Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O Cine Teatro de Moçâmedes (Namibe)

 

 Cine Teatro de Moçâmedes de fachada em puríssima Arte Déco

Os corpos laterais arredondados que balizam o corpo central são rasgados verticalmente para iluminarem as escadas de acesso ao foyer do segundo piso.

 A plateia e o acesso ao segundo piso
 

A galeria do piso superior
A escadaria de acesso ao segundo piso 
 

O "Jardim da Colónia", local onde foi construido o Cine Moçâmedes




O CINE TEATRO DE MOÇÂMEDES




Beneficiando de uma situação privilegiada, quase a meio da Rua da Praia do Bonfim, num local onde outrora existiu um pequeno largo ajardinado denominado Jardim da Colónia, (1) frontal à Avenida da República, eis o Cine Teatro de Moçâmedes, o popular "Cinema do Eurico",  dotado de uma traça arquitectónica considerada revolucionária para a época, que fez dele o primeiro exemplar em terras do Namibe dessa maravilha que é a arte deco (1) surgida nas primeiras décadas do século XX, em Paris e espalhada por todo o mundo ocidental.

O Cine Teatro de Moçâmedes  foi inaugurado em meados da década de 1940, e veio preencher uma lacuna aberta com a demolição (2) do primitivo Cine Teatro Garrett, a bela sala de espectáculos de Raúl de Sousa, situada na Rua Calheiros, onde os moçamedenses viram correr as primeiras peças de teatro e revista e os primeiros filmes, grande parte dos quais ainda em cinema mudo.

Com a demolição do Cine Teatro Garrett para dar lugar ao edifício-sede do Atlético Clube de Moçâmedes, a cidade ficou temporariamente sem sala de espectáculos até que surgisse o Cine Teatro de Moçâmedes, e, nesse interim, era no pequeno palco do edifício-sede do Ferrovia, clube recreativo e beneficiente, sito na Rua Serpa Pinto, sem grandes condições de acomodamento que, sob a exploração do mesmo Raúl de Sousa, decorriam sessões cinematográficas e peças de teatro,  sem nunca atingir o grande público que tinha entranhada a ideia que somente os sócios do Ferrovia poderiam frequentar aquele espaço. O surgimento do Cine Teatro de Moçâmedes veio pois preencher uma lacuna que se fazia sentir no seio de uma população que clamava por um lugar onde pudessem assistir às mais diversas manifestações culturais e artísticas, peças de teatro locais e vindas de fora, actos de variedades, exibição de filmes, etc., em condições de acomodamento e modernidade.

A sua implantação tem 2500m2 de área, 25x50m, sendo um corpo em volumes geométricos bem definidos, de planta rectangular contínua e uniforme. A sua fachada de ritmos horizontais faz sobressair as dimensões imponentes do volume. A sua estética exterior exprime uma simplicidade de linhas, contrariando a excessiva decoração. A sala tem proporções generosas entre a plateia e o balcão, fazendo-se o acesso ao balcão por uma escada lateral à direita, com pormenorização Art Déco.
Convém lembrar que para o «Jardim da Colónia»  chegou a estar projectado um monumento aos "Pioneiros da Civilização" , ou seja, aos componentes das 1ª e 2ª colónias vindas de Pernambuco (Brasil), que aportaram em Moçâmedes nos anos 1849 e 1850, dando início ao povoamento branco do Distrito. A primeira pedra chegou a ser lançada em 04 de Agosto de 1919, em acto solene, mas a construção nunca chegou a acontecer (veja tb AQUI).

Eram proprietários do Cine Teatro de Moçâmedes, Eurico Martins, António Pedro Bauleth, Gaspar Gonçalo Madeira e António do Nascimento Marques.

A denominação "Cine-Teatro" atribuida a estas salas de espectáculo, surgidas no mundo ocidental no decorrer da década de 1920, ficou a dever-se à popularidade alcançada pelos  cinemas  e ao facto de o "teatro de revista" ter sido adoptado para divertir as plateias no espaço de tempo em que a projecção cinematográfica era interrompida para se trocar o "rolo" do filme, dando obrigatoriamente lugar a um maior intervalo.

O Cine Teatro de Moçâmedes rapidamente se transformou num importante espaço de sociabilidade, ponto de encontro das gentes da pequena cidade,  proporcionando de início sessões bi-semanais a partir das 21:00 horas, que progrediram para sessões diárias, também a partir das 21:00 horas, além, é claro, das "matinées" de sábado e domingo às 17:00 horas, que se destacavam por serem muito frequentadas pelo público juvenil. Mais tarde passou a ter também sessões aos fim de semana, às 15:30. Na década de 1960, com o aumento da população, quem não chegasse com a devida antecedência ou não reservasse o seu bilhete, não encontrava lugar! Daí o surgimento de uma 2ª sala de espectáculos, o Cine Esplanada Impala, em edifício bastante aberto, de traça moderna, e já nas vésperas da independência de Angola uma nova casa de espectáculos, de arquitectura futurista, qual nave espacial pousada no "Deserto do Namibe", mas que nunca chegou a ser inaugurada, devido ao êxodo da população branca e dos seus proprietários.

Na década de 1950, a década em que tudo mudou, o Cine Teatro de Moçâmedes era o grande animador da cidade, a par dos salões de festas do Atlético Clube de Moçâmedes e do Clube Náutico (Casino), onde decorriam, aos fins de semana, animados bailes e matinées dançantes, sem esquecer os campos desportivos espalhados pela cidade onde se disputavam renhidos encontros de futebol, de hóquei em patins, de voleibol, basquetebol masculino e feminino, que faziam levantar de emoção bancadas repletas de espectadores.

No Cine Teatro de Moçâmedes, para além das sessões cinematográficas, subiam ao palco peças de teatro, actos de variedades, espectáculos de revista à portuguesa, teatro de comédia, espectáculos de bailado, etc. etc. Uma referência especial para um tipo de espectáculo que fez sucesso na famosa década de 1950, em Moçâmedes: os concorridos «Programas da Simpatia», patrocinados pelo Rádio Clube e organizados pelo talentoso radialista e chefe de produção Carlos Moutinho com colaboração do famoso conjunto "Os Diabos do Ritmo" e de vários artistas moçamedenses.





