Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 24 de outubro de 2012

José Moreira de Pinho Trindade, descendente dos pioneiros da colonização de Moçâmedes. O jornal «O Namibe», a poesia, etc...




 

Na foto: José Moreira de Pinho Trindade , a esposa e os 3 filhos mais velhos, Georgina Zulmira Alves Trindade (Gina), Clara Bela Alves Trindade (Bela) e Roberto Alexandre Alves Trindade. Desta união nasceria ainda Carlos Alberto Alves Trindade



Recordando gente da nossa terra...


JOSÉ JOAQUIM DE PINHO (1820-1875)

 http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2007/08/componente-da-peimeira-colnia.html


Se houve pessoas que marcaram presença o desenrolar da vida, das vivências e convivências na cidade de Moçâmedes,  Namibe, uma delas foi José Trindade, proprietário do "Jornal o Namibe" e de uma tipografia situada na Rua dos Pescadores.

José Trindade era  descendente de um pioneiro da colonização, José Joaquim de Pinho (1820-1875)*, natural de Aveiro, que juntamente com outros portugueses idos de Pernambuco (Brasil) na barca brasileira "Tentativa Feliz" para Moçâmedes, ali chegou a 4 de Agosto de 1849. Vinham dar inicio ao povoamento branco do distrito.  José Joaquim de Pinho foi proprietário de terras na região, entre elas a fazenda da Várzea da Boa Esperança.  Faleceu em Moçâmedes, em 27.11.1875, encontrando-se os seus restos mortais, junto com os da sua mulher, sepultados sob um mausoléu no cemitério local, mandado erguer pelos seus filhos.

Mas José Trindade para além de proprietário do "Jornal o Namibe" e de uma tipografia, também era jornalista; era ele próprio escrevia muitos dos artigos que eram publicados no seu Jornal, os quais assinava ora como J. Trindade, ora como Carlos Alberto, e ainda como REX, para além de dominar a arte de versejar, faceta pouco desconhecida de quantos habitavam a cidade de Moçâmedes.

Seguem dois dos seus poemas que me foram gentilmente enviados, juntamente com a foto acima, pelo seu filho e meu ex-colega de escola, Roberto Trindade.

 




Moçâmedes e o Mar



Entre as águas azuis do mar uivante

e a areia fulva do deserto agreste

- como presa nos braços de um gigante-

foi, Princesa, que tu aqui nasceste!


Nasceste em terra dura e ressequida

E tens mesmo a welwitschia por irmã,

e, à força de viveres esta vida.

conquistaste a coragem de um titã!


Venceste as bravas ondas turbulentas,

enfrentaste as garrôas do Deserto,

e, após tremendas lutas bem cruentas,

mudaste a rota a um destino incerto!


Tornaste natural o que era estranho

ao dominar os fortes elementos:

nas areias fizeste o seu amanho

e ao Mar foste colher os alimentos:


Consumidos cem anos em batalhas,

és tão pobre como eras no começo,

mas, rica em fidalguia, tu trabalhas

p`r atingir as estradas do Progresso!


Agora, à custa desse teu Namibe

e da formosa Praia das Miragens

como quem ao olhar do Mundo exibe

belezas naturais, raras imagens -


Tu voltaste de novo a triunfar!

fazendo de ambos um cartaz berrante,

passaste a festejar o velho Mar,

companheiro do povo navegante.



Carlos Alberto

 




Em Moçâmedes poucos escapavam a uma alcunha, e  José Trindade coube era conhecido por «Zé Côco». Era um fumador inveterado que não parava de fumar enquanto escrevia e orientava os trabalhos na sua Tipografia. Era cigarro atrás de cigarro, até virar «beata» a queimar-lhe a ponta dos dedos...

A respeito desta faceta de seu pai assim escreveu seu filho Roberto: 
"...Ele e o Antenor Carranca só viviam para o jornal. É pena que o Antenor tenha desistido tão cedo !  O meu pai era um tanto ou quanto lunático. Ia pelo passeio com o cigarro a arder na boca, não ia a fumar, só a fumegar. Ia a pensar naquela rima que lhe faltava para o soneto que estava a escrever ... À noite no seu quarto, mergulhava no monte de jornais que recebia de todo o lado, queimava montes de cigarros que ficavam a arder no cinzeiro. Tamborilava os dedos no tampo de mesa para contar as sílabas e encontrar a célebre rima. Deitava-se às 3 da manhã e às 8 já estava à minha espera para irmos para o Jornal ... Se demorasse ele ia a pé."



Quanto à faceta poética de José Trindade, e a respeito do TABACO, ele mesmo escreveu um poema numa altura em que devido à seca a indústria tabaqueira angolana passava por uma grave crise, ao ponto de ter faltado tabaco nos locais de venda em Moçâmedes, situação que agitou os ânimos dos viciados.  Eis o poema:



Não há tabaco!



(Referência alegre à cruciante à tragédia tabaqueira ocorrida há dias)


As armas e os barões assinalados

que os tempos vão maus, muito envinagrados!

Não há tabaco e estamos desgraçados!

A seca foi atroz e foi completa

de deixar um parceiro mui pateta!


Desta vez não houve contemplações:

não fumaram pobres, ricos e ladrões!


Conheço fumadores consagrados

que agora apenas ... chucham rebuçados!

Conheço até uma Domingas ,

que é minha lavadeira e confidente.

Sei que adora o tabaco e as boas pingas.


E, como continua sorridente,

indaguei da maneira que ela usava

pr´enfrentar o problema. E essa avis-rara

disse: - Eu não perdi tempo , e sem mangonha

fui comprar umas doses de cangonha!...


A situação tristonha e angustiosa

veio pôr a cidade em polvorosa.

Os cigarros de filtro e os tais sem ponta

são luxo com que a gente já não conta:


Não há Deltas, Marinas, Francesinhos

e até Negritos já não têm os barzinhos!

Fumar é vício lindo que morreu

e, p´ra vida ser feita de veludo,

vamos fumar p´la ponta de um canudo,

recordando a beata que já ardeu!


E como um bom charuto custa caro,

Não fumes disso, ó meu judeu avaro!



(José Trindade)






Estas eram algumas marcas de tabaco que se vendia em Angola

 

 




Do "Jornal Namibe" apresentamos a seguir um derradeiro artigo, publicado em 1975, quando Portugal se preparava para pôr a funcionar, com a ajuda de potências estrangeiras, uma «ponte aérea» sem retorno que haveria de promover o repatriamento massivo dos portugueses do território de Angola  naquilo que redundou numa autêntica "limpeza étnica".





