Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Angola nos séculos XVII e XVIII foi "uma província portuguesa do Brasil". (Jaime Cortesão)


"....Durante os séculos XVII e XVIII, a política portuguesa em Angola era dirigida do Brasil e as relações poticas e económicas entre os dois países eram tão estreitas, com tantas personagens e factos históricos comuns  que o historiador Jaime Cortesão não hesitou em  considerá-la "uma província portuguesa do Brasil". Mais ou menos como Benin, Togo e Nigéria, Angola também recebeu africanos e descendentes retornados do Brasil. Fixados notadamente em Moçâmedes, actual Namibe, eram sobretudo Ambundos e chegaram portanto, uma cultura própria, cristianizada, eivada de hábitos brasileiros. Tanto, que na língua dos cuanhamas o termo que os define  e bali (também lwimbali ou vimbali), que significa, literalmente, "aqueles que andam com os brancos". Inicialmente os retornados eram escravos acompanhando os seus patrões portugueses, que haviam saido de Pernambuco, em face das hostilidades nativistas, em Maio de 1849, a bordo do brigue Douro e da barca Tentativa Feliz , chegando à recém-fundada Moçãmedes em 4 de Agosto. Em Novembro do ano seguinte, mais uma leva chegava a Angola, a bordo do mesmo Douro e da barca Bracarense. Depois desses, outros chegaram vindos do Rio de Janeiro e da Bahia.

Mesmo antes da abolição da escravatura no Brasil, começaram a emigrar voluntariamente, para o sul de Angola, africanos e descendentes que, orgulhosamente, procuravam se conservar "brasileiros" não se deixando integrar de todo no ambiente cultural africano. Assim como os portugueses já abrasileirados, os retornados tornaram-se vetores de um significativo abrasileiramento de populações, paisagens e culturas.  Deste modo, a construção de casas-grandes e de senzalas, o cultivo de algodão e de cana-de-acucar, pinturas de baus, ex-votos, tabuletas comerciais, bandeiras de santos, estardantes de clubes de carnaval, e, principalmente os cemitérios afro-cristãos, constituem marcas definidoras dessa presença. Nos cemitérios, e nítida a diferença entre os túmulos dos brasileiros brancos e dos afro-brasileiros. Os primeiros são graves, solenes, neoclássicos, e os segundos ostentam esculturas rústicas, coloridas, como as encontradas no Nordeste,   em outros pontos do Brasil, tocados pelo influxo africano; contam ainda com ex-votos e vasos com oferendas, símbolos alusivos aos ofícios e profissões dos ali sepultados".
Fonte:  RIO DE JANEIRO, Imigrantes Angolanos.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

LIVRO: As colonias portuguezas no seculo XIX (1811 a 1890) Pinheiro Chagas




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As colonias portuguezas no seculo XIX (1811 a 1890).
Author: Manuel Pinheiro Chagas
Publisher: A.M. Pereira
Year: 1890


Indice para Moçâmedes: Pgs 236 a 276

Partes do Indice com interesse para a costa de Moçâmedes:

255 Lucira Pequena
256 Lucira Grande
257 Cabo Santa Marta
257 Baía das Matilhas
257 Rio Carunjamba
258 S. Nicolau
258 Morro do Chapéu Armado
258 Emseada do Chapé Armado
259 Peambo
259 Baía do Mucuio
259 Baía das Pipas
260 Rio Giraul
260 Baía de Moçâmedes
260 Ponta do Giraul
261 Ponta Redonda
261 Saco do Giraul
261 Ponta Negra
261 Fortaleza
261 Torre do Tombo
261 Ponta do Noronha
261 Ponta da Anunciação
261 Baixo Amélia
261 Praia Amélia
262 Moçâmedes
262 Bero
263 Mesas dos Cavaleiros
266 Três Irmãos
266 Cabo Negro
266 Rio dos Famingos
267 Manga das Areias
267 Porto Pinda
268 Aldeia do Coroca
269 Rio Coroca
269 Ponta Albina
269 Baía dos Tigres
272 Praias Baixas
272 Rio Cunene
272 Cabo Frio

Inclui para além de outros aspectos, observaçoes gerais sobre a costa de Moçâmedes: estações, ventos, correntes, marés, banco de sondas, calemas, nevões, etc.

 


sábado, 11 de fevereiro de 2012

Angola 1914-15 Forças Expedicionárias no Sul de Angola


 
Sul de Angola - Campamha de 1914. Augusto Casimiro "Naulila"

 



Foi em Mossâmedes (depois Moçâmedes, a actual Namibe) que em 1914 e 1915 desembarcou grande parte do efectivo militar português, cujo objectivo era enfrentar a ameaça alemã vinda do Sudeste Africano e as populações sublevadas naqueles territórios de fronteira que importava pacificar e assegurar no quadro da soberania portuguesa e do território angolano.


Do blogs "Momentos da História" retiramos as seguintes passagens...

Foi logo após a implementação da República, em 18 de Agosto de 1914, que "..o General Pereira de Eça, Ministro da Guerra, convidou o Tenente-coronel do Corpo do Estado Maior Alves Roçadas a aceitar o comando da primeira força expedicionária para Angola. O Tenente-coronel Alves Roçadas, era conhecedor da região de destino da expedição, por ter sido anteriormente governador do distrito de Huíla, no Sul de Angola. Em 20 Agosto, por intermédio do Ministério das Colónias, solicitou informações sobre os recursos existentes na província e mandou proceder a vários trabalhos de preparação de infra-estruturas militares e à mobilização de unidades indígenas e europeias locais. A missão que lhe foi confiada tinha o objectivo de assegurar a obediência do gentio local e vigiar a fronteira Sul nos pontos estratégicos mais importantes. Para tal, atribuíram-lhe uma força expedicionária composta por: 61 oficiais, 1.464 praças e 335 solípedes.

