Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 7 de janeiro de 2012

Frank Newton: viagens de exploração ao distrito de Mossamedes (Mocamedes, Namibe, Angola)



 Pelo interesse que possa eventualmente vir a ter, trancreve-se passagem de um ensaio encontrado na Net e subordinado ao titulo: A ciência como arma de guerra



"...O uso da argótica tem a vantagem da duplicidade: oculta a verdade a estranhos e ao mesmo tempo revela-a aos confrades. Uma vez que revela a verdade (através da geografia imaginária, da nomenclatura errada, etc..), a questão ética fica salvaguardada. Carlos Almaça, actual director da secção zoológica do Museu Nacional de História Natural (Museu Bocage), tem acesso fácil a um útil arquivo histórico, o da instituição que gere, pelo que há a louvar a divulgação que dele tem feito, ao contrário dos naturalistas da casa que o precederam. Entre os raros a declararem ter recorrido a esse fundo manuscrito foram Albert Girard e Bettencourt Ferreira, para arquitectarem a biografia de F. Newton. Infelizmente, esses documentos - diários, cartas geográficas e fotografias - ficaram para sempre desconhecidos, quiçá mesmo dos utilizadores, pela razão simples de que a biografia de F. Newton é uma fábula colectiva, ou, se preferirmos, um conjunto de enunciações no modo da linguagem das aves, esse discurso alquimista que cria geografias, exploradores e espécies imaginários para advertir que na realidade há experiências em curso, e que é preciso proteger as novas espécies com o segredo, até plantas e animais fixarem os caracteres e constituirem populações. Ora indivíduos nestas circunstâncias podem ser usados de forma subversiva.
Ao longo da sua existência, o Museu Nacional de História Natural tem desempenhado acção
política de grande relevo, tal como acontece com instituições similares estrangeiras, incluídas as
espanholas. Desenvolveu um metódico plano de subversão de Estado, o que só demonstra o poder
do discurso da razão quando enunciado no modo da Arte. O documento mais impressionante para demonstrar a acção subversiva não é um manuscrito, sim um catálogo publicado nos Arquivos do Museu Bocage [Jorge]. Enumera as espécies exibidas na Sala do Museu Bocage, integrada na Exposição do Mundo Português - Lisboa, 1940. Esta exposição, o maior espectáculo de massa ocorrido em Portugal antes da Expo-98, é um episódio de autoglorificação do ministério fascizante de Salazar. Tinha como objectivo mostrar as riquezas naturais da metrópole e ultramar, exaltar os nossos homens ilustres, elogiar o nosso papel civilizador como Império Colonial Português. Em suma, um acontecimento de carácter colonialista e nacionalista.

O mais notável na Sala do Museu Bocage não é o que foi exibido, sim o que não foi. O público
não pôde apreciar a Hyalonema lusitanica, uma esponja de profundidade vulgar na foz do Sado, em
Setúbal, embora ainda não tenha sido demonstrada a existência de uma população; nem o Macroscincuscoctei e Tarentola gigas, répteis exclusivos de Cabo Verde, que demonstram aspectos fundamentais da biologia em espaço insular, como o gigantismo e o melanismo; não foi exibida nenhuma das duzentas e cinquenta espécies descritas por Bocage e nenhuma de Baltasar Osório. Para
máximo espanto, não foi mostrado um único exemplar de Chioglossidae, família de salamandras
endémica de Portugal e Espanha, incluídos os quioglossos de Ávila e do Alentejo, mais conhecidos
por Ghioglossa lusitánica (Guedes & Peiriço, 1998).Não foi exibida uma só espécie característica do espaço português ou representativa do papel civilizador de Portugal no mundo, pelo contrário. Em vez de nacionalista, a Sala do Museu Bocage apresentou-se o mais internacional possível, só exibindo espécies cosmopolitas, algumas de distribuição transcontinental, e todas elas descritas por estrangeiros. Para acentuar o anti-colonialismo, foram apresentadas numerosas espécies brasileiras, porque, à data, entre as antigas colónias portuguesas, só o Brasil era um país independente. Outro manifesto anti-colonialista, e que podemos até considerar atentado directo contra Salazar, foi o facto de a avifauna de Cabo Verde estar representada por quatro espécies que nenhum catálogo ornitológico menciona para o arquipélago: Mettalococcyx smaragdineus, Halcyon cemicaerulea, Halcyon dryas e Corvus umbrinus. Como foi possível tanta audácia? Havia retaguarda militar a suportar a declaração de guerra científica.

