Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Bernardino Fernandes Fraga

  Foto do livro de Paulo Salvador "Recordar Angola"



Quem foi Bernardino Fernandes Fraga, ou Manuel Joaquim de Carvalho? (conforme a situação assim mudava de nome)

Segundo descreveu o capitão Henrique Galvão era um individuo que tinha "muito amor ao dinheiro e pouco amor à vida" 

A sua história começou quando espancou até à morte um negro embriagado, por este ter estoirado numa acidental explosão,  a máquina de fabricar aguardente da fazenda  que desde 1900 possuia nas cercanias da serra da Chela. Processado criminalmente em Moçâmedes, face ao receio de ser condenado ao degredo, pôs-se em fuga levando consigo uma trouxa de roupa nas mãos e uma mala às costas e refugiou-se no Humbe, onde passou a usar o nome de Manuel Joaquim de Carvalho. E, para evitar vir a ser identificado pela autoridade, acabou internando-se no mato e passou a servir de intermediário no negócio entre brancos e negros, trocando fazendas por bois a alto preço e escoando em grande parte o negócio para os comerciantes de Moçâmedes. E assim, de fugitivo Bernardino Fernandes Fraga acabou por se transformar num destemido funante, ou seja em comerciante ambulante, desenvolvendo com o interior toda uma série de negócios, sem regras, desde pólvora a aguardente, que não raro acabava em banho de sangue. Eram os funantes os únicos brancos que se atreviam a internarem-se no mato para desenvolver trocas comerciuais entre a população branca e as tribos angolanas.

Mas a sua coragem e o seu poder de argumentação eram muito apreciados, incluso pelos negros. Viajava de dia dormia à noite para evitar ser detectado, e colocava uma toalha molhada na boca do seu cavalo para que ele não relinchasse e chamasse a atenção para a sua pessoa quando passava. 
Em 1911 corriam noticias da venda cartuchos roubados perto do Humbe,  e o Fraga, então dando-se pelo nome de Manuel Joaquim Carvalho, foi acusado e levado à presença de um  militar que o prendeu mas ao qual prestara alguns favores, e este, ao ter conhecimento da sua verdadeira identidade acabara por se quebrar ante a sua retórica, jamais se provando a história de tais cartuchos. 

Talvez devido aos favores, talvez devido à fama do Fraga até o crime acabou por ficar esquecido, ainda que tivesse perdido a licença de venda o que colocara mercê dos comerciantes de Moçâmedes . Travou relações com Cuanhamas, criou boas relações com o Rei Nande, a quem sucedeu Mandume seu sobrinho, verdadeiro terror para as forças portuguesas, símbolo do orgulho agressividade e poder cuanhama. Quando a guerra se espalhou pelo territorio apenas os funantes mantinham suas incursões perigosas, e o Fraga era um deles, até ganhou respeito do temido Mandume. E quando da guerra pela ocupação do Cuanhama os serviços de Fraga foram requisitados pelo General Roçadas que lhe pediu para disfarçado de comerciante, espiar Mandume e seus homens. Lá foi  montado no seu cavalo Sultão tendo o guerreiro o recebido a titulo de excepção já que na altura em que estavam proibidos os funantes. Alertado Mandume pelo Secretário que via no Fraga um espião, inda assim recebeu-o, e reconhecendo-lhe coragem perguntou-lhe: "Conta lá o que queres saber?", ao que Fraga  respondeu estar alí para uma proposta de pacificação, enquanto Mandume fingia acreditar. Conta-se que Fraga ao se afastar,  seu cão, o Turco teria se envolvido em luta feroz com o cão de Mandume acabando por o matar, ao que Mandume  terá dito: "Esta é que vai ser, mais tarde ou mais cedo a morte do Cuanhama". Fraga  demorar-se-ia mais três dias no acampamento findos os quais regressou ao Cunene, contudo emissários de Mandume mandam-no regressar a Ongiva, tendo um deles lhe segredado para o não fazer, que o iam matar. Mas Fraga foi, e, confrontando-se com Mandume  pergunta-lhe : "Sempre quero saber se és capaz de me matar?". Mandume abraçou-o e enalteceu sua coragem dizendo ter reconhecido nele o Fraga de outros tempos. Bastante mais tarde, em 1937, Bernardino Fernandes Fraga, meio cego, vivia perto de Capelongo, (Matala, Huila) saudoso do reino do Cuanhama e de Mandume . 

 Ainda sobre o mesmo Fraga, encontrei na Net este texto  que transcrevo a seguir:
"DEZEMBRO 1911 – A situação económica e social era porém bastante melindrosa. Além da fome, foi também um ano de epidemia de varíola na região dos Ganguelas. Os Ovimbundos vêem-se, na necessidade de se sujeitarem ao "domínio do branco" e de aceitarem o trabalho que mais lhe convinha nas suas explorações agrícolas, pecuárias ou industriais, bem como aos Serviços Públicos, principalmente na abertura ou arranjo das estradas. Os reis nativos já não eram mais do que pequenos chefes, com pouca ou nenhuma autoridade sobre as populações, as quais haviam evoluído lentamente, convivendo cada vez mais com os seus então companheiros europeus, também por vezes sujeitos à exploração de alguns outros "europeus", oportunistas gananciosos, sendo assim, em muitos casos, "companheiros da desgraça", dos maus caminhos, doenças e perigos do sertão! No BAILUNDO e no BIÉ os comerciantes pararam os seus negócios da borracha que havia sofrido uma grande baixa de preço. Uma outra alternativa, a produção de álcool, atra­vessava mau período; as Convenções Internacionais haviam proibido o seu fabrico no Ultramar, além da aguardente e de qualquer outra bebida alcoólica. Nas cercanias da serra da CHELA, desde 1900, um dos grandes fabricantes de aguardente de cana sacarina, era o fazendeiro BERNARDINO FERNANDES FRAGA, cujo negócio estoirara numa acidental explosão, pela qual condenou um dos seus empregados nativos, que por sua vez também rebentou com a muita pancada dada pelo enfurecido FRAGA! Fugindo à justiça ou às represálias, desaparecera para os lados do HUMBE, disfarçado de funante e tendo mudado o seu nome para MANUEL JOAQUIM DE CARVALHO! Bem depressa conquistara a simpatia dos nativos e mesmo a amizade dos sobas que então confraternizavam com os missionários e agentes alemães do Sudoeste e com os quais o anterior soba, NANDE, negociarão seu próprio território (1910)! FRAGA, ou por outra, CARVA­LHO, era sempre recebido com honrarias pelo sobrinho e substituto, o jovem soba, MANDUME.» in www.camacupa.com


