Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 29 de novembro de 2011

A guerra no sul de Angola em 1915 (1)



A CAMPANHA
DO SUL DE ANGOLA
em 1915

I
Preparação das operações

Foi num dos primeiros dias do mês de Fevereiro de 1915 que sua Ex.ª o General Pimenta de Castro, Ministro da Guerra e presidente do Governo, me fez o convite para assumir o comando das tropas expedicionárias ao Sul de Angola. Nessa ocasião Sua Ex.ª mostrou-me ser conveniente que, com este comando, acumulasse o cargo de Governador Geral da província.
Se é certo que as funções de comando no ultramar, onde os recursos escasseiam e as necessidades das tropas mais se acentuam, são suficientes para absorverem todas as atenções de quem as exerce, certo é também que, para que esse comando se possa efectuar com os menores atritos e a máxima utilidade, é muito vantajoso que não tenha a sua acção limitada ao campo puramente militar, e pelo contrario, ela se estenda a tudo o que possa interessar ás operações, o que se pôde conseguir fazendo convergir, na mesma pessoa as respon-sabilidades de comando e as responsabilidades governativas.
Assim o têm demonstrado todas as grandes campanhas coloniaes.
Foi por isto, e só por isto, que resolvi aceitar a.acumulação do governo da província de Angola com o comando superior das forças que nela iam operar. Assente pelo governo da Republica que eu me encarregasse da honrosa missão para que me convidou, nas condições que deixo expostas, eu, por minha vez, convidei para meu chefe de estado-maior o major de infantaria, com o curso do estado maior, João Ortigão Peres, lente do referido curso da Escola de Guerra.
Este oficial, com uma verdadeira isenção, com o seu patriotismo, e com a sua dedicação pessoal por mim, aceitou o meu convite, aceitação que Sua Ex.ª o Ministro da Guerra tornou efectiva, nomeando-o para o referido cargo. O primeiro trabalho a que procedemos foi à leitura de toda a correspondência trocada entre o Ministro das Colónias, o Governador Geral da Província, e o então comandante das forças expedicionárias, sr. tenente coronel do serviço do estado maior, Alves Roçadas, afim de ajuizarmos da situação.
Essa leitura levou-me às seguintes conclusões :
1º — Que a acção das forças da Damaraland no combate de Naulila não foi uma acção a fundo, pois não tendo elas efectuado a perseguição das nossas, pouco tempo depois se afastaram da fronteira.

(cortado pela censura)