Em Portugal, a maior parte das revoluções deve-se aos militares. Quem convidara Artur
Ricardo Jorge, então director do Museu Bocage, a participar na Exposição do Mundo Português,
tinha sido um capitão, que anos mais tarde viria a celebrizar-se com a Operação Dulcineia, classificada por Salazar como acto terrorista. Esse militar, Henrique Galvão, era um naturalista, profundo conhecedor de África, acerca de cuja História Natural e antropologia deixou vários livros. Consistiu a Operação Dulcineia no rapto do paquete Santa Maria, que a bordo levava perto de mil ocupantes. O célebre acto de terrorismo foi empreendido com apenas meia dúzia de agentes subversivos, e iniciou-se em área de influência espanhola, a Venezuela. É falsa a asserção vulgar segundo a qual Portugal e Espanha estiveram sempre de costas voltadas, tal como é falso o provérbio português de que De Espanha, nem bom vento nem bom casamento.

Posto isto, é natural que a primeira biografia do juvenil Francisco Newton se enuncie na melhor
tradição científica de guerra. Cito literalmente Júlio Henriques:

«O Sr. Frank Newton visitou algumas colonias portuguezas da costa occidental da Africa e ahi
colheu plantas. Começou os seus trabalhos de exploração em 1880, principiando em Mossamedes, seguindo para o Giraul, visitando em julho a região da Wellwitschia e as margens do Rio Coróca. Em agosto, seguindo para o interior, passou por Giraul, Pedra Grande, Monhino, Capangombe. N’este mesmo anno herborisou no Bumbo, subiu á Serra de Chella, foi á Huilla, ao arraial de Cayonda, às povoações de Maconjo, Tampa e aos terrenos calcareos de Quitibe e Pomangala. De Mossamedes seguiu por mar para Porto Alexandre, e d’ahi foi de novo em janeiro de 1882 ao Coróca. Em abril partiu para Humpata e foi na companhia do padre Duparqeut até ao Humbe, seguindo por Chimpumpunhime, Hai, Gambuc, visitando os morros do Tongo-Tongo, de ferro
magnetico, e Xicussi na margem do Caculo-Bale. Do Humbe seguiu com uma expedição dirigida por Erikno para caçar elephantes e avestruzes ás margens do Cunene até Camba, Mullondo e Quipundo, indo então ao paiz dos Otchiaviguas, d’onde se dirigiu para as cataratas do Cunene, voltando em agosto a Mossamedes. Em setembro voltou ao Humbe e atravessando o Cunene chegou até Donga. Em outubro, atravessando de novo o Cunene, encontrou-se com Lord Mayo, em cuja companhia foi até Mossamedes. Em 1883, não chegando a bom caminho uma expedição belga á qual se tinha aggregado, apenas colligiu plantas em Giraul, Monhino e Biballa. Vê-se que não foi pequena a area explorada, e que a collecção formada deve offerecer interesse consideravel. O catalogo das plantas colhidas será publicado ao passo que forem sendo estudadas. Na parte que hoje é publicada são já mencionadas algumas especies novas».

«Frank», «Wellwitschia», «Erikno», «Duparquet», etc., são casos de cabala fonética, cujo objectivo é fácil de compreender, se declarar que é falsa da primeira à última linha esta nota biográfica de Francisco Newton. E contudo ela é verdadeira da primeira à última linha, se ignorarmos o biografado.

Júlio Henriques redigiu um retrato-robot do explorador em geral, aproveitando fragmentos
de biografias de outros exploradores, portugueses e estrangeiros: do filho de Andersson,
que acompanhou Erikson e o botânico Duparquet desde a Damaralândia à Huíla (Viagens pela
Cimbebásia); de Padre Antunes, discípulo do Reverendo Duparquet, que fundou com este a Missão
da Huíla; de Capelo e Ivens (De Angola à Contracosta) e Serpa Pinto (Como Eu Atravessei a África),
de Van de Velde e Stanley (The Congo and the Founding of its Free State), de Lord Mayo (De
Rebus Africanis), etc.