Bernardino Fernandes Fraga esteve também representado em meio aos antigos colonos da Huíla rodeando a sua bandeira branca, qual troféu valioso que ostenta com orgulho. E  em 1938, quando da visita do Presidente da República Óscar Fragoso Carmona a Moçâmedes, vamos encontrá-lo em meio a esses velhinhos que ali se fixaram e de que nasceram outras gerações. Vejamos o que sobre Fraga vem referido no Boletim da Agência Geral das Colonias , XIV vol 16,  dedicado à visita do Presidente Carmona a Moçâmedes, em 8 de Agosto de 1938: 

"Além, na ponte, formava a tropa. Indígenas dançam. Vêem-se pretos do N’giva, da Namacunda, compondo um soberbo friso de bárbara beleza, quarenta cavaleiros cuanhamas, para os quais foi preparada uma aldeia. Os demais negros, agitam bandeirolas das cores nacionais. Quanto aos brancos que acudiam a receber o Chefe de Estado, formavam considerável multidão. Além da gente de Moçâmedes, viera povo do Lubango, e doutras partes. Estavam, por isso, cheias e apresentavam um rumoso e animado aspecto as ruas, todas embandeiradas e engalanadas de arcos e plintos com os escudos como os de Môngua  Naulila. Há expectadores até nos telhados, sôbre «marquises». Uma nota comevedora, - aponta um jornalista, é dada pelos antigos colonos da Huíla rodeando a sua bandeira branca que êles amam como um troféu valioso e que ostentam com orgulho. E no meio desses velhinhos, que são um grupo encantador de gente rústica e boa, gente da terra e que para a terra vive, que aqui se fixaram e de que nasceram outras gerações, há dois que, modestamente, como envergonhados ainda de terem sido heróis, ostentam no peito o colar da Torre de Espada do Valor, Lealdade e Mérito.  São Wellen Venter e Bernardino Fernandes Fraga, ambos portugueses, a quem a Pátria deve serviços inestimáveis nas campanhas do Sul de Angola."

 "Quanto aos brancos que acudiam a receber o Chefe de Estado, formavam considerável multidão. Além da gente de Moçâmedes, viera povo do Lubango, e doutras partes. Estavam, por isso, cheias e apresentavam um rumoso e animado aspecto as ruas, todas embandeiradas e engalanadas de arcos e plintos com os escudos como os de Môngua  Naulila. Há expectadores até nos telhados, sôbre «marquises». Uma nota comevedora, - aponta um jornalista, é dada pelos antigos colonos da Huíla rodeando a sua bandeira branca que êles amam como um troféu valioso e que ostentam com orgulho. E no meio desses velhinhos, que são um grupo encantador de gente rústica e boa, gente da terra e que para a terra vive, que aqui se fixaram e de que nasceram outras gerações, há dois que, modestamente, como envergonhados ainda de terem sido heróis, ostentam no peito o colar da Torre de Espada do Valor, Lealdade e Mérito.  São Wellen Venter e Bernardino Fernandes Fraga, ambos portugueses e a quem a Pátria deve serviços inestimáveis nas campanhas do Sul de Angola. Das janelas e varandas, pendem vistosas colgaturas."


Alguma bibliografia sobre Bernardino Ferndes Fraga:

- Boletim da Agência Geral das Colonias , XIV vol 16,  dedicado à visita do Presidente Carmona a Moçâmedes, em 8 de Agosto de 1938

-"Outras terras, outras gentes" de Henrique Galvão  

- Colecção pelo Império, "Sertanejos de Angola"Edição 98




Pesquisa e texto de MariaNJardim

domingo, 29 de janeiro de 2012

A acção missionária da Congregação de S. Joseph de Cluny instalada em Mossamedes ( Moçâmedes, Namibe, Angola) em 1885



Créditos: Postais de DelCampe


Em Janeiro de 1883, aportaram a Landana, as primeiras religiosas das irmãs da Congregação das Irmãs de S. José de Cluny. Foi o princípio de uma presença continuada de 125 anos de uma Congregação, iniciada em França, mais propriamente em 11 de Novembro de 1789, na esteira da vitória dos republicanos e jacobinos na revolução francesa.

A história da fundação desta Ordem, tem origem precisamente num episódio, relacionado com uma pretensa perseguição a membros do clero por parte dos republicanos franceses, o que leva a que a bretã Ana Maria Javouey, tenha feito voto para se dedicar ao missionarismo, tendo sido a sua primeira Madre Superiora.

Segundo o professor Martins dos Santos no seu excelente trabalho “Cultura, Educação e Ensino em Angola” diz a páginas tantas “No dia 15 de Maio de 1885, embarcaram em Lisboa, com destino a Angola, a bordo do vapor África, três religiosas de S. José de Cluny, que nos aparecem no documentos da época sob a designação de Irmãs Educadoras, por se dedicarem especialmente à obra educativa e às actividades escolares. Destinavam-se às colónias do planalto sul. O governador do distrito de Moçâmedes, Sebastião Nunes da Mata, empregou toda a sua influência para as reter na cidade, demovendo-as de se transferirem para o interior. Conseguiu os seus intentos e as religiosas estabeleceram-se ali, abrindo pouco depois a sua primeira escola. Segundo certas indicações que conseguimos obter, foi no dia 8 de Julho desse ano de 1885 que se fixaram em Moçâmedes. Foi a primeira povoação angolana a aproveitar-se da meritória acção das Irmãs Educadoras, se exceptuarmos a missão de Lândana, onde se estabeleceram em 1883, portanto dois anos mais cedo.”

Ainda se podia ler mais: “ No decorrer de 1897, chegaram a Angola algumas religiosas de S. José de Cluny, que se destinavam a Moçâmedes. O governador-geral António Duarte Ramada Curto, com o apoio de outros elementos de influência na cidade, instou com elas para se fixarem em Luanda. Desejava que abrissem uma escola, o que efectivamente fizeram; começou a funcionar no dia 1 de Dezembro desse ano, na Rua da Misericórdia.”


“Ainda a propósito dos referidos exames, o governador-geral Ramada Curto louvou, por portaria de 16 de Maio de 1900, as Irmãs Educadoras, nos termos seguintes: "Tendo eu confiado, em Dezembro de 1897, às Irmãs Educadoras, da Congregação de S. José de Cluny, a regência da cadeira de ensino primário, do sexo feminino, da cidade de Luanda, fechada por falta de alunas, e tendo presenciado o aumento sempre crescente do número de crianças matriculadas, vistas as informações prestadas com respeito à competência das professoras e aproveitamento das alunas, hei por conveniente louvar as Irmãs Educadoras, da referida congregação, que têm regido a escola, e em especial a superiora, Ir. Antónia Maria George, pelo zelo, competência e inteligência que têm demonstrado na regência da escola que lhes confiei". As Irmãs Educadoras agrupavam os seus alunos em cinco classes, conforme o seu adiantamento escolar. Por curiosidade, inserimos aqui o esquema do estudo ministrado: —Leitura, escrita e rudimentos de doutrina cristã; —Prática de ler, escrever e contar, e doutrina cristã; —Ler, escrever e contar, doutrina cristã e trabalhos manuais; —Gramática portuguesa, tabuada, aritmética, doutrina cristã e trabalhos manuais.”
Esta foi de uma forma sintética a relação das “madres” com a educação em Angola até à assinatura da Concordata de 10 de Julho de 1940, entre Portugal e a Santa Sé, onde se anexava o Acordo Missionário, que deu à Igreja Católica todas as facilidades e mordomias várias no ensino nas colónias, em detrimento de muitas outras confissões religiosas que ao tempo já trabalhavam na colónia, com algum empenho, tendo algumas sido perseguidas e os seus pastores e missionários presos ou expulsos dos territórios.

