Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 13 de agosto de 2011

Familias antigas de Moçâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola): João Thomás da Fonseca. A pescaria do Mocuio




João Thomás da Fonseca (pai) , ao centro, com  o seu bigode de ponta retorçida, como era moda na época, e indumentaria em conformidade sua posição de industrial privilegiado e bem sucedido. 1920?

 João Thomás da Fonseca (pai), ao lado de sua esposa, Celeste Sena, filha de Sebastião Sena. Entre ambos, a filha Celeste por volta de 1914


Foto: João Thomás da Fonseca (pai)  com um grupo de convidados entre os quais alguns oficiais da Marinha, a caminho do Mocuio onde possuia uma pescaria. Foto tirada em 1914/15?   Não sei se terá algo a ver com esta foto onde podemos ver alguns oficiais da Marinha, mas em 1914, o receio de uma ofensiva por destacamentos alemães sobre o planalto vinda do Sudoeste, e sobre Moçâmedes e de Porto Alexandre agitou sensibilidades e pôs a região em polvorosa. Em consequência,  Moçâmedes transformou-se num importante factor de defesa no quadro das operações terrestres realizadas no Sul de Angola, tendo o seu porto  desempenhado um importante papel  no decurso da movimentação de forças militares portuguesas e contra alemães e indígenas insubmissos, como porto de desembarque e de evacuação, e estação depósito. 

É interessante notar que as senhoras estão sentadas sobre caixotes, e que naquele tempo cada um  deles acondicionava 2 latas de 20 lts de gasolina, neste caso, da marca Sphinx. Isso acontecia porque naquele tempo não havia estações de serviço e a gasolina vinha em latas, havendo ainda publicidade desta marca de gasolina na Serra da Chela, tempos mais tarde.

Conforme vem descrito por Luiz Chinguar em "Ossos da colonização", "...até meados da década de 50 obtinha-se gasolina comprando latas (20 litros) ou tambores (200 litros), que depois se transportavam nas viagens, uma vez que nos “bicanjos” não havia bombas para abastecimento. Nas povoações do mato havia umas bombas manuais oferecidas pelos produtores de petróleo do Texas. Estas bombas eram constituídas por um carrinho, de duas rodas, que fazia lembrar as quadrigas romanas, só que em vez do Ben Hur (condutor) estava um tambor de 200 litros. A quadriga tinha uma “torre” de 2,5 m de altura que terminava em dois reservatórios de 5 litros, para onde era elevada a gasolina através de uma bomba manual de êmbolo, num sistema de vai-vem. Enquanto se esvaziava um reservatório para o carro, por gravidade, bombeava-se a gasolina para o outro reservatório, e assim sucessivamente, em golfadas de 5 litros. As latas e os tambores vazios eram depois aproveitadas para transporte de água. Uma água que, durante uns tempos, tinha um leve travo a gasolina, isto para não dizer que cheirava e sabia a gasolina" . Africa era assim! ver  OS ESQUELETOS NOS ARMÁRIOS

A pescaria do Mocuio nos seus tempos áureos

 
As instalações da pescaria do Mocuio. Junto das tarimbas de peixe seco: João Tomás da Fonseca (filho), ao centro, e  à dt., Faria, o encarregado da pescaria, pessoa muito estimada que ali trabalhou durante 50 anos. 1942?

Tudo começou quando João Tomás da Fonseca (pai), algarvio de Tavira, conhecido pelo "Bandeirinha",  nos tempos críticos  que antecederam a implantação da lª República (1910-1926), resolveu emigrar para Angola, onde foi por algum tempo contramestre de caíque que operava por toda a costa, até que um dia resolveu, com as facilidades governamentais obtidas  e  dinheiro amealhado ao leme de veleiro estabelecer-se no Mocuio, onde montou a sua pescaria, requisitou pessoal indígena, comprou os primeiros barcos à vela e remos, pagou mestres de terra algarvios que mandou vir para a sua pescaria,  montou três armações à valenciana, e depressa prosperou e fez-se ganhar respeito e influência no meio industrial limitado da Moçâmedes de então. Quem o  conheceu não esquece sua postura, sempre vestido de casaco de bom talhe, paletó, corrente de relógio suiço no bolso suiço, autêntico retrato de burguês bem de vida!