Os naturalistas disparam rochas, animais e plantas uns contra os outros. Arma usada também
foi a Certhilauda duponti var. lusitanica, de que fala Baltasar Osório na sua tese doutoral, para
confirmar a teoria de que animais transportados para longe do seu habitat sofrem modificações
suficientes para poderem ser descritos como novas espécies ou raças. Tudo isto é linear, excepto
que em Portugal não existe nenhuma população de Certhilauda duponti. Foram coligidos três
únicos exemplares na Quinta do Alfeite. Em Espanha, sim, existem populações dessa ave canora,
hoje chamada Chersophilus duponti, na região do vale do Ebro, Granada e Almeria.


A ciência como arma de guerra

ENSAYOS
A CIÊNCIA COMO ARMA DE GUERRA
María Estela Guedes
Associação Portuguesa de Escritores. Centro Interdisciplinar de Ciência,
Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa.
Asclepio-Vol. LII-1-2000

Para saber mais, consultar tambem AQUI

A Igreja paroquial de Mossâmedes , Moçâmedes, Namibe, Angola

A Igreja Paroquial de Santo Adrião

De arquitetura religiosa simples que nada tem a ver com o gótico que nos habituámos a ver em Igrejas europeias, a Igreja de Santo Adrião de Moçâmedes começou a ser erguida em 27 de Julho de 1849, por Instruções Provinciais, de 30 de Março de 1849, emanadas do Governador Geral Acácio Adrião da Silveira Pinto, encarregando o major Ferreira Horta de "construir um  templo de dimensões suficientes para albergar "não só todos os habitantes da colónia, como ainda os indígenas vizinhos, que viessem à povoação assistir aos actos religiosos, ou que em dias santificados nela se encontrassem". Foi pois construida num quadro predominantemente laicizante na urbanização do século XIX, em que se verificava pouco investimento público no que diz respeito ao tema religioso, por comparação com a época anterior, o que pode ser explicado pelos novos aspectos estilísticos e do gosto. Assim verifica-se a preponderância do modelo clássico, que é patente na Igreja de Santo Adrião de Moçâmedes, dos anos 1840‐1850, onde domina a habitual composição simétrica, expressa na fachada, com o frontão central, triangular ou curvo, ladeado de uma ou duas torres nada a ver com outras igrejas torreadas, em que a torre surge frequentemente em posição central, na tradição de algum gótico francês, com marcação expressiva das linhas verticais e aplicação sistemática do arco ogival.

De facto as obras começaram em 30 de Março de 1849 mas não foram continuadas. Faltava o homem que tudo impulsionava. Foi Bernardino quem tomou providencias, e de tal modo que, em relatório de Fernando Leal de 31 de Dezembro de 1854, se pode lêr:

" Devem ter surgido dificuldades, pois a igreja demorou mais, muito mais de três meses, a ser concluida. Isso, porém, em nada diminuiu o papel de Bernardino na sua construção, e estamos em crer que nela terá gasto avultadas quantias do seu generoso bolso. Àcerca da Igreja, diz Bernardino em crónica de 2 de Novembro de 1849: "Bem urgente é vê-la ultimada, pois não podia deixar de escandalizar a qualquer viajante católico, que uma sociedade tão numerosa como é hoje a de Moçâmedes, não tenha uma casa de oração, onde reuna para dar graças ao Todo Poderoso e pedir os auxilios de que cada qual carece."

Sabe-se que a sua conclusão foi efectuada com base em subscrições levadas a cabo entre os moradores, numa época em termos económicos os colonos começavam a dar, também eles os primeiros passos.


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A Igreja de Santo Adrião. Os cuidados do pároco Gil Carneiro pela construção e embelezamento do templo; notas biográficas

 

A velha Igreja de Santo Adrião começou a construir-se há um século, com o lançamento solene da primeira pedra, em 27 de Julho de 1849, antes, portanto, da chegada a Moçâmedes da primeira colonia, era, ainda no no distanciado ciclo que  que memoramos "um templo bem acabado, sólido, bonito" como o representava o secretário-geral Pinto de Balsemão, no seu ofício de 27 de Março de 1868,  em que relata a visita que fizera à já conhecida e "afamada vila".