2º — Que o resultado do combate de Naulila, conjunctamente com a intensa propaganda desde longa data efetuada pelos alemães e com a retirada das nossas forças, teve como consequência natural a rebelião, formal ou latente, de todo o gentio de além Cunene e da região do Humbe.
3º — Que pelas diversas e grandes requisições feitas pelo Governador Geral de Angola e pelo tenente coronel Alves Roçadas se verificava a existência de grandes dificuldades com que se lutava para pôr as tropas enviadas para o Sul de Angola em estado de executarem as operações, dificuldades principalmente derivadas da não existência de uma conveniente linha de étapes, do facto de os grandes reforços para ali enviados, depois, dos acontecimentos de Naulila, não terem sido precedidos, ou pelo menos acompanhados, de tudo quanto era necessário para a sua pronta entrada em acção, e ainda da circunstancia das funções de comando e as funções de Governo não estarem concentradas na mesma pessoa, o que, apesar de exercidas ambas por dois ofíciaes muito distínctos e patriotas, não pôde deixar de traduzir-se em falta de unidade de acção e em perda de tempo.
As duas primeiras conclusões constituíram a base do projecto de operações que apresentei a S. Ex.a o Ministro das Colónias e que foi aprovado com uma ligeira restrição.
A 3ª conclusão forneceu-me elementos para fazer as requisições que julguei necessárias para colocarem as forças do meu comando em condições de realísarem o esforço que lhes havia de exigir, devendo notar que, neste ponto, a leitura da correspondência não me desvendou completamente as dificuldades da situação, que só em Mossamedes pôde bem conhecer.
Uma questão de.alta importância me devia merecer também todo o cuidado, era a questão política internacional, e por isso procurei S. Ex.ª o Ministro dos Negócios Estrangeiros e lhe pedi os necessários esclarecimentos.
A nossa beligerância não estava nitidamente declarada; é certo que tinha havido um ataque efectuado pelas forças da Damaralandia aos nossos postos e às nossas forças, mas era duvidoso se aquelas forças eram regulares e se tinham procedido de motu-proprio, constituindo a sua acção um simples incidente de fronteira, ou se pelo contrario, tinham cumprido ordens do Governo local, ou até do Governo da Metrópole. Também se dizia que o Governo da União da África do Sul tinha encarregado o General Botha de invadir a Damaraland e muito importava saber se este facto se confirmava. Tudo isto se apresentava ao meu espirito por uma forma pouco definida e exigia que me fossem fornecidos dados precisos que me indicassem uma maneira de proceder nítida, clara e franca; doutro modo a acção das forças do meu comando podia vir a exercer-se por forma inconveniente, tanto sob o ponto de vista militar como sob o ponto de vista político.
O certo é que nenhuns esclarecimentos consegui obter de Sua Ex.ª e que parti orientado apenas pelo facto de ter sido aprovado o meu projecto de operações com a restrição a que já me referi e firmemente resolvido a não perder a menor oportunidade de desagravar o mais amplamente possível a honra nacional.
Seja-me permitido registar que a diplomacia portuguesa, sendo, por vezes, de uma indescrição surpreendente, é, noutras ocasiões, de uma reserva tão impenetrável que torna a sua acção inútil para quem nela precisa orientar a sua conducta.
Da leitura dos documentos existentes no Ministério das Colónias e do estudo das cartas do sul de Angola e da Damaraland, poude eu ainda em Lisboa, fazer uma ideia, tão aproximada quanto possível, da situação criada pelos acontecimentos de Naulila e portanto da tarefa que me cumpria realisar, e nela baseei como disse, o meu projecto de operações, em que quaisquer que fossem as modificações a introduzir-lhe in loco, em harmonia com o conhecimento mais directo dessa situação tinha que dominar, como fim geral a atingir, a preocupação de se reocupar o território abandonado ao gentio, ocupar a região do Cuanhama, que sendo nossa in nomine nunca tinha sofrido de facto o nosso domínio e se encontrava desde longa data muito trabalhada .pelos alemães da Damaraland, e principalmente castigar a afronta sofrida em Naulila, recebendo condignamente os alemães se eles tornassem ao nosso território, ou passando as nossas tropas a fronteira, para os atingir onde mais conviesse, prestando, em qualquer dos casos, um muito valioso concurso aos nossos aliados da África do Sul.
Tanto do exame das cartas, como do conhecimento de trabalhos de valor executados por distintos oficiais como, por exemplo, os de Eduardo Costa, Alves Roçadas, Eduardo Marques, e João de Almeida, eu concluí que tinha de escolher para base de operações o Humbe, que pela sua situação estratégica, para tal fim se impunha, pois, encontrando-se coberta pela linha defensiva do Cunene, está ao mesmo tempo, no centro das comunicações, que do planalto de Mossamedes se dirigem para o Evale, Cuanhama, Cuamato, Dongoêna, e portanto nas melhores condições para dali se proceder à submissão do gentio revoltado, e pela sua conveniente distancia à fronteira, para aí se basearem operações, quer ofensivas, quer defensivas, contra os alemães.
Nessa, região devia eu portanto fazer a concentração do grosso das minhas forças, mas impunha-se-me também a obrigação de ter devidamente observada a linha de penetração que do posto de Cuangar se estende pelo vale do Cubango em direcção ao posto A, para daí se dirigir por Cassinga ao planalto de Mossamedes ou internar-se no distrito de Benguela e a linha que do Cunene mais directamente se encaminha para o referido planalto, isto é, a linha Otchinjau-Pocolo-Chibia-Lubango.
Certo era que tudo indicava que no caso de nova incursão alemã, por qualquer destas linhas só se poderia esperar ligeiras demonstrações, para nos obrigagarem a dividir as nossas forças, visto as duas primeiras linhas serem muito extensas, excêntricas e em que o inimigo quanto mais se internasse mais perigos correria, e a terceira atravessar terreno difícil e ser facilmente cortada por qualquer movimento de flanco executado peias tropas que se deslocassem do Humbe, ou de qualquer outro ponto conveniente da linha que liga esta região com o planalto de Mossamedes.
O que era porem incontestável era a necessidade de fazer ampliar no Humbe as operações dum efectivo que não deveria ser inferior a uns 6 a 7.000 homens e uns 3.000 solipedes, para o que se tornava necessário prover o estabelecimento de uma solida linha de étapes de uns 600 kilometros de extensão, e a necessidade de igualmente ter tropas nas linhas de Cubango de Otchinjau-Pocolo, de muito menor efectivo, mas exigindo também a montagem de linhas secundárias de étapes com menores recursos, mas sendo a do Cubango ainda mais extensa que a linha principal.
Todas estas considerações acrescidas com o conhe-mento de que nos últimos 4 anos tinha havido grande falta de chuvas no sul de Angola, portanto aí dominava a fome, me levaram a mesmo aqui em Lisboa, considerar como questão capital para a honrosa, mas difícil missão que me fora confiada, a dos abastecimentos e dos respectivos transportes, devendo estes últimos ser o mais rápido possível porque a estreiteza de tempo que se tinha para realizar as operações, derivada da pressão inglesa exercida na Damaraland, que naturalmente atiraria com os alemães, para a nossa fronteira, e da necessidade de dar ás mesmas operações a maior amplitude antes do começo das chuvas (fins de setembro) assim o exigia. Por isso perfilhei todas as requisições de viveres e transportes que se encontravam no Ministério das Colónias ainda por satisfazer, completei-as como julguei conveniente, reservando-me para, de Angola, as modificar, se o entendesse necessário, insisti pela aquisição imediata de 80 camions automóveis e 750 carros alentejanos, requisitados com urgência pelo Governador Geral, Norton de Matos, exigi que, partindo eu em 5 de Março tivesse em Mossamedes em l de Abril, viveres para 4 meses e metade dos transportes requisitados e em l de Maio viveres para 6 meses e a totalidade desses transportes, tencionando montar devidamente as linhas de étapes logo que chegasse, a Mossamedes, Principiaria em Abril a escalonar os víveres pelos respectivos postos, completaria em Maio o abastecimento dos depósitos principaes de Lubango, Gambo e Humbe e no fim desse mês, ou princípios de Junho, poderia iniciar as operações de Alem-Cunene com todo o desembaraço.
Infelizmente as promessas feitas de cumprimento destas exigências não foram cumpridas com o rigor e a pontualidade requeridas, apesar da minha constante insistência, e daí resultaram as dificuldades com que lutei durante toda a minha estada em Angola e que no decurso deste relatório resaltarão!
Tendo embarcado no África em 5 de Março, desembarquei em Loanda em 21 desse mês, tendo assumido, neste mesmo dia, o Governo da província, imediatamente principiei a ocupar-me com o maior ardor de tudo o que interessava as operações e ali podia tratar pensando contudo em prolongar o menos possível a minha estada nessa cidade; porque estava verdadeiramente ansioso de seguir para o Sul, afim de poder de visu conhecer a situação. Não foi porem de pouca utilidade a minha demora em Loanda.
Da troca de impressões com o secretário geral e com os governadores dos distritos do Congo e Lunda, colhi a confirmação de que os acontecimentos de Naulila tinham tido a natural repercursão não só no gentio do sul mas também no de toda a província que, por numerosos indícios, revelava mais ou menos declaradamente o seu espirito de rebelião, o que me levou a recomendar a esses governadores, e depois por escrito, a todos os dos outros distritos, que procurassem comtemporisar e fazer face a qualquer manifestação mais evidente da rebeldia com os recursos próprios, que o reflexo dos futuros acontecimentos do sul muito contribuiriam para o restabelecimento da quietação em toda a província. Da revista que passei ás tropas estacionadas em Loanda (1 bateria de artilharia de montanha e 1 companhia de infantaria 20) e da forma como as vi realisar vários exercícios colhi as melhores impressões, a respeito do seu aprumo, disciplina e instrução.
(...)
ORIGEM DESTE ARTIGO
Pereira de Eça, Campanha do Sul de Angola em 1915. Lisboa, Imprensa Nacional, 1921 (109 páginas). O fragmento aqui reproduzido é das páginas 57-63.