Carlos Moutinho, chefe de produção do RCM e realizador do "Programa da Simpatia" com  Cecília Victor,  moçamedense, locutora e esposa




Nélinha Costa Santos cantando "Avé Maria de Schubert. num "Programa da Simpatia". Foto Salvador


Iniciados às 17 horas da tarde, durante anos sucessivos, aos fins de semana, no Verão, os  "Programas da Simpatia"  constituiram-se num dos maiores êxitos de bilheteira de todos os tempos no Cine Teatro de Moçâmedes. Alí se disputaram concursos de canto e de dança, e outros  que incluiam testes de conhecimentos gerais, etc. Alí  se revelaram  com êxito tantas e tantas vozes, algumas das quais delirantemente aplaudidas pelos espectadores que passo a citar: Nélinha Costa Santos (soprano,  com a sua Avé Maria de Schubert -  ver foto acima), Fernanda Braz de Sousa (música clássica),  Isabel Maria Sena Costa,   Maria Lídia,  Maria José Camacho (com a bela canção «Moçâmedes nasceu à beira mar...»), Adriano Parreira (tenor e locutor do RCM , o Mário Lanza do Namibe), Jerónimo Ribeiro (tenor),   José Patrício (tenor), Armando Duarte de Almeida (fados de Coimbra), Mário Cantor (com a canção «Amor dou-te o meu coração...»), etc.etc.     Não quero esquecer a voz de Adriano Parreira, o Mário Lanza do Namibe, sempre presente nestes programas de variedades.  Que me perdoem outros Amigos e Amigas que também enriqueciam este programa, a quem, por lapso momentâneo de memória, não faço agora referência".

Foi neste Cine Teatro, o Cinema da minha infância, que a garotada  da cidade assistiu aos seus primeiros filmes de bonecos animados, aos imortais Pato Donald, Rato Mickey, Gato das Botas, Popey,  filmes em que animais falavam, em que todos podiam pensar e agir, nem que fossem pedras. Filmes  que levaram para a tela contos maravilhosos de reis, rainhas, príncipes, princesas, fadas e bruxas, como os amoráveis  Branca de Neve e os 7 anões, Cinderela , a Bela e o Monstro,  a Bela Adormecida, etc. etc., que incorporavam elementos mágicos que fascinavam pela graça das suas histórias, mas onde era marcante a diferença entre o Bem e o Mal, e terminavam sempre com a punição dos maus e o final feliz do herói e da heroina.  Era um tempo em que próprio realizador acreditava que o crescimento se fazia no respeito pelas étapas, sem pressas de passar à étapa seguinte, mas onde as crianças descobriam uma multiplicidade de perspectivas que as ajudava a crescer: o fantástico, o maravilhoso, mas também a realidade.

Neste Cine, a juventude do meu tempo teve contacto com os primeiros musicais e westeren's -vulgo filmes de cowboyadas-, com filmes de pirataria, históricos, românticos, etc. etc,  que marcaram essa fase das suas vidas: O Capitão Morgan, O Gavião dos Sete Mares, Zorro, Tarzan, A Múmia, Frankenstein, O Homem Lobo, as Mil e uma noites, a Lâmpada do Aladino, a Máscara de Ferro, David e Golias, Os 10 Mandamentos, Sissi a Jovem Imperatriz, E tudo o Vento Levou, Escola de Sereias, etc. etc. Os artistas principais transformavam-se quase sempre nos nossos heróis e nas nossas heroinas, e até em modelos a imitar... Oa "heróis" eram o Errol Flyn, o John Weissmuller, o Tyrone Power, o Gary Cooper, o John Wayne, o Glen Ford, o Alan Ladd, o Clarck Douglas, o Victor Mature, o James Mason, o Humphrey Bogart, o Robert Taylor, o Clark Gable, o Fred Astaire, o Frank Sinatra, etc, etc. As "heroínas", eram a Betty Davis, a Elizabeth Taylor, a Ava Gardner, a Olívia d' Havilland, a Ginger Rogers, a Ingreed Bergman, a Dorothy Lamour, a Ester Williams, a Vivien Leigh, a Rommy Schnneider, etc. etc. Aliás, alguns destes "heróis" e destas "heroínas" funcionaram como autênticos ídolos para a nossa juventude, e encontravam-se representados através de enormes "retratos" a preto e branco que decoravam as paredes laterais que ladeavam as escadarias que nos conduziam ao 1º andar, onde ficavam os balcões e os camarotes (pequenos espaços especialmente reservados para os proprietários e onde se alojavam familias consideradas "importantes"  na sociedade de então).



Cinema da minha adolescência, o Cine Moçâmedes foi um local de risos e de lágrimas, de encontros e desencontros, de apertos de mãos e de suspense,  onde muitos namoricos tiveram o seu início, onde muitos noivados se consolidaram, carícias furtivas e beijos adolescentes foram roubados em plena projecção, aproveitando a ausência da luz, nesse tempo em que as «meninas» eram ansiosamente guardadas pelas suas mamãs, e seria um escândalo dá-los à luz do dia...

Era grande a afluência ao Cine Teatro Moçâmedes, sobretudo nas tardes de domingo frequentadas por muitas crianças e adolescentes, mas também por adultos, pais e avós, que acompanhavam filhos e netos.  Quando se tratava de um western,  género específico americano que explora marcos históricos como a conquista do oeste, a guerra de secessão dos EUA, e o combate contra os índios (peles vermelhas), com cenas de acção e aventura que envolviam cowboys e xerifes (vulgo filmes de cowboyadas), era grande  a algazarra proveniente da 2ª plateia, onde os mais jovens, fossem europeus ou africanos deliravam, batendo  palmas sempre que  a 7ª cavalaria defendia as caravanas americanas quando atacadas pelos índios, ou  reagiam negativamente, manifestando indignação, quando os índios, os "maus», arrancavam os "escalpes" aos cowboys, os "bons", e faziam deles trunfos de guerra. Mais tarde, já nos anos 60, esta perspectiva suavizou-se com a nova vaga de produtores, e o "índio" ou "pele vermelha" passou a ser abordado de forma mais humana, e até mesmo surgindo como vítima dos americanos. Era aqui que o "Cinema" revelava na sua feição de grande manipulador de massas...


Esta bela foto tirada à entrada do Cine Moçâmedes , em 1946,  junto a um Cartaz publicitário do filme "Romance Sensacional", interpretado por Ester Williams e Van Jonhson, mostra-nos  um grupo de jovens estudantes finalistas da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes: Maria Emilia Ferreira Ramos, Francisco José Magalhães Monteiro, Albano Pestana da Costa Santo (Carriço) , Humberto dos Santos Pinho Gomes e Maria Edith Lisboa Frota. Era o tipo de filme que sempre agradava, um musical romântico. Moçâmedes sempre gozou da fama de ter mulheres bonitas, fama que aqui se confirma planemente. Mas  eles não ficavam atrás!