 Segundo informações colhidas do livro "Baía dos Tigres", o Mocuio era uma importante pescaria que nos seus tempos aureos (a industria piscatória tinha os seus altos e baixos) possuia salinas, fábrica de  conservas e de farinha e óleos de peixe, salga e seca, uma pequena congelação e estaleiro, para além de uma traineira de 80 toneladas, 2 sacadas só para a pesca do cachucho e da garoupa e 2 armações, que, para funcionarem precisavam no mínino de 4 barcos para efectuar a pesca à valenciana, e possuia também mais de 20 embarcações pequenas, para além de um Chalé do princípio situado num pequena elevação do terreno, o suficiente para qualquer pessoa ali instalada pudesse contemplar o oceano, os barcos que entravam e saiam, a azáfama que percorria  a pescaria.

A pescaria do Mocuio foi evoluindo, e João Tomás da Fonseca (pai) rodeou-se de todo o conforto possível, e mandou construir naquela praia deserta perdida nas escarpas do deserto, o seu bonito Chalet onde nada faltava em termos de conforto, inclusivamente um sistema de aquecimento e de canalização de água,  um mirante a partir do qual podia, sentado de fronte para o oceano, observar os galeões que entravam e saiam, para receberem a carga  que transportavam para o norte de Angola (Cabinda), Ponta Negra, Gabão e Golfo da Guiné,  levando dali o que havia (ovas, peixe seco, barbatanas de tubarão), e recebendo a troco de bordão, madeiras, etc, enquanto ao mesmo tempo ia observando, lá de longe, a azáfama da laboração pesqueira.


O Mocuio não possuia água potável, era a partir de Moçâmedes que a água era de início transportada  em enormes pipas, em barcos e em carroças puxadas por  bois, e mais tarde em camiões.

 
Na continuidade do Mucuio, navegando para norte de Moçâmedes (Namibe) ficam a Mariquita, o Chapéu Armado, S. Nicolau, Bába, Lucira, Vissonga, e a sul, a Baía das Pipas. Chegados  Moçâmedes e navegando para sul, encontram-se Porto Alexandre e  Baía dos Tigres. Em todas estas baías e enseadas isoladas de uma uniformidade que fadiga e desola, os algarvios foram se estabelecendo desde a segunda metade do século XIX. Para ali levaram as primeiras armações, ali  montaram as primeiras pescarias e lançaram ao mar as primeiras redes. Para saber mais, clicar AQUI. 


Fotos: Estas as mais recentes fotos do Mocuio, onde se pode ver ainda, 35 anos depois, sobressaindo entre as areias douradas do deserto e as tonalidades várias de azul do mar e do céu, aquela que foi até 1975, a pescaria de João Thomás da Fonseca (Herds), e o seu chalet cor-de-rosa, que mais de perto podemos ver na última foto, já em estado de degradação.
 
 
Mocuio, outrora uma progressiva pescaria, hoje um destino para turistas?
Fotos  publicadas no Facebook por João Thomás da Fonseca (neto).

Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola): as primeiras tenttivas de colonização