 


                                             
                                                                


  
Clarabela e Gina, as duas meninas de José Trindade já rapariguinhas, em 1953/4? envergando a camisola do Benfica, "o clube de sempre" das duas manas Trindade.

 
Sem desprestígio para a mana Gina que também era uma excelente basquetebolista, Clarabela, era sem dúvida a alma da equipa de basquetebol feminino do Sport Moçâmedes e Benfica na década de 1950. Era aquela que, com a sua rapidez, as suas esquivas jogadas e os seus infalíveis lances de bola ao cesto, fazia vibrar os  adeptos benfiquistas que não cessavam de a ovacionar. Ver Memórias Desportivas AQUI




  Aqui podemos ver Roberto Trindade (em cima à esq) integrando o grupo de finalistas masculinos da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, em 1956. Ver AQUI


Para terminar vou lembrar uma situação que se passou entre José Trindade e a Câmara Municipal de Moçâmedes, que revela o quanto às vezes as pessoas que detêm algum poder são levadas a actos prepotentes, mesmo em situações em que os ventos não correm a favor dos organismos que representam.


Eis a situação:



José Trindade era há já um tempo credor da Câmara Municipal de Moçâmedes, por trabalhos prestados pela sua Tipografia que não havia meio de serem pagos. Cansado de esperar, tomou uma decisão: ele que fora sempre cumpridor das suas contas, resolveu pura e simplesmente deixar de pagar a conta da água e da luz eléctrica que a Câmara fornecia à Tipografia. Resultado, logo no dia seguinte bateu à porta da mesma um funcionário municipal que ali se deslocou para cortar o fornecimento de água. Porque lei é lei, para o organismo, não para as pessoas! Quanto ao resto apenas sei que o problema levantou grande celeuma, que José Trindade fez barulho, protestou, e que pelos vistos o problema acabou resolvido, pois a Tipografia, da qual dependia não apenas o seu sustento e da sua família, como sustento de mais algumas famílias que dependiam do salário dos que ali trabalhavam, lá continuou a funcionar.



A respeito de Jornais, a proveito para colocar aqui estas referências a jornais que no século XX foram editados em Moçâmedes:


1.O Sul de Angola, semanário independente de Moçâmedes, fundado em 1921 e dirigido por Mário Trabullo, seu proprietário.
2.Correio de Angola, de Moçâmedes, dirigido por José Manuel da Costa.
3. Mossâmedes, semanário dirigido por Joaquim Augusto Monteiro.
4.O Académico, de Moçâmedes, dirigido por José Pestana.
5.Sport de Moçâmedes, quinzenário desportivo, dirigido por A.A. Torres Garcia.


É com carinho que deixo aqui mais estas recordações de gente que viveu na nossa terra até às vésperas da independência de Angola em 11 de Novembro de 1975, e que, como tantas outras teve que partir, porque já não dava para continuar...


MariaNJardim


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Colonização de Moçâmedes (Namibe): José Alves Bastos e Amélia Torres Bastos. Manuel Joaquim Torres e de Maria José da Costa Torres


 



                                                                Manuel José Alves Bastos

Manuel José Alves Bastos,
natural de Fermil, distrito de Vila Real (Trás-os-Montes), foi um dos componentes da primeira colónia chegadas a Moçâmedes em 1849, ida de Pernambuco, Brasil, em consequência da perseguições aos portugueses que se negavam em abdicar da sua nacionalidade (revolução praeira/mata-marinheiros/independência do Brasil).  Comerciante e proprietário, estabeleceu-se na região, onde se dedicou ao comércio de marfim e do gado, às actividades agrícola com plantações e também à pesca e à exploração de salinas. Com João Duarte de Almeida, eram os dois homens mais ricos da região, na época. Repousa em jazigo de Família, no cemitério de Moçâmedes.


 


 Amélia Torres Bastos

Manuel José Alves Bastos casou com  Amélia Torres Bastos,  filha de Manuel Joaquim Torres (09-04-1813) e de Maria José da Costa Torres (Açores, S. Miguel, 1827+24.07.1912),  componente, como seus pais da segunda colónia ida do Brasil (Pernambuco) para Moçâmedes, em 1850. Sabemos que faleceu a 12 de Abril de 1896, e seus restos mortais repousam em mausoléu no Cemitério de Moçâmedes (Namibe). 

Seguem alguns dados genealógicos  do ramo Manuel Joaquim Torres encontrados disponíveis na Net. Estes dados não incluem o nome de Amélia Torres como sua filha, porquanto referem apenas que do casamento de Manuel Joaquim Torres (1815-1882) com Maria José da Costa Torres (1827-1912)  nasceu António Florentino Torres (Angola, Moçâmedes, 27-08-1932). Ver GeneallNet


António Florentino Torres casou com Maria Júlia Mendonça. * 21.06.1866. Foram  descendentes:

Da união de  Eduardo de Mendonça Torres Maria Salles Lane, iria derivar um dos ramos desta família pioneira da colonização de Moçâmedes  que ali se manteve até às independência de Angola, em 1975.

Portanto, estes últimos faziam parte de uma 3ª geração já nascida em terras de Angola.











 
Interior de uma da casa a casa da familia Torres , na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes.
Deste grupo de sete senhoras, em 1991, três ainda viviam a que está sentada à máquina de costura, e a que está sentada ao piano. (vidé foto e descrição, clicando AQUI). Ano provável: 1885. Do livro Moçâmedes de Mendonça Torres


Os Mendonça Torres foram durante muito tempo uma das famílias melhor situadas, social e materialmente, em Moçâmedes. Aliás,
Manuel Joaquim Torres e de Maria José da Costa Torres já eram pessoas endinheiradas quando partiram do Brasil (Pernambuco) para Moçâmedes, em 1850,  
integrados na 2ª colónia de luso-brasileiros que viera juntar-se aos pioneiros da fundação ali chegados em 04 de Agosto de 1849.
Refere quem visitou a casa da Rua dos Pescadores, que esta família mantinha as características dos lares da burguesia portuguesa da época, que chamara a si os modos de ser e de estar da aristocracia, e que se encontravam reflectidos quer no mobiliário, quer na indumentária das suas femininas representantes, quer nos serões familiares à volta de uma grande mesa, onde jovens casadoiras coziam  à máquina e bordavam ao bastidor, faziam leituras em voz alta, tocavam, cantavam, etc. etc.


