Monumento no qual, na face orientada ao Atlântico, gravada a Saudosa e Justa Homenagem:

NESTE LOCAL INSTALARAM-SE
OS PRIMEIROS COLONOS MADEIRENSES
EM 1885




Lugar dos barracões





Lugar dos barracões. Foto de Armindo Ferreira da Colorama (Luanda)


Lugar dos barracões


Sobre a colonização de Mossãmedes (Moçâmedes- Namibe-Angola) in Annaes fo Município de Mossãmedes: 1839 a 1856,




Segundo cópia extraída do livro MS "Annaes do Município de Mossamedes", de fls. 1 a 3-V, Annos de 1839 a 1849, especialmente para servir de informação ao autor deste ensaio - gentileza que devo ao chefe da Secretaria de Câmara Municipal de Moçamedes, Sr. Artur Trindade - "Mossamedes cuja bahia foi denominada - Angra do Negro - pelos nossos Navegadôres, foi mandada vezitar pelo Capital General d'Angola Barão de Mossamedes, cuja comissão foi incumbida ao Capitão Mór de Benguella que aqui veio com forças por terra, e a este facto deve a sua denominação.

Embora a dacta do seu descobrimento seja muito antiga, o princípio de sua povoação dacta de 1939. Neste anno veio de Banguella a Quillengues, e de aqui a Huilla, Jau, e depois a Mossamedes o Tenente de Artilheiria João Francisco Garcia, onde já achou fundeada no porto a Corveta Izabel Maria commandada por Pedro Alexandrino da Cunha Garcia vinha nomeado Regente. 

Já então existia no local que hoje se chama - Hortas - huma feitoria bem montada pertencente a Jacomo Fellipe Torres, de Benguella, administrada por hum homem de sobrenome Guimarães, que fazia muito negócio, e se achava acreditada com o gentio, o que lhe accarretou tal perseguição que foi prezo na mesma Corveta para Loanda roubando-se-lhe e destruindo a feitoria. Jacomo protestou contra a violencia, e obteve justiça, mas não reparação. Apezar deste accontecimento ainda assim veio em 1840 Clemente Eleutherio Freire montar outra feitoria de sociedade sociedade com D. Anna Ubertal de Loanda, e em 1843 veio pois veio João Antônio de Magalhães estabelecer outra feitoria de sociedade com Augusto Garrido; porem de todas estas feitorias so existe hoje a de Fernanda, por se ter fundado na pesca e dedicado também à cultura. 

Começou pois esta povoação por hum presidio em que alem da força millitar e degredados se estabelecêrão algumas feitorias, e d'entre alguns de seus administradôres taes como Fernanda e Freire; bem como o Tenente de Marinha A. S. De Souza Soares de Andreas, e Commandante do Brigue "Tejo", e sua guarnição foi que nascerão os primeiros ensaios da Agricultura. A força de vegetação que se conheceo em algumas sementes lançadas à terra, a descripção feita por alguns officiaes de Marinha; e a benignidade do clima fizerão suscitar a idea da colonização deste local por gente não degredada.
 
 Os partidos politicos do Brazil, principalmente em Pernambuco, tendo sempre por fim a maior ou menor perseguição aos Portuguezes alli residentes desgostarão estes, e muito concorreo tal perseguição para fornecer a idea de colonizar Mossamedes; as expozições que de Pernambuco se fizerão para o Governo Portuguez sendo acolhidas, este deu providencias para se transportarem colonos Portuguezes do Brazil para Mossamedes. Em Maio de 1849 sahirão o Brigue Douro e a Barca Tentativa Feliz da barra de Pernambuco; e em 4 de Agosto do mesmo ano chegarão a Mossamedes transportando famillias e homens solteiros de todas as classes e idades; sendo todas as despezas feitas à custa do Governo ( Ate aqui seguimos huma memoria fornecida a esta Câmara pelo cidadão Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, a qual por sêr bastante extensa deixamos de transcrever; e continuaremos a approveitar d'ella o que julgar-mos necessário e util. A ditta memoria acha-se archivada n'esta Camara, onde pode ser consultada).