O templo apresentava-se então "gracioso e alegre, mercê das solícitas diligências com que o mui reverendo e digno padre Gil" como se expressava  Balsemão,  havia ordenado e dirigido a pintura das paredes interiores". 

Quem era o padre Gil?

-Um sacerdote exemplaríssimo e muito culto, que exerceu, em Moçâmedes as funções de pároco encomendado da freguesia, cumulativamente com as de professor de ensino primário. 

 Vamos delinear, com alguns outros, os traços mais salientes da sua biografia, que extraimos do volume III, ano 1895, da Revista Portugal em África, pg.1079:

 O padre Gil, de sua dignidade nome e apelidos completos, cónego João Bento Gil Carneiro, nasceu em Peso-da-Régua, concelho de Trás-os-Montes, e ordenara-se em 1865, tenso estudado Teologia no Seminário de Leiria, onde fora professor. Nomeado missionário da Diocese de Angola e Congo, por Decreto de 24 de Outubro de 1866, assumiu, pouco  depois, as funções docentese paroquiais na vila de Moçâmedes,  sempre respeitado e benquisto dos colonos. Em 1870 foi pároco em Benguela. E missionário também nos concelhos de Dombe Grande, Benguela, Quilengues e Caconda, ensinando e baptizando indígenas. Ao passr pelos territórios do soba Gola Hiambi,  baptizou-o e avassalou-o à corôa portuguesa, realizando assim uma dupla missão, religiosa e política. Em Caconda, cuja Igreja havia desaparecido, celebrou, numa saleta da residência, as solenidades do culto. Baptizou 17 indivíduos. Pouco depois seguiu para Quipembe, a 13 quilómetros de Caconda, avançando daqui para  Calugogolo e depois para Quingolo. Durante esta viagem batizou 56 pessoas. Regressando a Caconda, baptizou 121 indivíduos. Sindo para Canjueva, baptizou 262 pessoas, e voltando mais uma vez a Caconda, administrou o mesmo sacramento a 208. Em 30 de Agosto do mesmo ano de 1870, benzeu o novo cemitério, e, no dia imediato, partiu em direcção a Benguela onde chegou a 18 de Setembro, tendo baptizado mais 106 pretos na sua viagem de Caconda a Quilengues, e mais 149 nas terras deste nome. Foi cheia de canseiras e sofrimentos, com iminência de perigos, em climas depauperantes, a vida do respeitável sacerdote,  ardentemente compenetrado do virtuoso e patriótico ministério da religião e da Pátria.

Em Moçâmedes, o padre Gil foi sempre desejoso dos seus progressos e muito querido e recordado de quantos o conheceriam e apreciavam as cativantes qualidades de cultura e coração. Regressando ao Reino, foi colocado, por Decreto de 14 de Junho de 1872, numa freguesia do Patriarcado - a de Nossa Senhora de Azambuja - e, mais tarde, por Decreto de 21 de Dezembro de 1882, na de S. Sebastião da Pedreira. Por Decreto de 11 de Outubro de 1895, foi agraciado com a comenda da Conceição pelos releventes serviços que prestou como missionário e professor.  Abrilhantou a oratória sagrada tornando-se credor dos justos ecómios com que a imprensa o distinguiu. Colaborou, igualmente, com fulgurância em alguns dos melhores jornais do país. Faleceu em Lisboa, a 5 de Dezembro de 1907.

 

Tendo-nos referido, no presente trecho deste capítulo, ao edifício actual da Igreja Matriz, parece-nos acertado descrever o concebido projecto da nova igreja a construir, em local indicado, no plano de urbanização da cidade, que já foi aprovado pelo Ministro do Ultramar, Sr. Comandante Sarmento Rodrigues.

Reproduziremos, para tal, a crónica da Agência Geral do Ultramar, distribuida pela Casa da Metrópole de Luanda e publicada no Diário de Luanda de 19 de Janeiro de 1952.

"A fachada principal do novo templo, de grande beleza arquitectónica, apresenta dois baixos-relevos com cenas da vida de S. Pedro, e  é dominada por uma cruz alta, de bronze, iluminada com tubos de neon  que projectarão um cruzeiro com 14 metros e 50.