Filmes houve que passaram pelo Cine Teatro de Moçâmedes, e constituiram grandes records de bilheteira. Estou a lembrar-me do "Escola de Sereias", interpretado por Ester Williams e Van Jonhson,cujos musicais que os acompanharam marcaram a sua época, como o  Filme ANNA em que Silvana Mangano canta e dança «El Negro Zumbón». Recordo como de imediato o jovem, irrequieto e popular conjunto musical «Os Diabos do Ritmo» incluiu no seu reportório este género musical que todo o mundo começou a dançar com grande habilidade e graciosidade nos bailes e matinées dançantes dos salões do Atlético Clube de Moçâmedes e do Clube Nautico (Casino). A letra: «Ya viene el negro zumbon, Bailando alegre el baion Repica la zambomba. Y llama a la mujer Tengo gana de bailar el nuevo compass Dicen todos cuando me ven pasar "¿ Dhica , donde vas?" "Me voy a bailar, el baion!"... O ritmo, uma mistura de rumba e baião. Silvana Mangano tinha o crédito de cantora, tanto no filme quanto no disco, mas quem cantava era Flo Sandon, cantora italiana. A partir desse filme, espalhou-se entre nós, raparigas de então, a moda das "calças à Anna". Eram calças justinhas até ao joelho que terminavam com 2 botões no lado de fora. A música El Negro Zumbón, do compositor, pianista e director de orquestra Perez Prado. foi feita para este clássico filmado em 1951 e dirigido por Alberto Lattuada. Contracenaram com Silvana Mangano, Vittorio Gassmann e Ralf Vallone.
A partir de 1932, e de acordo com a ideologia do Estado Novo, foi intituída a censura, e os filmes passaram a ser visados pela Inspecção-Geral de Espectáculos, sendo muitos deles interditados a menores de 17 anos. Foi o caso do actualmente considerado inofensivo  «O Monte dos Vendavais.»   baseado no romance de Emily Bronte, publicado por volta de 1846, um clássico da literatura inglesa. Um dia aconteceu neste Cine que estava eu a assistir a este filme acompanhada de meus pais, e fui, tal como todo o grupo de adolescentes que se encontravam na sala, pura e simplesmente posta na rua pelo porteiro, apesar da sessão estar já próxima do intervalo. Fomos postos na rua porque a meio da sessão um elemento da da dita comissão de censura resolveu considerar o filme impróprio para a nossa idade. Cenas destas aconteciam porque sendo diversos os censores distritais - não obstante recebessem instruções genéricas quanto aos temas a censurar- tudo dependia da capacidade com que cada censor distinguia uma cena como mais ou "perigosa" e revolucionária para o regime, daí que uns fossem exageradamente repressivos e outros mais permissivos e deixassem facilmente passar conteúdos considerados abertamente subversivos. Neste caso especifico foi tardiamente que o censor se apercebeu da cena a censurar. O «Monte dos Vendavais» contava a historia de um casal que no decurso de uma viagem resolvera adoptar uma criança orfã cigana, adopção que suscitara nos seus dois filhos naturais sentimentos intensos e antagónicos de amor e ódio, emoções passionais incontroláveis, humilhação, frágilidade, etc, redundando num enredo trágico tipo Romeu e Julieta passado na época vitoriana que ia contra os princípios morais estabelecidos pelo Estado Novo para a educação da juventude. Em contrapartida, não havia mal algum que crianças pequenas assistissem a western's onde indios escalpizavam americanos, e estes massacravam índios, ou onde cristãos eram impiedosamente atirados às feras, etc. É claro, reclamámos e recebemos de volta o dinheiro do bilhete. Por outro lado, apesar da "censura", não eram exigidos à entrada aos jovens os bilhetes de identidade, situação que corria a favor das raparigas que geralmente crescem e amadurecem mais cedo, e lhes dava a possibilidade de através de uma toilette mais senhoril "enganarem" o porteiro, que, na dúvida, não se atrevia a interpelá-las sobre a a idade, deixando-as entrar. (Para saber mais sobre Censura no Estado Novo, clicar  AQUI)




 
O Cinema do Eurico como lhe chamavam... Foto Salvador, anos 1950


O interior do Cine Teatro de Moçâmedes


O foyer principal e os espaços de distribuição central e lateral esquerdo, de grande dimensão, têm chão e lambris em belíssimos mármores da região do Namibe.

O Quiosque do Faustino, alí mesmo ao lado...

E quando chegava o intervalo das matinées cinematográficas, era a corrida  ao "Quisque do Faustino", em busca de sorvetes (gelados), gasosas (refrigerantes), shwingum (chiclets), ginguga (amendoins), tremossos, chocolates, rebuçados, etc  De entre os refrigerantes, as preferências da garotada ia para as coco-pinhas e  carbo-sidrais. Outros davam uma corridinha à "Minhota", à pastelaria dos irmãos Oliveira, e lá para o início dos anos 1960, sirgiu o "Café Avenida", de Mário Martins, alí mesmo ao lado do Cine Moçâmedes.

 

Bilhetes do Cine Teatro de Moçâmedes, um ano antes da independência


Por vezes aconteciam cenas desagradáveis quando algum jovem entrava sem pagar bilhete, ludibriando o porteiro, era apanhado por este e posto na rua. Moçâmedes não era uma terra de gente rica e ociosa, mas de gente "remediada" que vivia do seu trabalho (2), sendo  escasso o número dos chamados "ricos". E mesmo no seio da comunidade branca, havia gente que vivia com dificuldades e daí ocorrer este tipo de situações, já que os jovens se sentiam no direito de ver o filme e as suas famílias não tinham condições de os satisfazer. Era aqui que entrava o espírito benfazejo de alguns moçamedenses que, de quando em quando se condoiam e lhes ofereciam o bilhete. O exemplo mais evidente era o da veneranda D. Aninhas de Sousa, pessoa muito religiosa e caritativa, esposa de Raúl de Sousa (ex-proprietário do antigo Cine Garrett), mãe de D Duna Chalupa e de  Raúl de Sousa Junior (Lico) que foi vereador da Câmara Municipal de Moçâmedes -pelouro Turismo- cujo nome ficou ligado ao Parque de Campismo da cidade do Namibe.  D. Aninhas quando o Cine Garrett encerrou, passou  a frequentar o salão de festas do Clube Beneficente Ferroviário de Moçâmedes,  na Rua Serpa Pinto, onde com o marido, continuou o negócio, fazendo ali passar sessões cinematográficas. A garotada, bem informada, sabendo de tudo isso, e das qualidades da senhora, ficava concentrada à porta, a aguardar sofregamente a sua chegada para entrar em à "boleia", acobertada por ela.