Esta força expedicionária partiu de Lisboa nos dias 10 e 11 de Setembro 1914, a bordo dos vapores "Cabo Verde" e "Moçambique" respectivamente, as quais desembarcaram a 1de Outubro 1914 em Mossâmedes no Sul de Angola.  A 22 de Outubro as forças expedicionárias encontravam-se implantadas no terreno, em Lubango no planalto de Mossâmedes, em posição para defender o Sul de Angola de uma ofensiva investida alemã que viesse da "África Alemã do Sudoeste" (Damaralândia), em direcção a Mossâmedes. Entretanto, aconteceu um incidente de fronteira, em Naulila, a 19 de Outubro, onde foram mortos três alemães, parte de uma missão, que tinha entrado na província sem autorização, e acampado na margem esquerda do Cunene, em território português.

A 30 de Outubro dá-se um ataque alemão ao posto militar de Cuangar, na margem esquerda do rio Cubango, no Sul de Angola. Foi um ataque de surpresa comandado pelo Capital de Cavalaria Lehmann com 20 praças de cavalaria com apoio de fogo de metralhadoras, 10 guardas fronteiriços europeus, um grupo de polícia indígena e um numeroso contingente de indígenas autóctones.

Ilustração Portuguesa, n.º 462, Ano 1914


 O Forte do Cuangar localizava-se a 900 Km de Mossâmedes  e  a 400 Km de Naulila, sem comunicações telegráficas. 




 Continua....

Ver texto integral AQUI 

Mossâmedes/Moçâmedes em 1914




MARCHA NO SUL JUNTO AO LITORAL
DEZEMBRO DE 1914
(um testemunho)

(...) O caminho era unicamente um areal movediço, em que os pés se enterravam, e em que se dava uma passada para a frente e meia para trás de cada vez (...)

(...) De longe a longe alguma raquítica vegetação de plantas gordas rasteiras e salgadas, de um verde-escuro sujo, e com laivos terrosos (...)


As Welwitschia - Mirabilis



(...) Se parávamos, as areias cobriam-nas aos pés até aos tornozelos em menos de um minuto, vinham-nos açoitar a cara e as orelhas como pequenas balas; entrava-nos pelos ouvidos e pelo nariz. Que penosa marcha, encetada às 4 da manhã! Que terrível situação! (...)




(...) A fila indiana, aproximando-se o mais possível da água, era ainda assim chicoteada pela areia seca e pelas respingas da água salgada das ondas, que cada vez vinham maiores quebrar-se no areal. Com o corpo deitado para trás, para resistir ao vento sem cair, a areia mesmo molhada vinha chicotear-nos a cara, as mãos, o pescoço, de tal forma que estavam quase em sangue; e assim continuamos andando sem poder parar, pois a paragem seria a morte por asfixia enterrados no areal, que seguia sempre....sempre...., levantando-se nuvens de areia que iam formar mais a norte novas dunas, que se iam sempre movendo. A andar comemos bolacha e bebemos vinho, engolindo tudo misturado com areia (...).

Texto de: Roma Machado, In: "Recordações de África".
 AQUI




 
Os recursos militares encontravam-se divididos organicamente em: Quartel General, Tropas de 1ª e 2º Linha, Depósito de Material de Guerra, Serviço de Saúde e Tribunal Militar.

As tropas de 1ª linha constituíam o núcleo de forças europeias, organizadas em: 1 Bateria Mista de Montanha e Guarnições; 2 Companhias de Infantaria Mista e Artilharia de Montanha; 1 Esquadrões de Dragões, 1 Companhias de Infantaria; e, 1 Corpo Misto de Polícia a pé e a cavalo. Existia, ainda, 2 Companhias Disciplinares uma de soldados europeus e outra de soldados indígenas, incorporados em cumprimento de sentenças.  

As tropas de 2ª linha eram constituídas por praças indígenas, comandadas por oficiais e sargentos do exército metropolitano. Estavam enquadradas em 16 Companhias de Guerra Independentes, 4 Companhias de Depósito e os Serviços de Administração Militar, de Transportes e de Intendência. Os efectivos destas companhias variavam entre 118 e 210 homens (15 a 20 graduados do exército metropolitano), dependendo das circunstâncias e por determinação do Governador Geral da Colónia8.
No entanto, logo após a implementação da República, não só por questões orçamentais do ano 1910-1911, mas também dentro do espírito de alteração da estrutura militar, muitas das unidades coloniais são suprimidas. Em 1913 uma nova portaria revoga o Decreto de 14 de Novembro de 1901 e extingue as forças de 2ª Linha. Esta decisão acabará por ter como consequência a destruição das reservas militares indígenas, tão necessárias à guerra naquelas condições ambientais9

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Mossamedes, Moçâmedes, Namibe e a sua História: Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o fundador de Moçâmedes. BIOGRAFIA

O busto de Bernardino
"Museu Etnográfico da cidade do Namibe"

No Livro " Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes" do Padre José Vicente (Gil Duarte), em ponto 2. e, " Itinerários de uma Juventude Audaciosa",  fomos encontrar os seguintes elementos biográficos referentes quer à genealogia  de Bernardino, quer ao seu percurso de vida, intelectual e político, decorrido quer em Portugal quer no Brasil, até ao momento em que , no ano de 1849, aos 40 anos de idade,  decide partir para Angola:

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, natural de Nogueira do Cravo,  era filho de Alexandre Campos de Abreu e Vasconcelos e de D. Rita de Figueiredo, neto materno de Francisco Abranches Freire de Figueiredo e de D. Josefa Maria Abreu e Castro, da Casa da Torre de Nogueira do Cravo, e neto paterno de Manuel Nunes de Campos e D. Joaquina de Campos.