Aliás, como referem os escritos da época, os colonos carregaram consigo para terras de África. não apenas usos e costumes, mas também móveis de jacarandá, (1) quadros a óleo, pratas  e e cristais cintilantes, etc. Ali o visitante, o familiar ou o amigo podiam encontrar objectos decorativos de valor, e nem o tradicional piano (instrumento que fazia parte da educação de uma menina prendada destinada a um bom casamento) falta, bem assim como a máquina de costura, etc. 


Já li algures (não recordo onde), o testemunho escrito deixado por um visitante estrangeiro, que se dizia surpreendido, quando em finais do século XIX, no silêncio da noite, ao passar por uma das ruas de Moçâmedes, pôde escutar os sons melodiosos de um piano, e ao mesmo tempo ver, através da janela, uma jovem a tocar e outra a cantar, à luz da lamparina, enquanto outras bordavam, prática muito comum nos serões familiares femininos da época, nas burguesias ocidentais.



Sabe-se que uma das condições impostas ao Estado português pelos colonos de 1848 e 1850, na sua  transferência de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes,  foi o de se fazerem acompanhar pelo recheio das suas habitações e de todos os seus haveres, tendo para os efeito a sua viagem sido acompanhada pelo vaso de guerra português "Douro". Ao chegarem a Moçâmedes foram acolhidos em barracões, mas de imediato aquela que iria ser a cidade de Moçâmedes começou a ser edificada.





Tomando como referência o exame de romances produzidos e divulgados nesse período, a educação das jovens destas classes, quer na sociedade portuguesa e europeia, quer na sociedade brasileira de meados do século XIX,  era realizada nas próprias casas, sob a orientação da mãe  e de preceptoras, e nos grandes centros urbanos, em colégios  particulares, cuja meta tinha como objectivo torná-las atraentes  e dotadas de certas prendas que pudesse atrair o melhor casamento possível, como  saber conversar e comportar-se em público, tocar piano e falar francês, para além da  leitura, escrita, gramática, aritmética, álgebra, geometria, geografia e história.


Como podemos ver pela transcrição que se segue retirada DAQUI , havia na altura  em Moçâmedes (Mossâmedes), uma determinada burguesia que já tinha ao seu dispôr um Colégio  para a educação das suas filhas, onde se ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc., rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa. E como não podia deixar de ser, na educação de uma menina prendada da época, os desenhos e bordado tinham uma importância muito especial... Sabe-se também que uma ou outra familia melhor situada, até se recorria a preceptoras estrangeiras:

"... Para encerrar este capítulo, faremos referência muito especial a uma ilustre senhora católica, de origem irlandesa mas educada na França e cujo nome aportuguesado é Henriqueta Deehan.  Miss Herriet (Herreeth) Deehan tinha maneiras muito distintas. (...) 

"...Era uma professora muito consciente da sua missão, dedicada ao ensino e invulgarmente culta. Viajara por diversos países da Europa, Ásia, África e Oceania. Residira na Inglaterra e na França. Exercera o magistério em Lisboa. Deveria ter-se fixado em Moçâmedes pelo ano de 1880, mantendo-se ali em 1894. Ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc. A sua escola era frequentada pelas jovens do sexo feminino das mais distintas famílias da cidade, mantendo-se ali até bastante tarde, algumas só saíam para casarem... Este colégio, no dizer de um inspector, era a escola que em Angola ministrava mais vasto programa educativo, rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa! Preenchia, por si só, o lugar de muitas mestras, emprestando ao ensino grande seriedade e importância, insistência e intensidade. Os desenhos e bordados das suas educandas poderiam colocar-se a par dos mais perfeitos das exposições escolares realizadas em qualquer país! Embora, em regra, recebesse só meninas, aceitava algumas vezes, por excepção, alguns rapazinhos, mas exclusivamente quando eram irmãos das suas alunas. »(3)

Ainda sobre a mesma Miss Herriet Deehen ou  Henriqueta Deehen, encontramos esta passagem:

«...Vem a propósito dizer que trabalhava nessa altura em Mossâmedes uma senhora muito distinta, que se dizia ser a melhor e mais competente professora de Angola, Henriqueta Deehan, de origem irlandesa mas educada na França. No seu colégio ministrava-se o mais vasto programa educativo de toda a província, podendo comparar-se ao que havia de melhor na Europa. Preenchia só ela o lugar de muitas mestras. Manteve-se na cidade cerca de pelo menos quinze anos e a sua escola era frequentada pelas meninas das melhores famílias. Ali se conservavam até bastante tarde, saindo do colégio apenas quando casavam... »




(1) No Brasil, madeiras preciosas só podiam ser derrubadas se a Coroa portuguesa autorizasse, a fim de impedir fosse contrabandeada por navios espanhóis, franceses e ingleses, madeiras duras, resistentes e de alto valor comercial, a chamada "madeira de lei’" que incluia, o pau-brasil, o jatobá, o peroba, o ipê, o jacarandá, e até o cedro e o mogno, madeiras impermeáveis a fungos e a insectos que podiam sobreviver por centenas de anos na construção de casas, em móveis, instrumentos musicais, etc, etc.



 À esq. a moradia da familia Torres, na Rua dos Pescadores, gaveto com a Rua 4 de Agosto. O Jardim que se vê era ainda na década de 1930 o "Jardim da Colónia"




Esta moradia, um primeiro andar de arquitectura classizante, teria sido um dos primeiros prédios de dois pisos construídos em Moçâmedes (1885?).  Situada  num gaveto que convergia com a Rua dos Pescadores e com a Rua 04 de Agosto, nas traseiras do edifício da Alfândega, ficava próximo do antigo «Jardim da Colónia» (jardim, para o qual esteve projectado um monumento à memória dos fundadores, e que na década de 1940 foi demolido para dar lugar ao Cine Teatro de Moçâmedes).  O rés-do-chão desta moradia, em tempos mais atrás, esteve alugado aos "Armazéns Primavera", que importavam artigos de moda "chic", etc., dos célebres "Armazéns Printemps" de Paris. Na década de 1950/60, o edifício esteve alugado à família Gouveia, passando a funcionar como o "Hotel Central", enquanto os proprietários, se mudaram para uma outra residência que possuiam na fazenda «Nossa Senhora da Conceição», situada na várzea do rio Bero. Mais tarde, no rés-do-chão do mesmo edifício estiveram funcionaram os escritórios da fábrica S.O.S.   Hoje, revertido a favor da Angola independente, o rés do chão do edifício serve de Museu Etnográfico do Namibe, onde repousam os restos do Império.