Em 13 de Outubro de 1850 huma outra expedição deixava as agoas de Pernambuco a bordo do Brigue Douro, e da Barca Bracharense que se denominou segunda colónia; cujo transporte e despezas forão feitas à custa de huma subscripção Portugueza, e que apezar das notícias a drede espalhadas por meio de carta hidas de Massamedes na "Escuna Maria" que fazião huma descripção miseravel, e infelizmente verdadeira naquella epoca, deste estabelecimento, não deixou de ser numeroza; aportando a Mossamedes a 26 de Novembro do ditto anno. Estes segundos colonos que deixando Pernambuco em hum estado mais calmo do que aquelle em que deixarão os primeiros de seus compatriotas, e que por conseguinte vivião já em melhor tranquilidade vierão achar aquelles em hum estado deploravel, e faltos de animo. Huma esterilidade espantoza motivada pela secca; pessimo sustento composto de má farinha de mandioca, feijão pôdre, etc. Huma nudez quazi completa, e finalmente hum completo exaspêro, a ponto de muitos se julgarem felizes com a praça que se lhe assentava em recompensa de tantas privações! Quinze mezes erão passados, e nesta epoca de esterilidade que poderia fazer-se? Alem da secca, faltavão sementes; o directôr da colonia foi a Loanda levando em sua companhia hum colono (Francisco da Maia Barreto); este foi ao Bengo, e de alli trouxe as primeiras sementes de cana, maniva etc., e pouco antes da chegada destas chegárão algumas sementes ao cidadão Fernando Joze Cardozo Guimarães que forão plantadas (a canna) sob a direcção do colono Joze de Albuquerque na horta daquelle senhôr, e foi d'estas sementes que se crearão viveiros para os annos fucturos. 

Foi ainda nesta epoca de verdadeira calamidade que chegárão mais colonos do Rio de Janeiro, e Bahia, dos quais ficárão mui poucos por falta de recursos; entre os desta ultima cidade alguns vinhão que trazião capitaes e querião ficar para negociar, o que não seria pequena vantagem; infelizmente fôrão disso despersuadidos. A este facto, e ao de terem-se escripto d'aqui pessimas noticias para o Brazil se deve o não terem continuado a aportar aqui colonos vindos à sua custa; - mas como virião elles se para alli se escrevia dizendo-o clima é pessimo - he um lugar de degredados onde sômos tractados como taes ( e em parte havia razão para o dizer) - he peor que na Ilha de Fernando de Noronha - não nos deixão de aqui sahir sem completar 10 annos - e outras muitas couzas? Dizemos que em parte tinhão razão por que a mortandade foi espantoza nos primeiros dois annos: Colono houve que foi 10 e 15 vezes ao Hospital em hum anno, donde sahia como entrava por falta de tratamento! Como não seria grande a mortandade se pessoas que habituadas a hum tratamento regular vivião agora a meia ração, e esta muitas vezes damnificada? Se hum lugar pouco salubre como o Bumbo em quanto que a chuva cahia a jorros se achavão miseros infelizes debaixo de alguns ramos aquentando-se a huma fogueira sem roupa para cobrir-se, por que muitos a deixarão no Estabelecimento por falta de conductôres quando para alli fôrão; tendo tido huma penosa viagem a pé por caminhos quazi intranzitaveis sem poder suportar o calôr de huma areia quazi ardente? Examine-se um pequeno numero de artistas e outras pessoas, que puderão sustentar-se com hum alimento mais saudável, e que não passarão essas privações, e vêr-se la que não tiverão até hoje huma baixa ao Hospital, e alguns dos quaes no decurso de seis annos não sofrêrão ainda huma intermittente; e examine-se tambem essas pessoas que aqui chegão do Reino ou do Brazil, e que não soffrem essas privações; veja-se a sua robustez, e conhecer-se ha esta verdade. Foi em consequência dessas privações que alguns colonos fugirão da Huilla, e que hum melhor futuro fez volver ou trazer a Mossamedes, porque desde o momento que os colonos podérão sustentar-se à sua custa, desaparecêrão essas molestias, e Mossamedes de hoje (1870?) he hum Paraizo comparada ao de 1850.

Se nos demorarmos em mencionar este facto he porque julgamos de interesse e seu conhecimento no fucturo; he porque sômos Portuguezes, e desejamos que se saiba no Brasil, em Portugal, e se possivel fôr em todo o mundo, que o clima de Mossamedes he melhór do que o de toda a Africa; superior ao de todo o Brazil; superiôr ao de muitos lugares de Portugal, e quazi igual ao melhor e mais temperado deste ultimo paiz; e desejamos emfim que se desvaneção esses restos de receio de vir aqui habitar; porque só assim e com hum governo poderemos prosperar; e para prova do que acabamos de dizer deste clima salutar examine-se ainda essas crianças nascidas e creadas aqui; a sua robustez, e sobre tudo essa côr purpurina de suas faces, huma grande parte das quaes vive continuamente exposta aos raios abrazadôres do sol!".