Bernardino tinha mais um irmão, de nome Alexandre Freire de Figueiredo Desconhece-se o registo de nascimento de Bernardino mas conhece-se o de baptismo , pois no “Livro de  Baptizados, Recebimentos e Defuntos  da Freguezia de Nogueira do Cravo, de 1806 a 1830” guardado no Arquivo da Universidade de Coimbra, encontrámos o assento seguinte: “Em os quatorze dias do mês de Dezembro de de mil oitocentos e nove, foi baptizdo Bernardino, solenemente, filho legítimo de Alexandre Nunes e de sua mulher, D. Rita de Figueiredo, desta vila de Nogueira, neto paterno de Manuel Nunes de Campos, natural de Sobral, Bispado de Viseu,  e de D. Joaquina, desta vila, e materno de Francisco de Abranches, de vila de Avô, , e de sua mulher, A. Josefa Maria, do mesmo lugar e vila. Foram padrinhos Bernardino José e sua filha Ana Julia, do lugar de Santa Ovaia, e para constar fiz este assento. Dia, mês e era ut supra. O Prior – José Joaquim Coelho de Faria.”

Dada a índole  profundamente religiosa da família, é de crer que, segundo os costumes tradicionais, Bernardino fosse baptizado pouco tempo após o nascimento. Aceitamos pois a hipótese (muito provável)  de Bernardino ter nascido no próprio ano de 1809.

Em Nogueira do Cravo  Bernardino  terá feito os primeiros estudos, modelado o seu carácter segundo os princípios cristãos. Foi depois para Coimbra com o objectivo de se formar em Direito. No “Livro de Matrículas do Primeiro de Leis” Ano , do Arquivo da Universidade de Coimbra, referente ao ano de 1829, nele se lê a folhas 30: “Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, filho de Alexandre Nunes de Campos de Abreu, natural de Nogueira do Cravo,  comarca de Arfanil,  foi admitido à matrícula do primeiro ano jurídico em 31 de Outubro de 1829.”  Não aparece já matriculado no 2º ano. Porquê?

Sabe-se que, anos atrás em Janeiro de 1818, se fundara no Porto a Associação secreta denominada de Sinédrio par fomentar a Revolução Liberal. Pode dizer-se que era o início da discórdia entre liberais e miguelistas que atirou o país para a sangrenta guerra civil. Os acontecimentos foram-se  desenrolando. Bernardino alinhava por D. Miguel associando-se ao coro dos que clamavam:  Real!! Real!! Por El-Rei de Portugal o Sr. D. Miguel  I !

No dicionário histórico de Portugal, de Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues faz-se referência a Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro : “ Era estudante de Coimbra, quando, levado levado pelos princípios e sentimentos de sua família, se alistou nos voluntários realistas, seguindo o partido de D. Miguel, e fazendo toda a campanha às ordens dum seu próximo parente, general das armas da província.”

Deixou de ser estudante para se alistar como tenente de caçadores do exército de D. Miguel. Mas não perdeu o amor aos livros, às letras. Chegaria até a publicar várias obras, como  adiante veremos.

Em 26 de Maio de 1834 – tinha Bernardino 25 anos de idade – assinava-se a Convenção de Évora-Monte, de que D. Miguel e o seu partido saiam derrotados. O monarca via-se coagido a sair de Portugal no prazo de quinze dias, tendo de comprometer-se a nunca mais voltar, nem a interferir de qualquer forma, na vida política do país. Os seus regimentos seriam dissolvidos. D. Miguel partiu para o exílio no dia 1 de Junho.

Bernardino passou a viver em Lisboa, na clandestinidade. Na clandestinidade se publicava o jornal “Portugal Velho”, defendendo ainda os princípios do absolutismo. Bernardino fez-se jornalista, danso a esse jornal o valioso estímulo de uma colaboração assídua. Mas era impossível remar contra a maré. Em Portugal acabara a guerra mas não principiara a paz. Joaquim António de Aguiar – O Mata-Frades – então Ministro da Justiça, extingue as Ordens Religiosas, Conventos e Mosteiros, por decreto de 28 de Maio de 1834. Os partidos políticos fomentam discórdias. D. Pedro morre a 24 de Setembro desse mesmo ano. D. Maria II consegue sustar tremendas lutas políticas que se haviam de prolongar durante 19 anos. Não logram bons resultados várias tentativas miguelistas. A agricultura, o comércio, a industria, definham. Portugal vive um período difícil.

Desalentado, Bernardino resolve emigrar para o Brasil. Sai de Lisboa em 1839. Fixa-se em Pernambuco. Renuncia a toda a actividade política. Dedica-se exclusivamente ao ensino no Colégio Ternambucano, regendo as cadeiras de História, Geografia e Latim. Escreve livros de carácter didáctico, como a História Geral, em seis volumes. O Primeiro volume sobre a “História Sagrada do Antigo Testamento”; o segundo sobre a “História da Vida de Jesus Cristo” e dos Apóstolos, e História dos Judeus desde a dispersão stá aos nossos dias “; o terceiro a  “ História Antiga e Grega”; o quarto sobre a “História Romana e da Idade Média”, o quinto sobre a “História Moderna”; e o sexto sobre a “História de Portugal e do Brasil”.
Bastaria este trabalho para se aquilatar do esforço e da capacidade e da disciplina intelectual de Bernardino.  Mas o erudito professor não se ficou por aqui. Escreveu outros livros dos quais destacamos “Nossa Senhora de Guararapes – romance histórico, descritivo, moral e crítico”.  Este livro tem por fundo os encontros sangrentos entre portugueses e holande3ses, em 1648 e 1649, nos altos montes dos Guararapes, na região do Recife.

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro  impunha-se pelas suas qualidades, no Brasil. Mas o Brasil era já – ao tempo – um país independente. Bernardino sonha , cheio de saudades, com a sua pátria. Tanto mais que, em Pernambuco, as coisas iam mal desde 1817. Em 1844, na Assembleia Provincial de Pernambuco, propõe-se que “se expulsem da cidade (ou da província) todos os portugueses solteiros”- (E Bernardino era solteiro). E, 1947 arruaceiros espancam pelas ruas da cidade “quantos portugueses encontravam ou que supunham tais”. 