Ainda sobre a mesma Miss Herriet Deehen ou  Henriqueta Deehen, encontramos esta passagem:

«...Vem a propósito dizer que trabalhava nessa altura em Mossâmedes uma senhora muito distinta, que se dizia ser a melhor e mais competente professora de Angola, Henriqueta Deehan, de origem irlandesa mas educada na França. No seu colégio ministrava-se o mais vasto programa educativo de toda a província, podendo comparar-se ao que havia de melhor na Europa. Preenchia só ela o lugar de muitas mestras. Manteve-se na cidade cerca de pelo menos quinze anos e a sua escola era frequentada pelas meninas das melhores famílias. Ali se conservavam até bastante tarde, saindo do colégio apenas quando casavam... »
Como podemos ver pela transcrição que se segue retirada DAQUI , havia na altura  em Moçâmedes (Mossâmedes), uma determinada burguesia que já tinha ao seu dispôr um Colégio  para a educação das suas filhas, onde se ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc., rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa. E como não podia deixar de ser, na educação de uma menina prendada da época, os desenhos e bordado tinham uma importância muito especial... Sabe-se também que uma ou outra família melhor situada, até se recorria a preceptoras estrangeiras:

"... Para encerrar este capítulo, faremos referência muito especial a uma ilustre senhora católica, de origem irlandesa mas educada na França e cujo nome aportuguesado é Henriqueta Deehan.  Miss Herriet (Herreeth) Deehan tinha maneiras muito distintas. (...) 

"...Era uma professora muito consciente da sua missão, dedicada ao ensino e invulgarmente culta. Viajara por diversos países da Europa, Ásia, África e Oceania. Residira na Inglaterra e na França. Exercera o magistério em Lisboa. Deveria ter-se fixado em Moçâmedes pelo ano de 1880, mantendo-se ali em 1894. Ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc. A sua escola era frequentada pelas jovens do sexo feminino das mais distintas famílias da cidade, mantendo-se ali até bastante tarde, algumas só saíam para casarem... Este colégio, no dizer de um inspector, era a escola que em Angola ministrava mais vasto programa educativo, rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa! Preenchia, por si só, o lugar de muitas mestras, emprestando ao ensino grande seriedade e importância, insistência e intensidade. Os desenhos e bordados das suas educandas poderiam colocar-se a par dos mais perfeitos das exposições escolares realizadas em qualquer país! Embora, em regra, recebesse só meninas, aceitava algumas vezes, por excepção, alguns rapazinhos, mas exclusivamente quando eram irmãos das suas alunas. »(3)


MariaNJardim
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Na foto: Almeida, Guiomar Zuzarte de Mendonça, Mª José Torres,...Lima, Teresa Mayo, Laura de Almeida, Elisa de Moura, Maria Julia Teixeira Pinto Zuzarte de Mendonça, Ema Zuzarte de Mendonça, Pinto da França, Henriqueta Torres, Carmen Dias, Branca, Francisco Alexandrino, Manuel Alexandrino, João Torres, Bento Pinto da França (genro do General Honorato José de Mendonça). Foto gentilmente cedida por Vitor Torres. Proibida publicação para outros fins sem autorização do próprio.


Conforme dados colhidos em GeneallNet, em 1895, quando o velho governador de Moçâmedes, Honorato Zuzarte de Mendonça faleceu, e foi substituido por João de Mascarenhas Gaivão, que trouxe António da França consigo como ajudante de campo, este ali casou com M. Clara de Oliveira Teixeira Pinto Zuzarte de Mendonça em 1897.

"As virgens de Moçâmedes cantavam e contavam os meses que separavam a passagem das fragatas inglesas que levavam uma nova guarnição para a ilha de Santa Helena. Havia sempre baile no Palácio. Ficavam sempre no ar vagos amores, esboçados ao de leve e todavia tão vividos e tão sofridos" (APF)

"Era suave, loiro de olhos verdes, parecia um dos oficiais ingleses da ilha de Santa Helena que costumavam passar por Moçâmedes. Logo conheceu a minha Avó (M. Clara), enamoraram-se para toda a vida, Casaram na igreja de Santo Adrião e no Palacio lhes nasceu o primeiro filho, Bento, antes de regressarem a Portugal"(APF).

Foram estes usos e costumes burgueses "aristocratizados" *, que foram passando para as gerações seguintes já nascidas em Mossâmedes, que explicam algumas referências a este respeito na obra de António A. M. Cristão, «Memórias de Angra-do-Negro Moçâmedes», no cap. II.4-EDUCAÇÂO, pg.221 :

«A psicologia de vida alegre e atraente da população deve-se, por altura de 1920, em parte, senão muito, à elite da época, constituida por um interessante elenco de Senhoras já dali naturais, que no exterior, e, especialmente em Londres, concluiram umas o curso de alta-costura, outras o do conservatório de música e dança, formação que, então, passaram a ministrar às jovens dali naturais. A beleza e o fino porte destas jovens encantavam todos aqueles com elas conviviam. Este facto, podia, até há bem pouco tempo, ser atestado pela Senhora Celeste Kressmann Rosa, descendente do Capitão José da Rosa Alcobaça, recentemente falecida com cerca de 100 anos. Várias destas senhoras uniram-se a ilustres figuras de Moçâmedes.» Neste livro, entre outros, são destacados nomes, como: Maria Sales Lane, casada com Eduardo de Mendonça Torres, economista; Ema Zuzarte Mendonça, solteira, diplomada com o curso do Conservatório de Música de Lisboa, que em Moçâmedes até à década de 50 foi professora particular de Música, Francisca Reis, casada com o Dr. Luiz Bobela da Mota, juiz da comarca; Judith Reis, casada com José Manuel da Costa, Governador Civil de Moçâmedes; Alice Reis, casada com Rogério Morgado, proprietário e filho de emigrante da 2ª colónia, Constantina Reis, casada com Júlio Rogado Leitão, importante comerciante na terra, etc, etc..