A guerra no sul de Angola em 1914 (2)


(...)
A crítica condena, por todas as razões, a dispersão das poucas forças expedicionárias de que se dispunha, por pontos longínquos em relação ao Cunene.
O facto é tanto mais estranho quanto é certo que a decisão de mandar para o Pocolo a divisão de artilharia e para Ediva-Otchinjau-Otchitoto a 11ª companhia do B.I.14, foi tomada já em face da missão que nos propúnhamos realizar — opor-se aos Alemães no Cunene.
E desde que íamos para o Cunene, mandava a lógica que não nos enfraquecêssemos, por este lado, de um quarto de infantaria e metade da artilharia expedicionárias. Ficaria no Pocolo a protecção habitual que já lá estava, isto é, a lª companhia europeia de infantaria de Angola, com um dos seus pelotões em Otchinjau, e mais nada. Que solução milagrosa ia levar ao Pocolo uma divisão de artilharia, à custa da inutilização da única bateria que se tinha digna deste nome?
Porque a dispersão de forças à última hora, sem o mais leve factor novo de decisão que levasse a considerar o avanço de forças alemãs, de importância ou não, pelo lado Otchinjau-Pocolo?
Perante a situação que se lhe apresentava e em face dos diminutos meios de acção de que dispunha, o comandante teria a tomar uma resolução geral definitiva, acto essencial da sua vontade, sobre a forma de conduzir e empregar o pequeno agrupamento expedicionário, sabendo o que queria, como queria e por que queria.
O chefe não tinha que aguardar indefinidamente uma última palavra sobre a situação para traçar a conduta geral de emprego do referido agrupamento. Disse Clausewitz: «A guerra é o campo das incertezas». Esperar, para adoptar uma decisão de ordem geral, que todas se dissipem, é arriscar-se a um fatal e nocivo atardamento.

No sul de Angola, a situação de contacto com a Damaralândia deu lugar a preocupações levando a curiosos voos de imaginação.

Pessoas chegavam a ver colunas de Alemães a invadirem o território, através do Baixo Cunene, em várias direcções, após marcha de centenas de quilómetros por precárias vias de comunicação, em travessia rápida das estepas sem fim do norte da Damara, queimadas pelo sol ardente do deserto Namib e áreas kalaharianas, a caminho do planalto ou caindo sobre Moçâmedes!

Arquitectavam, com uma facilidade admirável, disparatados raids à Jameson ou mesmo golpes da natureza dos que mais tarde Von Lettow Vorbeck levou a efeito na África Oriental, noutras condições totalmente diferentes.

Fez-se realizar por competentes oficiais — o capitão Albano de Melo e tenente António Ribeiro Monteiro — o reconhecimento militar do Baixo Coroca, no litoral atlântico, bem como o estudo do acesso possível de forças, invasoras às regiões do Otchinjau através dos contrafortes, da Chela e, em sentido inverso, da viabilidade de uma corrente desembocada do Swartboy Drift ir despenhar-se pelos desfiladeiros da serra, a caminho de Porto Alexandre e Moçâmedes.

E no seu novo plano (1), em face da situação resultante do incidente de Naulila, prescreve o comandante das F.O.:

«Estabelecimento de uma linha (?) de defesa fixa que compreende o triângulo Moçâmedes-Porto Alexandre-Coroca, no litoral, e Chibia-Pocolo-Gambos ou Ediva, no planalto».
Por outro lado, a oeste da Chela, toma vulto uma certa confusão, em que vemos envolvidos, aquele comandante, o governador de Moçâmedes. e o governo geral.