 
Cocktail oferecido pelo Municipio a Marisol quando da sua passagem 
por Moçâmedes. Foto Salvador

 
 Cocktail  no Clube Nautico  oferecido ao conjunto musical
Duo Ouro Negro, após a sua actuação em Moçâmedes. Foto Salvador



Octávio de Matos, actor-ilusionista, também actuou em Moçâmedes
Octávia de Matos, a talentosa filha de Octávio de Matos, conhecida pela Carmen Miranda de Moçâmedes

Para além das sessões cinematográficas, subiram ao palco do Cine Teatro de Moçâmedes peças de teatro, actos de variedades, espectáculos de revista à portuguesa, teatro de comédia, espectáculos de bailado, etc. etc. Ali cantaram Alberto Ribeiro, Tony de Matos, Horácio Reinaldo, Luís Piçarra, Marisol  (que podemos, vestida de brando, ao centro da foto acima), Carlos do Carmo, Trio Odemira, Duo Ouro Negro, Nelson Ned, Marisol, e tantos outros grandes cantores e cantoras que a voragem do tempo não deixa recordar. Ali declamou o grande João Villaret, alí actuaram  Humberto Madeira,  Octávio de Matos (que foi pai da nossa conterrânea Octávia de Matos), o Orfeão Académico de Coimbra (que de visita a Moçâmedes fez também uma serenata nas escadarias do Palácio da Justiça -Tribunal), etc etc. Ali, enfim, exibiram seus shows de variedades, plenos de luz e de côr, elegantes coristas vindas da Metrópole que fizeram perder de amores alguns sedentos corações masculinos...

Recuando um pouco nessa famosa e badalada década de 1950,  que mobilizou toda uma população, desde os mais jovens até aos de meia idade, damo-nos conta da organização da "orquestra do Rádio Clube de Moçâmedes", organizada pelo fotógrafo e músico amador, José Antunes Salvador, o saxofonista e chefe da orquestra,  e composta  pelos violinistas Santos César e Fernando Osório (do Banco de Angola), pelo acordeonista, Raúl Gomes Filho (que também tocava guitarra e viola), e pelos bateristas Firmo Bonvalot e Albertino Gomes, não esquecendo o trompetista, Anselmo de Sousa que há época trabalhava na empresa de Abilio Simões. Significativo o facto de as músicas em pauta nesta altura serem conseguidas junto das orquestras de bordo dos paquetes, que mais ou menos 2 vezes por mês aportavam à baia de Moçâmedes. Antunes Salvador. fazia amizades com os músicos de bordo e estes cediam, por gentileza, as músicas e canções em voga na Metrópole, para serem cantadas aos microfones do Rádio Clube, depois de orquestradas pelo mestre Salvador, ou no palco deste Cine Teatro.  Recordando a figura de Antunes Salvador, segue uma quadra que foi cantada numa revista teatral levada à cena no Cine Moçâmedes, onde se brincava com os seus dotes musicais:


Tocam hinos, tocam óperas
tocam marchinhas e valsas
e o Salvador tanto assopra
que arrebenta o cós das calças ...



É desse tempo a participação em espectáculos no Cine Moçâmedes das pianistas Rosa Bento e  de Maria Arminda Alves de Oliveira, e de outros participantes como Afra Leitão, Martins da Alfândega, Noelma de Sousa (Velim), Maria Emilia Ramos (que se destacou no dia em que cantou La vien Rose), Octávia de Matos com as suas marchinhas brasileiras (a Carmen Miranda do Namibe), Julia Gomes (a fadista do Namibe filha do Raul Gomes, o guitarrista "oficial" da cidade) que nos surprendia em todas as actuações acompanhadas à viola pelo seu irmão "Baía" e pelo seu pai, à guitarra, Lili Trabulo com o seu cantar lânguido, Néne Evangelista "Boneca" , o romântico José Luis da Ressureição com o reportório do saudoso Francisco José e o sentido fado, com musica e letra do juiz da Comarca Dr. Marques Mano, intitulado NAMIBE ao qual se entregava de alma e coração cantando  ao estilo "Coimbrão".

No Cine Teatro de Moçâmedes actuaram também em vários espectáculos, na década de 1950, o grupo "Boa Vontade" levado à cena por Dina Chalupa, a Escola de Ballet e dança rítmica dirigida por  Mme. Sibleyras (Senhora francesa que, vinda da Argélia, que passou a residir na cidade nessa mesma década), finalistas da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes,  não esquecendo os alí  também realizados concursos de trajes de Carnaval, etc.etc.

Seguem algumas fotos de um sarau realizado neste Cine Teatro, em 1956, no qual participou a escola de ginástica rítmica e de ballet de Madame Sibleyras e o grupo coral e de teatro da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes ( festa dos finalistas).



O grupo de ballet de Madame Sibleyras, em 1957/8, no Cine Moçâmedes
Foto Salvador 
Nesta foto encontram-se entre outras, Maria Eduarda Almeida (Dada), Raquel Radich, Rogélia Maló de Almeida (Gélita), Elsa Radich, Eloisa Trindade. Foto Salvador .  