Mendonça Torres explica que, por esta altura, os portugueses eram conhecidos em Pernambuco pelo apodo de “marinheiros” , designação que lhes dava por injúria, zombaria e desprezo. As turbas, amotinadas, buscando-os por toda a parter, aos gritos impiedosos e ultrajantes de “Mata-marinheiros”, “não escape um só”, entravam, desenfreadas, nos estabelecimentos comerciais, arrombavam a machado em presença da autoridade, as portas das habitações; arrancavam-nos, indefesos, ao seio das famílias, feriam-nos ou matavam-nos com paancadas de chuços e golpes de facas e de baionetas: roubavam-lhes os haveres; e arrastavam-lhes pelas vias públicas os cadáveres lacerados, tintos de sangue.

Bernardino, repetimos, sonha com a sua pátria na província de Angola. E decide-se, e decide outros compatriotas a embarcarem para lá. Estava-se em Maio de 1849 – Tinha Bernardino 40 anos de idade.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Mossâmedes, Moçâmedes, Namibe e a sua História: o Palácio do Governador



 
                                          Foto da reconstrução do Palácio do Governador
  J. da Cunha Moraes, no seu "Album Photografico Descriptivo",  publicado por volta de 1888



Quem até meados do século XX entrasse na baía de Moçâmedes, fazendo-se transportar por um qualquer navio, traineira ou embarcação, de imediato se apercebia da presença deste Palácio, situado a  oeste da cidade, implantado sobre um terreno elevado ( a uns 20 metros acima do nível do mar), e dominando toda a baía, na continuidade do morro da Fortaleza de S. Fernando (morro de São Fernando, antiga Ponta Negra), que se prolonga até à Torre do Tombo. Um pouco mais a sul, perfilava-se a Igreja Paroquial de Santo Adrião, e mais adiante, completando a Avenida Felner, um conjunto de pequenas vivendas em madeira destinadas a funcionários públicos,  o velho Hospital D. Amélia, com seu corpo central  e os seus pavilhões laterais em madeira, demolido a partir na década de 1950, para dar lugar a edifícios públicos de moderna construção.

A Fernando da Costa Leal (1854-1959),  o quinto Governador de Moçâmedes, ficou a dever-se a construção deste Palácio, considerado o melhor palácio regional de todo o Ultramar português, do mesmo modo que se ficou a dever ao jovem e dinâmico Governador,  a construção dos primeiros edifícios públicos de Moçâmedes, e o primeiro plano de urbanização.

Sóbrio e imponente, de arquitectura clássica tipicamente oitocentista, o Palácio ostenta fachada dividida em três corpos, sendo o central encimado por um frontão triangular, no meio do qual se encontravam acentes as quinas portuguesas vãos de arco redondo nas fachadas, e platibanda dominando toda a frontaria,  De mencionar, na parte central da obra deste Palácio, o corpo rematado pelo frontão, a varanda nobre, saliente e de contorno curvilíneo. No seu conjunto, segue o tipo corrente  de arquitectura representativa praticada pelas Obras Públicas na segunda metade do século XIX.

Refere também Cunha Moraes, no seu "Album Photografico Descriptivo",  publicado por volta de 1888, o seguinte:

 "... o corpo central tem três janelas de sacada, com varanda em curva. A porta principal tem 1,50 m por 3 m de alto. As bandeiras das portas e janelas são semi-circulares. Em cada um dos corpos laterais há quatro janelas de varanda primeiro andar, e três de peitoril  e uma porta em cada extremo do rés do chão. Os quatro lados do edificio têm ao todo 4o janelas, sendo 11 de sacada e 29 de peito, das quais 7 deitam para projectado jardim." 

"...O telhado é dividido ao meio, no sentido da fachada, por um terraço de 2 metros de largura, feito de beton aglomerado, para o qual convergem as duas abas interiores do telhado; ao meio do terraço, interrompendo-o,  eleva-se um  mirante de 5 metros de altura, com uma superficie de 55 metros quadrados, e que há de ser gradeado em volta e ter no centro uma clara-bois envideaçada de 3.m30 de alto em forma de prisma octogonal terminando por uma pirâmide. Entrando no vestíbulo ficavam em frente três arcos com colunas, da ordem dórica, tenso o arco central 2 metros de largura por 4 de alto, e os laterais 2,m20 por 2,m40. Estes dois, que são envidraçados, e o do centro dá acesso à escada, que tem um lanço central e dois laterais,  formam na projecção uma elipse. A escada é de madeira de S. Tomé, polida e de três cores.  

"... O rés do chão e o 1º andar estão divididos em 10 compartimentos, cada um destinados a servirem para repartições públicas. 

"... Os trabalhos começaram em 1858, por ordem do Governador Fernando da Costa Leal , continuamdo mais tarde, segundo um risco de Lapa e Faro (1), risco que tem sofrido várias modificações, e depois de uma interrupção de muitos anos, recomeçaram em 1886, devendo estar concluidos em 1889. A despesa feita até hoje é calculada em 80.000$00 de reis. "

Iniciado em 1858, ainda que somente tivesse ficado concluído trinta e um anos depois, já no tempo do governo de Luís Leitão Xavier, em 1889, aponta-se como causa deste atraso a falta de de mão de obra que tinha que ser recrutada da Metrópole, bem como a falta de materiais apropriados para os acabamentos, uma vez que os existentes não satisfaziam as exigências de uma construção deste tipo. Tudo vinha de fora nesses tempos de locomoção complicada, em que a região de Moçâmedes para além de ser pouco povoada de autóctones, estes levavam à época uma vida nómada e semi-nómada, pastoreando o seu gado e não aceitavam outra ocupação que não fosse a ancestral deambulação pelo Deserto do Namibe em busca de água e de pastos.  Foi bastante mais tarde com a fixação de um maior número de portugueses na região e de outros africanos vindos das mais diversas localidades, que formaram o grupo social aportuguesado "Quimbar", que a mão de obra passou a ser um pouco mais abundante e de certo modo  mais capaz de satisfazer as necessidades locais.