No fim dos anos 40, tendo em conta a exiguidade das instalações na Misericórdia, e com grande empenhamento do Monsenhor Alves da Cunha (aproveito para lembrar que parte das letras da peanha da sua estátua caíram, pelo que não seria mau que fossem lá colocadas de novo), foi-lhes dado um terreno na Rua do Kafako, que é nem mais nem menos que o nome muito antigo da rua que desemboca na Rua da Missão.

Ali se construiu um edifício de gosto revivalista-classizante, exemplar de “Arquitectura do Estado Novo”, vulgarmente conhecida pelo gosto “Português Suave”, que dada a sua volumetria, os seus portais, arcadas, frontões, torreões e pináculos é um edifício marcadamente matizado na paisagem urbana.

Desde 1953 até 1975, no colégio de S. José de Cluny em Luanda leccionou-se a raparigas desde a instrução primária até ao 5º ano do liceu, como era costume dizer-se ao tempo, em regime de externato, havendo também algumas alunas internas.

Esse edifício, que foi a seguir à Independência do País o Instituto Pré-Universitário de Luanda, foi entregue à Igreja Católica, aquando dos acordos entre o governo e o Papa Woityla, na sua passagem por Luanda no início dos anos 90.

Desse acordo, surgiu a possibilidade da instalação da Universidade Católica no edifício que sofreu para o efeito inúmeras obras de reparação e beneficiação.

No Huambo também foi criado no fim dos anos 50 um colégio com as características do de Luanda, também orientado pelas” irmãs de Cluny”, que para além destes colégios mais emblemáticos, tinham outros espalhados pelo território de Angola, como por exemplo em Cabinda, Namibe e Malange.
Muitas alunas passaram pelos colégios e internatos da “Congregação das Irmãs de S. José de Cluny”, o que não deixa de ser relevante em trabalhos futuros que se façam sobre o ensino em Angola, pois a sua presença durante 125 anos, perpetuou uma obra que merece cuidado respeito.

Fernando Pereira
7/05/07
Do site Recordações da Casa Amarela

sábado, 28 de janeiro de 2012

"Voz de Angola em Tempo de Ultimato" de Aida Freudenthal:




Como ninguém minimamente informado da História de Angola ignora, foi significativo o grupo de pressão constituído por colonos agricultores, comerciantes e pequenos empresários industriais de Luanda, Benguela e Moçâmedes, no último quartel do século XIX, ao exprimirem a sua opinião sobre as questões económicas e políticas que os afetavam, nessa fase crítica do crescimento económico da colónia. Em relação a este assunto, passarei a transcrever parte de um texto  intitulado " Voz de Angola em Tempo de Ultimato" de  Aida Freudenthal:

(...)
 
2.4. A fronteira sul

Desde a década de 50 as autoridades coloniais portuguesas vigiavam atentamente as terras do sul, alertadas pelas incursões freqüentes de caçadores e comerciantes europeus no Cunene. No contexto da corrida imperialista ao Continente africano, o receio, mais ou menos fundamentado, do avanço de estrangeiros em regiões limítrofes do território já ocupado, ainda que precariamente, pelos portugueses, manifestava-se com muita freqüência nos relatórios coloniais, referindo particularmente à fronteira sul.
Serpa Pinto afirmava, em 1878, que
[...] os ingleses protegidos pelo Governo do Cabo, estão já estabelecidos a sete dias de viagem [de Caconda], além do Cunene, no Cuanhama, e têm morto o comércio deste ponto porque apresentam ali as fazendas por metade do preço por que se obtêm em Benguela, monopolizando o comércio do marfim e das penas de avestruz e deixando apenas aos negociantes daqui o da cera e gados cuja permutação se faz só com escravos e é isso o que dá lugar a que Caconda seja uma verdadeira feira de escravatura. (Relatório de 18/1/1878, AHU Angola. CG:48)
Além destas inestimáveis informações sobre as bases da permuta entre africanos e europeus, a par da persistência do tráfico interno de escravos, o explorador registrava a presença de ingleses estabelecidos entre o Cunene e o Cubango, área que era visitada há muito por sertanejos portugueses.

Porém, nem só os ingleses preocupavam Luanda. Na década de 1880, quando despertam os interesses coloniais germânicos, a vigilância das autoridades incidia também sobre possíveis pretensões da Alemanha em ampliar a sua esfera de influência ao norte do Cunene, nos territórios situados ao norte da catarata de Ruacaná. Segundo Wheeler e Pélissier (1978: 71,74), tinha fundamento esta preocupação, uma vez que as atividades alemãs envolviam, sem dúvida, um vasto plano conspiratório para o oportuno controle da colônia, que implicava exploradores, agentes e homens de negócio, soldados e caçadores, assim como missionários protestantes. Assinado, em 1886, o acordo luso-alemão, ficou delimitada a fronteira com o sudoeste alemão, sem que, todavia, fossem eliminadas de vez as tensões que renasceriam no início do século XX.
Em parte para intensificar a vigilância na região, o poder colonial procurou reforçar a fixação de colonos, tendo-se registrado, na segunda metade do século XIX, vários fluxos migratórios no litoral de Moçâmedes, bem como no planalto da Huíla. Na maior parte dos casos, porém, o saldo foi o insucesso econômico dos empreendimentos agrícolas e o abandono das tarefas produtivas, em busca de outras ocupações. Para esse insucesso contribuíra a conjugação de fatores como a falta de qualificação específica e a falta de capital, entre outros.

Na ausência de uma política de colonização coerente, limitara-se o governo de Luanda a receber colonos portugueses, alemães e bôers (AHU, Angola, 2ªS. 1ªR., p. 15, Ofício de 21/8/1891.), manifestando a Lisboa as dificuldades existentes em custear a deslocação, o alojamento e a subsistência nos primeiros meses (ibidem). Entendia o governo que o sucesso da colonização dependia mais do número e menos da qualidade dos colonos europeus, incluindo, por isto, grandes contingentes de degredados. Apesar dos planos retomados pela administração, o peso da população portuguesa manteve-se diminuto durante as três primeiras décadas do século XX.11

Quanto à imigração estrangeira, principalmente bôer, a administração colonial decidira acolher, no início da década de 1880, uma primeira colônia proveniente do Transvaal. Uma vez obtida a autorização, fixou-se, em 1881, em Humpata, a colônia de São Januário, que em 1890 foi ampliada por novo contingente de recém-chegados, atingindo o total de cerca de 350 homens, mulheres e crianças. Em breve se revelaram novas fontes de conflitos, provenientes da ocupação de terras pertencentes às populações pastoris locais, e ainda devido à colaboração dos bôers enquanto auxiliares das campanhas punitivas e de ocupação contra o "gentio rebelde", como ocorreu no Humbe (Bender, 1980:117-18; 148-49).