Isso talvez explique que Moçâmedes durante bastante tempo primasse pelas suas femininas representantes sempre prontas a aprender as boas regras de etiqueta, a bem receber, vestir, etc. De facto ainda em meados da década de 50, era facilmente detectável nas jovens raparigas da terra a preocupação das mães na sua educação, ainda que não pertencessem a uma classe elevada, ainda que não fossem descendentes dos antigos colonos fundadores vindos do Brasil em 1849 e em 1850, mas sim de gente que também começou a fixar-se em Moçâmedes a partir dos anos 1860, vindas so Algarve, ou mais propriamente, de Olhão. Eram mães que se dedicavam inteiramente ao lar e à família, e que, por mecanismos de imitação social, aprenderam a cultivar algumas dessas qualidades que transmitiam às suas filhas através das gerações. A partir de finais da década de 50, e mais decisivamente a partir dos anos 60, as raparigas já não tinham tempo para o cultivo dessas «prendas domésticas» que faziam as delícias dos seus admiradores... Com a entrada da mulher no mundo do trabalho, uma consequência da industrialização e do progersso, abriam-se outras perspectivas para as suas vidas...

 Região do Caraculo. Sitio do Rancho Montemor. Km 58. Foto gentilmente cedida por Vitor Torres. Proibida publicação para outros fins sem autorização do próprio.
 Maria Eduarda, Beatroz Radich e Maria Antonieta. Foto gentilmente cedida por Vitor Torres. Proibida publicação para outros fins sem autorização do próprio. 



Acrescenta-se ainda que o culto da arte de bem receber da família Torres foi sendo transmitido de geração em geração, e que em 1932, quando da visita a Moçâmedes do Presidente Óscar Fragoso Carmona à cidade foi servido um almoço na residência de Eduardo Mendonça Torres e de sua esposa, Maria Sales Lane, na Fazenda «Nossa Senhora da Conceição», na zona do rio Bero, e que decorreu conforme se pode ler no Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330:
 


«...Na residência, o Sr. Eduardo Mendonça Torres, sua esposa, Maria Sales Lane Torres, suas gentis filhas, Maria Antónia e Maria Eduarda e demais família, recebiam com extremos de gentileza. O almoço decorreu num ambiente encantador de respeitosa deferência para com o ilustre visitante, Sr. General Óscar Carmona, a quem acompanharam os Srs. Dr. Francisco Vieira Machado, coronel Lopes Mateus, capitão Ferreira de Carvalho e demais pessoas da comitiva. 
A ementa fora «composta» sobre lindos cartões com fotografias de diversos aspectos da Fazenda e que constituíram uma interessante recordação do encantador local, daquela deliciosa festa íntima. O Sr. Eduardo de Mendonça Torres, agradecendo a subida honra que lhe dera o Sr. General Óscar Carmona visitando a Fazenda, disse:(vidé discurso pg, do mesmo Boletim) .

Por sua vez o Presidente da República erguendo-se, afirmou os seus melhores agradecimentos pelas atenções de que fora alvo, e referindo-se ao que na propriedade acabava de ver, disse todo o seu contentamento de português. Depois condecorou o Sr. Eduardo Mendonça Torres com a Ordem de Mérito Agrícola.
Quanto à impressão que causou aos visitantes a Fazenda desta família, fala por si a pena de um dos jornalistas que nessa altura a visitaram:
«Os terrenos, como todos os do vale daquele rio, são férteis, mas ali encontra-se a inteligência e mão do homem a orientar e trabalhar. A visita deixa uma magnifica impressão, pois ali mostram-se em interessante companhia as árvores de frutos tropicais e as que se dão na metrópole. Os talhões de cultura, de alinhamento impecável estão todos aproveitados. A água, que um grande engenho a vapor tira do sub-solo corre, abundante, pelas valas. As ruas, limitadas por filas de árvores de alto porte, são enormes, rectilíneas, circulando à vontade, por entre elas, os automóveis. O jardim, bem tratado, com lindas flores; as dependências, os estábulos de gado de raça, tudo, enfim, que constitui os elementos de uma fazenda agrícola, ali se encontra bem delineado, bem tratado, numa amplitude e num conjunto que prende e encanta.» (vidé mesmo Boletim)

No decurso dessa visita, Eduardo Mendonça Torres acompanhou o Presidente da República na tradicional caçada no deserto de Mossâmedes, onde, no Pico do Azevedo foi servido o pequeno almoço e no local onde faleceu o Dr. Luiz Carriço, - Os morros Paralelos – foi prestada homenagem à memória do professor e naturalista, tendo-se seguido a caçada propriamente dita, com o abate de várias gazelas e guelengues, enquanto operadores cinematográficos filmavam. Ao almoço o General Carmona ergueu um brinde a Eduardo Mendonça Torres, felicitando-o pelo «belo tiro certeiro».(vidé o mesmo Boletim)
Outra figura de destaque desta família foi o Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, cuja obra “O Distrito de Moçâmedes”, de sua autoria (edição da Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1974 (reprodução fac-similada da edição de 1950), são dois volumes considerados o melhor e mais completo estudo sobre a história do Distrito de Moçâmedes, hoje Namibe. Manuel Júlio de Mendonça Torres, sabe-se também, foi um ardente apóstolo da causa que levou à inauguração da solene da «Escola Primária Superior Barão de Mossãmedes» (in “O Mossamedense”, (vidé nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série Director: Alberto Trindade-Editor: Joaquim Augusto Monteiro). Foi professor de Português e História nessa «famosa» Escola que ficava situada nuns prédios voltados para Avenida da República, paralela ao mar, e que preenchia toda a Rua transversal até à Rua dos Pescadores, onde leccionou desde princípios dos anos 20 até princípios dos anos 40(?), quando resolveu fixar-se em Lisboa, onde passou a escrever para os jornais e revistas oficiais, e se dedicou a escrever os dois volumes do seu belo livro sobre a História da nossa Terra (*). E onde veio a falecer nos anos 50.

MariaNJardim


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Rui Duarte de Mendonça Torres foi o último gestor dos negócios e bens desta família, nas áreas da indústria pesca e agropecuária .