  
"...Foi a colonização de Mossâmedes a grande preocupaçao do ministro, e os seus esforços foram coroados de exito. Já no districto de Mossâmedes uns emigrantes boers se tinham espontaneamente estabelecido fundando a colonia de Humpata, a que se deu o nome de S. Januario por ser durante o ministerio do actual conde de S. Januario que essa colonia se estabeleceu; mas agora tratava-se de fundar colonias, por iniciativa do Estado, com emigrantes portuguezes, e todas as tentativas que se tinham feito n'esse sentido nos ultimos trinta annos tinham ficado completamente mallogradas.
Logo no principio de 1884 se enviaram colonos para Mossâmedes, mas foram colonos que se mandaram vir de todos os districtos do reino, e que não podiam formar um nucleo serio. Entendeu o ministro que eram os Madeirenses os colonos mais aproveitaveis, e em outubro de 1884 mandou sair o transporte do Estado India com ordem de levar para Angola uma colonia madeirense, que partiu effectivamente, e que, graças ao zelo intelligente do governador de Angola o sr. Ferreira do Amaral, e á boa vontade e conhecimento das coisas africanas do governador do districto de Mossamedes, Sebastião Nunes da Matta, hoje fallecido, se estabeleceu na região do Lubango, com a denominação Sá da Bandeira, sendo dirigida pelo habil conductor de obras publicas da província Camara Leme.
A colonia, sensatamente auxiliada, prosperou rapidamente. No anno immediato de 1885 o transporte de guerra Africa levou para Angola mais famílias da Madeira, mais de quinhentos colonos madeirenses alli se acharam estabelecidos fundando a colonia Sá da Bandeira e a alguma distancia a colonia de S. Pedro de Chibia. Os colonos deram-se admiravelmente, nasceram já alli numerosas creanças. A Chibia tambem progrediu com rapidez, a ponto que ultimamente se resolveu passar para lá a sede do concelho de Huilla. O que falta, porém, a essas colonias é a communicação com o mar. Se fôr por diante o projectado caminho de ferro de Mossamedes, essas duas colonias poderão considerar-se em via de ampla prosperidade.
Outra tentativa foi feita pelo ministro, que n'ella tinha grandes esperanças, mas que se mallogrou por culpa dos capitaes portuguezes sempre timidos e receiosos. O decreto de 5 de junho de 1884 concedia a um grupo de ofíiciaes distinctissimos, entre os quaes se contava o brilhante official de marinha sr. Neves Ferreira, 5oo hectares de terrenos no Benthiaba, para fundarem uma colonia agricola auxiliada pelo governo, o decreto de 2o de agosto do mesmo anno tornava por tal . forma effectiva a garantia dada pelo governo ás obrigações que os fundadores d'essa colonia emittissem que se não podiam receiar os capitaes de correrem perigos; ainda assim não ousaram, e nunca estes intrepidos iniciadores poderam encontrar o capital desejado.
Daremos conta quando nos referir-mos ao anno de 1885 de outra tentativa de colonisação, tambem mallograda. Sempre que era necessario appellar para os capitaes portuguezes, esses capitaes retrahiam-se.
Tendo o ministro o intuito de tornar o districto de Mossâmedes um centro importante de colonisação, prohibiu pola portaria de 12 de maio de 1884 que fossem enviados degredados para esse districto.
E tambem notando a facilidade com que os governos podiam nomear para o ultramar conductores de obras publicas sem as mínimas habilitações, o que dava resultados deploraveis que bem se faziam sentir no modo
Ainda no principio de 1886 o ministro fez um ajuste com a Castle-Mail, pelo qual esta companhia estabelecia uma carreira gratuita de vapores entre Mossâmedes, o Cabo da Boa Esperança e Lourenço Marques. No caso d'essa carreira lhe dar perda a companhia reservava-se o direito dè a não continuar, mas n'esse caso o governo diminuiria tres mil libras annuaes no preço do serviço directo de Moçambique. Esse serviço passaria a fazer-se não por 72 contos, mas por 58:5oo36ooo réis.
O projecto de lei estava assignado pelo ministro para ser apresentado ás camaras quando o ministerio caiu. O seu successor não acceitou a idéa, e foi esse mais um projecto mallogrado.
Não deixaremos tambem de mencionar outra tentativa mallograda, a do estabelecimento de uma nova colonia madeirense na costa de Mossâmedes. O decreto de 14 de agosto de 1885 concedia ao sr. João Antonio Moura 5.ooo hectares de terrenos baldios entre a bahia das Pipas e o Cabo Frio e garantia-lhe outros auxílios do governo para elle fundar alli uma colonia madeirense. Essa tentativa mallogrou-se, até porque o territorio entre a foz do Cunene e o Cabo Frio deixou de ser portuguez, pelo tratado de 1886 com a Allemanha.
Tambem deixou de se levar por diante o plano de reforma das nossas forças ultramarinas, plano cuja elaboração fôra confiada pelo ministro ao sr. Ferreira do Amaral, quando este voltou de Angola. Quando o sr. Amaral o pôde apresentar, já o ministerio caíra.
As reformas do serviço telegrapho-postal de Cabo Verde, S. Thomé c Principe, Angola e índia, essas é que ficaram decretadas, a primeira por decreto de 26 de dezembro, a segunda por decreto de 3o de dezembro, a terceira por decreto de 3 de dezembro e a ultima por decreto de 2X de dezembro de 1885.