Segundo cópia extraída do livro "ANNAES DO MUNICIPIO DE MOSSAMEDES", DE FLS. 41 E 41-V, ANNOS de 1839 A 1856, é o seguinte o "REZUMO DOS FOGOS, POPULAÇÃO, E PREDIOS URBANOS, CONCLUIDOS E EM CONSTRUCÇÃO NA VILLA, E ARREBALDES, ATE AO FIM DO ANNO DE 1856", isto é, sete anos depois da chegada à África dos primeiros "brasileiros";
FOGOS
Na Villa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
No local das Hortas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
Na Bôa Esperança. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
Na Bôa Vista. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
Nos Cavalleiros e Macalla. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
Total 85
POPULAÇÃO LIVRE
Sexo masculino. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 164
Ditto femenino. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .108
Total 272
POPULAÇÃO ESCRAVA
Sexo masculino. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .475
Ditto femenino. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .157
Total 632
54 Libertos do dois sexos.
PRÉDIOS CONCLUIDOS
Na Villa
De pedra. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .36
De adobe. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . 8
De pau a pique. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22
Cubatas de palha. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .10 76
Nas Hortas e Aguada
De adobe.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
Cubatas de palha e pau a pique.. . . . . . . . . . . . . . . . . .. 4 10
Na Boa Esperança
De adobe. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 20
De pau a pique. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 27
Boa Vista
De adobe. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - 2
Nos Cavalleiros e Macalla
De pedra. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
De adobe. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . 2 3
PRÉDIOS EM CONSTRUÇÃO
Na Villa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .12
Nas Hortas... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
Na Boa Esperança. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 19
Engenhos
Nos Cavalleiros (montado). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1
Ao que se deve acrescentar o seguinte "REZUMO DOS PRODUCTOS AGRICOLAS DURANTE O ANNO DE 1856":
Assucar 178 As Vendeu-se de 7.200 a 9.000 Rs. a. a.
Algodão 1.672 As. Regulou 600 reis por a. em carôço
Aguardente 41 ½ pipas Em todo o Districto

Aboboras 400 Somente de hum arimo
Batatas 5.405 As. Pode avaliar-se em mais um têrço
Bananas 400 cachos Somente de um arimo
Cará 4.247 As. Pode avaliar-se em mais um têrço
;Canna sacha 14 milheiros Regulou 20$ reis o milheiro
Farª de mandioca 8:170 Cazungueis. Pode avaliar-se em mais um têrço
Feijão 128 Dittos
Milho 813 Dittos
Azeite de carrapata Peqª quantidade
Hortaliças - grande quantidade"
E, ainda, êste, de "PRODUCTOS DE INDUSTRIA":
"Carne secca 612 as. Só em um estabelecimento e até agosto
Couros de boi 112 Só em um estabelecimento e até agosto
Peixe secco 12.600 Mattetes - Maior quantidade
Azeite de cação 206 pipas Ditto. . .ditto
Tijollo. . . . . . . . . 21 milheiros
Cal. . . . . . . . . . . . . 56 moiosAdobe. . . . . . . . . . 60 milheiros"
"Também êstes informes, que foram extraídos de livros MSS, hoje do arquivo da Câmara Municipal, devemo-los à gentileza do chefe da Secretaria da mesma Câmara, Sr. Artur Trindade".
São vários os amigos portuguêses do Oriente e da África a quem devo agradecimentos pelo modo por que me facilitaram a colheita de documentos e fotografias sôbre êste e outros assuntos luso-tropicais, afins do versado neste pequeno ensaio.
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3 Manuel Júlio Mendonça Torres - O Distrito de Moçamedes nas fases da Origem e da Primeira Organização, (1485 - 1859), Lisboa 1950, pag. 511 [voltar]
4 Negro Anthology, organizada por Nancy Cunard, Londres 1934, pag. 679. [voltar]
5 Negro Anthology, cit., pag. 688. [voltar]
6Londres, 1951, Pag. 137. [voltar]
7 Londres, Nova Iorque e Toronto, 1949, pag. 55. [voltar

Fonte: FREYRE. Gilberto. Em tôrno de alguns túmulos afro-cristãos. Salvador: Livraria Progresso; Editora e Universidade da Bahia, [1959]. 88p. il. (Coleção de estudos brasileiros. Série Marajoara, n.26).
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