Quando a colônia bôer requereu, em 1890 (O Mercantil, 686, 28/9/1882 apud AHU Angola, 2ªS.1ªR. p.10, Ofício de 19/9/1890), subsídios e um código especial para regular autonomamente a vida interna da comunidade, a reação oficial foi claramente desfavorável, a par de manifestas atitudes de xenofobia (AHU Angola, 2a.S. 2a.R. p.14, Ofício de 24/8/1890), pela ameaça eventual que daí pudesse resultar para o domínio português. Estavam criadas as condições para a retirada próxima dos bôers do Sul de Angola.

3. Angola, a Quem Pertence?

3.1. Colonização portuguesa – pró ou contra?


Alguns anos antes do episódio do Ultimato, processava-se na colônia um debate entre grupos sociais bem distintos, acerca das virtudes/malefícios da colonização portuguesa. Consoante aos interesses individuais, de grupo, de classe, de etnia, eles mesmos variáveis segundo o momento histórico, assim os habitantes africanos e europeus de Angola se posicionaram na década de 1880 perante o poder colonial. Opiniões mais ou menos generalizadas, que uma prática secular de convivência ora pacífica, ora conflituosa, ajudara a sedimentar, assumiram por vezes o caráter de bandeira à volta da qual se congregavam forças econômicas e grupos de pressão. Dentro do núcleo colonial, a profunda diferenciação social transparecia no confronto, ora entre grupos raciais, ora entre interesses regionais ou setoriais.

Em função da heterogeneidade social e racial, obtinha-se níveis de resposta diferenciados entre os habitantes, face à atuação das autoridades coloniais. Em um outro âmbito, as sociedades periféricas que tinham conseguido preservar, até então, uma relativa independência, ainda que não isenta de restrições e interferências exteriores, estabeleciam relações multiformes com o núcleo colonial, originando conflitos que importa assinalar. Vivia-se, então, no limiar de uma nova fase de expansão do domínio colonial, cujo processo iria obviamente colidir com uma realidade africana sujeita às próprias determinações internas, daí resultando formas extremadas de confronto e violência.
 
Analisemos, portanto, o posicionamento de vários grupos sociais face à colonização portuguesa na década de 1880.


3.2. Os colonos

Em primeiro lugar consideremos um significativo grupo de pressão constituído por colonos agricultores, comerciantes e pequenos empresários industriais de Luanda, Benguela e Moçâmedes, e o modo como exprimiam a sua opinião sobre as questões econômicas e políticas que mais os afetavam, em uma fase muito crítica do seu crescimento econômico.

Destinada a suprir as limitações da navegação a vapor no Cuanza, bem como a carência de carregadores freqüentemente denunciada por agricultores e comerciantes no percurso entre Luanda e Malange, os comerciantes reclamavam, há muito, a construção de uma via férrea entre Luanda e Ambaca. Procedia-se, em meados da década de 1880, à construção do primeiro trecho, esperando-se, deste modo, o aumento do volume de mercadorias permutadas na região, entre o litoral e o interior. É que, simultaneamente, uma leva de colonos vinha se instalando nas áreas produtivas de cana e de café, associando a exploração agro-industrial ao comércio.

No Sul os problemas econômicos eram mais graves e tinham, aparentemente, solução mais difícil. Utilizando a imprensa, especialmente no distrito de Moçâmedes, os colonos mobilizaram fortes campanhas no sentido de influenciar decisões governamentais favoráveis ao desenvolvimento econômico, em particular a instalação da ferrovia, o apoio à agricultura, aos colonos e ao escoamento da sua produção.12

Protestando contra a morosidade das decisões, os colonos de Moçâmedes reclamavam que "sem estradas e sem bois de carro para conduzir os produtos ao litoral, não há agricultura que vingue, nem indústria que prospere" (AHU Angola CG p.48, Ofício de 15/5/1878).13

Em uma argumentação mais global, era ainda requerida a urgente construção da ferrovia, em nome do próprio sucesso da colonização: transportar os colonos do litoral para o planalto; promover as explorações mineira e pecuária; escoar os produtos agrícolas e do comércio sertanejo; e efetuar a ocupação militar, constituíam ações das quais o transporte ferroviário parecia indissociável (AHU Angola, 2ªS.2ªR. p.14, Ofício de 4/9/1890; Jornal de Mossâmedes, nº 164, 4/8/1891).

Após o Ultimato, ao longo do ano de 1890, alguns destes argumentos foram reforçados, principalmente por razões de estratégia político-militar, invocando Luanda, por essa razão, a necessidade de proteger a fronteira meridional; defendiam, então, os colonos, a aceleração dos transportes para pacificar "eficaz, segura e menos dispendiosamente e assegurar a ordem e a tranqüilidade nesta região" (Almeida d'Eça apud Jornal de Mossâmedes, nº 164, 4/8/1891).14

Marcados pela dura experiência de uma colonização carente de apoios governamentais efetivos, e às voltas com os freqüentes levantes da população africana, que pretendiam sujeitar, espoliar e explorar abusivamente, como mão-de-obra, os colonos de Moçâmedes, interrogavam-se acerca da capacidade que os governos não revelavam no sentido de promover uma "boa colonização".15

Os seus protestos, dirigidos anteriormente contra as disposições emancipadoras da mão-de-obra escrava, voltaram-se, nos anos 1880, contra os processos de recrutamento instituídos, marcados, aliás, por acentuada ambigüidade, a fim de permitir a perpetuação de práticas escravagistas. Além disso, eram enormes as resistências contra a alteração nas formas de tratamento dessa mesma mão-de-obra, ecoando na imprensa a controvérsia sobre os castigos corporais (varadas) e o serviço forçado (cf., p. ex., Jornal de Loanda, nºs 85 e 87, 8 e 24/12/1880), assim como os protestos contra o agravamento dos custos da mão-de-obra.

Preocupava a eles, além do mais, a precariedade do poder colonial, incapaz de conter as freqüentes revoltas, responsáveis pela perturbação do cotidiano das empresas locais (Jornal de Mossâmedes, nºs 155, 17/5/1890; 158, 1/7/1890; 163, 20/9/1890). No seu entender, a incúria e a ignorância colonizadora dos governos só interessaria aos estrangeiros que, no momento oportuno, se apoderariam de Angola, dando "mandado de despejo" a Portugal na sua qualidade de potência colonizadora (idem, nº 154, 1/5/1890; nº 163, 20/9/1890).