Os Portuguezes em Africa, Asia, America, e Occeania: Obra classica, Volumes 7-8

Angola, mito e realidade de sua colonizacao by Gerald J. Bender

Eis aqui mais um livro, atraves do qual Gerard J. Bender oferece uma detalhada analise que consideramos vital para a compreensao do colonialismo portugues na complexidade das suas vertentes politicas, historicas e sociologicas.


Clicar aqui: 
Escrito por Gerald J. Bender

Francisco Maria Bordalo passou por Mossâmedes em 1840 na sua viagem a Angola...


 «...No principio de 1840 Francisco Maria Bordalo  partiu para Angola,  e durante esta estação visitou repetidas vezes a cidade de Benguela, onde adoeceu, o presidio de Novo Redondo e diversas povoações. Em Moçamedes esteve sete meses. Neste ano foi promovido a segundo tenente, por despacho de 26 de Novembro. In Wikipedia


«...No principio de 1840 partimos para Angola. Vi então pela «primeira vez esse soberbo continente africano, que os esforços «de nossos avós fizeram conhecido do mundo. Não foi sem terror que descobri os areaes da Libia., aonde cresce em liberdade «a palmeira; mas houve para mim uma grande compensação na «chegada a tão insalubres plagas — abracei o meu amigo Correia.»

Durante a estação de Angola visitou Bordallo repetidas vezes a cidade de Benguella, aonde adoeceu das febres intensas do paiz, o presidio de Novo Redondo, e as povoações, rios, e surgidouros, mais ou menos abrigados, da Catumballa, Sobito, Egipto, Quicombo, Benguella velha, Cuanza, Corimba e Bengo.
Ambriz, Cabinda e Molembo, ainda n'essa época não arvoravam a bandeira portugueza.
Em Mossamedes deteve-se sete mezes. N'esse tempo a povoação começava a erguer-se de algumas humildes barracas de palha. A fortalesa achava-se em principio. Á guarnição do brigue Tejo coube a honra de lançar os alicerces da primeira casa de pedra construida n'aquelle deserto areal. Á sahida do navio já morava n'ella o governador.

Contava desanove annos de idade, e já o anno de 1840 declinava para o seu termo, quando foi promovido ao posto de segundo tenente por despacho de 26 de novembro. Seriam optimos auspicios se a nossa marinha de guerra oflerecesse vantagens e estimulos; mas no fim de dez annos Bordallo ainda não tinha subido mais um só grau .  Parou ali esperando que os incidentes usuaes, e as taboas da mortalidade lhe abrissem caminho. Só em 1850 (a 12 de novembro) alcançou as dragonas de primeiro tenente!

Eis o quadro, que nos deixou de Angola e do seu estado. N'elle o observador e o escriplor em traços rapidos, e com as verdadeiras cores, nao só o aspecto das localidades, mas a physionomia da sociedade tão mudavel e ardua de colher na sua expressão natural:

«O viver n'aquellas paragens é monotono. Não se encontra nenhuma das distracções dos povos civilisados, á excepção dos «grandes jantares, que podiam muito bem passar para o dominio dos selvagens! Vêem-se ali homens febricitantes os quaes a sede do oiro «arrastou áquellas regiões, e que morrem abraçados ao dinheiro pensando ainda n'uma especulação de escravos na hora da «agonia! —Enxergam-se bandos de faccinoras, que a justiça para «ali enviou em degredo, e que enriquecidos por novos crimes, e ás vezes mesmo protegidos pela auctoridade, olham com despreso para o pobre que ali aporta, e tratam os negros como o «mais vil animal da creacão!!!
«Quadros risonhos não ha ali — só alguma bellesa de paisagem «como nas vicejantes margens do Bengo e do Cotumbella — tão «pouco sadios apesar da formosura do sitio. Como ha de haver «sociedade se faltam mulheres civilisadas, se a morte se encarrega de juntar a miudo no sepulchro a pobre europêa, que dá «á luz um filho, e o tenro fructo do seu amor! l!