Por causas que se desconhecem, este Palácio foi quase totalmente destruido por um incêndio ocorrido no dia 26 de Maio de 1899, conforme consta de um apontamento existente na Administração Civil de Moçâmedes.  Contudo, as paredes ficaram de pé e assim permaneceram expostas ao tempo por mais 20 anos, até que finalmente de 1921 a 1923, já no tempo de Norton de Matos, no exercício de Alto Comissário, da República, para a colónia de Angola (1921 a 1924).

Concluido de facto conforme indica Cunha Moraes, o Palácio de Moçâmedes teve as suas escadarias interiores , inicialmente festas em cantaria da região,  substituidas por ricas madeiras de S. Tomé , o que prova a preocupação em acabamentos que estivessem em concordância com a grandeza da obra projectada por Fernando Leal.

 J. Pereira do Nascimento no seu livro "O Distrito de Mossâmedes", editado em Lisboa, em 1892,  três anos após a conclusão da obra,  faz alusão a este Palácio como sendo a melhor das  obras das possessões portuguesas ultramarinas, dada a bela arquitectura montada com luxo e grandeza, onde ficavam implantadas as principais repartições públicas.

Até à construção do Palácio da Justiça, no topo da Avenida da República, manteve-se a situação privilegiada com que nasceu este Palácio, que possibilitava a partir das sua janelas frontais dominar  não apenas toda a baía, como toda a paisagem para da cidade, num amplo horizonte que abrangia, incluso, todo um conjunto de casas térreas do "centro histórico", de cunho tipicamente algarvio, algumas das quais já não existem, ultrapassando as  tão faladas "Hortas" de Moçâmedes. 
 




O Palácio do Governador, a Igreja matriz e as casas térreas de madeira, 
dos funcionários publicos e o Hospital, na Rua Felner em  Mossâmedes/Moçâmedes (Namibe)

Na parte traseira do Palácio existia nesta época (anos 1930/40?) um outro edifício ao qual se podia aceder através de um  corredor exterior, existindo no piso inferior uma escadaria. Por esta altura o Tribunal funcionava na parte lateral do Palácio que fica a olhar a Avenida, onde existia uma porta à qual se acediu através de um pequeno lance de degraus, como se pode ver.


O Palácio do Governador, a Igreja, as vivendas de madeiras destinadas aos funcionários e o Hospital D. Amélia. Edição de postais do Centenário, em 1949
 Aqui já haviam começado a surgir na Avenida Felner os modernos edifícios públicos, como se pode ver à dt. Verifica-se também a presença de uma escadaria exterior e de um muro. Também o Palácio apresenta-se agora com telhado elevado, o que não existia em fotos  anteriores. 








O interior do palácio de Moçâmedes

Conforme relata Cecílio Moreira no seu pequeno livro "O Palácio do Governo de Moçâmedes", 1974, durante o governo José Luis Sales Henriques de Brito (1860/68) o Palácio foi submetido a uma fase de restauro e remodelação de que resultaram melhoramentos interiores. Entre esses melhoramentos  foram efectuadas divisórias que aumentaram em número dos compartimentos, bem como beneficiações gerais nos dois pisos, mantendo no entanto a habitual grandiosidade em edificios do género.  No átrio os 3 arcos  que encimavam as colunas referidas por Cunha Moraes desapareceram para dar lugar a linhas rectas e mais desafogadas, mantendo-se no entanto os antigos oratórios metidos na parede, à direita e à esquerda do  1º lanço de escadas de acesso ao andar superior. Mantiveram-se em boas madeiras as escadas e os corrimãos, e ainda no átrio, na parede onde encosta o 1º patamar, foi feita uma enorme abertura, em seguida fechada com uma grelhagem exagonal com envidraçado interior, para dar claridade e beleza àquele espaço.  O pavimento da rua fronteira ao Palácio foi asfaltado e teve um abaixamento de correcção superior a 1 metro , dando origem a uma escada de 7 degraus em mármore de acesso à porta principal, escada que termina num patamar com piso também de mármore que se prolonga ao longo da parede, para a direita e para a esquerda, de forma a proteger as fundações da fachada principal enfraquecidas pelo abaixamento da rua.  Foram  também colocados no fim do do lanço das escadas 2 candeeiros de ferro, um de cada lado, com quatro lanternas cada, em estilo a condizer. E as portas do rés-do-chão, que estavam nos extremos do edifício, foram fechadas ao nível do peitoril, para darem lugar a janelas iguais às existentes neste piso, ficando apenas com a porta principal. Na parte posterior do Palácio foram feitas fundações até ao pavimento da cave,  que possibilitaram a construção de anexos cobertos com uma laje de cimento destinados a garagem, oficina para pequenos arranjos, arrecadações, lavandaria e dormitórios do pessoal serventuário. Foram ainda construidas na parte posterior, a meio de toda a altura do edifício, uma passagem saliente,tapada com uma escada de serviço, e 3 janelas rasgadas do rés-do-chão ao 1º andar para darem mais claridades a esta escada e à escada interior.

No projecto inicial este Palácio incluia terrenos para indispensáveis ajardinamentos, como consta da descrição de J.A. da Cunha Moraes, no entanto esses ajardinamentos só vieram a acontecer  um século mais tarde, no tempo do Governador Sales de Brito, que fez arrotear terrenos livres que ficavam a Nordeste e a Sudoeste do edifício, levantar muros que os delimitam, arborizar e ajardinar  passando a constituir os actuais jardins do Palácio. Na ala ajardinada de Nordeste já foi erviço um "pôr do sol" quando da recepção  ao Presidente da República Américo Tomás, na sua visita a Moçâmedes, em 1963.
 