As «Hortas» da família Torres, junto do terrenos férteis do Rio Bero, eram verdadeiro Oásis em pleno deserto do Namibe, e estavam abertas à visita de todos os moçamedenses que a quisessem visitar. Ali junto ao bonito «challet», onde se estendiam longas fileiras de mesas, à sombra amena de frondosas árvores de frutos tropicais e mediterrânicos: mangueiras, tangerineiras, laranjeiras, nespereiras, goiabeiras, videiras (em latadas), etc., etc., faziam-se piqueniques que ajudavam a preencher, agradavelmente, os fins de semana de muitas famílias, numa terra onde a luta pela vida era o pão nosso de cada dia. Nas «Hortas» da família Mendonça Torres sequer faltava um mini-zoo com vários animais do deserto, cabrinhas de leque, zebras, guelengues, etc., que faziam o encanto de adultos e crianças, sem esquecer o grande tanque cheio de água (bebedouro dos animais) que servia de piscina onde os mais novos se iam banhar. Alí não havia restrições, e as crianças podiam correr, saltar, brincar, trepar às àrvores à vontade, colher frutos, comê-los, e, na hora do regresso a casa, as famílias sempre podiam contar com a graciosa oferta de saborosos frutos.
Tenho notícias que já não existe o referido "chalet" e que até o portão da entrada, obra do século XIX com a data gravada,  foi arrancado dali retirado não se sabe para onde.
A exploração pecuária desta família situava-se na zona semi-desértica do Caraculo onde possuía uma casa de tipo colonial situada no topo de um enorme rochedo granítico.

Pesquisa e texto de MariaNJardim

 
Fotogravuras extraidas do livro «O distrito de Moçâmedes» da autoria do Dr. Manuel Julio de Mandonça Torres. 
Alguma bibliografia consultada:

-«O Distrito de Moçâmedes» da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres»
-“O Mossamedense”,  nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série Director: Alberto Trindade-Editor: Joaq
uim Augusto Monteiro
- Boletim
da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330
-GeneallNet


Clicar AQUI para ver: Lista dos 1ºs. colonos chegados a Moçâmedes, provenientes de Pernambuco (Brasil).
HORTAS DE MOÇÂMEDES 




MariaNJardim
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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

João Chagas . Memorial Republicano XL



João Chagas

O renitente degredo de João Chagas

Era um homem alto, desempenado e bem parecido. Encontrava-se prisioneiro na cadeia da Relação do Porto quando a cidade foi percorrida pelos republicanos amotinados que fizeram a revolta de 31 de Janeiro de 1891. Daí tentou seguir todos os lances da emocionante jornada, como se estivesse num “camarote de ópera”. Ninguém teria desejado mais do que ele o triunfo daquele pronunciamento. Chamava-se João Pinheiro Chagas mas todos os democratas o conheciam, mais abreviadamente, por João Chagas.
A sua família havia emigrado para o Brasil no decurso dos confrontos entre miguelistas e liberais. Cedo se deu conta que João Chagas demonstrava extraordinárias qualidades para a missão do jornalismo. Possuía um estilo literário másculo, vibrátil, servido por uma lógica irrefutável e por imagens que surpreendiam pela sua adequação à realidade. Também fazia gala de uma pouco vulgar e aprofundada cultura. Homem requintado, talvez até um pouco dado ao hedonismo, ganhou a estima de figuras cimeiras da aristocracia do tempo, como Bernardo Pinheiro de Melo, o futuro Conde de Arnoso, que lhe franqueou a intimidade do lar e lhe devotou uma sincera amizade. Veio o Ultimato. João Chagas indignou-se, substituindo a pretérita posição de jornalista neutral - ou pelo menos não enfeudado - por uma outra mais interveniente. E como, a partir de então, o campo da sua peleja se identificasse claramente com o republicanismo, João Chagas afastou-se de muitas das suas sociabilidades habituais. Assim, deixou de frequentar o domicílio de Bernardo de Melo, para que aquele amigo não se sentisse constrangido com uma militância política que só poderia ser-lhe adversa. No Porto, fundou o combativo jornal A Republica Portugueza (sic), dando guarida aos clamores de desafronta que partiam de todas as camadas sociais e, sobretudo, realçando as exortações à revolta formuladas por militares pouco graduados. Por isso, sofreu em 26 de Janeiro de 1891 uma condenação judicial que o levou à prisão, tendo sido a partir da sua cela que seguiu o rumor da revolta portuense do dia 31. Quando esta se gorou, as autoridades monárquicas consideraram-no como um dos seus mais perigosos inspiradores. Por isso, João Chagas foi julgado em conselho de guerra e condenado a quatro anos de prisão maior celular ou, em alternativa, a seis anos de degredo.


Levaram-no então para Angola, cumprindo a sua pena entre Luanda e Moçâmedes. 


A audácia, que sempre revelara, acalentou-lhe o sonho da evasão. Falhou a primeira tentativa de fuga, mas concretizou uma segunda, a bordo do iate Adelaide, que o levou até ao Congo Belga, numa tormentosa travessia marítima. Daí partiu para Paris, onde foi encontrar numerosos conspiradores da jornada nortenha, como José Pereira de Sampaio (Bruno) e Alves da Veiga. Lá se inteirou das diligências feitas na pátria por José Falcão e dos rumores que davam como quase preparada uma segunda tentativa militar anti-monárquica. A sua impaciência, aliada ao desejo de tomar parte activa em todas as sedições ou pronunciamentos republicanos, trouxeram-no de volta ao Porto. Cumplicidades várias procuraram proteger-lhe a clandestinidade, mas o cerco policial estreitava-se dia a dia. O velho José Falcão fez-lhe chegar a oferta de o alojar e proteger no seu próprio domicílio conimbricense. Contudo, João Chagas não o quis tornar cúmplice de um acto que seria sempre ilegal e que poderia fazer dele a vítima da própria generosidade. Presumindo que não poderia proteger-se por muito mais tempo, regressou a Paris. Entretanto, no Porto, o seu jornal mudara de cabeçalho: como a lei proibia agora o uso público do vocábulo "república" , a folha A Republica Portugueza passou a aparecer com o nome A [espaço em branco] Portugueza ! Nele se estamparam artigos da sua lavra, sobretudo de conteúdo político. Regressou ao Porto uma vez mais, sob nome falso e com documentos sanitários forjados. Mas agora a sua boa estrela empalideceu, pois acabaria por ser aprisionado, talvez devido a denúncia.
Conduziram-no novamente para Angola. José Falcão já havia falecido. Tudo parecia perdido para a causa republicana. Em Luanda, a fortaleza de S. Miguel recebeu o presidiário nº 170 da Terceira Companhia, homem de letras, de prelos de jornal e de inamovíveis convicções, que aguentou sem pestanejar os motejos e as provocações grosseiras de carcerários torpes, rudes, de brutal atitude. Mais uma vez se constituiu um conselho de guerra para punir exemplarmente a sua evasão. Porém, já em plena sala de audiências, divulgou-se a notícia de que o Poder monárquico havia amnistiado os civis ligados ao movimento portuense. Tiveram de o soltar. Poder-se-ia imaginar que depois de tamanhos incómodos, vexames e perseguições, o antigo presidiário tinha chegado ao ponto de dar tréguas aos que tanto se tinham encarniçado para o neutralizar. Puro engano. Numa carta que por então escreveu, dirigida ao tenente Manuel Maria Coelho, encontramos esta solene declaração, espelho de uma vontade sem vacilações, temperada pela prova de mil adversidades: “ Vou tornar a ver a terra de que nos baniram. (…) Eu parto para novas lutas. Cada um de nós, os que entrámos honradamente neste pleito, tomou o compromisso tácito de o ganhar ou sucumbir nele. Temos na vida um intuito que a preenche. Queremos uma Pátria nova. Havemos de fazê-la”.
Publicado por Amadeu Carvalho Homem