....
Era assim que Francisco Maria Bordalo retratava Angola nesse tempo, 1840, anterior ao da fundação de Mossâmedes! Muita coisa iria mudar em termos de humanização da paisagem , com a chegada dos colonos vindos do Brasil, de Olhão e da Madeira... (acrescento meu)

Revista contemporanea de Portugal e Brazil, Volume 3 

Ensaios sobre a statistica das possessões portuguezas na Africa occidental e ... By José Joaquim Lopes de Lima, Francisco Maria Bordalo


 

O negócio de gado em Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola).1862

 Gado Cuvale no Deserto do Namibe. 1935-1939. Fotog.de Elmano Cunha Costa. ICCT


Carlos José Caldeira in "Apontamentos d'uma viagem de Lisboa á China e da China a Lisboa", dá-nos uma panorâmica dos povoados indígenas existentes no distrito de Mossâmedes nos primórdios da colonização, em meados do século XIX, bem assim como o negócio que alí se ia fazendo de gado, sal mineral, marfim, cera, urzella, abada, milho, e feijão, missangas, fazendas, etc, factor aproximação entre brancos e negros, e de incremento económico da região: 

"...Habituados a ver no gado factor de consideração do individuo de acordo com o numero de cabeças que o mesmo possue", "os povos próximos criam muitos gados, que já se vão costumando a vender, e os mais distantes os vendem até mesmo com preferância á cera e marfim, o que produz muita abundância e barateia de carnes, que se exportam para abastecimento da estação naval, e consumo em Loanda, propondo-se agora alguns especuladores a seccar a carne á maneira do Brasil, o que se pôde tornar um importante ramo de exportação. Um boi grande custa, termo médio, 5:000 rs. no interior, e 9:000 rs. na povoação, onde regularmente se vende a carne de consumo a 1:000 rs. a arroba, ou a pouco mais de 600 rs. fortes. Ultimamente tentava-se fabricar manteiga, o que se pode fazer em ponto grande, principalmente nos Gambos, onde ha prodigiosa abundância de leite.
 
D'antes muitos dos negros dos arredores recusavam-se, e ainda alguns se recusam a vender gados em maior quantidade, porque parece que os tem na mesma conta dos nossos bens vinculados, sendo regulada a importância e consideração do individuo pelo numero de cabeças que possue. Em algumas partes só matam os bois, e lhes comem a carne por occasião dos casamentos e óbitos, fazendo com as caveiras e pontas uma espécie de monumentos fúnebres.

Além dos gados commercia-se com o gentio em sal mineral, marfim, cera, urzella, abada, milho, e feijão."

"...Da Huila ou do Jau seguindo depois para o nascente encontra-se o Hui, terreno fértil em pastos, mas sêcco, porque nenhum rio o atravessa ; abunda porém em gados, e feijão, creado na estação chuvosa: a tribu que o habita é muito antiga, e pouco numerosa.

Caminhando quasi sempre a leste se chega aos Gambos, a umas 100 legoas de Mossamedes, paiz rico em gados, cereaes, e bem povoado", tendo muitos caçadores de elefante e abada.

Todos os povos mencionados, que habitam para além da serra de Xela, parecem da mesma origem , e tem quasi os mesmos costumes, chamando-se geralmente Munhenhecas, porque cortam a carapinha, e ao contrario os Mondombes a deixam crescer, formando na cabeça uma espécie de esfera, variando aliás muito na forma do penteado.