 Presidente da República, Óscar Fragoso Carmona, no decurso de uma visita a Moçâmedes em 8 de Agosto de 1938. Ver AQUI

 

No Palácio de Moçâmedes, um grupo de senhoras, esposas de entidades representativas da cidade,  aguardam a recepção, em 1961, do Ministro do Ultramar, 
Professor Doutor Adriano Moreira

O  Palácio de Moçâmedes sempre esteve ligado à História da cidade, até porque foi ali que viveram os sucessivos Governadores que durante a maior parte do tempo em que decorreu a colonização  exerceram as suas funções. E  assim sendo, vale a pena deixar este subsídio para a História deste secular imóvel que poderá um dia vir a constituir a base de um trabalho mais aprofundado.



 Pesquisa e texto de
MariaNJardim


(1) Lapa e Faro foi o 1º médico de Moçâmedes que ali se radicou no inicio da colonização, tendo acompanhado o major Rudski quando iniciou o primeiro estabelecimento no Porto de Pinda, em 08.12.1854. Além de médico e articulista foi um elemento activo e preponderante na vida de Moçâmedes, a quem são devidas várias realizações.



Mossamedes, Moçâmedes, Namibe e a sua História: o edifício da Alfândega



Postal com carroça puxada por manada de bois tendo por fundo  o edifício da Alfândega ainda  em construção. à esq, e por detrás do edificio da Alfândega, na Rua dos Pescadores, a «água furtada» do edifício de  1º andar da familia Zuzarte Mendonça onde (actualmente, no rés do chão, fica o Museu Etnográfico do Namibe). Foi Hotel Gouveia 

Idêntico ao anterior

Postal  com edificio da Alfândega e Telheiro
Postal com edificio da Alfândega de Mossãmedes e Telheiro, do livro " CAÍQUES DO ALGARVE NO SUL DE ANGOLA ", de ALBERTO ÍRIA.
A ALFÂNDEGA DE MOÇÂMEDES TINHA SIDO CRIADA POR DECRETO DE 18/02/1851, MANDADO SUSPENDER EM 1854, PERANTE A CONSULTA DO CONSELHO ULTRAMARINO DE 19/O6/1953. O GOVERNO GERAL AO MESMO TEMPO QUE QUE PUBLICAVA A ORGANIZAÇÃO ADNINISTRATIVA DA PROVÍCIA, POR DECRETO DE 07/11/1856 ( MOÇÂMEDES, HUILA, BUMBO E GAMBOS ) , PELA PORTARIA DE 492, 02/03/1857, ESTABELECER A ALFÂNDEGA DE MOÇÂMEDES, CUJO PORTO FICAVA ABERTO AO COMÉRCIO DOS NAVIOS DE TODAS AS NAÇÕES...- ALFREDO DE ALBUQUERQUE FELNER

Foto preciosa: Edificio da Alfândega de Moçâmedes, vendo-se em frente os telheiros onde ficavam arrecadadas as mercadorias, e também a linha férrea por onde deslizavam as vagonetas mo seu vai-vem entre a ponte, o Piquete da Guarda Fiscal e o edificio






Moçâmedes 1865.

Conforme  Manuel Julio de Mendonça Torres na sua obra dedicada a Moçâmedes, no periodo entre 1860 e 1879 a vila já contava  com os seguintes edificios públicos:  Igreja de Santo Adrião, começada a construir em 27.07.1849 com o lançamento da 1ª pedra;  a Fortaleza de S. Fernando e a de Capangombe;  o Palácio do Governo; a Alfândega; o Hospital; o Matadouro; o Cemitério; o Obelisco a Sá da Bandeira; o Jardim da Colónia; já estava feito o traçado e os arruamentos;  a primeira ponte de caes; a estrada para Capangombe.  Este periodo correspondeu ao dos Governadores António de Castro, Fernando Leal e Joaquim Graça. Em 1868  havia as Ruas paralelas da Praia do Bonfim (onde ficavam a Alfândega e os CTT),  a Rua dos Pescadores, a Rua do Alferes,  a Rua Calheiros e a Rua BoaVista. As transversais eram as ruas dos Prazeres e de S. João, que cortavam a da Praia do Bonfim;   a Rua da Alegria e a Rua Bom Jardim que atravessavam a Rua Calheiros;  a Rua Formosa que cruzava com a Boavista;  e as Travessas de Santo António, Cancela, da Alfândega e Flores, que partia da Rua da Praia do Bonfim e terminavam na Rua Calheiros.

No traçado moderno da vila, em forma quadriculada ou tabuleiro de damas, predominava a linha recta. A maioria dos prédios eram de um só piso, vendo-se já neste período, entre 1860 e 1879, ou no principio do seguinte,  duas casas construídas de 1º andar, a de João Duarte de Almeida, e aquela onde morava e tinha escritório José Júlio Zuzarte de Mendonça, ambas na Rua da Praia do Bonfim.  Sobressaia o Palácio do Governador, cuja frontaria alta rasgava três janelas de sacada.
 As ruas encontravam-se por empedrar e ainda sem iluminação pública, o que iria acontecer no período imediato.  Começou neste período a cuidar-se da arborização das praças e ruas da vila.  Também nesta época começaram as plantações de "eucaliptos globulus"
e outras palmeiras, segundo Costa Cabral, por iniciativa de Lapa e Faro.

João Chagas, jornalista exilado em Moçâmedes, dizia na sua obra "Diário de um Condenado":
 "...Mossâmedes  não sendo uma colónia próspera , não fornecia borracha, marfim,  cera, café, produzia em comparação belas e saudáveis crianças que toleravam o sol ardente, e o interior das casas  da população branca, pintadas a cal, oca, anil, e vermelhão mantêm quadros e móveis tradicionais dos interiores das famílias portuguesas."