No quadro concorrencial que a atividade dos estrangeiros representava junto às fronteiras, os colonos alertavam as autoridades para as pretensões dos alemães e ingleses, no sentido de responder a eles com o desenvolvimento interno da colônia, uma vez que os "direitos históricos" não bastavam, de modo algum, para assegurar o domínio português.

Com efeito, alguns colonos entendiam que a Alemanha constituía, a médio prazo, um concorrente temível, na medida em que podia criar "sérios embaraços à autonomia colonial" (idem, nº 154, 1/5/1890). Aliás, a aproximação que Portugal promoveu em relação à Alemanha para contrabalançar o predomínio da Inglaterra era vista, na colônia, com reservas e forte apreensão. "Parece à primeira vista que a Alemanha, com a sua expansão em África, indiretamente nos desafrontará do brutal proceder da Inglaterra [...]", observava um articulista, acrescentando com lucidez que "à Alemanha será fácil provar a incapacidade de Portugal como colonizador em face do estiolamento das suas possessões" (idem, nº 159, 15/7/1890), podendo vir a aproveitar-se da vizinhança para se imiscuir na economia de Angola.

Na perspectiva de alguns colonos mais críticos, importava corrigir a má administração, a letargia do governo, o esbanjamento de fundos, a ingerência abusiva do Estado em todos os setores da vida da colônia, ao mesmo tempo em que devia ser assegurada a exploração dos recursos naturais pelos elementos mais dinâmicos da população. "Parar agora seria morrer [...]" (idem, nº 156, 1/6/1890), pelo que preconizavam a maximização das potencialidades econômicas, em especial no Sul, intensificando a pesquisa de recursos, garantindo a manutenção da ordem, praticando uma administração descentralizada a par de uma colonização agrícola em bases sólidas, apoiada na afluência de capitais (idem, nº 155, 17/5/1890).

Como se vê, não eram, efetivamente, os fundamentos da colonização que eram questionados por este grupo, nem sequer a legitimidade dos processos utilizados. Afinal, estava em questão apenas a eficácia do sistema, do qual os colonos esperavam obter maior retribuição.
(...) 


TEXTO INTEGRAL AQUI 


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Moçâmedes, 1840-1907 Contribuição para o estudo ad História urbana de Angola, vol l



Universidade de Lisboa- Faculdade de Letras

Dissertação de Mestrado em História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa by Rosa Margarida dos Santos Almeida de Sousa. Lisboa 2002
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sábado, 7 de janeiro de 2012

Frank Newton: viagens de exploração ao distrito de Mossamedes (Mocamedes, Namibe, Angola)



 Pelo interesse que possa eventualmente vir a ter, trancreve-se passagem de um ensaio encontrado na Net e subordinado ao titulo: A ciência como arma de guerra



"...O uso da argótica tem a vantagem da duplicidade: oculta a verdade a estranhos e ao mesmo tempo revela-a aos confrades. Uma vez que revela a verdade (através da geografia imaginária, da nomenclatura errada, etc..), a questão ética fica salvaguardada. Carlos Almaça, actual director da secção zoológica do Museu Nacional de História Natural (Museu Bocage), tem acesso fácil a um útil arquivo histórico, o da instituição que gere, pelo que há a louvar a divulgação que dele tem feito, ao contrário dos naturalistas da casa que o precederam. Entre os raros a declararem ter recorrido a esse fundo manuscrito foram Albert Girard e Bettencourt Ferreira, para arquitectarem a biografia de F. Newton. Infelizmente, esses documentos - diários, cartas geográficas e fotografias - ficaram para sempre desconhecidos, quiçá mesmo dos utilizadores, pela razão simples de que a biografia de F. Newton é uma fábula colectiva, ou, se preferirmos, um conjunto de enunciações no modo da linguagem das aves, esse discurso alquimista que cria geografias, exploradores e espécies imaginários para advertir que na realidade há experiências em curso, e que é preciso proteger as novas espécies com o segredo, até plantas e animais fixarem os caracteres e constituirem populações. Ora indivíduos nestas circunstâncias podem ser usados de forma subversiva.
Ao longo da sua existência, o Museu Nacional de História Natural tem desempenhado acção
política de grande relevo, tal como acontece com instituições similares estrangeiras, incluídas as
espanholas. Desenvolveu um metódico plano de subversão de Estado, o que só demonstra o poder
do discurso da razão quando enunciado no modo da Arte. O documento mais impressionante para demonstrar a acção subversiva não é um manuscrito, sim um catálogo publicado nos Arquivos do Museu Bocage [Jorge]. Enumera as espécies exibidas na Sala do Museu Bocage, integrada na Exposição do Mundo Português - Lisboa, 1940. Esta exposição, o maior espectáculo de massa ocorrido em Portugal antes da Expo-98, é um episódio de autoglorificação do ministério fascizante de Salazar. Tinha como objectivo mostrar as riquezas naturais da metrópole e ultramar, exaltar os nossos homens ilustres, elogiar o nosso papel civilizador como Império Colonial Português. Em suma, um acontecimento de carácter colonialista e nacionalista.

O mais notável na Sala do Museu Bocage não é o que foi exibido, sim o que não foi. O público
não pôde apreciar a Hyalonema lusitanica, uma esponja de profundidade vulgar na foz do Sado, em
Setúbal, embora ainda não tenha sido demonstrada a existência de uma população; nem o Macroscincuscoctei e Tarentola gigas, répteis exclusivos de Cabo Verde, que demonstram aspectos fundamentais da biologia em espaço insular, como o gigantismo e o melanismo; não foi exibida nenhuma das duzentas e cinquenta espécies descritas por Bocage e nenhuma de Baltasar Osório. Para
máximo espanto, não foi mostrado um único exemplar de Chioglossidae, família de salamandras
endémica de Portugal e Espanha, incluídos os quioglossos de Ávila e do Alentejo, mais conhecidos
por Ghioglossa lusitánica (Guedes & Peiriço, 1998).Não foi exibida uma só espécie característica do espaço português ou representativa do papel civilizador de Portugal no mundo, pelo contrário. Em vez de nacionalista, a Sala do Museu Bocage apresentou-se o mais internacional possível, só exibindo espécies cosmopolitas, algumas de distribuição transcontinental, e todas elas descritas por estrangeiros. Para acentuar o anti-colonialismo, foram apresentadas numerosas espécies brasileiras, porque, à data, entre as antigas colónias portuguesas, só o Brasil era um país independente. Outro manifesto anti-colonialista, e que podemos até considerar atentado directo contra Salazar, foi o facto de a avifauna de Cabo Verde estar representada por quatro espécies que nenhum catálogo ornitológico menciona para o arquipélago: Mettalococcyx smaragdineus, Halcyon cemicaerulea, Halcyon dryas e Corvus umbrinus. Como foi possível tanta audácia? Havia retaguarda militar a suportar a declaração de guerra científica.