Às referidas terras foram vistas pelo dito colono Bernardino, segundo elle diz, accrescentando que, apesar da difficuldade de obter informações claras de gente tão rue, pôde saber mais o seguinte ácerca d'aquelles desconhecidos sertões. Tomando os Gambos por ponto de partida, ao norte fica Quilata, ao nordeste Quipungo, a leste Molondo, ao sueste Camba, ao sul o Humbe, e a oeste os cubaes dos Gambos, abundantíssimos em gados.

Segundo exactas informações que obtive, o colono Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que tem ido ao interior do paiz, dá as seguintes noticias:

Seguindo para o nascente a torrente Bero até á sua origem a oeste dos Gambos, encontram-se uns 14 sovados pouco consideráveis, cujos povos se chamam Mondombes, ou filhos do Dombe, nómades que vivem de caça e do gado que pastoream.

Seguindo também para o nascente a torrente Giraul, encontra-se um estéril deserto, cortado de cordilheiras, em cujos valles ha pequenas arvores que criam urzella, e que se julga darão gomma copal. Passam-se umas 20 legoas até chegar ao Bumbo, onde o gentio é pouco, fraco, mal conformado, e muito industrioso no modo de aproveitar as aguas para regas: o terreno é riquíssimo em pomposa vegetação e muito boas madeiras, tendo dois valles fertilisados pela torrente do Bruque, que dimana da serra depois da Umpata. Estes dois valles são susceptíveis de muita cultura, e n'um d'elles ha uma plantação de canna, algodão, e mandioca, pertencente a José Leite de Albuquerque, e já acima mencionada: o clima porém d'estes logares é muito insalubre.

Subindo a serra de Xela pelo Bruque, encontram se duas veredas; a da direita conduz ao Jau, e a





lo poente jaz o Bumbo), e a sua origem nos largos cam
esquerda e Umpata, sovado dependente do Jau, e d'ahi á Huila, cujo sova é hamba ou espécie de imperador , á auctoridade do qual se subtrahiram o Jau , Umpata, Bumbo, e todos os cubaesde origem Mondombe, em consequência d'uma revolução que teve logar no corrente século.

O Jau, Umpata, e Huila ficam entre os 14 e 16° de lat. sul: pela serra de Xela se desce para estes territórios, que são cortados de rios e riachos, tendo fertilifisimos campos abundantes em pastos, e que produzem bem o milho, feijão e batata, não porém a canna, por causa do frio, que em maio alli chega a gelar a agua. Estas terras são salubres, e julga-se que n'ellas poderá prosperar a raça branca. O gentio commercia com Mossamedes em gados, cêra, e algum marfim.
(...)

Na margem direita do rio Cunene, que divide o Humbe e a Gamba do Cuanhama, fica o sovado d'este nome, que é onde até hoje tem chegado os feirantes brancos. Seguindo depois para o sueste já os cafuzes  pretos que negociam com fazendas que vão buscar a Benguela tem chegado ao Mocusso, abundante mercado de marfim, que se julga distar umas legoas de Mossamedos. Além do Mocusso, no sertão dos Ambuellas, caminhando para o nascente ha um rio caudaloso, que corre de nascente a poente, a que chamam Liambege ou Diambege, sendo talvez o Zambeze, que vai a Quilimane. As missangas alli usadas pelo gentio, dizem que não são as que se introduzem pelo commercio na costa occidental, mas sim as que lhe vão da contra-costa.

Para o norte de Quipungo ficam os Monnanos, em cujas terras temos o presidio de Caconda; e ao sueste e sul da Camba os Muximbas e Mocimbos, povos errantes, com muito gado, e muitos caçadores de elefantes, parecendo que chegam a divagar até ao paiz dos Hottentotes.

Por esta rápida e imperfeita idéa de taes paizes, se pode julgar da sua importância, e quanto poderá avultar o commercio com elles, uma vez attrahido ao bom e salubre porto de Mossamedes, cuja situação é excellente a respeito d'estes sertões, dos quaes darei melhor e mais circunstanciada noticia no capitulo seguinte.

In "Apontamentos d'uma viagem de Lisboa á China e da China a Lisboa", Volumes 1-2
By Carlos José Caldeira 1862

Ritos e costumes povos Angola AQUI