Finalistas da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, 1956: Noémia Girão Rosado,
Susete Alves de Oliveira, Antonieta Rodrigues (Boneca), Guida Frota, Teresa Freitas e
Mª Graça Nunes de Sousa. Foto Salvador 


 Finalistas da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, 1956:  Eduarda Bauleth de Almeida, Ildete Bagarrão,
Lurdes Faustino, Mª Augusta Neves Almeida, Aurora Vieira, Cacilda, Violete Velhinho, Daniel Santos, Geny Guerra,
José Fernando Soares, Jorge Carrilho e Rui Coelho de Oliveira, no decurso de um espectáculo realizado neste Cine, em 1956, do qual participei.  Foto do meu álbum

 
 O mesmo espectáculo dos finalistas no  Cine Moçâmedes. Foto do meu album

Grupo Boa Vontade em actuação

As fotos que seguem são da peça de Teatro "Frei Luis de Sousa"
 Peça Frei Luis de Sousa
 Peça Frei Luis de Sousa

 Olimpia Moreira, na peça Frei Luis de Sousa

E lá mais para finais da década de 1950 revelou-se voz de Helena Rocha. menininha ainda, mas já com uma voz forte e bem timbrada que enchia o palco do Cine Teatro de Moçâmedes. Na década de 1960 a moçamedense revelou-se fora de portas com o  «Calhambeque», canção na época lançada por Roberto Carlos com grande sucesso.
http://www.youtube.com/watch?v=OMF5SG753oc

 


 Helena Rocha e o "Calhambeque".(VIDEO)
(VIDEO)  (VIDEO)
(VIDEO)
(VIDEO)


Mas o Cine Teatro de Moçâmedes também teve os seus momentos de grande dramatismo. O pior aconteceu com a grande tragédia que abalou o pequeno burgo nos inícios de 1960, quando num fatídico dia em que decorria o filme «Amanhã será tarde», a casa dos filmes, no 1º andar, começou a arder após uma explosão que apanhou algumas pessoas pela frente, projectando outras pelas janelas fora. Morreram e ficaram feridos bombeiros, morreu Jorge Madeira (sobrinho do industrial e comerciante, Gaspar Gonçalo Madeira), jogador de futebol do Benfica e defesa central da selecção de Moçâmedes. Jorge nem sequer tinha ido ao Cinema. Tinha regressado de um treino, e ao passar junto ao Cine Moçâmedes foi apanhado quando alguém na bilheteira lhe pediu um lenço para se proteger do fumo. Foi precisamente no momento em que acabara de entregar o lenço, quando se volta de costas, que uma grande explosão fez a casa das filmagens ir pelos ares, e arrastou-o consigo. As queimaduras e os danos que Jorge Madeira sofreu foram de tal ordem que veio a falecer oito dias depois. Nessa explosão Dina de Sousa Chalupa, a concorrente feminina que ficou conhecida pela sua particpação nos 1ºs. rallies das Festas do Mar, e participou em várias provas automobilistas, na década de 1950, foi projectada pelos ares, a partir da janela do primeiro andar deste Cinema, e não morreu por um triz. Ela estava a preparar-se para saltar, quando foi empurrada por alguém em desespero, caiu de costas e fracturou 3 vértebras, tendo ficado imobilizada num colete de gesso durante 3 meses. O marido, José Joyce Chalupa ficou ferido nas pernas, mas houve pessoas que morreram.

Importa ainda referir que em tempos mais atrás também aconteceu na cidade de Moçâmedes um outro acidente que colheu para sempre um dos braços de um dos proprietários, Eurico Martins, apanhado que foi pela correia do gerador, enquanto trabalhava. Por essa altura era num barracão ao lado deste Cine Teatro, que ficava o dito gerador, barracão que, com a chegada da electricidade à cidade acabara por ser demolido e dar lugar ao novo e moderno edifício onde, nos finais da década de 50 se instalou a Pastelaria Avenida.

O Cine Teatro de Moçâmedes, tal como as salas de espectáculos de todo o mundo, não era apenas um espaço de lazer ou um local de evasão ao fim de cada semana de trabalho.  A "máquina dos sonhos" contribuiu  para uniformizar corpos, generalizar estilos de vida, posturas, modas, penteados,  e também para moldar até os próprios sonhos dos espectadores. Através dos documentários propagandísticos com que na defesa de uma boa imagem do "Império" iniciava as suas sessões,  contribuiu para difundir do modelo sócio-cultural do Estado Novo. Mas também contribuiu para essa mudança de mentalidades que se verificou em todo o mundo a partir da 2ª Grande Guerra (1939-45). E tanto mais em Moçâmedes, pequena cidade onde os modelos tendiam a manterem-se perenes... Todos aprendiamos algo de novo em cada sessão, os mais cultos e os menos cultos, e neste caso o CineMoçâmedes contribuiu para reduzir a diferença de conhecimentos entre pessoas  mais instruídas e  menos instruídas, ao proporcionar à população filmes e programas culturais, a que de outro modo não tinham acesso.

Não poderei deixar de registar aqui que este Cine Teatro foi palco de um animado comício político por ocasião da campanha eleitoral do General Humberto Delgado que despertou em todo o Portugal um enorme entusiasmo, e tornara bem evidente o descontentamento que pairava em relação à política do Estado Novo.  Mariano Pereira Craveiro, o empreendedor presidente da Sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe» (2) era um republicano de raiz maçónica, oposicionista do regime, e fez parte, juntamente com Carlos Martins Cristão e outros moçamedenses, desta campanha a favor do General nas eleições presidenciais realizadas no ano de 1958, contra o Almirante Américo Tomás. Recordo ainda o discurso arrebatador proferido por Carlos Martins Cristão que, sentado ao lado de Pereira Craveiro, junto a uma mesa colocada no palco do Cine Teatro de Moçâmedes, com a sua forte e bem timbrada voz dizia, referindo-se ao regime vigente: «Eles é que têm as armas...eles é que têm os canhões, nós só temos os braços para trabalhar...». Em Moçâmedes, Humberto Delgado teve 665 votos, e Américo Tomás, 790. Escusado será dizer que os resultados oficiais das eleições deram a vitória ao candidato Américo Tomás, que se foi mantendo na Presidência da República até 1974. De facto a candidatura do General Humberto Delgado motivou uma forte mobilização da oposição em Angola tendo-se aqui registado a única vitória distrital do general em todo o espaço eleitoral, quero dizer, em Benguela, com 2599 votos contra os 1296 de Américo Tomás. As anteriores candidaturas da oposição eram forçadas a desistir por força das pressões e perseguições decorrentes da próprio regime e da falta de condições para a liberdade da votação. Foi o caso do general Norton de Matos, de Arlindo Vicente, etc., não foi o caso de Humberto Delgado que galvanizou o País inteiro e cujo comportamento público surpreendeu toda a oposição ao regime, pela clareza, firmeza e frontalidade com que se ia pronunciando. O general Humberto Delgado o “General Sem Medo” contestou as eleições e afirmou sempre a sua vitória. A sua derrota foi atribuída à viciação dos cadernos eleitorais e não ao controlo das urnas de voto pela oposição. A sua ousadia viria a custar-lhe a suspensão do serviço activo, em Janeiro de 1959, e anos mais tarde, a própria vida, quando, ao procurar manter activa a oposição ao regime, caiu numa cilada e foi brutalmente assassinado pela Pide, no dia 13 de Fevereiro de 1965, em Villanueva del Fresno, Espanha. Dir-se-ia que as eleições haviam sido uma armadilha.