"A nova Igreja, em cuja planta foram rigorosamente observados os preceitos litúrgicos, tem a confuguração de cruz latina. De nave única, permite, de qualquer ponto do seu interior, uma visão perfeita sobre o altar-mor, destacando-se, entre outros pormenores,  a localização do baptistério,  de forma a que o neófito não entre na Igreja antes de baptizado, e a da câmara mortuária, com entrada independente,, o que permite a normal celebração do acto do culto.

"Tanto a escultura, como a pintura a fresco, contribuem para realçar a beleza do magnífico conjunto arquitectónico, dando-lhe a dignidade e imponência próprias do elevado fim a que se destina esta nova obra. No topo de uma das naves haverá um carrilhão e um indicador das condições atmosféricas, de grande utilidade, especialmente para a população piscatória da cidade, e na torrem um relógio e um sino de grandes dimensões.

In Conspecto Imobiliaário do Distrito de Moçâmedes nos anos 1860 a 1879 por Manuel Júlio de Mendonça Torres
Boletim Geral do Ultramar . XXX - 348 e 349
PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.
Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.


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 Pelo interesse que se reveste para o assunto, passarei a transcrever o texto que segue:

 

"Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro", Fundador de Moçâmedes. Figuras e feitos de além-mar. Agência Geral do Ultramar, by Padre José Vicente (Gil Duarte). pgs 73 a 79.

 

"AS SOCIEDADES FLORESCEM QUANDO A RELIGIÃO TRIUNFA"

 

 Filhos de pais profundamente católicos, Bernardino católico se conservou até ao fim. Já aludimos a um documento em que Pedro da Fonseca, pároco encomendado de Nogueira do Cravo, dizia, em 1829, do seu paroquiano, o estudante de Leis Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro: "Tem sido (...) amigo da Igreja, assíduo observador das leis, tanto divinas como humanas..." Com que devoção Bernardino escreveu a "História Sagrada ou Resumo Histórico do Antigo Testamento", a "História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos" e a "História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias"! Tinha Bernardino o hábito de empregar algumas frases, como frases de cruzado para entusiamar a sua gente. Uma delas, já o sabemos, era esta: "Só será salvo o que preservar até ao fim!" rebuscada nos livros santos. Outra : "As sociedades florescem quando a Religião triunfa!". Ainda no Recife, preparando meticulosamente a viagem para Moçâmedes, Bernardino tomava como obrigação da colónia, logo que se estabelecesse em terras da nossa África, a "obrigação de ser o seu primeiro trabalho erigir um templo, pois que à colónia, em projecto, acompanhará um sacerdote de exemplar conduta, e é de sumo interesse estabelecê-la o mais moral possível. Além deste sacerdote talvez vão outros..." Não deve ter sido possível a Bernardino conseguir ao menos um sacerdote para acompanhar os 166 portugueses que, sob a sua orientação, deixaram o Brasil em 23 de Maio de 1849, para se fixarem nas paragens de Moçâmedes. Possível lhe não foi também impor ai, como primeiro trabalho, a construção dum templo. Antes de tudo, sem dúvida, se impunha a instalação dos colonos com garante da sua subsistência e da sua própria sobrevivência. Era isso que preocupava Bernardino. Isso o levou a fazer-se ao mar, no barco à vela "Douro", para ir a Luanda conferenciar com o Governador Geral e pedir-lhe auxilio para os seus homens. E tal era a sua preocupação de garantir providências por parte das autoridades, que empreendeu esta viagem ainda sem estarem ultimadas as descargas do Tentativa Feliz. 