Porque interessa ao nosso estudo, vamos referir os traços principais de algumas das muitas directivas e comunicações que foram trocadas entre as três entidades e que traduzem o ambiente.
Do comandante das F.O. para o governador de Moçâmedes :

«...O serviço de vigilância convém seja estabelecido sobretudo na direcção da foz do Cunene, na do vale do Coroca e na do vale do Béro» (2).

O governador-geral faz transmitir ao governador de Moçâmedes:

«Referência nota 133, de 19; Geral recomendar defesa especialmente Moçâmedes, caminho de ferro e vias acesso este para planalto. Não concordar estabelecer postos Popochiva e Damba Carneiros evitar dispersão forças. Proximidades Porto Alexandre deve ficar força cavaleiros explorando caminhos Papochiva, Damba Carneiros. Estação telegráfica Porto Alexandre deve ser ocupada militarmente. Caso ataque forças superiores, deve abandonar Porto Alexandre avisando telégrafo Moçâmedes. Auxiliares montados possa obter, duas patrulhas oficial existentes, além um corpo de camelos que deve ser constituído desde já aproveitando os existentes, vigiarão caminhos» (3).

O governador de Moçâmedes encarrega o tenente António Ribeiro Monteiro (4) de, conciliando as directrizes recebidas do comandante das F.O. e do governador-geral, realizar o dispositivo de defesa de aí resultante, que vem a, ser:

Ocupar militarmente a estação telegráfica de Porto Alexandre, a qual deveria ser abandonada e prevenido o governador de Moçâmedes telegràficameute, no caso de ataque por forças superiores (não se lhe diz como, nem por onde se faria a evacuação em tal caso); e bem assim montar a exploração dos caminhos de Popochiva e da Damba dos Carneiros, coordenada com uma vigilância afastada no rio dos Elefantes e na Damba das Víboras (aqui por iniciativa do tenente Monteiro), confluências do Cunene.

O comandante das F.O. não simplifica, dirigindo ao governador de Moçâmedes o seguinte telegrama:

«Julgo indispensável organização posto Coroca no local indicado brigada reconhecimentos, um dos itinerários atribuídos Alemães é: vau Erikson Drift-Foz dos Elefantes-Otchiqueque-Popochiva-Porto Alexandre» (5).

O governador de Mocâmedes encarrega o tenente Francisco Maria Rodrigues, comandante do destacamento da 2ª companhia europeia, da defesa próxima de Mocâmedes contra o avanço de forças inimigas pela estrada Chacuto-Moçâmedes, pelo vale do Béro ou pelo caminho de Porto Alexandre.

«Para qualquer dos casos, não dispondo de forças algumas, só pode V. Ex.ª contar com os auxiliares e voluntários, habitantes de Moçâmedes, que de antemão tenha preparado e combinado para em caso de necessidade se reunirem e marcharem para guarnecer qualquer dos postos avançados.
«Deve para isso V. Ex.ª, com urgência, percorrer o rio Béro para além da fazenda do agricultor Torres e escolher a posição adequada para a construção dum entrincheiramento improvisado, simples, e seguidamente proceder da mesma forma para a defesa do vale do Giraul, para o caso de ataque de forças vindas de Porto Alexandre. Para poder armar o maior número possível de voluntários, fica V. Ex.a autorizado a fazer recolher todas as espingardas aperfeiçoadas dos particulares e distribuí-las a auxiliares que se ofereçam, quando os seus donos não possam prestar serviço. De igual forma procederá V. Ex.ª quanto ao armamento existente na 4ª Companhia de Depósito, contando contudo com o indispensável para as praças impedidas nos diversos serviços» (6).


O mesmo governador encarrega ainda o alferes António Henriques da

«defesa da linha férrea de Moçâmedes a Vila Arriaga e do estabelecimento de comunicações para o sul da mesma linha (?) até aos Cubais. A defesa da linha férrea será feita com dois postos...» (7).

Não fatigamos mais o leitor. Basta o que acabamos de ler para avaliar o lamentável ambiente que a visão exagerada e infundada de forças alemãs chegou a gerar em Moçâmedes.

O governador, em face das directivas, por vezes discordantes, que recebe do comandante da expedição e do governo-geral, patenteia a sua confusão e mesmo inquietação nas ordens dadas e nas comunicações para estas entidades dando conta do que fez e do que vai fazer.

Colocado entre o comandante das F.O. e o governador-geral, preso do receio de uma ofensiva alemã, não dispondo, porém, de tropas para realizar medidas de defesa, o governador de Moçâmedes foi, certamente, das três entidades, a de mais difícil situação.

Quem conhece as terríveis condições que o deserto ditava a um avanço de forças invasoras pela faixa litoral, assim como os riscos que correria o inimigo que deixasse o planalto e, aventurando-se pelos desfiladeiros — ratoeiras da Cheia — fosse enterrar-se nas areias do Namib com o fito de -alcançar Porto Alexandre e Moçâmedes, fica, na verdade, admirado da confusão que se gerou.

E afinal, além de uma cobertura tranquilizadora em Porto Alexandre, a principal providência a tomar reduzia-se a preservar, por guarda e por vigilância directa e indirecta, a linha férrea de Moçâmedes, de sabotagens intentadas mais por elementos internos traidores, da raça do boer Duplessis, do que por destacamentos alemães invasores.

A protecção eficaz da linha férrea contra golpe de mão era uma medida, embora aparentemente simples, difícil na realização, por falta de forças.