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 Moçâmedes em gravura de M Moraes

 


 Figura da época onde se pode ver, à esq. o edifício da Alfândega . Nesta altura a povoação começava a tomar forma, desenhando-se já com plantação de coqueiros, aquela que iria ser a futura Avenida D. Luis, que após a implantação da República em Portugal, em 1910, mudaria o nome para Avª da República.  Sobre a denominação Avenida D. Luis presente em postais antigos de Moçâmedes, sabe-se que D. Luis herdou a coroa em Novembro de 1861, e que quando infante serviu na Marinha e visitou a África Portuguesa. Sabe-se também que Moçâmedes, entre 1 de Julho e 27 de Setembro de 1907, recebeu a visita de um  Principe, o Principe Dom Luís Filipe, que visitou as colónias portuguesas de São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e Cabo Verde, e as colónias britânicas da Rodésia e África do Sul. A dificuldade de aceder a fontes que atestem qual D. Luis emprestou o nome à Avenida de Moçâmedes, leva-me a crer que foi foi D. Luis,  que em 1861 sucedeu ao seu irmão D. Pedro V, por este não deixar descendência. Era um homem culto, de grande sensibilidade artística, poliglota, respeitador escrupuloso das liberdades públicas. Do seu reinado merecem especial destaque a abolição da pena de morte para os crimes civis, a abolição da escravatura no Reino de Portugal.









 
Neste postal, à esq., por detrás dos barracões, o edifício da Alfândega


 Aqui o edifício da Alfândega surge em parque encoberto pelos coqueiros, tendo à sua frente, em plena Avenida um pavilhão, que se pressupõe ser um armazém para mercadorias em trânsito


Uma perspectiva da cidade, onde se pode ver, ao fundo da Rua que mais tarde seria a da Praia do Bonfim, o edifício da Alfândega. De arquitectura clássica, como era comum na época em edifícios públicos, ocupa todo um quarteirão; houve o cuidado do dotá-lo com 3 frentes, com portal encimado por frontão triangular, para melhor enquadramento e perspectiva


Foto de Moçâmedes que se presume seja do início do século XX, onde se pode ver, imponente, o edifício da Alfândega, com frente para a Rua 4 de Agosto e Para a Rua da Praia do Bonfim e Av. da República .
Por esta altura já haviam sido retirados os antigos barracões ...

Este postal de Mossâmedes/Moçâmedes permite ver parte do edifício da Alfândega e da Rua perpendicular ao mar, a 4 de Agosto


Esta é a Praça Leal, tendo no centro o chafariz. Aqui podemos ver a parte lateral do edifício da Alfândega, onde funcionaram os primitivos Correios.

 

Piquete da Guarda Fiscal
Datado de 1905, este postal mostra-nos o belo Piquete da Guarda Fiscal, de arquitectura romântica, que funcionou em conjugação com os serviços de Alfândega até meados do século XX, e encontrava-se ligado  à ponte de embarque/desembarque através de carris de ferro sobre os quais rolavam vagonetas que faziam o transporte das mercadorias.  Por este Piquete passavam, pois, pessoas e  mercadorias. Acabou desmantelado. O edifício da Alfândega fica por detrás (vê-se ao fundo), do outro lado da Avenida. À dt, um dos  Barracões que à época existiam na Avenida.

 A foto regista o momento da passagem pelo antigo Piquete, em 1 de Outubro de 1905,  já de regresso a Luanda,  do Conselheiro Governador Geral de Angola,  Dr. Ramada Curto,  após ter assistido à inauguração  da Estação principal do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes  , realizada em 28 de Setembro de 1905,  procedido à assinado a acta do assentamento da primeira pedra no cunhal leste da  referida estação, e participado num copo d'água que lhe foi oferecido na povoação do Saco, pela comissão de festejos composta de comerciantes e agricultores de Moçâmedes. Registe-se que em 29 de Setembro de 1905 deu-se a partida do primeiro comboio de Moçâmedes ao Saco, conduzindo os Exmos. Snrs. Conselheiro Governador Geral, Governador do Districto e Engenheiro Director dos Caminhos de Ferro de Loanda e convidados.  Ainda que o ano do lançamento da construção do Caminho de Ferro de Mossâmedes fosse em 1905,   a autorização do Governo remonta a carta de lei de 1890.  Esta visita ocorreu numa altura em que problemas graves, internos e externos, ocorriam tanto no Portugal metropolitano como no além-mar africano.    Estava-se num período crucial da história portuguesa (ver AQUI ), atravessada por uma grave crise política, social e económica, que coincidia com a decadência da Monarquia e a alvorada da República, em que a tutela portuguesa no imenso território de uma África cobiçada e considerada necessária ao progresso europeu, era colocada em cheque.  O pequeno Portugal tinha de se haver contra o Golias germânico, entre outros. A coabitação, a dominação e a influência dos Portugueses, por antigas que fossem, podiam a todo o momento ser contestadas pelos seus súbditos, vassalos e vizinhos.  As revoltas no sul de Angola haviam sido de alguma forma torneadas ou ignoradas, mas não resolvidas, como os grandes revezes sofridos  em Setembro de 1904 pelos expedicionários portugueses no Cuamato, em que um guia ovimbundo que fora deportado para o Humbe os levara a cair numa emboscada em Umpungo. Em 2 de Janeiro de 1904 dera-se revolta dos hereros contra os colonizadores alemães na então África do Sudoeste, atual Namíbia tendo a resposta alemã sido avassaladora.

No dia 25 de Setembro de 1905, o jornal português O Século, recordava assim o dia 25 de Setembro de 1905:
...É hoje dia de luto nacional e mui principalmente para as armas portu­guesas, por passar o primeiro aniversário do trágico massacre das nossas forças na margem esquerda do Cunene (...). Atacados de surpresa por forças cuamatas muito superiores, não temendo a aventura perigosa que se ia travar, mal imaginando o seu fim tenebroso, oficiais e praças, numa comunhão de pensamento, somente se lembraram de que, ali, no interior do sertão, repre­sentavam a honra do País, que deviam conservar imaculada, e o nome portu­guês, que tinham de levantar bem alto.