A partir da década de 1960, com algumas mudanças que se iam introduzindo ao nível das mentalidades, o modo de fazer Cinema também começou a mudar, os filmes, fossem americanos, franceses ou italianos, já eram outros, mais espectaculares, mais realistas, abordavam preferencialmente temas sociais, e já nenhum jovem de sã consciência perdia o seu tempo a assistir a um épico hollyoodesco, nesses tempos novos em que passou a questionar-se a Guera do Vietnam, a revolução hippye, o Maio de 1968, etc. etc.

Desde que me ausentei de Moçâmedes, em Junho de 1975 não voltei mais a entrar neste Cine Teatro, mas guardo comigo, sem saudosismos, todas estas recordações de um tempo que já lá vai e que não volta mais, tempo da minha infância, da minha adolescência saudável e irrequieta, da primeira década da minha entrada na idade adulta, cujas memórias venho procurando registar. E só faz sentido fazê-lo, porque como tantas outras, na imensa Angola daquele tempo, fomos uma comunidade que num repente se esfumou, e que dela, hoje dispersa pelo mundo, só restam recordações ténues, que imagens e textos vão ajudando a recordar.

E porque esta reportagem ficaria incompleta sem uma referência um pouco mais profunda àquela que foi a 1ª sala de espectáculos de Moçâmedes, o Cine Teatro Garrett, ela aí vai:

Ainda sobre o primitivo Cine de Moçâmedes o Cine Teatro Garrett...

Como já havia referido neste blogue, a primitiva sala de espectáculos de Moçâmedes foi o Cine Teatro Garrett, situado na Rua Calheiros, da qual era proprietário Raúl de Sousa. Foi ali que até meados dos anos 1940 os moçamedenses viram correr os seus primeiros filmes, grande parte dos quais ainda em cinema mudo, e assistiram às primeiras peças de teatro e de revista. Sobre esta casa de espectáculos, dizem os que a frequentaram que o interior era todo forrado a madeira trabalhada, possuía frisas, camarotes, plateia e cortinados de veludo vermelho vermelho, um requinte interior que, salvo as devidas proporções, fazia lembrar o Teatro S. Luiz de Lisboa. Acabou demolido para dar lugar à sede do Atlético Clube de Moçâmedes, numa altura em grande parte da madeira trabalhada que forrava o seu interior, já se encontrava corroída e incapaz para ser aproveitada. Dizem os antigos que foram ali levadas à cena peças de Teatro e de Revista por Companhias metropolitanas que nas suas digressões por Angola e Moçambique se faziam acompanhar, inclusive, pelas respectivas orquestras. As imagens abaixo mostram-nos dois recortes de jornal e um folheto publicitando a peça de teatro «O Cão e o Gato», um acto de variedades com a "Orquestra Zíngara de Lisboa", e outro sob o título "Tirolilo", peça que deixou no ar uma cantiguinha que chegou aos meus tempos de criança, e cuja letra era mais ou menos assim:





"...Cá em cima está o tiro-liro
 Lá embaixo está o tiro-liro-ló
 Juntaram-se os dois à esquina
 A tocar a concertina
 E a dançar o sol e dó...

Comadre, minha comadre,
gosto muito da sua afilhada,
É bonita, apresenta-se bem e
parece que tem,
a face rosada...


etc..






A revista "Coração ao Largo" promovida pelo Atlético Clube de Moçâmedes, foi um êxito de bilheteira.
Programa da Revista "Coração ao Largo"






Nota 2 : Este texto insere-se na série de textos aqui publicados, que visam fornecer um retrato, o mais vivo e real possível, daquilo que foram as vivências e as convivências em Mossâmedes/Moçâmedes, hoje cidade do Namibe, em Angola, no decurso da época colonial. São textos baseados em memórias de vivos, experiências vividas, que nos mostram como a cidade foi evoluindo ganhando terreno ao deserto, e permitem desvendar modos de ser e de estar, atitudes perante o quotidiano, aos quais se juntam também referências retiradas à História, na medida em que a luz do passado ilumina o presente ajudando-nos a interpretá-lo e a compreendê-lo. Encontra-se protegido por direitos de autor, pelo que  só pode ser reproduzido por outrem  desde que seja mencionada a fonte de onde provêm. As fotos aqui colocadas não poderão ser reproduzidas para fins comerciais.



quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes


 




E porque a História deve ser transparente e nada ocultar, publica-se a seguir  mais um texto, este escrito pelo Padre José Vicente (Gil Duarte). Agência Geral do Ultramar, 1969, sobre o perfil de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, aquele que foi Chefe da 1ª colónia (1849),  e considerado o fundador de Moçâmedes:



Do livro: "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes" Padre José Vicente (Gil Duarte). Agência Geral do Ultramar, 1969.


"Recordai, hoje e sempre, com admiração, o homem, o herói e o mártir que fundou Moçâmedes"


Terá Moçâmedes esquecido o seu fundador?
Responde-se: de todo, não. Mas talvez não lhe tenha dado ainda o preito de justiça, de amor, de gratidão à altura dos seus méritos.

Em 1960, o Sr Dr. António Abrantes Tavares visitou a cidade de Moçâmedes. Regressando à Metrópole escreveu uma carta ao Sr Dr. Vasco de Campos relatando o que nessa cidade lhe fora dado observar. Transcrevemos a carta:

"Moçâmedes é uma cidadezinha fresca, limpa e agradável, com um hotel muito bom e bem arejado. A baíanão é grande, mas é bonita. Tem uma bela avenida, quase marginal, e bons prédios.

Estive na Câmara, um belo edifíc antigo, onde os bárbaros já se meteram a fazer asneiras.
Cavaquei longo tempo com o Secretário, homem já cheio de anos, e lhe disse que iria à Fazenda dos Cavaleitros.  Soube por ele que vivia na cidade um parente do Patriarca de Moçâmedes e, portanto,
seu parente também, e foi comigo procurá-lo para mo apresentar. É um senhor já de setenta e muitos anos, bem conservado e dono de uma cerâmica. Suponho que tem meios de fortuna. Chama-se José de Pina Martins Abreu e Castro, e disse ter nascido na Quinta da Pelada, e ser sobrinho do Dr. João Martins. Conhece ai os nossos sítios e lá esteve a recordá-los comigo. Dei-lhe conta da parentela que por ai tinha, e despedimo-nos depois de bem cavaquear.