Em Moçâmedes fez imensa falta um verdadeiro comandante militar.

Vêm a propósito duas palavras sobre o papel e importância de Moçâmedes na defesa.

Então e sempre, no quadro das operações terrestres realizadas no Sul de Angola, ou seja contra indígenas insubmissos ou contra os Alemães invasores, o porto de Moçâmedes tem desempenhado um importante papel.

Base do caminho de ferro e base litoral única do distrito da Huíla, tem-lhe cabido a função de receber reabastecimentos de toda a espécie e expedi-los pelo caminho de ferro. Porto de desembarque e de evacuação; estação depósito.

Mas o caso em que a sua importância atingiria a mais alta sensibilidade não era aquele de que se tratava em 1914, mas sim o de uma ofensiva alemã sobre o planalto vinda do Sudoeste, conjugada com outra para a posse de Moçâmedes. Ao passo que Sá da Bandeira seria o objectivo final das operações terrestres do invasor para o domínio do planalto, Moçâmedes seria o primeiro objectivo da sua acção sobre a costa.
No quadro das operações terrestres do defensor, Sá da Bandeira e Moçâmedes aparecem-nos então como intimamente ligadas.

De facto a queda de Moçâmedes representa a queda do caminho de ferro, a queda automática da costa, com Porto Alexandre e Baía dos Tigres; representa a impossibilidade de utilizar a linha de comunicações por esse porto; sujeita Sá da Bandeira a uma incursão desse lado; enfim, põe o defensor na delicadíssima situação de, ou face ao Cunene ou face ao oceano, ter o adversário nas costas, obrigando assim à divisão de forças.

Em tais circunstâncias, impor-se-ia ao defensor a instante necessidade de diminuir, quanto possível, a sensibilidade de Sá da Bandeira em relação à sorte de Moçâmedes.

Como? Mudando a sua linha de comunicações.

Nunca, nesta forma das operações, seria prudente contar com utilizar Moçâmedes como base marítima definitiva. Deve estar previamente estudada a outra linha de comunicações e tudo preparado para a sua adopção no momento julgado oportuno, inclusive a devida ocupação de Mulondo e Capelongo desde o início das operações.

Os transportes seriam então à base de camionagem.

Não se deve exagerar o perigo, para o planalto defendido e com o caminho de ferro destruído, de uma agressão empreendida, do lado de Moçâmedes, por um inimigo desembarcado.

É que entre o planalto e este porto há o formidável obstáculo da Chela. Barradas as suas poucas e difíceis passagens com alguma artilharia e armas automáticas, nenhumas forças lá passariam. É a verdadeira chave da defesa contra um ataque partindo do litoral. Moçâmedes tem poucas condições de defesa, a qual, no entanto, deve ser efectivada pela forma e com os meios definidos no dispositivo geral da defesa da costa da província, O plano de defesa de uma província ultramarina como é Angola, com fronteiras terrestres e marítimas, tem sempre duas partes — contra a agressão pelas fronteiras terrestres e contra a agressão vinda do mar. E a parte essencial desta última é a defesa dos portos.

O caso concreto de 1914 era, porém, inteiramente diferente. A situação dos Alemães era crítica, as possibilidades de conquista nenhumas. Não era de encarar uma ofensiva pelo Cunene sobre o planalto, nem um ataque por mar sobre Moçâmedes.
(...)

(1) Comunicado ao Governador de Moçâmedes por sua extensa nota nº 32, de 3-Nov.-1914.
(2) Sua nota nº 32, de 3-Nov.-1914.
(3) Telegrama do C.E.M. de Angola, n° 654, de 24-Nov.-1914.
(4) Suas instruções para o ten. Monteiro, de 10-Dez.-1914.
(5) Seu telegrama n° 136, de 14-Dez.-1914.
(6) Nota n° 416/66, de 16-Dez.-1914.
(7) Suas instruções para o alferes, de 16-Dez.-1914.

Ernesto Machado, No sul de Angola. Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1956 (450 páginas). O fragmento aqui reproduzido é das páginas 312-320.
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Notas: Recordemos que
«no final de 1914, os alemães invadiram o sul de Angola. A 18 de Dezembro de 1914, em virtude de opções tácticas erradas, Alves Roçadas é derrotado em Naulila pelas tropas alemãs»,
e ainda que
«Em 1914, quando se organizou a primeira expedição a Angola, para defender o sul da colónia, que fazia fronteira com a colónia alemã do Sudoeste Africano, Roçadas foi escolhido para a comandar. O incidente de Naulila, nas margens do Cunene, perto da fronteira entre as duas colónias, incidente entre forças militares portuguesas e alemãs, acontecido em 18 de Outubro, fez com os alemães atacassem o posto isolado de Cuangar, nas margens do Cubango. Alves Roçadas decidiu então, com as poucas forças de que dispunha, atravessar o Cunene e procurar as forças alemãs que tinham entrado no território português. Mas foi derrotado em Naulila, em 18 de Dezembro, e obrigado a atravessar o Cunene e o Caculevar, concentrando-se à volta do Forte Gambos. Devido a esta retirada os povos do Humbe revoltaram-se. Alves Roçadas foi, por isso, chamado a Portugal, embarcando em princípios de Maio de 1915.»