http://republicamiranda.blogspot.pt/2010_04_01_archive.html

 

Curiosidades:

João Chagas, jornalista exilado em Moçâmedes, dizia na sua obra "Diário de um Condenado" que "...Mossâmedes  não sendo uma colónia próspera , não fornecia borracha, marfim,  cera, café, produzia em comparação belas e saudáveis crianças que toleravam o sol ardente, e o interior das casas  da população branca, pintadas a cal, oca, anil, e vermelhão mantêm quadros e móveis tradicionais dos interiores das familias portuguesas."

João Duarte de Almeida e Bernardino Abreu e Castro, colonos fundadores de Mossâmedes ( Moçâmedes, Namibe, Angola) e a abolição da escravatura



Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro
João Duarte de Almeida

Joao Duarte d'Almeida

João Duarte de Almeida e Bernardino Abreu e Castro foram dois apóstolos da abolição da escravatura.

João Duarte de Almeida faz, sobre o assunto, fez  diversas exposições ao ministro Sá da Bandeira, porém não lhe sobrando espaço em seu livro para transcrever as suas exposições ao Governo Central de Lisboa,  o padre José Vicente detém-se sobre a que fez Bernardino em 15 de Abril de 1857 ao governador-geral da província,  José Rodrigues Coelho do Amaral, a pedido deste :

Temos sobre os olhos esse notável documento, glória de quem o escreveu. Escreve o fundador de Moçâmedes:
"... Direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões de inteligência me ditam, e bem assim o que a experiência de quase oito anos, dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com escravos e gentio livre, me há demonstrado. Dividirei a questão  sob dois pontos de vista:
1º.- Acabar o tráfico da escravatura para fora das possessões portuguesas;
2º.- Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.
Enquanto ao primeiro ponto, a razão, a humanidade, e a própria conveniência reclamam que o governo português, com as mais urgentes medidas, ponha por uma vez termo a tão vil, desumano e degradante tráfico, que, em vez de ser útil às mesmas possessões, é causa do seu completo, para não dizer vergonhoso atraso.
Sem me demorar em descrever os horrorosos delitos cometidos em ujm embarque – delitos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos de homem, e que mal me poderia acreditar de que os mesmos homens os cometessem, se se não vissem tantas vezes repetidos: sem me demorar a descrever o que sofrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde, empilhados, mortos de fome e de sede, etc. - somente direi que tal tráfico, além do ferrete da ignomínia e da barbaridade, que acarreta aos que nele tomam parte, é de nenhuma utilidade, se não é de prejuízo para os que residem nas possessões, porquanto, raras vezes recebem o produto dos infelizes que uma louca ambição os faz sacrificar, e, se algum recebem, é tão cerceado e moroso, que não remedeia quase nunca as suas necessidades."
Bernardino comprova a seguir as suas afirmações de forma irrefitável, denunciando os traficantes de escravos que obtinham, com pouco trabalho, meios abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa.

Continua: " A opinião do mundo reprova o infame e criminoso tráfico: a situação e ordem das coisas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o estigmatiza: e só tem a seu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados. Mas quem são estes? Que o digam aqueçes que têm caido no laço de fazer tais consignações. Se não fora a verdade de que o número de loucos é infinito, se não fora a possibilidade de os negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos -- como farão em último recurso, pois  que não se limita a venda de escravos só àquela ilha, mas dalí se vendem muitos para o sul da América do Norte, e por alto preço -- eu diria que o tráfico de escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza, porém em razão dessas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois que me parecem por si só eficazes.
Primeiro, tornar responsáveis as autoridades administrativas e policiais por qualquer embarque que se faça nas terras das suas jurisdições: mas que essa responsabilidade seja acompanhada das mais severas penas, e não fique só escrita no papel; este só meio acabaria de vez com tal tráfico Quem vive na África sabe o que é um embarque, e tem ouvido o ritinido das correntes, o eco do pisar dos pés oprimidos pelo peso dos ferros, o bulício de lanchas e botes, o rápido andar de centos de homens, que aceleradamente se dirigem às praias. Bem se vê que difícil é que as autoridades deixem de o saber, e, portanto, por tal facto, se aconteceu, ou foi por conveniência ou por tolerância. Admito, porém, ainda que fosse possível, sem que a autoridade o soubesse, em tal caso, lembro.

Segundo, que o Governador da Província seja autorizado a despender algune contos de réis com espiões, por ano, os quais sejam obrigados a dar parte às autoridades administrativas e policiais do local, de qualquer embarque, que se pretende fazer: penso que assim nenhum terá lugar.

Estes espiões devem ter locais marcados nas costas: poe exemplo, nesta província ter um a seu cargo dar parte do que ocorrer entre Mossamedes e a Lucira: outros, entre esta e Benguela, entre a Catumbela e a Anha: entre esta e Novo Redondo: entre este e Benguela Velha: entre esta e o rio Longa. entre esta e a cidade de Loanda: entre esta e o Dande: entre este e o Ambriz: entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos despesa do que a que se faz com os cruzeiros, que por maiores que sejam e mais vigilantes, farão diminuir, mas não acabar com o tráfico para o exterior, se consegue o fim desejado."