O secretário da Câmara mostrou-me um mapa em tela, mandado elaborar pelo velho governador local, onde estão assinaladas as terras das margens do rio Bero distribuidas aos colonos. Lá está marcada a grande Fazenda dos Cavaleiros. Prometeu-me uma cópia daquele documento, indispensável para a história da colonização de Moçâmedes. Se o receber farei o possivel para lhe mandar também uma cópia.
Finalmente meti-me num táxi, e lá fui para a Fazenda. Atravessei as chamadas "Hortas de Moçâmedes", onde vi belos olivais, vinha, batatais, feijoais, tomatais e demais primores, conjuntamente com bananeiras e citrinos em bordadura.

A Fazenda do seu tio-avô fica a mais de três quilómetros de distancia, e por caminho em parte bastante mau. Levava a ideia de fotografar a velha amoreira, se existisse, e bem contente fiquei quando apareceram uma vultuosas figueiras indígenas que delonge me pareceram amoreiras. Cheguei bem carregado de pó, pois a parte da Fazenda que vi é agora um areal estéril.


A Fazenda dos Cavaleiros


Num alto, dominando toda a extensão do dominio rural, erguem-se as ruinas de uma velha casa, que supunha ter sido a casa do fundador. Perto do local há umas cubatas de pretos, e um velho deu-me uma correcta informação dos donos da Fazenda. Foi de um branco - disse. Depois foi da Companhia - a Companhia do Sul de Angola - e depois do Venância - Venâncio Guimarães, e agora é de um fulano de quem disse o nome, mas eu não o retive. Segundo o preto, as ruinas eram da casa do branco.
Da amoreira, o preto não soube dar fé.

No salão nobre da Câmara, no lugar de honra, lá está o retrato a óleo do velho Bernardino, rodeado de outros notáveis, Gostei de ver, e ergui uma breve prece por aquele que foi, sem dúvida, um corajoso pioneiro e homem de acção.

Aqui tem uma breve reportagem, e lamento não ter tido tempo para cavaquear com os velhos, para ver o que haveria ainda na tradição oral.

Digo-lhe porém que a lembrança do velho Bernardino vive, como um protector da cidade, na lembrança de toda a gente, incluindo a rapaziada desportiva. Quando disputam futebol com Sá da Bandeira, invocam Bernardino, e quando começam a falar nele, nada lhes resiste. Ainha há pouco tempo estavam a perder um jogo e começavam da assistência a animar os jogadores: "Ber-nar-dino! Ber-nar-dino!" Pois acabaram ganhando, e atribuiram ao incitamento e apoio espiritual de Bernardino!

Veja pois, como está viva a memória do grande pioneiro!".


                                                                               ***

Tudo isto é muito, mas não basta. É preciso erguer no coração de Moçâmedes um grande monumento ao fundador! É preciso erguer nio coração de Nogueira do Cravo, um grande minumento ao maior filho daquela ridente povoação!

Do livro: "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes" Padre José Vicente (Gil Duarte). Agência Geral do Ultramar, 1969.


quarta-feira, 24 de outubro de 2012

José Moreira de Pinho Trindade, descendente dos pioneiros da colonização de Moçâmedes. O jornal «O Namibe», a poesia, etc...




 

Na foto: José Moreira de Pinho Trindade , a esposa e os 3 filhos mais velhos, Georgina Zulmira Alves Trindade (Gina), Clara Bela Alves Trindade (Bela) e Roberto Alexandre Alves Trindade. Desta união nasceria ainda Carlos Alberto Alves Trindade



Recordando gente da nossa terra...


JOSÉ JOAQUIM DE PINHO (1820-1875)

 http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2007/08/componente-da-peimeira-colnia.html


Se houve pessoas que marcaram presença o desenrolar da vida, das vivências e convivências na cidade de Moçâmedes,  Namibe, uma delas foi José Trindade, proprietário do "Jornal o Namibe" e de uma tipografia situada na Rua dos Pescadores.

José Trindade era  descendente de um pioneiro da colonização, José Joaquim de Pinho (1820-1875)*, natural de Aveiro, que juntamente com outros portugueses idos de Pernambuco (Brasil) na barca brasileira "Tentativa Feliz" para Moçâmedes, ali chegou a 4 de Agosto de 1849. Vinham dar inicio ao povoamento branco do distrito.  José Joaquim de Pinho foi proprietário de terras na região, entre elas a fazenda da Várzea da Boa Esperança.  Faleceu em Moçâmedes, em 27.11.1875, encontrando-se os seus restos mortais, junto com os da sua mulher, sepultados sob um mausoléu no cemitério local, mandado erguer pelos seus filhos.

Mas José Trindade para além de proprietário do "Jornal o Namibe" e de uma tipografia, também era jornalista; era ele próprio escrevia muitos dos artigos que eram publicados no seu Jornal, os quais assinava ora como J. Trindade, ora como Carlos Alberto, e ainda como REX, para além de dominar a arte de versejar, faceta pouco desconhecida de quantos habitavam a cidade de Moçâmedes.

Seguem dois dos seus poemas que me foram gentilmente enviados, juntamente com a foto acima, pelo seu filho e meu ex-colega de escola, Roberto Trindade.

 




Moçâmedes e o Mar



Entre as águas azuis do mar uivante

e a areia fulva do deserto agreste

- como presa nos braços de um gigante-

foi, Princesa, que tu aqui nasceste!


Nasceste em terra dura e ressequida

E tens mesmo a welwitschia por irmã,

e, à força de viveres esta vida.

conquistaste a coragem de um titã!


Venceste as bravas ondas turbulentas,

enfrentaste as garrôas do Deserto,

e, após tremendas lutas bem cruentas,

mudaste a rota a um destino incerto!


Tornaste natural o que era estranho

ao dominar os fortes elementos:

nas areias fizeste o seu amanho

e ao Mar foste colher os alimentos:


Consumidos cem anos em batalhas,

és tão pobre como eras no começo,

mas, rica em fidalguia, tu trabalhas

p`r atingir as estradas do Progresso!