Na mesma página de O Século, na parte reservada aos sufrágios, podia ainda ler-se uma comunicação lacónica: "...Amanhã, pelas 11 horas da manhã, na igreja dos Mártires, rezar-se-á uma missa por alma do tenente Luz Rodrigues, outra vítima da catástrofe, missa a que tencionam assistir os oficiais do batalhão de caçadores de el-rei, a que o desditoso extinto pertenceu. (...)".                             

(Para mais informação, ver AQUI)

Piquete da Guarda Fiscal, de traça romântica

 



Vista da Praia





 O movimento da ponte e da baía de Moçâmedes, em dia de corridas de natação. à dt da ponte e por detrás desta, vê-se parte do edificio da Alfândega


 

  O movimento da ponte e da baía de Moçâmedes
 O movimento da ponte e da baía de Mossâmedes
 O piquete da Guarda Fiscal e a ligação à ponte de embarque/desembarque  através de carris de CF
 
 Vista aérea da cidade, podendo ver-se o edifício da Alfândega, à direita. À esq, o Coreto. Foto de 1935
 
 A Alfândega em 1935, e Obelisco ao General Sá da Bandeira, o liberal progressista que um século antes , em 1836, mandou publicar o decreto de abolição  do tráfico de escravos. De início este Obelisco esteve no centro de uma Praça no terreno onde se encontrava a Escola Portugal (Escola 55, de Fernando Leal). Na década de 1940 o Obelisco passou para a Praceta onde ainda hoje se encontra, perto do antigo Bairro da Facada, porém tendo sido vandalizado após 1975 já não apresenta as respectiva dedicatória.

Panorâmica com o edifício nos anos 1960




  O edifício da Alfândega de Moçâmedes

In  "Conspecto Imobiliario do Distrito de Moçâmedes",  no ciclo de 1860 a 1879, Manuel Júlio de Mendonça Torres refere:
"...Pinto de Balsemão no relato da sua viagem a Moçâmedes, declara em ofício datado de 27 de Março de 1868  que "...o edifício da Alfândega, primorosamente acabado, obra do benemérito Governador Leal,  era dos mais regulares, elegantes e sólidos que havia em toda a  Província" lamentando porém, que não lhe correspondesse o movimento que seria para desejar, "visto que estava quase sempre ermo de fardos".

Mendonça Torres entende que não era exacta a afirmação de Balsemão, porque no ciclo que estava a estudar, "o tráfico distrital havia-se revelado, por essa época, francamente animador" , "o comércio estava então notoriamente a prosperar, pois que assim indicavam, sem possível contestação, o movimento exportador algodoeiro, e as condições favoráveis, nunca antes verificadas, da sua balança mercantil.   "

Quanto ao  edifício da "Alfândega", como refere Mendonça Torres  quec o plano e execução ficou a dever-se ao Governador Fernando tendo começado a construir-se em 1863, no primeiro ano do seu segundo governo, sendo a sua construção ultimada em Abril de 1868, no tempo da administração do governador Joaquim Graça.

Referindo-se a notícias sobre o assunto no livro de Brito Aranha, "Memórias Histórico- Estatísticas" a pág. 273.

"...O edifício da "Alfândega" ocupa uma área de 1081 metros quadrados, tendo de frente 23 metros, de fundo 47 e de pé direito, 6. É de alvenaria, mas as portas e janelas têm guarnecimentos de cantaria. Sustenta-o uma cobertura de telha. Consta de cinco salas e dois grandes armazéns com um pátio no centro.  A porta da entrada olha para a baía, e a da saída para a Praça da Colónia. Paralelamente ao edifício levantou-se um telheiro de madeira que já não existe. Media este 9 metros de largura e 23 de fundo apoiados em 12 pilares de madeira assentes em socos de cantaria. Servia o telheiro para abrigae os escaleres da Alfândega e as mercadorias que houvessem de embarcar a horas em que a repartição estivesse fechada.

A construção da Alfândega custou, aproximadamente,  12.000$000 réis."


Boletim Geral do Ultramar . XXX - 348 e 349
PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.
Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.





 Zona de depósito de caixas de madeira, barris, etc

Estas fotos foram retiradas do Instituto de Investigação Científica Tropical via Arquivo Histórico Ultramarino. Trata-se, como se pode ver, da zona da Alfândega destinada ao armazenamento ao ar livre (Praia das Miragens) das mercadorias destinadas a embarque/desembarque.

Ainda sobre o edifício da Alfândega de Moçâmedes,  debrucemo-nos um pouco sobre a "arquitetura classicizante das obras públicas" no quadro da colonização portuguesa:


"...As edificações das obras públicas, ou nelas inspiradas, dentre um leque de funções muito abrangente, apresentam alguns exemplos mais notáveis na área dos transportes (alfândegas, estações de caminho-de‐ferro), nas sedes municipais (câmaras), e em edifícios governamentais, quartéis, tribunais, prisões.

As alfândegas representam um tema fundador da moderna fiscalidade e do controlo de espaços portuários e comerciais, essencial no desenvolvimento urbano. Daí a sua presença constante, quase sempre seguindo um modelo estilístico classicizante.  (...) Refiram‐se ainda as obras da Praia, de cerca de 1880, de Benguela, de 1870, remodelada em 1914 com estruturas metálicas, e com ponte‐cais de 1876, de Moçâmedes, de 1863‐1866, e de Sá da Bandeira, de 1900‐1905. As estações de caminho‐de‐ferro urbanas foram outro tipo de construção sistematicamente desenvolvido nesta época, a par da implantação das ferrovias ao longo do território, e símbolo acabado da modernização dos sistemas de transportes, adotando muitas vezes o desenho classicizante. Exemplifiquem‐se com as de Moçâmedes, obra de frontão e vãos de arco redondo, de Benguela e de Sá da Bandeira, de 1905‐1923 esta última, pelo arquiteto Humberto Trindade. " DAQUI


http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2012/02/alfandega-de-mossamedes-mocamedes.html