Em Portugal, a maior parte das revoluções deve-se aos militares. Quem convidara Artur
Ricardo Jorge, então director do Museu Bocage, a participar na Exposição do Mundo Português,
tinha sido um capitão, que anos mais tarde viria a celebrizar-se com a Operação Dulcineia, classificada por Salazar como acto terrorista. Esse militar, Henrique Galvão, era um naturalista, profundo conhecedor de África, acerca de cuja História Natural e antropologia deixou vários livros. Consistiu a Operação Dulcineia no rapto do paquete Santa Maria, que a bordo levava perto de mil ocupantes. O célebre acto de terrorismo foi empreendido com apenas meia dúzia de agentes subversivos, e iniciou-se em área de influência espanhola, a Venezuela. É falsa a asserção vulgar segundo a qual Portugal e Espanha estiveram sempre de costas voltadas, tal como é falso o provérbio português de que De Espanha, nem bom vento nem bom casamento.

Posto isto, é natural que a primeira biografia do juvenil Francisco Newton se enuncie na melhor
tradição científica de guerra. Cito literalmente Júlio Henriques:

«O Sr. Frank Newton visitou algumas colonias portuguezas da costa occidental da Africa e ahi
colheu plantas. Começou os seus trabalhos de exploração em 1880, principiando em Mossamedes, seguindo para o Giraul, visitando em julho a região da Wellwitschia e as margens do Rio Coróca. Em agosto, seguindo para o interior, passou por Giraul, Pedra Grande, Monhino, Capangombe. N’este mesmo anno herborisou no Bumbo, subiu á Serra de Chella, foi á Huilla, ao arraial de Cayonda, às povoações de Maconjo, Tampa e aos terrenos calcareos de Quitibe e Pomangala. De Mossamedes seguiu por mar para Porto Alexandre, e d’ahi foi de novo em janeiro de 1882 ao Coróca. Em abril partiu para Humpata e foi na companhia do padre Duparqeut até ao Humbe, seguindo por Chimpumpunhime, Hai, Gambuc, visitando os morros do Tongo-Tongo, de ferro
magnetico, e Xicussi na margem do Caculo-Bale. Do Humbe seguiu com uma expedição dirigida por Erikno para caçar elephantes e avestruzes ás margens do Cunene até Camba, Mullondo e Quipundo, indo então ao paiz dos Otchiaviguas, d’onde se dirigiu para as cataratas do Cunene, voltando em agosto a Mossamedes. Em setembro voltou ao Humbe e atravessando o Cunene chegou até Donga. Em outubro, atravessando de novo o Cunene, encontrou-se com Lord Mayo, em cuja companhia foi até Mossamedes. Em 1883, não chegando a bom caminho uma expedição belga á qual se tinha aggregado, apenas colligiu plantas em Giraul, Monhino e Biballa. Vê-se que não foi pequena a area explorada, e que a collecção formada deve offerecer interesse consideravel. O catalogo das plantas colhidas será publicado ao passo que forem sendo estudadas. Na parte que hoje é publicada são já mencionadas algumas especies novas».

«Frank», «Wellwitschia», «Erikno», «Duparquet», etc., são casos de cabala fonética, cujo objectivo é fácil de compreender, se declarar que é falsa da primeira à última linha esta nota biográfica de Francisco Newton. E contudo ela é verdadeira da primeira à última linha, se ignorarmos o biografado.

Júlio Henriques redigiu um retrato-robot do explorador em geral, aproveitando fragmentos
de biografias de outros exploradores, portugueses e estrangeiros: do filho de Andersson,
que acompanhou Erikson e o botânico Duparquet desde a Damaralândia à Huíla (Viagens pela
Cimbebásia); de Padre Antunes, discípulo do Reverendo Duparquet, que fundou com este a Missão
da Huíla; de Capelo e Ivens (De Angola à Contracosta) e Serpa Pinto (Como Eu Atravessei a África),
de Van de Velde e Stanley (The Congo and the Founding of its Free State), de Lord Mayo (De
Rebus Africanis), etc.

Os naturalistas disparam rochas, animais e plantas uns contra os outros. Arma usada também
foi a Certhilauda duponti var. lusitanica, de que fala Baltasar Osório na sua tese doutoral, para
confirmar a teoria de que animais transportados para longe do seu habitat sofrem modificações
suficientes para poderem ser descritos como novas espécies ou raças. Tudo isto é linear, excepto
que em Portugal não existe nenhuma população de Certhilauda duponti. Foram coligidos três
únicos exemplares na Quinta do Alfeite. Em Espanha, sim, existem populações dessa ave canora,
hoje chamada Chersophilus duponti, na região do vale do Ebro, Granada e Almeria.


A ciência como arma de guerra

ENSAYOS
A CIÊNCIA COMO ARMA DE GUERRA
María Estela Guedes
Associação Portuguesa de Escritores. Centro Interdisciplinar de Ciência,
Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa.
Asclepio-Vol. LII-1-2000

Para saber mais, consultar tambem AQUI

A Igreja paroquial de Mossâmedes , Moçâmedes, Namibe, Angola

A Igreja Paroquial de Santo Adrião

De arquitetura religiosa simples que nada tem a ver com o gótico que nos habituámos a ver em Igrejas europeias, a Igreja de Santo Adrião de Moçâmedes começou a ser erguida em 27 de Julho de 1849, por Instruções Provinciais, de 30 de Março de 1849, emanadas do Governador Geral Acácio Adrião da Silveira Pinto, encarregando o major Ferreira Horta de "construir um  templo de dimensões suficientes para albergar "não só todos os habitantes da colónia, como ainda os indígenas vizinhos, que viessem à povoação assistir aos actos religiosos, ou que em dias santificados nela se encontrassem". Foi pois construida num quadro predominantemente laicizante na urbanização do século XIX, em que se verificava pouco investimento público no que diz respeito ao tema religioso, por comparação com a época anterior, o que pode ser explicado pelos novos aspectos estilísticos e do gosto. Assim verifica-se a preponderância do modelo clássico, que é patente na Igreja de Santo Adrião de Moçâmedes, dos anos 1840‐1850, onde domina a habitual composição simétrica, expressa na fachada, com o frontão central, triangular ou curvo, ladeado de uma ou duas torres nada a ver com outras igrejas torreadas, em que a torre surge frequentemente em posição central, na tradição de algum gótico francês, com marcação expressiva das linhas verticais e aplicação sistemática do arco ogival.

De facto as obras começaram em 30 de Março de 1849 mas não foram continuadas. Faltava o homem que tudo impulsionava. Foi Bernardino quem tomou providencias, e de tal modo que, em relatório de Fernando Leal de 31 de Dezembro de 1854, se pode lêr:

" Devem ter surgido dificuldades, pois a igreja demorou mais, muito mais de três meses, a ser concluida. Isso, porém, em nada diminuiu o papel de Bernardino na sua construção, e estamos em crer que nela terá gasto avultadas quantias do seu generoso bolso. Àcerca da Igreja, diz Bernardino em crónica de 2 de Novembro de 1849: "Bem urgente é vê-la ultimada, pois não podia deixar de escandalizar a qualquer viajante católico, que uma sociedade tão numerosa como é hoje a de Moçâmedes, não tenha uma casa de oração, onde reuna para dar graças ao Todo Poderoso e pedir os auxilios de que cada qual carece."