ORIGEM DESTE ARTIGO



RELATÓRIO DA VIAGEM FEITA АО RIO DOS ELEFANTES EM NOVEMBRO DE 1854

 
 
 
«Desde muito tempo que se falava no rio Cunene, na fertilidade de suas margens, e na sua riqueza mineral; porém estas notícias, apenas colhidas de indivíduos que feiravam pelo sertão, nada diziam respeito à sua foz, havendo por isso incerteza se era ou não navegável em toda a sua extensão. Resolvido pois a prestar algum serviço ao meu país, tomei a deliberação de ir pessoalmente à foz daquele rio, a fim de conhecer de que grau de importância se tornaria para o comércio de África aquele rio, que desagua na costa ocidental, e não na contra-costa, como erradamente vem marcado no mapa que faz parte dos ensaios de Lopes Lima sobre a estatística das nossas possessões ultramarinas; digo que vem marcado erradamente, porque tendo a sua origem no país chamado Nano, nome gentílico, e que significa terras altas, divide Molembo, Rombe e Camba, que ficam na margem direita do Canhamo, que fica na margem esquerda, descrevendo uma curva até ao litoral do distrito de Mossâmedes, em latitude de 17° 15', o que se conclui da descrição que os feirantes do mato fazem do seu curso, bem como do que dizem os moimbas e mossimbas, povos que habitam na margem esquerda, e que entretêm algumas relações com o povo de Craque, povoação ao sul de Mossâmedes, a dia e meio de viagem. Finalmente em abono desta opinião vem a planta junta n.º 1, copiada de um atlas geográfico em inglês (Bowles's new one sheet map of Africa) no qual se vê a direcção que o rio leva da origem à sua foz, e que pouco difere da que os feirantes ou fonantes descrevem.
«Na firme tenção de dar uma notícia exacta da sua foz, e ver até que ponto era navegável, em 3 de Novembro, depois de lavrado, assinado e arquivado o competente auto na secretaria do governo (copia n.º 1), embarquei na escuna Conselho, bem como os srs. Bernardino F. F. Abreu e Castro, director dos colonos, Antonio Acácio de Oliveira Carvalho, capitão do brigue Aurora, José Duarte Franco, piloto do mesmo navio, e o colono Antonio Romano Franco, os quais mostraram vivos desejos de me acompanhar nesta digressão, e a que gostosamente não pude deixar de anuir. Pelas onze da noite saímos da baía de Mossâmedes, seguindo o rumo do sul, e ao segundo dia de viagem levantou-se por SO um vento rijo que nos obrigou a ir de capa seguida por algumas horas. No terceiro dia abonançou mais o tempo e prosseguimos na nossa derrota; até que finalmente no dia 8 chegámos à latitude da ponta do norte da grande baía dos Peixes (planta n.º 2), onde entrámos nesse mesmo dia. Esta vasta baía, que tem de largura 6 milhas e meia, e 18 de comprimento, é limitada a leste por grandes dunas de areia, e ao oeste por uma península também de areia, cuja máxima altura acima do nível do mar será de 8 a 9 palmos, e oferece um bom abrigo às embarcações de qualquer lote. A baía é muito abundante de peixe, sobretudo de baleias, como tivemos ocasião de observar. Se porventura ali se estabelecessem feitorias de pesca, estou certo que os lucros seriam avultados para quem se dedicasse a este ramo de indústria; e posto que o país que a circunda não ofereça sinal de vegetação, a não ser algum pequeno arbusto da família dos cactos, contudo tem muito próximo água doce; e na costa que segue ao sul da baía, na extensão do 80 milhas, muitos troncos de árvores que logo supusemos, como depois se verificou, serem oriundos das margens do rio Cunene, os quais, sendo lançados ao mar na ocasião das cheias pela sua grande e forte corrente, são depostos pelas marés no litoral ao norte da boca do rio. Pela ocasião de nos aproximarmos do fundo da baía figurou-se-nos ver algum arvoredo e um grande lago, o que tornava mais risonho o aspecto do país, mas esta ilusão durou poucos momentos; era a refracção que nos convertia os pequenos arbustos em grandes árvores, e o fenómeno da miragem que nos fazia tomar por lagos o que apenas eram planícies de areia em que reflectiam as supostas árvores e outros objectos elevados. Estivemos os dias 8, 9 e 10 fundeados na baía, na intenção de continuarmos a viagem por mar e irmos deparar com a boca do rio; porém sendo aquele ponto pouco conhecido, havendo o receio de ser difícil a sua entrada, e não acharmos próximo um abrigo seguro para a escuna, decidiu-se fazermos por terra o resto da viagem ao longo do litoral.
«Feitos os preparativos necessários, pelas oito horas e dez minutos do dia 11 desembarcámos e pusemo-nos em marcha a pé, no número de dez brancos e onze negros, que nos serviam para conduzir os comestíveis. Depois de havermos descansado duas vezes, tendo-se caminhado por areias movediças, marcha bastante penosa debaixo de um sol ardente, fizemos alto pelas cinco horas da tarde na praia das Esponjas, onde armámos barraca e passámos a noite, tendo sido o nosso trajecto até ali de 14 milhas, rumo SSO. Pelas quatro horas da tarde do dia 12 prosseguimos a nossa jornada na direcção NS caminhando por grandes bancos de granito, cortados no sentido longitudinal e transversal por veios de basalto, ficando-nos por leste grandes dunas de areia. A marcha foi menos penosa em razão do piso ser mais suave, e de termos tido maior número de descansos por causa dos carregadores que iam bastante fatigados. Às quatro e meia da tarde, tendo percorrido 12 milhas, acampámos junto ao litoral, sem que houvesse sequer um pequeno sinal que nos indicasse a proximidade de um rio. Quando se deu ordem para a ração de água, o que assim se tornava necessário, pois que apenas levávamos duas ancoretas dela para vinte e uma pessoas, ficámos um pouco desanimados, sabendo que apenas contávamos com cinco a seis quartilhos de água, sem esperança de a havermos em lugar próximo.