Agora, à custa desse teu Namibe

e da formosa Praia das Miragens

como quem ao olhar do Mundo exibe

belezas naturais, raras imagens -


Tu voltaste de novo a triunfar!

fazendo de ambos um cartaz berrante,

passaste a festejar o velho Mar,

companheiro do povo navegante.



Carlos Alberto

 




Em Moçâmedes poucos escapavam a uma alcunha, e  José Trindade coube era conhecido por «Zé Côco». Era um fumador inveterado que não parava de fumar enquanto escrevia e orientava os trabalhos na sua Tipografia. Era cigarro atrás de cigarro, até virar «beata» a queimar-lhe a ponta dos dedos...

A respeito desta faceta de seu pai assim escreveu seu filho Roberto: 
"...Ele e o Antenor Carranca só viviam para o jornal. É pena que o Antenor tenha desistido tão cedo !  O meu pai era um tanto ou quanto lunático. Ia pelo passeio com o cigarro a arder na boca, não ia a fumar, só a fumegar. Ia a pensar naquela rima que lhe faltava para o soneto que estava a escrever ... À noite no seu quarto, mergulhava no monte de jornais que recebia de todo o lado, queimava montes de cigarros que ficavam a arder no cinzeiro. Tamborilava os dedos no tampo de mesa para contar as sílabas e encontrar a célebre rima. Deitava-se às 3 da manhã e às 8 já estava à minha espera para irmos para o Jornal ... Se demorasse ele ia a pé."



Quanto à faceta poética de José Trindade, e a respeito do TABACO, ele mesmo escreveu um poema numa altura em que devido à seca a indústria tabaqueira angolana passava por uma grave crise, ao ponto de ter faltado tabaco nos locais de venda em Moçâmedes, situação que agitou os ânimos dos viciados.  Eis o poema:



Não há tabaco!



(Referência alegre à cruciante à tragédia tabaqueira ocorrida há dias)


As armas e os barões assinalados

que os tempos vão maus, muito envinagrados!

Não há tabaco e estamos desgraçados!

A seca foi atroz e foi completa

de deixar um parceiro mui pateta!


Desta vez não houve contemplações:

não fumaram pobres, ricos e ladrões!


Conheço fumadores consagrados

que agora apenas ... chucham rebuçados!

Conheço até uma Domingas ,

que é minha lavadeira e confidente.

Sei que adora o tabaco e as boas pingas.


E, como continua sorridente,

indaguei da maneira que ela usava

pr´enfrentar o problema. E essa avis-rara

disse: - Eu não perdi tempo , e sem mangonha

fui comprar umas doses de cangonha!...


A situação tristonha e angustiosa

veio pôr a cidade em polvorosa.

Os cigarros de filtro e os tais sem ponta

são luxo com que a gente já não conta:


Não há Deltas, Marinas, Francesinhos

e até Negritos já não têm os barzinhos!

Fumar é vício lindo que morreu

e, p´ra vida ser feita de veludo,

vamos fumar p´la ponta de um canudo,

recordando a beata que já ardeu!


E como um bom charuto custa caro,

Não fumes disso, ó meu judeu avaro!



(José Trindade)






Estas eram algumas marcas de tabaco que se vendia em Angola

 

 




Do "Jornal Namibe" apresentamos a seguir um derradeiro artigo, publicado em 1975, quando Portugal se preparava para pôr a funcionar, com a ajuda de potências estrangeiras, uma «ponte aérea» sem retorno que haveria de promover o repatriamento massivo dos portugueses do território de Angola  naquilo que redundou numa autêntica "limpeza étnica".





 


                                             
                                                                


  
Clarabela e Gina, as duas meninas de José Trindade já rapariguinhas, em 1953/4? envergando a camisola do Benfica, "o clube de sempre" das duas manas Trindade.

 
Sem desprestígio para a mana Gina que também era uma excelente basquetebolista, Clarabela, era sem dúvida a alma da equipa de basquetebol feminino do Sport Moçâmedes e Benfica na década de 1950. Era aquela que, com a sua rapidez, as suas esquivas jogadas e os seus infalíveis lances de bola ao cesto, fazia vibrar os  adeptos benfiquistas que não cessavam de a ovacionar. Ver Memórias Desportivas AQUI




  Aqui podemos ver Roberto Trindade (em cima à esq) integrando o grupo de finalistas masculinos da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, em 1956. Ver AQUI


Para terminar vou lembrar uma situação que se passou entre José Trindade e a Câmara Municipal de Moçâmedes, que revela o quanto às vezes as pessoas que detêm algum poder são levadas a actos prepotentes, mesmo em situações em que os ventos não correm a favor dos organismos que representam.


Eis a situação:



José Trindade era há já um tempo credor da Câmara Municipal de Moçâmedes, por trabalhos prestados pela sua Tipografia que não havia meio de serem pagos. Cansado de esperar, tomou uma decisão: ele que fora sempre cumpridor das suas contas, resolveu pura e simplesmente deixar de pagar a conta da água e da luz eléctrica que a Câmara fornecia à Tipografia. Resultado, logo no dia seguinte bateu à porta da mesma um funcionário municipal que ali se deslocou para cortar o fornecimento de água. Porque lei é lei, para o organismo, não para as pessoas! Quanto ao resto apenas sei que o problema levantou grande celeuma, que José Trindade fez barulho, protestou, e que pelos vistos o problema acabou resolvido, pois a Tipografia, da qual dependia não apenas o seu sustento e da sua família, como sustento de mais algumas famílias que dependiam do salário dos que ali trabalhavam, lá continuou a funcionar.



A respeito de Jornais, a proveito para colocar aqui estas referências a jornais que no século XX foram editados em Moçâmedes:


1.O Sul de Angola, semanário independente de Moçâmedes, fundado em 1921 e dirigido por Mário Trabullo, seu proprietário.
2.Correio de Angola, de Moçâmedes, dirigido por José Manuel da Costa.
3. Mossâmedes, semanário dirigido por Joaquim Augusto Monteiro.
4.O Académico, de Moçâmedes, dirigido por José Pestana.
5.Sport de Moçâmedes, quinzenário desportivo, dirigido por A.A. Torres Garcia.


É com carinho que deixo aqui mais estas recordações de gente que viveu na nossa terra até às vésperas da independência de Angola em 11 de Novembro de 1975, e que, como tantas outras teve que partir, porque já não dava para continuar...


MariaNJardim