Sabe-se que a sua conclusão foi efectuada com base em subscrições levadas a cabo entre os moradores, numa época em termos económicos os colonos começavam a dar, também eles os primeiros passos.


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A Igreja de Santo Adrião. Os cuidados do pároco Gil Carneiro pela construção e embelezamento do templo; notas biográficas

 

A velha Igreja de Santo Adrião começou a construir-se há um século, com o lançamento solene da primeira pedra, em 27 de Julho de 1849, antes, portanto, da chegada a Moçâmedes da primeira colonia, era, ainda no no distanciado ciclo que  que memoramos "um templo bem acabado, sólido, bonito" como o representava o secretário-geral Pinto de Balsemão, no seu ofício de 27 de Março de 1868,  em que relata a visita que fizera à já conhecida e "afamada vila".

O templo apresentava-se então "gracioso e alegre, mercê das solícitas diligências com que o mui reverendo e digno padre Gil" como se expressava  Balsemão,  havia ordenado e dirigido a pintura das paredes interiores". 

Quem era o padre Gil?

-Um sacerdote exemplaríssimo e muito culto, que exerceu, em Moçâmedes as funções de pároco encomendado da freguesia, cumulativamente com as de professor de ensino primário. 

 Vamos delinear, com alguns outros, os traços mais salientes da sua biografia, que extraimos do volume III, ano 1895, da Revista Portugal em África, pg.1079:

 O padre Gil, de sua dignidade nome e apelidos completos, cónego João Bento Gil Carneiro, nasceu em Peso-da-Régua, concelho de Trás-os-Montes, e ordenara-se em 1865, tenso estudado Teologia no Seminário de Leiria, onde fora professor. Nomeado missionário da Diocese de Angola e Congo, por Decreto de 24 de Outubro de 1866, assumiu, pouco  depois, as funções docentese paroquiais na vila de Moçâmedes,  sempre respeitado e benquisto dos colonos. Em 1870 foi pároco em Benguela. E missionário também nos concelhos de Dombe Grande, Benguela, Quilengues e Caconda, ensinando e baptizando indígenas. Ao passr pelos territórios do soba Gola Hiambi,  baptizou-o e avassalou-o à corôa portuguesa, realizando assim uma dupla missão, religiosa e política. Em Caconda, cuja Igreja havia desaparecido, celebrou, numa saleta da residência, as solenidades do culto. Baptizou 17 indivíduos. Pouco depois seguiu para Quipembe, a 13 quilómetros de Caconda, avançando daqui para  Calugogolo e depois para Quingolo. Durante esta viagem batizou 56 pessoas. Regressando a Caconda, baptizou 121 indivíduos. Sindo para Canjueva, baptizou 262 pessoas, e voltando mais uma vez a Caconda, administrou o mesmo sacramento a 208. Em 30 de Agosto do mesmo ano de 1870, benzeu o novo cemitério, e, no dia imediato, partiu em direcção a Benguela onde chegou a 18 de Setembro, tendo baptizado mais 106 pretos na sua viagem de Caconda a Quilengues, e mais 149 nas terras deste nome. Foi cheia de canseiras e sofrimentos, com iminência de perigos, em climas depauperantes, a vida do respeitável sacerdote,  ardentemente compenetrado do virtuoso e patriótico ministério da religião e da Pátria.

Em Moçâmedes, o padre Gil foi sempre desejoso dos seus progressos e muito querido e recordado de quantos o conheceriam e apreciavam as cativantes qualidades de cultura e coração. Regressando ao Reino, foi colocado, por Decreto de 14 de Junho de 1872, numa freguesia do Patriarcado - a de Nossa Senhora de Azambuja - e, mais tarde, por Decreto de 21 de Dezembro de 1882, na de S. Sebastião da Pedreira. Por Decreto de 11 de Outubro de 1895, foi agraciado com a comenda da Conceição pelos releventes serviços que prestou como missionário e professor.  Abrilhantou a oratória sagrada tornando-se credor dos justos ecómios com que a imprensa o distinguiu. Colaborou, igualmente, com fulgurância em alguns dos melhores jornais do país. Faleceu em Lisboa, a 5 de Dezembro de 1907.

 

Tendo-nos referido, no presente trecho deste capítulo, ao edifício actual da Igreja Matriz, parece-nos acertado descrever o concebido projecto da nova igreja a construir, em local indicado, no plano de urbanização da cidade, que já foi aprovado pelo Ministro do Ultramar, Sr. Comandante Sarmento Rodrigues.

Reproduziremos, para tal, a crónica da Agência Geral do Ultramar, distribuida pela Casa da Metrópole de Luanda e publicada no Diário de Luanda de 19 de Janeiro de 1952.

"A fachada principal do novo templo, de grande beleza arquitectónica, apresenta dois baixos-relevos com cenas da vida de S. Pedro, e  é dominada por uma cruz alta, de bronze, iluminada com tubos de neon  que projectarão um cruzeiro com 14 metros e 50.

"A nova Igreja, em cuja planta foram rigorosamente observados os preceitos litúrgicos, tem a confuguração de cruz latina. De nave única, permite, de qualquer ponto do seu interior, uma visão perfeita sobre o altar-mor, destacando-se, entre outros pormenores,  a localização do baptistério,  de forma a que o neófito não entre na Igreja antes de baptizado, e a da câmara mortuária, com entrada independente,, o que permite a normal celebração do acto do culto.

"Tanto a escultura, como a pintura a fresco, contribuem para realçar a beleza do magnífico conjunto arquitectónico, dando-lhe a dignidade e imponência próprias do elevado fim a que se destina esta nova obra. No topo de uma das naves haverá um carrilhão e um indicador das condições atmosféricas, de grande utilidade, especialmente para a população piscatória da cidade, e na torrem um relógio e um sino de grandes dimensões.

In Conspecto Imobiliaário do Distrito de Moçâmedes nos anos 1860 a 1879 por Manuel Júlio de Mendonça Torres
Boletim Geral do Ultramar . XXX - 348 e 349
PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.
Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.


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 Pelo interesse que se reveste para o assunto, passarei a transcrever o texto que segue:

 

"Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro", Fundador de Moçâmedes. Figuras e feitos de além-mar. Agência Geral do Ultramar, by Padre José Vicente (Gil Duarte). pgs 73 a 79.