Não conseguiu sacerdote para a viagem, é certo, mas, segundo supomos, tomou providências, quanto a nós ainda antes de embarcar para Lunda, no sentido de não faltar assistência religiosa aos colonos. Bernardino partiu para a capital de Angola no dia 16 de Agosto de 1849, quinze dias depois de ter chegado a Moçâmedes. Pois em 27 de Setembro seguinte era publicada uma Nota do Governo do Bispado ordenando que o pároco de Benguela fosse a Moçâmedes "administrar sacramentos de necessidade, e o matrimónio". Há quem seja de opinião que teria sido este o primeiro assunto a ser tratado Bernardino em Luanda. Seja como for, o certo é que Bernardino sempre se preocupou grandemente com os problemas espirituais dos seus homens. Queria-os a todos, como ele próprio era, cheios de fé. Quanto ao templo: é verdade que quando a colónia chegou a Moçâmedes, já estavam começadas as paredes da futura Igreja de Santo Adrião (1). Opinamos, porém, que o início da construção do templo se deve a uma como que exigência de Bernardino ao Governo, quando Bernardino estava ainda no Brasil, e se dava ao trabalho de ver e prever tudo quanto lhe ia ser necessário em Moçâmedes. Lê-se, efectivamente, nas Instruções Provinciais, de 30 de Março de 1849, que o governador-geral Acácio Adrião da Silveira Pinto, encarregara o major Ferreira Horta de construir um templo de dimensões suficientes para albergar "não só todos os habitantes da colónia, como ainda os indígenas vizinhos, que viessem à povoação assistir aos actos religiosos, ou que em dias santificados nela se encontrassem". De facto as obras começaram, mas não foram continuadas. Faltava o homem que tudo impulsionava. Foi Bernardino quem tomou providencias, e de tal modo que, em relatório de Fernando Leal de 31 de Dezembro de 1854, se pode lêr:

" As obras da igreja e da casa do pároco se acham em tal grau de adiantamento, a despeito dos poucos operários e de meios, que, com três meses mais de trabalho ficariam prontas. O que há a fazer limita-se somente a guarnecer toda a obra de cal fina, alguns ornatos de madeira na capela-mor, os dois altares laterais, e, finalmente, os balaustres para a teia e coro da igreja." Devem ter surgido dificuldades, pois a igreja demorou mais, muito mais de três meses, a ser concluida. Isso, porém, em nada diminuiu o papel de Bernardino na sua construção, e estamos em crer que nela terá gasto avultadas quantias do seu generoso bolso. Àcerca da igreja, diz Bernardino em crónica de 2 de Novembro de 1849: "Bem urgente é vê-la ultimada, pois não podia deixar de escandalizar a qualquer viajante católico, que uma sociedade tão numerosa como é hoje a de Moçâmedes, não tenha uma casa de oração, onde reuna para dar graças ao Todo Poderoso e pedir os auxilios de que cada qual carece."


A seguir transcrevemos mais um passo da crónica - aquela em que Bernardino descreve a primeira missa em Moçâmedes : 

" Entrado nesta Baía em a noite de trinta do mês passado, a Corveta Oito de Julho, com o chefe da Estação Naval, e conduzindo a seu bordo o reverendo padre Matias, de acordo com o dito chefe, dispoz o Governador deste Distrito que se celebrasse em terra o Augusto Sacrificio da Missa no primeiro do corente, em que a Igreja celebra a festividade de Todos-os-Santos. Erigiu-se com rapidez um altar portátil na Fortaleza, em uma casa que se edifica para ser o Quartel da Tropa, e que ainda lhe falta ser coberta: serviram para isso, os toldos da dita corveta, e forraram-se as paredes com bandeiras da mesma. Ficou bem decente e engraçada. Às dez horas do dia desembarcaram o Chefe da Estação e toda a Oficialidade, soldados e marinheiros, divisando-se no rosto de todos a maior satisfação, pois vinham trilhar o terreno que começaram a aplainar, porque é à Marinha Portuguesa que Moçâmedes deve o que até agora tinha. Salvou a Fortaleza e depois a Corveta: incorporou-se com a Marinha o Governador, o seu Ajudante, e o Comandante da Força, e, com a música da mesma Corveta na frente, se dirigiram à Fortaleza, para onde iam concorrendo os moradores, suas familias e colonos, todos decentemente vestidos, e com suas escravas também vestidas ao costume europeu. Como na povoação se encontrava o soba do Giraulo, também ele e mais alguns pretos foram assistir à missa, durante a qual tocou a música, havendo salva à elevação da Hóstia, e lançando-se foguetes. Esteve luzido e edificante o concurso."

Não há dúvidas, Bernardino levara para Moçâmedes este anseio: dilatar a Fé e o Império. A este anseio foi fiel até à morte. "

In "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro", Fundador de Moçâmedes. Figuras e feitos de além-mar. Agência Geral do Ultramar, by Padre José Vicente (Gil Duarte). pgs 73 a 79.