«No entretanto tomou-se a resolução de mandar duas pessoas um pouco mais para o interior, encarregados de fazerem escavações em terrenos baixos em procura de água, infrutuoso trabalho. Ainda não descoroçoados, e na firme tenção de obviar todas as dificuldades à nossa marcha, partiu para o mesmo fim o sr. Abreu Viana acompanhado de algumas pessoas. Mal sabíamos que apenas distávamos do rio 4 e 1/2 milhas. Pelas nove e meia da noite voltaram da sua expedição trazendo em duas garrafas uma porção de água límpida e fresca tirada do rio que no dia seguinte íamos ver.
«Passámos a noite alegremente, e ansiosos pelo romper da aurora para chegarmos ao nosso fim desejado. Não tardou muitas horas. Às quatro da manhã levantou-se barraca, e pelas cinco e meia chegou-se á margem direita do rio, légua e meia acima da sua boca. Daquele ponto se notaram logo coroas de areia, as quais aumentavam para a sua foz; e junto a esta existe uma ínsua com alguma vegetação (paisagem n.º 1). Porém não sendo possível conhecer daquele ponto se o rio tinha ou não entrada ampla e livre, fomos ao longo da margem direita até à costa; ali tivemos ocasião de ver que em frente do rio há um banco de areia, que liga completamente com a costa, que na ocasião das enchentes é roto ou transposto pelas águas do rio; e que, quando este leva pouca água, esta é infiltrada na areia. Deve-se aqui notar que Pimentel no seu roteiro diz que a corrente deste rio se faz sentir umas poucas de milhas ao mar; e indica o rumo que uma lancha ou escaler deve seguir na entrada do rio; porém estou intimamente convencido que quando este navegador ali passou foi na ocasião da cheia, que considerando-a como o seu curso regular, não apontou por isso esta circunstância. Ora, se em lugar de fazermos o resto da viagem por terra, fôssemos por mar, sendo o banco bastante alto, e confundindo-se com o resto da costa, não dávamos por certo com o rio, embora a sua latitude se ache bem demarcada. E quando mesmo se pudesse avistar o rio, a costa é tão batida que não permitiria a aproximação de uma lancha, sob pena de ficar destruída. Junto ao litoral, e na margem direita do rio, há bastante vegetação, e ali encontrámos grande quantidade de corças, penélopes, e cabras, que apesar de levarmos as nossas espingardas não foi possível tê-las a alcance de tiro. A costa neste ponto corre a SSO, e não oferece abrigo de qualidade alguma. O rio junto ao banco é bastante espraiado, e apenas permitirá que ali navegue um barco de fundo de prato; as suas margens são pouco elevadas, formadas de areia e calhau rolado com alguma vegetação; voltámos desta digressão para o nosso acampamento, e logo depois, e pela primeira vez deparámos com um elefante passeando na margem esquerda. Houve grande alvoroço no nosso pequeno bivaque com a aparição deste pacifico habitante das margens do rio Cunene, e imediatamente seis indivíduos da nossa comitiva passaram o rio a vau para lhe darem caça, não sem risco de vida na passagem do rio por causa dos jacarés, em que é abundante.
«Alguns dos caçadores mais atrevidos dispararam as suas armas bem perto do animal, mas este, sem alterar a sua marcha, foi seguindo o seu caminho sem que fizesse o menor caso dos seus perseguidores. No seu passo moroso, mas largo, ganhou aos caçadores grande dianteira, apesar de estes se esforçarem pelo alcançar, e encaminhou-se para o ponto da margem correspondente àquela onde tínhamos a barraca. Não foi sem algum receio que vimos o animal atravessar o rio na nossa direcção; pusemo-nos em defesa começando a fazer-lhe fogo, o que não impediu que efectuasse a passagem com bastante sossego, e seguisse para o interior pela margem direita sacudindo de vez em quando as suas enormes orelhas como sinal demonstrativo de lhe ser estranha e pouco agradável a música das balas.
«Passámos o resto do dia e noite perfeitamente sossegados, tendo-se previamente decidido, visto termos ainda mantimentos e grande abundância de água, explorarmos o rio até onde pudéssemos. No dia 14, pelas quatro horas da manhã seguimos ao longo da margem direita, encontrando a cada passo de um e outro lado do rio grandes medas de lenha, e troncos grossos semelhantes àqueles que vimos na costa. As margens vão-se elevando a pouco e pouco, e o rio estreitando-se sem que seu curso seja interrompido; mas a duas horas de viagem encontrámos grandes cachoeiras (paisagem n.º 2). A margem esquerda é formada de elevadas dunas de areia, e a margem direita de grandes rochas graníticas cortadas a prumo, o que nos obrigou a afastar um pouco da margem, e a seguir pelo espaço de quatro horas e meia primeiro que voltássemos ao rio. Foi este um dia de marcha mais penoso que tivemos, e sobretudo para os carregadores, em razão do terreno ser cortado por grandes ravinas, que ora eram transpostas, ora torneadas.