 

"AS SOCIEDADES FLORESCEM QUANDO A RELIGIÃO TRIUNFA"

 

 Filhos de pais profundamente católicos, Bernardino católico se conservou até ao fim. Já aludimos a um documento em que Pedro da Fonseca, pároco encomendado de Nogueira do Cravo, dizia, em 1829, do seu paroquiano, o estudante de Leis Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro: "Tem sido (...) amigo da Igreja, assíduo observador das leis, tanto divinas como humanas..." Com que devoção Bernardino escreveu a "História Sagrada ou Resumo Histórico do Antigo Testamento", a "História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos" e a "História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias"! Tinha Bernardino o hábito de empregar algumas frases, como frases de cruzado para entusiamar a sua gente. Uma delas, já o sabemos, era esta: "Só será salvo o que preservar até ao fim!" rebuscada nos livros santos. Outra : "As sociedades florescem quando a Religião triunfa!". Ainda no Recife, preparando meticulosamente a viagem para Moçâmedes, Bernardino tomava como obrigação da colónia, logo que se estabelecesse em terras da nossa África, a "obrigação de ser o seu primeiro trabalho erigir um templo, pois que à colónia, em projecto, acompanhará um sacerdote de exemplar conduta, e é de sumo interesse estabelecê-la o mais moral possível. Além deste sacerdote talvez vão outros..." Não deve ter sido possível a Bernardino conseguir ao menos um sacerdote para acompanhar os 166 portugueses que, sob a sua orientação, deixaram o Brasil em 23 de Maio de 1849, para se fixarem nas paragens de Moçâmedes. Possível lhe não foi também impor ai, como primeiro trabalho, a construção dum templo. Antes de tudo, sem dúvida, se impunha a instalação dos colonos com garante da sua subsistência e da sua própria sobrevivência. Era isso que preocupava Bernardino. Isso o levou a fazer-se ao mar, no barco à vela "Douro", para ir a Luanda conferenciar com o Governador Geral e pedir-lhe auxilio para os seus homens. E tal era a sua preocupação de garantir providências por parte das autoridades, que empreendeu esta viagem ainda sem estarem ultimadas as descargas do Tentativa Feliz. 


Não conseguiu sacerdote para a viagem, é certo, mas, segundo supomos, tomou providências, quanto a nós ainda antes de embarcar para Lunda, no sentido de não faltar assistência religiosa aos colonos. Bernardino partiu para a capital de Angola no dia 16 de Agosto de 1849, quinze dias depois de ter chegado a Moçâmedes. Pois em 27 de Setembro seguinte era publicada uma Nota do Governo do Bispado ordenando que o pároco de Benguela fosse a Moçâmedes "administrar sacramentos de necessidade, e o matrimónio". Há quem seja de opinião que teria sido este o primeiro assunto a ser tratado Bernardino em Luanda. Seja como for, o certo é que Bernardino sempre se preocupou grandemente com os problemas espirituais dos seus homens. Queria-os a todos, como ele próprio era, cheios de fé. Quanto ao templo: é verdade que quando a colónia chegou a Moçâmedes, já estavam começadas as paredes da futura Igreja de Santo Adrião (1). Opinamos, porém, que o início da construção do templo se deve a uma como que exigência de Bernardino ao Governo, quando Bernardino estava ainda no Brasil, e se dava ao trabalho de ver e prever tudo quanto lhe ia ser necessário em Moçâmedes. Lê-se, efectivamente, nas Instruções Provinciais, de 30 de Março de 1849, que o governador-geral Acácio Adrião da Silveira Pinto, encarregara o major Ferreira Horta de construir um templo de dimensões suficientes para albergar "não só todos os habitantes da colónia, como ainda os indígenas vizinhos, que viessem à povoação assistir aos actos religiosos, ou que em dias santificados nela se encontrassem". De facto as obras começaram, mas não foram continuadas. Faltava o homem que tudo impulsionava. Foi Bernardino quem tomou providencias, e de tal modo que, em relatório de Fernando Leal de 31 de Dezembro de 1854, se pode lêr:

" As obras da igreja e da casa do pároco se acham em tal grau de adiantamento, a despeito dos poucos operários e de meios, que, com três meses mais de trabalho ficariam prontas. O que há a fazer limita-se somente a guarnecer toda a obra de cal fina, alguns ornatos de madeira na capela-mor, os dois altares laterais, e, finalmente, os balaustres para a teia e coro da igreja." Devem ter surgido dificuldades, pois a igreja demorou mais, muito mais de três meses, a ser concluida. Isso, porém, em nada diminuiu o papel de Bernardino na sua construção, e estamos em crer que nela terá gasto avultadas quantias do seu generoso bolso. Àcerca da igreja, diz Bernardino em crónica de 2 de Novembro de 1849: "Bem urgente é vê-la ultimada, pois não podia deixar de escandalizar a qualquer viajante católico, que uma sociedade tão numerosa como é hoje a de Moçâmedes, não tenha uma casa de oração, onde reuna para dar graças ao Todo Poderoso e pedir os auxilios de que cada qual carece."


A seguir transcrevemos mais um passo da crónica - aquela em que Bernardino descreve a primeira missa em Moçâmedes : 

" Entrado nesta Baía em a noite de trinta do mês passado, a Corveta Oito de Julho, com o chefe da Estação Naval, e conduzindo a seu bordo o reverendo padre Matias, de acordo com o dito chefe, dispoz o Governador deste Distrito que se celebrasse em terra o Augusto Sacrificio da Missa no primeiro do corente, em que a Igreja celebra a festividade de Todos-os-Santos. Erigiu-se com rapidez um altar portátil na Fortaleza, em uma casa que se edifica para ser o Quartel da Tropa, e que ainda lhe falta ser coberta: serviram para isso, os toldos da dita corveta, e forraram-se as paredes com bandeiras da mesma. Ficou bem decente e engraçada. Às dez horas do dia desembarcaram o Chefe da Estação e toda a Oficialidade, soldados e marinheiros, divisando-se no rosto de todos a maior satisfação, pois vinham trilhar o terreno que começaram a aplainar, porque é à Marinha Portuguesa que Moçâmedes deve o que até agora tinha. Salvou a Fortaleza e depois a Corveta: incorporou-se com a Marinha o Governador, o seu Ajudante, e o Comandante da Força, e, com a música da mesma Corveta na frente, se dirigiram à Fortaleza, para onde iam concorrendo os moradores, suas familias e colonos, todos decentemente vestidos, e com suas escravas também vestidas ao costume europeu. Como na povoação se encontrava o soba do Giraulo, também ele e mais alguns pretos foram assistir à missa, durante a qual tocou a música, havendo salva à elevação da Hóstia, e lançando-se foguetes. Esteve luzido e edificante o concurso."

Não há dúvidas, Bernardino levara para Moçâmedes este anseio: dilatar a Fé e o Império. A este anseio foi fiel até à morte. "

In "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro", Fundador de Moçâmedes. Figuras e feitos de além-mar. Agência Geral do Ultramar, by Padre José Vicente (Gil Duarte). pgs 73 a 79.