Bernardino fas depois judiciosas considerações sobre o problema da abolição da escravatura dentro das possessões portuguesas de África, Dis que, neste capítulo, se trava uma luta entre o coração e a cabeça. Aquele --acentua-- diz que é bárbaro e unhumano, que qualquer homem seja obrigado a servir outro, e que não gose do mais sublime dote da natureza, o uso da sua liberdade, esta grita que isso é verdade, mas aponta-nos as consequências que daí podem resultar para a questão sujeita.

Considera o estado das possessões; os usos e costumes dos europeus que as habitam; o estado da civilização dos indígenas que as habitam; se para se conservarem as possessões será bastante o comércio, ou se são necessárias também a cultura e a indústria fabris; e se a cultura e indústria frabris podem ser feitas por braços importados da Europa, ou somente por indígenas.
Bernardino é abertamente contra a manutenção da escravatura em África, mas opina que, para tanto, devem os europeus esforçar-se por civilizar as populações indígenas, o que não se verifica. Com efeito, diz: "costumes, religião, e governo do gentio, são quase geralmente os mesmos da primitiva, só com a diferença de que nada de bom lhe têm ensinado, sntes comunicado os nossos vícios. Não se diga que sou exagerado: podia referir muitos factos que tenho presenciado, que demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar inactivo nas terras do litoral, mas correr ps sertões, ver o que por lá vai e o que se faz, para bem avaliar o que duzemos". 

Aceita o fundador de Moçâmedes que é preciso usar de alguma força para convencer os nativos que têm de trabalhar. E explica: "Os pretos, segundo os seus usos, não devem trabalhar na cultura nem nos serviços domésticos: são as pretas. A profissão deles é caçar, pescar e carregar, Se um preto, poe exemplo, tiver uma mulher doente, e for buscar uma cabaça de água, ou uma feixe de lenha, comete maior crime e paga maior multa do que se matasse outro preto."

Continua: "Quem percorre os sertões, e com olhos de investigação observa o que se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os pretos, porque as pretas são as que cultivam, fazem comida, preparam as bebidas e até o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: têm estes, quase todos,  mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correia na cintura com um palmo de couro que lhe cubra as partes podendas, e outro palmo que lhe cubra as partes por detras, eis um preto vestido de ponto em branco. Dois ou três porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo faz , -- ou a parte que tem ferro, os seus ferreiros --ei-lo armado e pronto a seguir para toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia."

Deduz, com verdade lógica Bernardino: "À vista, pois, dos costumes que venho de referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das possessões, é necessário, ou que o gentio obedeça e que cumpra a lei que se lhe impuser, e perca seus maus e inveterados usos por meio da força, ou que se empreguem meios de o civilizar, incitindo-lhes os princípios da sã moral. O primeiro meio é quase impossível, porque deemanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor: o segundo é o mais conveniente, e depende somente de espelhar por entre os gentios bons missionários. Com este meio, em poucos anos muito se conseguiria."

Não restam dúvidas de que Bernardino é absolutamente contra a escravatura, Mas é preciso preparar, para tanto, os próprios gentios. Conta ele:
"Quando as circunstâncias me obrigaram a ir convocar uma guerra gentílica contra oa Gambos, muitas foram as embaixadas que recebi, e em todas se me dizia que tal soba estava pronto para o serviço do Rei, porém que este os queria prejudicar, acabando com os escravos, que era o seu primeiro rédito. Combati, como em tais lances me foi possível, semelhante reclamação, e talvez que ouvissem a esse respeito o que ainda não tinham ouvido.  Combato esse bárbaro costume, e tais razões lhes dei, que não lhes ficaram esperanças de poderem continuar tão degradante uso, assim tive o que pretendi, e foi daí que tirei por conclusão, que, com bons missionáriuos, fácil seria fazê-los mudar de seus maus costumes, senso a primeira necessidade incutir-lhes amor ao trabalho; porquanto a ociosidade que professam, lhes faz abraçar todos os maus usos que a favorecem". 

Neste pormenor se revela a personalidade de colonizador e civilizadoe de Bernardino. "Os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis, e felizes pela sua agência, que para eles já é hábito. Eduquei-os antes com boas maneiras do que com castigos bárbaros: não têm tido fome, nem falta do essencial, e por isso me nãp fogem, e vivem satisfeitos. Se, em vez de trinta, tivesse tido três mil, daria hoje à África outros tantos bons trabalhadores".

E mais adiante: " Não me agrada a dintinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores, com iguais direitos e obrigações. Sé é distinto o que merece, pelo seu comportamento."

Bernardino conclui: "Entendo que bem podia legislar-se sobre os serviços que deviam prestar os pretos e a humanidade mesmo reclama se comprem nas nossas possessões, segundo o estado actual, sem se usarem os reprovados nomes de escravo e liberto. Se o infeliz há-de injustamente perecer, é mais humano comprar-lhe os seus serviços, que tão úteis se podem tornar em mãos de homens bons e inteligentes, sendo tais serviços, por enquanto, essencialmente necessários nas mesmas possessões. Era isso mais racional e mais justo que se fizesse, uma vez que se fizessem regulamentos em respeito ao modo como deviam ser comprados e tratados -- regulamentos cuja exacta execução fosse encarregada às autoridades administrativas e policiais, com a mais severa responsabilidade; porém, repito ainda,  que esta responsabilidade não deveria ficar somente escrita no papel, como acontece a quase todas as nossas leis. Sou, na província, o menos entendido; porém, dos que mais desejam o progresso, qumento e civilização das nossas possessões."
Bernardino escreveu estas palavras em 1857, como acima deixamos dito. Pois uma ano decorrido, em 1858, Portugal decretou que, passados vinte anos não poderia haver escravos; mas onze anos depois, isto é, em 1869, aboliu o estado de escravidão, pelo que passaram à condição de libertos todos os escravos, em todas as suas possessões.

Estraordinária vitória esta! Mas, para que a mesma fosse possível, decisiva influência tiveram João Duarte de Almeida e Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.
Honra lhes seja! "


do Livro intitulado  "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro" .  Vicente, Jose (Gil Duarte), pg 1959.

Ver tb AQUI