«Não sendo possível prosseguir mais naquele dia em razão do grande cansaço, caminhámos para o rio a fim de na sua margem escolhermos um local onde passássemos a noite; efectivamente chegámos a um sitio agradável e pitoresco, mais rico de vegetação, sendo a maior parte dela composta de cedros de dimensões muito menores que os da Europa; as margens são aqui um pouco espraiadas, oferecem, sobretudo á direita, fácil trânsito, sem que contudo deixe de ser orlada de grandes rochedos, continuando pela margem esquerda sem interrupção as dunas de areia. Neste lugar encontrámos grande quantidade de bosta de elefante, pegadas de zebras, corças, raposas, macacos, e de leão. A direcção do rio é de NE quarta de L.
«Em 15 continuámos a marcha com grande escassez de mantimentos, sem esperança de obtermos caça de qualidade alguma. Pelas nove horas e meia apertando mais o calor fizemos alto para descansar e almoçar o resto do nosso farnel, na firme tenção de retrocedermos, e ganharmos a baía no mais curto espaço de tempo, para não passarmos por crise de fome num país onde se não encontrava vestígio algum de gente. Felizmente durante o descanso avistou-se um elefante com seu filho em uma ilhota de capim, a menos de tiro de fuzil. Houve logo ideia de acometer a mãe para lhe apanhar o filho, mas a que eu não anuí, pois que sobre mim pesava grande responsabilidade, se por desgraça algum da comitiva fosse vítima do seu atrevimento; estivemos por algum tempo vendo o animal andar de roda do filho, como querendo abrigá-lo de alguma agressão, até que por fim o desamparou e seguiu pelo rio acima. Logo que o perdemos de vista consenti que fossem dar caça ao filho: em breves minutos um dos soldados que nos acompanhava, soldado preto e desembaraçado, transpôs o espaço que mediava entre nós e o animal, e à queima-roupa lhe disparou um tiro que o varou de espádua a espádua. Foi imediatamente conduzido por seis pessoas para o lugar onde estávamos, aberto e esfolado, esquartejado, e distribuído em rações. Pesava 7 arrobas, apesar de ser recém-nascido, o que se verificou por não ter coisa alguma nos intestinos, e somente uma porção de leite contido no estômago. Mandou-se logo cozer e assar uma porção de carne, e posso asseverar que é excelente.
«Pouco depois prosseguimos mais satisfeitos a nossa viagem: o aspecto do país que íamos percorrendo era sempre o mesmo, com a diferença porém da vegetação ser mais desenvolvida (paisagem n.º 3), e as pegadas de diferentes animais serem em maior número, com especialidade as de elefante, o que leva a crer que nas margens do rio, mais para o interior do país é onde persistem grandes manadas de elefantes, e que em certas épocas do ano descem às margens por que caminhámos.
«Desde a boca do rio até ao lugar a que pudemos chegar, que se calculou ser de 21 milhas, encontrámos oito elefantes dirigindo-se para o interior do país. Até este ponto o rio não tem importância alguma, é bastante estreito, tortuoso e cheio de cachoeiras, e por isso inavegável. Ainda mesmo que se destruíssem as cachoeiras, o que não era impossível, o rio nunca poderia ter a sua foz completamente desembaraçada; porquanto sendo a margem esquerda formada por grandes morros de areia, com facilidade é levada pela força da corrente, e em ocasião de cheias, até junto da sua foz, aonde sendo o rio mais espraiado, é ali depositada, em consequência da velocidade da corrente ser menor. Se o rio é navegável em alguns dos seus pontos não o sabemos, nem tão pouco a que distância nos ficam os povos que habitam suas margens; o que divisámos foi uma cordilheira de montanhas na direcção NS, e bastante elevadas, que supusemos distarem de nós de 6 a 7 léguas. Não nos dispusemos a transpô-las em razão das poucas ou quase nenhumas comodidades com que fizemos esta viagem; além de que a nossa missão era outra, e estava cumprida; e por isso no dia 16 regressámos à grande baía dos Peixes na direcção NO quarta N., onde chegámos no dia 17 pelas dez horas da manhã; tendo sido nosso trajecto por terra e a pé trinta e tantas léguas. Seguiu-se o embarque, e pela uma hora da tarde fez-se a escuna de vela, e às quatro horas da tarde do dia 18 lançava ferro na bela baía de Mossâmedes. Logo depois do desembarque lavrou-se um novo auto (cópia n." 2) das circunstâncias que se deram na viagem, e dos motivos que nos levaram a alterar a denominação daquele rio. Os resultados desta digressão vão-se sentindo; vários moradores de Mossâmedes, e que costumam negociar para o mato, preparam-se para fazer por terra uma excursão às margens do rio dos Elefantes, onde decerto vão achar mais uma fonte de riqueza para o comércio do estabelecimento: se porventura tratarem amigavelmente com o gentio daquelas paragens, o que decerto influirá para que de futuro venha pessoalmente negociar a Mossâmedes, a exemplo dos povos dos Gambos, Huila, Jau, Humpata, Quilengues, Humbe, Camba, Mulondo e outros.
«Mossâmedes, 20 de Novembro de 1854. Fernando da Costa Leal.»
 
Transcrito da Nota 9.ª de Exame das viagens do Doutor Livingstone, por D. José de Lacerda,  Lisboa, Imprensa Nacional, 1867, pags. 515-520. Actualizou-se a ortografia, mas manteve-se a pontuação.